Categoria: Cultura

  • Um magnífico espetáculo de aviltante bajulação

    Um magnífico espetáculo de aviltante bajulação


    – Mãe, o pai chorou!

    – Não me diga – a mulher fecha o livro.

    – Foi quando parou de cavar – diz o rapaz em voz baixa, inclinando.

    – Não acredito – ela passa a mão pelo rosto do filho.

    – Pois a senhora pergunte a ele.

    – Vou ao banho – diz o homem, atravessando a sala a passos largos. – Não nasci pra coveiro.

    – Me conte o que aconteceu – pede a mulher num sussurro.

    – Foi muito rápido. O pai passou a mão nos olhos, mas eu vi as lágrimas, poucas.

    – Seu pai chorando? Por essa eu não esperava.

    A grande cadela maluca corria que nem uma degenerada. De um salto saía da sua casa e zunia rente ao muro com a vizinha e dobrava à esquerda e cravando suas garras poderosas no chão pelado atravessava os dez metros até a esquina e quebrava mais uma vez à esquerda chispando junto à cerca gradeada, ao fim da qual encerrava sua exibição de fúria e perplexidade. Ainda latindo, ofegante, voltava então para sua casinha, construída sob a amoreira.

    A grande cadela maluca tinha o pátio a seu dispor, mas preferia preguiçar dentro de sua própria casa. Estendia-se sobre a frescura do piso de cimento alisado, a cabeça próxima da abertura, apoiada nas patas dianteiras. Piscava para a claridade e bocejava. Mordia o ar quente na tentativa de caçar moscas insidiosas. Após a pancada seca dos dentes se chocando, sacudia vigorosamente a cabeça. Moscas do diabo!

    De vez em quando, dama um espetáculo.

    Bastava alguém costear o muro do fundo do pátio falando alto ou rindo. Para quê? Esquecida das moscas, ela arrancava para mais uma demonstração de força, velocidade e indignação. Quem era o desaforado que se atrevia a romper o silêncio daquele canto calmo da cidade? Vinham latidos estrangulados pelo espanto e pela ira. Vais e vens de tontear. Repulsa colérica daquela monta, no entanto, não podia durar muito. E ela se dirigia à vasilha de água, mantida sempre na sombra, ao lado da casinha.

    No fim da tarde descia da escola uma garotada vasta, de toda espécie. Havia as criaturas muito pequenas que se agachavam e colocavam as mãozinhas pelo meio das grades para receber o carinho gosmento da longa língua vermelha. Havia diabretes maiores que gostavam mesmo era de bater com força as mãos abertas na chapa de metal da cerca para endoidecer a cachorra, que de calma não tinha nada. A pobre não sabia o que fazer. Acarinhava as vacilantes mãozinhas assustadas ou latia para a barulhada dos mais taludos?

    – A Pirata, sua louca! – gritavam os galalaus depois de estapearem o metal sonoro.

    – A Piratinha – balbuciavam os pequeninos, entre exultantes e enojados, retirando a mãozinha lambida.

    – Vamos chamá-la Pirata – disse a mulher.

    – Isso nunca – retrucou o homem. – Não pode ser Pirata porque não tem jeito de cachorra macha. É frouxa, não aguenta cócegas.

    – Vai ser Pirata – insistiu a mulher. – O apelido é perfeito. Olha só este olhinho.

    O homem pegou a cadelinha e aproximou seu rosto anguloso do trêmulo focinho úmido. Impressionante a negra mancha que circulava o olho esquerdo.

    – É um tapa-olho perfeito! – voltou a mulher. – Pirata!

    Os olhos míopes do homem, aumentados pelas lentes grossas, assustaram a coisinha branca pintalgada aqui e ali por bolinha negras, que se pôs a ganir.

    – Podia ser Maria Bonita – disse o homem. – No cangaço havia mulheres machonas. Eram ainda mais cruéis que os homens.

    – Pirata – teimou a mulher. – Ela nasceu com uma cara perfeita pra receber esse nome. Pirata.

    – A Pirata – concordou o homem. – Está bem. Eu cedo. Mas para mim ela será sempre A Pirata. Pirata só se fosse macho, mas não é. A Pirata.

    A cadela de pernas altas e musculosas em que aquele nada de filhote se transformou era apaixonada pelo menino da casa. Não digo que desprezasse os adultos e as meninas, apenas não prestava muita atenção a eles.

    Quando o menino surgia no pátio, ainda vestindo a farda do colégio, ela apresentava seu melhor número: um magnífico espetáculo de aviltante bajulação.

    Para começar, enterrava a cara na cerâmica fria da varanda. E com um olho só, desconfiado e brincalhão, observava o recém-chegado. Esperava que ele abaixasse para então saltar e escapar-se do abraço dele. A Pirata, sua doida. A seguir, fingia-se de morta, olhos semicerrados, focinho sobre as patas. A sua segunda fuga da tentativa de carinho era ainda mais espetacular. A bem dizer escorregava por entre os braços do garoto, dava-lhe uma lambida gosmenta na bochecha e chispava para o centro do pátio. Ali, latia furiosamente diante do ataque de incontáveis inimigos invisíveis. E, para livrar-se deles, encenava as mais estrambóticas performances guerreiras. Exibia dentes e garras, rosnava, unhava chão e ar. Mas, de repente, imobilizava-se, exausta. Admitia, por fim, o exagero cenográfico. Envergonhada, baixava a cabeça e varria o chão com as orelhas. A imobilidade, porém, não se delongava. Encostava-se à pitangueira e roçava com gosto e vigor o lombo lustroso. Era o patético ponto final. Dali em diante, dedicar-se-ia a receber as carícias do menino, latindo mansamente aos pés dele.

    Um dia, anos depois, a cachorra ficou velha.

    Não corria mais pelo quadrilátero do pátio. Não latia para ninguém, nem mesmo para os moleques nojentos que esmurravam a chapa metálica. Penava para subir os degraus que lavavam à varanda. Não mais abocanhava moscas. Dormia onde caía. As pessoas batiam à porta da casa para avisar que a coitada, caída no meio do pátio, sob um sol tenebroso, estava tentando se levantar e não conseguia. Não se exibia mais para o menino porque ele, já meio rapaz, de penugem acima dos beiços, não descia mais ao pátio depois da escola.

    – Ontem eu vi um rato enorme comendo a ração da Pirata – disse a mulher. – Ela deixou que ele comesse o quanto quisesse.

    – Chegou a hora – retrucou o homem. – Vou comunicar a triste verdade ao proprietário da besta.

    O rapaz não quis conversa.

    – Que história é essa, pai? Matar a Pirata?

    – Matar, não. Sacrificar é palavra mais ajustada.

    – Nunca.

    – Nunca diga nunca. Você já deve ter ouvido esta frase ridícula e certeira: nunca diga nunca.

    – Nunca.

    – Então vá ao pátio – disse o pai. – Da varanda observe sua filha. Verá que ela não corre mais, se arrasta. Verá que não presta atenção às crianças da escola. Verá que fica onde cai porque não consegue mais se botar sobre as patas. Ela está viva, porém morta. Isso acontece também com os homens. Muitos morrem antes de perder a respiração. O pior: ela já não enxerga mais os ratos, nem sente a catinga deles.

    Certa tarde veio o veterinário. A palavra nunca fora afastada.

    Aconteceu debaixo da pitangueira.

    O doutor explicou tudo direitinho.

    – A primeira injeção é pra que ela não sinta dor.

    A grande cadela magérrima e ossuda estava deitada sobre as pernas do rapaz que, sentado no chão, recostado contra o tronco da pitangueira, tinha a cara tisnada de tristeza.

    – A segunda injeção arrefecerá os batimentos do coração dela.

    O rapaz aquiesceu com um vago gesto de cabeça.

    Foi o que ocorreu. Duas agulhadas. O batuque do coração se enfraqueceu aos poucos. Devagar.

    De repente, a esplêndida fêmea branca com tapa-olho preto de flibusteiro não estava mais entre os vivos. Repousava deitada no chão umbroso, a cabeça no colo daquele que fora seu pai e sua mãe, um rapaz que um dia fora um menino. A grande cara comprida, espichada pela magreza, exibia para quem quisesse ver a pinta negra perfeitamente redonda em torno do olho esquerdo.

    – Deixe comigo – disse o pai. – Ela vai ser plantada ali onde parava a fim de lamber as mãos das criancinhas.

    O enterro foi naquela noite.

    – Pra onde vão as almas dos animais? – quis saber o rapaz, que segurava a lanterna.

    O homem parou de cavar. Enterrou a pá no montículo de areia fofa. Passou as mãos pela base das costas. Buscou um cigarro no bolso da camisa. Riscou o isqueiro.

    – Sim, senhor, isso é o que eu chamo de bela pergunta. Pois eu vou lhe esclarecer o que se passa com o espírito dos cães falecidos. Vão pra um lugar onde há muita água e pouco inseto. Várias vertentes, nem mosca ou pulga. Lá, como ninguém lhes dá comida, voltam a caçar. Apanham bichos pequenos que se entocam nos morros. Preás. Correm o tempo todo. Cansados, deitam-se à sombra das árvores.

    O rapaz movimentou a lanterna. O homem passou a mão pelo rosto, indicador e polegar drenando os olhos úmidos, e depois acabou de agasalhar na terra o corpo ossudo.

    Lanterna apagada, o rapaz saiu na frente a passos ligeiros.

    Na sala, aproximou-se da mulher que estava sentada no sofá, iluminada pelo abajur de pé, lendo um livro.

    – Mãe, o pai chorou!

    Lourenço Cazarré é escritor

    Este conto venceu o Prêmio Ana Maria Martins, da União Brasileira de Escritores (2022)

  • Pausas 

    Pausas 

    Olhos sorridentes, mãos roliças e voz de colo, Vivina era professora primária há tanto tempo que já não se lembrava de não o ser. Adorava a sua profissão. Nunca desejara outra coisa.

    Contudo, de repente, começou a perguntar-se se, ao ter escolhido tão cedo o ensino, não teria deixado de considerar outras possibilidades. Se aquela decisão precoce não teria silenciado outros talentos.

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    E foi por esses dias que se deparou com um anúncio que lhe chamou a atenção: uma oficina de narração. Em horário pós-laboral, conduzida por uma conhecida formadora — era exatamente o que procurava. Inscreveu-se, por isso, sem hesitar.

    As participantes eram todas mulheres, e todas mais ou menos da sua idade. Nas semanas seguintes, aprenderam técnicas de respiração, memorização e expressão. Abraçaram a experiência com uma alegria quase infantil — pelo menos até ao momento em que perceberam que a sessão final consistiria num sarau. Assustador, sim, mas também desafiante.

    Cada uma recebeu um texto distinto. Vivina foi presenteada com um encantador conto de Clarice Lispector: Felicidade clandestina. Leu-o uma primeira vez e sentiu, desde logo, aquele texto como seu. Receou, todavia, não ser capaz de o memorizar. Ainda assim, agarrou a oportunidade de exercitar a memória, que há muito andava adormecida. Culpava a menopausa. As malfadadas alterações hormonais. O que mais poderia ser? Mas não estava disposta a resignar-se.

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    Durante os dias que antecederam o grande momento, as mulheres ensaiaram como se a própria vida dependesse de decorarem os textos que lhes haviam cabido em sorte. Partilharam entre si as estratégias de cada uma, e concluíram que a palavra de ordem era repetição. Vivina disse o texto vezes sem conta. Ensinou Clarice à gata, aos tachos, às plantas do jardim, aos azulejos do chuveiro, à roupa no estendal. Disse, repetiu, tropeçou, recomeçou, melhorou… Gravou-se, ouviu-se, corrigiu, gravou de novo.

    Chegou a noite. Uma a uma, as mulheres vestiram os textos como uma segunda pele e exibiram-nos num desfile de palavras. Confiantes, orgulhosas de si mesmas e das companheiras de aventura. Vivina reconhecia, nos olhos esbugalhados e nos lábios cerrados da formadora, a ansiedade que ela própria sentia nas festas de final de ano escolar.

    A ordem alfabética atirou-a para o final da sessão. Ouviu, com genuíno prazer, as suas colegas. Vibrou com o êxito de cada uma — palavras ondulantes, vozes expressivas, gestos teatrais.

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    Os aplausos e comentários calorosos, um bónus recebido com regozijo:

    — Que presença!
    — Que capacidade de envolver!
    — Que emoção na voz!

    Chegada a sua vez, fez-se um breve silêncio. Alguém comentou:

    — As suas pausas… as suas pausas são divinas!

    Vivina agradeceu com um sorriso e ficou em silêncio, a digerir. As pausas. Mal podia acreditar que, depois de tanto empenho e dedicação, lhe estavam a elogiar as pausas.

    Nesse momento, lembrou-se de um menino do primeiro ano, a quem tinha um dia perguntado se estava a gostar da escola. Perante a resposta positiva do aluno, Vivina, entusiasmada, perguntou-lhe do que mais gostava.

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    O pequeno pôs um ar pensativo e sério e, depois de uns segundos de reflexão, respondeu:

    — Dos intervalos.

    E agora, tantos anos depois, lá estava ela a proporcionar bons momentos a quem deles desfrutava… nas pausas.
    O seu grande talento era afinal o de se fazer ausente — no momento certo e com elegância, queria acreditar.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve

  • Com uma bala na mão

    Com uma bala na mão


    Paulo Vero é homem dos sete ofícios


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • Viajar 

    Viajar 

    Os verões da infância, passados na horta, eram uma memória quase tão doce quanto os figos lampos, maduros e reluzentes, que então colhia. Dias inebriantes, quentes e saturados de uma luz que obrigava a semicerrar os olhos para poder ver.

    Trepava às árvores e, protegida pela sombra intermitente das folhas, saboreava lentamente os frutos, enquanto, por entre as pestanas quase unidas, olhava o céu.

    Em silêncio, tão distantes que mal se viam, os aviões riscavam o azul. Às vezes, pegava na bicicleta e pedalava com quanta força tinha pelos campos fora. Perseguia-os. Não podiam ir assim tão longe. Pois se nem batiam as asas… Mas nunca apanhou um, nem descobriu para onde iam.

    Imaginava que os rastos eram trilhos suspensos entre mundos invisíveis. Aos poucos desfaziam-se no ar, tornando-se migalhas espalhadas numa floresta — promessas de destinos imaginados.

    Mas mais do que saber para onde iam, interessava-lhe quem lá ia dentro. Uma gente diferente vinda de longe: os estrangeiros. Quando andava pela vila, observava-os com a mesma curiosidade com que seguia os aviões. Altos, loiros, de pele e olhos claros. Falavam línguas que lhe soavam como a música que saía do quarto do irmão adolescente: bela e indecifrável.

    Os mais velhos chamavam-lhes camones, palavra estranha, que percebeu ser sinónimo de bifes, que, por seu lado, nada tinha a ver com o almoço de domingo, e que também era sinónimo de turistas.

    Alguns pareciam mendigos. Mochila às costas, pouco banho, cabelo desgrenhado. Ficavam horas à boleia junto à 125. Seguravam cartões onde se lia Portimão, Albufeira, Lagos… Soube mais tarde que esses vinham de comboio. Eram turistas de pé descalço. A mãe dizia que eram hippies e que não sabia como é que alguém metia no carro aqueles encardidos com ninhos de ratos na cabeça. A ela, fascinavam-na. A liberdade, os olhos cheios de estrada…

    Já os que chegavam de avião cheiravam a protetor solar. Viajavam em família e exibiam roupas leves e diferentes nas esplanadas dos cafés e restaurantes. Percebia neles a leveza e o ar de quem não tem uma preocupação na vida. Estranhou, por isso, quando mais tarde lhe disseram que aqueles turistas eram, afinal, a classe baixa inglesa. Ela, que sonhava ter uns óculos de sol espelhados como os deles, que  nunca fora com os pais para além de Lisboa e que, do estrangeiro, conhecia apenas Ayamonte, não podia compreender.

    As idas à outra margem do Guadiana eram dias de festa. Conferiam-se os passaportes, trocavam-se escudos por pesetas e inventavam-se artimanhas para atravessar a fronteira com o dinheiro. As crianças, raramente visadas pelos fiscais, escondiam-no nos bolsos, cosido nos forros dos casacos, nas meias, sob as palmilhas dos sapatos…

    Saindo do ferry, era o delírio. Saltava-se de loja em loja, compravam-se bonecas, cortinados e roupa de cama, enchidos, Peta Zetas, caramelos com pinhões, licor Tía Maria, whisky intragável, —  que o pai reservava para visitas indesejadas, na esperança de que não voltassem — e garrafas Bols, que ficavam lindas no bar da sala a fazer pendant com a alcatifa azul.

    No regresso, a ansiedade tomava conta de todos. Só então se apercebiam da verdadeira dimensão do tesouro acumulado. Fazia-se contas ao que poderia ser apreendido na alfândega, ainda que fosse raro não passar tudo. A ela, ninguém convencia de que os fiscais não tinham mais de cúmplices do que de polícias.

    Durante muitos anos, a visita à terra de nuestros hermanos foi uma aventura, mas nunca lhe bastou. Nem mesmo quando, num dia especial, se aventuraram até Huelva e lhe compraram um vestido de sevilhana. Ficou encantada, mas queria mais.
    Sonhava com comboios que atravessavam outras fronteiras e, sobretudo, com aviões que rasgavam nuvens. Ansiava por ver os países de onde vinham os turistas.

    Na adolescência, aprender inglês permitiu-lhe contactar com alguns: ingleses, franceses, alemães, holandeses, americanos. Falavam de realidades tão diferentes da sua. Em Portugal cantava-se, então, Quero ver Portugal na CEE, mas o país, apesar de desejar abraçar o futuro, tinha ainda bem visíveis as cicatrizes do “orgulhosamente sós”.

    Assim que a idade permitiu, começou a trabalhar nas férias escolares. Juntava tudo o que ganhava com um único intuito: viajar. Fê-lo, nos primeiros anos, com o encantamento de quem descobre novos mundos. Cada país, a sua língua, a sua gastronomia, a sua moeda. Guardava como recordação liras, francos, marcos, dracmas.

    Depois, veio a fase em que percebeu que, nas visitas a países europeus, encontrava mais semelhanças do que diferenças. As mesmas lojas, os mesmos restaurantes, as mesmas marcas. Os souvenirs “autênticos”, fabricados em série na China. Peças exatamente iguais, apenas com estampagens diferentes, porque sobre a mesma base de íman, cabia tanto a Torre Eiffel como a dos Clérigos ou a de Pisa. Nada que não pudesse ser encomendado online. Nada que fosse, de facto, sinónimo de viagem.

    Cruzava fronteiras, mas os cafés continuavam a ter os mesmos toldos, as mesmas mesas, os mesmos copos, pratos e talheres. Tudo disposto em torno dos mesmos vasinhos de metal, brancos e rendilhados. Nas zonas turísticas, a gastronomia local fora substituída por refeições feitas à medida do turista que sai de casa, mas prefere não ser surpreendido: hambúrgueres, batatas fritas,  kebabs, pizzas e bolonhesas congeladas.

    Começou, por essa altura, a procurar destinos mais longínquos. A idade era outra e atingira um estatuto que lhe permitia explorar continentes distantes e culturas exóticas. No entanto, alguns itens teimavam em ser universais. Ecos de uma gentrificação silenciosa, lá estavam os ímanes, as canetas, os sacos de pano e as canecas. Tão iguais que decidiu trazer, como recordação do Brasil, uma caneca com a imagem de Carlos Drummond de Andrade e a legenda Fernando Pessoa. Ambos escreviam. Ambos usavam óculos. É normal. Tão normal como a idade ter substituído nela a ira pela ironia.

    Mas o que realmente mudou nas suas viagens foi a maneira como, no presente, olha para os lugares e a forma como deles se despede. A consciência de que não voltará a pisar aquele chão, não voltará a mergulhar naquelas águas, não tornará a ver cada uma das pessoas com quem se cruza e de quem se despede com um “até à próxima”.

    A viagem faz-se agora com a mesma alegria e curiosidade de sempre, mas também com a urgência silenciosa de agarrar o tempo e a oportunidade. O desejo, maior do que nunca, de ver e experimentar tudo, como quem devora um livro, sedento por cada linha e assombrado pela iminência da página final.  Detém-se em cada centímetro de chão, em cada onda do mar, em cada rosto, com a certeza de ser a última vez que o faz. Instala-se nela a sombra de uma saudade anterior à partida.

    Sabe que continuará a viajar, que seguirá sempre o rasto dos aviões — mesmo que apenas com os olhos semicerrados e um figo lampo a desfazer-se na boca e nas mãos, como outrora  — e que, em cada turista, continuará a  procurar os sinais de uma alteridade por desvendar.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve

    N.D. As ilustrações foram produzidas com recurso a inteligência artificial.

  • Uma sacerdotisa dos fiordes (en)cantando em altar mourisco

    Uma sacerdotisa dos fiordes (en)cantando em altar mourisco

    O Campo Pequeno foi inaugurado, numa arquitectura a imitar o estilo mourisco, em 1893 para ser uma praça de corrida de touros, mas, ao invés de uma arena, transformou-se — mesmo que por breves (demasiado breves) momentos — em altar escandinavo na passada sexta-feira.

    E quem ali entrou, pés desnudados em passos de elfo e olhos de estrela, foi Aurora, uma espécie de sacerdotisa dos fiordes e das florestas encantadas, transportando, com ingenuidade e por vezes travessura, as dores do mundo. Não veio apenas cantar. Veio dizer, em tom de profecia gentil, que ainda há música capaz de sarar a linguagem — essa que já ninguém ouve — e de devolver ao palco o seu valor ancestral: o de câmara de iniciação.

    Desde o primeiro instante, com gestos que pareciam mais exorcismo do que coreografia, a norueguesa nascida em 1996 emergia, para os mais veteranos, como uma figura trans-histórica. Para quem viveu os anos oitenta e noventa, o espanto era redobrado: ali estavam todas as deusas fundidas numa só — a fragilidade orgânica de Kate Bush, o lirismo dilacerado de Sinéad O’Connor, o sussurro tribal de Enya, a excentricidade encantada de Björk, a espiritualidade de Loreena McKennitt, a braveza poética de Annie Lennox. E também David Bowie, pela sua plasticidade camaleónica, aqui já bem evidente quando canta Life on Mars (que não incluiu no Campo Pequeno). Mas tudo isso transfigurado, não por imitação, mas por reinvenção. Aurora é a sua própria linhagem.

    Inserido na promoção do seu novo álbum, What Happened to the Heart?, menos conceptual do que os anteriores, Aurora trouxe consigo uma mensagem para Lisboa, ainda que não verbalizada: a emoção não desapareceu, e a música não precisa de pirotecnia nem de outros artefactos da indústria pop, mas apenas de luz e carne, sombra e voz. E isso houve.

    E que voz! O timbre de Aurora, ao vivo, surpreende — sobretudo porque consegue algo que raramente se mantém na transição entre estúdio e palco: uma verdade vocal que não vacila. Ouvindo-a em disco, dir-se-ia tratar-se de mais uma voz bem produzida por software, encaixada num dream pop estilizado e polido. Mas bastam poucos segundos em palco para que essa impressão ceda lugar a algo mais raro: autenticidade vocal, domínio técnico e, sobretudo, uma capacidade de encarnar a canção, como se cada verso fosse, simultaneamente, lamento, encantamento e exorcismo.

    Aliás, bastaria ouvi-la nas variadíssimas versões ao vivo, disponíveis no YouTube (que vai desde isto até isto, passando por isto), que tem composto de Murder Song — essa elegia íntima à morte por amor, feita com uma beleza crua, e que deveria figurar num upgrade de Murder Ballads, curiosamente editado no ano do seu nascimento, mas com o Nick Cave remetido ao estatuto de backing vocals.

    O timbre de Aurora, embora de aparente tessitura leve e aguda, está longe de ser frágil. Pelo contrário: há nele uma firmeza cristalina, quase mineral, sem esforço. O vibrato, discreto mas natural, não é artifício — mostra-se como pulsação interna, sobretudo nas canções mais intimistas — como em The River, Exists for Love ou Invisible Wounds e, claro, em Murder Song —, porque nas produções mais ‘electrónicas’, por vezes, perdem-se esses detalhes.

    Não é o caso, porém, de canções como The Seed, que evoca uma festa pagã, onde o crescendo emocional não depende da batida nem da produção, mas do modo como a sua voz vai ganhando densidade. Ou em Runaway, talvez a sua música mais conhecida, mas não necessariamente a melhor, que se torna quase um hino à infância perdida, cantado com uma pureza que parece desafiar a lógica. No meio disto, apesar de extremamente expressiva e de preferir os gestos à dança — apesar de algumas correrias —, Aurora nunca parece estar a representar. Está, simplesmente, a ser.

    Aliás, chegou a ser desconcertante que se tenha queixado da vontade de urinar logo no início do espectáculo, ou tenha falado do seu rabo — não sendo uma artista que se queira destacar pela parte física, até por a sua beleza ser mais onírica —, ou que se tenha interrompido num repente em Invisible Wounds porque se lembrou de agradecer ao seu guarda-costas.

    Mas não há ali loucura, nem ingenuidade. Não há ali diva, nem estrela pop. Não há performer. Há uma rapariga que canta como se estivesse sozinha ou em redor de uma fogueira na tundra.

    Há em Aurora algo de paradoxal: ao mesmo tempo que nos lembra todas as deusas do passado — de Kate Bush a Sinéad O’Connor, de Enya a Annie Lennox —, ela subverte todas essas influências, criando algo que não se pode arquivar em nenhuma prateleira. Não é pop, nem folk, nem new age. Não se gosta de tudo, mas tudo é revelação — música para depois do fim do mundo.

    O público presente no Campo Peqeuno, maioritariamente jovem e feminino, com o espiritualismo e o gótico bem representados, mostrou-se grande. Cantou, gritou e até coreografou luzes com as cores da bandeira nacional. E Aurora agradeceu sempre com gentileza. No meio da sua actuação, agradeceu em português — “Muito, muito obrigada!” — não foi só um gesto de cortesia: foi a confirmação de que ela também sentiu a simbiose, embora em algumas músicas fosse preferível o silêncio e a contemplação.

    Mas ouvir em silêncio, isso já seria exigir em demasia: concertos como o que Aurora ofereceu em Novembro de 2017 na Catedral de Nidaros, quando tinha apenas 21 anos, não se fazem todos os dias. Aquilo são heresias dos deuses…

    Nota final: 5 em 5.

  • A cerimónia de adeus do Yokozuna Amoyama

    A cerimónia de adeus do Yokozuna Amoyama


    Meu velho avô Kurama Takahashi, o mais gentil dos homens, pediu permissão a meus pais para que eu faltasse às aulas a fim de acompanhá-lo à Cerimônia de Adeus do grande Amoyama.

    Meu velho e cego avô, Kurama Takahashi, queria que alguém de sua máxima confiança, alguém de sensibilidade semelhante à dele, lhe relatasse em detalhes a retirada daquele que considerava o maior lutador de sumô de todos os tempos.

    Meus pais cederam, claro, embora fossem rigorosos no controle dos meus estudos. Jamais eu havia faltado um só dia à escola. Mesmo quando estive com febre alta naquele inverno das fortes nevascas. Cederam porque ninguém resistia a um apelo do mais gentil dos homens, que era meu falecido avô Kurama Takahashi.

    Então fomos, meu idoso avô e eu, ele agarrado ao meu braço, pelas ruas de Tóquio, pela sempre cambiante paisagem colorida que se desdobrava diante de nossos olhos, os meus olhos cheios de luz e os de meu avô, plenos de sombras.

    Foi na manhã de um dos últimos dias do torneio de setembro.

    Embalado por uma entusiasmada orquestra de aplausos, o sempre majestoso Amoyama ingressou no estádio imenso que, naquele dia, tinha só uns poucos lugares vagos.

    Ladeado por uma dúzia de homens gordos, que vestiam quimonos azuis, o grande yokozuna subiu ao dojô a fim de cumprir o ritual da sua aposentadoria.

    Ali estava ele para, pela última vez, repetir com supremo rigor e elegância os gestos que haviam impressionados os japoneses ao longo de quase três décadas.

    Que gestos eram esses?

    Primeiramente, de olhos fechados, Amoyama abriu seus imensos e poderosos braços como se fosse um albatroz preparando-se para alçar voo na praia cinzenta de um mar sacudido por ventos furiosos.

    Depois, por três vezes, bateu com a mão direita fechada no peito, como alguém que, na porta do céu, implora aos deuses que lhe franqueiem o ingresso, o ingresso merecido por todos os que foram bons e justos ao longo de sua vida.

    A seguir, ainda mais vagaroso, demorou-se na certeira disposição dos pés.

    – Ele está se agachando – contei ao meu avô. – Acho que procura o ponto certo para obter depois o mais devastador dos impulsos.

    – É mais que isso – disse meu querido avô Kurama Takahashi. – Ele sabe o exato local em que sopra a energia represada no centro incandescente da terra.

    Sobreveio o silêncio. Um silêncio tão denso que só poderia ser cortado pelo afiado sabre ritual de um samurai.

    Imóvel, agachado, com as mãos fechadas apoiadas no chão, o yokozuna estava pronto para sua derradeira luta.

    Um combate de sumô, me disse certa vez meu amado avô Kurama Takahashi, é aquele mínimo espaço de tempo em que os homens conseguem se transformar nos animais mais ferozes: búfalos, leões, tigres…

    Ah, esqueci-me de narrar aqui, como também me esqueci de relatar a meu avô Kurama Takahashi naquele dia, que, enquanto Amoyama encenava sua preparação guerreira, do outro lado do dojô, de frente para ele, um menino repetia os mesmos gestos simbólicos.

    Que menino era esse?

    Era um pequeno ser magricelo – com a fina cintura envolvida por um mawashi branco – que um homem gordo de quimono azul colocara ali e, com gestos severos, ordenara a ele que se mostrasse um adversário à altura de Amoyama.

    Bem, concretamente: era um garotinho de quatro anos, noventa e cinco centímetros e quinze quilos, chamado Akira Nakamura.

    Dele veio a grande surpresa.

    Sem esperar que o árbitro ordenasse o início do combate, o destemido Akira Nakamura lançou-se contra o colossal homem seminu que tinha diante de si e aplicou-lhe um vigoroso e certeiro uwatê-naguê.

    O que se viu então foi uma maravilha, uma cena jamais registrada em qualquer outra Cerimônia de Adeus, a cena que tive a suprema felicidade de narrar, em todos os seus muitos pormenores, a meu bondoso avô Kurama Takahashi.

    O que se viu então foi o movimento elástico de um corpo de 150 quilos de músculos sendo projetado no ar, girando, o queixo enterrado no peito, os braços cruzados, os cotovelos projetados, as pernas flexionadas, girando, girando, até que se espatifou no solo com o estrépito de uma grande árvore que cai, abatida por um raio, na clareira de uma exuberante floresta tropical.

    Foi uma cena de segundos como são todas as cenas inesquecíveis do imorredouro sumô.

    Novamente a plateia explodiu. Muitos jogaram para o alto suas pequenas almofadas como se tivessem assistido, de fato, à derrota de um consagrado yokozuna por um maegashira novato.

    Amoyama levantou-se lento, mais lento que nunca, zonzo como jamais, trêmulo, atônito, assustado e incrédulo. Digna e dolorosamente, como se estivesse mesmo muito machucado, como se tentasse esconder dores insuportáveis, encaminhou-se com passadas incertas para o lugar de onde deveria cumprimentar o vencedor. E dali, com a reverência respeitosa que sempre destinara aos raros homens que conseguiram vencê-lo, saudou Akira Nakamura.

    Ainda no centro do dojô, porque esquecera que deveria voltar à sua posição, o pequeno rikishi não conseguiu nem mesmo abaixar a cabeça. Permaneceu imóvel, boquiaberto. Era uma delicada estatueta de assombro. Jamais imaginara as consequências quase fatais do tremendo golpe que aplicara naquele gigante que, agora, com as costas sujas de areia fina, se vergava diante dele, humilde.

    Nesse momento, o mesmo homem gordo de quimono azul, segurando na mão esquerda um pequeno banco, subiu ao dojô e pegou o pequenino Akira com a mão direita, como um pai que recolhe do gramado um brinquedo esquecido pelo filho, e, numa ação quase simultânea, colocou o banquinho no exato centro da arena.

    Nesse banquinho, demorado e majestoso, sentou-se Amoyama.

    Pouco depois subiu as escadas do dojô o avô de Amoyama, um velhíssimo pastor mongol, franzino e encarquilhado, com uma barbicha de uns poucos fios e uma espetada cabeleira branca, ainda íntegra.

    Olhos tomados por uma úmida luminosidade, ele agarrou com suas mãos nodosas a grande tesoura que lhe confiaram, aproximou-se do seu neto, seu único e adorado neto, e com golpes rápidos e certeiros lhe cortou os longos cabelos pretos.

    Passemos agora ao rosto de Amoyama.

    O que expressava aquela carantonha imberbe de maçãs salientes, olhos negríssimos e queixada de baleia?

    Nada além de tristeza. Exibia apenas a melancolia que o acompanhara nos seus muitos anos vitoriosos. A tristeza permanente que lhe dera o cognome famoso:

    Amoyama, o Triste.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Publicado no número 69 da revisita Brasil Nikkey Bangaku

  • O país das esmolinhas 

    O país das esmolinhas 

    Era uma vez um pequeno país. Era uma vez o povo desse país. E era uma vez a fina flor do entulho que o governava.

    Queixava-se o povo de viver mal, de ganhar pouco, de ter um mau serviço de saúde, uma educação pública débil… lamentavam-se em casa, nos cafés, no trabalho… Lamúrias, lamúrias e mais lamúrias.

    Uma gente exasperante, que parecia não entender que podia ser muito pior. Uma multidão de pobrezinhos, incapazes de apreciar a sorte que tinham: o céu eternamente azul, o clima deliciosamente temperado, sucessivos governos constituídos por uma elite de empreendedores abastados e generosos. Com o dinheiro alheio, é verdade, mas magnânimos.

    Se dúvidas houvesse, bastaria ouvir atentamente os discursos destes beneméritos: “demos”, “aumentámos”, “oferecemos”, “proporcionámos”, “construímos”, “garantimos”, “reforçámos”, “promovemos” … E tudo, tudinho a muito custo. Com incalculável sacrifício pessoal.  Mas ao povo pouco interessava quantas vezes tinham tido de trocar lagosta por rosbife, só para que uma série de pelintras, de utilidade discutível, pudesse continuar a receber mensalmente somas generosas, prontamente convertidas em latas de salsichas e demais indulgências pouco recomendáveis. Andavam de mãos dadas a ingratidão e a inconsciência que entupia indiferentemente as artérias e as salas urgências.

    Abnegadas, altruístas, as elites deste povo chegavam mesmo ao ponto de abandonar repetidas vezes o conforto dos seus palacetes para se irem sentar nas incómodas cadeiras de ministérios repletos de funcionários públicos acomodados e mal-agradecidos.  Gabinetes e corredores cheios de uma gente sem discernimento, que exigia tudo, que queria esbanjar o orçamento da nação como se fosse Natal todos os dias.  

    Neste país, os pobrezinhos eram uma enorme turba, a que não se via o fim. Dava-se, dava-se, dava-se. E eles ali, com a mão estendida. Sempre insatisfeitos. Mal-agradecidos. Nem um simples “obrigado”. Um beija-mão à passagem de Suas Excelências. Uma proposta de canonização. Cheios de direitos. Cheios de reivindicações. A tresandar a ordenado mínimo. Um pesadelo!

    A bem dizer, o País das Esmolinhas não era propriamente um país. Era uma sopa dos pobres: morna, requentada, azeda. Servida com caridade, mas de avental, máscara e luvas calçadas para evitar o contágio.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve

    N.D. As ilustrações foram produzidas com recurso a inteligência artificial.

  • Mario Vargas Llosa: o último liberal literário

    Mario Vargas Llosa: o último liberal literário


    Partiu Jorge Mario Pedro Vargas Llosa.

    Fê-lo com a mesma elegância estoica com que enfrentava os seus detractores e as suas próprias contradições. Tinha 89 anos e uma obra que atravessa o século, como se apenas a pena lhe bastasse para esculpir a História, os vícios do poder e as misérias da alma humana. Com ele, o romance ibero-americano perdeu o seu último Príncipe das Letras – um que, ao contrário de outros, não cedeu à tentação fácil do populismo, nem literário, nem político.

    Nascido no Peru, em 1936, ainda sob o peso colonial da alma espanhola, foi cosmopolita desde sempre – e, por isso, universal. Viveu em Lima, Madrid, Londres, Paris e até em barricadas ideológicas que não raro se desfaziam à força da lucidez. Começou esquerdista, apaixonado por Castro e pelas utopias da revolução. Mas cedo se desiludiu. Denunciou a tirania cubana quando tantos preferiam ainda cantar loas à igualdade das fardas. Desistiu das promessas da esquerda autoritária e caminhou, sem pedir desculpa, para um liberalismo firme, racional, incómodo. A sua coerência, como toda a coerência verdadeira, pagou-se cara – e ele nunca pediu troco.

    Vargas Llosa (1936-2025)

    Na Literatura, foi monumental. A Cidade e os Cães, a sua estreia em 1963, explodiu como granada na paisagem literária sul-americana. Rompia com o realismo mágico, que ele admirava mas recusava imitar. Os seus romances não tinham mariposas cor-de-rosa nem coronéis centenários: tinham soldados brutos, burocratas corruptos, mulheres inteligentes e trágicas, paixões ferozes e uma imensa desilusão com a humanidade. A seguir vieram obras-primas: Conversa na Catedral, A Guerra do Fim do Mundo, Tia Júlia e o Escrevedor, O Peixe na Água, Travessuras da Menina Má – para mim, o seu mais deslumbrante romance. Uma galeria de vidas e fracassos, revoluções e exílios, narrada com a precisão de um historiador e a volúpia de um esteta.

    Ganhou o Nobel em 2010, tarde – como quase sempre acontece aos que não alinham pelas capelas literárias do politicamente correcto. Mas o prémio foi apenas confirmação do que já era evidente: Vargas Llosa estava entre os maiores, mesmo entre os que o invejavam em silêncio. Nenhum outro autor do “boom” latino-americano se expôs tanto – política e esteticamente. Nenhum outro escreveu com tanta clareza sobre o embuste das ideologias totalitárias, sobre a decadência moral do autoritarismo populista e sobre a fragilidade da liberdade quando não se cultiva a responsabilidade.

    Também tentou a política activa: foi candidato à presidência do Peru em 1990 e perdeu para Fujimori. Talvez tenha sido melhor assim. Vargas Llosa não era um político disfarçado de escritor, mas um escritor que compreendia o poder melhor do que muitos políticos. A derrota presidencial salvou-o da corrupção do Estado e devolveu-o à pureza da Literatura e do pensamento livre. Nunca deixou de intervir. Escreveu ensaios brilhantes, colunas provocadoras, discursos memoráveis. Fez inimigos, mas manteve o respeito dos que preferem a frontalidade à subserviência.

    Único escritor peruano a ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura.

    Era homem de paixões: teve amores, escândalos, divórcios, reconciliações. Amou a liberdade como se ama uma mulher difícil: com fervor, ciúmes e uma fidelidade tumultuosa. Nunca pediu licença para pensar e, por isso, nunca foi cúmplice da indigência moral que hoje tanto se tolera em nome da virtude pública.

    Vargas Llosa deixa-nos órfãos de um certo humanismo viril, de uma tradição literária que não tinha medo de ser grandiosa nem vergonha de ser elitista quando a mediocridade se fazia norma. Era culto, sem pedir desculpas. Escrevia bem, com orgulho. E pensava com clareza, sem receio de desagradar.

    No seu túmulo, se houver justiça, não se escreverá apenas “Prémio Nobel”, mas sim: “Aqui jaz um escritor livre.”

  • Apneia

    Apneia


    Paulo Vero é homem dos sete ofícios


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • A mulher que carregava dois felinos no nome

    A mulher que carregava dois felinos no nome


    Pede-me o discreto senhor doutor Tchevov, graduado em Medicina pela Universidade de Moscou, meu mantenedor estilístico e intelectual, que, em face de estarmos neste momento nos dirigindo a Portucale, em companhia do senador Rosario La Ciura, eu lhe conte (a ele, Anton) alguma história que tenha porventura vivido naquela antiga nação marítima. Vamos lá!

    Certa vez, há mais de vinte anos, depois de conhecer a portuária cidade do Porto, dirigi-me a passeio ao concelho de Cinfães, pois foi de lá, mais exatamente da aldeia de Santiago de Piães, que partiu há muito, em direção ao Brasil, um de meus ascendentes.

    Estava eu na Conservatória daquele concelho a tentar obter a certidão de nascimento de minha avó pelo lado materno quando parou ao meu lado, diante do balcão, um homem enxuto de carnes e de rosto martelado em granito.

    – Ora, pois, que os diabos me carreguem se não se trata do senhor Torga, escrevente e esculápio! – exclamei.

    – Pois não – retrucou, sereno e seco, o referido senhor, facultativo e, também, plumitivo, como o ínclito senhor doutor Tchecov.

    – Sou cá leitor dos vossos contos – disse eu. – Admiro-os.

    – Aos contos? Ou aos contos e a mim?

    – Admiro ambos, pois sim, os contos e o senhor doutor, que é deles o escrevedor – respondi sorrindo e acrescentei de pronto: – É dura a vida na montanha, pois não?

    – Pois sim, é.

    – As coisas acabam sempre mal por lá. Brigas, mortes violentas, partos solitários, sangrentas capações de varões lúbricos, homens partindo para o Brasil, mulheres abandonadas, muita reza, padres trêfegos, cabras escoiceando nas lojas, chicanices, aldrabices, traições e bandalheiras.

    – Pois assim é.

    – Muito aprecio as palavras desconhecidas que as usa o senhor Torga, embora eu não lhes atinja o sentido. Padeço. Quando o leio, doutor, peno com o pai dos burros ao colo, folheando-o incessantemente, embevecido com o palavrório exótico…

    – Exótico, diz o senhor?

    – Guardo na mente alguns dos seus lindos vocábulos que carregarei para sempre: talefe, gravelhos, quelhas, bragal, jalapa, relheiras, escarolado, pirisca, engrunhada, taró, desembelinhava, sedeiro, bagalhoça, sarrafusca, lampo, enfrenisava, alanzoar, murra, rinhado, panasco, lapedos, cainça, garanho, lódão, churra, cieiro, capilota, moca, preguiceiro, carolos, ilhentas, monco, trasfegas, farroncas, pedrado, courelas, sulipas, gravelho, desolhada, andilha, reloucaste, pútegas, parança, corcódea, esbarrondas, larinhoto, pantanas, coiras, estrafegada, sanguinidades, boldrego, borga, poviléu, farsola, paleio, daimoso, estopinhas, regueifas, conques, escândula, catraio, cibo, palhiço, bacelo, santanária e cardenha. Ufa! Só lembro destas.

    – Mas quanto às histórias, o senhor alcança-lhes o miolo, pois não?

    – Pois sim, doutor.

    – E com qual delas mais o senhor se impressionou?

    – Falando seriamente, doutor Miguel, apaixonei-me pela história da Maria Lionça, mulher de um belíssimo nome, já que unifica e condensa as forças de uma leoa e de uma onça. Um nome dessa grande beleza só poderia resultar em mulher de redobrada fortaleza a ponto de suportar, sem lamúrias, a longa ausência do marido, o Ruivo, que fora garimpar ao Brasil e que só retorna quando muito doente e desenganado, por males ruins, para defuntear-se logo. Mas aí, quando o ledor acredita que se exterminaram os infortúnios de Maria Lionça, eis que, um dia, já idosa, recebe ela um telegrama de Leixões instando que vá buscar seu filho, que retorna estrompado, não por ter ido gastar-se ao Brasil, mas porque se destroçou, de marujo, varejando o salso argento. Deram-lhe o filho no hospital, a exalar o último suspiro. Meteu-se então a Maria Lionça no comboio com seu rebento ao colo, já a arrefecer, embrulhado numa manta, a pedir licença a todos, recitando que levava ali uma pessoa muito doente. Arredavam-se logo todos. E assim conseguiu sentá-lo e sentar-se a seu lado. E daí a pouco, no macho do Preguiças, o Pedro subia a serra para dormir o derradeiro sono em Galafura, que era ao mesmo tempo a terra onde nascera e o regaço de sua mãe. É isso, senhor doutor Miguel Torga?

    Silêncio e compostura!

    Não me venham dizer que o português lusitano, quando impresso, parece uma inepta tradução de um livro escrito originalmente em basco ou húngaro. E nem defendam que o português lusitano, quando falado, é claramente uma língua germânica, cuja pronúncia se assemelha à do francês canadense, língua, esta sim, falada única e exclusivamente pelo nariz. Lusitanu, locale.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Texto originalmente integrado no livro Kzar Alexander, o louco de Pelotas