Categoria: Cultura

  • De Praga a Paris

    De Praga a Paris


    Em meados do século XIX, quando os comboios começavam a circular a 40 km à hora e não havia sofás com almofadas de molas, nem móveis com verniz; quando os jovens desiludidos ainda não usavam óculos, e as mulheres filosofavam pouco; nesses tempos ingénuos, a meio caminho entre o paleolítico e a nossa era espacial, em que se entrava para a terceira classe  dos caminhos-de-ferro com um farnel cheio de provisões; quando os jornais começavam a saltar das rotativas, e as patentes dos laboratórios para as fábricas; quando as chaminés cuspiam longos rolos de fumo negro e os salões de baile eram iluminados por candelabros de cera, com os móveis dispostos simetricamente; quando ainda se travavam duelos à pistola ou à espada, por uma questão de honra, e se corria para o lado oposto da sala só para apanhar um lenço propositadamente caído; quando as senhoras de sociedade usavam vestidos de saias redonda, cintura de vespa e mangas soltas, e as operárias tinham saias estreitas, cintura larga e mangas arregaçadas; quando as damas com camélias se escondiam da luz do dia e Maxwell punha em equação as leis do eletromagnetismo do amigo e sábio Faraday; nesses tempos longínquos em que os maçons ainda eram quase todos sérios, os judeus só eram perseguidos na Rússia e os católicos estavam suspensos de um papa infalível e se dizia que na Europa havia paz, uma das muitas famílias de apelido Kohn partiu da capital da Boémia, a terra por onde então viviam, para a cidade luz, a fim de prosseguir o grande sonho da integração social.

    Nessa época, trabalhava Ferdinand Kürnberger como colunista em Viena e costumava visitar todos os dias uma livraria muito conhecida. Um dia, quando estava no estabelecimento, entrou um jovem que lhe chamou a atenção. Quando ele saiu, Kürnberger perguntou ao livreiro o nome do jovem. “É um violinista conhecido” … “chama-se Connady.” “Connady, mesmo?” repetiu Kürnberger: “- “Não”, respondeu o outro, “na verdade chama-se Kohn.” Poucos dias depois, Kürnberger reparou noutra personalidade interessante. Quando perguntou o nome, o livreiro respondeu-lhe: “Este é o escritor parisiense Paul d’Abrest, mas não é esse o seu nome verdadeiro; é Kohn.” Kürnberger olhou para o amigo, pegou no chapéu e saiu em silêncio, meio a fungar.

    Mas as coisas não ficaram por aqui. Apareceu na loja o autor da comédia “As tristezas do jovem Heine”, que na altura causava sensação em Viena, e, tendo ele saído, disse Kürnberger: “O homem chama-se mesmo Mels? Parece-me demasiado elegante para nome de família.” – “Deus me livre”, disse o livreiro, “isso é pseudónimo“; o verdadeiro nome é Kohn.” Desta vez, sentindo que lhe saltava a tampa e convencido de que o amigo estava a troçar, Kürnberger agarrou o chapéu, não só para sair, mas também para nunca mais lá voltar, enquanto resmungava „Será que este acha que toda a gente no mundo se chama Kohn?“ E, no entanto, os três autores existiram, e na realidade tinham esse apelido.

    Os judeus da Europa – com exceção de uma escassa centena de famílias aparentadas – tinham vivido até ao século XIX em um mundo criado por eles próprios, sem contato com a história; e os cristãos tinham ajudado a isolá-los dos grandes movimentos históricos, como a Reforma, Renascimento e Iluminismo. Alguns que se emanciparam, tiveram existências solitárias e muitas vezes trágicas, nas margens da vida, depois cuspidos pelas próprias comunidades, como é o caso notório de Maimónides e Espinoza. No início do século XIX, porém, abriram-se os guetos. As famílias judaicas vieram em massa das aldeias para as vilas, das vilas para as cidades e destas para as capitais.

    A explosão libertou enormes energias: forças intelectuais e espirituais, que durante quase dois milhares de anos tinham sido treinadas, afiadas, domesticadas e amarradas ao estudo das Escrituras, podiam agora aplicar-se a construir as nações que começavam a despertar. A Inglaterra, pátria-mãe do romantismo, foi a primeira a ser estimulada por grandes movimentos liberais. Depois foi a vez da Alemanha, França, Itália, Polónia, Hungria, Portugal, Espanha, Grécia, e Rússia. Por entre movimentos religiosos, políticos e intelectuais, entre revoluções e contra-revoluções, o êxodo dos guetos colocou grandes valores à disposição dos povos europeus.

    Na França, além do caso especial dos Rothschild, os judeus desempenharam um papel significativo na literatura, economia e política desde a segunda república. Um israelita tornou-se o primeiro-ministro da Grã-Bretanha: Disraeli, Lord Beaconsfield, trouxe à Rainha Vitória a coroa da Índia e reforçou o imperialismo britânico. Na monarquia austro-húngara, de Viena, Budapeste e Praga, os israelitas ajudaram a transformar as antigas estruturas feudais em uma sociedade industrial moderna. Uma nova nobreza judaica surgiu e casou-se com famílias da aristocracia cristã, tanto no império austríaco como no Reich alemão, onde o implacável chanceler Bismarck via com bons olhos a união de “garanhões” cristãos com “éguas” judias como meio de procriação de uma classe dinâmica de líderes. É entre esses judeus europeus de educação germânica que passam para França e que ajudaram a criar pontes entre todas as nações da Europa que se encontram os Kohn que agora despertam a nossa atenção.

    Jacob Kohn e Sofia Altschul pertenciam à burguesia que habitava nas grandes cidades da Europa ocidental, uns em Praga então parte do Império austríaco, outros em Colónia, do Reino da Prússia, outros em Roterdão e Bruxelas, nos Países Baixos: geriam vários negócios, mas contando entre os antepassados alguns poucos médicos e numerosos rabinos. O trisavó Jacob – chamemos-lhe assim – nascera em 1823 em Chemnitz, pequena cidade perto de Praga, onde casou e onde nasceram a maior parte dos filhos. Ao arribar a França em 1858, obteve no ano seguinte a autorização oficial de residência beneficiando dos direitos civis e adotou o nome de Jacques. Começou a trabalhar como caixa num pequeno banco parisiense e depois passou para a Banque Génèrale de Suisse onde ficou encarregado de negócios, até 1869; nesse ano tornou-se contabilista em chefe da Sociedade Anónima de Refinarias Parisienses.

    Dos seus filhos, a mais velha, então com 18 anos, e também de nome Sofia ajudava a mãe a tomar conta dos irmãos mais novos, nascidos entre 1851 e 1855: Friedrich, Louis, Herminie, Léopold, Edmond, Sigismond e Mathilde. Um pouco mais tarde, em 1860, veio Eugénie, talvez assim chamada em homenagem à imperatriz consorte de França, Eugénie de Montijo. Foram viver para o 9º arrondissement, um bairro de urbanização recente no oeste da cidade, onde se estabeleciam com frequência famílias judaicas com posses. Para trás, ficavam as memórias de Praga que o tio Fred narra assim:

    Todos os dias, fizesse chuva ou sol, o Imperador descia das alturas de Hradschin ao tocar o meio-dia nas inúmeras torres sineiras da capital da Boémia. Ao chegar ao Ring, a praça central onde se encontra a Câmara Municipal, uma joia arquitetónica digna de comparação às mais belas Câmaras da Flandres, parava a carruagem conduzida por um cocheiro em grande libré branca, o tricórnio “em batalha” como o dos polícias; o trintanário saltava do assento para abrir a porta e o soberano que abdicara, descia acompanhado por um cavalheiro. Ambos trajavam de forma muito simples: davam duas ou três voltas à praça, e todos saudavam respeitosamente o Imperador, que respondia com muitos chapeladas e, por vezes, apertos de mão. De vez em quando parava à frente de uma loja para contemplar um objeto que desejava. Dava ordens para comprar, mas as suas instruções nem sempre eram seguidas, pois se sabia que uma hora depois já nem se lembrava da compra. Por vezes, interrompia a sua caminhada para ver as crianças que saiam das escolas.

    Estas – e eu estava lá entre elas – conheciam o bom Imperador, e se evoco esta memória, é porque a minha imaginação infantil ficou muitíssimo impressionada com o contraste que se me ofereceu ao chegar a Paris em 1858. Vi então, um dia, o imperador Napoleão III a dirigir-se para o Bois de Boulogne a galope no seu landau atrelado à Daumont, seguido e precedido por um destacamento de lanceiros. Na semana anterior, tinha visto o imperador Fernando caminhando no Ring de Praga com as mãos atrás das costas, sem qualquer comitiva, sem guardas nem soldados.”

    Os dois irmãos mais velhos – Friedrich e Louis – foram estudar para o liceu Condorcet, que na época se chamava Liceu Imperial Bonaparte. Era uma escola de excelência, uma das quatro mais antigas de Paris, localizada na rue de Havre, entre a estação de Saint-Lazare e o Boulevard Haussmann. Como escola não confessional tinha uma pedagogia relativamente aberta e liberal e contava com alunos israelitas e protestantes, fortemente pró-republicanos. Ao longo da história, o liceu alterou 11 vezes de nome, refletindo as mudanças de regime. A última vez foi em Maio de 68, em que adotou efémero nome de Karl Marx, até os estudantes descobrirem que o marquês de Condorcet também fora revolucionário! Nele estudaram Henri Bergson, Georges Mandel, Marcel Proust, Claude Lévi-Strauss, Raymond Aron, Jean Paul Sartre,  André Citroën, Marcel Dassault e mais dezenas de khâgneux de reputação mundial. Na verdade, toda a França estudou aqui, como numa universidade, incluindo os que reprovaram uma vez, como Proust, o que lhe deu a oportunidade de receber aulas de literatura do estimado professor Desjardins.

    Fossem alunos mais mundanos, ou mais doutos, o que dava ao liceu Condorcet a sua fisionomia única era a mistura muito parisiense de seriedade precoce e graça leve, de disciplina indulgente e rebeldia inofensiva, de ardor pelo estudo e gosto pelo prazer. Entre os alunos, o jovem Frédéric já mostrava ser uma mente brilhante aos dez anos, o que sem dúvida representava também um risco, como diz o seu amigo Jules Claretie, jornalista e escritor que veio a ser diretor da Opéra de Paris: “Vi, em Genebra, um pequeno prodígio de uma espécie especial. Não era o pequeno compositor prodígio, era o pequeno orador prodígio. Tinha dez anos, e alguém fê-lo subir para uma mesa e ele ali perorou, como uma espécie de Pico de Mirandola da política, sobre todos os assuntos, sem ter ajudas. Confiou-nos, por exemplo, e sem vacilar, a sua teoria pessoal sobre os impostos. Era muito inteligente. O curioso é que este orador de dez anos tornou-se, aos trinta, um jornalista talentoso, um verdadeiro estudioso, o Sr. Kohn-Abrest. Fala menos e escreve melhor. Geralmente as pequenas maravilhas, como árvores que florescem demasiado cedo, não dão fruto assim.

    Os assuntos do planeta giravam na época em torno da Europa, a Europa girava em torno da França e da Alemanha, e estas duas nações giravam em torno de Bismarck e Napoleão III; ambos tinham emergido após as revoluções de 1848. Esse ano foi a grande cicatriz com que o século XIX se apresenta na história. Em Frankfurt reunira-se um Parlamento como jamais se assistira, com mais de cem professores e duzentos juristas, escritores, sacerdotes, médicos, burgomestres, altos funcionários, banqueiros, donos de fábricas, proprietários rurais, e alguns rendeiros, mas nenhum artesão nem operário, começaram as revoltas que derrubaram os dirigentes da Santa Aliança. Havia muito idealismo nesses homens que adotaram a bandeira negra, vermelha e dourada mas que não tinham consciência das possibilidades da revolução industrial e enchiam a boca com palavras altissonantes e a cabeça com quimeras. Alguns milhares de belos discursos e alguns milhares de mortos foram a colheita de um ano de revolução em Viena, Paris, e na Alemanha e Itália que despertavam como nações; e foi também o ano do espectro que pairava sobre a Europa. E contudo, dessas grandes expectativas ficou uma enorme desilusão, a vergonha dos vencidos e o escárnio dos vencedores. As nossas fronteiras proclamou Bismarck, “não devem ser melhoradas através de discursos e decisões da maioria — o grande erro de 1848 e 1849 — mas com ferro e sangue.

    A primavera dos povos deixou muita amargura no ar e dois homens da ordem tomaram as rédeas do poder. De um lado, Bismarck. “O príncipe é como um enorme bloco de granito assente em um prado; se o deslocarmos, encontramos por baixo minhocas e raízes secas, mais do que qualquer outra coisa“, escreverá Guilherme II. O príncipe desprezava a maior parte dos oficiais profissionais, embora lhe agradasse usar o uniforme de general das milícias. É sobretudo um antigo guerreiro germânico, como os heróis das óperas de Wagner, que trava com paixão as suas guerras privadas, seja contra inimigos internos ou estrangeiros. Tanto combate os orgulhosos companheiros da classe nobre que se lhe opõem, e os príncipes adversários austríacos; como persegue ferozmente as organizações de trabalhadores alemães, a que chama o “quarto estado” com a mesma paixão e crueldade com que os nobres medievais faziam a caça ao homem. Os seus inimigos de ontem podem ser os aliados de amanhã; durante trinta anos à frente da Prússia e da Alemanha, foi dos primeiros a criar sistemas de segurança social e tinha entendimentos com Ferdinand Lassalle, o fundador da social-democracia alemã.

    Tinha consciência que levava dentro de si um “demónio teutónico” que adorava o raio e o trovão. Há neste príncipe da era industrial algo do arcaico e das antigas raízes pagãs; acredita no poder benéfico das árvores, dos bosques, e dos animais, sobretudo os cavalos. A posse da terra, a aquisição de território desperta-lhe uma paixão irreprimível; era a herança brutal dos colonizadores prussianos do leste, que se apegam com tenacidade às terras conquistadas pelos antepassados, o que muito distingue as gentes do outro lado do Elba dos germânicos ocidentais que, como Heinrich Heine, conhecem o verdadeiro ouro do Reno.

    Do lado da França, está “Napoleão o pequeno”, como o designou Vítor Hugo num panfleto famoso. Imperador que aprecia os plebiscitos, mas também carbonário que combateu pelo despertar da Itália. Não se sabe ao certo se era filho de Luís Bonaparte, rei da Holanda; mas a sua amada mãe Hortênsia de Beauharnais, irmã da imperatriz Joséphine, incutiu-lhe uma veneração sem limites pelo tio Napoleão. Fascinado pelo efeito mágico desse nome, o jovem foi capaz de o usar para conduzir milhões de franceses amedrontados pela revolução de 1848, a elegerem-no Presidente e facilitarem-lhe o golpe de estado de dezembro de 1851, com que se tornou imperador.

    Formado nas escolas da Alemanha, nos treinos militares na Suíça e iniciando a carreira política como jovem carbonário em Itália, até 1848 é apenas um proscrito da França. Apesar do seu nome mágico, falha em 1836 um putsch em Estrasburgo e em 1840 um golpe em Bolonha. Condenado a cadeia perpétua, exila-se em Londres, onde se relaciona com poetas e artistas, e apresenta-se em festas, mascarado de Guilherme de Orange; uma mania germânica do século XIX, de personalidades como Luís da Baviera, Wagner e Nietzsche e do imperador Guilherme II que se disfarçava de pastor protestante e fazia sermões; foi usando disfarces que Napoleão III fugiu da prisão para se entregar à sua missão. Ao contrário dos puros aventureiros, tinha um sentido de responsabilidade com que foi evitando as grandes catástrofes. Mas a sua hora aproximava-se. Paris tornara-se um turbilhão de danças em torno do velo de ouro, uma realidade que Offenbach descreve nas suas operetas, um estranho império que Victor Hugo increpa com a sua pena e que o próprio imperador assim descreve em 1865: “O meu governo não vai por um bom caminho; e como poderia ser de outro modo, se a imperatriz é legitimista, Morny é orléanista e eu sou republicano? Bonapartista, só mesmo o Persigny; e esse está louco.

    Nessa Europa da década de 1860 os regimes evoluem e as fronteiras políticas mudam. À margem das convulsões geopolíticas e da questão candente das nacionalidades, emerge o jovem estado federal suíço – fruto das revoluções de 1848. A vida cultural do país, na intersecção das áreas de língua francesa e alemã, e ainda italiana e romanche, pertence tinha escala europeia. Genebra era “o quinto contente”, dissera Tayllerand, um observatório ideal, um caso aparte. E nada mais natural que este cosmopolitismo atraísse o tio Fred, cada vez mais versado nas paixões políticas da sua pátria adotiva e à procura do seu pequeno lugar no grande drama da história. Sucedera que o velho deputado da extrema-esquerda Glais-Bizoin, (n. 1800) de Saint-Brieuc, um opositor dos Bourbons que se distinguia no parlamento menos pelos discursos do que pelas interrupções, vira proibida a representação de uma sua peça.   

    Vi-o e ouvi-o em Genebra, em 1866, quando os genebrinos ofereceram um banquete ao Sr. Glais-Bizoin, que ia protestar, perto do lago Genebra, contra a censura que proibia uma das suas comédias em Paris. Rigor estupidamente inútil: se a peça La vraie courage tivesse sido autorizada, nada teria mudado em França; não haveria nem mais um dramaturgo. Mas este bretão Glais-Bizoin, resoluto e militante, quis protestar contra a arbitrariedade. Fez com que a comédia proscrita em Saint-Brieuc e Paris fosse apresentada na Suíça; e à sobremesa, um distinto jovem, que era precisamente o Sr. Frédéric Kohn, fez-lhe um brinde eloquente.(…)”

    [CONTINUA]


    PÁGINA UM – O jornalismo independente (só) depende dos leitores.

    Nascemos em Dezembro de 2021. Acreditamos que a qualidade e independência são valores reconhecidos pelos leitores. Fazemos jornalismo sem medos nem concessões. Não dependemos de grupos económicos nem do Estado. Não temos publicidade. Não temos dívidas. Não fazemos fretes. Fazemos jornalismo para os leitores, mas só sobreviveremos com o seu apoio financeiro. Apoie AQUI, de forma regular ou pontual.

    APOIOS PONTUAIS

    IBAN: PT50 0018 0003 5564 8737 0201 1

    MBWAY: 961696930 ou 935600604

    FUNDO JURÍDICO: https://www.mightycause.com/story/90n0ff

    BTC (BITCOIN): bc1q63l9vjurzsdng28fz6cpk85fp6mqtd65pumwua

    Em caso de dúvida ou para informações, escreva para subscritores@paginaum.pt ou geral@paginaum.pt.

    Caso seja uma empresa e pretende conceder um donativo (máximo 500 euros por semestre), contacte subscritores@paginaum.pt, após a leitura do Código de Princípios.

  • O mais estranho almoço

    O mais estranho almoço


    — Tu é que escolheste o restaurante.

    — Eu sei disso, pá. Ou achas que estou senil? Mas isto hoje está horrível. Que queres que te faça? É irritante atirares-me isso à cara. Isto era o meu cantinho favorito. Hoje, é o pior restaurante em que já estive. Além disso, está aqui um cheiro…

    Puxei os meus ombros para a frente, aproximei a minha cara da cara do meu amigo, fixei um olhar trespassante nos seus olhos e disse-lhe:

    — Meu, tu hoje dizes mal de tudo. Do cheiro a cão no teu elevador, dos fones que compraste, do Trump, do Biden, do riso da Kamala, do Maduro, do Irão, do Netanyahu, do Hamas, dos senhorios, dos inquilinos, do SNS, da medicina privada, das obras dos teus vizinhos que não te deixam dormir…  Até com o empregado já implicaste.

    — Mas discordas do que disse? Explica-me lá em que é que estou errado, então. E demonstra-me porque é que estou errado. Diz lá. Quanto ao Mário que trabalha aqui, não sei o que lhe deu hoje. O gajo é que está nitidamente a querer implicar.

    people walking near buildings

    — Não é isso. É que só puxas assuntos para dizer mal. E falas com tanta, tanta ira. Repara só nisto: conseguiste criticar tanto quem fala das alterações climáticas como conseguiste criticar tanto não se fazer nada contra as alterações climáticas. Não sei como queres combater algo que dizes não existir. É, no mínimo, muito confuso.

    — Eu tinha-te como um gajo informado. Se achas que o mundo está bem, vou ter de reconsiderar a tua inteligência.

    Fechou os olhos, levou a mão direita à testa e disse:

    — Este cheiro dá cabo de mim.

    — Não queres ir para a esplanada?

    — Já te disse que não.

    — Então, não sei.

    — Que cheiro tão intenso. Que agonia, pá. Não te cheira a nada?

    — Não.

    — Só podes estar com problemas de olfacto. Tens de ir ao médico. Estou a falar a sério.

    Em dado momento, o meu amigo teve um clarão:

    — Isto é naftalina!

    Levantou-se e deu uns passos para inspeccionar o restaurante com o nariz, executando inspirações muito rápidas e audíveis. Por instantes, o movimento frenético do seu nariz fez-me representar mentalmente um cão com um metro e setenta e oito centímetros. Algumas cabeças de outras mesas moviam-se para o fitar, e um vetusto senhor interrompeu a sopa e mexeu involuntariamente os lábios perplexos, numa manifestação bucal de quem fita um indivíduo a falar sozinho na rua, proclamando ser Jesus Cristo.

    Quando regressou à nossa mesa, decretou com uma expressão facial de detective:

    — Isto é naftalina misturada com outra coisa.

    Como não comentei, por não sentir nenhum odor estranho, acrescentou:

    — Que esterco, pá. Que nojo, pá. Não bastava já o estado da comida.

    — Meu, estás com a telha hoje. Falas de tudo com uma fúria. Olha, esta massa está muito boa.

    — Eles estragam isto tudo com os molhos, designadamente a massa. A gastronomia nunca foi a tua especialidade.

    — Pois não.

    — Este cheiro é uma coisa…

    — Ó meu, aquele senhor de bigode branco já olhou para ti como se fosses um maluquinho quando te puseste a farejar.

    cooked pasta

    — Eu quero lá saber. Dás muita importância ao que os outros pensam. Não é admissível comer com este cheiro.

    — Ainda bem que sou desprovido de olfacto, apesar de sentir o cheiro da comida.

     — É porque a comida estragada tem um cheiro mais forte.

    O meu amigo pegava nervosamente no telemóvel a todo o instante, suspirando e bufando. Olhei para o seu relógio de pulso e comecei a ver o movimento dos segundos. Prometi a mim mesmo fazer contas.

    — Não paras de mexer no telemóvel e de olhar para todos os lados depois. Já contei: em média, de sete em sete segundos, consultas o telemóvel. A seguir, olhas para a frente, para a esquerda e para a direita, para trás. Estás neste ritual desde que chegámos.

    — É para me abstrair desta comida putrefacta. Tenho a certeza de que vou ficar doente.

    — Então, não comas mais.

    — Tanto faz. Se for para ficar doente, já comi o suficiente. Só esta pestilência dá cabo da saúde de qualquer um.

    Em dada altura, o meu amigo gritou:

    — Porra, olha para esta merda! Vou chamar o empregado.

    — Deixa ver.

    — É um cabelo. Foda-se, só faltava cabelo no meio desta carne podre. Que bosta, pá! Foda-se.

    Analisei o putativo cabelo, enquanto o meu amigo consultava o telemóvel e praguejava.

    — Meu, isto é um fiozinho de roupa. Acho que é da tua camisa.

    — É um cabelo.

    — É esverdeado.

    — Há quem tenha o cabelo verde.

    — Isto não é um cabelo em parte nenhuma do mundo.

    — É. E não é verde. Além do olfacto, tens de ver também esse problema de daltonismo. Tu não estás bem. É o olfacto, é a visão. Olha que isso pode ser neurológico.

    — Meu Deus, dai-me paciência para o aturar.

    — E a mim dá-me o triplo da paciência.

    — Está tudo mal, menos tu. Ao menos, coopera com quem te ajuda.

     — Vou mas é pedir ao empregado que me troque o prato. Vou pedir outra coisa, que isto está uma bela merda. E agora até cabelos tem. Estou com a nítida sensação de comida estragada na boca. E este cheiro não sai… Aposto que vou passar mal a noite. É hoje que peço o livro de reclamações. A ASAE tem de vir cá. Por muito menos, já fecharam outros estabelecimentos. Isto hoje é de mais, caralho.

    Amarguinha liquor bottle on empty dining table

    O telemóvel do meu amigo sussurrou um chilreio por um instante.

    Agitou-se na mesa e, ao agarrar no telemóvel, deixou cair o garfo. No meio da dança de braços e objectos, ficou com bastante molho a destoar no verde da camisa e no dedo mindinho da mão esquerda, que pingava. Submerso no telemóvel, não deu conta da subtracção de um objecto da mesa nem do molho. Decidi levantar-me, peguei no garfo e passei o guardanapo pelo talher muitas vezes, até o repor na mesa. O meu amigo não deu conta de nada, e eu ouvia-o murmurar uns sons imperceptíveis.

    — Estás a gemer?

    Ele continuava com os olhos presos ao telemóvel.

    Esperei largos momentos, enquanto observava uma metamorfose facial.

    — Até os teus dedos dos pés e os botões da tua camisa sorriem.

    Ele nada disse, e eu olhei para o círculo de molho na camisa, mas decidi calar-me. Um sorriso ocupava-lhe toda a largura da cara.

    Quando voltou a si, o meu amigo pediu-me desculpa pela demora.

    — Não ias pedir outro prato?

    — Ah. Não. Isto come-se. Vou pedir uma sobremesa.

    Acabou de comer a carne num ápice, chamou o empregado e pediu «o de sempre».

    — Estas farófias são óptimas. Acho que vou pedir outras. Não queres provar?

    — Não gosto muito de farófias.

    — É porque não provaste estas.

    Os suspiros davam agora lugar a murmúrios de prazer quase sexual.

    — Que coisa tão boa.

    Peguei numa colher e saboreei umas farófias medianas.

    — Também tens uma baba-de-camelo que é uma maravilha. Posso dividir contigo.

    O meu amigo pediu baba-de-camelo ao empregado com quem discutira.

    — Ó Mário…

    Repetiu o nome com suavidade e doçura:

     — Ó Mário… somos amigos desde que havia dinossauros. Há bocado, fui parvo contigo. Não faças caso.

    O empregado deu-lhe uma palmada amiga no cocuruto e perguntou-lhe se ele queria um tira-nódoas, mas o meu amigo disse que não. Pareceu-me não ter percebido que tinha uma grande mancha na camisa.

    — Já não te cheira a naftalina?

    A sua cabeça absorta inclinava-se de novo sobre o telemóvel, como se o destino pendesse do que ali morava. Era a fácies de quem examinava e reexaminava até ter a certeza de que a sentença de morte fora, afinal, uma troca de nomes.

    Esperei uns momentos e repeti a pergunta num tom alto e grosso:

    — Ouve lá: já não te cheira a naftalina?

    silver iphone 6 on white sony device

    — Já passou.

    Os seus olhos moviam-se da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, como se desenhassem linhas.

    Quando veio a conta, decidiu que me pagava o almoço. Sendo a forretice, de longe, o seu pior defeito, disse-lhe que não, imaginando o que lhe doeria.

    — Quem convida é quem paga.

    — Isso nunca foi regra entre nós.

    Agarrou na conta, puxou de um cartão e acenou ao empregado.

    — Se quiseres, dá-lhe uma gorjeta.

    Pus todas as moedas de todas as cores que tinha em cima da mesa.

    — Fazes bem. O Mário é muito porreiro.

    — Tu é que estavas danado com ele.

    — O gajo é seis estrelas. Este restaurante só tem empregados muito bacanos. E come-se maravilhosamente aqui. Não achas?

    — O meu prato estava muito bom.

    — Esta vista é uma coisa incrível. Olha lá…

    Aquiesci.

    —  Por este preço, comer assim, ser tão bem atendido e ainda ver este rio ao fundo… Não conheço restaurante melhor. E tem as melhores farófias e a melhor baba-de-camelo do mundo.

    — Gostaste, então?

    — Já comi melhor aqui, mas gosto sempre.

    — Voltarei de bom grado. Ouve lá: ainda achas que há oitenta por cento de probabilidades de haver uma III Guerra Mundial nos próximos cinco anos?

    a piece of paper sitting on top of a table

    — Como assim?

    — Estou a citar ipsis verbis o que disseste no início do almoço. Disseste que íamos os dois respirar poeira atómica brevemente.

    — Oh… isso foi metafórico.

    — Metafórico?

    — Não vai haver guerra nenhuma. Vamos dar um passeio pelo rio e fazer a digestão?

    Levantámo-nos e caminhámos pelo rio.

    — Já viste o luxo que é andarmos aqui a ver este azul com este sol depois de uma refeição destas?

    — O poder que elas têm sobre ti é tremendo, não é?

    O meu amigo passou o braço por trás do meu pescoço e pousou a mão no meu ombro direito.

    — A vida é bela, amigo. Somos todos perecíveis, o importante é encher a vida de coisas belas e com significado. Nós é que complicamos, porque contabilizamos sempre o que nos falta e não o que temos. Celebremos a nossa amizade, mas é. Tinha saudades de estar contigo, pá.  

    Manuel Matos Monteiro é escritor e director da Escola da Língua


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • Portugal e o escrivão Isaias Caminha

    Portugal e o escrivão Isaias Caminha


    Um dos maiores escritores brasileiros, Afonso Henriques de Lima Barreto precisou recorrer a Portugal, em 1909, para dar início a sua vida literária porque não encontrou no Brasil quem quisesse publicar o seu primeiro, cáustico e corrosivo, romance: Recordações do escrivão Isaias Caminha.

    Editada, a brochura de pouco mais de 300 páginas, de capa cor de vinho, atravessou o Atlântico e foi recebida em Pindorama pelo mais estrondoso silêncio. A recepção que teve dos jornais e críticos brasileiros – que viviam a exaltar toda e qualquer bobagem impressa, mas com forte preferência pelas rimadas – foi quase nenhuma.

    Por que era maldito o tal livro? Porque, na verdade, era uma devastadora crítica à imprensa brasileira (carioca) daquele tempo. Era uma obra em que pessoas e eventos reais apareciam com nomes fictícios. Aliás, há uma expressão francesa para esse tipo de publicação, mas deixamos de reproduzi-la aqui porque soa mal em português.

    LIma Barreto (1881-1922)

    O livro conta a história de um jovem pobre, mestiço, interiorano, estudioso e inteligente, que acaba por ir trabalhar no principal jornal do País na época, O Globo. Nada a ver com a publicação que hoje tem este nome. O objetivo a ser torpedeado era, de fato, o Correio da Manhã, um dos principais veículos daquele tempo.

    Todos os podres dos repórteres e redatores – suas trampolinagens, safadezas, espertezas, vigarices e patifarias – vêm à tona. Ficamos sabendo como uns e outros ganhavam um dinheirinho extra escrevendo – ou silenciando – sobre os ricos e poderosos. A mais rentável dessas falcatruas era a obtenção de cargos públicos bem-remunerados.

    Muitos escritores reconhecidos aparecem com nomes alterados no relato do escrivão Caminha brasileiro. Os dois mais notórios deles são Coelho Neto, maior best-seller da época, que surge como Veiga Filho, e o cronista João do Rio, que aparece na pele de Raul Gusmão.

    Há uma curiosa referência a Portugal no livro. Os maiores anunciantes nos jornais da Cidade Maravilhosa, naquela época, eram os lusitanos, que dominavam o comércio local. De repente, alguém, antecipando o inferno da cobrança politicamente correta, lembra que o Correio da Manhã não conta com um luso na sua redação.

    O dono do jornal trata então de buscar na Terrinha um plumitivo que preencha a cota destinada a nascidos na península ibérica.

    Seguem aqui uns recortes, editados por mim, do trecho em que se trata da importação desse panfletário alfacinha:

    – Como poderíamos arranjar um português para redator, dize lá?

    – Encomenda-se a Portugal.

    Capa da edição original, publicada em Portugal em 1909. No Brasil foi publicada apenas em 1917, numa edição revista e aumentada.

    E fui eu encarregado de levar o telegrama ao submarino. Não se tratava já de um redator; pedia-se a uma livraria de Lisboa um redator e dois correspondentes literários.

    Os correspondentes já estavam arranjados, mas não havia quem quisesse vir.

    – Cá está ele… Está arranjado.

    Embarcaria no primeiro paquete. Era espirituoso, entendido em coisas portuguesas e queria setecentos mil réis fracos.

    – Sabes, Pranzini, temos um homem… De Lisboa chegou-nos a resposta.

    – É bom… Vocês sabem, sem português, nada aqui vai adiante. Os patrícios exigem, é justo; eles são talvez trezentos mil, pagam rios de dinheiro em anúncios – é justo.

    Vale transcrever aqui outro texto divertido, que é o da conversa entre o dono do jornal e o Lobo, gramático encarregar de zelar pelo idioma camoniano.

    – Ora, Lobo. Já vem você!

    – Mas, doutor, a língua é uma coisa sagrada. O culto da língua é um pouco o culto da pátria. Então o senhor quer que seu jornal contribua para a corrupção desse idioma de Barros e Vieira…

    – Qual Barros, qual Vieira! Isso é brasileiro – coisa muito diversa!

    – Brasileiro, doutor – falou mansamente o gramático. – Isso que se fala aqui não é língua, não é nada; é um vazadouro de imundícies. Se frei Luís de Sousa ressuscitasse, não reconheceria a sua bela língua nessa amálgama, nessa mistura diabólica de galicismos, africanismos, indianismos, anglicismos, cacofonias, cacotenias, hiatos, colisões… Um inferno! Ah, doutor! Não se esqueça disso: os romanos desapareceram, mas a sua língua ainda é estudada.

    brown canyon during golden hour

    Fechemos com um pouco da vida de Lima Barreto, autor ainda de outros dois belos romances: Triste Fim de Policarpo Quaresma (para muitos sua maior obra) e Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá.

    Nascido no Rio de Janeiro, em 1881, morreu naquela mesma cidade em 1922. Embora de família pobre, teve educação esmerada. Ingressou na Escola Politécnica, mas jamais conclui o curso de engenharia. Tornou-se funcionário público por concurso. Órfão de mãe desde a infância, cuidou de seus irmãos e de seu pai, que padecia de doença mental. É autor de centenas de contos e crônicas nos quais – usando tanto de melancolia quanto de ironia – deixa claro o imenso amor que tinha por sua cidade natal, em especial por seus subúrbios, e pelos seus mais humildes habitantes.

    Lourenço Cazarré é escritor


    PÁGINA UM – O jornalismo independente (só) depende dos leitores.

    Nascemos em Dezembro de 2021. Acreditamos que a qualidade e independência são valores reconhecidos pelos leitores. Fazemos jornalismo sem medos nem concessões. Não dependemos de grupos económicos nem do Estado. Não temos publicidade. Não temos dívidas. Não fazemos fretes. Fazemos jornalismo para os leitores, mas só sobreviveremos com o seu apoio financeiro. Apoie AQUI, de forma regular ou pontual.

    APOIOS PONTUAIS

    IBAN: PT50 0018 0003 5564 8737 0201 1

    MBWAY: 961696930 ou 935600604

    FUNDO JURÍDICO: https://www.mightycause.com/story/90n0ff

    BTC (BITCOIN): bc1q63l9vjurzsdng28fz6cpk85fp6mqtd65pumwua

    Em caso de dúvida ou para informações, escreva para subscritores@paginaum.pt ou geral@paginaum.pt.

    Caso seja uma empresa e pretende conceder um donativo (máximo 500 euros por semestre), contacte subscritores@paginaum.pt, após a leitura do Código de Princípios.

  • Bill, o Profeta

    Bill, o Profeta

    O homem acordou, mas aquilo não era bem um despertar.

    Pôs os óculos e levantou-se, mas o seu corpo não respondia como de costume.

    Bill sentiu-se assustado. Não estava habituado a esse tipo de sensação. Mas do que é que poderia ter medo? Se nem da própria morte tinha. Esse assunto fora resolvido há muito, tendo mesmo superado essa vertigem ainda adolescente, adquirindo o conhecimento tanto metafísico como esotérico com a ajuda do seu pai, para que pudesse andar descansado, minimizando-a, tornando mesmo a sua morte num não assunto.

    Até aí tratava-se de uma vitória sem dúvida.

    Mas por que razão então acordara tão assustado o filantropo mais filantropo do mundo? Andaria com medo de si mesmo?

    Andaria com medo da filantropia?

    Era culto e perspicaz o suficiente para saber que muitas vezes somos nós mesmos os nossos maiores inimigos, mas não era esse o caso.

    Ilustração: Bruno Rama

    Mesmo ainda criança, o seu pai tinha-lhe passado o conhecimento suficiente para abortar de imediato mal viesse a ser invadido por más sensações que se apresentassem sem consentimento e licença para massacrar-lhe o espírito, ou a carne ou mesmo os ossos.

    Aprendeu que seria preciso ter sempre um “bisturi” à mão e nunca haver contemplações para com os invasores, cortando o mal pela raiz. Bill cresceu com um pai não-ausente, um tutor, um criador de morte.

    Tinha passado ao longo da vida por momentos muito mais conturbados e esse sentimento nunca o havia atingido, pondo em prática esses sábios ensinamentos. Não seria agora que iria ter medo fosse do que fosse. Estava aparentemente bastante treinado e era importante e valioso demais para ser invadido por essa vulgaridade mórbida chamada dor. Ou não se chamasse Bill Gates e fosse o grande profeta do nosso tempo.

    Quantas pessoas eram ouvidas e tidas em conta acerca do curso do mundo?

    Sabia também da artificialidade em que o estado actual do estranho planeta se encontrava, e da importância que isso tinha para os seus “negócios”.

    Seria essa a razão da sua angústia?

    Em principio nada lhe escapava. Estava sempre a par de todas as novidades. Haveria afinal mais marés que marinheiros? Por norma controlava tanto uns como outros. 

    Estariam lá por cima a esconder-lhe alguma coisa? Sabia que alguma casta o achava um totó, embora nunca ninguém tenha tido a frontalidade de o dizer, muito menos o desprezível Elon Musk.

    Mal pensou nisso, foi imediatamente invadido por um suor, ainda mais frio que a sua casa. Não estava a conseguir aplicar a filosofia habitual para contrariar a aproximação da dor.

    Mas a verdade é que alguma coisa se estava a apoderar cada vez mais de si, começando até a ofegar. Chegou mesmo a questionar-se se teria oxigénio suficiente para mais um dia de árduo trabalho que se avizinhava na Fundação.

    Qual fundação? Seria a própria fundação mais um holograma, uma mentira, uma historieta

    montada para iludir o terceiro mundo? Gracejou para com os seus botões de pijama. Estaria a perder o tino?

    Demasiadas dúvidas estavam a deixá-lo deveras angustiado.

    Ilustração: Ruy Otero

    Levantou-se e foi beber da sua água, uma água a que muito pouca gente tinha acesso no mundo, era cristalina o suficiente para que, só de olhar, acalmasse qualquer um, como que por magia. Era uma água que não vinha de uma nascente qualquer. Nem ele mesmo conhecia a sua proveniência.  

    Mas não, a água mágica não teve o efeito desejado. Nem pelo olhar, nem pela ingestão.

    Chamou por Melinda, embora soubesse que ela não estava. Já não estava há muito tempo. Talvez nunca tenha estado mesmo.

    Estaria Bill sozinho no mundo e não o sabia?

    Lembrou-se do enorme Charles Dickens e da necessidade da moral e sentido nas histórias. Estaria isto tudo a querer dizer alguma coisa? Demasiadas perguntas sem resposta estavam a deixá-lo cada vez mais fora de si.

    Pensou em telefonar ao Doutor Johnson, médico amigo de uma vida e que sabia de muitas coisas que Bill também sabia, mas ultimamente achava que o Doutor Johnson também andava esquisito, mas de uma forma esquisita.

    Ainda mais esquisita.

    Na última vez que estiveram juntos falou de Saturno desnecessariamente, facto a que ninguém ficou alheio na última reunião secreta.

    O Doutor Johnson estava a ficar velho e não percebia os novos contextos, a nova inteligência, as novas atmosferas que estavam a ser desenhadas, tinha qualquer coisa de bafiento, não entendia esta recente filantropia, embora fosse ou tivesse sido um grande médico, sem dúvida, mas Bill não confiava em quase ninguém.

    Estaria a ficar velho, e como acontecia a toda a gente, isso começava a perturbar-lhe o sistema nervoso de certa maneira?

    Mas Bill não era toda a gente.

    De morte percebia ele, isso estava bem estudado, agora quanto à morte de células já tinha mais dúvidas, sabia por intuição que as células muitas vezes desenvolviam comportamentos poéticos. Tomava os químicos certos para contornar esse problema ou essa vicissitude. Nunca duvidara disso, pelo menos até àquele dia.

    Bill tinha medo da poética.

    Era o seu maior medo.

    Não gostava de não ter controle sobre si, sobre o que fosse. Nascera para mandar.

    Andaria Bill porventura enganado?

    Apenas por estar a questionar-se desta forma, já se sentia doente. Era como se coabitassem dois Gates num mesmo Bill, ao ponto de começar a sentir tonturas e náuseas.

    Ilustração: Ruy Otero

    Sabia que tinha uma casa inteligente, mas não assim tanto, ainda havia muito para evoluir e não seria certamente a sua casa com as suas casas-de-banho hiper inteligentes e sustentáveis das quais se orgulhava muito, que lhe resolveriam o problema das tonturas. De que serviria uma casa daquelas se o espírito baqueasse…

    Lembrou-se do Steve que também foi desta para melhor fora de tempo, sim desse Steve que ele tanto odiara e invejara ao longo da vida, desse Steve que tinha melhor gosto que ele, que era adorado como se fosse uma rock star e que não tinha medo de calçar Asics Tiger de corrida hiper coloridas, contrastando com o minimalismo Calvin Klein. O mesmo Steve que o tinha ofendido directa ou indirectamente vezes sem conta, ao ponto de o fazer chorar nalgumas situações.

    Não estava a perceber bem porquê, mas devido à fraqueza momentânea daquele despertar violento e anormal, lembrava-se agora do Steve que muito trabalho lhe havia dado. O que é que aprendera com Jobs que lhe valesse agora? 

    Nada, concluiu e isso até lhe trouxe algum conforto momentâneo.

    De que lhe serviria o cinismo astuto que aprendera com o homem da maçã num momento tão fora de controle como aquele?

    De nada.

    Teve de sentar-se no sofá para não sucumbir ao desmaio eminente. Estava sozinho e não encontrava a porta do quarto devido às tonturas que apareciam como se fossem o prato principal do dia. 

    Uma semana antes tinha dado várias entrevistas a umas cadeias de televisão que estavam “ingenuamente” loucas para saber o que o filantropo mais filantropo do mundo achava da terceira guerra mundial que o mesmo previra, da nova pandemia que o mesmo anunciara e quais os seus prognósticos que imaginavam grande prejuízos para as consequências das alterações climáticas que já por aí andavam e que o próprio também previra, tendo no entanto sempre uma solução.

    E agora estava ali na cama, como que abandonado a si próprio, entregue à sorte.

    Algo não estava a encaixar no guião.

    Seria culpa dos guionistas? Seria ele apenas o produtor, sabendo que qualquer Goldwyn Mayer tinha o seu fim como toda a gente. O pai não lhe ensinara isso.

    Questionou-se.

    Ora, um profeta não pode ter dúvidas nem tonturas…. Pensou.

    Estava o mundo a sofrer com as suas sábias previsões, portanto, não seria possível estar assim de rastos. Um profeta não hesita. Mas então que fazer?

    Ilustração: Ruy Otero

    Seria Bill um profeta a sério? Teria o mundo a possibilidade real de ter profetas, ou estaria o planeta a ficar refém da estupidez generalizada?

    Estaria a bola-mundo às voltas sem rumo, assim como o seu estômago? A Inteligência Artificial estava a fazer raccord com a estupidez natural?

    Encontrou finalmente a porta certa e Bill voltou para a cama. Ao fim de uns terríveis minutos sem segundos voltou a adormecer, cheio de dúvidas.

    Sonhou com flamingos a saltitar com graça e em harmonia sobre verdes pradarias em croma, invadidas pela luz suave do amanhecer californiano. 

    Quando acordou novamente, percebeu que alguma coisa continuava errada.

    Já não se sentia tonto, nem agoniado, mas sentia-se anormalmente leve.

    Leve demais, como se não tivesse peso.

    Talvez tivesse o peso de uma conspiração.

    Talvez o mundo fosse só e unicamente uma grande conspiração contra o próprio mundo. Uma auto-conspiração. Parecia que alguma coisa estava a chegar ao fim mas desta vez, Bill não tinha solução para o que aí vinha. Até parecia que já não estava cá.

    Era esquisito mesmo, (os americanos dizem weird. Toda a gente diz weird).

    Já na casa de banho percebeu que o espelho desaparecera do sítio, mas da janela continuava a ver-se uma imensa pradaria cheia de pássaros e árvores ainda sem denominação, de uma beleza refrescante e acolhedora, embora não tivessem uma forma comum e reconhecível pela biologia.

    Bill Gates imaginou-se a voar, mas depois voltou a si e conseguiu encontrar a espuma da barba.

    E depois desmaiou novamente.

    Não se percebia bem. Tudo começava a ter a forma de um pesadelo.

    Ruy Otero é artista media

    Ilustrações de Manuel Silva


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.


    PÁGINA UM – O jornalismo independente (só) depende dos leitores.

    Nascemos em Dezembro de 2021. Acreditamos que a qualidade e independência são valores reconhecidos pelos leitores. Fazemos jornalismo sem medos nem concessões. Não dependemos de grupos económicos nem do Estado. Não temos publicidade. Não temos dívidas. Não fazemos fretes. Fazemos jornalismo para os leitores, mas só sobreviveremos com o seu apoio financeiro. Apoie AQUI, de forma regular ou pontual.

    APOIOS PONTUAIS

    IBAN: PT50 0018 0003 5564 8737 0201 1

    MBWAY: 961696930 ou 935600604

    FUNDO JURÍDICO: https://www.mightycause.com/story/90n0ff

    BTC (BITCOIN): bc1q63l9vjurzsdng28fz6cpk85fp6mqtd65pumwua

    Em caso de dúvida ou para informações, escreva para subscritores@paginaum.pt ou geral@paginaum.pt.

    Caso seja uma empresa e pretende conceder um donativo (máximo 500 euros por semestre), contacte subscritores@paginaum.pt, após a leitura do Código de Princípios.

  • Os nove justos sodomitas e um funeral

    Os nove justos sodomitas e um funeral

    Deus escolheu Abraão como patriarca de um povo para, através da prática da justiça e da rectidão, seguirem o Seu caminho. Entretanto, por portas travessas, soube o Senhor que as perversidades em Sodoma e Gomorra se agravavam em extremo. Enviou, portanto, dois mensageiros em averiguações de conduta, decidido a exterminar aquelas pecaminosas cidades se se confirmassem os clamores que Lhe haviam chegado.

    Dúvidas não tinha Deus sobre o remédio para as perversidades, mas vacilou numa questão: “Ocultarei a Abraão o que vou fazer?” Decidiu contar-lhe. “E será que vais exterminar, ao mesmo tempo, o justo com o culpado?”, objectou Abraão, com olhar exprobratório.  “Talvez haja cinquenta justos na cidade; matá-los-ás a todos?”, continuou. “Longe de ti proceder assim e matar o justo com o culpado, tratando-os da mesma maneira! Longe de ti! O juiz de toda a Terra não fará justiça?”, concluiu, inquisidor e censor em simultâneo.

    Sodoma e Gomorra em chamas , pintura de Jacob de Wet II (1680), exibida no Hessisches Landesmuseum Darmstadt (Alemanha).

    Deus pôs a mão na consciência – força de expressão, porque não a tem; pelo menos escasseiam provas da Sua existência, da mão. “Se eu encontrar em Sodoma”, garantiu a Abraão, “cinquenta justos perdoarei a toda a cidade, por causa deles”. Abraão atalhou então: “E se faltarem cinco, destruirás toda a cidade, por causa desses cinco? Que não, prometeu Deus: “Não a destruirei, se lá encontrar quarenta e cinco justos”. Abraão aproveitou a onda: e se fossem quarenta justos apenas? Deus assegurou-lhe que pouparia a cidade. E se fossem apenas trinta justos, questionou Abraão. Deus condescendeu em isentar os culpados se porventura houvesse esse pequeno número. E vinte? Idem, disse-lhe Deus.

    Abraão sabia estar a esticar a corda da paciência divina. E assim, asseverando que não falaria “mais do que esta vez”, ponderou que, talvez, em Sodoma e Gomorra não se encontrassem mais do que dez justos. Complacente, o Senhor afiançou-lhe que, em atenção a esses dez justos, não destruiria a cidade. “Terminada esta conversa com Abraão, o Senhor afastou-se, e Abraão voltou para a sua morada”.

    Nessa noite, ao longe, ao fundo do vale, em Sodoma, tristes e contemplativos, Néfeb, Elisafan, Gérson, Gamaliel, Abidan, Surichadar, Paguiel, Chediur e Ailézer velavam o corpo de Natanael, fulminado horas antes por ataque cardíaco.

    “Morreu um homem justo”, lamentou-se Abidan.

    “Como nós”, acrescentou Elisafan.

    “O Senhor, na sua inalcançável sapiência e justiça, chamou à sua presença o nosso irmão Natanael”, aditou Néfeb.

    brown stick with fire during night time

    “O Senhor teve, por certo, um insondável motivo para o retirar da nossa presença”, disse Chediur.

    “Somente nos resta continuar a nossa vida proba; o Senhor nos recompensará”, consolou-se Gérson.

    “Que possamos todos ser tão rectos e fiéis quanto foi Natanael”, declarou Gamaliel.

    “Que a sua alma encontre a paz na eternidade, como a sua vida a trouxe para nós”, sustentou Surichadar.

    “O vazio que nos deixa em nossos corações será preenchido pela memória da sua eterna boa acção”, afirmou Paguiel.

    “O Senhor, em sua infinita justiça, saberá amparar-nos nesta hora de dor perante a perda de um justo”, finalizou Ailézer.

    Então, no dia seguinte, erguendo-se o sol sobre a terra, uma chuva de enxofre assolou os vales, dizimando gado, a vegetação e os habitantes daquelas cidades, incluindo os nove justos de Sodoma e o frio cadáver de Natanael.


    PÁGINA UM – O jornalismo independente (só) depende dos leitores.

    Nascemos em Dezembro de 2021. Acreditamos que a qualidade e independência são valores reconhecidos pelos leitores. Fazemos jornalismo sem medos nem concessões. Não dependemos de grupos económicos nem do Estado. Não temos publicidade. Não temos dívidas. Não fazemos fretes. Fazemos jornalismo para os leitores, mas só sobreviveremos com o seu apoio financeiro. Apoie AQUI, de forma regular ou pontual.

    APOIOS PONTUAIS

    IBAN: PT50 0018 0003 5564 8737 0201 1

    MBWAY: 961696930 ou 935600604

    FUNDO JURÍDICO: https://www.mightycause.com/story/90n0ff

    BTC (BITCOIN): bc1q63l9vjurzsdng28fz6cpk85fp6mqtd65pumwua

    Em caso de dúvida ou para informações, escreva para subscritores@paginaum.pt ou geral@paginaum.pt.

    Caso seja uma empresa e pretende conceder um donativo (máximo 500 euros por semestre), contacte subscritores@paginaum.pt, após a leitura do Código de Princípios.

  • All That Jazz, o espectáculo tem de continuar e outras coisas do tipo

    All That Jazz, o espectáculo tem de continuar e outras coisas do tipo

    Ao fazer zapping na plataforma Filmin, choquei de frente com um filme que já tinha visto há muito tempo intitulado All That Jazz. Tinha uma fugaz boa impressão, mas lembrava-me de muito poucas cenas. E, então, vi-o novamente.

    Surpreendeu-me, e, como acho que, numa certa perspectiva, tem os elementos para uma pertinente interpretação à luz dos nossos dias, fiz o trabalho de casa e decidi escrever.

    Se eu fosse dono de um cinema de reposições como ainda vai havendo, considerando também o Cinema Nimas, último bastião resiliente de cinema em salas com grandes ecrãs em Lisboa, seleccionava este filme para estar em cartaz uns tempos.

    Iria trazer certamente estilo à cidade porque antes os cinemas eram também os jardins das cidades. 

    All That Jazz é um filme de Bob Fosse que estreou em 1979 e ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes ex aequo com Kagemusha – A Sombra do Guerreiro, de Akira Kurosawa em 1980.

    É um filme magnífico, posso jurar pela alma do cinema.

    Bob Fosse foi dos realizadores mais singulares do sistema mainstream norte-americano, mesmo que possa não ser considerado como tal por alguns críticos mais radicais ou puristas e até ser visto como um intrometido que veio do teatro musical, constando na sua filmografia apenas quatro longas-metragens, entre as quais Cabaret, que recebeu um total de 10 indicações ao Oscar (vencendo oito delas), detendo o recorde de obra com mais prémios da Academia para um filme, que não venceu o Oscar de Melhor Filme.

    Casting 1#

    Fui ver o que alguns sites diziam do filme e aqui transcrevo o que o site agregador de avaliações Rotten Tomatoes diz: 87% das 46 avaliações dos críticos são positivas, com uma classificação média de 7,6/10.

    O consenso do site diz: O diretor Bob Fosse e a estrela Roy Scheider estão no topo neste drama de palco deslumbrante e auto consciente sobre um diretor-coreógrafo obcecado pela morte.

    Vale o que vale.

    Este é mais uma daquelas longas-metragens em que, não obstante ter 45 anos, podemos sempre encontrar traços da actualidade, sobretudo pela forma como teatro, cinema, vida, vida real, espectáculo, dança, showbiz, e autobiografia se misturam, parecendo tratar-se de um convite muito sério (mas a brincar) para se entender o espírito tempo em que foi produzido e também o que haveria de chegar, com algo de premonitório, até atendendo à esquizofrenia latente que navega por lá, que com o passar do tempo mais a continuação do Plano Marshall, no Ocidente, passando pela inevitável queda do Muro de Berlim, só teria tendência para piorar, no que à psicose diz respeito.

    O Directório de Saúde Mental com os seus excessos em conluio com a indústria farmacêutica, são disso exemplo para a construção de outros muros que, entretanto, apareceram e não são para aqui chamados.

    Se há coisa em que Bob Fosse não falhou, e talvez não fosse difícil, foi na premonição da sua própria morte por insuficiência cardíaca, que veio a acontecer algum tempo depois aos 60 anos.

    Premonição? Morte?

    Toda a arte, metaforicamente falando, que se envolve subtilmente com o tempo, terá de arriscar alguma coisa quanto à sua expansão no futuro que nunca estará privado de História e a morte é sempre o melhor dos temas, quanto a mim. Pois este filme vive da morte, como não poderia deixar de ser…  

    Mas aqui, nestes milhões de fotogramas é-nos transmitido por outro lado, que o tempo é de espectáculo permanente e que vida e morte, ficção e realidade, podem estar a querer dizer que são água da mesma fonte, integrados numa cacofonia delirante armadilhada por todo o tipo de “redes sociais” e intrigas malignas, dignas da realidade actual, que não é mais que uma continuação natural das outras redes e de outros tempos. 

    Sim, sim. O digital é o prolongamento do dedo.

    Está tudo ligado e desligado ao mesmo tempo. Neste estranho e atípico filme é nos dito que a vida é aquilo que tem de ser, e só vivendo no sonho ou na imaginação é que existem possibilidades salvíficas.

    Casting 2#

    Este filme polvilhado por anfetaminas, parece uma longa selfie feita por alguém que sabe filmar e dançar. É um filme-slalom que está constantemente a ver-se ao espelho. Ou mesmo pode tratar-se de um filme-espelho, para ser mais preciso, ainda que toda a arte deva espelhar, nem que seja espelhar-se a si mesma, como também acontece nesta película, uma vez que não deixa de ser uma obra com tiques pós-modernos, já que mantém alguma sinuosidade kitsch típica desse mundo colorido e stressado, o que até lhe fica bem e na altura recomendava-se.

    Como sintoma, este filme fechava o fim de um ciclo de musicais que alimentaram e sustentaram alguma Hollywood. Seria o último musical indicado ao Oscar de Melhor Filme até que A Bela e o Monstro da Disney fosse indicado em 1992, e foi o último musical live-action a competir na categoria, até Moulin Rouge de Baz Luhrmann em 2002.

    É contemporâneo de A Febre de Sábado à Noite que imortalizou John Travolta e se tornou filme de culto, embora nada lhe deva, sendo muito mais profundo e arty, que a sobrevalorizada fita de John Badham.

    Neste estamos sempre à espera de que o espelho parta e com ele o próprio elenco (técnicos e actores) que estão por lá reflectidos, como se isso fosse coisa pouca. No outro não há espelhos humanos, aqueles que interessam, e os que há, estão instalados nas bolas refletoras das discotecas e clubes, ou servem apenas para John Travolta se pentear enquanto se reflete neles, não trazendo nem expondo a fractalidade da qual muita arte se alimenta. Aqui, a suposta falsidade e futilidade das coreografias e canções, ajudam a decalcar o mundo profissional e os seus inerentes dissabores. Mas todas as salas de ensaio naturalmente têm um espelho. Será a vida uma longa e interminável sala de ensaio com um espelho a olhar para nós?

    The show must go on, n´est pas?

    O mundo é um espectáculo, e aqui não deixo de citar e invocar, mesmo que o realizador não o tenha lido, (não sabemos), o livro de Guy Debord intitulado A Sociedade do Espectáculo, de 1967 e que acertou em cheio no desenlace para o admirável mundo novo ao qual a sociedade se sujeitou, sem que alguém disso duvide, pode é ser bom para alguns. E mau para outros, como sempre acontece em sociedades divididas. Chamou-se a isso democracia.

    Dancing scene 1#

    Bob Fosse foi dos principais encenadores-coreógrafos da Broadway nas décadas de 50, 60 e 70, e um grande viciado em anfetaminas, sexo, cigarros e Dexedrine, já para não falar de ser um workaholic de primeira, aspectos que o filme autobiográfico realça bem, pelo menos o seu alter ego Joe Gideon está sempre em zona de perigo, ostentando permanentemente um Camel ao canto da boca como um cowboy solitário e aventureiro que tem a morte à sua espera no fim da linha e o show time na ponta da língua no inicio do dia, repetindo-o várias vezes ao longo do filme, mas sempre filmado e editado de formas diferentes ainda que sempre de frente ao espelho da casa de banho.

    O próprio filme, é um excesso, caracterizado pela montagem cheia de ritmo e cortes rápidos, trazendo daí flashbacks e flashforwards necessários para a compreensão da narrativa e para a sensação de pesadelo e desespero light que o filme parece pretender criar, percepcionando um certo cansaço, mas também um divertimento ligeiro ao mesmo tempo, acompanhado sempre de movimentos de dança e de música entretida, típica daquele género de espectáculos no qual  todas as personagens estão envolvidas.

    Era frequente naquela época abusar-se um pouco de efeitos como o de fade in/fade out, ou sobreposições e outras distorções visuais e/ou sonoras. All That Jazz peca um pouco por isso. Talvez seja também misógino já que tudo circula à volta de Scheider, e não deixa de ser verdade que as mulheres podem aparecer como objecto do seu vício, apalpando as enfermeiras na cama do hospital sem a sua permissão, por exemplo. À luz dos dias de hoje com cancelamentos e auto-censura, não sei se o filme aguentava num cinema sem umas sprayzadas de tinta nos cartazes. Quase me sinto obrigado a dizer isto, embora o filme, seja como for, o faça com arte e criatividade e não creio que veicule uma apologia de masculinidade tóxica. 

    A narrativa desloca-se pouco do mundo do espectáculo em que o jogo está mais legitimado e é sobretudo dado um mergulho profundo nesse mundo, por alguém que caiu desde cedo no caldeirão do showbiz.

    Nesse sentido, Bob Fosse torna-se único, fundindo com realismo o cinema e o espectáculo como se nos tivesse a dizer que se fosse bombeiro só faria filmes sobre incêndios, mas auto-indulgentes e negativos, ou em parte.

    Mas o argumento para dar contraste e mesmo paradoxo visual e narrativo, acaba também por magistralmente envolver o corpo clínico que mais tarde aparece como elemento salvador dos excessos de Gideon em ambiente hospitalar, e talvez seja essa a grande novidade conceptual apresentada, fazendo confluir dois universos completamente dispares, ou talvez nem tanto…

    É também um filme feito de luzes e de lantejoulas com chapéus de coco e cadeiras a voar por todo o lado, a darem-nos permanentemente a convicção de que a vida não só é um espectáculo ainda que triste, como também um cabaret.

    Bob Fosse fez apenas quatro filmes, mas umas dezenas de encenações teatrais e musicais pelas quais foi inúmeras vezes premiado. E em pelo menos três obras cinematográficas, retratam-se pessoas que existiram, não só no mundo real, como também no cosmos das Broadways norte-americanas andando em torno, como no caso de Star 80 (o seu ultimo filme), do destino trágico da modelo playmate Dorothy Stratten que estava envolvida com o realizador Peter Bogdanovich (no filme tem outro nome), sendo este e Lenny, dois biopics que expõem os perigos e as perversões do mundo do show business, que o próprio tão bem conheceu, e cujas consequências viveu na pele. 

    Dancing scene 2#

    Parece dizer-nos também sem grande lamento, que em tempos freneticamente instáveis de esquizofrenias paradoxais universalmente expandidas e fragmentadas, num mundo globalizado e americanizado, justifica-se pôr o dedo nas feridas abertas de um mundo deprimente também gerado pelo excesso e pela sua velocidade imparável, alicerçado em cidades sujas como a Nova Iorque daquele tempo pré Giuliani, que dizem tê-la “limpo” anos mais tarde, com métodos dúbios e obscuros de tolerância zero. Como se a asseptização vindoura não trouxesse ainda mais lixo, mas isso são mãos para outro piano, como dizem os eslovenos.

    A série Fame também contemporânea deste filme e que retrata o mundo das artes cénicas a partir de uma escola, mostra uma Nova Iorque que já não é a do sonho americano, parecendo mais um pesadelo, ilustrada pela crueldade, dureza e competição a que os artistas se submetem na tentativa de ganhar um lugar ao sol.

    Esses tempos cinematográficos e televisivos mostravam cada vez mais a neblina, e isso era muito patente em Hill Street Blues, uma série televisiva daquele período com grande êxito mundial, em que se acompanhava o dia a dia dos agentes numa esquadra de polícia.

    Nova Iorque era viciante e viciosa e realizadores como Jim Jarmush que lá viveu nessa altura, disse tratar-se do melhor sítio do mundo para viver, ainda que fosse das cidades mais perigosas do ocidente na década de setenta e oitenta.

    Essa Nova Iorque carismática com cheiro de vão de escada e muito frenesim impregnado de adrenalina estão muito presentes em All That Jazz, embora seja ilustrada mais pelos personagens e as suas inerentes fragilidades que pela visão da rua. Sente-se o lixo e o crime sem se ver, cheira a comida exótica fast food por todo o lado como em Blade Runner feito uns anos depois. E ambos os filmes têm semelhanças na forma como a morte e o medo aparecem e mergulham na metafísica, mas Gideon jamais poderia ser um replicant, para aproveitar o balanço da citação ao filme de Ridley Scott.

    Este All That Jazz não deixa de ter alguma violência contida, mas bem expressa por exemplo nas incapacidades técnicas e criativas dos bailarinos e na manifesta dúvida existencial permanente em Gideon, realçando assim a intransigência conhecida para se ser bem sucedido no mundo do showbiz.

    A dúvida e a sua inerente violência psicológica são um elemento que acompanha o filme pouco contido, algo lacónico, cáustico, penetrante, confrontante, e até imperativo.

    Esta longa metragem atípica confere visibilidade ao invisível através das percepções e interpretações sensoriais, emocionais e até intelectuais dos actores, resvalando um pouco em Cassavetes, já que era um dos realizadores mais interessantes e experimentais do cinema norte-americano e que ainda influenciava parte do cinema, sobretudo o europeu, germinando nas personagens processos mentais imaginativos, cognitivos, e até reflexivos, constituindo-se como veículo de auto-representação de um mundo desconhecido para a maioria, tendo conhecimento apenas como espectadores mas sem acesso ao seu background que não era tão feliz como os media faziam crer nas revistas.

    Dancing scene 3#

    All That Jazz funciona como um canal de expressão, comunicação e conhecimento, e responde de lâmina afiada cortante com solidez, objectividade e contundência a um mundo que mergulha por vezes na crueldade e é cada vez mais escravo e servil do gosto dos espectadores e produtores. Gideon sabe disso.

    Fosse sabe disso. Até eu disso sei.

    É, pois, um meta-filme, ou um meta-espectáculo dentro do filme que acaba ele mesmo por instalar-se definitivamente num hospital, fazendo confluir o mundo clínico e frio com o mundo espectacular das cores e das coreografias.

    Essa acidez com vontade de se alcalinizar, é sem duvida um dos pontos centrais do filme, trazendo singularidade ao mundo asséptico da bata branca, fazendo lembrar algum Fellini, (Oito e Meio de certeza, ou mesmo Ammarcord, arrisco eu), obras nas quais o tempo parece ter compactuado com o os 24 fotogramas por segundo, andando para trás e para a frente sem tropeçar, de forma a mostrar-nos a cabeça e os pensamentos por vezes fragmentados, por vezes claros, dos protagonistas, dizendo que aquilo que estamos a assistir vive ao mesmo tempo dentro das suas mentes.

    Em Fellini e Fosse há sempre uma vontade intrínseca de ser cinema próximo da vida, sem o realismo muitas vezes associado, ou então traduzindo uma realidade delirante, e aí sim realista, porque a própria vida também ela pode ser excessiva, e sendo assim, mais uma vez podemos viajar no tempo, e parar no presente, num contexto em que as ciências médicas têm tido um protagonismo pouco científico e a esquizofrenia generalizou-se com o fim anunciado do jornalismo e sabemos lá se do cinema.

    All That Jazz não deixa de ser um filme íntimo e perturbador, é a cabeça de Roy Sheider que transporta toda a emoção ou a carpição sofrida e introspectiva da aridez de solidões, desamores, frustrações, e até incompreensões, fazendo com que cada um de nós se identifique mais ou menos com a confissão vulnerável do autor que vai dialogando ao longo do filme com uma espécie de imagem feminina interpretada por Jessica Lange, pueril, bela e branca, fazendo acreditar por vezes ser a morte disfarçada de anjo, ao contrário da morte representada em Sétimo Selo de Bergman, por um cavaleiro vestido de negro e com uma máscara branca. Um anjo exterminador.

    Rehearsal

    Sem dúvida que All That Jazz está também imbuído de fé e crença, mesmo que alimentadas pela falsidade do mundo do espectáculo, que precisa de acreditar no teatro da vida para ser eficaz nas suas deambulações tanto intelectuais como emocionais, estando sempre à frente do olhar e da acutilância dos produtores para ganhar dinheiro, tentando passar por cima das fraquezas humanas, e das pequenas falhas de carácter, marca estúpida dos humanos.

    Esta película está sempre a ver se a luva serve na mão, usando palavras despidas, perspicazes e fortes de nos arrepiar a pele pela crueza e até pelo humor cáustico vindo da boca do actor que interpreta o stand-up comedian e que aparece quase sempre dentro de um monitor da sala de visualização enquanto parte integrante de um filme que Gideon anda a acabar, autocitando-se uma vez que já realizara anos atrás, Lenny, uma longa metragem a preto e branco que retratava a vida do cómico e trágico Lenny Bruce com Dustin Hofmann.

    All That Jazz é uma esponja auto-biográfica do autor. Absorve, processa e escorre, dá ideia que o copo foi enchendo com o passar dos tempos que imaginamos muito preenchidos enquanto observador de uma realidade mais abrangente que a da sua vida no trabalho, na família e nas mulheres, carregada de todo o tipo de excessos. É uma obra com sangue, suor e lágrimas onde o fantasma do Vietnam e dos filmes de guerra dessa época excessiva paira, mas talvez mais pelos fantasmas cinematográficos do que pela realidade do filme que andava preocupada com outros negócios. 

    É o filme que Kubrick disse ser o melhor filme que já tinha visto, pelo menos até à época, o que é uma excelente carta de apresentação e já agora o realizador de Shinning é citado numa das cenas a propósito… De filmes.

    Arrisco mais uma vez fazer uma analogia com o nosso presente pela necessidade de encontrar uma válvula de escape que ali é representada pela imagem da mulher e hoje é trazida pela cultura new age mais uma vez com Yogas e Krav Magás, passando pelos spas que jorram pelos ginásios, onde o suor é outro e as lágrimas vão secando ao ritmo de outra musica, iludido que está o publico de apaziguamento, tanto pelo controlo da ansiedade, como pelo controlo da violência intrínseca, com a tentativa de dar murros na mesa às incongruências do presente e incertezas do futuro que lhe (nos) entram pelos olhos dentro no quotidiano, e não podem, e não devem ser passivamente ignoradas.

    Uma palavra também de apreço a Roy Scheider que até aí era mais conhecido por filmes onde fazia de duro como French Connection, ou pelo grande sucesso comercial Jaws, realizado uns anos antes por Spielberg. Mas o seu desempenho mostra capacidades ecléticas bastante assinaláveis dando sempre uma energia, um entusiasmo e paradoxalmente um desgaste credível à personagem. Supostamente Gideon está sempre sobre o efeito de drogas e Scheider nunca cai no overacting em que muitos caíram em filmes limite do género, embora o argumento peça que estejam na fronteira subtil, tanto o actor, como o realizador e a personagem, ao mesmo tempo, e aí Roy Scheider é exímio fazendo de todos e talvez até de si mesmo, como é comum nos bons actores que têm coisas a dizer não se ficando pelo exibicionismo da técnica. 

    Queria terminar com uma cena do filme:

    Gideon está na maca dirigindo-se para a sala de operações. Acompanham-no de um lado a ex.  mulher e mãe da filha, e do outro a actual namorada. Olha para a primeira e convicto de que pode sucumbir na perigosa operação ao coração, diz: Se morrer peço já desculpa por todo o mal que te fiz!

    Ela chora. Depois Gideon olha para a namorada e diz: Se continuar a viver, peço já desculpa por todo o mal que te vou fazer!

    Ela ri

    Esperemos é que o cinema não sucumba na mesa de operações, por onde tem sido visto ultimamente, estando a precisar de uma válvula cardíaca nova para contrariar a sua morte anunciada.

    Mas pronto… All That Jazz continua a respirar sem a ajuda da máquina.   

    Ruy Otero é artista media

    Ilustrações de Manuel Silva


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.


    PÁGINA UM – O jornalismo independente (só) depende dos leitores.

    Nascemos em Dezembro de 2021. Acreditamos que a qualidade e independência são valores reconhecidos pelos leitores. Fazemos jornalismo sem medos nem concessões. Não dependemos de grupos económicos nem do Estado. Não temos publicidade. Não temos dívidas. Não fazemos fretes. Fazemos jornalismo para os leitores, mas só sobreviveremos com o seu apoio financeiro. Apoie AQUI, de forma regular ou pontual.

    APOIOS PONTUAIS

    IBAN: PT50 0018 0003 5564 8737 0201 1

    MBWAY: 961696930 ou 935600604

    FUNDO JURÍDICO: https://www.mightycause.com/story/90n0ff

    BTC (BITCOIN): bc1q63l9vjurzsdng28fz6cpk85fp6mqtd65pumwua

    Em caso de dúvida ou para informações, escreva para subscritores@paginaum.pt ou geral@paginaum.pt.

    Caso seja uma empresa e pretende conceder um donativo (máximo 500 euros por semestre), contacte subscritores@paginaum.pt, após a leitura do Código de Princípios.

  • É música o dia inteiro

    É música o dia inteiro


    Era muito cedo, estava frio e o guri cabeceava de sono.

    – O teu corpo pede cama – disse o avô. – Aí, tu falas para ele: moleza, não; calorzinho, não!

    Quando saíram para o pátio, a frialdade e a escuridão fizeram com que o menino estacasse. No fundo do pátio, além da cerca de arame, ele viu um traço vermelho na base do céu.

    – Vamos para o meio do pomar – disse o velho.

    A tree filled with lots of oranges under a blue sky

    Lá, entre as goiabeiras e laranjeiras, a escuridão era mais fechada. O neto sentiu um pouco de medo, teve até vontade de chorar, mas engoliu em seco e concentrou-se na figura do avô: uma mancha mais escura no meio daquele negrume.

    – Presta atenção!

    Viu que o velho se curvava e espalmava as mãos no chão gelado e que, a seguir, com um movimento ágil, jogava as pernas para trás.

    – O nome disso é apoio de solo.

    Interessado no que fazia o avô, o menino agachou-se. Percebeu então que o corpo dele, reto como uma tábua, subia e descia, movido apenas pela força dos braços.

    – Faço vinte, no mínimo. Mas, quando me irrito com os meus braços, quando eles fraquejam, dou uma ordem: mais dez!

    O piá esfregou os braços enregelados. Seus olhos correram pelo negror que o circundava. Teria algum bicho pendurado naqueles galhos molhados? Tremia de frio, seus dentes chacoalhavam.

    As juntas dos braços do velho crepitavam.

    elderly, hands, ring

    O vovô vai se desconjuntar, pensou.

    – Agora é a tua vez – disse o avô, ofegante, depois de pôr-se em pé.

    – O quê?

    O velho soprou forte para colocar a respiração em ordem.

    – Faz como eu: mão na frente do peito, corpo espichado.

    Com movimentos delicados, o avô ajudou o neto a espichar-se por cima do chão úmido.

    – Tu não precisas atingir a perfeição no primeiro dia. Tu até podes te retorcer como minhoca em areia quente que, depois, aos poucos, tu pegas a feição.

    O garoto fez dois movimentos incertos, sinuosos.

    – Faz mais um! – ordenou o avô.

    – Não aguento mais.

    – É por isso mesmo. Teu corpo tem que aprender. Quem manda é a força de vontade. O corpo só tem que obedecer.

    O menino moveu de leve o corpo.

    – Por hoje, está bom! Te levanta!

    Um galo cantou ao longe.

    – Agora, vou te mostrar o inferno – disse o velho e se dirigiu à portinhola que ficava debaixo da escada que descia da cozinha.

    Assustado, o guri parou no centro do pátio. O avô voltou-se para ele, risonho:

    – Estou só brincando, seu pateta! Temos três peças boas aqui no porão. Vem!

    Vagarosamente, o menino dirigiu-se à porta que se abriu com um rangido de filme de terror.

    – Aqui, nesta primeira peça, fica a minha oficina.

    Cauteloso, o pequeno passou pela porta aberta. Ao sentir o ranço forte de umidade e mofo, tossiu. Uma lâmpada fraca mostrava uma peça pequena, que tinha uma bancada de carpinteiro. Não teve tempo de examiná-la porque o avô já o chamava da peça seguinte.

    – Aqui dormem os passarinhos.

    O pequeno ficou encantado com o grande número de gaiolas que havia por ali. Em cada uma delas havia um bichinho sonolento.

    – Daqui a pouco vou te apresentar a eles. Todos têm nome de gente. Vem.

    Passaram à última peça.

    – E aqui, vô, o que é aqui?

    – É o depósito, onde a gente guarda coisas velhas. Te senta.

    grayscale photo of boy having haircut

    O piá ajeitou-se na cadeira que o avô lhe indicara, diante de uma penteadeira. O espelho estava rachado ao meio. No teto baixo, por cima da cabeça dele, pairava outra daquelas lâmpadas amareladas. O chão era de cimento áspero.

    Enquanto o velho furungava nas gavetas da penteadeira, os olhos do seu neto percorriam os cantos mais afastados da peça.

    É certo que aqui tem rato, pensou. Ratos e outros bichos nojentos. Cobras e escorpiões. Talvez até aqueles morcegos que chupam sangue.

    Mergulhado nessa preocupação, não percebeu que o avô estava de pé por trás dele, empunhando alguma coisa. Sentiu então o primeiro beliscão da máquina, na base do crânio.

    – Vou arranjar um corte de homem para ti – disse o velho. – Mulher é que gosta de cabelo comprido.

    A máquina mordia e remordia.

    – Tu sabes o que é vaidade?

    – O quê, vô?

    – Vaidade? Vaidade é se considerar bonito. Um homem pode ser feio. As mulheres, não. Elas são vaidosas.

    Os beliscões da máquina doíam uma barbaridade. Discretamente, o menino limpou umas lágrimas.

    – Cabelo é vaidade. Então, a gente raspa. Além do mais, a cabeça fica livre dos piolhos.

    O guri fechou os olhos com força para evitar a saída de novas lágrimas.

    – Está pronto – disse o velho, passando a mão áspera pelo pescoço do neto. – Agora, só vamos aparar, todo sábado.

    a group of birds on a wire

    Saindo dali, entraram na peça em que se encontravam os passarinhos.

    – Eles atravessam o dia todo cantando. Se prestares atenção, vais ver que sempre tem um deles piando. Um canta melhor do que o outro.

    O pequeno se aproximou de uma gaiola. Dentro dela, viu um passarinho amarelo todo encolhido. Devia estar morrendo de frio. Tentou enfiar o dedo entre as grades para acariciá-lo, mas o bichinho recuou.

    – O canto deles vai emendando um no outro. Um para e o outro começa. É música o dia inteiro.

    A atenção do guri foi atraída pela gaiola onde havia um bichinho diferente, mais bonito.

    – Qual é o nome deste aqui, o da cabecinha vermelha?

    – O nome dele é Pablo.

     – Não! Eu quero saber é a raça dele!

    – Ah, é um cardeal – respondeu o avô. – Também chamam de galinho-da-campina, mas eu prefiro cardeal.

    O passarinho não parava de mudar a cabeça de posição, sempre observando avô e o neto, muito atento.

    – É um cardeal muito sabido. Canta uma monstruosidade! Não, na verdade, não canta. Ele assobia. Queres ver?

    O velho soprou um trechinho de música e o bichinho respondeu a ele.

    red and black bird on brown wooden surface

    O garoto sorriu. Era engraçado aquilo. Então, ele próprio tentou assobiar, mas saiu-lhe um sopro meio falhado. Mesmo assim, o cardeal respondeu a ele.

    – Pablo sabe de tudo – disse o avô.

    Os outros passarinhos começaram a cantar.

    – Que maravilha! Eles não pagam imposto para cantar. Cantam e pronto. 

    Ficaram parados ali, por um bom tempo, escutando a cantoria.

    Por fim, o avô disse:

    – Vamos subir para o café. Garanto que a velha bruxa já está nos esperando com uma xícara fumegante de veneno.

    A avó, gorducha e baixinha, acintosamente cravou as mãos na cintura.

    – O que tu fizeste com o cabelo do guri, Leovegildo? O coitadinho ficou parecendo um enjeitado, um louquinho de hospício.

    – Não te mete, Edméa! Isso é coisa de homem.

    – Coisa de homem! Isso é coisa de doido! Onde já se viu raspar um coco desse jeito? Isso aqui não é quartel.

    O avô pegou uma fatia de pão e, falando alto, saiu para o pátio.

    – Vou é cuidar dos meus passarinhos que eu ganho mais.

    A velha passou a mão pela cabeça do neto.

    – Não te assusta com o teu avô. Ele é meio maluco, sim, mas tem um coração do tamanho de um bonde. Um homem que passa os dias cuidando de passarinhos não pode ser mau. Tu não achas?

    O menino concordou com um gesto de cabeça. Não respondeu porque estava mastigando um baita naco de pão com manteiga.

    – Esse velho passa o dia em função dos bichinhos – prosseguiu a vó. – Agora, vai gastar uma hora limpando as gaiolas e botando água e alpiste para eles. Depois vai espalhar as gaiolas pelo pátio. Tu vais ver. Mais tarde, ele fica trocando as gaiolas de lugar. Primeiro, bota os passarinhos no sol. Quando esquenta, leva eles para a sombra. O dia inteiro é essa dança.

    O menino coçou o pescoço. Estava com uma comichão irritante atrás da gola do pijama.

    – Onde já se viu? Zerar o cabelo do neto com uma máquina velha. Um cacheado tão lindo! Só mesmo um velho maluco! Cada vez ele está mais maniático. Por acaso ele te ensinou a fazer ginástica?

    O menino sacudiu afirmativamente a cabeça, e pegou uma nova fatia de pão.

    – É um exagero. Garanto que faz mal para a saúde dele. Está ficando gagá. É só para se mostrar para ti. Se tu morasses aqui na nossa cidade, se não viesses para cá só nas férias de julho, ele não se exibia tanto para ti. Como é que ele não tem vergonha? Só os passarinhos mesmo para aguentar esse velho rabugento.

    Lourenço Cazarré é escritor


    PÁGINA UM – O jornalismo independente (só) depende dos leitores.

    Nascemos em Dezembro de 2021. Acreditamos que a qualidade e independência são valores reconhecidos pelos leitores. Fazemos jornalismo sem medos nem concessões. Não dependemos de grupos económicos nem do Estado. Não temos publicidade. Não temos dívidas. Não fazemos fretes. Fazemos jornalismo para os leitores, mas só sobreviveremos com o seu apoio financeiro. Apoie AQUI, de forma regular ou pontual.

    APOIOS PONTUAIS

    IBAN: PT50 0018 0003 5564 8737 0201 1

    MBWAY: 961696930 ou 935600604

    FUNDO JURÍDICO: https://www.mightycause.com/story/90n0ff

    BTC (BITCOIN): bc1q63l9vjurzsdng28fz6cpk85fp6mqtd65pumwua

    Em caso de dúvida ou para informações, escreva para subscritores@paginaum.pt ou geral@paginaum.pt.

    Caso seja uma empresa e pretende conceder um donativo (máximo 500 euros por semestre), contacte subscritores@paginaum.pt, após a leitura do Código de Princípios.

  • Vem aí trovoada!

    Vem aí trovoada!

    A manhã acontece com a tranquilidade própria dos primeiros dias de setembro. Uma pausa entre o corrupio das férias e o do trabalho. O caminho quase deserto. A brisa fresca convida à preguiça no terraço. Um fundo azul-céu. O sol a derramar dourado sobre a paisagem. A luz a tocar ao de leve as copas verdes dos pinheiros mansos. Luminosas por fora. Sombrias por dentro. O vaivém dos pássaros a traçar linhas entre as árvores do mato e as do quintal. Os hibiscos floridos. Grandes. Alegres. Nas paredes, osgas gordas, moles, a aproveitar o que resta do verão. Um dia perfeito. Um velho passa e dá de vaia. Daí a uns minutos, outro. Aposentados. Indiferentes ao calendário. Os dias são apenas dias. O percurso diário, circular como o tempo: exercício, terapia, passeio, lugar de encontro.

    O senhor da bicicleta passa para cima e para baixo, para baixo e para cima. Dá as voltas que a idade lhe permite e que o médico recomendou. Não perde a oportunidade para lembrar às duas amigas que passam que: – Já não era para estar aqui hoje! Uma pessoa tem de se mexer.  Elas confirmam, acrescentando a importância de espairecer.  E lá vão. Elas para baixo, ele para cima. Poucos minutos depois, novamente a bicicleta. Cruza-se, desta feita, com uma senhora roliça, peito de pomba, passada lesta e ar de quem sabe coisas:

    ⎼ Vem aí trovoada!  ⎼   exclama.

    ⎼  Pois vem! ⎼   confirma ele, continuando a pedalar.

    a pink flower with green leaves

    Olho para o céu e não vejo os sinais. Também não questiono. A moleza tomou conta de mim. Continuo refastelada a observar.  Reparo como se cruzam, mas não param.  Por hoje, estão conversados. Conhecem-se bem. Sabem das vidas, das famílias, das maleitas uns dos outros. Além disso, um pouco mais adiante, um vizinho instalou um cadeirão debaixo de uma árvore e passa ali boa parte do seu tempo, garantindo que todos ficam ao corrente das novidades.

    Ocorre-me, entretanto, que há vários dias que não vejo uma  das senhoras que por aqui costuma passar. Aguardo alguém que me possa dar notícias. Mais uma vez, a bicicleta. Aceno e pergunto se sabe o que é feito  da vizinha. Conta-me que cegou. Que já não sai:

    ⎼ Não vê nadinha! ⎼ reforça.

    Está morta, penso. Tão triste!

    Um pé atrás do outro, uma pedalada depois da outra, um cumprimento, a frase que se atira sem esperar resposta: Está fresquinho!; É preciso é ir andando!; Ah, valente!; É p’rá medalha!  Provas de vida. Garantias renovadas de que ainda se está aqui. De que se é. O que importa saber se vem trovoada? Por aqui, confirma-se que se está vivo, que se vê e se é visto, que se ouve e se é ouvido. Exercita-se a certeza que se desmancha cada dia.

    a bicycle parked in front of a house

    A senhora que sabe coisas volta a passar.

    ⎼ Vem aí trovoada!  ⎼ grito-lhe.

    ⎼  Pois vem! Ê lhe disse, J’quim? ⎼ responde, olhando para o meu interlocutor.

    ⎼ Tá visto que sim.  ⎼ diz ele com um sorriso.

    Um para cima, outro para baixo.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve


    PÁGINA UM – O jornalismo independente (só) depende dos leitores.

    Nascemos em Dezembro de 2021. Acreditamos que a qualidade e independência são valores reconhecidos pelos leitores. Fazemos jornalismo sem medos nem concessões. Não dependemos de grupos económicos nem do Estado. Não temos publicidade. Não temos dívidas. Não fazemos fretes. Fazemos jornalismo para os leitores, mas só sobreviveremos com o seu apoio financeiro. Apoie AQUI, de forma regular ou pontual.

    APOIOS PONTUAIS

    IBAN: PT50 0018 0003 5564 8737 0201 1

    MBWAY: 961696930 ou 935600604

    FUNDO JURÍDICO: https://www.mightycause.com/story/90n0ff

    BTC (BITCOIN): bc1q63l9vjurzsdng28fz6cpk85fp6mqtd65pumwua

    Em caso de dúvida ou para informações, escreva para subscritores@paginaum.pt ou geral@paginaum.pt.

    Caso seja uma empresa e pretende conceder um donativo (máximo 500 euros por semestre), contacte subscritores@paginaum.pt, após a leitura do Código de Princípios.

  • Babel, ou os equívocos de um acordo ortográfico

    Babel, ou os equívocos de um acordo ortográfico

    Emigrando do Oriente, os descendentes de Noé inundaram a planície de Chinear. Foi a conta-gotas. Primeiro chegou Cuche e seu filho Nimerod, um valente caçador diante do Senhor; depois o primo, a seguir o sobrinho do cunhado, mais tarde o sogro do tio, pouco depois o genro do neto, e as respectivas mulheres, e tantos e tantos outros que, em pouco tempo, era tamanha a batelada de parentescos cruzados que já ninguém entendia ou percebia quem era quem em relação a Noé. Pouco importava: constituíam um povo uno e navegavam pelo quotidiano ao sabor de uma única língua.

    Havia um clima aprazível, sem alterações, a paisagem se mostrava venusta, da terra manavam gados e verduras, os homens entretendo-se em labores e muito ócio, as mulheres em desvelos pelos filhos e comidas, e os velhos gozando resplandescentes tardes de cavilhadas num chão sempre húmido de refrescantes e curtas chuvas. Harmonia, paz e sossego reinavam naquelas paragens. O paraíso terreno pós-Éden. Andavam assim todos satisfeitos em suas vidinhas, sem malquerenças nem segregamentos.

    tower, factory, headframe

    Enfim, por tudo isto, vivalma queria arredar pé daquela planície, que de arraial passara a lugarejo, de lugarejo evoluíra para póvoa, de póvoa transmutara-se em aldeota, de aldeota crescera para vilarejo. E chegando-se a vila, quis-se mais. «Faça-se uma cidade», disse Nimerod. E a cidade fez-se. Muralhas, fortalezas, casas sólidas, poisos de descanso e de ócio. E o povo viu que era coisa boa, feita apenas pela mão do homem, sem qualquer ajuda nem orientação divina. E ambicionaram mais. «Uma torre, cujo cimo atinja os céus», decretou Nimerod, aplaudido por conselheiros.

    Para isso, aditou alguém, havia de se encontrar alternativa às pedras. Nomeou-se portanto comissão adequada, task force como sói dizer-se agora, escolhendo para a liderar ancião hirsuto nos modos, mas de alva e imaculada barba, que, à quarta semana de investigações e experiências, inventou os tijolos, cozidos em fogo, e ainda um betume de asfaltos vindos mar e das fontes de água da terra de Sinar. «Assim, havemos de tornar-nos famosos para evitar que nos dispersemos por toda a superfície da Terra», declarou logo Nimerod.

    Um arquitecto foi então nomeado para orientar uma grandiosa e não pouco majestática torre. Andando a obra em bom ritmo, os tijolos tão sólidos, que nem ferro precisavam, e já se alcançara os quatrocentos e sessenta e três cúbitos de altura, foi Deus servido descer à terra e, vendo aquela empreitada, vociferou: «Não gosto disto». «Mas quando os acabamentos se fizerem, vai ficar uma beleza», argumentou o arquitecto. «Não é uma questão de estética. Se principiarem desta maneira, coisa nenhuma vos impedirá, de futuro, de realizaram todos os vossos projectos», atirou o Senhor. «E qual é o problema? Se somos semelhantes a Vós, também podemos construir nesta terra sob os céus algo idêntico ao que presumimos exista nos próprios céus. Estou mesmo a conceber uma broca para, quando nos abeirarmos da porta, a furarmos para saber se é feita de barro, de latão ou de ferro», ainda replicou o arquitecto. «Pode ser útil para subirmos mais», acrescentou.

    Deus saiu do sério: «Mas que estupidez é essa?! Era o que faltava quererem-me igualar. Os humanos vão para o céu quando eu os arrebato da Terra. E ponto final nesta conversa e nesta obra. E é para já».

    ai generated, tower of babel, scattered tribes

    Temeroso destas divinas ameaças – até porque, após o Senhor se ter eclipsado, trovejou rijamente, e um relâmpago estilhaçou um parapeito e deslocou um andaime –, o arquitecto remeteu um relatório circunstanciado às autoridades, solicitando que, com urgência e de forma clara, lhe indicassem se o seu projecto deveria ser reequacionado.

    Horas depois, uma lacónica missiva de Nimerod chegou às mãos do arquitecto. «Em reunião de emergência, malgrado o que está em causa, e considerando as palavras do Senhor, informo que, sobre a questão em apreço, a nossa decisão é peremptória: NÃO, PARA JÁ». Portanto, assim sendo, lido o escrito, e sobretudo as maiúsculas, o arquitecto continuou obedientemente a obra, e sacou então de uma broca para furar os céus, convencido estava de o amanuense ter usado uma preposição.

    Mas não: o amanuense apenas cumprira a norma de um novo acordo ortográfico que estabelecera a supressão do acento agudo na forma verbal do presente do indicativo do verbo parar.

    Equívoco grave, como sabeis: com o barulho da broca entrando pelos céus, Deus irritou-se e tratou de confundir a língua deste povo. Os erros de construção sucederam-se, a torre colapsou, as gentes desentenderam-se e todos os descendentes de Noé acabaram se dispersando em caótica algaraviada pelos quatro cantos do Mundo, incluindo para o pequeno pedaço da Europa onde hoje ainda se fala português, e se escreve em acordo ou em desacordo com o tal acordo ortográfico…


    PÁGINA UM – O jornalismo independente (só) depende dos leitores.

    Nascemos em Dezembro de 2021. Acreditamos que a qualidade e independência são valores reconhecidos pelos leitores. Fazemos jornalismo sem medos nem concessões. Não dependemos de grupos económicos nem do Estado. Não temos publicidade. Não temos dívidas. Não fazemos fretes. Fazemos jornalismo para os leitores, mas só sobreviveremos com o seu apoio financeiro. Apoie AQUI, de forma regular ou pontual.

    APOIOS PONTUAIS

    IBAN: PT50 0018 0003 5564 8737 0201 1

    MBWAY: 961696930 ou 935600604

    FUNDO JURÍDICO: https://www.mightycause.com/story/90n0ff

    BTC (BITCOIN): bc1q63l9vjurzsdng28fz6cpk85fp6mqtd65pumwua

    Em caso de dúvida ou para informações, escreva para subscritores@paginaum.pt ou geral@paginaum.pt.

    Caso seja uma empresa e pretende conceder um donativo (máximo 500 euros por semestre), contacte subscritores@paginaum.pt, após a leitura do Código de Princípios.

  • É a Oceania, estúpido!

    É a Oceania, estúpido!


    Logo após as Olímpiadas de Tóquio, em 2021, escrevi um artigo – intitulado “É a Oceania, estúpido!” – no qual afirmava uma obviedade pouco divulgada: o Continente vencedor da maior competição esportiva do Planeta era aquele formado por dois países de rarefeita população (Austrália e Nova Zelândia) e mais doze pequenas nações espalhadas por incontáveis ilhas. Agora, após os Jogos Olímpicos de Paris, vejo aquela afirmação assegurada por números ainda mais expressivos.

    Mas vamos por partes, como dizem os legistas!

    Critério burro

    O quadro de medalhas aponta as nações que capturam o maior número de galardões, estabelecendo-se a colocação delas de acordo com os ouros conquistados, depois as pratas e, por fim, os bronzes. É um critério burro, acho.

    Disse-me um amigo, José Cruz, reconhecido jornalista desportivo, que esse quadro não foi invenção do Comitê Olímpico, mas sim da imprensa. Nasceu, consolidou-se e, aparentemente, nunca ninguém se revoltou contra o fato de ser injusto.

    Pesos diferentes

    Penso que teríamos uma avaliação mais sensata, se déssemos um peso diferente a cada tipo de medalha. Exemplo: cada primeiro lugar valeria três pontos; uma segunda colocação representaria dois pontos; e uma terceira renderia apenas um ponto.

    Já existe

    Quando apresentei essa minha tese a outro jornalista, Mário Medaglia, ele me informou que, nos jogos Abertos de Santa Catarina (uma das mais fortes disputas desportivas do Brasil) a premiação vai do primeiro colocado (13 pontos) até o sexto lugar (1 ponto).

    O Brasil avança

    O Brasil, que foi o vigésimo classificado em Paris, com um total de 20 troféus, sucede a Irlanda, a décima-nona, que obteve somente. Por quê? Porque a terra de James Joyce ganhou quatro medalhas douradas enquanto Pindorama obteve só 3.

    Aplicando-se a fórmula (de pesos diferentes) que propus acima, o Brasil (com 3 ouros, 7 pratas e 10 bronzes) somaria 33 pontos. Já a Irlanda (4 ouros, nenhuma prata e três bronzes) ficaria com exatos 11 pontinhos.

    Um só ponto

    Vamos a outro critério possível: cada medalha (indiferentemente da matéria em que foi forjada) valeria um ponto.

    Assim, o Brasil (com 20 medalhas) saltaria para a décima-terceira posição, logo atrás do Canadá (27), e ultrapassando Uzbequistão (13), Hungria (19), Espanha (18), Suécia (11), Quênia (11), Noruega (8) e Irlanda.

    População

    Deixando de lado essas especulações, passemos a uma avaliação que me parece, realmente, a mais representativa do verdadeiro papel que o esporte representa na vida de cada país. Ou na vida dos cidadãos de um determinado país.

    Trata-se do critério relação medalha/população.

    EUA e China, os vencedores que não ganharam

    Os Estados Unidos, vencedores desta Olimpíada, amealharam um total de 126 prêmios. Dividindo-se esses galardões pelo número de habitantes (333 milhões) do País do Mickey Mouse, constatamos que cada medalha saiu do suor de um grupo de 2,6 milhões de cidadãos.

    Seguindo na mesma toada, a segunda colocada, a China, com suas apenas 91 medalhas, divididas pela sua incalculável população (1,4 bilhão), conseguiu um prêmio para cada 15,3 milhões de cidadãos.

    Japão

    Continuemos na mesma linha. A terceira nação mais premiada, o Japão, que tem uma população (120 milhões) entre dez e onze vezes menor que a chinesa, obteve quase que a exata metade (45) de prêmios arrematados por aquele seu (incômodo, garantem os maldizentes) vizinho.

    Explicando melhor aos ruins de Matemática: o Japão deu uma medalha a cada 2,7 milhões de seus moradores. Índice quase idêntico ao dos Estados Unidos.

    Em outras palavras, proporcionalmente, o país de Kurosawa ganhou cinco vezes mais troféus que a terra daquele gorducho, anteriormente chamado Mao Tsé Tung, que recentemente ganhou um nome horrível.

    Oceania

    Sigamos. A pequena Nova Zelândia (5 milhões de habitantes) conquistou dez medalhas. Ou seja, uma medalhinha para cada 500 mil habitantes. O mesmo ocorreu com sua vizinha, a Austrália, que (com suas 53 medalhas) deu uma premiação a cada meio milhão de seus cidadãos.

    Ou seja, proporcionalmente, australianos e neozelandeses ganharam 30 vezes mais prêmios do que seus vizinhos não tão distantes assim, os cidadãos do Império do Meio.

    No tapa

    Já nós, tupinambás, teremos que dividir, aos tapas ou aos golpes de tacape, uma medalha entre cada dez milhões de habitantes. Não chega a ser um número ruim, se observamos a China. Mas é péssimo, quando nós nos voltamos para a Oceania.

    Temperaturas decentes

    Aliás, dizem alguns que Austrália e Nova Zelândia são países favorecidos – na prática desportiva – pelo seu clima, marcado por temperaturas decentes.

    Como se sabe a vocação desportiva dos anglo-saxões é irrefutável. Inventaram quase todos os esportes, com exceção do frescobol, do futevôlei e do vôlei de praia, criados por uma “gente bronzeada” que sabe “mostrar seu valor” (como apregoa a cantiga dos Novos Baianos).

    Mas os moradores do Reino Unido não foram privilegiados no quesito clima. Isso, não. Padecem muita chuva e muito frio.

    Assim, quando me refiro a “temperaturas decentes”, estou levando em conta que há muitos países do Norte da Europa que contam com invernos que duram nove meses. E a prática desportiva por lá só pode ser desenvolvido em ginásios. Nada muito problemático para aquelas nações, em geral muito ricas, mas ao ar livre seria mais divertido e confortável.

    O detalhe do solzinho

    Para alguém nascido nas vizinhanças da linha do Equador passar nove meses por ano sem um solzinho no lombo seria uma tortura insuportável.

    Continentes

    Dos vinte países que encabeçam a lista dos mais premiados em Paris, dez são europeus (França, Holanda, Grã-Bretanha, Itália Alemanha, Hungria, Espanha, Suécia, Noruega e Irlanda), quatro são asiáticos (China, Japão, Coreia e Uzbequistão), dois são da América do Norte (EUA e Canada), dois da Oceania (Austrália e Nova Zelândia), um da América do Sul (Brasil) e um da África (Quênia).

    Quase todos são países de renda média elevada, com exceção do pobre Quênia e do desconhecido Uzbequistão (república integrante daquilo que anteriormente era conhecido como Sovietistão).

    E do Brasil, claro, que embora tenha o quinto território mais extenso, a sétima maior população e o sétimo Produto Interno Bruto, consegue manter boa parcela da sua população circulando em volta da chamada linha da pobreza.

    Lembranças

    Para comparar, vejamos os dados da Olimpíada de 2021. Nela, a Nova Zelândia, que ocupou o décimo-terceiro posto – logo atrás do Brasil – ganhou 20 medalhas. A Austrália subiu 46 vezes ao pódio.

    Cadê Cuba?

    Vale mais uma lembrança, a de uma nação americana que antigamente se destacava na competição. Há três anos, Cuba obteve 15 medalhas e acabou em décimo-quarto lugar da classificação geral. Agora, caiu para o trigésimo-segundo lugar, com apenas 9 medalhas.

    Teve, claro, melhores desempenhos nos anos em que recebia ajuda econômica da defunta União Soviética.

    a man with a flag on his back walking down the street

    O mistério

    Mas o grande mistério olímpico continua sendo o Quênia (66º lugar em PIB), dos grandes corredores de longas distâncias.

    Explicando o título

    Muitas vezes precisamos reforçar aquilo que nos parece óbvio. O óbvio ululante, como diria o nosso maior teatrólogo.  

    No caso deste artigo, recorri a uma frase – “The economy, stupid” (É a economia, idiota) – que teria sido forjada em 1992 por James Carville, na época o estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton contra George H. W. Bush para reforçar a ideia de que a economia – isso é claríssimo, patente, manifesto – tem um papel determinante em uma eleição presidencial.

    Lourenço Cazarré é escritor


    PÁGINA UM – O jornalismo independente (só) depende dos leitores.

    Nascemos em Dezembro de 2021. Acreditamos que a qualidade e independência são valores reconhecidos pelos leitores. Fazemos jornalismo sem medos nem concessões. Não dependemos de grupos económicos nem do Estado. Não temos publicidade. Não temos dívidas. Não fazemos fretes. Fazemos jornalismo para os leitores, mas só sobreviveremos com o seu apoio financeiro. Apoie AQUI, de forma regular ou pontual.

    APOIOS PONTUAIS

    IBAN: PT50 0018 0003 5564 8737 0201 1

    MBWAY: 961696930 ou 935600604

    FUNDO JURÍDICO: https://www.mightycause.com/story/90n0ff

    BTC (BITCOIN): bc1q63l9vjurzsdng28fz6cpk85fp6mqtd65pumwua

    Em caso de dúvida ou para informações, escreva para subscritores@paginaum.pt ou geral@paginaum.pt.

    Caso seja uma empresa e pretende conceder um donativo (máximo 500 euros por semestre), contacte subscritores@paginaum.pt, após a leitura do Código de Princípios.