Categoria: Correio Mercantil

  • Dos inconvenientes e ocasionais virtudes de me ver embrulhado com jurisconsultos

    Dos inconvenientes e ocasionais virtudes de me ver embrulhado com jurisconsultos


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Sempre tive, desde os meus mais verdes e improdutivos anos — os únicos verdadeiramente úteis, porque neles nada se espera e, por isso mesmo, nada se perde —, ternura pelos reformadores. Não por aqueles que mudam algo, entenda-se, porque esses são, por norma, homens enfadonhos, de mangas arregaçadas, tabelas, regulamentos e hálito de repartição.

    Refiro-me antes, sim, aos reformadores de essência: aqueles cavalheiros tocados por uma espécie de febre moral que os leva a acreditar que a criatura humana, com suficiente método, bibliografia e perseverança, pode tornar-se um animal mais racional, mais justo e até, admire-se, mais prudente.

    Conheci alguns.

    Relembro-me, por exemplo, do conselheiro Anacleto de Péricles e Alvarenga, homem grave, barba acerada, leitor aplicado de Montesquieu, Beccaria, Bentham, Stuart Mill e Comte, que nas digestões mais longas sustentava que o Direito, se calibrado sob judicioso critério, extinguiria os vícios sociais como um jardineiro diligente extermina lagartas em roseiral. Acabou, porém, ludibriado pelo próprio genro, rapaz de suíças românticas e excelente dicção francesa, que lhe dissipou metade da prataria com papéis de crédito, uma companhia mineira inexistente e uma sósia de Adelina Patti com menos voz e mais tornozelo. E, segundo rumores persistentes, levou-lhe mesmo uma pequena estatueta de Minerva.

    Outro foi o desembargador Euclides Tangente de Chavigny, filho de diplomata afrancesado que ouvira Guizot à mesa, venerava Comte e tratava Descartes como director espiritual, acabado em magistrado de convicções geométricas, homem persuadido de que a razão judicial, disciplinada e desapaixonada, pairava acima das fraquezas comuns como um balão filosófico. Possuía o singular talento de confundir compostura com inocência e nervosismo com culpa — erro que, convenhamos, arruinou já mais destinos do que a sífilis e os empréstimos familiares. Certa vez, condenou um modesto caixeiro por furto com base, entre outros indícios, no “olhar esquivo” e na “resposta excessivamente pronta”, sinais inequívocos, segundo explicou, de consciência perturbada. Veio depois a saber-se que o homem era apenas tímido, gago em situações de autoridade e profundamente intimidado por bigodes judiciais. Convém informar que o verdadeiro autor do delito era o sobrinho de um comerciante, sujeito jovial e de excelente presença, incapaz, ao que parecia, de mostrar culpa.

    Enfim, a natureza humana tem este mau gosto de persistir nos românticos. Por isso, mantenho o meu olhar de cadáver observador — condição mui útil para julgar entusiasmos humanos sem risco de contágio por hantavírus ou norovírus transmitidos por sevandijas diversas —, com simultânea simpatia e sobrancelha arqueada (que já nem tenho), sobre os homens que ainda pretendem humanizar a justiça. Convenhamos que, ao fim de tantas gerações, desde os tempos de Gaio e Ulpiano, se mostra intenção nobre, embora a probabilidade de êxito se situe algures entre a restauro moral da política e a pontualidade das promessas eleitorais.

    Tal disposição de espírito talvez explique por que motivo não me escandalizou — antes me concedeu a indulgência com que as inteligências menos vulgares observam as industriosas combinações da espécie — a notícia recente de me ver associado, por expediente comercial, a um jurisconsulto contemporâneo. Sempre suspeitei que acabaria empacotado com juristas. Há piores destinos: já fui visto ao lado de poetas menores – e até de Sócrates, o José, pois o ateniense teve a prudência de nada escrever.

    Foi, pois, assim que me chegou às mãos a obra do causídico e jurisconsulto Miguel dos Santos Pereira, esse operário das lides forenses que tanto pleiteia por absolvições como se ocupa de iluminar os corredores lusitanos da Administração Pública, que, por hábito ou conforto, aprecia a penumbra.

    Confesso que abordei o volume com uma pergunta que a mais elementar higiene intelectual recomenda: estaria perante um desses ingénuos que julgam corrigível a Humanidade com conferências, bibliografia e terminologia técnica, ou diante de mim tinha um homem sensato, já instruído pela experiência de que os defeitos da nossa espécie raramente se deixam impressionar por notas de rodapé? Cumpre dizer, em justiça, que o doutor Miguel não parece pertencer à primeira categoria.

    O seu Primado do Direito não é nenhum panfleto de fé institucional, desses onde se proclama que a justiça falha apenas por escassez de meios, ligeira distracção administrativa ou insuficiente digitalização. A sua tese é mais incómoda — e, por isso mesmo, mais interessante: sustenta que a própria arquitectura da decisão judicial se encontra contaminada pelas limitações cognitivas daqueles que a produzem; que a memória, a percepção, a convicção, a narrativa e até a emoção conspiram, em silêncio, no acto de julgar.

    Ou seja, descobre, com aparato científico respeitável, aquilo que a literatura já suspeitava desde que Caim prestou declarações sem advogado. E é mesmo aqui que este vosso doutor – nos meus tempos seria bacharel – toca num ponto sério.

    Subsiste, de facto, desde sempre, uma dificuldade metafísica que nem os augustos desembargadores de arcada sentenciosa nem os conselheiros de bem engomada gravidade alguma vez resolveram com a abundância de latim: como alcançar a verdade quando ela comparece em tribunal fragmentada em múltiplas consciências, cada qual persuadida de possuir ao menos a sua parcela legítima?

    Veritas! O advogado da acusação contempla-a de um ângulo; o da defesa, de outro, com zelo não menos convicto e facturação igualmente meritória; o procurador empresta-lhe a solenidade funcional do Estado; e o juiz recolhe todos esses estilhaços com a dignidade própria da toga, procurando recompô-los numa narrativa suficientemente robusta para merecer o nome de justiça.

    E se a estes acrescentarmos os arguidos — criaturas por vezes mais imaginativas do que sinceras —, os assistentes — cuja dor nem sempre é boa arquivista —, as testemunhas — essas romancistas involuntárias da memória retrospectiva, nem sempre em perfeita consonância com os interesses dos patronos —, e até o oficial de justiça — esse discretíssimo Atlas burocrático que suporta o teatro quotidiano da degradação humana por vencimento modesto —, percebe-se que a verdade judicial talvez seja menos um bloco marmóreo aguardando a mão reveladora do escultor e mais um mosaico de tesselas moldadas em diversas terracotas, cozidas em fornos distintos e reunidas pela mera conveniência da composição.

    A ficção de que a verdade entra intacta pela porta do tribunal, toma assento diante do magistrado e aguarda reconhecimento como uma senhora decente e bem aparentada, com os papéis em ordem, sempre me pareceu mais própria de romance medíocre do que de epistemologia.

    Ora, com utilíssima inquietação, minhas perspicazes leitoras e meus hermenêuticos leitores, o doutor Miguel presentifica-vos de que a memória reconstrói, que a percepção filtra, que a narrativa seduz e que a convicção se veste amiúde de certezas apenas porque desconhece a fragilidade da sua própria costura. Isto, para um defunto que passou boa parte da eternidade a desconfiar da sinceridade humana, não deixa de ser reconfortante.

    Descobre-se, ainda assim, nas páginas desta dissertação sobre as hesitações da mente togada, um enternecedor optimismo — uma dessas esperanças que a experiência ensina a tratar com afectuosa reserva — de que, iluminando a magistratura com neurociência, psicologia cognitiva e humildade filosófica, ela se desprenda dos seus velhos hábitos inquisitoriais. Concebo semelhante metamorfose com a mesma confiança elegante com que certos fumadores anunciam a despedida do charuto, reservando-se o direito de o reacender após o jantar.

    Enfim, as instituições têm memória mais resistente do que as testemunhas. Ainda assim, não nego a nobreza do empreendimento. Aliás, se folheasse este Primado do Direito, Aristóteles lembraria que a prudência nunca foi disciplina exacta. Montaigne resgataria da memória que a razão humana oscila ao sabor dos humores. Pascal recordar-vos-ia — “Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point” — que nem toda a convicção nasce sob jurisdição da lógica. E Schopenhauer, com a sua proverbial antipatia pela espécie, que enalteço, explicaria que a razão entra tarde, apenas para justificar desejos já instalados. Já Balzac. limitar-se-ia a sorrir.

    Vista assim a matéria, devo reconhecer que a ideia desta promoção editorial, de meterem o meu Correio Mercantil no mesmo envelope de expedição do Primado do Direito é menos absurda do que me parecera de início.

    Se Miguel dos Santos Pereira vos explica que a justiça deve desconfiar da facilidade com que se constroem verdades, eu então passei a vida — e parte considerável da morte — a demonstrar que até a autobiografia e a crónica são exercícios de fraude penteada com aisance parisiense. Portanto, o leitor leva a teoria e recebe o espécime.

    Mas porque suspeito de que alguns dos compradores deste severo tratado jurídico talvez ainda não tenham frequentado devidamente as minhas Memórias Póstumas ou este meu Correio Mercantil — lacuna remediável por via desta engenhosa promiscuidade editorial —, permito-me oferecer antes alguns conselhos complementares ao excelente volume do doutor Miguel. Não porque o Primado do Direito deles careça, mas porque a condição humana, tema principal de qualquer tribunal e de quase toda a literatura decente, beneficia sempre de observações suplementares.

    Primeiro: jamais transformem a neurociência numa nova teologia.

    Conheci, no meu tempo, o conselheiro Leôncio de Andrade Vilela, homem de severidade mandibular e grande confiança na frenologia, ciência segundo a qual a protuberância craniana revelaria as inclinações morais do indivíduo. Bastava-lhe examinar a cabeça de um acusado como um horticultor inspecciona melões. Estou em crer que, se vivesse no vosso século, trocaria os compassos por imagens cerebrais coloridas e condenaria com igual entusiasmo, apenas com vocabulário mais caro.

    Segundo: jamais aguardem em demasia pela humildade institucional.

    Recordo, neste ponto, o desembargador Plácido Matias de Meneses, cavalheiro tão incapaz de admitir erro que, tendo absolvido por engano um burlão contumaz, sustentou durante anos que a reincidência posterior apenas confirmava a justeza da indulgência anterior. Quando confrontado com o absurdo lógico da tese, respondeu que a coerência institucional exigia estabilidade interpretativa. Sem agravo dos factos, as instituições apreciam reconhecer erros históricos, mas, quanto aos presentes, preferem baptizá-los de complexidades operacionais — expressão moderna para aquilo que no meu tempo se chamava teimosia bem remunerada.

    Terceiro: jamais subestimem a capacidade humana para racionalizar preconceitos com linguagem técnica.

    Passeou-se no Rio, por anos, o doutor Clemente Barbacena de Noronha, magistrado de impecável gravata e profunda antipatia por homens de bigode e cavanhaque. Nunca confessou semelhante aversão; limitou-se a notar que tais indivíduos revelavam “traços de personalidade compatíveis com predisposição moral duvidosa”. O preconceito, quando aprende sintaxe académica, torna-se extraordinariamente respeitável.

    Quarto: evitem que a dúvida, sendo virtude, degenere em paralisia.

    Mas devem cuidar do inverso: a certeza excessiva tem capacidade de produzir espécimes como o corregedor Fortunato Xavier Cavalcanti, que iniciava a leitura das peças processuais com a expressão de quem se recordava perfeitamente do crime, embora jamais tivesse conhecido nem o facto nem o réu. Tinha ele um faro prodigioso para a culpabilidade aparente. Era absolutamente infalível, excepto quando se enganava.

    Quinto: leiam romancistas.

    Dostoiévski compreendeu a culpa antes de muitos psiquiatras. Balzac percebeu magistrados melhor do que numerosos processualistas. Shakespeare conheceu as emboscadas da ambição e da hesitação antes de lhes chamarem mecanismos cognitivos. Proust farejou as traições da memória antes de a neurociência lhes conferir aparato laboratorial. La Rochefoucauld desmontou o amor-próprio com mais elegância do que muitos anatomistas da alma humana. E não acrescento mais, porque, se convoco outros, ainda me aparecem a pedir jantar.

    Sexto e último: conservem o sonho, mas tratem-no com prudência.

    Porque reformar a justiça pressupõe uma esperança digna das páginas de Utopia: a de que os homens, ao compreenderem melhor os seus defeitos, desejarão sinceramente corrigi-los. Ora, a experiência — essa universidade onde os diplomados raramente melhoram e frequentemente ascendem — ensinou-me, com precisão, o contrário. Conheci homens que identificavam os seus defeitos com admirável nitidez e, acto contínuo, passavam a administrá-los com maior eficiência.

    Alguns chegaram a ministros, como o visconde Aprígio de Albuquerque Paranhos, cuja vaidade exigia antessala mais ampla do que o próprio gabinete. Outros a juízes, como o desembargador Belarmino de Sá Cotegipe, que confundia severidade com justiça, ou o doutor Tibúrcio Fortunato de Menezes Werneck, que, com superciliosa empáfia, trazia a sentença desenhada no sobrolho muito antes de ouvir a primeira testemunha.

    Os espécimes mais completos, naturalmente, saíram conselheiros, como o digníssimo Anacleto de Vasconcelos e Alvarenga, cuja gravidade sobrevivia até às sobremesas; o preclaríssimo Epaminondas de Albuquerque Barbacena, homem de tal prudência que jamais permitia aos factos comprometerem uma convicção amadurecida; e o sereníssimo Aprígio Onofre de Alencastro Teles, cuja principal virtude consistia em nunca duvidar de si próprio, sobretudo quando mais razões havia para o fazer.

    Se destes cavalheiros ainda restarem retratos em alguma galeria abafada, rogo às benfazejas donzelas e aos misericordiosos cavalheiros que lhes façam a caridade de um pano; não para lhes limpar a poeira, mas para, cobrindo-os, lhes pouparem a vergonha.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • Polícias na rua, ou o elegante ofício de emagrecer amputando a perna

    Polícias na rua, ou o elegante ofício de emagrecer amputando a perna


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    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Certos homens, mal lhes assentam nos ombros os galões da autoridade, experimentam uma súbita metamorfose intelectual que os persuade de que a inteligência administrativa nasceu no preciso instante das suas nomeações. Até essa manhã providencial, o Estado teria sido governado por uma longa confraria de criaturas bem-intencionadas, talvez diligentes, mas incapazes de conceber a solução luminosa que agora, entre um despacho, uma entrevista e um café protocolar, se revela ao novo eleito como se Minerva lhe tivesse saído da fronte.

    A História, para tais espíritos, não constitui arquivo de experiência; funciona antes como um vasto catálogo de insuficiências alheias destinado a valorizar a sua aparição.

    A espécie não é nova. Júlio César atravessou rios e convenções com a elegante convicção de que Roma coincidia, no essencial, com a sua própria pessoa; Alexandre julgou que o mundo se reorganizaria à medida da sua espada; certos imperadores romanos posteriores trataram o poder como uma forma de autobiografia armada; Carlos V sonhou com uma Cristandade ordenada sob a sua tutela fatigada; Filipe II, enclausurado na solenidade mineral do Escorial, imaginou talvez que a fé e a papelada bastariam para disciplinar continentes inteiros.

    Mais tarde, Robespierre acreditou que o Terror serviria uma pedagogia moral, como se a virtude precisasse apenas de uma guilhotina bem afinada; Napoleão persuadiu-se de que a Europa poderia ser rearrumada como cómoda excessivamente cheia, bastando-lhe redistribuir reinos como quem troca meias de gaveta; Lenine julgou que a natureza humana aceitaria ser reescrita por decreto; Mussolini encenou-se como refundador imperial de opereta; Estaline levou essa fantasia à escala industrial, com a delicadeza habitual das locomotivas; Hitler, esse lunático com pretensões arquitectónicas, quis reorganizar povos, fronteiras e até a biologia; e Mao ofereceu à China o Grande Salto em Frente, expressão que descreve, com lirismo involuntário, uma marcha colectiva para o abismo.

    Querem mais exemplos? Eu vo-los dou. Dos meus tempos do Brasil Imperial, recordo-me do conselheiro honorário Anacleto Fortunato de Albuquerque, homem que, após ser nomeado subdirector interino das Calçadas, passou a caminhar com a compostura de quem aguardava uma estátua equestre, persuadido de que a História lhe reservaria menção comparável à dos legisladores romanos, tudo porque determinara, com especiosa energia, a uniformização dos intervalos entre paralelepípedos junto ao Paço.

    Não menos memorável foi o doutor Prudêncio Evaristo de Mendonça e Seixas, efémero inspector-geral adjunto dos Regulamentos Urbanos, criatura de suíças severas e verbo regulamentar, que falava dos seus pareceres com a solenidade de quem redige tratados de paz entre potências europeias. Convenceu-se de que as gerações futuras evocariam, com lágrimas discretas de gratidão cívica, o memorável despacho em que restringira a inclinação admissível dos toldos comerciais da Rua do Ouvidor.

    E como esquecer o coronel honorífico Belisário Amâncio de Aguiar Penteado, elevado ao cargo de supervisor extraordinário da reorganização logística do movimento de passageiros no Cais Pharoux? Esta criatura, após redistribuir filas de embarque, cocheiros e carregadores segundo um método que só ele compreendia, adquiriu a indulgência altiva dos pequenos déspotas satisfeitos, tratando conhecidos como quem concede audiências diplomáticas. Via-se claramente que se imaginava recordado como reformador da mobilidade nacional.

    Todos estes cavalheiros partilhavam a mesma terna convicção de que a posteridade, essa senhora por norma ocupada com assuntos mais sérios, lhes reservaria uma prateleira honrosa entre os grandes patronos do império, quando, na verdade, sobreviveram apenas no mofo dos arquivos, na traça dos regulamentos e na misericordiosa indiferença dos seus contemporâneos.

    Ora, minhas laboriosas leitoras e meus industriosos leitores, os vossos reformadores contemporâneos serão menos grandiosos na escala, mas não menos convictos, reproduzindo a mesma velha vaidade em versão burocrática, com menos cavalaria e mais consultoria, formulários electrónicos e a íntima convicção de que um organograma equivale a uma epifania.

    Porém, se eterna é a convicção do recém-chegado ao poder de ter descoberto, com o atraso dramático de uma terça-feira para quinta, a solução que escapou a todos os predecessores, existe um traço distintivo do vosso tempo que talvez mereça estudo próprio quando arqueólogos futuros escavarem os escombros conceptuais da administração contemporânea. Consiste essa singular patologia numa estranhíssima crença segundo a qual melhorar uma realidade pública exige, quase sempre, eliminar aquilo que até então justificava a sua existência.

    Outras eras, menos sofisticadas — ou talvez apenas menos intoxicadas pela liturgia gestionária e pelo hábito moderno de baptizar amputações como reformas — partiam de um pressuposto rudimentar: se faltavam meios, acrescentavam-se meios; se uma necessidade crescia, ampliavam-se estruturas; se a presença do Estado se revelava insuficiente, construíam-se instituições, reforçavam-se quadros, abriam-se portas, multiplicavam-se instrumentos.

    Roma, que sem dúvida cometeu erros apreciáveis, construía estradas quando pretendia afirmar presença imperial; nunca lhe ocorreu destruí-las para melhorar a mobilidade. Já os medievais, cuja reputação de obscurantismo convém rever, fundavam hospitais quando reconheciam carências assistenciais; nem dissolviam enfermarias para libertar médicos espiritualmente aprisionados pela arquitectura. Até certos monarcas absolutos, criaturas pouco exemplares em matéria de contenção financeira, compreendiam que a autoridade visível requer edifícios, homens e permanência.

    O reformador contemporâneo lusitano, porém, parece possuir uma imaginação orientada em sentido inverso. A sua inteligência, fascinada por tabelas, indicadores, apresentações estratégicas e outras elegantes quimeras, raramente concebe que melhorar possa implicar acrescentar. A sua inclinação natural dirige-se antes para a tesoura, como se a escassez possuísse misteriosas virtudes regeneradoras que escaparam a séculos de civilização.

    Foi assim, com a impecável coerência abstracta desta doutrina, ansiosa por descer ao mundo dos factos, que surgiu a recente proposta salvífica de colocar mais polícia na rua mediante o encerramento de esquadras. Não me sendo dado assegurar a cumplicidade integral da cabeça, este ousado expediente reformista saiu da pena ministerial do licenciado Luís Neves, homem elevado à pasta da Administração Interna tocado, como tantos recém-chegados ao Olimpo governativo, pela antiga tentação de descobrir soluções peregrinas sem o incómodo logístico de uma deslocação a Fátima.

    Confesso que poucas declarações políticas recentes me proporcionaram prazer intelectual tão delicado, não porque a ideia abra horizontes pela sua robustez, mas porque encerra, numa única formulação, toda a metafísica do vosso tempo.

    A construção lógica do ministro, à primeira vista, apresenta uma limpidez quase sedutora. Se uma esquadra exige efectivos para funcionar, e se esses efectivos escasseiam, parecerá natural concluir que a eliminação das paredes libertará recursos humanos para missões operacionais. Mas este raciocínio possui a clareza irresistível dessas simplificações geométricas que impressionam enquanto a realidade ainda não teve oportunidade de lhes estragar a elegância.

    Já me dizia o eminentíssimo fisiologista Anselmo Teotónio de Vasconcelos — ou o professor Eustáquio Pimentel, pioneiro da aritmética corporal aplicada — que um homem emagrece se perder uma perna, embora a circunstância de a balança confirmar a redução não garanta ser método a merecer consagração médica. Para infortúnio dos apaixonados pela abstração quantitativa, como o vosso ministro Luís Neves, uma esquadra não corresponde ao simples depósito de agentes sequestrados por paredes, balcões e secretárias.

    Uma esquadra, acredito, representa uma continuidade territorial, uma acessibilidade institucional, um conhecimento local, uma capacidade de resposta, um contacto comunitário, uma memória operacional e, sobretudo, aquela presença física do Estado cuja importância certos espíritos excessivamente enamorados da racionalização tendem a menosprezar. Eis aqui a soma de múltiplas presenças concretas que o ministro Neves, a recordar-me o bacharel Belarmino Cândido de Sequeira — homem do meu tempo que confundia subtracção com governação —, pretende converter numa elegante ausência estatística.

    Roma sabia tudo isto. Constantinopla sabia tudo isto. O Escorial sabia tudo isto. Whitehall continua a saber. Washington ainda sabe. E até impérios menos recomendáveis compreenderam que a autoridade não subsiste como mera enteléquia. Lisboa parece ter desaprendido.

    Maquiavel, observador frio das mecânicas do poder e pouco dado a lirismos burocráticos, desdenharia a proposta do vosso ministro, pois sempre entendeu que a autoridade exige presença perceptível e capacidade dissuasora, não meras fantasmagorias cartográficas. E Hobbes, que mais tarde deu ao problema a majestade conceptual do Leviatã, jamais aprovaria a ideia de um poder soberano cuja visibilidade se reforça pela subtracção dos seus próprios sinais materiais.

    Ambos, creio, olhariam com uma perplexidade apenas mitigada pelo humor para a implícita expectativa do vosso ministro de que assaltantes, traficantes e demais empreendedores da economia paralela mantenham o louvável hábito de alinhar os respectivos planos operacionais com as mais recentes inovações da engenharia organizacional do Estado.

    E no meio disto, o cidadão comum, esse rude intérprete da realidade, pouco inclinado para metafísicas do ministro da Administração Interna, ao ver desaparecer a esquadra da sua zona, não tende a concluir que a protecção aumentou. Imagina apenas, com brutal simplicidade, que lhe retiraram polícia.

    Mas talvez eu seja injusto. Talvez o doutor Luís Neves pertença a uma escola superior de estratégia, cuja profundidade por agora me escapa, e consiga que a criminalidade, confrontada com tão refinada racionalidade, se auto-regule por deferência republicana.

    Nesse caso, conviria aplicar o princípio a outros sectores, não por sarcasmo, mas por coerência experimental: um hospital reduzirá, sem dúvida, os tempos de espera se encerrar as urgências; uma escola melhorará os resultados se expulsar os alunos mais fracos; um tribunal acelerará a justiça se reduzir o número de causas que lhe cumpre apreciar, amnistiando arguidos sem julgamento; uma biblioteca resolverá o problema da falta de livros se proibir a entrada de leitores.

    Levada a doutrina ao seu esplendor lógico, talvez o próprio Estado possa atingir a perfeição no glorioso dia em que resolva, finalmente, extinguir-se, alcançando assim a forma suprema de eficiência: a inexistência. E libertando assim, de uma só vez, todos os recursos, a favor e em benefício dos cidadãos.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • O novi-português da Universidade de Lisboa, ou a ruminação assistida no redil de um veterinário

    O novi-português da Universidade de Lisboa, ou a ruminação assistida no redil de um veterinário


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Nas minhas memórias póstumas — cuja superioridade sobre as dos vivos residiu, entre outras vantagens, em não ter de prestar vassalagem à prudência, essa virtude tantas vezes confundida com cobardia social — nunca precisei de escrever isto para o pensar: as civilizações raramente tombam por excesso de violência; preferem definhar entre almofadas, convencidas da sua própria sofisticação.

    Roma não começou a claudicar quando os bárbaros lhe bateram às portas com a delicadeza própria de quem traz machados. A essa altura, Roma já padecia de doença antiga. O corpo ainda impressionava, a arquitectura ainda erguia colunas, as legiões ainda conservavam o aparato, mas a musculatura moral — essa substância invisível que sustenta povos antes de sustentar muralhas — há muito se dissolvera em luxo e complacência e no cómodo vício de acreditar que o passado herdado dispensa a virtude presente. Os bárbaros tiveram apenas a pontualidade de comparecer ao funeral.

    Constantinopla, por seu turno, não caiu quando Maomé II fez falar os canhões. Essa foi a cena final, apenas útil para pintores e cronistas amantes de estrondos. Bizâncio expirara antes, quando uma civilização outrora austera trocou a energia da preservação pela masturbação teológica das minudências, discutindo a natureza dos anjos com a seriedade de contabilistas celestes. Há povos que morrem por invasão; outros, mais sofisticados, suicidam-se por abstracção.

    E a França, essa grande actriz da História, não começou a ruir no instante em que a lâmina republicana decidiu simplificar a anatomia de Luís XVI. A guilhotina foi mero instrumento de pontualidade administrativa, pois a monarquia morrera antes: o poder convertera-se em etiqueta, a governação em minuete e a aristocracia numa confraria de cabeleiras empoadas, rendas inúteis e ociosidade cerimonial. Versailles foi menos um palácio do que um necrotério decorado.

    Quanto aos Estados Unidos — e aqui, porventura, me acusarão de pessimismo, defeito sempre atribuído aos que sabem ler sinais —, talvez não venham a cair no dia em que um inimigo estrangeiro lhes toque o hino com intenções hostis. Impérios modernos nunca tombam assim, com a elegância clássica dos mapas escolares: morrem de causas mais embaraçosas, quando substituem carácter por espectáculo, cidadania por tribalismo histérico, pensamento por slogans de cento e quarenta caracteres, e a liberdade — essa dama exigente — por uma sucessão de indulgências narcísicas embaladas como direitos absolutos.

    Mas se as minhas dilectíssimas leitoras e os meus estimadíssimos leitores julgam que semelhante decadência se manifesta apenas em muralhas derrubadas, em palácios transformados em museus ou em repúblicas que enlouquecem diante de ecrãs luminosos, enganam-se com louvável ingenuidade. Por vezes, o sintoma mais eloquente não está nos exércitos, nem nos parlamentos, nem sequer nos mercados, mas na língua — esse extraordinário instrumento que os cândidos persistem em vislumbrar como mero veículo de comunicação, e não oficina do pensamento.

    Wittgenstein, com a secura germânica que dispensava adornos, sintetizou a questão ao afirmar que os limites da linguagem são os limites do mundo. Com mais elegância civilizacional, George Steiner insistiu no vínculo íntimo entre complexidade verbal e profundidade cultural. E Orwell, que percebia bem os vícios modernos, entendeu que empobrecer a linguagem é um dos métodos mais subtis de castrar o pensamento; daí ter congeminado a Newspeak como arte refinada de impedir que certas ideias cheguem sequer a nascer.

    Por isso, uma civilização que passa a tratar a dificuldade linguística não como desafio formativo, mas como agressão indevida ao conforto cognitivo dos seus membros, entra — quase sempre com as melhores intenções, as mais perigosas — num curioso e até enternecedor processo de regressão.

    Primeiro simplificam-se os documentos administrativos, operação compreensível e até desejável, pois há despachos públicos que parecem redigidos por um cruzamento improvável entre um notário manuelino e um escrivão alcoolizado do purgatório.

    Depois condensam-se os materiais pedagógicos, para que o estudante não sofra a indignidade de perseverar. Em seguida, abrevia-se o debate público, já que a atenção se tornou artigo escasso. Mais adiante, desbastam-se os próprios conceitos políticos, para que caibam com conforto em slogans, infografias e indignações instantâneas. E um belo dia, sem alarme nem trombetas, uma sociedade desperta num mundo em que a subtileza é recebida com suspeita, a frase longa com manifesta hostilidade, e qualquer ideia que exija mais de sessenta segundos de atenção parece uma forma indecorosa de opressão intelectual.

    Foi, portanto, com verdadeiro interesse antropológico que recebi a notícia de que a Universidade de Lisboa resolveu, por fim, abraçar com frontalidade a complexidade vernacular lusitana, lançando uma ferramenta de inteligência artificial destinada a desossar textos em português, tornando-os macios “à primeira dentada”, mediante ajustes lexicais, reorganização sintáctica e outras formas de misericórdia linguística.

    Confesso que este projecto me delicia: sempre me pareceu cruel que a língua de Camões, essa criatura barroca em excesso e por vezes de assimilação difícil, continuasse a ser servida em consistência inadequada às reais capacidades mastigatórias do vosso tempo.

    E maior ainda foi a minha serenidade ao lobrigar que tão promissora orientação institucional decorre sob a égide de Luís Anjos Ferreira, um reitor oriundo da Medicina Veterinária.
    Não vejo, com franqueza, motivo para o sorriso malicioso de certos espíritos mesquinhos. Pelo contrário: a Providência compôs aqui uma alegoria perfeita. Quem melhor do que um ilustrado especialista em fisiologias animais para compreender as exigências digestivas de uma época intelectualmente ruminal? Quem mais habilitado para determinar a consistência ideal da linguagem em organismos sensíveis a impactações semânticas?

    A universidade, durante demasiado tempo, permaneceu presa a um preconceito antropocêntrico algo injusto: o de presumir que os estudantes, enquanto membros da espécie Homo sapiens, devessem comportar-se como criaturas dotadas de faculdades abstractas capazes de crescimento mediante esforço. A Veterinária, por fortuna, introduz uma perspectiva mais ampla, inclusiva do ponto de vista biológico e menos discriminatória.

    Sempre me pareceu, aliás, uma forma subtil de elitismo supor que Camões pudesse ser lido sem qualquer pré-processamento metabólico. Os Lusíadas, com aquela indecorosa profusão de inversões sintácticas, referências mitológicas e vocabulário de musculatura indigesta, representam uma forma manifesta de crueldade textual que hoje só passaria com engulho por uma comissão de bem-estar cognitivo.

    O Padre António Vieira, esse delinquente reincidente da frase subordinada desde o Maranhão, deveria responder, ainda que a partir do caixão, por atentado continuado à ergonomia interpretativa. E Eça, criatura de maldade estilística requintada, deveria ser censurado por nunca ter demonstrado a mínima preocupação em tornar as palavras mais acolhedoras para espíritos dispépticos. Ah, e quanto a Pessoa, então, esse fragmentário insolente com a indecorosa mania de se desdobrar em várias personalidades para confundir abomasos melindrosos, constitui caso flagrante de incompatibilidade com qualquer pedagogia da apreensão instantânea.

    Admire-se, pois, o benefício civilizacional da inteligência artificial para corrigir séculos de insensibilidade literária. Uma prosa demasiado fibrosa? Triture-se. Uma construção gramatical coriácea? Amacie-se. Uma expressão passível de gastroparesia ortográfica? Passe-se pela peletizadora. Uma metáfora mais densa? Remastigue-se. As universidades, que durante demasiado tempo trataram a alma como músculo, apresentam agora em Lisboa uma abordagem mais compassiva, que a trata como aparelho gastrointestinal delicado.

    A partir de agora, o estudante moderno jamais será constrangido pelo velho ideal socrático da ascensão intelectual. Será compreendido segundo a sua constituição natural, respeitado nas suas limitações manducatórias, protegido contra o risco traumático de uma frase com hipotaxe barroca, de um silogismo com premissas encadeadas e de uma reflexão ontológica com excessiva densidade metafísica.

    Montaigne, esse grande corrector da presunção humana, acharia justo que o homem, após tantos séculos a proclamar a sua superioridade sobre os animais, acabasse por solicitar que o conhecimento lhe fosse servido em consistência compatível com o pastoreio.

    Nabucodonosor, que segundo Daniel foi reduzido à condição animal e comeu erva como os bois, surge, à luz da visão pedagógica do reitor da Universidade de Lisboa, menos como castigado por Deus do que como precursor involuntário de uma nova antropologia académica. Os lotófagos da Odisseia contentaram-se com o esquecimento; a vossa geração aperfeiçoou a fórmula, substituindo o torpor mitológico por entorpecimento cognitivo assistido por algoritmo — e, para requinte da modernidade, baptizado com o nome doméstico de Evaristo.

    Imagino já a língua portuguesa conduzida ao curral metodológico da modernização, recebendo alguns coices pedagógicos e umas boas marradas tecnocráticas até abandonar os seus vícios aristocráticos. Adeus às ambiguidades fecundas, às subtilezas de registo, ao prazer da releitura, à lenta revelação do sentido. Bem-vinda a frase esterilizada, com certificado de simplificação do tecido significante, pronta para consumo universal. Camões resumido a uma experiência marítima. Platão convertido em debate facilitado numa gruta com boa iluminação. Hegel reduzido a “as coisas mudam”. Dante simplificado para “viagem difícil com ensinamentos”. A Bíblia adaptada para “Deus comunica orientações e consequências”.

    E eu, Brás Cubas, já não dependendo de avaliações académicas nem de pareceres pedagógicos, limito-me assim a saudar este vosso admirável progresso: com realismo biológico e sensibilidade veterinária, o vosso país compreendeu, por fim, que é mais humano — ou, de modo mais adequado, pós-humano — adaptar a linguagem às limitações hermenêuticas do rebanho, poupando-o ao incómodo anti-democrático de ter de crescer.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • A melanina, ou a literatura à flor da pele

    A melanina, ou a literatura à flor da pele


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

    ***

    Morto como estou — e a morte, entre outras vantagens, concede-nos a deliciosa liberdade de observar os vivos sem a obrigação de os aturar —, julgava ter adquirido alguma imunidade às extravagâncias humanas. Enganei-me. Os vivos persistem numa fertilidade moral que desmentiria qualquer teoria da escassez intelectual. Desde cedo os vi converter preconceitos em princípios, disparates em doutrina e vaidades em sistemas filosóficos.

    No meu tempo, homens instruídos discutiam frenologia com a solenidade com que hoje se discute justiça social; media-se o carácter pelo crânio, a virtude pelo aperto de mão e, suponho, a alma pela inclinação da pilosidade maxilo-mentoniana. A estupidez, quando comparece de casaca, continua a ser estupidez — apenas melhor vestida.

    Na verdade, muitos vícios humanos mudam apenas de indumentária. E entre os mais persistentes conta-se este curioso impulso de classificar os semelhantes, como se a humanidade fosse um arquivo mal organizado que exigisse gavetas, etiquetas e critérios de triagem moral. Essa classificação jamais se concerta por inocente amor taxonómico: classifica-se para distinguir, distingue-se para separar e separa-se, com frequência admirável, para discriminar com boa consciência, oferecendo sempre o prazer suplementar da hierarquia, para quem a faz, perfumada de elegantes intenções.

    Os antigos faziam esta segregação com a brutalidade simples de quem ergue muralhas e aponta lanças; os modernos, mais delicados e infinitamente mais vaidosos da sua própria virtude, preferem fazê-lo com manifestos, mesas-redondas e comunicados redigidos num dialecto moral que mistura sociologia apressada, terapia colectiva e catecismo administrativo da bondade pública.

    A minha geração — cínica, mas ao menos suficientemente airosa para não fingir pureza — acreditava ainda que o ridículo humano residia sobretudo na ambição, no dinheiro ou no adultério. A vossa descobriu prazer mais subtil: catalogar almas enquanto proclama detestar classificações. Já não exclui, nem separa, nem ergue muros — representa, visibiliza e desenha compartimentos terapêuticos. O carcereiro metamorfoseou-se em curador, transformando a grade em política cultural, e a segregação em pedagogia.

    Não me interprete mal, clarividente leitora e lúcido leitor, sobretudo se pertence àquela fauna moral que se indigna antes de compreender. Não deploro a intenção de reparar injustiças, ampliar vozes negligenciadas ou corrigir silêncios históricos. Seria indigno até de mim — e eu, como sabem, nem sempre fui modelo de virtudes. Não ignoro que há feridas históricas, exclusões reais e injustiças antigas; conheci demasiados homens para acreditar na inocência das sociedades.

    Roma falava de civilização enquanto alimentava escravos; Atenas celebrava a democracia deixando metade da população fora dela; os espanhóis levavam Cristo numa mão e correntes na outra. Mesmo o meu século, tão enamorado das palavras “progresso” e “civilização”, como certas tias solteiras acreditam em sobrinhos promissores, supunha que a humanidade avançaria graças a parlamentos eloquentes, ministros de suíças respeitáveis e homens graves que escreviam relatórios intermináveis com consciência curta. Ingénuos.

    A vossa época, mais engenhosa e incomparavelmente mais vaidosa, persuadiu-se de que a redenção moral da espécie humana depende da correcta arrumação vocabular, da vigilância terminológica e da multiplicação de categorias identitárias, como se a alma humana — essa velha rameira filosófica — pudesse ser reformada por despacho semântico.

    Ora, todo este introito apenas porque me chegou notícia de uma editora portuguesa, a Vírgula d’Interrogação, destinada, em exclusivo, à publicação de autores negros, empreendimento apresentado não como exclusão — Deus nos livre de palavra tão deselegante —, mas como “reparação”, “visibilidade”, “representatividade” e outras expressões pertencentes à vasta indústria contemporânea do humanismo burocrático. A intenção será nobre. Até Calígula, se acreditarmos em Suetónio — e às vezes convém não acreditar demasiado em biógrafos romanos —, julgava dignificar o Império ao promover cavalos…

    A História, porém, tem o desagradável hábito de revelar que boas intenções são frequentemente apenas disparates bem penteados. Nada disto me espanta — diverte-me apenas, com a melancólica alegria própria dos defuntos. Depois de séculos a tentar convencer a humanidade de que inteligência, sensibilidade e génio não obedecem a critérios raciais, anatómicos ou genealógicos, surge enfim uma nova pedagogia segundo a qual a primeira questão diante de um manuscrito já não será “como escreve?”, mas “quem escreve — e com que composição epidérmica?”

    Dir-me-ão os espíritos mais sensíveis que se trata de pluralidade, reparação histórica e abertura a vozes marginalizadas — expressões que fazem jovens doutorandos suspirar de satisfação epistemológica. Talvez contenham uma nova e universal verdade do amanhã: a literatura deixa de ser arte da inteligência humana para se tornar repartição antropométrica.

    Imagino o editor do futuro — mistura de sacerdote moral, técnico de recursos humanos e funcionário de repartição com consciência sociológica — inclinando-se sobre um romance sublime, escrito talvez com a profundidade psicológica de Dostoievski e a ironia de Voltaire, para perguntar, com gentileza democrática:

    — Muito interessante. E quanto à melanina?

    Esta ideia possui uma admirável elasticidade. Se há editoras para autores negros, por que não para ruivos, tão difamados desde Judas? Ou para canhotos, perseguidos a ponto de a própria língua associar a mão esquerda ao sinistro? Admito ainda uma chancela dedicada a poetas traumatizados por hamsters agressivos na infância. O absurdo moderno, felizmente, possui sempre departamento de comunicação.

    Talvez se objecte que exagero. Exagero sempre — é uma das poucas vantagens da morte. Examinemos, porém, a lógica até ao fim. Se o fundamento da selecção editorial passa a ser a identidade biológica ou cultural do autor, então a literatura deixa de ser território de universalidade humana para se transformar num condomínio de experiências autenticadas. Não basta escrever sobre a dor; é preciso possuir certificação genealógica da dor. Não basta compreender o outro; é necessário sê-lo por certidão de pia baptismal ou credo.

    Ainda bem, aliás, que semelhante critério nunca vigorou no meu tempo. Tivesse eu sido publicado apenas na “Editora Imperial para Cavalheiros Brancos de Extração Conveniente”, e talvez aquele mulato subtilíssimo chamado Machado de Assis — génio que conhecia a alma humana melhor do que muitos médicos conhecem o fígado — jamais tivesse tropeçado na minha existência.

    As minhas modestas frivolidades morreriam comigo; Quincas Borba continuaria a desenvolver o Humanitismo sem discípulos; Rubião enlouqueceria sem nome conhecido; e Sofia permaneceria apenas uma adúltera provinciana em vez de adquirir eternidade literária. A própria literatura brasileira perderia um dos seus grandes milagres: um homem nascido de um negro e de uma açoriana, entre limitações sociais e raciais tão reais quanto estúpidas, a produzir uma obra cuja inteligência esmagou essas categorias.

    Convém, aliás, recordar aos contabilistas da identidade que Machado de Assis não venceu por ser negro, mulato ou branco: venceu porque era um génio. E reduzir um génio à utilidade sociológica da sua epiderme seria, parece-me, uma forma moderna de diminuição intelectual.

    Em todo o caso, algo de deliciosamente hegeliano existe na Vírgula d’Interrogação: a tese antirracista produzindo, por excesso dialéctico, uma nova paixão classificatória. Diógenes, que procurava um homem honesto com uma lanterna, precisaria hoje de uma tabela cromática Pantone. Montaigne, que fez da dúvida um método civilizacional, seria acusado de insuficiente consciência identitária. Voltaire perguntaria, com o seu veneno habitual, se a tolerância moderna consiste em amar a humanidade dividindo-a cuidadosamente em compartimentos certificados. E Nietzsche, esse inimigo feroz dos rebanhos morais, observaria talvez que o ressentimento encontrou finalmente um vocabulário universitário.

    Não se conclua, porém, que defendo uma literatura asséptica, neutra ou abstractamente universal — conceitos que costumam agradar a espíritos preguiçosos. Será desejável que existam mais autores africanos, asiáticos, indígenas, árabes ou de qualquer outra proveniência no mercado editorial? Evidentemente. Será saudável que leitores descubram experiências históricas e culturais diferentes? Sem dúvida.

    Mas tive sempre para mim que a grande literatura nascia dessa monstruosa faculdade humana de sair de si própria. Um russo habita um francês; um brasileiro compreende um português; Shakespeare convence-nos a sofrer por um príncipe dinamarquês que nunca existiu; e este vosso criado defunto teve a honra póstuma de ser compreendido por um mulato carioca de génio incomparável.

    Quando se tentar ensinar que certas experiências pertencem apenas aos seus proprietários biográficos, que a imaginação deve apresentar certidões e que a sensibilidade carece de homologação epidérmica, não estarão a ampliar a literatura — estarão, sim, a reduzir a humanidade.

    Mas talvez eu esteja enganado. E pode bem suceder que o futuro me desminta, instituindo, portanto, editoras para ruivos melancólicos, canhotos oprimidos e poetas traumatizados. Se assim for, aceito desde já a inevitável modernidade. Tal como me resigno à minha eterna falta de melanina.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • PTRR, ou a permanente transformação, recuperação e repetição

    PTRR, ou a permanente transformação, recuperação e repetição


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

    ***

    Noéticas donzelas e gnósticos cavalheiros — porque sois sempre mais inteligentes do que eu, ainda que o disfarceis —, estou persuadido de que, ao ouvirdes esta semana, da boca do vosso primeiro-ministro, Luís Montenegro, a tríade solene Transformação, Recuperação e Resiliência, vos teríeis sentido transportados não para o Conselho de Ministros, mas para um púlpito barroco, onde um orador inspirado, talvez discípulo tardio do Padre António Vieira, declamasse três virtudes teologais de uma nova religião administrativa.

    Faltou apenas, para completar o quadro litúrgico, o incenso na sala de conferências e, no final, em vez do hino nacional, uma breve ladainha: “Credes no Fundo Europeu Todo-Poderoso, criador do défice e do investimento, e no sacrífico redentor do Santo Cidadão-Contribuinte?”

    Ora, detenhamo-nos — não com reverência, e sim com a lupa do espírito — na estranha coexistência destas três palavras – Transformação, Recuperação e Resiliência –, que, como as Parcas da mitologia, parecem fiar o destino do erário público sem nunca desvendar o novelo.

    Transformar implica, desde logo, uma pequena violência ontológica: mudar a natureza de algo, arrancá-lo àquilo que era para o precipitar no incómodo de deixar de o ser. Se recuarmos à Grécia, eis Heráclito a murmurar, com aquele ar de quem já viu tudo, que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio — não porque a água corra apenas, mas porque o próprio banhista deixa de ser o mesmo. Se avançarmos alguns séculos, encontraremos Hegel a ensinar que toda a transformação verdadeira implica negação, superação e síntese, num labor quase alquímico do espírito.

    Se ainda se quiser descer da metafísica à prosa deste mundo, bastará olhar para qualquer transformação administrativa contemporânea para perceber que, muitas vezes, aquilo que se transforma é somente o nome, ficando imóvel a substância, tal como o funcionário que muda de secretária mas jamais de hábitos.

    Ora, aqui principia — com a teatralidade patética das encenações políticas — um embaraço semântico no plano do vosso primeiro-ministro, Luís Montenegro: se recuperação e transformação são convocadas no mesmo fôlego, como podem coexistir sem se anularem? Recuperar é regressar ao que foi; transformar é deixar de o ser.

    A conciliação de ambos os impulsos no mesmo sopro programático nem se apresenta como síntese. Na verdade, mostra-se antes um prodígio de prestidigitação retórica, uma espécie de milagre conceptual digno de canonização apressada, com direito a hagiografia administrativa e despacho em Diário da República — devidamente autenticado com chave móvel digital, embora ainda carente de reconhecimento notarial.

    Dir-se-ia, logo aqui, que se estaria perante um plano político a prometer mutação sem perda, inovação com saudade e ruptura com memória intacta — uma espécie de conciliação impossível que faria franzir o sobrolho a Aristóteles e convidaria Parménides de Eleia a levantar-se da eternidade apenas para pedir esclarecimentos por escrito, em triplicado, sobre a ontologia do ser. Certo é que, entre a substância aristotélica e a imobilidade parmenídica, observo uma curiosa ambição de Luís Montenegro em mudar tudo sem alterar nada — uma espécie de metamorfose administrativa em que a lagarta passa a borboleta, mas mantendo a certidão permanente, o contabilista e, por via das dúvidas, o papel timbrado.

    E quanto à resiliência? Sim, a resiliência, essa palavra que se pronuncia com a gravidade de quem invoca uma virtude cardinal que, convém lembrar, pressupõe permanência sob pressão, não metamorfose nem regresso ao estado passado.


    E quanto à resiliência? Ah, a resiliência — essa palavra repetida 31 vezes com a gravidade de um credo laico, como se cada enunciação acrescentasse mais um tijolo à catedral do discurso —, que, convém lembrar, não é sinónimo de transformação nem de recuperação, mas apenas (e já não é pouco) a arte modesta de aguentar o embate sem se desfazer em migalhas. Resiste, não se fantasia; mantém-se, não anda para trás como quem procura a infância perdida. Chamá-la para baptizar tudo o que muda, remenda ou se anuncia com fanfarra é reduzi-la a bibelô semântico: brilha no aparador das palavras, mas não sustém o telhado quando uma Kristin chega.

    No fim de contas, esta tríade de Montenegro não é um programa: é um catecismo. E, como todo o catecismo, pede fé onde a razão, coitada, apenas pede coerência. Eis o vosso PTRR: mudar, voltar atrás e resistir — tudo ao mesmo tempo. É como ordenar a um exército que avance, recue e mantenha posição, sob pena de ser sancionado com um relatório técnico.

    Mas prossigamos, que o espectáculo ainda agora começou. O plano — como todos os programas políticos que aspiram a ser históricos e acabam por ser apenas histriónicos — apresenta-se como uma soma de fundos: europeus, nacionais e privados. Também aqui uma trindade — desta feita financeira — que, se não for heresia dizê-lo, rivaliza em mistério com a mais recôndita teologia de São Tomás de Aquino, embora com menos metafísica e mais contabilidade criativa. O fundo europeu desce como graça comunitária, quase sacramental, digno de um concílio em Bruxelas; o investimento privado surge como milagre da confiança, anunciado com a fé de Blaise Pascal — acredita-se porque convém acreditar —; e o fundo nacional… ah, esse é o velho conhecido: o contribuinte.

    Dir-se-ia, aliás, que o contribuinte é uma versão moderna de Atlas, sustentando os vícios públicos sem sequer o consolo de uma coluna com o seu nome, nem uma inscrição em latim que eternize o sacrifício. Trabalha, contribui, suporta — e, no fim, recebe o IRS para pagar mais ou para o reembolso do empréstimo ao Fisco, sem lugar a juros. Não há um agradecimento ou uma explicação, mas somente uma nota de liquidação, essa forma elevada de cinismo administrativo, redigida em nome do interesse público para benefício do interesse privado.

    Porém, delicio-me com o ingénuo entusiasmo do Governo de Montenegro que, na verdade, me parece estar a compor uma campanha militar à la Napoleão Bonaparte, bem planeada no gabinete, mas que se perderá no terreno. O documento fala-vos de simplificação, de celeridade, de desburocratização e de tantas outras palavras, termos e expressões que, na prática, significam geralmente o contrário, embora com gráficos e cores.

    Promete-se menos papel com mais plataformas, menos obstáculos com mais procedimentos, menos controlo prévio com mais controlo posterior, o que equivale, em linguagem comum, a dizer que se trocará o labirinto por um labirinto digital, com senha de acesso, autenticação de dois factores e, em dias de maior inspiração, uma palavra-passe encriptada — e uma hiperligação em permanente manutenção. E, enquanto isto, as escadas rolantes do metropolitano do Chiado continuarão avariadas.

    Vejo, pois, diante de mim, não um plano, mas uma epopeia administrativa — uma Ilíada sem Aquiles nem Heitor, onde os deuses são substituídos por comissões e os oráculos por plataformas digitais ainda “a disponibilizar brevemente”. Se Ulisses regressasse a Lisboa para assessorar Montenegro, não cantaria feitos de guerra, mas relatórios de execução. E Max Weber tomaria notas para uma versão ampliada de Economia e Sociedade — talvez um apêndice intitulado “Da Dominação Burocrática em Ambientes Digitais” —, maravilhado com esta racionalidade que transforma cada acto numa autorização e cada autorização num procedimento, até que o próprio acto, exausto, desista de acontecer.

    E, no entanto, não desejo ser injusto: há no documento deste Governo social-democrata, condimentado de populismo (a)ventureiro e aromatizado de catolicismo marialva, uma certa grandeza, ainda que involuntária.

    No documento do PTRR, Montenegro confirma a capacidade de dizer tudo em projecto sem dizer nada de definitivo, de prometer tudo sem se comprometer em nada de concreto, de transformar a incerteza em método e a ambiguidade em estratégia — isso, concedo, não é arte nada menor. Tudo isto recorda, aliás, certas utopias de Thomas More, tão perfeitas no papel que jamais ousaram enfrentar a realidade, e alguns sistemas de Hegel, onde a síntese aparece sempre no fim, mas raramente na prática.

    Não me surpreende assim que a apresentação do plano tenha terminado com o Governo em peso a cantarolar o hino nacional. Ao sabê-lo, hesitei entre a emoção e o receio. A emoção, porque há sempre algo de tocante em ver ministros unidos num coro — ainda que desafinado. O receio, porque me lembrei da Revolução Francesa, onde também se cantavam hinos com fervor, e nem sempre isso acabava bem para quem pagava os impostos.

    Além disso, cantar o hino, patrióticas leitoras e filopátricos leitores, é coisa séria: é o instante em que a nação se eleva acima das contas públicas, como se dissesse — “esquecei o défice, olhai para o infinito”. Mas quando o hino surge como prólogo de um plano de investimento, suspeito que se esteja a pedir à emoção aquilo que a razão não consegue sustentar. Nero, antes de aumentar os impostos, também saberia encontrar música para acalmar a multidão.

    Na verdade, sejamos francos, muitas destas obras — barragens, redes eléctricas, sistemas de emergência e outras faraonices — seriam feitas de qualquer modo. A diferença está no invólucro: antes era investimento; agora será “transformação”; antes remendo, amanhã será “recuperação”; antes era mera prevenção — essa prosaica arte de evitar desastres —, no futuro será “resiliência”. Esta é a velha arte romana, que já Júlio César bem dominava: não basta conquistar a Gália, era preciso escrever as Guerras da Gália para o mundo pensar ter sido uma epopeia.

    Mas regressemos ao ponto essencial, que é o da coerência — essa virtude esquecida. Se se transformar, não se recupera; se recuperarmos, não se transforma; e, se formos resilientes, talvez não se precise de nenhuma das outras duas coisas, porque se resiste ao choque sem alterar a essência. O PTRR não é um programa — é, sim, uma sobreposição de intenções, como aquelas pinturas antigas em que o artista, insatisfeito, cobria a tela até já não saber o que estava por baixo ou sequer o que desejava.

    Talvez seja esse, afinal, o retrato que Luís Montenegro vos quer legar: uma política que não escolhe entre mudar e conservar, nem entre inovar e restaurar, preferindo ensaiar tudo em simultâneo — na esperança de que o contribuinte, entretido com a retórica, não dê pela contradição… nem pela ausência. De obra — e do dinheiro que, como sempre, some enquanto soma em contas que raramente se explicam

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • A sinecura do doutor Eurico Castro Alves, ou apologia da ociosidade remunerada

    A sinecura do doutor Eurico Castro Alves, ou apologia da ociosidade remunerada


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Desde que foi expulso do Éden — e não saiu de livre vontade —, o homem entretém-se a discutir a relação entre esforço, utilidade e recompensa. E fá-lo com a mesma perplexidade com que Caim olhou para o seu campo estéril após ver aceite o sacrifício de Abel, como quem suspeita que o mérito nem sempre segue a lógica da fadiga e do suor.

    Mais tarde, na parábola dos trabalhadores da vinha, escandalizou-se ao ver os chegados ao entardecer receberem o mesmo denário dos que suportaram o peso do dia — sinal inequívoco de uma economia divina indiferente à produtividade marginal. E, para cúmulo, ainda teve de ouvir que “os últimos serão os primeiros”, sentença que, se aplicada à contabilidade terrena, faria desmaiar qualquer contabilista minimamente temente a Deus.

    Os gregos não melhoraram a equação — apenas a refinaram com elegância filosófica. Aristóteles desconfiava tanto da dignidade do labor manual que o delegou nos escravos. Platão, sempre mais sistemático, tratou de organizar a cidade ideal com uma divisão funcional tão rigorosa que o trabalho se tornava destino e jamais escolha. No mundo antigo, produzir era apenas necessário; pensar, isso sim, era nobre — e, sobretudo, menos cansativo.

    Caíram os deuses — com o estrondo próprio das coisas eternas que afinal não o eram — e, no lugar do Olimpo, ergueram-se os senhores feudais, que nunca pretenderam ser divinos, mas governaram como se o fossem. Instalou-se então uma nova camada de fatalismo: trabalhar deixou de ser castigo episódico para se tornar destino hereditário, inscrito na terra e no nascimento. O servo lavrava não para prosperar — ideia que lhe seria tão estranha como a geometria —, mas para sobreviver; e, se a Providência não estivesse distraída, para assegurar que o senhor pudesse dedicar-se a ocupações mais elevadas, como a guerra, a caça ou a contemplação. A recompensa, essa, era sempre adiada — primeiro para o céu, depois para a retórica.

    Veio depois Adam Smith, homem de boa-fé e melhor pena, tentar domesticar tamanha desordem com uma teoria: o trabalho seria uma fonte de valor, a divisão de tarefas uma máquina de eficiência e o interesse individual o motor de uma prosperidade colectiva que, por milagre, dispensava santos. Tudo isto temperado por uma fé devocional na mão invisível — essa divindade discreta que tudo governa sem jamais se deixar ver, como convém aos deuses modernos.

    Mas não tardou que surgisse Karl Marx, profeta de barbas espessas e desconfianças ainda mais densas, a declarar que tal ordem não passava de uma ilusão bem remunerada — como todas as ilusões eficazes. E assim o trabalho, longe de libertar, alienava; e o valor, esse conceito tão estimado pelos economistas, tinha o vício de não recompensar quem o produzia, mas quem o apropriava com engenho ou posição. Assim se regressou, por vias filosóficas e industriais, à velha suspeita que já inquietara Caim: o esforço e a recompensa mantêm entre si uma relação instável, caprichosa e, em certos dias, francamente indecente.

    Por fim, chegou Henry Ford, que não resolveu o dilema, mas pelo menos mecanizou-o numa linha de montagem, desta sorte deixando de ser vocação ou castigo para passar a ser repetição. Assim, o operário deixou de pensar, decidir e contemplar — executa. Em troca, recebe um salário digno na aparência para consumir aquilo que ajuda a produzir, num círculo tão perfeito que se assemelha a redenção — não divina, mas industrial. Enfim, do Éden à fábrica, o homem nunca afinal deixou de perseguir a mesma pergunta: quanto vale, afinal, o seu esforço?

    Mas eis que a modernidade administrativa, sempre criativa quando se trata de dissolver dúvidas, vos oferece agora uma síntese inesperada: a remuneração pode prescindir do trabalho, desde que se invoque uma razão superior — não já a produtividade, mas a necessidade; não a utilidade, mas o direito ao rendimento. E, se esse rendimento provier do Estado, tanto melhor, pois adquire um verniz moral.

    Ora, é neste ponto que a minha reflexão metafísica se cruza com a deliciosa concretude do caso do doutor Eurico Castro Alves, cuja existência profissional no Hospital de Santo António parece ter sido elevada à categoria de experimento filosófico. Eis um homem que, segundo os dados disponíveis, recebeu ao longo de anos largas dezenas de milhares de euros — dizem que quase dezoito dezenas — enquanto coordenava coisa nenhuma, sem participação directa em cirurgias nem entradas em salas de operação. Nada de extraordinário em terras lusitanas, conceda-se, se não fosse a justificação apresentada pelo doutor Alves: garante que teria ganhado muito mais se tivesse operado.

    Aqui, pacientes leitoras e pacientes leitores, entramos num domínio que nem São Tomás de Aquino ousaria sistematizar sem corar. A quietude operativa transforma-se, nas luvas do doutor Alves, em argumento económico — “não usarás as mãos” eleva-se a política laboral — e também em sofisma teológico — “ganharás o pão sem macular as mãos” —, tornando a imobilidade uma forma de abnegada protecção do erário público, digna de um mártir fiscal de mão-cheia.

    A questão do doutor Alves não é — note-se bem — saber se, operando ele, teria salvado mais vidas. Ou se as teria perdido — e, nesse caso, talvez a Providência tivesse sido prudente em poupá-lo a semelhantes ensaios, contemplando-o com rendas certas. Tais considerações são de somenos e nem chegam a entrar na sua equação.

    Aquilo que lhe importa é que, ao não operar, evitou custos adicionais — mesmo se os doentes, com reprovável falta de autonomia cirúrgica, tiveram de ser operados por algum cirurgião que teve a ousadia de cobrar pela tarefa. Eis uma inversão quase bíblica do milagre da multiplicação dos pães: com o doutor Alves, subtraem-se actos, adicionam-se argumentos e multiplicam-se os proventos na sua conta bancária, esse único milagre verdadeiramente verificável. As férias tropicais no Brasil do doutor Montenegro, convém recordar, não se pagaram sozinhas

    Se Sísifo, condenado a empurrar a pedra pela eternidade, vos serve de metáfora para o labor inútil, o doutor Alves introduziu uma inovação digna de registo para tornar útil a ausência de labor: suprime a pedra e, por esse gesto de génio, arrecada uma tença. Já não há esforço nem absurdo — apenas uma serenidade remunerada, que é, no fundo, a versão civilizada do suplício. Na verdade, o doutor Alves é um Midas de estetoscópio, e com maiores virtudes: o grego, para tudo converter em ouro, ainda tinha de tocar; já o vosso doutor, mais subtil, nem precisa sequer de auscultar para converter a própria ociosidade em rendimento líquido.

    Se Max Weber via na burocracia uma máquina racional de eficiência, teria aqui matéria para uma revisão melancólica: a racionalidade não desapareceu, apenas mudou de eixo — e, com ele, a definição do que conta como trabalho. E, no entanto, diligentes donzelas e empenhados cavalheiros, há uma coerência interna neste raciocínio do doutor Alves. Se o valor não depende do acto, mas da posição; se o estipêndio nem decorre da presença no hospital, mas da vizinhança à sala de operações, então o sistema funciona na perfeição. O doutor Alves não é uma anomalia: é a expressão acabada de um modelo, o zénite e a apoteose administrativa onde a inutilidade, essa velha mal-amada, sobe enfim ao trono das virtudes orçamentais.

    E, por isto, confesso uma pontada de inveja póstuma. Se em vida tivesse eu alcançado tão elegante fórmula, teria dispensado as minhas modestas tentativas nessa arte superior de nada fazer com proveito: bastar-me-ia coordenar melhor o vazio e auferir com método.

    Agora, vendo-me bem, eu que outrora ambicionei o célebre emplastro contra a melancolia — invenção que, por não ter vindo à luz, poupou a humanidade ao dispêndio inútil da sua compra —, deveria, em rigor, ter reclamado para mim os dividendos dessa economia universal. Não sucedeu. Falhei assim o invento e falhei a descendência, livrando-me assim, por dupla via, da ingrata tarefa de administrar heranças e de legar tristezas humanas aos vindouros.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • Moranguete & Abacatudo, ou a decadência civilizacional segundo a doutora Feijão

    Moranguete & Abacatudo, ou a decadência civilizacional segundo a doutora Feijão


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Todos vós sabeis, anelantes donzelas e estertorantes cavalheiros, que a Humanidade sempre revelou um gosto voluptuoso por anunciar a sua própria decadência. Nunca vive em pleno essa ruína, note-se; limita-se a prevê-la, a descrevê-la e a dramatizá-la com um zelo digno de melhor causa e nota. E sempre por culpa de fabulações sofisticadas. Nunca por culpa dos homens, que isso seria excessivamente simples.

    Desde tempos imemoriais, ergue-se uma voz — ora solitária, ora em coro — a advertir que certas narrativas, certos entretenimentos, certas ficções ligeiras, encerram em si o germe da dissolução moral. Foi assim no tempo em que a Inquisição tratava de purgar leituras inconvenientes com um calor excessivo; foi assim depois, quando o fogo deu lugar ao parecer técnico e à preocupação pedagógica; e é assim hoje, com uma elegância higiénica e mediática, onde o perigo chega sempre acompanhado de um especialista ou uma confraria de psicólogos mais abnegados do que o doutor Bacamarte.

    Desta vez, precavidas leitoras e avisados leitores, o perigo vem do TikTok, essa máquina de glórias instantâneas onde a vaidade se exibe em migalhas de segundos e o pensamento, comprimido até à asfixia, se julga eternidade enquanto dura um suspiro. Não é, atente-se, de um tratado filosófico, nem de um discurso escabroso, nem de um venturoso líder providencial de ocasião, mas de um género que a imaginação contemporânea conseguiu elevar ao estatuto de ameaça civilizacional: as novelas de frutas.

    Sim, frutas — a Moranguete, o Abacatudo e outros representantes da pomologia sentimental, que, cansados da imobilidade das fruteiras, decidiram entregar-se a paixões sumarentas, traições drupáceas, violências baciformes e ciúmes de polpa firme.

    A SIC Notícias, dos senhores Balsemão e Berlusconi, sempre vigilante — vigilância que, como certas virtudes, mais se proclama do que se exerce —, entendeu mostrar ao país, aos pais, os perigos desta novel dramaturgia vegetal e, para tal empresa, convocou a psicóloga Teresa Feijão — escolha que, pela coincidência botânica do apelido, roça a harmonia das esferas e quase persuade da existência de uma ordem secreta no mundo.

    Por esta selecção, me rendi à evidência. Não seria o mesmo, convenhamos, se o legador do fecundo apelido da douta senhora se chamasse senhor Lobo, que infunde temor, ou, pior ainda, senhor Carneiro, que inspira sacrifício. Quem, em tais circunstâncias, concederia crédito frutífero sobre tão delicada matéria à doutora Teresa Lobo ou à doutora Teresa Carneiro?

    Ora, mas a doutora Teresa Feijão é quem é — e, assumindo que “o trabalho do psicólogo é responsável, delicado, aprofundado, técnico e fundamentado em teorias e práticas psicoterapêuticas”, deu a gravidade que o tema exigia e logo dissertou sobre novidade constante, emoções intensas e imprevisibilidade. E eis que, daí a nada, ficou-se com a sensação de que a juventude pode confundir um abacate possessivo com um modelo de vida.

    Eu, que nem as lâmpadas de Edison conheci — e que me alumiei com o velho lume, as vetustas lamparinas de azeite e o paciente gás, esse pedagogo de sombras —, vejo-me agora convocado a crer que são os engenhos luminosos da modernidade, essas lanternas eléctricas de bolso onde desfilam imagens apressadas e danças sem memória, que moldam, com zelo quase sacerdotal, os vícios do espírito. Confesso a minha ignorância: sempre julguei que a fraqueza dos homens precedia a invenção das máquinas, e não o contrário. Mas a vossa época, generosa em novidades, também o é em inversões.

    Em todo o caso, custa-me, pois, aceitar — embora me incline, como convém aos mortos prudentes — que tais imagens conduzam à normalização de comportamentos tóxicos, à diminuição da tolerância ao tédio e ao definhamento da concentração, como diagnostica a doutora Teresa Feijão, com a gravidade de quem prescreve abstinência ao século e a obrigatoriedade de aposição de avisos sanitários em tudo o que a humanidade produziu desde Homero até à mais recente série dominical — não vá o leitor, entre um verso e um episódio, contrair o vírus da imaginação ou o vício irreparável de pensar.

    Porque, relutantes donzelas e reticentes cavalheiros, se tal fosse verdade — se a imagem, por si só, tivesse o poder de corromper os costumes e dissolver o espírito —, então teríamos sucumbido há muito, e com estrondo digno de tragédia clássica. Muito antes das frutas digitais, já o folhetim oitocentista prendia multidões com traições bem urdidas, revelações súbitas e lágrimas criteriosamente distribuídas; e não consta que, por isso, se tenha extinguido a faculdade de pensar, embora alguns a tenham usado com parcimónia desde o berço à sepultura.

    O teatro, esse arcaico laboratório das paixões humanas, ensinou-nos desde cedo — muito antes de Otelo — que o homem traz em si matéria bastante para a sua própria ruína. Já na Antiguidade grega se via a hybris tirânica e o desafio ao destino em Édipo Rei, de Sófocles, ou a cadeia de vinganças que se alimenta do próprio sangue em Oresteia, de Ésquilo, ou ainda o cálculo glacial de Medeia, de Eurípides. Logo depois, o teatro romano, menos sublime mas não menos instrutivo, ofereceu-nos as paixões sombrias de Séneca e as intrigas de avareza e engano em Plauto.

    Séculos mais tarde, veio Shakespeare mostrar a ambição desmedida de Macbeth, o ciúme homicida de Otelo e a loucura altiva de Rei Lear, que fazem do crime, da suspeita e da vaidade instrumentos de ruína. E até no burlesco de Molière, a avareza crispada de Harpagão e a hipocrisia devota de Tartufo se representaram com aplauso, lágrimas e repetição, e sem que alguém, até hoje, tenha proposto fumigações à saída do teatro para salvar o sono.

    E as óperas? Essas também jamais primaram pela temperança. Celebraram-se, entre árias e suspiros, o destino trágico de Carmen, de Bizet, que fez do amor um jogo de risco mortal, e de Violetta, de Verdi, que consumiu a própria vida em nome de um sentimento que a sociedade lhe negava. Não ficaram sós nesse panteão do excesso: ali estão também Tosca, de Puccini, que mata por desespero e amor; Don Giovanni, de Mozart, que faz da sedução um método e da queda um destino inevitável; e Lulu, de Berg, esse compêndio moderno de vícios, onde a volúpia se alia à manipulação, o desejo à violência e a liberdade à mais metódica autodestruição, como se cada impulso fosse já um ensaio para a queda. Chorou-se, aplaudiu-se e repetiu-se. E pergunto-me se alguém propôs a inserção de avisos profilácticos entre o libreto e a orquestra.

    E que dizer então das novelas — essas longas pedagogias do excesso? Houve-as de espanto, de coração e de puro desvario, onde o amor raras vezes se apresentou pacífico, e a virtude, quando surgia, vinha atrasada, fatigada e, amiúde, mal recompensada. Traições, intrigas, redenções tardias: tudo isto servido com generosidade e consumido com avidez por gerações inteiras. Tudo isto, note-se, sem relatórios clínicos nem advertências preventivas — e, ainda assim, continuou-se a jantar.

    Mas é na literatura maior — essa senhora antiga, de vícios refinados e memória longa — que o escândalo deveria assumir proporções verdadeiramente épicas para a doutora Teresa Feijão. Convém, todavia, arrumá-lo com método, que até a perdição ganha compostura quando bem catalogada.

    Comecemos pelo século XIX, esse tempo que os moralistas evocam com uma nostalgia quase doméstica, como se então os pecados viessem com certificado de autenticidade e prazo de validade. Entre vós, tivestes Eça de Queirós, que tratou de organizar a devassidão com método quase científico. Em Os Maias, a aristocracia entregou-se, na sua pena, ao luxo da inutilidade moral, com um incesto a fechar o repasto; em O Crime do Padre Amaro, ofertou-vos um sacerdote a descobrir que a carne tem mais argumentos do que a fé; e em O Primo Basílio, aprimorou o adultério à banalidade de uma visita.

    Já Camilo, esse engenheiro do desespero, em Amor de Perdição, decidiu que amar sem morrer era uma forma de tibieza; e assim vos concedeu uma paixão tão absoluta que só se resolve com grades, lágrimas e cadáveres. Do lado oposto do Atlântico, noutro sotaque, o ‘meu’ Machado de Assis construiu um Dom Casmurro consumido por um ciúme tão elegante que dispensa provas, e ainda assim convence.

    No meu Brasil, Nelson Rodrigues fez da família um laboratório de incestos e tragédias; e, no estrangeiro, houve Lolita, houve Laranja Mecânica — onde a linguagem, em dialecto inventado, e a violência, em escala quase pedagógica, fariam do mais atrevido Abacatudo um mero aprendiz de delinquente — e houve ainda American Psycho, para demonstrar que a literatura nunca teve receio de causar tremores.

    E até houve, há pouco, As 50 Sombras de Grey, que, com a modéstia de quem julga ter descoberto o escândalo, tratou de embrulhar velhas fantasias de poder e submissão em celofane editorial, encontrando legiões de leitores — e, apesar disso, continuou a tomar-se o café da manhã.

    E nem nunca a infância foi refúgio seguro antes dos abacates e dos morangos atacarem no TikTok. Veja, doutora Teresa Feijão, os Irmãos Grimm a lembrarem-se que a inocência pode conviver com o medo.

    Versão híbrida de Moranguete & Abacatudo em estilo Laranja Mecânica.

    Em Hansel e Gretel, duas crianças são abandonadas na floresta com a naturalidade de um gesto doméstico e acabam por cair numa armadilha açucarada onde a doçura serve apenas de pretexto para as engordar e devorar; em Branca de Neve, uma madrasta decide eliminar a rival com a serenidade de quem faz justiça doméstica, recorrendo ao veneno como instrumento de equilíbrio familiar; e, em Capuchinho Vermelho, um lobo antecipa-se ao percurso pedagógico da menina para deglutir, com cortesia protocolar, a avozinha — e, logo depois, a própria discípula.

    Acrescente-se A Pequena Sereia, de Hans Christian Andersen, onde amar dói — literalmente — e Pinóquio, de Carlo Collodi, onde a mentira se paga com juros imaginativos, para concluirmos que a infância sempre foi um território menos inocente do que supomos.

    Perante tal inventário, observo a Moranguete e o Abacatudo com uma indulgência quase paternal. Nem com a inteligência artificial se inventou algo. Limitam-se a continuar, com meios mais sumarentos e menos estilo, uma tradição antiga: a de contar histórias onde as criaturas — humanas, e agora vegetais — se traem, se desejam e se perdem com regularidade admirável.

    E é então que me ocorre um pensamento final, talvez pouco científico, mas profundamente útil: suspeito que a doutora Teresa Feijão, se tivesse a infeliz ideia de me ler — a mim, este defunto sem grande sentido moral — encontraria matéria abundante para alarme. Um narrador ocioso, irónico, desconfiado, pouco dado a virtudes e demasiado inclinado à ironia…

    Que perigo não representaria isto para a juventude! Poderia levá-la, imagine-se, a rir das convenções, a desconfiar das certezas — e, no pior dos casos, a pensar. E esse, admito, é um risco que nenhuma vigilância alguma vez conseguiu eliminar.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • Modesta disquisição acerca da Mulher e das ‘Pessoas que Menstruam’

    Modesta disquisição acerca da Mulher e das ‘Pessoas que Menstruam’


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Jamais soube descrever cores com a precisão dos pintores flamengos, nem odores com a persistência de um Proust mais atento às gavetas da memória do que ao mundo em si. Menos ainda sei nomear, com segurança ontológica, aquelas ideias que, pretendendo elevar-se à categoria de progresso moral, acabam por pairar numa estranha zona intermédia entre o sublime e o caricatural.

    Em verdade, nunca tive o engenho necessário para fixar, em letras com um mínimo esboço de solidez, aquelas ideias embrulhadas em virtude. Falta-me vocabulário — não por escassez de termos, mas por excesso de cautelas: amiúde, tudo me parece demasiado vago quando pretende ser definitivo, demasiado seguro quando não admite réplica. Talvez o defeito seja meu, que insisto em procurar substância onde outros se contentam com intenção, ou talvez haja pensamentos que, quanto mais se escrevem, menos se deixam compreender.

    Todas as palavras, mesmo quando muito bem-intencionadas, têm um defeito constitutivo, uma limitação de nascença, um vício de fabrico: inflam-se de virtude e, no processo, tornam-se maiores do que aquilo que são. E então a linguagem deixa de ser instrumento e passa a ser cenário — um palco onde as ideias se apresentam vestidas de gala, embora tropeçando no próprio traje. Recordo-me, a propósito, de três figuras dos meus tempos do Rio, cuja memória talvez ajude a compreender esta vocação das palavras para se excederem.

    Primeiro, o conselheiro Eusébio de Alvarenga Coutinho, que se apresentava como “benfeitor público de largo alcance”. Nunca lhe conheci obra que não fosse verbal. Distribuía intenções com uma liberalidade quase comovente e, quando instado a concretizá-las, respondia com novas intenções, ainda mais amplas. O alcance era, de facto, vasto — tão vasto que nunca chegou a parte alguma.

    Depois, a senhora D. Quitéria Augusta de Vasconcelos, fervorosa “defensora intransigente da verdade” — e tão intransigente que nenhuma verdade lhe sobrevivia intacta. Passavam-lhe pelas mãos e saíam compostas, penteadas e, sobretudo, irreconhecíveis — como sobrinhos que regressam da Europa com sotaque novo e memória curta.

    Por fim, o jovem tribuno Belmiro Fagundes da Rocha, que ardia em “amor ao povo”. Discursava com tal devoção e enlevo sobre as misérias alheias que o próprio povo, não querendo abusar de tamanho afecto, se retirava discretamente. Amava-o de longe — e o povo, com prudência instintiva, fazia o mesmo.

    Mais de uma centúria e meia depois, observo com deleite a perenidade destas encenações linguísticas do século. E foi nessa missão que, folheando distraidamente as curiosidades do mundo moderno, me detive num anúncio de emprego do jornal Gerador, onde se oferece, entre outros benefícios de natureza prática e espiritual, um “complemento de apoio menstrual para as pessoas que menstruam”.

    Admito: o meu primeiro impulso não foi nem de aprovação nem de reprovação, mas de admiração estética: há aqui um cuidado, uma arquitectura verbal, um zelo quase litúrgico na escolha das palavras que me recorda certos sermões barrocos, onde o excesso de ornamento não obscurecia nem clarificava a intenção — apenas a transformava em espectáculo.

    Quando vivi, chamavam-me homem — e não me lembro de que tal designação tenha exigido certificação adicional. Hoje, suspeito que teria de preencher um formulário mais exigente, talvez acompanhado de um relatório funcional que atestasse as minhas capacidades biológicas em vigor. Porque, ao que parece, já não basta ser; é preciso corresponder a uma descrição operativa. A identidade, outrora um dado relativamente estável, tornou-se uma variável dependente de processos fisiológicos, como se a alma tivesse sido substituída por um conjunto de indicadores mensuráveis.

    Assim, a mulher — essa figura que atravessou a história com todas as suas contradições, glórias e misérias — já não é uma moça nem mocinha nem dama nem donzela nem senhora nem criatura de escol, nem sequer matrona: surge agora reconfigurada em “pessoa que menstrua”, o que, convenhamos, tem a elegância de um inventário clínico e a poesia seca de um recibo de drogaria de bairro.

    Esta curiosa engenharia semântica dos vossos dias, digna de um cartório metafísico, transforma assim a mulher — outrora entidade contínua e razoavelmente estável no seu percurso existencial quase por desígnio ab origine — num ser fragmentado em sucessivas categorias transitórias: nasce como “pessoa que não menstrua”, ascende à condição de “pessoa que menstrua” na alvorada da puberdade, podendo, ao longo da vida, oscilar entre estados — ora menstruante, ora suspensa — conforme as marés hormonais, as gravidezes ou as fases lunares que a nova taxonomia ainda não logrou estabilizar.

    Chegada a maturidade, a mesma entidade regressa, com a dignidade das matronas, ao estatuto final de “pessoa que não menstrua”, fechando assim um ciclo que a linguagem contemporânea fez questão de desunir para melhor o administrar. Dir-se-ia, com alguma piedade filosófica, que a biologia foi aqui substituída por um itinerário burocrático do corpo, onde cada fase exige designação própria, como se o ser precisasse de autorização terminológica para persistir.

    E, no entanto, entre estas subtilezas vocabulares e as grandes certezas proclamadas nos anos recentes, permanece a mesma pulsão: a de impor categorias, estabilizar narrativas e excluir quem ousa perguntar se o imperador — biológico ou científico — não estará, afinal, ligeiramente despido.

    Recordo-me, a este propósito, de Aristóteles, que tanto se empenhou em classificar o mundo com uma serenidade que hoje parece ingenuidade. Ele acreditava que as categorias ajudavam a compreender o real; agora, porém, é o real que deve ajustar-se às categorias que se julgam mais virtuosas. A diferença é subtil, mas decisiva: onde havia método, há agora zelo.

    Também Teofrasto, seu discípulo, que dedicou páginas inteiras a descrever tipos humanos — o dissimulado, o tagarela, o avarento —, ficaria perplexo com os tempos hodiernos, porque, creio, nunca lhe ocorreu que, ao nomear géneros, estivesse a substituir aquilo que descrevia. Para ele, as categorias eram retratos, não moldes; eram espelhos, não instruções.

    Porém, concedo que, dos antigos, seria Diógenes quem melhor apreciaria este novo mundo. Ele, que depenou um galo para ridicularizar a definição de homem como “animal bípede sem penas”, encontraria aqui matéria abundante para os seus exercícios de ironia. Bastar-lhe-ia, imagino, apontar para qualquer transeunte e perguntar: “E este, em que categoria se inscreve hoje?” Não duvido de que a resposta implicaria um pequeno tratado.

    Mas não é apenas a expressão “pessoas que menstruam” que me intriga — é o lugar que ocupa: estamos perante um anúncio de emprego, esse género literário que, no meu tempo, se limitava a anunciar vagas e salários, com a discrição própria de quem trata de assuntos sérios. E, no entanto, irrompe aqui esta fórmula como um pequeno manifesto, uma declaração de princípios que se infiltra entre subsídios e contratos como um perfume persistente. Não se trata apenas de informar o candidato a jornalista no jornal Gerador, mas de lhe sugerir uma forma de ver o mundo — e, talvez, de o convidar a adoptá-la antes mesmo de assinar o contrato. E de transformar a folha e vencimento numa declaração de princípios.

    Não ignoro — e faço questão de o declarar, para que não me tomem por bruto — que sob esta nova arquitectura vocabular se abriga uma intenção que, em si mesma, não é desprezível: a de acolher aqueles que, por disposição íntima, por vontade persistente ou por itinerário singular, não se reconhecem nas categorias que a natureza, com a sua proverbial e infatigável falta de tacto, estabeleceu. Há nisso um impulso que, no meu tempo, chamaríamos generoso — e que hoje, imagino, se dirá obrigatório.

    Contudo, quando a virtude se torna obrigatória, adquire os contornos de um pequeno despotismo — suave, polido, quase sorridente, mas despotismo ainda assim. Porque aquilo que se observa não é já a ampliação do campo humano, mas a sua reconfiguração administrativa. Assim, para incluir alguns, procede-se a uma discreta revisão de outros; para acomodar uma excepção, corrige-se a regra; e, nesse gesto de aparência inofensiva, altera-se a própria substância daquilo que se pretendia apenas nomear.

    Dir-se-ia, com propriedade quase jurídica, que se assiste a uma espécie de expropriação semântica. E sem ruído. Por utilidade pública. A mulher — essa realidade concreta, histórica, corporal, irrepetível — não é abolida, não: seria gesto demasiado brusco para sensibilidades tão refinadas. É antes apenas reconduzida, com delicadeza e mansidão, a um estatuto funcional, a uma definição que a esvazia do que nela há de particular, para que a linguagem se torne suficientemente ampla, suficientemente elástica, suficientemente neutra para albergar todos — mesmo que, nesse processo, deixe de ser exacta para um só que seja.

    No meu século, as injustiças eram mais directas e menos sofisticadas, e ninguém pensaria em resolver uma desigualdade começando por obscurecer a definição daquilo que estava em causa. Agora, porém, a operação é engenhosa: não se discute a realidade — reformula-se o vocabulário até que a realidade, por assim dizer, se acomode. Concedo a minha admiração por um método tão elegante, quase invisível, digno de um legislador que prefere alterar os termos do contrato a renegociar as partes.

    E assim se chega a este ponto curioso: para que certos indivíduos possam ser reconhecidos na sua identidade — o que, repito, não me escandaliza — torna-se conveniente que outros sejam descritos de forma indefinida, menos afirmada, quase diluída. Trata-se não de negar a mulher, mas de a tornar tão vaga que deixe de constituir um obstáculo conceptual. Uma operação de enorme delicadeza — e de não menor eficácia.

    Confesso que estes novos processos civilizacionais me divertem. Não com a alegria franca dos vivos, que ainda acreditam na transparência das intenções, mas com aquele sorriso oblíquo que só os mortos cultivam, por já não terem de fingir entusiasmo. Porque se vê aqui, na semântica das “pessoas que menstruam”, com nitidez quase clínica, o velho vício humano de querer corrigir o mundo — começando, prudentemente, por corrigir as palavras — e acabando, sem dar por isso, por corrigir aquilo que as palavras designavam.

    Eu próprio poderia agora ser reclassificado como “pessoa em estado de não-vivência continuada”. E nem me surpreenderia, aliás, que me exigissem a actualização periódica desse estatuto — não vá dar-se o caso de, à semelhança das pessoas que menstruam quando engravidam, eu poder transitar provisoriamente para a categoria oposta.

    A expressão tem o mérito de evitar a brutalidade do termo “morto”, que, admito, pode ferir susceptibilidades mais delicadas, mas suspeito que, ao proteger os ouvidos, se empobrece a inteligência. E receio que o mesmo suceda aqui: ao suavizar a linguagem, endurece-se a confusão.

    Talvez seja esse o triunfo último desta vossa época: uma linguagem irrepreensível, impecavelmente inclusiva, moralmente inatacável — e, ao mesmo tempo, tão cautelosa, tão depurada, tão neutra, que já não ousa dizer, com clareza, aquilo que cada coisa é. Um mundo nomeado na perfeição — e, por isso mesmo, tão em boa ordem que se torna cada vez mais difícil de compreender.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • A arte de elidir escolhas e promover comunhões aplicada ao ‘Memorial do Convento’

    A arte de elidir escolhas e promover comunhões aplicada ao ‘Memorial do Convento’


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Não sei se alguma vez o homem fez escolhas. Quem diz homem, diz cavalheiros e, antes deles, as donzelas. Inclino-me a crer que não. Decidem, sim, por acidente, por fadiga, por falta de alternativa, por impulso ou por capricho — mas nunca por aquela convicção límpida e definitiva que os moralistas gostam de atribuir às almas bem formadas. O homem — e quando digo homens, digo-o com a displicência de quem fala da espécie inteira, incluindo, sem protesto nem licença, as mulheres, que Deus e a natureza não tiveram o cuidado de separar em capítulos distintos —, repito: o homem, esse animal vacilante que ora se julga senhor de si, ora se entrega à mais pueril das hesitações, vive sobretudo da ilusão de escolher. E, se desejam usar o verbo escolher, então digo que escolhe como quem tropeça.

    Recordo-me, aliás — e agora que já não tenho corpo para me arrepender —, de quantas vezes julguei amar com exclusividade apenas para, dias depois, descobrir outra exclusividade mais recente e mais ardente. Não é que o amor se multiplique; a vontade é que se dispersa. Na verdade, no espírito humano há uma espécie de gula do possível, uma fome de alternativas, um apetite insaciável pelo que ainda não foi experimentado. E assim se vai de paixão em paixão, não por infidelidade moral, mas por incapacidade estrutural de permanência.

    Dir-me-ão, as mais impolutas donzelas e os mais probos cavalheiros, que é falta de carácter. Eu direi, com a serenidade dos mortos, ser somente excesso de mundo. Porque o problema jamais está na escassez, mas na abundância. Quando há pouco, escolhe-se por necessidade; quando há muito, escolhe-se mal — ou não se escolhe de todo. A multiplicação do belo, do desejável ou do plausível produz um efeito curioso: paralisa. A liberdade, que tanto se celebra, revela-se então um labirinto, e o homem, longe de se libertar, perde-se.

    Veja-se Paris, veja-se Roma, veja-se o meu Rio de Janeiro, veja-se até Lisboa ou o Porto, veja-se qualquer catálogo de afectos humanos: quantas vidas não foram gastas na tentativa de escolher o melhor entre muitos bons, acabando por não ficar com nenhum. Até Ulisses, que percorreu mares e monstros, teve de tapar os ouvidos — não por falta de curiosidade, mas por excesso dela. E, mesmo assim, não escolheu: resistiu.

    Ora, é neste ponto, em que a filosofia se aproxima, de modo perigoso, da pedagogia, que me vejo compelido a falar de um assunto de aparência menor, mas de consequências vastas: a escolha de uma obra literária obrigatória para o ensino secundário da Velha Lusitânia. Não se riam — há decisões que parecem pequenas apenas porque não se olha para o lugar onde começam.

    Escolher um livro para o derradeiro ano do secundário é, em termos modernos, um acto administrativo; em termos antigos, um gesto civilizacional. E, como tal, está condenado a falhar. Porque não se selecciona apenas um livro: escolhe-se uma ideia de Literatura, uma ideia de Língua, uma ideia de Mundo — e, inevitavelmente, uma ideia de Poder.

    Dizem-me estar em perigo de ser substituída a obra Memorial do Convento, de José Saramago, o único português que teve a ousadia — e a paciência — de conquistar um Prémio Nobel da Literatura, estando-se a ponderar entre mantê-lo ou substituí-lo pelo digníssimo Mário de Carvalho e o seu Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, esse romanesco espelho subtil e irónico das eternas fragilidades humanas.

    Pois bem. A escolha por Saramago pareceu, à primeira vista, irrepreensível. Mas, como sempre, o diabo — esse crítico literário sem carteira — esconde-se nos detalhes. O homem escreveu como quem pensa alto — e com demasiadas vírgulas, o que, convenhamos, não é o passatempo preferido de um aluno de dezassete anos. A densidade da sua prosa, a ausência deliberada de pontuação convencional, a ironia subtil e persistente exigem mais do que leitura: exigem disponibilidade intelectual, e isso, como sabemos, é mercadoria escassa em qualquer idade, mas ainda mais rara antes dos exames nacionais de acesso à universidade.

    Porém, não se julgue que a dúvida em manter o Prémio Nobel ou escolher outro escritor reside apenas na arquitectura da frase ou na respiração do texto, como se bastasse treinar o fôlego para acompanhar o autor. A questão, como tantas outras na vossa pobre condição literária, tem sempre o pé assente em terreno mais viscoso, onde já não se discutem vírgulas, mas convicções.

    Saramago foi um comunista. E não um mero “simpatizante”, não um simples “inclinado”, não um ocasionalmente “distraído à esquerda” — foi comunista empedernido, com convicção e militância. Ora, num país onde os governos mudam de cor com a regularidade das estações, escolher um autor comunista para leitura obrigatória sob um governo de direita tem algo de exercício de contorcionismo político.

    E que fazer, então, perante este impasse civilizacional que se manifesta, com particular acuidade, nos programas escolares? A resposta, como quase todas as respostas contemporâneas, é burocrática, porque se pede uma solução de ordem superior, dessas que não resolvem nada, mas têm a vantagem de parecerem profundas. Portanto, se o problema reside na diversidade de gostos, de sensibilidades e até de conveniências políticas, então não será despropositado admitir que a resposta esteja numa engenharia literária capaz de acomodar, numa mesma página, o épico e o doméstico, o sublime e o ridículo, o pensamento e a sua ausência — isto é, tudo aquilo que compõe, com maior ou menor disfarce, a experiência humana.

    Sendo assim, proponho, com a gravidade que me é exigível, a criação de uma Comissão Interministerial de Harmonização Literária e Sensibilidades Estéticas Aplicadas, composta por representantes da Educação, da Cultura, da Política, da Psicologia Adolescente — desde que não convidem o doutor Mauro Paulino, de contrário chumba tudo ao pior estilo do Simão Bacamarte — e, se possível, da Meteorologia, que nunca é demais. Esta comissão teria como missão nobre — e, portanto, quase impossível — a elaboração de uma versão consensual das grandes obras da literatura portuguesa.

    Assim, tomar-se-ia uma qualquer opus magnum e proceder-se-ia à sua devida “actualização sensível”: uma simplificação sintáctica para os apressados, um glossário ideológico para os cautelosos, umas notas de rodapé emocionais para os mais frágeis e, por que não, uma versão alternativa onde as frases terminassem onde devem terminar, para descanso dos olhos menos treinados. Além disso, introduzir-se-iam camadas: um pouco de lirismo acessível, uma pitada de ironia clássica, um eco de moralidade barroca, uma concessão ao gosto contemporâneo, tudo devidamente identificado e equilibrado, como convém a uma obra que pretende agradar a todos — isto é, a ninguém em particular.

    Dir-me-ão que tal empresa se revela assaz laboriosa e penosa. E com razão. Mas também a educação moderna vive, em larga medida, dessa fé curiosa em impossibilidades administrativas, o que concede autorização pleníssima, sem grande risco, a avançar mais um passo neste delírio metódico.

    Desçamos, enfim, e por fim, do plano das abstrações — onde tudo parece possível e nada se compromete — para o terreno mais perigoso dos exemplos, tomando eu, como campo de ensaio desta ambição conciliadora, as páginas iniciais de Memorial do Convento:

    D. João, quinto do nome, irá esta noite ao quarto da rainha (solenidade histórica e frase longa à maneira de José Saramago, com ressonância épica de Luís de Camões), e diz-se isto assim porque a história gosta de se vestir bem, ainda que por baixo esteja apenas um homem que vai deitar-se com a mulher (desmontagem irónica da solenidade em tom de Eça de Queirós), e alguém, lá fora, diria, “tanto aparato para isto” (registo popular anónimo).

    Mas não nos apressemos no juízo (suspensão narrativa saramaguiana), porque há aqui mais do que um gesto, há um vazio (abstracção existencial de Fernando Pessoa), e o vazio, como se sabe, pesa (universalização moral de Padre António Vieira), instala-se, corrói, insiste (repetição introspectiva de António Lobo Antunes).

    A rainha espera (minimalismo emocional de Pedro Chagas Freitas), e na espera constrói-se uma vida que não acontece (consciência pessoana do não-acontecimento), e murmura-se, sempre se murmura (ritmo social saramaguiano), que a culpa é dela (crítica social directa de Eça de Queirós).

    O rei cumpre, exactas duas vezes por semana, quando não se atrasa (observação factual com ironia implícita de Pedro Almeida Vieira), como quem cumpre um calendário que não compreende (consciência crítica à Machado de Assis), e Deus, que é grande (elevação retórica de Padre António Vieira), talvez esteja ocupado com outras grandezas (ironia metafísica de Saramago).

    E ergue-se Roma, pedra sobre pedra (eco épico camoniano), encaixes perfeitos, ou quase, ou mais ou menos (olhar crítico almeidavieirano), porque há sempre um erro que ninguém quer ver (ironia social queirosiana).

    E o rei gosta, porque tudo o que é grande confirma o que ele pensa de si (análise psicológica implícita de Machado de Assis), e não vê, ou não quer ver (repetição reflexiva loboantuniana).

    Vestem-no (ritualização saramaguiana), ajeitam-no, passam-lhe as roupas (acumulação descritiva de António Lobo Antunes), como se tudo fosse sagrado (cadência oratória de Padre António Vieira), e alguém diria, “há sempre gente a mais para fazer o que já estava feito” (voz popular crítica).

    E entra o bispo, entra o frade (ritmo narrativo de Saramago), e com eles entra a solução (ironia estrutural de Machado de Assis), promete um convento e terás um filho (retórica causal de Padre António Vieira), e o rei acredita (simplificação emocional de Pedro Chagas Freitas), porque, quando se quer muito, acredita-se em tudo (generalização existencial de Fernando Pessoa).

    E, ao mesmo tempo, noutra parte do mundo que é o mesmo (universalização paradoxal à maneira de Saramago, mas com sombra metafísica de Pessoa), um filho pergunta, pai, posso abraçar-te, e o pai diz não (oralidade directa e emocional de Chagas Freitas, dita em frase contínua de Saramago), e nesse não cabe tudo (condensação simbólica saramaguiana com densidade existencial de Pessoa), cabe a vida que continua e a morte que ameaça (paralelismo retórico de António Vieira com eco épico de Camões), cabe o amor que não se cumpre (fracasso afectivo à Lobo Antunes, dito com simplicidade de Chagas Freitas), e alguém poderá dizer, o que tem isto a ver com o rei (interrupção metanarrativa de Machado de Assis cruzada com ironia de Saramago), e a resposta é simples, tudo (afirmação totalizante saramaguiana), porque tanto um como outro procuram o mesmo, aquilo que falta (filosofia da incompletude de Fernando Pessoa com generalização moral de António Vieira).

    E assim se cruzam as histórias (costura narrativa saramaguiana), a do rei que quer um filho, a do filho que quer um abraço, cruzando tempos (paralelismo contrastivo de Eça de Queirós com leitura histórica de Pedro Almeida Vieira), e nenhuma delas se resolve com facilidade (desencanto introspectivo de Lobo Antunes), porque o mundo não foi feito para resolver, foi feito para insistir (circularidade obsessiva loboantuniana atravessada por ironia saramaguiana).

    E, se no fim nos perguntarem o que é mais importante (estrutura oratória de Padre António Vieira), o convento ou o abraço (símbolo histórico versus íntimo em chave de José Saramago), diremos, com alguma prudência, talvez o abraço (aforismo moderado de Machado de Assis com emoção de Chagas Freitas), mas não com muita convicção (auto-correcção irónica machadiana), porque o homem, como se sabe (fórmula universalizante de Padre António Vieira), é capaz de construir monumentos inteiros (crítica histórico-política de Pedro Almeida Vieira) para não admitir que aquilo de que precisava era apenas de tocar alguém (desmontagem social de Eça de Queirós com núcleo emocional de Pedro Chagas Freitas).

    E isto, que agora se escreve (consciência do acto narrativo de Machado de Assis), não é história nem é confissão (negação definidora saramaguiana), é apenas uma tentativa de juntar vozes, estilos, maneiras de dizer (polifonia conceptual de Fernando Pessoa), como quem monta uma casa onde todos cabem, mesmo quando não concordam (metáfora ensaística de Pessoa atravessada por construção narrativa de Saramago), porque talvez seja isso a literatura (definição aberta de Machado de Assis), um lugar onde tudo fala ao mesmo tempo (polifonia saramaguiana), e, estranhamente (suspensão reflexiva de António Lobo Antunes), faz sentido (fecho simples e emocional de Pedro Chagas Freitas).

    Naturalmente — porque nenhuma obra que aspire à unanimidade pode dispensar o conforto da revisão infinita — trabalhos desta natureza deveriam, antes da superior aprovação, descer à competente Subcomissão de Verificação de Sensibilidades, Ritmos e Concordâncias Estéticas, órgão técnico de reconhecida inutilidade prática, embora de grande prestígio formal. Caber-lhe-ia a nobre tarefa de aferir o grau de aceitabilidade emocional de cada frase, medir a densidade ideológica por parágrafo, garantir que nenhuma vírgula ofende a respiração média do leitor e assegurar, com o rigor possível, que o texto não diz demasiado — nem demasiado pouco — sobre coisa nenhuma.

    Só depois, expurgado de excessos indevidos, contradições e ímpetos de estilo, poderia o texto regressar ao circuito superior, onde, com a solenidade adequada, seria finalmente aprovado — ou, o que vem a dar ao mesmo, esquecido. E só depois exposto aos olhos dos adolescentes do secundário lusitano para que, prontamente, a inteligência artificial os auxilie a tudo compreender em dois minutos de leitura.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • A gaveta, ou a estética literária do amor oco em Cláudio Ramos

    A gaveta, ou a estética literária do amor oco em Cláudio Ramos


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

    ***

    A Literatura — essa velha senhora que atravessou impérios, concílios e fogueiras inquisitoriais — nunca foi propriamente um ventre, e muito menos um colo, democrático. Não porque lhe falte generosidade, mas por lhe sobrar memória. Como as antigas divindades do Olimpo, exige não apenas devoção, mas sacrifício — de tempo, de espírito, e sobretudo de ilusão, que é o primeiro atributo que o verdadeiro escritor perde e o último que o aspirante conserva.

    Escrever jamais foi gesto inocente; foi, desde Homero até Friedrich Nietzsche, de Dante Alighieri até Marcel Proust, e de Miguel de Cervantes até Jorge Luis Borges, passando pelo ‘meu’ Machado de Assis, uma forma de insubordinação contra o óbvio — uma recusa sistemática da banalidade, um desacato permanente à evidência. Mas a pena, que outrora pesava como um destino, hoje desliza como um hábito.

    É, pois, com a ligeireza de quem já não respira — e, por isso mesmo, se libertou do cansaço e da piedade — que me proponho comentar este fenómeno curioso: o romance leve escrito por um homem pesado de visibilidade.

    Cláudio Ramos — que a Providência televisiva, esse deus menor das audiências, colocou entre o pequeno-almoço e o comentário mundano — decidiu, com uma coragem que não lhe nego (porque até a inconsciência merece o seu elogio), publicar e publicitar o seu sexto romance. Seis! Número que, na economia simbólica das Escrituras, antecede o repouso divino, embora eu tema que anteceda apenas a sua próxima sessão de autógrafos, essa liturgia laica onde o efémero se simula eterno com uma caneta e uma fila.

    Muito antes das grelhas televisivas e das lombadas coloridas, bem nos advertiu Qohelet, o pregador do Eclesiastes, esse melancólico anatomista da vaidade: “do fazer muitos livros não há fim, e o muito estudar é enfado da carne.” Faltou-lhe, todavia, um corolário que só a posteridade — sempre mais atrevida do que sábia — ousaria formular: não há fim nos livros, e ainda menos nos que se persuadem de os poder escrever. A multiplicação, outrora privilégio do divino, prodigalizou-se, embora com resultados desiguais. E essa proliferação nem se mostra abundância — é, para usar Heidegger, um mera ocupação do ser com o ente: escreve-se não por necessidade, mas para preencher o vazio de não ser.

    Em todo o caso, a frase bíblica sobre livros no Antigo Testamento, que durante séculos me pareceu dirigida aos excessos da erudição — esses monges da letra que copiavam o mundo até o cansarem —, revela-se-me hoje profética para outro género de abundância: menos penitente para a carne, é certo, mas incomparavelmente mais extenuante para o espírito. Falta-lhe somente um suplemento evangélico — que talvez Cristo não tenha julgado oportuno consignar, ocupado como esteve em adicionar pães e peixes em Tabgha e a acrescer vinho com água — no qual se advertisse que nem toda a multiplicação é milagre, e que algumas, pela sua natureza, pertencem mais ao domínio da redundância do que ao da revelação.

    Enfim, temerárias leitoras e intemeratos leitores, eis que se ergue perante vós Cláudio Ramos — não já aos vossos pés, mas ascendendo, com diligente teimosia, pelos escaparates das livrarias —, acompanhado do seu sexto livro, sob a divisa de “O amor não morre”, esse prodígio editorial que desafia menos as leis da gravidade do que as do discernimento.

    Diz-vos logo o plumitivo, em entrevista à revista Sábado, com uma modéstia visivelmente ensaiada, que não tem pretensão de ser reconhecido como escritor. Confesso: a frase comove-me — não pelo que afirma, mas pelo modo como se constrói. É uma negação que reclama aplauso, um despojamento que pede plateia, uma humildade iluminada por focos de estúdio.

    Nesta recusa de reconhecimento, há qualquer coisa de profundamente nietzschiana — não no sentido da grandeza, mas da máscara: uma vontade de poder que se disfarça de modéstia para melhor se afirmar. Eu próprio, que avancei para a eternidade com a prudente garantia de não ter de conhecer leitores nem suportar críticos, jamais alcancei semelhante requinte: declarar a própria irrelevância antes que alguém a pudesse notar — e fazê-lo com tal elegância que quase se transforma em mérito.

    Também me enterneceu a teologia de conveniência em Cláudio Ramos, segundo a qual, aparentemente, a Providência Literária se administra como um serviço de entregas ao domicílio, bastando visitar o Santuário de Fátima, sempre pela calada da noite, para que o universo, solícito e algo ingénuo, se reorganize a seu favor sem necessidade de auditoria divina. E anotei também que este asceta mediático declara uma olímpica impaciência pelas festas literárias de croquete e figuras públicas, como se tais frivolidades lhe fossem impostas por um destino menor, indigno da sua recém-descoberta da espiritualidade.

    Mas não nos precipitemos. A alma humana sempre foi um teatro mais intrincado do que as grelhas da TVI. Até porque Cláudio Ramos confessa, desta sorte, que gostaria de viver da escrita. Eis um prodígio de lógica: não deseja ser reconhecido, mas aspira a ser sustentado. Aristóteles, se ainda frequentasse estes salões, pediria uma definição; Kant, talvez, exigisse coerência entre o dever e a intenção; e Pascal, mais melancólico, veria nisto apenas mais um desvio da miséria humana — mas eu, que reconheço o género, limito-me a sorrir: trata-se, no fundo, de esperança com contabilidade.

    Quanto ao conteúdo do tronco romanesco de Ramos, a revelação do autor é de natureza floral — mas de frutificação deploravelmente chocha: o amor é a melhor energia que podemos ter, diz-nos, como quem descobre adubo de pacotilha e o exibe, ufano, em estéril vaso decorativo. Não ouso discordar — também a gravidade e os caixotes de lixo têm as suas vantagens —, mas fico a matutar se não haverá já, em alguma parte do universo, frase mais usada. Se existisse um inferno para lugares-comuns, este estaria, sem dúvida, na primeira fila, ao lado de “vive o momento”, “segue o teu coração” ou “tudo acontece por uma razão”.

    Há mais… Cláudio Ramos garante que o seu livro, aquele que dos seis “tem mais páginas”, promete ser de leitura “light e despretensiosa”. Aqui detenho-me. Não por dúvida, mas por admiração. Raramente um autor define com tamanha precisão a sua própria obra. A leveza, outrora celebrada por Italo Calvino como virtude estética, aparece aqui reduzida ao seu estado mais puro: a ausência de peso, de risco, de necessidade. O romance de Ramos não levita — evapora-se na insignificância.

    Já o seu método de trabalho, por seu turno, merece-me outra nota — ou mais uma penada. Cláudio Ramos informa que se levanta cedo, apresenta televisão, treina o corpo, regressa a casa e escreve. Neste itinerário, há algo de profundamente moderno: a literatura surge nele como actividade complementar, quase higiénica, como quem corre ao fim do dia para compensar o excesso de calorias mediáticas. Como já notava Adorno, esse alemão que desconfiava de tudo — sobretudo do que agrada facilmente —, a indústria cultural evoluiu e já não produz obras; apenas prolongamentos. E em Cláudio, a escrita ramifica-se em apensos e reminiscências com a leveza própria de tudo o que já nem precisa de existir para circular.

    E, no entanto, o seu momento de génio — porque há sempre um — irrompe quando, diz ele, figurando o que alinhavou, conclui: “As pessoas vão mesmo gostar de ler isto.” Eis a crítica literária em estado de embrião: o autor como primeiro leitor, primeiro crítico e, se necessário, primeiro admirador. Em tempos, aguardava-se pela posteridade; hoje, com Cláudio Ramos, basta um instante de convicção diante do espelho. E, claro, uma olímpica indiferença ao ridículo — essa virtude moderna que permite ao homem confundir aplauso interior com consagração universal, sem que a realidade, essa velha inconveniente, tenha sequer tempo de se pronunciar.

    Mas nada — absolutamente nada — supera a sua declaração que, temo, venha a ser a mais célebre: “Sei que nunca serei reconhecido como escritor num país em que somos metidos em gavetas”. Aqui, minhas desassombradas donzelas e meus impávidos cavalheiros, Cláudio Ramos atinge a epifania.

    A culpa da sua hodierna — e, ouso dizer, persistente — insignificância como demiurgo das letras, da sua vacuidade como artífice da prosa e da sua nulidade como arquitecto das palavras não é da sua escrita, nem do seu estilo, nem sequer da sua leveza: é do mobiliário nacional. Portugal, esse país antigo que até sobreviveu à Restauração da Independência de 1640 e ao Governo de António Costa, revela agora a sua falha estrutural: excesso de gavetas e falta de compreensão para os romances light.

    No fundo, aquilo que tendes diante de vós não é um escritor incompreendido, mas um fenómeno compreendido: a literatura como apêndice da celebridade, o livro como exsudação da imagem, a escrita como excrescência do eco. Direi, com Baudrillard, que já não estamos perante um autor, mas perante um simulacro de autoria: um texto que não representa o real, mas apenas o reproduz como espectáculo. Nem sequer há aqui tragédia, nem sequer comédia — há apenas a forma mais acabada de continuidade mediática.

    E, todavia — porque a minha alma, mesmo defunta, conserva alguns caprichos de humanidade —, concedo a Cláudio Ramos um mérito: escreve. E isso, ainda hoje, é mais do que muitos ousam. Pena é que escreva como quem fala — e fale como quem passa: sem fricção, sem demora, sem memória.

    Fecho este capítulo — que bem poderia servir de epitáfio literário — com a serenidade dos mortos e a malícia dos vivos: não sei se o amor não morre, como proclama o título do romance de Cláudio Ramos. Sei apenas que, neste caso, a Literatura não chegou a nascer — ficou-se por uma intenção malograda, dessas que a natureza, com alguma prudência, prefere não levar a termo. Uma inconsumação, adito até. Um aborto, portanto.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas