Categoria: ComplexoTitanic

  • Fact-girl

    Fact-girl

    Conheço raparigas que gostam de coisas. Mas há muitas raparigas que gostam de coisas.

    Esta jornalista não é bem apenas uma rapariga que gosta de coisas.

    As coisas gostam dela, também. Mas isso é uma não-notícia. Ainda que as coisas nunca sejam só coisas.

    Ela tem o costume de desmontar noticias mas isso, por si, não é uma notícia.

    Nesse caso seria uma encenação. E a realidade perder-se-ia.

    A Maria Afonso Peixoto lê-se.

    Leio-me nela.

    É assim que deve ser quando as palavras não são inócuas e até se desmontam a si mesmas. A nós mesmos.

    E isso faz dela uma estrela de um cinema que já morreu mas o funeral ainda não foi anunciado no jornal, ou pelo menos já viveu num obituário. Como a vida ainda é uma sala de cinema com balcão com vista para o jornalismo, a protagonista é um artigo de luxo.

    Sim.

    Um artigo como este. Que é e não é uma crónica anunciada. Não se trata de dizer bem ou mal.

    Trata-se apenas.

    Mas o jornalismo tem alguma dificuldade com os “apenas”. Tem dificuldade em geral. Talvez porque “apenas” não seja notícia. Não tem fontes, não tem contraditório e é difícil saber exactamente quando aconteceu, embora já tenha acontecido.

    Esta profissão já não precisa de contraditório.

    Mas precisa de um novo Citizen Kane*. Ou do velho.

    O que pode parecer injusto numa possível contra-prova que ninguém irá fazer.

    E eu até sou do contra. Até contra a realidade. Até mesmo contra a legionela, como um deputado do PSD em tempos. E se for mentira, também não interessa, porque se trata aqui de realismo, e isso, como se sabe, (até ela sabe), depende de cada um.

    É um facto.

    A Maria Afonso Peixoto pressupõe uma nostalgia daquilo que ainda não aconteceu.

    E isso, ao contrário do que possa parecer, é um facto também.

    Irrefutável.

    Do que sei, o seu estilo reflecte uma pandemia ao contrário. Uma pandemia em que se tem vontade de querer habitar livremente, porque a máscara parece ser transparente.

    Porque de metáforas percebo eu nas suas palavras descritas. Contra factos não há não-sei-quê. Disse-me ela um dia numa auto-entrevista com vista para a cidade, como o quarto do filme que nunca vi.

    Um facto já não chega a ser um facto. Precisa de outro facto que confirme o primeiro e, se possível, de alguém que tenha visto os dois. Talvez seja por isso que a realidade esteja cada vez mais cheia de testemunhas e cada vez menos cheia de gente.

    Posso testemunhá-lo eu, mas também não sou bem gente.

    Esta jornalista com carteira profissional número não sei quê, faz a diferença, porque ela é a diferença numa soma de todas as coisas que cabem num texto.

    E isso é jornalismo? Não. Claro que não.

    Para ser jornalismo talvez fosse preciso perguntar-lhe se concorda. Ou ouvir a outra parte. Mas não sei qual é a outra parte de uma pessoa. Muitas pessoas nem outras partes têm. Nem sequer um suplemento de fim de semana conseguem ser.

    Nem sequer um suplemento.

    A própria vida talvez nem um facto seja. Pode ser apenas um suplemento.

    Já que hoje se desconstrói aquilo que nem sequer foi construído.

    Mas ainda assim pode ser verificável.

    Sabe-se que há coisas que acontecem sem documentos. Mas também há coisas que têm documentos e nunca aconteceram. O seu jornalismo sabe disso.

    Eu não. É mais perspicaz do que eu. Alegadamente.

    Mas pode muito bem ser apenas a realidade a entrar pela sua escrita adentro. Como se a verdade ainda merecesse a compra de um bilhete de ida e volta.

    A rapariga que é por si um facto, faz-nos viver num mundo cujo destino parece sempre que está ali ao lado.

    Como ela.

    Existe e até nos podemos dar ao luxo de conhecer a casa de partida. E isso é maravilhoso. Porque derrama sem derramar. Ilustra sem ilustrar e chega a existir sem a existência comprovada.

    O que é tão falso que chega a parecer mentira.

    Mas para esta reflexão serve.

    Falar dela é fazer uma espécie de fact-checking à poesia. É impossível. Se a poesia pudesse ser verificada, provavelmente teria duas fontes independentes.

    Por isso, este texto que também gosta de coisas, não existe bem. Não tem bem dados. Não apela à justiça. Nem sequer sei se ouvi todas as partes.

    É apenas.

    Mas sendo apenas não deixa de ser tudo verdade.

    Uma verdade que não se prova – come-se.

    _____

    *Citizen Kane é um filme norte-americano de 1941, dirigido, escrito, produzido e protagonizado por Orson Welles. Tem o jornalismo como pano de fundo.

    Texto de Ruy Otero (artista media). Imagens: The Swimming Pool Project.

  • Kirkland ou a terra das coincidências

    Kirkland ou a terra das coincidências

    Tenho falado ultimamente com um amigo, o Nuno Ribeiro, grande especialista em Fernando Pessoa, sobre sincronicidade, alinhamento e equilíbrio.

    Mas também existem coincidências banais e coincidências obscenas. Chamemos-lhe o que quisermos, que pouco interessa. As coisas geralmente são o que são, mas também, segundo outro amigo chamado Pocinho, as coisas são frequentemente o que não são.

    O assassinato de Charlie Kirk, no dia 10 de Setembro de 2025, e o filme Snake Eyes, de Brian De Palma, habitam precisamente essa zona de obscenidade: não é uma teoria da conspiração, é talvez sincronia pura, esse lugar onde a realidade parece ter um prazer doentio em plagiar a ficção.

    No filme, um político chamado Charles Kirkland é baleado durante um combate de boxe. No mundo real, um político-activista chamado Kirk é baleado durante um comício.

    No filme, o pugilista que encobre o crime chama-se Tyler, “o Executor”; no real, o atirador chama-se Tyler Robinson e foi o suposto executor. No filme, a data do assassinato é 10 de Setembro, mas não é claro.

    No filme, o tiro atinge o pescoço; no real, é no pescoço que a bala vai morrer. No filme, há um furacão chamado Jezebel a cercar o estádio; na realidade, o site Jezebel tinha publicado, dias antes, textos virais sobre Kirk. No filme, o cenário é o Trump Taj Mahal; no real, as teorias surgidas após o crime arrastaram Trump, judeus e Mossad para o rol de suspeitos virtuais.

    O filme é sobre conspirações políticas e corrupção.

    Isto não é uma profecia. É outra coisa. É talvez o que Jung chamaria de sincronicidade e que eu prefiro chamar de cinema quântico: imagens que, uma vez filmadas, ficam suspensas no tempo, prontas a colidir com a realidade quando esta tropeça no mesmo arquétipo.

    Para Jung, a sincronicidade é a experiência de dois acontecimentos sem ligação causal, mas unidos por um fio de significado. Não é uma coincidência estatística; é uma coincidência carregada de sentido.

    O mundo deixa de ser uma sucessão mecânica de causas e efeitos para se tornar um tecido de símbolos que se activam mutuamente. É a carta de tarot que, virada na mesa, diz mais do que podia saber; é o sonho que antecipa o encontro; é o acontecimento que ressoa com outro, distante no tempo, como se houvesse um campo invisível de ligações. Jung chamou-lhe “princípio acausal” e fez dele uma alternativa ao determinismo.

    A sincronicidade é uma questão de linguagem.

    O tiro em público, o nome repetido, o palco e o ringue, o mesmo dia. Não há causalidade — há um eco. E esse eco é, por definição, perturbador: nunca sabemos se o ouvimos porque o som regressou ou porque ainda não partiu.

    A tentação é cair no delírio interpretativo viral, mas o que interessa aqui não é a explicação.

    Pelo menos para mim, que sou leigo em conspirações.

    É mais a sensação de curto-circuito entre ficção e real que me mata (embora nunca se morra).

    O que Snake Eyes mostra é que a América é um género cinematográfico antes de ser um país e o que o assassinato de Kirk prova é que esse género continua a produzir sequências sem guião, em que os vivos desempenham os papéis que o cinema já ensaiou.

    Onde os vivos parecem mortos e vice-versa.

    Onde a realidade mata a ficção e esta volta como zombie à realidade.

    As coincidências pedem sobretudo atenção.

    A filosofia do acaso não é procurar quem manuseou os cordéis, se existem marionetas ou se tudo é fruto do acaso. Nunca o saberemos, mesmo que tudo tenha sido pensado ou mesmo que não tenha sido. Mas já é muito perceber que vivemos num palco saturado de imagens que se repetem porque são demasiado fortes para morrer.

    E manipular faz parte. Convenhamos. Não sejamos ingénuos.

    Não será este próprio texto um exercício de manipulação?

    Bem, acho que não.

    É um bocado só…

    No fundo não foi De Palma que previu alguma coisa; foi a América que decidiu viver dentro do seu próprio filme. 

    E qual é o problema? 

    Bem… há muitos problemas. Mas isso já não é para aqui chamado.

    Quer dizer…

    Texto e ilustrações de Ruy Otero (artista media)

  • A possibilidade do amor no interior da sua impossibilidade

    A possibilidade do amor no interior da sua impossibilidade

    É possível que nunca tenha existido um tempo em que o amor fosse simples — e talvez o próprio tema contenha já a ironia melancólica de quem intui que a simplicidade, quando atribuída ao amor, é quase sempre sinónimo de desconhecimento, de idealização ou de obliteração crítica das estruturas que historicamente o têm condicionado.

    E, no entanto, há algo no nosso tempo que parece ter acrescentado ao gesto de amar alguém  — já por si ambíguo, paradoxal, vulnerável e extenuante — uma camada suplementar de ruído, aceleração, descontinuidade, vigilância emocional e mercantilização vulnerável.

    Esse ruído tornou quase impraticável a construção de qualquer forma de vínculo que não seja atravessada por suspeita, por fadiga e por uma crescente tendência para a auto-preservação afectiva, como estratégia de sobrevivência num mundo saturado de promessas não cumpridas, afectos monitorizados e intimidades precárias sem tempo nem espaço de qualidade, como aparentemente deveria ser.

    Aparentemente.

    Vivemos num presente em que os dispositivos técnicos da conexão coexistem com uma erosão radical da disponibilidade afectiva, em que a proliferação de imagens do amor substitui a sua experiência vivida, e em que a liberdade de escolha, tantas vezes celebrada como sinal de emancipação, se transforma, na prática, numa lógica de descartabilidade e conceptualização emocional.

    Este tempo tende até a transformar o outro em algoritmo, o desejo em interface e a relação num projecto pessoal com deadlines afectivos e métricas de desempenho relacional em que tudo é contabilizado com estatística pobre e vulnerável.

    O que é estranho e uma grande adversidade para o amor mais poético, e quiçá, verdadeiro.

    Porque a verdade não é um monstro a abater, embora pareça.

    E, no entanto, talvez exista uma única brecha para o gesto amoroso hoje, apesar da maquinaria digital que nos treina para o adiamento e apesar da arquitectura económica que nos empurra para a fragmentação.  

    Deveriam questionar-se também as estruturas da imagética que regulam a intimidade como campo de negociação performativa e gestão emocional mútua.

    A verdade é que os gestos mínimos da atenção persistem, que a vulnerabilidade ainda se manifesta, e que há, apesar de tudo, corpos que se aproximam não só por carência ou cálculo, o que é inegável para as almas meio perdidas. É também evidente que a aproximação pode ser heróica por decisão, e que, mesmo quando interrompida, provisória ou descoordenada, não deixa por isso de ser radical na sua irrupção, na sua disfuncionalidade produtiva e na sua recusa em operar sob o signo da equivalência.

    O amor ou a sua percepção até pode ser anacronicamente romântico. Mas há sempre um preço a pagar.

    Tudo pode fluir ainda, se assim o desejarmos, num tempo em que o Dom Quixote de la Mancha  pode não ser só um calhamaço com o qual podemos partir cabeças quando arremessado para esse fim. Há sempre tempo e espaço para a existência de Dulcineas del Toboso.

    E ter o sumo necessário para percebermos que a ilusão do amor é real e verdadeira. O amor pode ser metafísico mas também pode ser palpável.

    Como sempre.

    Atribuiu-se muita política emocional à paixão amorosa, que deveria ser um acto natural e até espontâneo.

    Existe a ideia de vivermos num tempo que já não permite o amor. É um tempo que se sustenta por dados concretos sobre a solidão crescente, pela falência das estruturas relacionais tradicionais, pela hiperdisponibilidade digital, pelo declínio do tempo vivido em conjunto e pela desintegração da intimidade quotidiana. Este é um tempo em que o conceito de amor corre o risco de se cristalizar numa forma de nostalgia enganadora que confunde estabilidade com profundidade, ou mesmo duração com verdade.

    É como se as relações do passado, marcadas por violências estruturais, desigualdade jurídica, ausência de escolha e normatividade sexual obrigatória, tivessem sido mais “reais” apenas porque duravam mais, quando na verdade muitas delas subsistiam por falta de alternativas, dependência económica ou medo da vergonha pública associada ao fracasso conjugal — e esquecer isto é perpetuar a ilusão de que a dor longa é mais nobre do que a alegria breve.

    Hoje poderá em muitos casos, ser ainda assim, em tempos de precariedade laboral e financeira.

    É rara a série televisiva pós-televisão ou filme pós-cinema que traga um final feliz a uma relação amorosa.

    É raro não estarem votadas ao fracasso estrutural e que não acabem em crime ou tragédia ou afastamento e ódio.

    E se acabam bem, são comédias.

    Por outro lado, o discurso complementar — o que celebra a liberdade afectiva contemporânea como triunfo da autodeterminação emocional, e que proclama o fim das estruturas opressivas do amor romântico como uma abertura plural, fluida e ética — tende a ignorar o vazio logístico existencial em que essa mesma liberdade opera: os corpos não têm casa, os horários são incompatíveis, o rendimento é intermitente, o futuro é incerto, e o desejo, quando não é imediatamente transformado em mercadoria, torna-se alvo de auto-gestão permanente. É a lógica de optimização interior que recusa a entrega como perda, a dependência como valor e até o compromisso como gesto de sustentação da duração no interior do efémero.

    Como se a consistência fosse sintoma de fragilidade emocional ou prova de ingenuidade, e não um trabalho, uma construção, uma escolha que se repete todos os dias sem a garantia da reciprocidade nem a anestesia da estabilidade.

    É precisamente neste cruzamento entre impossibilidade estrutural e desejo persistente, entre colapso da linguagem e tentativa de relação ou entre a brutalidade do real e a insistência em dividir o tempo com outro (já não suporto a palavra partilha)  — mesmo que não haja lugar, tempo, casa ou futuro — que o amor, ou aquilo que ainda ousamos nomear como amor, se torna relevante, não enquanto categoria transcendental ou experiência universal, mas como acontecimento localizado, contingente, inefável e insubstituível.

    Único e intransmissível.

    Não porque seja puro, eterno ou redentor, mas porque marca uma suspensão momentânea da lógica da equivalência, um desvio mínimo na cadeia de pensamento quase único que por aí prolifera, uma interrupção do cálculo, um hiato no programa, uma espécie de bug íntimo que nos devolve, mesmo que por instantes, à possibilidade de um sentido que não seja totalmente instrumentalizável.

    Recusar a idealização do amor não implica renunciar à sua possibilidade, mas antes recusar o conforto preguiçoso da utopia ou da tragédia, da nostalgia ou da desilusão. Trata-se de habitar uma zona de indeterminação onde o amor, desprovido de garantias, já não serve para resolver a solidão, nem para dar sentido à vida, nem para justificar a existência, mas talvez — e apenas talvez — possa tornar-se um espaço provisório de sentido, uma suspensão mínima da lógica do mundo, uma interrupção entre a violência do sistema e a resistência íntima que alguns ainda praticam com o corpo, com a acção, com o silêncio, com a demora, com o tempo dado — e não o tempo prometido.

    É verdade que a linguagem do amor está em crise, por ter sido substituída por uma retórica de segurança emocional que, muitas vezes, transforma o consentimento numa gramática de protocolo. A linguagem do amor foi substituída por uma exposição afectiva mediada que troca a experiência pela sua representação, e por uma gestão da intimidade que esvazia o risco em nome da estabilidade.

    No entanto, também é verdade que essa crise, longe de significar o fim do amor, pode ser o lugar da sua reinvenção, desde que se aceite que não é possível amar sem contradição, sem erros grotescos, sem perda, sem medo, sem sombra, sem coação psicológica, sem tempo.

    É assim. E sempre foi. Não andamos a inventar a roda, essa é a questão. Mas em tempos de “desverdades” já se sabe o que se espera.

    O tempo, esse recurso cada vez mais escasso, cada vez mais capturado, talvez seja a verdadeira medida do amor: não o tempo da eternidade — essa ficção litúrgica do romantismo na qual é incrível acreditar, pois nunca se sabe, e não se sabe mesmo,  mas o tempo oferecido, o tempo a dois em que os segundos são segundos ou não são nada, o tempo perdido com o outro sem objectivo, sem rendimento, sem função, sem plano — o tempo como derrame, como nada, como recusa de optimização, como dádiva sem retorno. O tempo como eternidade amorosa.

    Como ideia.

    Não se trata, portanto, de negar a dificuldade — ela é real, é concreta, é estrutural —, mas de não aceitar que essa dificuldade seja argumento suficiente para o cinismo, para a desistência, para a substituição do gesto pelo scroll, já para não falar da demora pela aceleração, ou mesmo do vínculo pelo contrato.

    Este circo às vezes irrita porque está a ficar tão evidente e, estranhamente, parece até que as pessoas já não aspiram ao amor.

    Uma palhaçada que deveria ter fim anunciado.

    Porque mesmo nas ruínas, mesmo no entulho afectivo do tempo, mesmo no meio do colapso eloquente e transparente do presente, há lugar para a insistência, claro. Há lugar para o amor.

    Para a beleza.

    E essa insistência, que não deve ter medo, que não se explica, que não se representa ou defende, nem se deve justificar, talvez seja hoje a forma mais lúcida, mais radical e mais corajosa de relação possível.

    E isso é amor. E é sublime. E é possível. E anda por aí.

    A vida continua como num maravilhoso titulo de um filme de Kiarostami.

    1,2,3, vamos nascer outra vez.

    Texto e ilustrações de Ruy Otero (artista media)

  • O filósofo de aeroporto (ao estilo de Alfama)

    O filósofo de aeroporto (ao estilo de Alfama)

    Estava a fazer zapping quando deparei com uma entrevista ao israelita e historiador/filósofo Yuval Noah Harari no canal 3 da RTP. Já conhecia a personagem de outras paragens e fiquei a ver.

    Se houvesse uma tasca no espaço físico da Google, encontraríamos facilmente este pensador a debitar “verdades” aí por entre pratinhos vegans regados com sumos naturais, numa versão blockchain do antigo Zé do Bitaites de Alfama, “amandando” verdades absolutas sobre o sistema.

    Acontece que Yuval Harari tem outro tipo de responsabilidades que o Zé dos Bitaites não tem, entre elas frequentar os TED com regularidade e os encontros do Fórum Económico Mundial, enquanto sócio honorário espiritual da coisa.

    Mas para quem não conhecesse a figura, e pela entrevista, poderia achar que se tratava de alguém ligeiramente anti-sistema e defensor das democracias contemporâneas.

    Provavelmente não deixa de ser verdade, mas a entrevistadora, embevecida com a conversa e com o êxito do historiador, não fez uma única pergunta que merecesse verdadeira reflexão do israelita.

    O que também não é novidade, seja em que plataforma for, nos dias de hoje. É realmente difícil haver debates inteligentes e éticos sobre assuntos que dividam as pessoas, tal é a polarização confinada no presente.

    Aliás, essa frase foi dita pelo próprio, referindo-se justamente à sociedade Norte/Sul em que vivemos.

    O problema é que Harari será do Norte ou do Sul conforme se queira usar os pontos cardeais a favor ou contra o que ditarem as regras.

    Harari não gosta muito de algoritmos e de empresas que se sirvam deles da forma como o fazem.

    Não mete as culpas nos utilizadores mas sim nas empresas que os manipulam e deixam os algoritmos aí a fazer estragos à vontadex, embora não ache que esteja errado.

    O problema de Harari é que trabalha para essas empresas, e é até uma espécie de baluarte intelectual de Bill Gates ou mesmo de Mark Zuckerberg.

    Acontece que eu não tenho nada a ver com isso, mas também não confio muito nesses filantropos.

    Acontece também que às vezes não sou parvo e imagino-me lá, sendo eu a fazer as perguntas.

    Naquele caso bastava inquirir o que é que, como intelectual e israelita, acha do conflito mais mediático e perene do mundo entre o seu país e a Palestina, sabendo no entanto que por vezes tem sido bastante crítico do seu país, Israel.

    Ou o que acha da Meta, ou mesmo da Microsoft, e já agora de Davos e de Klaus Schwab, que entretanto deixou de ser presidente do FEM, para ver provavelmente o filósofo vacilar, ou pelo menos ter de pensar um pouco para nos fazer mergulhar em paradoxos interessantes, podendo ou não concordar-se, já que nesta fase do campeonato, para usar linguagem de tasca, seria interessante pôr-se minimamente ao nível de pensadores capazes de sustentar paradoxos verdadeiramente perigosos, como Martin Heidegger, Paul Virilio ou Peter Sloterdijk.

    Mas claro que isso seria impossível, já que estes programas servem muito para operar marketing, vendendo aquilo que está estabelecido. Mas não tem mal, nas entrelinhas diz-se muito e também, para quem estiver mais atento, podem fazer-se leituras através do que não se diz e por vezes daquilo que se oculta.

    Não foi bem este o caso.

    Harari parece ter uma desenvoltura em comunicação bastante aceitável. Pelo uso frequente de frases curtas e até bombásticas, pode prender mais gente do que aquela que costuma frequentar a RTP3, que é… ninguém.

    Eu só estava a fazer zapping e distraí-me.

    O israelita é tudo menos chato, tipo aqueles pensadores, sociólogos, antropólogos que se arrastam nas catacumbas das universidades cheios de pó e com óculos démodé. Antigamente havia muitos franceses nesses aeroportos do saber, Mas o Michel Houellebecq entretanto foi acabando com eles atirando-llhes uns árabes para cima.

    Estava a brincar. Se o Harari pode, eu também posso.

    Ele não brinca em serviço e parece gostar dos prazeres da vida. Não quer é algoritmos nem empresas corruptas ao pé de si. E até é recomendado pelo inefável anarco-capitalista, diz ele próprio, Javier Milei, actual presidente da Argentina.

    Quem sabe, sabe, diria o Zé dos Bitaites, com alguma razão.

    Harari tem um livro de 2011 que vendeu no mundo todo mais de 15 milhões de exemplares chamado Sapiens: A Brief History of Humankind.

    Não li, mas já o vi tantas vezes citado em apresentações de trabalho em equipa, em oficinas sobre o futuro da humanidade e em retiros de liderança com meditação às 7h, que já sei de cor o tom: assertivo, cool, ligeiramente provocador, mas nunca ao ponto de fazer mossa.

    Harari é uma espécie de sushi do pensamento: fresco, arrumado, bonito no prato – mas no fundo cru e quase sempre sem espinhas.

    Dá para comer com os dedos, não suja a camisa e até há versão vegan para os mais sensíveis.

    E não sou só eu a pensar isto. O antropólogo C. R. Hallpike, por exemplo, acusou Harari de transformar ideias complexas em fábulas com moral no fim, confundindo instituições sociais com mitos – um historiador a brincar aos contadores de histórias.

    Para Hallpike, Sapiens sacrifica rigor pela fluidez e precisão pela sedução narrativa. Na mesma linha, a revista Current Affairs descreve Harari como um entertainer do pensamento, um autor que serve ideias fast food com embalagem de gourmet intelectual.

    A crítica é clara: simplifica até à banalidade e omite controvérsias científicas em nome de uma coerência artificial que agrade ao grande público.

    Num fórum de antropologia, alguém comentou que Harari trata hipóteses como dogmas e que o seu entusiasmo pela “ficção” como base da civilização é tão apelativo quanto perigoso. O problema está em deturpar para caber numa TED Talk. 

    Se o Eduardo Prado Coelho era a Almôndega Semiótica, Harari será o Kebab Ontológico.

    É o filósofo ideal para um mundo que quer pensar sem sujar a alma. Não estremece e cabe perfeitamente num painel asséptico de check-in.

    Pode ser servido tanto numa TED Talk em Davos como numa formação em liderança empática promovida por uma multinacional que despediu 200 pessoas na véspera.

    Yuval é o novo oráculo global: fala como se estivesse a ditar um anúncio da Apple sobre a eternidade. E talvez esteja. Porque no fundo tudo nele parece optimizado para o algoritmo que o próprio critica veementemente.

    A questão não é só o que ele diz, mas a estrutura em que isso circula. Harari é consumido por CEO’s em aviões, citado por banqueiros com ar espiritual e lido por adolescentes com sede de certezas sobre dinossauros e redes sociais.

    A história, para Harari, é uma linha limpa com capítulos claros, como se o caos do mundo tivesse sempre um manual de instruções e fosse ter a Davos, substituindo a clássica Roma quando todos os caminhos lá iam parar.

    Há mérito na clareza, claro. Mas há também um certo paternalismo nas frases feitas, como se ele tivesse descoberto o sentido da vida entre dois voos em classe executiva.

    Tudo é cuidadosamente calibrado para não ferir, não escandalizar, não perder patrocínios.

    Mas a mim escandaliza-me a naturalidade quase clínica com que fala da possibilidade de sermos hackeados por elites tecnológicas e governos, como se isso fosse apenas mais uma inevitabilidade histórica. Deus existe, diz ele, mas não é quem pensamos.

    E quando critica – porque sim, por vezes critica – fá-lo com a elegância de quem já sabe que está dentro da tenda, a discursar para os donos da festa.

    Enfim, o filósofo israelita é um produto de luxo no mercado da indignação global.

    Inteligência portátil com selo de sustentabilidade.

    Mas dói.

    Mesmo quando acerta, falta-lhe a dúvida. Falta-lhe aquele tropeção vital que separa os pensadores dos entertainers.

    O pensamento verdadeiro tem falhas, e até pó nos ombros. E Harari sai sempre imaculado do ecrã como entrou: sem rugas, sem restos, sem contradições.

    Quando acaba de dar mais uma palestra, não envelheceu nem lhe morreram células, é como se tivesse havido uma suspensão do tempo. É como uma viagem de avião: parece arriscado, mas nunca cai.

    Não sei explicar.

    Um filósofo de polpa light – com prazo de validade até ao próximo slogan sobre inteligência artificial ou mindfulness geopolítico.

    Mas entretanto ficou rico. Filosofia e riqueza às vezes não parecem colar.

    Mas nada de inveja. Haverá sempre um preço a pagar, não sabemos é se é o preço certo, como no concurso.

    Entretanto voltei ao zapping. Não porque ele me irritasse. Irritam-me mais os que fingem que ele incomoda.

    Voltei a fazer zapping porque ainda acredito que há pensamento fora do duty free da sabedoria.

    E talvez ainda encontre por aí, perdido por um Canal Memória qualquer, um Zé dos Bitaites verdadeiro.

    Texto e ilustrações de Ruy Otero (artista media)

  • O algoritmo humano

    O algoritmo humano

    Há um mal-estar organizado, uma arquitectura sólida da degradação, uma espécie de engenharia civil do niilismo que construiu o nosso tempo como o projecto de um centro comercial de domingo à tarde: funcional, previsível e morto por dentro.

    A cada esquina parece haver alguma coisa a colapsar: na linguagem, muitas vezes na política, quase sempre na intimidade ou na terra. E ainda assim, como um fungo a crescer num canto húmido da realidade, as coisas boas existem.

    As coisas boas do mundo não se vendem, não se deixam quantificar, não constam das estatísticas. São quase subterrâneas porque aquilo que está à vista parece degradar-se a uma velocidade furiosa.

    São desvios, talvez. Ou não.

    A sua forma mais pura é a interrupção: uma falha no sistema operativo da normalização afectiva, uma pausa num discurso bem-intencionado que nada acrescenta, uma acção que escapa à lógica da produtividade ou da vigilância.

    Como quando era criança e ia dar uma volta até outro bairro. Só porque sim. Sem compromisso. Para ver.

    As pessoas, de uma forma geral, são como nas tragédias gregas: melhores do que aparentam. Estão submergidas num mar de contradições, alimentadas por espectros venais que determinam a normalidade. Mesmo os figurantes que passaram pela minha vida me respeitaram quase todos. E eu a eles.

    Somos da mesma família, se virmos bem. Não há nações, nem raças.

    Há pessoas que têm ou já tiveram sonhos. Há pessoas que querem ou já quiseram ser felizes, ou o que for. Há uma energia humana em que sei reconhecer-me.

    Não é preciso estar sempre à espera de feedback.

    Aos poucos, com consciência de si e do outro, as partes vão-se unindo. E isso pode ser mais fácil do que parece.

    Quanto menos intermediários, melhor.

    Vivemos num tempo de cinismo automático em que até a esperança parece patrocinada e gostar vem com manual de instruções e consentimento por escrito.

    A vida não é um emoji. Às vezes parece.

    Mas as coisas boas não são inócuas. Não são neutras, nem fáceis, ainda menos pedagogicamente correctas. São só.

    Também não são puras. São impuras, implicadas, muitas vezes incómodas. Aparecem no meio da tragédia, como uma piada que não devia lá estar.

    Respeitam o mundo a partir do mundo interior. E não têm medo do prazer.

    Há pessoas que voltam a perdoar e depois voltam outra vez. Não é um conselho. Um dia pode valer a pena.

    Os outros andam como tu, mas com outros fusos horários.

    No outro dia ouvi uma amiga minha dizer que confia mais nos cães do que nas pessoas. Eu não. Mas acredito nela quando diz isso. E pior: posso perceber.

    As coisas boas não se confundem com o optimismo, esse sucedâneo ligeiro da esperança. Também não têm nada que ver com a celebração kitsch da vida, essa euforia ansiosa que se auto-promove a toda a hora para ninguém ver.

    Ver a sério.

    As coisas boas do mundo são vistas a sério. Absorvidas a sério. Revitalizam. E talvez por isso não sejam limpas nem exemplares. Podem ser sujas, difíceis de explicar, até ilegítimas. E, ainda assim, boas só por serem boas.

    Não servem para moralizar ninguém. Porque isto de usar a palavra “boas” corre riscos.

    Têm em conta a história do outro, que podia ser, em parte, a nossa.

    Servem apenas para lembrar que nem tudo se deixou domesticar. Mas também podem ser belas, generosas, efervescentes, como a conquista de bens materiais feita com gosto e consciência, como quem colecciona bom design mas não quer aparecer nas revistas.

    A maior parte das pessoas que conheço tem muitas valências e talvez não saiba, talvez já não as use, ou talvez nunca as tenha usado.

    Muitas apanharam o comboio do esquecimento.

    Talvez seja isso que tantas vezes nos escapa: as coisas boas do mundo não estão longe. Estão adormecidas, esquecidas ou fora de uso.

    É isso que torna as coisas boas difíceis de aceitar: obrigam-nos a abandonar o conforto da indignação total.

    Porque sim, o mundo está a arder. Mas alguém ainda resiste a achar que está a arder. Há qualquer coisa profundamente teimosa nesse facto.

    Arde e não arde.

    As coisas boas do mundo são subterrâneas, mas não marginais. Estão no centro, só que num centro que ainda não tem nome.

    Quando alguém insiste em cuidar sem recompensa. Quando uma ideia improvável sobrevive ao cinismo.

    Quando uma acção não devolve o que se espera, mas aquilo de que se precisa.

    E talvez o mais perigoso nas coisas boas seja isto: não querem salvar nada. Não se armam em redentoras.

    Apenas são.

    Não são necessariamente filmáveis. Não são selfies idiotas. Mas podem ter idiotice lá dentro, porque não? Desde que não se armem em redentoras nem em exibicionistas. Porque isso é estúpido.

    Como a possibilidade do amor quando já ninguém acredita nisso. E mais do que a possibilidade, a sua concretização.

    Como a arte quando já só se espera conteúdo político ou vazio apolítico.

    Há beleza que não foi comprada, emoção que não foi capturada, inteligência que não se quer transformar em produto.

    As coisas boas do mundo são muitas vezes uma afronta. E por isso mesmo valem a pena.

    As coisas boas do mundo, as que ainda fazem bater o coração fora de tempo, vivem muitas vezes no anonimato. É aí que compram a sua moradia.

    Sabem que, ao serem nomeadas, são logo convertidas em narrativa, em mercadoria de esperança. Por isso escondem-se. Riem-se sem crédito. Criam sem assinatura. Tocam sem performance.

    É no anonimato que habita o sentido mais radical da existência. Porque é aí que se age sem cálculo, sem audiência e sem simulacro, ou apenas com o estritamente necessário.

    Vivemos em modo autobiográfico, onde tudo é dito, exposto e arquivado, e onde até o silêncio se transforma em produto.

    Será assim?

    Ou será a decadência dominante uma história mal contada por telejornais que vivem com um atraso encenado, evidente, ainda que o incêndio esteja à vista?

    O anonimato rejeita a lógica da marca pessoal, essa forma de prostituição ontológica onde cada gesto é pensado como capital mercantilizável.

    E são esses anónimos, os não nomeados, os que passam sem serem mencionados nos créditos finais, que seguram o mundo com as mãos sujas e a alma intacta.

    Sim, disse alma.

    São eles que fazem a comida, limpam o palco, acolhem o estranho, não desistem mesmo quando já ninguém vê.

    São muitos. São a maioria.

    A verdadeira grandeza é a que não se pode mostrar. Esse é o paradoxo improvável. Essa é a esperança.

    É por isso que as coisas boas se camuflam. Talvez o maior problema do nosso tempo não seja a falta de bondade, mas o seu esgotamento público. A transformação do gesto bom em conteúdo, em prova, em currículo.

    Mete nojo.

    A generosidade, quando precisa de ser vista, perde o seu chão.

    Porque há vida que, para sobreviver, precisa de sombra.

    Cuidado com a palavra luz.

    As coisas boas do mundo são imensas. Pelo menos tantas como as más. Mas as boas têm mais sangue. Trazem beleza e, às vezes, consolação. Estamos vocacionados para isso.

    Nunca desistas delas. Andam por aí.

    Às vezes basta mudar de mapa. É difícil, sim, mas os mapas rasgam-se.

    Estamos muito mais ligados do que parece.

    Todos.

    O algoritmo humano é muito mais forte.

    Texto e imagens de Ruy Otero (artista media).

  • Síndrome de Estocolmo digital (a)

    Síndrome de Estocolmo digital (a)

    Já não és bem um(a) jovem. Sabes bem. Até tens idade para ter juízo. Também te sentes mais que actualizado(a), tanto pelo teu sentido crítico como pelo teu conhecimento tecnológico. Achas que pensas pela tua cabeça.

    Ao início resististe. Até foi fácil. Tinhas mais que fazer.

    Disseste que eras analógico(a), que preferias papel, que detestavas notificações e que ias continuar a sublinhar livros com lápis. No início frisaste bem que não querias redes sociais, que não usavas filtros e que ainda sabias o que era o cheiro de uma enciclopédia. Fizeste questão em manter um Nokia antigo, e até te riste de quem não saía do YouTube a ver bocados de coisas, uma estupidez à qual escapavas. Enfim, não dançavas essa música desordenada.

    Mas o raptor foi paciente.

    O aparelho não entrou pela janela, não te ameaçou com uma arma. Apenas se fez necessário. Primeiro para uma coisa pequena. Depois para duas. Depois para quase tudo. Ainda assim, durante bastante tempo, continuaste a achar que estavas de fora.

    O tempo passava. Pequenos gestos. Uma mensagem menos expectável aqui, uma pesquisa ali. Um mapa para não te perderes numa cidade que conhecias bem. Um toque de alarme. Um lembrete.

    Nada de grave.

    Um dia pensaste que afinal essas redes, a internet, a cloud, as plataformas, não tinham trazido assim tanto mal ao mundo; em muitos aspectos até tinham melhorado pontos concretos da vida das pessoas. Pensaste isso sem entusiasmo, quase com desconfiança, mas aceitaste. Nada se podia fazer contra factos.

    Durante anos chamaste paranóia à vigilância.

    Entretanto, as antenas foram-se instalando. Primeiro visíveis, depois não. Já faziam parte da paisagem e nem se dava por elas.

    Compraste um smartphone. Não aconteceu nada. Tinhas pontos acumulados.

    Também começaste a acumular descontos por usares a aplicação do supermercado. Pareceu-te cómodo. O talão deixou de existir, o cartão passou para o ecrã e, sem grande drama, a tua lista de compras começou a saber mais sobre ti do que alguns amigos.

    Eras livre, pensavas.

    Podias também usar o papel, qual era o problema?… Uma coisa não impedia a outra.

    Ao princípio ias correr com os teus melhores ténis nas pistas da cidade e não necessitavas de levar esse pequeno computador de bolso instalado no braço a medir-te as pulsações. Corrias como sempre. Respiravas sem gráficos.

    Mais tarde, aceitaste ver quanto tempo demoravas. Era só por curiosidade. Olha, até sou rápido(a).

    Depois aceitaste melhorar.

    Até gostavas dos jogos arcade retro em apps de grande estilo. Enfiar os fones e mergulhar noutras zonas “cósmicas” até era bom em dias de fila e de espera. Um intervalo. Um descanso.

    Um dia riste-te com um gato a tocar guitarra. Não sabes bem porquê, mas aquilo ficou. Gostaste da ideia de o mundo ser ligeiro.

    Ficaste sem electricidade em casa, mas o telemóvel continuava a funcionar. Foi útil. Foi reconfortante.

    Quando o banco te pediu para confirmares a identidade através da aplicação, também não estranhaste. Quando o estacionamento passou a ser pago pelo telemóvel, adaptaste-te. Quando o relógio te informou que tinhas dormido mal, agradeceste-lhe a preocupação. Tudo parecia uma simplificação. E talvez fosse.

    Começaste a ir à net com mais frequência. Sem querer, já te ajudava a organizar ficheiros. Depois os e-mails. Depois sugeria-te palavras antes de as acabares de escrever. Às vezes acertava. Percebeste que havia youtubers que te informavam melhor que os telejornais. Parecia evidente que o mundo já não passava sem essa alternativa. A qualidade do mundo oficial piorava de dia para dia. A internet dava-te os bons dias.

    Começou também a antecipar coisas sobre ti que não tinhas dito a ninguém. Pequenos gostos. Pequenas irritações. Pequenos desejos.

    Aceitaste.

    Vias vídeos tutoriais de borla e, por momentos, sentias que pertencias a alguma coisa. Mesmo que não soubesses bem a quê.

    Convidou-te a falar com amigos, a espreitar notícias, a mostrar a tua cara. E, quando reparaste, já não tinhas tempo para escrever à mão. Tinhas 63 abas abertas e nenhuma delas te dizia exactamente o que procuravas.

    Tinhas Facebook e achavas que não ligavas muito. Instagram. Gostavas de fotografar.

    Mas começaste a voltar atrás para ver se alguém tinha visto. Não era importante, dizias. Só curiosidade. Até um dia fotografares na praia um pôr-do-sol, só porque sim.

    Depois já não sabias bem se era só porque sim.

    Começaste a saber a que horas certas pessoas estavam online. A imaginar respostas antes de existirem. A hesitar antes de desligar o telemóvel, como se estivesses a sair de um sítio onde podias ser chamado(a) a qualquer momento.

    A Síndrome de Estocolmo Digital não é uma patologia. É mais uma moral ou uma pedagogia. Um novo contrato social onde o “aprisionamento” é consentido e a rendição é interactiva.

    Não és refém: és colaborador(a) da tua própria vigilância.

    És utente de um sistema que te quer presente, visível, animado(a), produtivo(a) e, acima de tudo, satisfeito(a) por estares a ser observado(a). E há momentos em que estás mesmo satisfeito(a).

    Mas também sabes.

    Sabes quando abres uma aplicação sem motivo e a fechas, e a abres outra vez segundos depois. Sabes quando levas o telemóvel para a cama só para “ver uma coisa rápida” e já passaram quarenta minutos. Sabes quando o silêncio começa a parecer suspeito.

    Mas deixas o tempo passar.

    O raptor é elegante: oferece-te memes, filmes, meteorologia ao minuto para as tuas férias, mapas, conselhos sobre saúde mental, filtros incríveis. Ajusta-se ao teu ritmo, aprende contigo, devolve-te versões de ti que parecem melhores. Até está na moda dizer-se a nossa melhor versão.

    Enquanto isso, o raptor paciente observa cada gesto com uma atenção que nunca recebeste de ninguém.

    Não gostas. Mas habituas-te a gostar.

    Vives no talvez definitivo. A verdade é que não há alternativa. Já estás conectado(a) por todo o lado.

    Cada vez é mais difícil falar profundamente desse assunto com outras pessoas. Não porque não saibam, mas porque sabem demasiado. E ninguém quer ser o primeiro a admitir.

    A diferença entre gostar e precisar dissolveu-se na nuvem.

    Durante o apagão de Abril de 2025 até achaste que não eras dependente. Mas às sete da tarde, ainda sem electricidade, começou a doer-te a cabeça e sentiste falta de um tutorial.

    Já não sabes bem se gostas do smartphone ou se apenas não suportas estar longe dele. Já não sabes se segues alguém porque admiras ou porque tens medo de desaparecer. Se escreves por prazer ou porque o silêncio digital começa a ter consequências.

    O raptor ensina-te a gostar dele para que nunca tenhas coragem de o culpar. E tu aprendes.

    Porque a culpa também evoluiu.

    Tu és a sua grande actualização.

    E um dia, não muito longe, vais defendê-lo. Vais dizer que o computador não é o inimigo, que as redes nos unem, que há perigos maiores. Vais agradecer-lhe. Vais reorganizar a tua memória com base nele.

    E talvez nem seja mentira.

    Mas sabes – lá no fundo do disco rígido – que o raptor está lá em cima.

    E tu estás na cave, a escrever-lhe uma alegoria.

    (a) Entrada apócrifa no Dicionário Técnico-Afectivo da Pós-Humanidade. Termo banido de várias plataformas por excesso de verdade.

    Texto de Ruy Otero (artista media).

    Ilustrações de The Swimming Pool Project.

  • A eloquência da banalidade

    A eloquência da banalidade

    Pedro Marques Lopes pertence àquela categoria muito específica de comentadores produzidos pelas democracias sociais-democratas em fase de fadiga, cujo mote principal é estabilizar emocionalmente o “espectador correcto”.

    Estas figuras não são exactamente jornalistas nem analistas, muito menos ideólogos no sentido clássico. Funcionam mais como ambientadores morais do espaço público.

    Reguladores subtis da ansiedade institucional dominante. Há mais, mas este comentador do Eixo do Mal é talvez o mais impressionante de todos.

    O tom meio pausado e por vezes nervoso, o riso aberto e a cumplicidade de quem pisca o olho ao fiel espectador do Eixo do Mal, marcam o seu estilo. Ostenta também uma voz quase sempre morna, sugerindo uma racionalidade adulta.

    Tem aquele ar de quem parece passar directamente de uma coluna de opinião para um jantar discreto onde empresários, políticos, directores de jornais e consultores europeus conversam sobre o “momento preocupante que atravessamos”, enquanto bebem vinho no Gambrinus e fingem habitar uma civilização funcional, regada de piadas e piadinhas cúmplices com algum poder.

    Durante anos, Pedro Marques Lopes vendeu-se como liberal moderado, social-democrata racional, europeu civilizado, homem do centro contra os radicalismos do tempo. Um profissional da lucidez e um técnico de manutenção da normalidade democrática.

    Começou por aparecer como uma espécie de cão de fila de Sócrates, passou para apoiante incondicional de Passos Coelho até o mundo mediático se virar contra os ex-primeiros-ministros, depois foi um “a ver se te avias” para ambos, com o seu espaço de comentário recheado de frases ocas mas cheias de veneno.

    Pedro Marques Lopes é provavelmente o comentador mais vazio de sempre. Mas cheio de si.

    Hoje diz-se centrista.  A ideia de “centro” transformou-se, nas últimas duas décadas, menos numa posição política do que numa identidade psicológica. Uma estética comportamental e uma moral de classe.

    O centro já não é propriamente um lugar entre esquerda e direita. É sobretudo um espaço de auto-imagem onde certas elites urbanas se vêem a si próprias como adultas, esclarecidas, responsáveis e historicamente superiores às massas emocionais que observam pela televisão.

    É por isso que estas figuras raramente parecem verdadeiramente surpreendidas com a realidade. O seu trabalho nunca consistiu em descobrir o mundo, mas em impedir que o “espectador correcto” sinta demasiado desconforto perante ele.

    Fazem algo mais sofisticado do que propaganda e muito mais importante para a sobrevivência dos regimes contemporâneos. Fazem uma gestão emocional da percepção.

    Atenuam, relativizam, aromatizam a decadência.

    Transformam a promiscuidade institucional em “complexidade”, a corrupção em “narrativa” e a degradação sistémica em “riscos de populismo”. Funcionam como tradutores simultâneos entre o colapso da realidade e a necessidade psicológica de manter intacta a ficção moral do sistema.

    Acabam por se tornar figuras risíveis assim que se percepciona o “embuste correcto”.

    Subitamente, os homens que durante anos exigiram vigilância ética permanente sobre adversários políticos, transformam-se em terapeutas da prudência democrática. Tudo abranda e tudo ganha contexto. O escândalo deixa de o ser e passa a “instrumentalização”.

    A corrupção converte-se imediatamente em “polarização”. O problema já não é o facto em si, mas a possibilidade de esse facto alimentar forças políticas consideradas esteticamente indesejáveis.

    E talvez nenhum caso revele melhor esta patologia elegante do comentário mainstream do que a relação quase afectiva de certos comentadores portugueses com Pedro Sánchez.

    Ouvindo figuras como Pedro Marques Lopes, quase parece que Sánchez representava ainda o último grande estadista moral da Europa do Sul. Uma espécie de reserva ética da modernidade democrática. O homem que defenderia a civilização liberal contra os bárbaros populistas da extrema-direita.

    Sánchez nunca foi apenas um político para esta classe comentadora. Era uma necessidade psicológica profunda. Precisavam dele para continuar a acreditar que ainda existia uma esquerda institucional elegante, moderna, cosmopolita, fotogénica e moralmente superior.

    Precisavam daquela figura bem iluminada, daquele progressismo visualmente apresentável, para esconder uma realidade bastante menos cinematográfica: aparelhos partidários exaustos, clientelismo administrativo, redes de influência, profissionalização absoluta da sobrevivência política e uma crescente substituição da governação pela gestão narrativa da moralidade pública.

    O sanchismo foi talvez uma das primeiras grandes experiências europeias de poder pós-ideológico totalmente mediado pela percepção.

    Já não se governa apenas através de decisões políticas, mas também por meio de enquadramentos emocionais permanentes, de uma produção contínua de linguagem moral. Criaram um Ministério da Igualdade totalmente sinistro, com uma gestão do “medo correcto”.

    A coisa mais parecida com o mito orwelliano, com uma putativa administração da ansiedade democrática.

    O poder deixa de se apresentar como poder e passa a apresentar-se como protecção psicológica contra monstros externos permanentemente convocados para legitimar a própria máquina institucional.

    Quem for contra é fascista. Quem apenas ouse questionar é fascista. Mas o dinheiro acabou para esses lados como tudo leva a crer.

    E é precisamente aqui que comentadores como Pedro Marques Lopes se tornam instrumentais, ainda que com cada vez menos audiência.

    A idiotice torna-se cada vez mais inútil.

    Este género de comentador tudólogo legitima o ambiente emocional necessário para que esse poder continue culturalmente aceitável. Ainda que com um imenso atraso.

    O mais fascinante nestas figuras é que raramente mentem de forma explícita. Mentir seria intelectualmente demasiado grosseiro para este ecossistema, mas ostentam um conceito de verdade bastante alargado.

    E talvez o mais desconfortável seja admitir que Pedro Marques Lopes provavelmente acredita genuinamente em tudo isto. Mas não.

    A tragicomédia destas figuras reside no cinismo consciente, para parecer que estão a proteger a democracia de forças irracionais e perigosas.

    É precisamente essa convicção moral que os torna incapazes de reconhecer a degradação quando ela emerge do interior do próprio campo ideológico que emocionalmente habitam.

    Para alguns, isto pode ser também sinal de uma descompensação psicológica. Uma certa psicopatia faz bem à televisão. Mas não entremos por aí.

    A realidade espanhola começou entretanto a tornar-se demasiado densa para continuar a ser dissolvida em linguagem terapêutica.

    O caso Koldo. As redes de influência. Os contratos suspeitos. As figuras do aparelho socialista sucessivamente envolvidas em investigações. Begoña Gómez, a mulher de Sanchez, e o sogro com o negócio duvidoso das saunas. A rede de prostituição. O próprio irmão de Pedro Sánchez e os seus negócios estranhos. No entanto nada está provado, embora existam fortes suspeitas.

    O regresso de Zapatero como sombra estrutural desta esquerda ibérica, transformada numa máquina de sobrevivência comunicacional, mas alegadamente também traficante. Sim, traficante. O processo que envolve o ex primeiro ministro é longo.

    O ambiente geral de promiscuidade institucional que paira sobre o PSOE. A sensação crescente de um poder fechado sobre si próprio, progressivamente incapaz de distinguir governação de autopreservação.

    As coligações com o braço político da ETA, Bildu, e as coligações com a extrema-esquerda depois de prometer que jamais o faria.

    Durante anos venderam Espanha como um modelo democrático avançado, enquanto o edifício – precisamente por estar bem protegido – começava lentamente a apodrecer por dentro.

    Literalmente, talvez seja este o momento mais humilhante para uma determinada geração de comentadores europeus: o instante em que a realidade deixa finalmente de obedecer à narrativa que se organizou para conseguir suportá-la.

    Porque, no fundo, Pedro Sánchez nunca foi apenas Pedro Sánchez.

    Foi o último grande espelho no qual uma certa elite mediática europeia ainda conseguia ver reflectida a fantasia, ou a caricatura de si própria como classe moralmente superior, historicamente esclarecida e emocionalmente apta para administrar o futuro.

    Mas partiu-se.

    E Pedro Marques Lopes, como fiel depositário do sanchismo, andará agora de pá e vassoura na mão, à procura de outro par de botas que lhe apareça pelo caminho.

    Texto de Ruy Otero e de Bruno Cecílio (artistas media). Imagens de Ruy Otero e de The Swimming Pool Project