Luís Montenegro veio explicar aos portugueses, perante a nova escalada do preço dos combustíveis, que o “país” está a fazer um enorme “esforço”. O primeiro-ministro falou em “descontos”, “apoios”, “isenções”, “descidas” e até na “receita de que o Estado está a abdicar”.
Só este ano, disse, o “desconto” nos combustíveis já soma cerca de 700 milhões de euros. Mais adiante regressou à mesma cartilha: o país estaria a fazer um “esforço” com a redução da carga fiscal, os apoios às famílias e empresas, quatro descidas do IRS, duas do IRC e algumas isenções. Quem confisca apresenta como dádiva a parcela que decidiu não retirar.
Imagine o leitor que todas as manhãs, ao sair de casa, encontra um homem à porta do prédio. O sujeito tira-lhe cem euros da carteira. Um dia, sensibilizado com o custo de vida, leva apenas oitenta. Depois convoca uma conferência de imprensa para anunciar um “desconto” de vinte euros. Na semana seguinte, perante as dificuldades da vítima, devolve-lhe dez e chama à operação “apoio extraordinário”. Se durante um mês não lhe levar o relógio, temos uma “isenção”. Se passar a roubar setenta euros em vez de oitenta, temos uma “descida”. Se o assaltante fizer notar que poderia ter levado os cem euros todos, mas “abdicou” de uma parte, a vítima deve reconhecer o “esforço”.

Existe ainda uma parte hilariante no discurso de Montenegro: “receita”. O Estado, diz o primeiro-ministro, está a “abdicar de receita”. Existe receita quando alguém produz um bem ou presta um serviço e outro alguém decide comprá-lo de forma voluntária. Uma padaria tem receita porque vende pão a quem quer pão. Um restaurante tem receita porque serve refeições a quem decide entrar e quer comer. Uma oficina tem receita porque repara o automóvel de quem aceita o preço. Existe uma troca, existe consentimento e qualquer das partes pode dizer não.
No posto de abastecimento, a gasolineira vende combustível; isso é receita. O imposto que o Estado retira no preço final não resulta de venda alguma. O consumidor não pode recusar, negociar, procurar outro cobrador ou levar o seu dinheiro para uma repartição concorrente. Chamar “receita” ao produto desta imposição é uma forma mirabolante de retirar da linguagem aquilo que se passa: cobrança coerciva.
Nem a velha máfia tinha tal desplante: pagava-se pela “protecção”, sob pena de consequências desagradáveis. O Estado moderno usa outra estratégia: portarias, formulários, códigos tributários, autoridades, reguladores e conferências de imprensa. Cobra para trabalhar, cobra para consumir, cobra para circular, cobra para poupar e cobra impostos sobre outros impostos. Quando reduz uma parcela do que cobra coercivamente, chama-lhe “apoio”. Quando deixa temporariamente algum dinheiro no bolso das pessoas, chama-lhe “isenção”. Quando aumenta menos do que poderia, pede que se reconheça o “esforço”!

A história recente dos combustíveis torna esta comédia ainda mais grotesca, porque o Governo começou por suspeitar dos outros. No início de Julho, Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e Energia, estranhou que os combustíveis não estivessem a descer ao ritmo com que tinham subido. Não via “razão de ser” para tal comportamento e quis perceber o que se passava na formação dos preços. O Governo pediu depois à ERSE um estudo sobre o mercado e sobre eventuais “distorções ao regular funcionamento” da concorrência. A hipótese de fixar margens máximas chegou a ser colocada em cima da mesa, caso fossem encontradas “distorções graves” – ao melhor estilo da máfia.
O guião era conhecido. O petróleo mexe, os preços na bomba não obedecem ao ritmo que a ministra considera adequado, logo alguém no mercado deve andar a engordar margens. Chamem os reguladores, procurem os suspeitos, examinem as gasolineiras e preparem a intervenção. A hipótese de o maior beneficiário de cada abastecimento estar sentado no próprio Conselho de Ministros não parecia ocupar lugar de destaque na investigação.
Veio então o estudo da ERSE, abrangendo o período entre Janeiro de 2023 e Julho de 2026, e a investigação tomou um rumo inconveniente. O regulador analisou a transmissão das cotações internacionais para os preços nacionais, a diferença entre movimentos de subida e descida, o chamado efeito “foguete-pára-quedas” e as condições de concorrência. Na gasolina não encontrou prova de uma assimetria persistente em que os preços subissem depressa e descessem com uma lentidão suspeita. No gasóleo surgiram diferenças de curto prazo, mas dissipavam-se ao longo das semanas. Também não encontrou base para concluir que os operadores tivessem usado a conjuntura para aumentar as margens em bloco. A ERSE não viu fundamento para impor margens máximas.

O estudo que tinha tudo para produzir uma bela acusação contra as gasolineiras acabou por encontrar outro protagonista: a fiscalidade.
A comparação com Espanha é demolidora. No segundo trimestre de 2026, antes de impostos, a gasolina era 5,9 cêntimos por litro mais cara em Espanha do que em Portugal. No gasóleo, a diferença atingia 10,6 cêntimos por litro, outra vez com vantagem portuguesa. Isto é, retirando a mão fiscal, o consumidor português partia de um preço inferior ao espanhol.
Depois entram os Estados na conta e dá-se a transformação. Com impostos, Portugal passa a ter a gasolina 41,8 cêntimos por litro mais cara do que Espanha e o gasóleo 25,1 cêntimos mais caro. A explicação está na fiscalidade: a componente fiscal portuguesa superava a espanhola em cerca de 47,6 cêntimos por litro na gasolina e 35,7 cêntimos no gasóleo.
É difícil pedir uma demonstração mais limpa. Antes do imposto, Portugal é mais barato. Depois do imposto, Portugal é muito mais caro. Não é uma teoria sobre mercados, uma discussão sobre lucros excessivos ou uma suspeita sobre a estação de serviço. É aritmética. O mercado entrega ao consumidor português uma vantagem sobre Espanha e o Estado português encarrega-se de a destruir.

Vale, por isso, a pena abrir a factura e perceber a dimensão do “esforço” de que fala Montenegro. O preço de cada litro inclui o Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos, o famoso ISP. A isto junta-se a taxa de carbono. Dentro da tributação dos combustíveis existe ainda a consignação destinada ao serviço rodoviário, incorporada no ISP; depois de tudo isto, entra o IVA a 23%!
O IVA não incide apenas sobre o combustível, a refinação, o transporte, a armazenagem, a distribuição e a margem comercial. Incide também sobre os próprios impostos. O Código do IVA inclui na matéria tributável os impostos, direitos, taxas e outras imposições, com excepção do próprio IVA. Primeiro cobra-se ISP. Depois cobra-se carbono. Por fim cobra-se IVA sobre o preço que já contém ISP e carbono. É imposto sobre imposto.

Com as taxas em vigor neste período, a gasolina suportava cerca de 44,6 cêntimos por litro de ISP e perto de 15,9 cêntimos a título de taxa de carbono. Antes do IVA, são cerca de 60,5 cêntimos por litro em tributação. No gasóleo, o ISP rondava 29 cêntimos e a taxa de carbono 17,3 cêntimos, num total superior a 46 cêntimos antes de entrar o IVA. Sobre estes montantes incidem ainda os 23%. Na gasolina, só o IVA correspondente ao ISP e ao carbono representa perto de 14 cêntimos adicionais. No gasóleo, ronda 10,7 cêntimos.
Se um litro de gasolina custar dois euros, o IVA contido no preço aproxima-se dos 37,4 cêntimos. Somado ao ISP e ao carbono, o peso fiscal ronda 98 cêntimos por litro. Quase metade do dinheiro que sai da carteira do automobilista pode acabar no Estado. No gasóleo vendido ao mesmo preço, a carga fiscal aproxima-se dos 84 cêntimos; o Governo chama “desconto” ao acto de reduzir por algum tempo uma parcela desta factura.
É aqui que a linguagem se torna obscena. Um trabalhador que acorda às sete da manhã, entra no automóvel e abastece para percorrer os quilómetros que o separam do emprego não recebe “apoio” algum do Governo. Pagou IRS sobre o rendimento, “descontos” – mais um imposto – para a segurança social, IVA sobre aquilo que compra e uma montanha de impostos quando mete combustível no depósito. Se o Estado decidir retirar-lhe menos cinco ou dez cêntimos por litro, não lhe ofereceu nada. Deixou apenas de lhe tirar essa parcela.

Também não existe um “esforço do país”. Essa entidade abstracta não tem carteira, salário, empresa, depósito de combustível ou conta bancária. Existem, em termos líquidos, duas classes: os pagadores líquidos de impostos, sobretudo trabalhadores e empresários do sector privado, que entregam ao Estado mais do que dele recebem; os receptores líquidos de impostos, onde se incluem políticos, funcionários públicos, pensionistas e todos os que recebem do Estado mais do que contribuem.
O ponto decisivo é este: tudo o que o segundo grupo recebe foi antes retirado ao primeiro. O Estado não produz a gasolina, não refina o gasóleo, não transporta o combustível até à bomba e não cria o rendimento com que o automobilista o paga. Limita-se a colocar-se entre quem produz, quem vende e quem compra, retirando uma parcela da transacção para financiar a máquina política e os seus beneficiários líquidos – comprando os respectivos votos. Quando Montenegro fala no “esforço do país”, está a apagar da frase quem paga a conta: os pagadores líquidos de impostos. São estes que financiam exclusivamente os “apoios”, as “isenções”, os “descontos”, as pensões, os salários públicos e o próprio Governo que lhes “agradece” o sacrifício.
A solução para o preço dos combustíveis não exige “apoios”, “descontos”, “mecanismos extraordinários” nem novas fórmulas inventadas por gabinetes ministeriais. Exige reduzir até eliminar a tributação específica que transforma um bem essencial para trabalhar, produzir e circular numa máquina parasitária. Acabar com o ISP, a taxa de carbono e com o IVA sobre os combustíveis não seria um “apoio” aos portugueses. Seria parar de lhes retirar uma parte colossal do fruto do seu trabalho cada vez que encostam o carro a uma bomba.

Existe, no entanto, uma ironia neste escândalo da fiscalidade sobre os combustíveis. A ministra suspeitou do mercado, pediu uma investigação e admitiu uma intervenção sobre as margens. O relatório veio mostrar que, antes de impostos, Portugal tinha preços inferiores aos de Espanha. Depois da intervenção fiscal, o português passava a pagar mais 41,8 cêntimos por litro de gasolina e mais 25,1 cêntimos por litro de gasóleo. A investigação procurou a distorção na margem do vendedor e encontrou-a na diferença entre o preço antes e depois de o Estado entrar na factura.
Afinal, não existia qualquer conspiração mafiosa. Estava impressa no recibo. Tem siglas, portarias, Diário da República e um cobrador que, depois de levar o dinheiro, chama “receita” ao produto da cobrança coerciva, “desconto” ao que decidiu não levar e “esforço” ao acto de roubar menos.
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário


















































































