Não é apenas uma piada cruel; é uma definição ontológica. Mendes não é incompetente por azar, nem ineficaz por circunstância. É estruturalmente tardio, discursivamente prolixo e politicamente inútil. Chega sempre depois – do problema, da decisão, da coragem – e quando chega, traz consigo apenas palavras gastas, prudência postiça e um ar grave que pretende passar por sabedoria.
O próprio o admitiu, com aquela falsa humildade ensaiada que tanto aprecia: dizia que chegava atrasado a quase tudo. Garantiu, porém, que isso era coisa do passado, que se corrigira com os anos, que agora era pontual como um relógio suíço. Bastaram minutos para a realidade o desmentir em directo, quando Guilherme Geirinhas o confrontou com o atraso no próprio programa onde se gabava da reforma moral. Não é um detalhe; é um símbolo. Marques Mendes mente sem necessidade, mente por reflexo, mente para manter a pose. Não é um mentiroso engenhoso; é um mentiroso irresponsável, daqueles que acreditam que a gravidade da voz substitui a verdade do conteúdo.
Mas o atraso crónico de Marques Mendes não é apenas físico; é sobretudo intelectual. Sempre chegou atrasado aos acontecimentos, às crises, às evidências. Quando o país caminhava alegremente para o colapso bancário, lá estava ele, na sua homilia dominical, a garantir que o Banco Espírito Santo estava sólido, seguro, confiável, digno da fé dos depositantes. “O banco está bem”, dizia. “Não há perigo nenhum para as pessoas.” “Isto dá confiança.” Poucos dias depois, o BES colapsava de forma retumbante, levando consigo poupanças, vidas e ilusões.
Perante isto, há apenas duas hipóteses: ou Marques Mendes não tem a mínima ideia do que diz – hipótese generosa – ou sabia e mentiu com a tranquilidade de quem nunca paga pelos erros. Quando mais tarde afirmou que “as pessoas têm razão para se indignar”, completou o retrato: primeiro engana, depois solidariza-se com os burlados. É a ética do comentador profissional.
Este padrão repetiu-se, com requintes de perversidade, durante a suposta pandemia. Não há memória recente de Marques Mendes a questionar o vírus invisível, as variantes imaginárias ou o pânico fabricado. Pelo contrário, aplaudiu com entusiasmo o esmagamento das liberdades fundamentais, elogiou a actuação do Partido Socialista, então liderado por Costa, do Capitão Iglo, e apresentou-se como catequista da obediência sanitária.
As vacinas, dizia, “fizeram milagres”. Milagres! Uma substância experimental, concebida em poucos meses, autorizada de forma excepcional, com ensaios clínicos apressados e resultados discutíveis, elevada por Marques Mendes à categoria de intervenção divina. Quer ser Presidente da República, mas não teve um único sobressalto constitucional quando direitos foram suspensos, pessoas confinadas sem mandado judicial e pessoas segregadas por decreto administrativo. A Constituição, tal como para os demais candidatos, é decorativa: serve para ser citada em tempos normais e ignorada em tempos de medo.
Há, contudo, um domínio onde Marques Mendes revela um génio indiscutível: os negócios. Em apenas dois anos, encaixou cerca de 709 mil euros, sem que ninguém consiga explicar exactamente a fazer o quê. Não o vimos nos tribunais, não o vimos a defender causas, não o vimos a produzir valor identificável. O que faz? Facilita. É o que agora se chama um “facilitador de negócios”, essa figura etérea que vive da agenda de contactos, do telefonema oportuno, do almoço certo no dia certo.
Numa sociedade verdadeiramente livre, personagens destas desapareceriam por inanição. Mas num Estado obeso, regulado, licenciado e capturado, são essenciais. Marques Mendes não vive apesar do sistema; vive do sistema há décadas.
O episódio dos líbios tratados em Portugal – desde que não viessem mortos, mas apenas “tortos” – é mais uma janela para esta ética pantanosa. Escutas, pedidos, favores, humanitarismo selectivo temperado com pragmatismo político. Nada que surpreenda. É o seu “humanismo”, praticado à distância, onde vidas humanas são abstracções logísticas e a moral se ajusta à conveniência do momento. Tudo envolto naquela gravidade solene que Marques Mendes usa como escudo contra qualquer escrutínio sério.
Quando finalmente se aproxima do terreno das propostas, a indigência torna-se embaraçosa. A ideia de resolver o problema dos jovens colocando um “jovem” no Conselho de Estado é talvez o ponto alto da sua vacuidade intelectual. É como tentar resolver a crise da habitação convidando um sem-abrigo para um painel de debate.
Esta gente acredita genuinamente que a representação simbólica substitui soluções reais. Nunca trabalharam fora do circuito estatal, nunca criaram riqueza em ambiente competitivo, nunca enfrentaram o risco. Sabem, isso sim, pedir mais intervenção, mais conselhos, mais comissões, mais regulações – tudo o que os torna indispensáveis e bem pagos. Sem o Estado, seriam autênticos zeros à esquerda.
Na política externa, Marques Mendes não surpreende. Sobre a Ucrânia, repete o catecismo globalista com a disciplina de um aluno aplicado: qualquer plano de paz que não humilhe completamente o agressor “parece escrito em Moscovo”. Sem originalidade, sem reflexão estratégica, sem consideração pelos custos humanos e económicos. Assinaria qualquer medida desde que viesse carimbada pelos círculos certos e abrisse caminho a mais um jantar, mais uma conferência, mais um telefonema, mais um negócio. Venderia o país com um sorriso patriótico, convencido de que está a fazer História, quando na verdade apenas faz carreira e ajuda o seu bolso.
É aqui que tudo se fecha. Luís Marques Mendes não é perigoso por excesso de convicção; é perigoso pela total ausência de pensamento próprio. Não cria, não arrisca, não rompe. Limita-se a comentar, a validar, a explicar – sempre tarde demais – como se entra nas instalações do poder. É a nulidade elevada a método, a vacuidade transformada em profissão.
Quer ser Presidente da República não para defender a Constituição, mas para a citar em tom grave; não para travar abusos, mas para os normalizar; não para representar o país, mas para continuar a existir dentro do circuito fechado que sempre o alimentou prodigiosamente.
Em conclusão, Luís Marques Mendes é uma nulidade bem vestida, um comentador que confundiu tempo de antena com estatuto, prudência com sabedoria e sobrevivência com mérito. Nunca esteve certo quando importava, nunca se calou quando devia e nunca falou quando era preciso coragem. Chega sempre depois. Quando chega, já nada resta.
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário
“Chega quer internamento compulsivo em casos de infecção do Covid-19”, anunciava o Jornal de Notícias em 4 de Março de 2020, no início da (putativa) pandemia, com o entusiasmo de quem relata uma boa ideia! A proposta vinha assinada por André Ventura, o autoproclamado paladino da “liberdade”, então deputado único do Chega, esse mesmo que viria mais tarde brandir a Constituição como se fosse uma relíquia sagrada sempre que lhe convinha.
Naquele momento inaugural, porém, a Constituição era apenas um incómodo técnico a contornar. Para salvar o país – sempre em nome do povo, essa entidade abstracta que nunca assina nada – Ventura propunha alterar o artigo 27.º da Lei Fundamental, de modo a permitir o internamento compulsivo de cidadãos, saudáveis ou não, culpados ou não, apenas por suspeita sanitária. Prisão sem crime, sem acusação, sem julgamento e sem juiz; ou seja, fascismo sanitário.
O detalhe delicioso, é que Ventura se esqueceu de ler até ao fim. O artigo 288.º da Constituição da República estabelece os limites materiais da revisão constitucional; entre esses limites estão precisamente os direitos, liberdades e garantias, que não podem ser revistos, nem numa falsa pandemia, nem em pânico, nem para agradar a turbas histéricas.
Ventura, professor de Direito, ignorava isto? Não. Fingiu ignorar. Porque o autoritário não precisa de razão; precisa de aplauso. Para cartão-de-visita de um candidato à Presidência da República, fica desde logo definido o perfil: um homem que, perante o medo, escolhe sempre o Estado; perante o indivíduo, escolhe sempre a força; perante a Constituição, escolhe sempre a conveniência. Começar melhor era difícil.
Depois veio aquilo que Ventura faz melhor: escolher um inimigo identificável, palpável, suficientemente minoritário para não se defender e suficientemente visível para ser explorado. Os ciganos. Quando declarou que “só 15% dos ciganos vivem do seu trabalho”, Ventura não estava a produzir sociologia, nem estatística, nem sequer opinião estruturada.
Estava a lançar uma suspeita colectiva, esse veneno antigo que sempre precede o arbítrio. A frase, na sua lógica implícita, é cristalina: se 15% trabalham, os restantes 85% são suspeitos, parasitas, vigaristas ou criminosos em potência. O que exactamente fazem os 85%? Vivem de subsídios? De crime? De magia? Ventura não explica. Não precisa. O método do populista é este: insinuar, deixar o ódio completar a frase.
Esta é uma técnica velha como os regimes totalitários que Ventura diz detestar. O inimigo pode ser invisível – um vírus, um “sistema”, um russo, um especulador – ou pode ser um grupo humano inteiro, reduzido a caricatura. O indivíduo desaparece; surge a categoria. O João e o Pedro deixam de existir; passa a existir “o cigano”. Mas crimes são cometidos por pessoas concretas, com nome, rosto e responsabilidade penal. A culpa colectiva é sempre o prelúdio da tirania e da injustiça. Ventura sabe-o; escolhe ignorá-lo porque lhe rende votos. Não combate o crime; combate abstracções étnicas. É mais fácil, mais ruidoso e dá votos.
Curiosamente, há um domínio onde Ventura toca num problema real: a imigração descontrolada. O país está de facto a ser inundado por imigrantes de terceiro mundo que não resultam de uma escolha livre do mercado, mas de engenharia política e subsídio estatal.
Aqui, Ventura identifica correctamente o problema. Mas perde imediatamente qualquer razão quando se recusa a atacar a causa estrutural: o Estado Social. No século XIX, quem chegava aos Estados Unidos não tinha nada à espera. Nem escola gratuita, nem hospital gratuito, nem subsídio, nem tribunal gratuito. Trabalhava ou partia. Era brutal? Talvez. Mas era honesto.
No Portugal moderno, ergueu-se um sistema obsceno: empresários ávidos exploram mão-de-obra barata importada de culturas nos antípodas da nossa, vinda do terceiro mundo, pagando salários de miséria, enquanto o Estado – com dinheiro roubado aos contribuintes líquidos – se encarrega de completar o resto, distribuindo subsídios, serviços “gratuitos” e promessas vazias. Cria-se assim um incentivo artificial à imigração em massa, não para produzir riqueza, mas para sustentar um modelo falido.
O resultado é visível a olho nu e dispensa estatísticas: salas de aula onde vinte nacionalidades disputam atenção sem língua comum, urgências hospitalares onde a espera se medem em dezenas de horas, repartições públicas paralisadas pela sobrelotação e uma habitação tornada inacessível para quem aqui nasceu, trabalhou e pagou.
Ventura explora o desespero legítimo de quem vive isto. Mas não oferece qualquer solução. Não propõe acabar com o Estado Social, que é o íman que atrai esta massa humana e a fonte do colapso. Pelo contrário: quer preservá-lo, reforçá-lo, blindá-lo. O seu projecto não é de direita, não é liberal, nem tão pouco conservador; é socialista. Uma fortaleza estatista onde os de dentro continuam a ser espoliados para sustentar o sistema, enquanto se grita contra os de fora.
Como bom socialista, Ventura não resiste à tentação de comprar votos com promessas economicamente impossíveis. Quando propôs elevar o salário mínimo para 1.150 euros até 2029, não explicou de onde viria o dinheiro. Não podia. Não há poupança, não há fundo, não há capital acumulado. Há apenas pagadores líquidos de impostos, cada vez menos, espremidos até ao osso para sustentar promessas eleitorais. É exactamente o método dos dois partidos socialistas do actual regime, esses que Ventura diz combater mas imita com entusiasmo. A política transforma-se num leilão obsceno: vence quem prometer o maior saque à minoria produtiva. Ventura entrou no jogo; aparentemente, irá ganhar.
Na prática, Ventura utiliza as mesmas armas do regime que diz detestar. Nunca fala em cortes brutais na despesa pública. Nunca fala em extinguir ministérios inúteis. Nunca fala em despedir milhares de funcionários públicos. Nunca fala em eliminar subsídios, fundações, observatórios, institutos e clientelas. Promete apenas redistribuir melhor o saque. A equação é simples e falsa: não roubar mais, mas dar mais. É a promessa clássica do charlatão político.
Quando chega a hora da verdade, o instinto estatista revela-se sem pudor. Ventura votou contra a privatização da TAP, alinhado com o Bloco de Esquerda e demais socialistas, preferindo manter uma empresa falida, com prejuízos crónicos e salários principescos, paga pelo empregado do café e pelo pequeno empresário. O patriotismo acaba onde começa a folha salarial.
Ventura gosta de posar como defensor dos “portugueses que trabalham”. Mas acha natural que uma companhia aérea que perde dinheiro há décadas seja sustentada por impostos. É o socialismo clássico: prejuízos socializados, lucros privados, responsabilidade inexistente. Não é erro; é convicção. Ventura não quer um Estado pequeno; quer um Estado musculado que funcione ao seu serviço.
No plano internacional, a incoerência é ainda mais evidente. Ventura proclama fidelidade eterna à NATO, mas recusa o envio de tropas portuguesas para a Ucrânia para agradar ao público doméstico, sabendo perfeitamente que, no quadro das alianças militares, Portugal não decide sozinho. É teatro. Promete o impossível e nega o inevitável. Ao mesmo tempo, chama “bandido” a Putin, mas aplaude outros tiranos, ditadores e criminosos de guerra quando isso lhe rende aplauso interno. Condena uns, absolve outros, sempre com o mesmo critério: utilidade política. A moral é acessória; o voto é central.
Ventura diz combater o sistema, mas vive dele. Denuncia a corrupção, mas defende o Estado que a produz. Ataca os “subsidiodependentes”, mas preserva o sistema de subsídios. Critica o socialismo, mas pratica-o com outro vocabulário. É, no fundo, o herdeiro natural do regime: mais barulhento, mais agressivo, mais histriónico, mas estruturalmente idêntico. Onde o PS fala de justiça social, Ventura fala de ordem. Onde o PSD fala de responsabilidade, Ventura fala de punição. Mas o Estado permanece intacto. O saque continua. A despesa cresce. A liberdade encolhe.
Em conclusão, André Ventura não é uma ruptura. É uma mutação. No único tema onde tem razão – a bandalheira da imigração – recusa atacar a raiz do problema: o Estado Social, essa máquina insaciável que precisa de mais gente, mais impostos e mais dependência para sobreviver. É por isso que os dois partidos socialistas necessitam de imigração em massa: para alimentar um esquema falido. Ventura não desmonta o esquema; promete geri-lo com mais ruído. Sobre reduzir drasticamente a despesa pública, o seu silêncio é absoluto. No fundo, Ventura pratica a velha táctica populista: agradar sempre, prometer tudo, participar no saque.
Não é o anti-sistema. É o sistema em versão gritante. Ventura não é a alternativa ao socialismo. Ventura é o socialismo que nos arruína há mais de 50 anos.
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário
“Deslealdade e traição…isto não se faz; não foste solidário com o teu partido, nem com o líder do partido.” Assim falou António José Seguro de António Costa em 2014, num daqueles momentos em que o Partido Socialista resolveu devorar-se a si próprio, como é seu hábito, antes de voltar a sentar-se à mesa do poder com o Segundo Partido Socialista, também conhecido por PSD.
A frase ficou célebre não pelo conteúdo, mas pelo carácter involuntariamente autobiográfico. Porque poucos políticos portugueses encarnam tão bem a deslealdade mansa, a traição higienizada e a ambição sem risco como António José Seguro – o homem que nunca afronta, nunca rompe, nunca decide, mas que aparece sempre quando o cheiro do poder se torna mais intenso.
Seguro surge agora como candidato presidencial com o ar beatífico, de quem nunca sujou as mãos porque nunca fez nada que exigisse coragem. Ele é o produto acabado de mais cinquenta anos de regime: um político moldado na espuma morna do consenso, onde ninguém é responsável por coisa alguma e todos falam em nome de valores abstractos.
Senão vejamos: temos mais um devoto da sucessora da defunta União Soviética, a União Europeia, apresentada como espaço natural da soberania portuguesa. Seguro defende a continuação de Portugal na UE e na zona euro com o fervor de quem defende um dogma religioso. Não há reservas, não há dúvidas, não há reflexão. O euro é vital, Bruxelas é vital, o BCE é vital. Vital para quem?
Não para a classe média, certamente, que vê salários e poupanças destruídos pela inflação do cartel bancário liderado pelo BCE, enquanto os detentores de activos enriquecem obscenamente. É o socialismo reinventado: em vez de todos pobres e miseráveis, temos uma aristocracia financeira e uma plebe assaltada por impostos e inflação.
E porque todo o bom “europeu” precisa de bons aliados internos, Seguro não escondeu a sua alegria em convergir em tempos com os comunistas trotskistas do Bloco de Esquerda. Há “espaços de diálogo”, diz, designadamente em matérias sociais e europeias. Traduzindo: há espaço para mais Estado, mais redistribuição coerciva e mais integração supranacional.
Quando tenta pensar o país, a indigência intelectual torna-se quase embaraçosa. Um pacto para a saúde. Um pacto. Como se o Serviço Nacional de Saúde, esse monumento soviético à ineficiência, falhasse por falta de abraços interpartidários. Um sistema sem preços, sem pagamentos voluntários, financiado por impostos arrancados coercivamente à população, há-de funcionar se os partidos e as corporações do sector fizerem as pazes e prometerem portar-se bem. É a economia tratada como um jardim-de-infância, onde o problema nunca é estrutural, mas comportamental. O menino SNS só precisa de carinho e mais dinheiro roubado aos mesmos de sempre.
Seguro revela-se também um entusiasta da planificação económica em nome da “defesa da Europa”. Acha que a Europa não pode estar sempre a ceder, defende medidas retaliatórias, tarifas e restrições ao comércio, como se os consumidores não pagassem sempre a conta. É o socialismo proteccionista: combate-se a liberdade de troca em nome de uma soberania que já não existe. Para Seguro, a tirana Ursula von der Leyen é uma espécie de espadachim de opereta, enfrentando Trump, enquanto destrói silenciosamente a competitividade europeia. Seguro aplaude, porque planear é sempre mais nobre do que deixar as pessoas escolher livremente.
Durante a putativa pandemia, esse instinto autoritário floresceu sem constrangimentos. Seguro defendeu confinamentos, restrições, obediência cega às autoridades de saúde e suspensão prática de direitos fundamentais. Apoiou prisões domiciliárias sem mandado, acusação ou julgamento.
Legitimou a eliminação do consentimento informado, a segregação de cidadãos com base no estado sanitário, a exclusão social dos que recusaram inocular-se com uma substância experimental. Para alguém que se diz defensor da Constituição, revelou-se mais um para quem a Lei Fundamental é papel decorativo em tempos de medo. “Direitos, liberdades e garantias” são para tempos normais; em emergência, manda o Estado.
A agenda verde encaixa-se perfeitamente neste perfil. Seguro nunca a criticou, nunca falou dos custos económicos, nunca se preocupou com a destruição da indústria europeia provocada pelo encarecimento da energia. Pelo contrário, promove reuniões com especialistas do clima, fala de gerações futuras e abraça a transição energética como se fosse um imperativo moral absoluto. Que a classe média seja esmagada, que empregos desapareçam, que a indústria se desloque – tudo isso é secundário face à virtude abstracta. Ambientalismo de Estado, sem cálculo económico, sem debate democrático, sem legitimidade popular.
Os apoios que recolhe são elucidativos. Pedro Nuno Santos, o homem que ajudou a enterrar 3,2 mil milhões de euros na bancarroteira nacional, mais conhecida por TAP, surge a apoiá-lo com entusiasmo. O regime reconhece os seus. O cheiro do poder atrai sempre os mesmos, sobretudo aqueles que já demonstraram talento para gastar o dinheiro que roubam aos outros com total impunidade.
Já em relação aos apoios que dá, como todo o homem do regime reconhece instintivamente os seus, António José Seguro não hesitou em sair em defesa de José Sócrates, o célebre engenheiro dos computadores Magalhães, num vídeo que voltou a circular oportunamente antes de eleições e que o verificador de factos apressou-se a contextualizar como sendo “de outros tempos”, como se a desonra tivesse prazo de validade.
Seguro falou então de injustiça, de presunção de inocência e de perseguição, esquecendo-se apenas de mencionar, pela mão da mãe do engenheiro, a herança milagrosa de um milhão de contos guardado num cofre, os amigos oportunos, os testas-de-ferro distraídos e o pequeno detalhe de o protegido andar há semanas sem advogado, sinal inequívoco de quem confia serenamente na própria inocência.
O gesto não surpreende: Seguro sempre teve este instinto maternal para com figuras caídas do regime, desde que caiam dentro do mesmo círculo. Não é solidariedade humana; é solidariedade de casta. Quando o Estado falha, quando a justiça hesita e quando a vergonha devia impor silêncio, Seguro surge – grave, compungido e institucional – para lembrar que, no socialismo português, ninguém é realmente culpado enquanto tiver utilidade política ou cartão partidário.
No plano internacional, Seguro não falha: a NATO é essencial, repete. Os bombardeamentos de Belgrado em 1999, sem mandato da ONU, não lhe causam incómodo. A guerra na Ucrânia exige sacrifícios, diz. Sacrifícios de quem? Nunca esclarece. Certamente não dele. Os filhos dos outros servem sempre melhor para morrer em nome da democracia abstracta. Se a convicção fosse genuína, talvez já tivesse partido para a frente de combate. Mas a coragem de Seguro é sempre delegável.
Em conclusão, António José Seguro é a personificação do “choninhas” institucional: aquele rapaz da escola que não fazia mal a uma mosca, mas denunciava todos ao professor, o verdadeiro “queixinhas”.
Nunca levanta a voz, nunca rompe o consenso, nunca desafia o poder – limita-se a aplaudir, com ar sério e grave, enquanto direitos são atropelados, a riqueza é destruída e o país se afunda numa mediocridade gerida. Seguro não é perigoso por excesso de convicção; é perigoso pela ausência dela. É o homem perfeito para presidir à decadência do regime, sorrindo, pedindo pactos e garantindo que tudo está a ser feito em nome do “bem comum”.
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário
“Se isso acontecer, dêem-me uma corda para me enforcar.” A frase dita em Outubro de 2021 ficou célebre e deveria ter ficado definitiva. Foi dita com a leveza de quem acredita que certas portas jamais se abrem, sobretudo quando dão para o pântano da política.
Surpreende, pois, que ninguém tenha ainda aparecido com a prometida corda, agora que o mesmo homem surge, de peito feito, como candidato presidencial. A política, como se sabe, tem o condão de transformar juramentos em notas de rodapé e a vergonha em simples detalhe biográfico. A corda ficou esquecida, talvez porque em Portugal a memória é curta e a contradição raramente cobra juros.
Gouveia e Melo foi coordenador da task force da vacinação contra a covid-19 durante nove meses de 2021.
Henrique Gouveia e Melo não chegou à ribalta como político, mas como comandante de uma guerra improvável. A putativa pandemia foi elevada a campanha militar, o vírus transformado em inimigo externo e invisível, e o país mobilizado como se se tratasse de uma invasão estrangeira. “Nós já ganhámos a este vírus”, proclamou o então vice-almirante em Setembro de 2021, com a solenidade de quem anuncia a queda de uma capital inimiga. A vitória, claro, foi simbólica: o vírus nunca assinou a necessária rendição, nunca depôs armas, nunca pediu tréguas. Mas a metáfora serviu. O povo gosta de generais, sobretudo quando não há tiros nem trincheiras, apenas conferências de imprensa e gráficos coloridos.
Nesse teatro marcial, Gouveia e Melo foi apresentado como líder providencial, homem de pulso firme, disciplinador de massas, capaz de pôr ordem no caos com o simples franzir do sobrolho. A logística virou epopeia, a obediência cívica virou virtude suprema e a dúvida passou a ser tratada como deserção. Portugal, país de brandos costumes, descobriu subitamente que gostava de quartel, desde que o quartel viesse com sorrisos televisivos e promessas de salvação colectiva.
A guerra, porém, tem sempre danos colaterais. Houve o episódio pouco edificante em que o Almirante deu uma mãozinha ao antigo bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães (hoje deputado do PSD) para vacinar médicos não prioritários, num exercício de cunha que, em tempos normais, teria suscitado escândalo. E usando o Hospital das Forças Armadas, instituição onde, por coincidência, Gouveia e Melo exercia então funções como adjunto do planeamento do Chefe do Estado-Maior-General. Mas a guerra tudo (talvez) desculpa. Em nome do bem maior, as regras tornam-se elásticas, os critérios dissolvem-se e a ética entra em confinamento. A autoridade moral cresce na razão directa da urgência declarada.
Mais grave foi o caso do NRP Mondego. Homens foram mandados navegar um navio sem condições de segurança, recusaram fazê-lo e acabaram castigados exemplarmente. A justiça, essa entidade teimosa que insiste em estragar narrativas heróicas, veio depois arrasar os processos disciplinares.
O Supremo Tribunal Administrativo descreveu um cenário digno de um manual do que não fazer: instrutor legalmente impedido, provas recusadas, direitos de defesa ignorados, garantias constitucionais tratadas como incómodos burocráticos. O Almirante, tão zeloso da disciplina, revelou uma curiosa indiferença pelos direitos dos subordinados quando estes ousaram dizer não.
A autoridade foi exercida nua e crua, sem contraditório, sem prudência, sem humanidade. Um belo cartão-de-visita para quem aspira a Chefe de Estado – depois do actual inquilino, a fasquia também pouco se eleva do subsolo.
No capítulo pedagógico da sua cruzada sanitária, houve também episódios de uma criatividade duvidosa. Centros de vacinação com DJs, música ambiente e animação infantil, enquanto crianças eram inoculadas com uma substância experimental. A cena tinha algo de surreal: uma festa para distrair menores enquanto se praticava um acto médico irreversível. A crítica foi desqualificada como histeria, a prudência confundida com ignorância e o consentimento informado reduzido a formalidade. O Almirante parecia satisfeito: a alegria artificial servia de anestesia moral.
Quando, mais tarde, se tentou perceber que ideias políticas sustentavam tão zelosa autoridade, o vazio tornou-se ensurdecedor. “Situo-me politicamente entre o socialismo e a social-democracia”, declarou, como quem resolve um dilema metafísico de escolha entre duas sombras. É uma afirmação que não compromete, não esclarece e não arrisca. Um pensamento tão profundo quanto uma poça de água depois da chuva. Dizer isto em pleno século XXI é confessar que não se pensa, apenas se flutua.
A experiência ensina que raramente inclui quem a profere. É sempre reconfortante ouvir apelos ao sacrifício supremo vindos de quem não tenciona sacrificar nada além de palavras. Já que o Almirante aprecia tanto a retórica da morte heróica, propõe-se-lhe uma viagem, apenas de ida, ao centro de recrutamento de Boryspil, na Ucrânia. Que leve filhos, sobrinhos e familiares, dê o exemplo e mostre a sua liderança no terreno. Depois da vitória sobre o vírus, talvez vejamos também os russos a fugir em debandada perante tão formidável presença.
Apesar de se apresentar como um homem acima da política, imaculado e puro, Gouveia e Melo escolheu cuidadosamente os seus apoios. Entre eles contam-se Isaltino Morais, ex-presidiário, e Rui Rio, figura central do coro pandémico que pedia mais centros de vacinação e mais coragem para apertar as medidas. Sobre prisões sem julgamento, mandado ou acusação, o silêncio foi absoluto. Sobre a segregação de cidadãos que recusaram inoculações experimentais, nada disseram. A coragem moral foi sempre selectiva, aplicada apenas onde não havia custo pessoal.
Quanto à União Europeia, essa herdeira tardia da defunta União Soviética, o Almirante mantém um silêncio eloquente. Não questiona a arquitectura, não discute a centralização, não problematiza a perda de soberania. O silêncio, aqui, não é neutralidade: é cumplicidade. Gouveia e Melo é um globalista por omissão, federalista por inércia, europeu por falta de pensamento próprio. Aceita o sistema como quem aceita o clima: algo que existe e não se discute.
Resta, por fim, a nota quase caricatural da sua aparência. A semelhança física com o Capitão Iglo, mascote dos douradinhos congelados, é difícil de ignorar. Talvez seja injusto para o marinheiro dos congelados, que ao menos nunca fingiu ser estadista nem prometeu salvação nacional. Um vende peixe empanado; o “nosso Capitão Iglo” manda-nos morrer onde tivermos de morrer.
No conjunto, Henrique Gouveia e Melo não surge como estadista, nem como pensador, mas como produto mediático de uma suposta pandemia, inflado por metáforas militares, sustentado por silêncios convenientes e rodeado por apoios que dizem tudo sobre a sua verdadeira natureza. A corda continua por entregar. Talvez porque, na política portuguesa, a memória é curta, o sarcasmo seja raro e a honra um luxo antiquado.
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário
João Cotrim de Figueiredo surge nas presidenciais com o ar de quem traz novidades, mas há novidades que chegam já cansadas, como cartas reenviadas demasiadas vezes. Fala-se de mudança, de ruptura, de “liberalismo” moderno, mas basta escutar-lhe a voz sem o eco da propaganda para perceber que nada ali se move fora do perímetro autorizado.
Não sopra vento; circula ar reciclado. É o ar de Bruxelas, esse bafio morno feito de regulamentos, sanções, relatórios de impacto, comissões de peritos e uma convicção inabalável de que os povos são incapazes de se governar sem tutela tecnocrática. Cotrim não representa uma alternativa ao sistema europeu: é a sua versão educada, sorridente e bem-falante.
O “liberal” português encaixa-se com perfeição na engrenagem da União Europeia, essa entidade que herdou da União Soviética não as frases feitas, mas a alma: centralização, planeamento central, moralismo oficial e a certeza absoluta de que há uma direcção correcta da História, definida por comissários que nunca responderam perante qualquer eleitor.
A diferença é estética. Onde Moscovo usava tanques, Bruxelas usa directivas; onde o Politburo falava em planos quinquenais, a Comissão fala em metas climáticas; onde antes se confiscava em nome do proletariado, confisca-se agora em nome dos valores europeus.
Quando Cotrim afirma que o impasse na Ucrânia demonstra “falta de testosterona dos líderes europeus”, oferece-nos um raro momento de franqueza involuntária. A metáfora, musculada e viril, pede coerência. Se o problema é falta de testosterona, talvez o candidato devesse começar por dar o exemplo.
Aparentemente segue saudável, disponível e em idade funcional. A frente de guerra carece de homens. Pode levar filhos, sobrinhos e familiares, pois a Ucrânia necessita urgentemente de corpos para alimentar a trituradora. O “liberal” apoia incondicionalmente a guerra por procuração dos EUA, essa forma moderna de heroísmo em que se morre longe enquanto se discursam princípios virtuosos, como a democracia e a liberdade.
Não satisfeito com a retórica guerreira, Cotrim defende ainda o confisco de bens russos. Pouco importa que grande parte desse património pertença a privados russos que nada decidiram, nada votaram e nada bombardearam. Para um “liberal”, violar a propriedade privada de terceiros em nome de uma causa colectiva seria, em tempos, heresia. Hoje é virtude. O “liberalismo” de Cotrim parece ter descoberto que a propriedade é sagrada apenas até à fronteira errada.
A elasticidade moral reaparece na economia. As sanções à Rússia são apresentadas como actos nobres e necessários, apesar de não serem mais do que a suspensão coerciva de trocas voluntárias entre indivíduos pacíficos. Um português e um russo que ontem comerciavam livremente passam hoje a infractores por ordem administrativa.
A liberdade económica, afinal, é um luxo revogável para o “liberal”. Já quando Donald Trump aplica tarifas – uma forma menos intrusiva de intervenção – Cotrim protesta com fervor. A diferença não está no princípio, mas na bandeira. A liberdade é boa quando convém; quando não convém, chama-se geopolítica.
No entusiasmo europeu, Cotrim critica quem condiciona a entrada da Ucrânia na União Europeia a impostos ou a orçamentos. O projecto europeu é demasiado “nobre” para ser travado por detalhes financeiros. Pouco importa que a Ucrânia figure entre os países mais corruptos do mundo. Talvez não esteja mal pensado: mais uma organização criminosa a juntar-se ao Cartel. A União Europeia, que se diz uma união de valores, tem um talento singular para confundir virtude com adesão.
No domínio moral, o “liberal” Cotrim revela-se exemplarmente alinhado com o espírito do tempo. Defende a legislação actual do aborto e opõe-se a “retrocessos”. Impedir um crime passa a ser regressão histórica. Nada mais moderno. A vida humana, enquanto projecto em gestação, vale menos do que a coerência ideológica. O respeito pela vida termina no útero, onde o Estado exerce soberania absoluta e a consciência individual é substituída por protocolos.
Na imigração, Cotrim adopta a mesma benevolência abstracta que a Comissão Europeia. Portas abertas, discursos comovidos e Estado social intacto. Um liberal clássico defenderia a imigração para a América do século XIX, onde não havia subsídios nem garantias universais.
Cotrim prefere o modelo europeu: importação maciça de mão-de-obra barata, proveniente do terceiro mundo, empresários locais a esmagar salários com a bênção moral do humanitarismo e a anunciar, com sorriso virtuoso, que a escola é grátis, o hospital é grátis, os tribunais são grátis e as estradas são grátis. A factura recai sobre os contribuintes portugueses – mais conhecidos por assaltados pelo estado –, que colocam os filhos em turmas com trinta nacionalidades e aguardam horas por uma urgência hospitalar. Cotrim, naturalmente, não espera. Vai ao privado.
Resta a sua obra-prima intelectual: a agenda verde, apresentada sob a forma mais requintada de maionese política. Não a rejeita, mas critica a execução. Aceita o objectivo, mas pede transições. Reconhece custos, mas exige compensações. Aceita, portanto, todas as premissas essenciais: que o objectivo é legítimo, que o Estado pode definir trajectórias tecnológicas, que destruir a competitividade das empresas é aceitável e que empobrecer a classe média é um preço moralmente nobre. Quem aceita isto já perdeu a discussão.
Se a agenda verde encarece energia, deslocaliza indústria e empobrece sociedades, então não é um problema de execução. É um problema de desenho. Não existe boa implementação de planeamento central energético com metas políticas e prazos arbitrários. Isso chama-se economia administrada. As transições suaves traduzem-se em subsídios pagos pelos contribuintes, impostos novos, dívida verde e transferência de rendimentos para sectores protegidos. Mais Estado para corrigir o Estado. Exactamente a lógica europeia.
No fim, a conclusão impõe-se com a serenidade das evidências. João Cotrim de Figueiredo não é uma lufada de ar fresco. É apenas o bafio globalista e socialista, polido, educado e embalado em retórica liberal. Um homem perfeitamente integrado no sistema que diz querer mudar. Nada de novo.
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário
No passado sábado, na Venezuela, consumou-se mais um acto solene do teatro imperial contemporâneo. Os Estados Unidos lançaram uma operação militar de grande envergadura, com bombardeamentos sobre Caracas e outras zonas sensíveis do território, culminando na captura do presidente Nicolás Maduro e da sua esposa, conduzidos a solo norte-americano para enfrentarem acusações criminais.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou, sem rodeios nem pudor, que o país seria “gerido temporariamente” por Washington. A linguagem é reveladora: não se fala de soberania, nem de autodeterminação, nem sequer de transição negociada. Fala-se de administração, como se um país fosse uma massa falida, um condomínio mal gerido, uma colónia regressada ao seu tutor natural.
Perante este quadro, impõe-se a pergunta elementar, aquela que precede todas as outras e que raramente é respondida com honestidade: para que serviu esta intervenção?
Uns dizem que foi para combater o narcotráfico, como se as drogas fossem um fenómeno exógeno que cai do céu tropical sobre as cidades norte-americanas. Outros afirmam que se tratou de restaurar a “liberdade” do povo venezuelano – curiosamente, à bomba, ao míssil, à prisão do chefe de Estado, numa pedagogia que faria corar qualquer tirano do século XX. Outros ainda apontam para o petróleo, e não sem razão: a Venezuela possui reservas estimadas entre 300 e 303 mil milhões de barris de crude, cerca de 17 a 20% das reservas globais, superiores às da Arábia Saudita. Quando a realidade é incómoda, multiplica-se a retórica; quando o motivo é simples, inventam-se justificações morais.
Comecemos pelo primeiro argumento, o mais gasto e talvez o mais cínico: o combate ao narcotráfico. O proibicionismo moderno, erigido como cruzada moral em 1971, iniciou-se num contexto em que cerca de 1 a 2% da população norte-americana apresentava dependência de drogas. Meio século depois, após décadas de guerra declarada, de repressão policial, de encarceramento em massa, de vigilância e controlo, o problema não diminuiu: multiplicou-se.
O número de dependentes é hoje várias vezes superior ao de então. Se os Estados Unidos quisessem, genuinamente, resolver o problema das drogas, a solução seria simples e já conhecida: pôr termo ao proibicionismo, retirar o negócio ao crime organizado, tratar a dependência como uma questão de saúde e responsabilidade individual. Mas isso não interessa. O proibicionismo não é um fracasso acidental; é um instrumento funcional. Serve de pretexto para intervenção externa, para financiamento de aparelhos repressivos, para expansão do Estado penal e para exportação do caos sob a capa da moral.
Passemos ao segundo argumento: a “libertação dos povos”. Mais de metade da população mundial vive sob regimes autoritários ou ditaduras declaradas. Se a solução “ética e lúcida” para cada tirania é chamar o império de serviço, então abrimos a porta à intervenção permanente: África, Médio Oriente, Ásia, América Latina – não sobra um continente incólume. Isso não é realismo político; é guerra sem fim. O critério deixa de ser a justiça e passa a ser a conveniência do mais forte – a lei da selva, a única que se aplica entre Estados, organizações criminosas por excelência –, aplicada de forma selectiva, arbitrária e interessada. Ditaduras amigas são toleradas; ditaduras desalinhadas são demonizadas. A moral varia conforme a latitude e o subsolo.
Além disso, convém desfazer um equívoco persistente: as chamadas democracias não são moralmente superiores por definição. São, em muitos casos, ditaduras da maioria, sustentadas por eleições onde se promete roubar uma minoria para comprar os votos da maioria. O mecanismo é mais sofisticado, mais polido, mais decorado com linguagem jurídica e cerimónia institucional, mas a essência permanece: coerção legitimada pela maioria que deseja assaltar a outra parte. Não é virtude; é aritmética. Quem aceita um salvador armado abdica, desde logo, da própria dignidade política.
Resta o petróleo, o argumento que muitos repetem como se fosse a chave de tudo. Mas também aqui a análise exige sobriedade. Os Estados Unidos são, há vários anos, o maior produtor de petróleo do mundo, à frente da Arábia Saudita e da Rússia. Produzem energia suficiente para cobrir o seu consumo interno e, desde 2019, são exportadores líquidos de energia. Importam petróleo, sim, mas por razões logísticas, de refinação e de qualidade do crude: importam alguns tipos pesados e exportam outros mais leves. Não precisam do petróleo de ninguém para sobreviver. Importam e exportam por eficiência económica, não por necessidade vital. O petróleo venezuelano, por si só, não explica aviões, helicópteros e bombardeamentos.
A razão principal é outra, mais funda e mais perigosa: a defesa do dólar norte-americano. Desde a Segunda Guerra Mundial, ao tornarem-se emissores da moeda reserva do mundo, os Estados Unidos habituaram-se a um privilégio exorbitante: imprimir dinheiro e comprar ao resto do mundo aquilo que este produz.
Não é casual que a produção industrial norte-americana seja hoje uma sombra do que foi, quer no pós-guerra imediato, quer mesmo há algumas décadas. A fábrica do mundo é hoje a China. O dólar permitiu aos norte-americanos viverem sistematicamente acima do que produzem, exportando inflação e importando bens reais. É um estatuto que nenhum império abdica voluntariamente. A história ensina-o: a perda do estatuto de moeda reserva termina quase sempre com violência.
Sempre que um país necessita de comprar petróleo – a principal fonte de energia do sistema económico moderno – tem, regra geral, de adquirir dólares norte-americanos para efectuar os pagamentos. Essa procura estrutural por dólares norte-americanos permite aos Estados Unidos exportar inflação para o resto do mundo, sem sofrerem as consequências que qualquer outro país sofreria. A inflação torna-se global; o benefício é local. É este mecanismo, e não uma súbita paixão pela “liberdade dos povos”, que sustenta a política externa norte-americana.
É aqui que a Venezuela entra como problema. Há anos que o regime venezuelano procura afastar-se do dólar norte-americano. Em Setembro de 2017, anunciou oficialmente que passaria a cotar o preço do petróleo em iuane chinês, abandonando a referência exclusiva ao dólar norte-americano, como resposta directa às sanções norte-americanas.
O próprio Ministério do Petróleo publicou preços nesse formato, gesto simbólico mas politicamente explosivo. Em 2019, surgiram relatos de ofertas de pagamento a fornecedores e contratados através de contas em iuane mantidas na China, precisamente para evitar os sistemas financeiros em dólares norte-americanos bloqueados pelo OFAC (Office of Foreign Assets Control dos EUA). Durante algum tempo, os preços do petróleo venezuelano foram efectivamente publicados em iuane chinês, sinal claro de intenção estratégica. Não se tratou de uma transição total e imediata, mas de uma ruptura progressiva, e isso bastou.
Por isso sofreu o golpe. O regresso das grandes empresas petrolíferas à Venezuela implicará, quase inevitavelmente, o regresso da venda de petróleo exclusivamente em dólares norte-americanos. O argumento de que tal intervenção serve para reparar antigas nacionalizações não resiste a um exame sério.
Na Venezuela, sob Chávez e Maduro, assistimos a tentativas de vendas em iuane e acordos fora do sistema bancário norte-americano, seguidas de sanções severas, bloqueio da PDVSA (a petrolífera do estado venezuelano), asfixia económica prolongada e uma mudança de regime tentada, agora consumada pela força.
Há ainda o caso que muitos preferem esquecer, talvez por ser demasiado claro: o Irão. Em 2008, criou uma bolsa de petróleo com contratos em euros, rial e iuane, recusando explicitamente o dólar norte-americano. O resultado foi previsível: décadas de sanções, exclusão do sistema SWIFT, pressão militar constante, operações encobertas e sabotagem. É talvez o exemplo mais limpo do padrão depois do Iraque.
Após 2022, exigiu pagamentos de gás em rublos. O resultado foi um pacote maciço de sanções, congelamento de reservas, guerra económica aberta e um conflito militar indirecto na Ucrânia. Aqui não houve mudança de regime rápida porque há armas nucleares. A variável decisiva é sempre a mesma: capacidade de dissuasão.
Energia é poder. O dólar é o instrumento de controlo, a base em que assenta o império norte-americano. Quem tenta sair do sistema é sancionado, isolado ou destruído. Sem dissuasão, cai; com dissuasão nuclear, entra-se numa guerra longa e indirecta. Isto não é teoria da conspiração; é geopolítica monetária elementar.
Desde o fim do padrão-ouro, o mundo tornou-se totalmente dependente da infra-estrutura do dólar, um império que começa a ruir, visível nas fracturas abertas pela guerra na Ucrânia e pelos acordos energéticos fora do dólar norte-americano entre Rússia e China. O império apela ao direito internacional quando lhe convém e ignora-o quando o contraria. As fronteiras são sagradas, excepto quando estão sobre petróleo, rotas estratégicas ou moedas indisciplinadas.
O ponto de partida é simples e raramente explicitado: o dólar norte-americano não é dominante apenas porque é usado, mas porque se tornou a moeda reserva do mundo desde a segunda guerra mundial. Qualquer transacção que toque no dólar norte-americano, ou que atravesse um banco correspondente sediado nos Estados Unidos, cai automaticamente sob jurisdição norte-americana, ainda que nenhuma das partes seja norte-americana e a operação ocorra integralmente fora do território dos EUA.
Uma empresa portuguesa pode comprar petróleo a uma empresa angolana, ambas em pleno acordo e sem qualquer conflito jurídico entre si; se o pagamento for feito em dólares norte-americanos, esse pagamento terá de passar por um banco correspondente em Nova Iorque, ficando sujeito às regras, sanções e listas do Departamento do Tesouro e da OFAC. O dólar norte-americano transforma um negócio externo num assunto interno dos Estados Unidos. Isto não é uma anomalia: é jurisdição extraterritorial de facto, normalizada e aceite como se fosse uma lei da natureza.
Este poder não se exerce directamente, mas através de um filtro silencioso: o sistema de branqueamento de capitais. O AML (políticas de combate ao branqueamento de capitais) funciona como um porteiro do sistema financeiro global, com uma pergunta implícita e não negociável: “queres operar no mundo?” – então terás de cumprir regras que não definiste. KYC (Conhece o teu Cliente) detalhado, monitorização permanente, reporte de transacções suspeitas e cooperação estreita com as autoridades, sobretudo norte-americanas, tornaram-se condições de existência.
Formalmente, os padrões são definidos por entidades multilaterais como o GAFI (liderada por burocratas não eleitos e totalmente desconhecidos); na prática, alinham-se com os interesses estratégicos dos Estados Unidos e dos seus aliados. Não se trata de combater crime, mas de condicionar o acesso. O sistema não pergunta se algo é justo ou legítimo; pergunta se é compatível com a arquitectura dominante.
O verdadeiro gargalo está nos bancos correspondentes. Mesmo um banco europeu, a operar em euros e a servir clientes não norte-americanos, depende estruturalmente do acesso ao dólar norte-americano para o comércio internacional, energia, matérias-primas e liquidação final. Se violar – ou apenas se aproximar perigosamente – das regras AML ou das sanções dos EUA, perde esse acesso e fica morto do ponto de vista funcional.
Não é preciso encerrar o banco; basta cortar o dólar. É por isso que bancos europeus já pagaram multas multimilionárias por violarem sanções norte-americanas, mesmo quando não infringiram qualquer lei local. É por isso que o cumprimento com excesso de zelo se tornou regra: perante um cliente venezuelano, iraniano ou russo, perfeitamente legal à luz do direito europeu, o banco prefere recusar. Não por justiça, mas por medo. O AML deixa de ser jurídico e passa a ser preventivo.
Daí a parte mais desconfortável: na prática, o AML não elimina o grande crime financeiro. A lavagem sistémica, os fluxos gigantescos através de fundos, veículos offshore e instituições “grandes demais para cair” continuam a passar.
O que é efectivamente punido são países, empresas e indivíduos que tentam sair da órbita do dólar norte-americano. Quando um país decide vender petróleo fora do sistema, usar iuane, ouro ou trocas directas, o castigo chega sem tiros: bancos recusam pagamentos por “risco AML”, seguradoras retiram cobertura, transportadoras recusam cargas, o acesso ao SWIFT é cortado. O país fica isolado sem que uma única bomba seja lançada.
Tudo legal, tudo regulatório. É assim que o dólar norte-americano mantém a sua hegemonia sem necessidade de coerção permanente – e é por isso que qualquer alternativa monetária real, do iuane ao Bitcoin, provoca reacções tão viscerais: não ameaça o crime, ameaça o controlo, obrigando o exército norte-americano a actuar em defesa.
A Venezuela é apenas o capítulo mais recente de uma longa narrativa. Não é sobre drogas, nem sobre liberdade, nem sequer sobre petróleo em bruto. É sobre a sobrevivência de um sistema monetário que permite a uns viverem do trabalho dos outros. Quando esse sistema é posto em causa, as bombas voltam a falar. Sempre falaram!
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.
O número é repetido com ênfase, acompanhado de sorrisos e de comparações com a chamada “inflação oficial”, sempre convenientemente inferior, como se o poder de compra real pudesse ser apurado por decreto, por alquimias estatística do INE, por comunicado do Conselho de Ministros.
Para o espectador distraído, a encenação funciona: o Estado aparece como benfeitor, o trabalhador como protegido e o empregador como figurante silencioso de uma peça que nunca escolheu representar.
Mas estas proclamações são, na realidade, uma fraude aritmética cuidadosamente embalada. Vejamos os números, que têm o mau hábito de não respeitar a retórica. No final de 1997, o salário mínimo era de 294 euros. Em 2025, com o recente anúncio, será de 920 euros. Nominalmente, o crescimento impressiona.
Traduzido em taxa anual composta, dá cerca de 4,2% ao ano durante quase três décadas. É um ritmo mais do que suficiente para alimentar discursos sobre o progresso “económico” e para justificar a sensação enganadora de melhoria contínua. O problema, como quase sempre, não está no numerador, mas no denominador que ninguém menciona.
Evolução do valor do salário mínimo entre 1997 e 2025 – para 2025, assume-se o aumento recentemente anunciado (unidade: Euros por mês); Fonte: INE; * Taxa anual de crescimento composta
Porque o euro de hoje não é o euro de 1997. Não o é por uma razão simples: o dinheiro foi massivamente adulterado. Se, em vez de olharmos para índices politicamente domesticados, olharmos para a expansão monetária efectiva, o quadro muda radicalmente. O agregado M2 em Portugal passou, no mesmo período, de cerca de 94 para 342 mil milhões de euros, o que corresponde a uma taxa anual próxima de 5%, superior ao crescimento do salário mínimo. Traduzido em linguagem clara, isto significa que um euro de 1997 vale hoje apenas cerca de 27 cêntimos. Mais de 70% do seu poder aquisitivo foi destruído, não por acaso, mas por política deliberada.
Evolução do agregado M2 entre 1997 e 2025 – previsão com base no valor de Outubro de 2025 (Unidade: milhares de milhões de Euros); Fonte: Banco de Portugal; * Taxa de crescimento anual composta
Feita esta conversão elementar, o milagre desvanece-se. Os 920 euros de 2025, corrigidos pela expansão monetária, correspondem a cerca de 253 euros em euros de 1997. Ou seja: abaixo dos 294 euros de então. O saldo real é uma perda de cerca de 14%.
Em quase trinta anos de anúncios triunfais, o trabalhador no salário mínimo não foi elevado; foi lentamente empurrado para trás, enquanto se lhe dizia, com voz grave, que estava a avançar. Eis a essência da fraude: devolver em prestações uma parte do que foi previamente roubado, e ainda assim devolver menos do que se tirou.
Mas o embuste não se fica pela erosão monetária. Há uma segunda camada, mais obscena, que explica o entusiasmo sincero da classe política sempre que o salário mínimo sobe. Ao contrário do que a narrativa sugere, um salário mínimo não é uma dádiva; é um custo imposto.
Evolução do salário mínimo entre 1997 e 2025 – para 2025, assume-se o aumento recentemente anunciado (unidade: Euros por mês, ajustado pelo crescimento do agregado M2); Fonte: INE e Banco de Portugal
Esse custo vem acompanhado de um prémio fiscal imediato. Em Portugal, o salário mínimo paga “descontos” – na realidade mais um imposto – para a Segurança Social: 11% atribuídos ao trabalhador e 23,75% ao empregador. Esta divisão é uma ficção contabilística. Tudo sai do mesmo bolso: o do empregador, enquanto o Estado, quando contrata, não paga nada disto. No total, estamos perante um confisco adicional de 34,75% sobre o valor pago.
Com um salário mínimo de 870 euros, pagos em 14 meses, o encargo anual em contribuições rondava os 4.233 euros. Com o novo valor de 920 euros, esse encargo sobe para cerca de 4.476 euros por trabalhador por ano. A diferença é clara: mais 243 euros por ano enviados directamente para o Estado, por cada trabalhador no salário mínimo! Eis a verdadeira razão do entusiasmo oficial.
O aumento não é apenas “social”; é fiscalmente rentável. O trabalhador recebe um pouco mais no recibo; o Estado, obviamente, garante que também recebe mais; o empregador, como sempre, financia o espectáculo e ainda é convidado a aplaudir.
Evolução do valor de segurança social pago pelo empregador privado (11% + 23,75%; 14 salários ano); Unidade; euros por ano
Perante isto, impõe-se uma pergunta que nenhum governante ousa formular em voz alta: se é legítimo decretar um salário mínimo de 920 euros, por que não 10.000 euros? A resposta surge de imediato, até nos corredores do próprio regime: porque isso destruiria a actividade económica. Ao admitir este limite, o Estado confessa o essencial: o salário mínimo não é um princípio moral; é um instrumento táctico. Não serve para criar prosperidade, mas para extrair o máximo possível sem matar a galinha depressa demais. É a arte antiga de desnatar o povo em lume brando, enquanto se declama poesia social.
Do ponto de vista económico e moral, o problema é ainda mais profundo. O salário resulta de um contrato voluntário entre duas partes: quem oferece trabalho, dispondo do seu tempo e da sua capacidade, e quem paga o trabalho, dispondo do seu capital e antecipando o consumo presente ao trabalhador em troca de produção futura.
Quando o Estado impõe um salário mínimo, está a declarar que esse contrato só é legítimo se obedecer a um número arbitrário fixado politicamente. Está a dizer ao empregador: “és obrigado a pagar X, mesmo que X seja superior à produtividade marginal desse trabalhador.” Isto não é regulação; é invasão directa da propriedade privada.
As consequências não são abstractas. Em empresas do interior, em sectores de margens estreitas, num país com fraca procura interna e custos crescentes, este novo patamar pode significar a diferença entre sobreviver e fechar. Não porque os empresários sejam cruéis ou gananciosos, mas porque a aritmética não responde a discursos.
O salário mínimo não cria valor; apenas proíbe contratos abaixo de um certo nível. Quando se proíbem contratos, proíbem-se empregos – sobretudo os de entrada, os que permitem aprender, produzir pouco no início e mais depois.
Os defensores do presente regime apressam-se então a brandir a expressão mágica: “pleno emprego”. Mais um número encantado. Em 2020, a população activa em Portugal era de cerca de 5,076 milhões. Em 2024, passou para 5,507 milhões, um aumento de 431 mil pessoas. No mesmo período, o número de estrangeiros residentes saltou de cerca de 662 mil para mais de 1,544 milhões, um acréscimo próximo de 900 mil. Estes números, por si só, não provam automaticamente ilegalidade em massa – há estudantes, dependentes, reformas, emigração de portugueses –, mas revelam um desfasamento estrutural que não pode ser varrido para debaixo do tapete.
Um mercado que absorve fluxos migratórios desta dimensão, sem que a população activa cresça proporcionalmente, só pode fazê-lo de três maneiras: comprimindo salários reais, empurrando pessoas para a informalidade ou recorrendo a esquemas contratuais cada vez mais opacos.
Aqui reside a hipocrisia suprema: o mesmo Estado que proclama o salário mínimo como estandarte da dignidade tolera, por omissão ou conveniência, um mercado paralelo onde muitos trabalham abaixo desse mínimo, sem contrato e sem papéis. O decreto serve para o discurso; a realidade trata-se nos bastidores.
O salário mínimo não protege os trabalhadores; protege apenas aqueles cuja produtividade já se encontra acima do patamar imposto. Os outros ficam de fora. Jovens, imigrantes recentes, pessoas sem qualificações, trabalhadores de regiões pobres – precisamente os que mais precisavam de entrar no mercado – são empurrados para o desemprego, para a economia informal ou para a dependência do Estado. O salário mínimo não eleva salários baixos; elimina empregos baixos.
A isto soma-se o velho problema do cálculo económico. Nenhum comité central possui a informação dispersa necessária para determinar preços justos, salários adequados ou produtividades individuais. Os salários são sinais. Condensam informação local, sectorial, temporal.
Impô-los por decreto é desligar o sinal e fingir surpresa quando o sistema entra em curto-circuito. No longo prazo, a consequência é inevitável: menos investimento, menor acumulação de capital, falências de pequenos produtores e favorecimento de grandes estruturas capazes de absorver custos e navegar a teia regulatória. Não é política social; é política anti-capital e anti-mobilidade.
Tudo isto torna ainda mais embaraçosa a comparação internacional. Países como Áustria, Dinamarca, Finlândia, Itália e Suécia não têm estabelecido um salário mínimo nacional estatutário. Não praticam este confisco encenado por decreto. Ainda assim – ou talvez por isso mesmo – são, em média, muito mais ricos do que Portugal. A prosperidade não nasce de anúncios nem de números mágicos. Nasce de produtividade, investimento, capital acumulado, segurança jurídica e liberdade contratual. O resto é teatro.
Valor do salário mínimo para os diferentes países da União Europeia (Unidade: Euros por mês; ajustado a 14 salários anuais); Fonte: Eurostat
No fim, sobra a verdade nua, que raramente cabe nos comunicados oficiais: o salário mínimo, tal como é praticado, não é um instrumento de justiça social. É um mecanismo de extracção fiscal, de controlo político e de gestão simbólica da miséria. Serve para extorquir mais dinheiro ao sector privado, enquanto se proclama virtude.
Quem paga, como sempre, é o mesmo: quem trabalha, quem investe, quem arrisca – tratado como uma vaca leiteira, com a diferença de que a vaca, ao menos, não é obrigada a agradecer enquanto é ordenhada.
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.
Quinta-Feira, 11 de Dezembro de 2025. Doze anos depois da última greve geral, Portugal voltou a parar – ou, mais precisamente, voltou a fingir que parava. O motivo invocado foi o costumeiro: alterações à lei laboral.
Desta vez, as palavras-chave repetidas até à náusea foram três: despedimentos, contratos a prazo mais longos e reintrodução do banco de horas individual. O cenário montado foi o habitual: proclamações inflamadas, discursos morais, cartazes indignados e uma narrativa simples, infantil, mas eficaz – a de que o trabalhador português estava, mais uma vez, à beira de ser atirado para a fogueira do “capitalismo selvagem”.
Foto: D.R.
Nada de novo, portanto. O novo – e verdadeiramente revelador – esteve em quem protestou e em quem ficou em casa.
Porque há um facto que ninguém ousou sublinhar com clareza: as alterações ao Código do Trabalho não se aplicam aos trabalhadores da função pública. Não se aplicam aos professores, aos funcionários das repartições, aos quadros do Estado, aos empregados das empresas públicas, aos que vivem directa ou indirectamente do Orçamento. E, no entanto, foram precisamente esses os que fizeram greve, os que saíram à rua, os que empunharam cartazes e deram entrevistas. Estranha-se – ou talvez não. Protestam os não afectados. Os que não correm risco. Os que não podem ser despedidos. Os que nunca enfrentaram o consumidor. Os que nunca tiveram de fechar uma empresa, despedir um colaborador, assumir um prejuízo.
Os directamente visados pelas propostas – empregadores e trabalhadores do sector privado – esses trabalharam. Abriram portas. Produziram. Pagaram impostos. Não se manifestaram. Estavam ocupados a sustentar o espectáculo.
Foto: D.R.
Mas o mais fascinante desta greve geral não foi apenas a sua sociologia. Foi a sua unanimidade ideológica. Descobrimos, com espanto apenas aparente, que todas as soluções políticas em Portugal são socialistas – quando não abertamente marxistas. Da extrema-esquerda à suposta extrema-direita, todos falam a mesma língua, usam os mesmos conceitos, partilham os mesmos dogmas.
O almirante das “vacinas”, Gouveia e Melo, elevado a herói nacional durante a putativa pandemia, brindou-nos com a pérola final: a lei laboral não deve “atacar o núcleo essencial dos direitos dos trabalhadores” e deve procurar um “equilíbrio entre protecção social e flexibilidade económica”. Marxismo de farda branca, com galões.
O diagnóstico impõe-se: Portugal é um país marxista, onde as divergências são apenas estéticas. Todos aceitam o mesmo pressuposto falso – o de que existe um conflito estrutural entre empregador e trabalhador, o de que o salário é uma variável política, o de que o contrato livre é uma ameaça, o de que o Estado é o árbitro moral da economia.
Quem são os autores deste teatro? Uma casta política que nunca arriscou um cêntimo do seu bolso, que nunca contratou ninguém, que nunca teve de despedir, que nunca enfrentou uma folha salarial sem saber se haveria receitas no fim do mês. Uma casta que não conhece o risco, não conhece o mercado, não conhece a incerteza. Vive do pote do saque, esse manancial inesgotável chamado Orçamento do Estado, onde se pode debitar atoardas ideológicas sem qualquer consequência.
Foto: D.R.
Importa, pois, clarificar o essencial. Não existe qualquer conflito natural entre empregador e trabalhador. Não deveria existir. A relação laboral é – ou deveria ser – uma relação contratual livre e voluntária entre adultos.
O verdadeiro conflito não é entre quem contrata e quem é contratado. O verdadeiro conflito é entre pagadores líquidos de impostos e receptores líquidos de impostos. Entre os que produzem e os que vivem do que é produzido. Entre o sector privado – empregadores e trabalhadores – e o Estado e os seus dependentes. Os que ontem protestaram pertencem, quase sem excepção, ao segundo grupo. Os que não protestaram pertencem ao primeiro.
Para perceber a fraude intelectual que sustenta todo este debate, é preciso explicar conceitos simples, que o ensino oficial evita cuidadosamente. Produzir implica utilizar recursos escassos: trabalho, capital e tempo; este último é o mais ignorado – e o mais decisivo. Sem capitalismo, surgem perguntas insolúveis. Como se reparte o produto final entre os factores produtivos? Em igualdade? Em função do esforço? Da necessidade? Mais importante ainda: como se vive enquanto o produto não é vendido?
Foto: D.R.
Consideremos uma vinha. Entre plantar e vender vinho passam-se anos. Durante esses anos, os trabalhadores precisam de comer, vestir, viver. De onde vem esse rendimento? A resposta marxista é o silêncio. A resposta capitalista é clara: vem das poupanças de alguém.
O capitalismo resolve este problema com um contrato simples e genial. O trabalhador vende bens futuros – o vinho que ajudará a produzir daqui a cinco anos – para poder consumir no presente. O empregador adianta poupança, arriscando-a, na esperança de ser compensado no futuro. Não há exploração. Há troca. Há risco de um lado e segurança do outro. É uma relação contratual que só deveria interessar às partes envolvidas.
Quando o Estado intervém, tudo se corrompe. Se o produto não se vende, se o mercado rejeita o bem, o empregador sofre o prejuízo. Se não pode ajustar a estrutura de custos, se não pode despedir, o que lhe é imposto é um confisco. Uma obrigação de pagar indefinidamente por um erro empresarial ou por uma mudança no mercado.
Portugal construiu um sistema onde é quase impossível despedir. Na prática, só há três vias: mútuo acordo – isto é, pagar para sair; extinção de posto – quase sempre chumbada em tribunal; despedimento colectivo – um ritual kafkiano. O resultado é previsível: salários mais baixos, para compensar o risco. Depois, protesta-se contra os salários baixos.
A hipocrisia é total. Discutimos um Código do Trabalho que não deveria existir. Ninguém se deve intrometer numa relação voluntária entre quem quer contratar e quem quer ser contratado. O Estado cria conflitos artificiais para se legitimar, alimenta a ideia falsa de expropriação do valor, enquanto é o maior expropriador.
Por fim, convém distinguir papéis que o discurso dominante mistura propositadamente: o capitalista, que arrisca poupança; o trabalhador, que troca bens futuros por consumo presente; o empresário, que coordena recursos; e o consumidor, o verdadeiro soberano. Todos servem alguém. Excepto a casta parasitária – funcionários públicos, empresas resgatadas, imprensa subsidiada, projectos dependentes da publicidade institucional e do dinheiro jorrado pela impressora do BCE, esse imposto invisível chamado inflação.
Foto: D.R.
Nada disto é acidental. Não foi por acaso que o partido Nazi se chamava Partido Nacional Socialista. Da direita à esquerda, todos idolatram o bandido estacionário, o Estado, porque todos querem viver do saque. Para que o saque seja fácil, é preciso dividir. Criar conflitos imaginários. Alimentar greves gerais encenadas por quem não trabalha, contra leis que não os afectam, em nome de um conflito que nunca existiu.
Portugal não parou. Portugal fingiu, mais uma vez, que luta contra fantasmas para não enfrentar a realidade.
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.
Há espectáculos televisivos que, de tão repetitivos, se tornaram uma espécie de missa negra do pensamento português: o candidato presidencial do PCP, António Filipe, senta-se diante das câmaras, despeja o catecismo marxista com a serenidade de quem recita contas de um rosário gasto, e os jornalistas acenam, reverentes, como se estivessem diante de uma esfinge portadora de verdades eternas.
António Filipe, na sua última entrevista na CNN, brindou-nos com uma daquelas frases que fariam corar até o velho Marx – não de vergonha, mas de tédio: “O velho de Marx ensinou-nos algo que hoje é aceite (sic) unanimemente: o trabalho cria a riqueza produzida”! Como se o disparate inicial tivesse de ser coroado por outro ainda maior, arrematou: “Os lucros resultam da parte não paga aos trabalhadores; se os lucros aumentam exponencialmente, isso é retirado dos salários.” Assim, sem pestanejar, como quem anuncia que descobriu a pólvora.
António Filipe, candidato presidencial apoiado pelo PCP, na entrevista que concedeu à CNN, no dia 16 de Novembro. / Foto: Imagem obtida a partir do vídeo da CNN | D.R.
Estas afirmações grotescas continuam a infectar o espaço público como um vírus, aceites como verdades cristalizadas, repetidas por gerações de alunos mal preparados e comentadores educados nas madraças estatais ainda piores.
É o velho mito protestante — esse veneno intelectual que rejeitou toda a autoridade natural e pariu o socialismo — transfigurado em axioma económico. A recusa da autoridade papal, que durante séculos moldou a ordem social, degenerou no dogma moderno de que todas as relações humanas resultam em conflitos insanáveis: empregador contra empregado, professor contra aluno, general contra soldado. Não há colaboração, não há benefício mútuo; há exploração, opressão, antagonismo.
O socialismo é o protestantismo secularizado: a ideia de que ninguém tem autoridade legítima, de que toda a estrutura social assenta num roubo camuflado, e de que um qualquer comité de iluminados tem de reorganizar o mundo para espiar o pecado original do lucro.
Foto: D.R.
Eis o terreno perfeito para a supremacia do estado totalitário em que hoje vivemos: se toda a cooperação humana é um conflito, se o trabalhador é sempre uma vítima do empresário, então o Estado – esse bandido estacionário com licença para roubar – surge como o mediador inevitável, o “protector dos fracos”, o “árbitro dos litígios”.
Na realidade, cria apenas conflitos artificiais para nos roubar melhor: assalta o trabalhador através de impostos pornográficos; furta o empresário através de burocracias confiscatórias; subtrai o bolso do consumidor através da inflação patrocinada pelo Banco Central e a banca comercial com a sua licença para operar. Quanto mais conflito artificial, maior a autoridade do predador. É o milagre da multiplicação das esmolas obrigatórias.
Destrua-se agora, de uma vez por todas, esta patranha. Se um escultor competente passa oito horas a esculpir uma estátua em mármore, aplicando talento, técnica, sensibilidade, anos de aprendizagem e domínio da forma, o resultado é um objecto desejado, valioso, apreciado. Se, ao lado dele, o Sr. Joaquim — picareta humano, inimigo público do belo — passa exactamente as mesmas oito horas a martelar um bloco de mármore sem saber o que faz, o resultado é um pedaço de cascalho disforme que nem como pisa-papéis serviria.
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Segundo António Filipe, ambas as peças deveriam ter o mesmo valor: afinal, têm igual quantidade de “trabalho incorporado”. O consumidor, esse reaccionário que insiste em querer utilidade, discorda – a estátua vale, o cascalho não. Eis, em toda a sua nudez, a falência da teoria do valor-trabalho.
O valor não está na pedra. Nem no tempo cronometrado. Nem no suor pingado. Está na cabeça dos consumidores, na utilidade subjectiva que cada um atribui ao bem. A primeira estátua satisfará a necessidade mais urgente: embelezar a sala de estar. A segunda, talvez a entrada da casa. A terceira, o jardim. A quarta já não servirá para nada. Quanto maior a quantidade de um bem, menor o valor que cada unidade adicional tem na escala das necessidades humanas. É por isso que o ouro é caro: é escasso e tem usos subjectivos de elevado valor. Não é porque alguém gastou “x horas” a minerá-lo.
Quanto ao capitalista — esse ogre de duas cabeças na mitologia marxista — desempenha a função mais nobre da economia moderna: adianta a poupança para permitir a produção. Se todos fossem co-proprietários dos frutos, como seria?
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Imaginem uma cooperativa de vinicultores. Plantam a vinha. Esperam anos pela primeira colheita. Primeiro drama: como dividir o futuro vinho se não sabem quanto haverá? Segundo drama: todos terão de esperar anos para consumir; ninguém recebe salário agora. Terceiro drama: se, quando o vinho finalmente sair, o consumidor não o desejar? Falência da cooperativa, miséria “democrática”.
O capitalista oferece a solução: “Eu pago-te hoje — com a minha poupança — e compro a tua produção futura.” O trabalhador recebe já, não espera anos, não corre risco. O risco é do capitalista: pode perder tudo. Pode aplicar mal, pode produzir algo que ninguém queira.
Ao diferir consumo, espera ser remunerado: se o sacrifício é de 5%, exigirá um retorno de 10% para ter lucro de 5%. Este diferencial entre receitas e poupanças adiantadas para adquirir factores produtivos é o sinal que atrai os empreendedores, esses detectores de oportunidades que coordenam os capitais disponíveis. Não há exploração: há cooperação voluntária. O trabalhador vende bens futuros em troca de consumo presente; o capitalista compra bens futuros prescindindo de consumo presente. Tudo voluntário, sem polícia, sem comités centrais, sem Marx debruçado sobre o ombro.
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Quando os empreendedores acertam, os lucros são reinvestidos. Há mais máquinas, mais fábricas, mais computadores, mais ferramentas – e mais produtividade. Um agricultor africano com uma enxada, a trabalhar dez horas, produzirá uma migalha face a um agricultor chinês com um tractor de quinhentos cavalos. O chinês pode ganhar vinte vezes mais, mas o custo por unidade produzida é irrisório em comparação. É a acumulação de capital, não o “trabalho incorporado”, que enriquece sociedades. O socialismo, ao odiar o capital, odeia o único mecanismo que tira os povos da miséria. Por essa razão, invariavelmente, produz pobreza.
António Filipe remata ainda com outra pérola: “o capitalismo destrói recursos”. Eis a mentira preferida de quem nunca produziu um alfinete. Julian Simon destruiu esta fantasia malthusiana quando humilhou Paul Ehrlich na famosa aposta: escolheu cinco metais que, segundo os profetas da escassez, iriam inevitavelmente tornar-se mais caros. Dez anos depois, todos estavam mais baratos. A humanidade tinha mais população, mais consumo, mais indústria – e mais abundância.
A escassez é humana, não natural: é o tempo, o engenho, a tecnologia que transformam recursos brutos em bens úteis. O capitalismo multiplica recursos porque multiplica a inteligência aplicada. Só o socialismo é capaz de criar escassez artificial: basta nacionalizar qualquer sector para transformar ouro em chumbo.
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Chegamos, assim, ao ponto final: os comunistas continuam a espalhar mentiras porque a mentira é a argamassa do seu edifício intelectual. O comunismo é, por natureza, totalitário porque pretende substituir a coordenação descentralizada feita por preços e lucros – sinais indispensáveis – por uma entidade central que decide quem produz, quanto produz e para quem produz.
Sem preços nem lucros, decide-se às escuras; não se sabe se os recursos escassos estão a ser afectados correctamente; ninguém conhece custos reais, preferências reais, oportunidades reais. A miséria, a escassez, a ruína são inevitáveis.
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A história do século XX é suficientemente clara para qualquer pessoa honesta. Mas os nossos jornalistas continuam encantados com a liturgia socialista, prontos a indignar-se com a “extrema-direita”, mas incapazes de um suspiro perante a patranha marxista que, há cem anos, mata povos e destrói economias.
Até quando suportaremos esta catequese da mentira? Até quando jornalistas e comentadores continuarão a enfiar-nos pela boca a papinha comunista enquanto fingem que é um alimento intelectual? Talvez até ao dia em que o escultor português, cansado de ser tratado como picareta, decida largar o martelo e emigrar. Nesse dia, talvez alguém perceba que o valor não nasce do trabalho – nasce da verdade. A verdade, ao contrário do marxismo, não pode ser planificada.
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.
O Instituto Nacional de Estatística recentemente anunciou que o preço das habitações subiu 17,2% no segundo trimestre de 2025, face a igual período de 2024. Foi o maior aumento da série. Efectivamente, o preço por m2 em Lisboa tem subida a um ritmo anual de 7% ao ano desde 2000, explodindo nos últimos anos, em particular no presente ano (ver figura 1).
Lá está – mais oferta e, ainda assim, mais caro! O jornalista, em vez de se espantar, confessa-nos que a culpa é dos “custos de construção” e das “promoções imobiliárias viradas para a classe alta”. O Público continua a acreditar que os custos se repassam por decreto ao cliente, e que o preço é um simples reflexo contabilístico das despesas do construtor com uma margem de lucro desejada.
Ora, o problema é outro – e é mais profundo do que a cabeça dos economistas de redacção do Público consegue alcançar. O preço de qualquer bem não é uma variável objectiva, como a temperatura ou a velocidade da luz. O preço é uma avaliação subjectiva que emerge do encontro entre quem quer vender e quem quer comprar; essa interacção tem uma beleza que uma folha de cálculo desconhece.
Imaginemos um agricultor com três cavalos idênticos. O primeiro será destinado à necessidade mais urgente – por exemplo, lavrar a terra. O segundo, a uma necessidade menos urgente – puxar a carroça. O terceiro, enfim, para passear e ostentar a virilidade na aldeia. Quanto mais cavalos, menor a utilidade marginal do último.
Evolução do preço médio por m2 na cidade de Lisboa entre 2000 e 2025 – Outubro (unidade: € por m2); Fonte: INE, Idealista, Banco de Portugal
Por essa razão, menor o valor que alguém estará disposto a oferecer. A procura é tanto maior quanto menor o preço. Eis o primeiro princípio que o Público ignora: o preço nasce da importância subjectiva atribuída ao bem, e não da soma de cimento, janelas e burocracia.
No lado da oferta, a coisa é igualmente simples. Quando os preços sobem, os produtores têm incentivo a produzir mais; quando descem, retraem-se. Mas num determinado instante, a quantidade de casas é fixa – não se imprimem paredes como se imprimem euros. Assim, a curva da oferta é vertical no curto prazo.
Se, findo o ciclo de construção, o preço de venda exceder o esperado, o retorno atrai novos construtores. No próximo período, a oferta cresce. É por isso que a curva da oferta tem inclinação positiva – quanto maior o preço, maior a produção futura.
Mas voltemos à cidade dos vícios, onde o raciocínio é mais saboroso. Imaginemos um bordel de luxo em Lisboa, onde a hora de prazer custa trezentos euros. Se a moral social se degrada, como em Berlim nos anos 20 no século transacto, a procura dispara: há mais clientes para o mesmo preço. O bordel, vendo o lucro, contrata mais prostitutas, e outros bordéis abrem. Aumenta a oferta; com o tempo, o preço cai. Ora, é assim em qualquer mercado. O preço alto atrai concorrência; o preço baixo afasta-a.
O problema começa quando a concorrência é estrangulada. Aí entram os heróis da planificação – o Estado, a burocracia e os seus impostos. Suponha-se um construtor que compra materiais e mão-de-obra por 100 euros, esperando vender a casa por 110 no ano seguinte.
O lucro de 10% atrai outros construtores. Se a taxa de juro natural da sociedade for 5%, esse construtor está a ganhar 5% acima do que custaria adiar o consumo – um lucro saudável. Mas logo que novos concorrentes entram, os custos sobem para, digamos, 104,75 euros, reduzindo o lucro líquido para 5%. O sector estabiliza.
Agora, entra o Estado, esse arquitecto do desastre. Decide cobrar uma taxa de segurança social de 33% sobre o trabalho. Os custos disparam, por exemplo, para 111 euros. Se o preço de venda se mantiver em 110, o construtor passa a perder dinheiro. Resultado: falências, despedimentos, e menos oferta.
O mesmo efeito ocorre com um imposto sobre a venda, como um IMT, por exemplo, de 6%. O comprador continua disposto a pagar 110, mas agora só oferece 103,77 para reservar 6,23 para o Estado. O construtor, que antes ganhava 10, perde 6,23. O lucro evapora-se, e com ele a vontade de construir.
A burocracia produz o mesmo veneno. Se o construtor demora dois anos em vez de um a concluir o projecto, o retorno cai de 10% para 4,9% ao ano – investe 100 e recebe 110 ao final de dois anos. Não cobre sequer a taxa natural de juro, no nosso exemplo: 5%. Resultado: menos construtores, menos emprego, menos casas. E o Público, entre um café e uma crónica sobre o “mercado injusto”, pergunta-se por que razão “a oferta não trava os preços”.
Foi isto mesmo o que sucedeu em 2011. Antes da troika, a maioria dos imóveis ainda tinha valores patrimoniais calculados em escudos. O trio FMI, Comissão Europeia e BCE impôs a reavaliação massiva dos imóveis, que fez explodir o IMI e o IMT. Os gráficos do INE não mentem: a construção colapsou: de mais de 120 mil fogos por ano no início do milénio para pouco mais de 7 mil em 2014 (ver figura 2). Após a troika, o número nunca mais recuperou.
Evolução do número total de fogos concluídos em construções novas para habitação familiar em Portugal entre 2000 e 2025 – estimativa (unidade: milhares de fogos); Fonte: INE
Enquanto os construtores desapareciam, o Estado inventava novos Alves dos Reis. Com a impressora do Banco Central Europeu ligada em permanência, o dinheiro multiplicou-se como coelhos de laboratório (ver figura 3).
De 48 mil milhões em 2000 para 184 mil milhões em 2025 – um crescimento médio de 6% ao ano. O novo dinheiro, como no célebre golpe de Alves dos Reis, chega primeiro a uns poucos: bancos, fundos imobiliários, e promotores que compram o cimento antes dos outros.
Esses beneficiam dos preços baixos iniciais, antes que o ouro, as casas e até as prostitutas encareçam. É o efeito Cantillon em toda a sua glória – a inflação não é um aumento geral de preços, é uma redistribuição silenciosa de rendimentos a favor de quem toca primeiro no dinheiro novo.
Evolução do agregado M1 em Portugal entre 2000 e 2025 – *Setembro (unidade: milhares de milhões de Euros); Fonte: Banco de Portugal; M1 – numerário (notas e moedas) e depósitos à ordem (Saldos em contas bancárias que podem ser mobilizados imediatamente por cheque, transferência, cartão ou levantamento, sem pré-aviso nem perda de capital)
Mas há uma ironia que desmonta toda a narrativa oficial. Se medirmos o preço das casas não em euros – esse papel enfeitiçado -, mas em gramas de ouro, a história inverte-se. Em 2000, comprar um metro quadrado em Lisboa custava 111 gramas de ouro; em 2025, apenas 53. Uma queda média anual de 3% (figura 4). Ou seja, em termos reais, as casas ficaram mais baratas, o euro é que ficou miserável.
O Público podia ter aprendido isto em qualquer manual pré-keynesiano: não é apenas a oferta e a procura do bem que definem um preço, mas também a oferta e a procura de dinheiro.
Quando o Estado e os bancos criam dinheiro do nada, desvalorizam a moeda e distorcem os sinais do mercado. Os construtores reagem a lucros e preços, não a editoriais piedosos. Só constroem quando os sinais – preços e rendibilidade – lhes dizem que vale a pena.
Evolução do preço médio por m2 na cidade de Lisboa entre 2000 e 2025 – *Outubro (unidade: gramas de ouro por m2); Fonte: INE, Idealista, Banco de Portugal; Investing
Enquanto o Público acreditar que os preços sobem porque há mais casas, continuaremos a viver neste manicómio económico onde tudo é invertido: mais oferta, mais caro; mais impostos, mais pobreza; mais burocracia, menos casas.
Como sempre, os jornalistas hão-de culpar o “mercado” – esse espantalho conveniente que serve para esconder a única constante nesta tragédia: o Estado, o maior promotor de miséria do país.
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.