Autor: Luís Gomes

  • Será o Irão o verdadeiro inimigo?

    Será o Irão o verdadeiro inimigo?

    Segundo a narrativa oficial que nos chega de Israel e dos Estados Unidos, a recente ofensiva contra o Irão foi, ao mesmo tempo, preventiva, preemptiva, defensiva, libertadora e humanitária.

    Foi preciso atacar porque o Irão estava prestes a obter uma arma nuclear – embora ainda não a tivesse. Foi necessário agir porque existia uma ameaça iminente – ainda que essa ameaça estivesse situada num futuro indefinido. Era imperioso evitar um ataque – ainda que o único ataque concreto tenha partido de quem afirmava querer evitá-lo. Era indispensável garantir a estabilidade regional – tarefa que, ao que parece, exige bombardear mais um país do Médio Oriente.

    Tudo isto também foi feito para proteger o povo iraniano, missão que a história costuma associar a mísseis de precisão e bombardeamentos cirúrgicos. No limite, quem sabe, talvez a operação ajude os próprios iranianos a descobrir as virtudes de uma mudança de regime.

    A lógica é cristalina. Ataca-se para impedir um ataque que ainda não ocorreu. Destrói-se uma arma que ainda não existe. Salva-se um povo que não pediu para ser salvo. Defende-se a paz iniciando mais uma guerra.

    Se a história recente ensina alguma coisa, é que esta lógica não nasceu ontem. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos criaram uma rede global de influência política e militar que se apresenta como “defensora da liberdade”, mas que inclui uma longa sequência de intervenções, golpes de Estado e guerras por procuração. Muitas dessas operações passaram pela CIA, cuja missão oficial consiste em proteger os interesses estratégicos de Washington – o que, na prática, significou reorganizar o poder político em países considerados problemáticos.

    a statue of liberty with Statue of Liberty in the background

    Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em 1953, no próprio Irão. O primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, eleito democraticamente, cometeu o erro de nacionalizar o petróleo iraniano, até então dominado por interesses estrangeiros. A resposta chegou através da Operação Ajax, organizada pelos serviços secretos britânicos e pela CIA, que derrubou o governo e restaurou o poder do Xá. O episódio tornou-se um manual clássico de intervenção clandestina e marcou de forma profunda a história política iraniana.

    O padrão repetiu-se pouco depois. Em 1954, na Guatemala, o presidente Jacobo Árbenz tentou implementar uma reforma agrária que afectava os interesses da United Fruit Company. A reacção foi rápida: uma operação clandestina da CIA apoiou forças que acabaram por derrubar o governo. Mais uma vez, tudo em nome da liberdade e da estabilidade.

    A década seguinte não foi menos pedagógica. No Congo, o primeiro-ministro Patrice Lumumba foi deposto e assassinado durante a crise pós-colonial, num contexto em que potências ocidentais temiam a sua aproximação ao bloco soviético.

    aerial view of city buildings during daytime

    Em 1964, no Brasil, o presidente João Goulart caiu perante um golpe militar apoiado por Washington. Um ano depois, na Indonésia, a ascensão do general Suharto ocorreu no meio de purgas anticomunistas que custaram centenas de milhares de vidas. Em 1973, no Chile, o governo democraticamente eleito de Salvador Allende – a democracia funciona desde que se vote correctamente – foi esmagado por um golpe militar que abriu caminho à ditadura de Augusto Pinochet.

    Depois vieram as guerras apresentadas como garantes da “estabilidade internacional”. A Guerra do Vietname devastou o Vietname, o Laos e o Camboja, deixando milhões de mortos e territórios saturados de bombas.

    Entre 1980 e 1988, o Guerra Irão‑Iraque transformou o Médio Oriente num campo de batalha. O regime de Saddam Hussein, no Iraque, recebeu apoio político, financeiro, tecnológico e militar de várias potências ocidentais e regionais, incluindo dos Estados Unidos, que viam no conflito uma forma conveniente de conter o Irão após a revolução de 1979. O resultado foi uma guerra de desgaste brutal, com cerca de um milhão de mortos, cidades destruídas, ataques com armas químicas e uma geração inteira sacrificada numa guerra que muitos consideram ter funcionado, na prática, como um prolongado confronto por procuração entre potências regionais e internacionais.

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    Décadas mais tarde, no Afeganistão, a intervenção iniciada em 2001 prometia erradicar o terrorismo, construir uma democracia exemplar e libertar as mulheres. Vinte anos depois terminou com o regresso ao poder dos Talibã, milhares de mortos, um país destruído e com as mulheres novamente por libertar. No Iraque, a invasão de 2003 justificou-se com armas de destruição maciça que nunca apareceram, deixando para trás um Estado fragmentado e uma região ainda mais instável.

    A lista continua. Intervenções no Líbano, operações militares na Síria, ataques no Iémen ou na Líbia surgem sempre como episódios necessários de uma guerra permanente pela chamada segurança internacional. Cada intervenção traz o mesmo vocabulário: defesa, estabilidade, prevenção, libertação. As palavras mudam; os resultados permanecem.

    Também Israel acumula décadas de acusações de violação do “direito internacional” – a lei do mais forte, a única lei entre organizações criminosas, como são os estados –, sobretudo no contexto da ocupação da Cisjordânia, na expansão de colonatos considerados ilegais por várias resoluções das Nações Unidas e nas sucessivas operações militares na Faixa de Gaza e no Líbano. Naturalmente, tudo em nome da necessidade imperiosa de Israel defender-se.

    Mais recentemente, a guerra na Ucrânia acrescentou outro capítulo a esta longa história de confrontos indirectos entre potências. Em 2014, após meses de protestos em Kiev, o presidente democraticamente eleito – mais uma vez, as pessoas votaram mal –, Viktor Yanukovych, foi derrubado por um golpe de estado perpetrado pelos EUA. A partir daí, o país entrou numa espiral de tensão que culminaria anos depois na invasão russa de 2022 e numa guerra devastadora que transformou a Ucrânia num campo de batalha que mata, todos os dias, milhares de jovens ucranianos e russos.

    No fim de contas, o mundo habituou-se a uma curiosa hierarquia moral. Há guerras que chocam e guerras que se normalizam. Há vítimas que mobilizam indignação global e outras que passam quase despercebidas. A indignação internacional depende menos da gravidade dos acontecimentos do que da posição geopolítica de quem sofre ou de quem ataca. Quando, no meio deste teatro geopolítico, uma escola é atingida por bombas – como aconteceu recentemente no Irão – o silêncio internacional torna-se ensurdecedor.

    Talvez porque, no fundo, a estabilidade internacional tem um guardião muito particular. Os Estados Unidos possuem o maior orçamento militar do planeta, superior ao de qualquer outra potência e maior do que o de muitos países juntos. Uma máquina militar gigantesca, presente em centenas de bases espalhadas pelo mundo. Mas não há motivo para preocupação. Afinal, garantem-nos, todo esse poder existe apenas para assegurar uma coisa: a “estabilidade internacional”.

    white concrete building under blue sky during daytime

    Talvez por isso valha a pena recordar algo elementar. Não é o Irão que nos confisca grande parte do fruto do nosso trabalho. Não é o Irão que decretou prisões domiciliárias sem acusação, sem julgamento e sem qualquer controlo judicial. Não é o Irão que construiu um labirinto regulatório que transforma cada projecto de vida numa corrida de obstáculos.

    Não é o Irão que controla os tribunais, que detém o monopólio da violência e que desarma as pessoas em nome da “segurança”. Não foi o Irão que há poucos anos perseguiu famílias para impor inoculações experimentais sob pressão política e social. Não foi o Irão que expandiu a massa monetária em proporções históricas, destruindo poupanças, salários e o futuro das novas gerações.

    Não foi o Irão que criou um sistema económico que torna cada vez mais difícil a jovens famílias comprar uma casa ou construir uma vida autónoma. Não é o Irão que permitiu uma invasão de terceiro mundo.

    No entanto, é para o Irão – ou para qualquer outro inimigo externo conveniente – que a nossa atenção é constantemente dirigida. A propaganda tem sempre esta função essencial: deslocar a nossa atenção. Criar um inimigo distante para evitar que se olhe para os mecanismos de poder que actuam perto de nós. A guerra externa tem frequentemente esta utilidade política: unir, distrair, silenciar perguntas incómodas.

    Talvez a verdadeira pergunta não seja o que acontece em Teerão, Kiev ou Gaza. Talvez a pergunta seja outra: até quando aceitaremos esta permanente engenharia da nossa atenção, esta sucessão de narrativas destinadas a impedir que se olhe para o poder que governa a nossa própria vida? Porque, no fim, o perigo raramente se apresenta sob a forma de um inimigo distante. O perigo instala-se sempre mais perto.

  • Inflação: o imposto que ninguém vê

    Inflação: o imposto que ninguém vê


    Fala-se de inflação como se tratasse de um fenómeno atmosférico. “Os preços estão a subir.” “A inflação acelerou.” “A inflação abrandou.” Como se estivéssemos perante uma força da natureza, uma maré que sobe e desce, um vento que sopra com maior ou menor intensidade.

    A linguagem protege os responsáveis. Quando os preços sobem, a culpa é do “mercado”, da “ganância dos empresários”, das “rupturas das cadeias de abastecimento”, dos “especuladores”, da “guerra”, do “Putin”, do “clima”. Nunca do emissor da moeda.

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    Foto: D.R.

    A inflação, porém, não é um fenómeno atmosférico nem uma fatalidade histórica. É um acto deliberado, inscrito na arquitectura do sistema monetário, e tem um autor identificável: o Banco Central. A definição clássica de inflação não era a “subida generalizada dos preços”, mas a expansão dos meios de pagamento para além do dinheiro previamente existente. A escalada dos preços surge depois, como consequência lógica.

    O processo inicia-se no momento em que o Banco Central, por mera decisão administrativa, credita as contas de reservas dos bancos comerciais – um registo electrónico, um simples apertar do botão. A partir daí, o sistema bancário multiplica esses saldos através da concessão de crédito: cada empréstimo é criado por uma simples partida dobrada, simultaneamente activo (crédito sobre clientes) e depósito (crédito dos clientes). Não há poupança prévia que o sustente; há apenas escrita contabilística que gera novo poder de compra. É nesse instante, invisível para o público mas decisivo para a economia, que a inflação nasce.

    Quando um Banco Central aumenta a base monetária, quando os bancos comerciais expandem o crédito com reservas fraccionárias, o inventário de dinheiro em circulação sobe. Nada de misterioso. Mais unidades monetárias a disputar a mesma quantidade de bens e serviços. Se a produção real não cresce na mesma proporção, o valor de cada unidade monetária cai. Se o valor da unidade cai, os preços expressos nessa unidade sobem. Não é complicado. É aritmética aplicada à moeda.

    Assorted Euro banknotes in denominations of 10, 20, and 100 on a dark surface, highlighting European currency.
    Foto: D.R.

    A confusão começou quando se decidiu redefinir a inflação como um “aumento de preços”. A mudança semântica não foi inocente. Se a inflação é definida como preços altos, a culpa pode ser atribuída ao comerciante, ao produtor, ao especulador, à ganância, ao retalhista. Se a inflação é definida como expansão monetária, a responsabilidade recai sobre quem controla a impressora.

    Ao longo do século XX, esta inversão tornou-se norma. Os Bancos Centrais passaram a vigiar índices de preços como se fossem a máxima expressão da inflação. O público foi ensinado a olhar para o número publicado todos os meses. Dois por cento é aceitável – ninguém sabe de onde veio os 2%! Quatro por cento é preocupante. Dez por cento é dramático. Zero por cento ou valores negativos, a total miséria, estamos em deflação! A atenção deslocou-se do acto de criar moeda para o sintoma visível.

    O problema é que os preços não sobem todos ao mesmo tempo, nem na mesma proporção. Quando nova moeda entra na economia, não cai do céu sobre todos os bolsos. Entra por canais específicos: dívida pública comprada pelo Banco Central, crédito concedido ao sistema bancário, crédito concedido pelo sistema bancário, programas de estímulo, financiamento de défices públicos. Os primeiros receptores desse novo dinheiro gastam-no antes que os preços tenham ajustado. Compram activos, imóveis, acções, matérias-primas. Beneficiam de preços ainda antigos.

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    Foto: D.R.

    À medida que o dinheiro novo circula, os preços começam a reflectir a maior quantidade de moeda. Quem recebe por último, quem vive de salários fixos, quem detém poupanças em depósitos bancários, enfrenta preços já ajustados, mas com rendimentos que não acompanharam o processo. O poder de compra foi transferido. A inflação não cria riqueza. Redistribui-a.

    Este efeito desmonta a narrativa segundo a qual a inflação é neutra ou até útil! Diz-se que um pouco de inflação estimula o consumo, reduz o peso da dívida, favorece o investimento. O argumento ignora o facto de que a inflação altera a estrutura de preços relativos, distorce sinais, induz erros, pois os empresários tomam decisões com base em preços falsos.

    Num mercado livre, os preços e os lucros são sinais. Informam produtores e consumidores sobre escassez, preferências, oportunidades. Quando o Banco Central injecta moeda no sistema, esses sinais deixam de reflectir apenas condições reais. Passam a incorporar um elemento artificial: dinheiro e crédito criado do nada.

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    Foto: D.R.

    Empresários interpretam taxas de juro baixas como um sinal de maior poupança disponível. Investem em projectos de longo prazo. Expansões são iniciadas. Sectores inteiros crescem à sombra de crédito fácil. Mas se a poupança real não aumentou, esses projectos carecem de base sólida. A expansão económica febril contém as sementes da crise.

    A inflação monetária alimenta ciclos. Primeiro, euforia. Depois, ajustamento. O que parecia prosperidade revela-se expansão baseada em crédito sem poupança real prévia. Quando a expansão abranda ou se inverte, os erros tornam-se visíveis. Investimentos mal orientados são liquidados. Empregos desaparecem. O público pergunta o que correu mal. Raramente a resposta aponta para a origem: a manipulação da moeda. Mas, quase sempre, o dedo é apontado ao mercado livre, à necessidade de maior regulação e poder aos que causaram a crise.

    A história fornece exemplos em abundância. Desde a inundação de metais preciosos na Europa do século XVI até às experiências com papel-moeda não convertível no século XX, o padrão repete-se. Sempre que a quantidade de dinheiro cresce de forma desligada da produção real, o poder de compra é corroído.

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    No passado, o limite físico do ouro impunha disciplina. Para aumentar a oferta monetária, era necessário extrair metal, refiná-lo, cunhá-lo. O processo tinha custo e exigia tempo. Hoje, a moeda é fiduciária. A criação ocorre por decisão administrativa de um burocrata ao leme do Banco Central; ou quando um banco comercial concede crédito a um particular ou empresa, criando uma partida dobrada no seu balanço. Um lançamento contabilístico basta.

    A facilidade técnica alterou a escala do fenómeno. Já não se trata de carregar navios com prata. Trata-se de expandir balanços de forma electrónica, com a segurança de estar protegido pelo código de leis. Se um comum mortal o fizesse, teria ordem de prisão imediata.

    Defensores do actual regime monetário argumentam que a gestão activa da moeda permite suavizar crises, estabilizar a economia, evitar colapsos. Hoje, toda a academia o afirma em uníssono. A promessa soa atraente. A prática revela outro quadro. A expansão monetária tornou-se resposta padrão a qualquer desaceleração. Taxas de juro descem. Programas de compra de activos são activados. Défices são financiados com nova moeda.

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    Foto: D.R

    O resultado é um sistema viciado em estímulos sucessivos e “injecções de liquidez” – expressão técnica que mascara o essencial: impressão de dinheiro. A cada ciclo de expansão, o balanço do Banco Central dilata-se e a base monetária aumenta. A cada abalo, a receita repete-se: mais crédito, mais reservas criadas do nada, mais promessa de estabilidade sustentada por escrita contabilística. O efeito acumulado não é neutro. Ao longo do tempo, o poder de compra da moeda é corroído, não por acidente, mas como consequência directa desse regime de expansão contínua.

    O comum dos mortais sente o efeito quando vai ao supermercado, quando paga a renda, quando tenta comprar casa. Observa que o dinheiro já não compra o que comprava. O discurso oficial responde com estatísticas, cestas básicas, exclusões técnicas. Explica-se que a inflação é transitória, que certos aumentos são voláteis, que a tendência está controlada.

    Entretanto, os preços dos activos financeiros e do imobiliário escalam de forma inexorável. Quem detém esses activos protege-se. Quem depende de salário enfrenta custo de vida crescente.

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    Foto: D.R.

    A inflação funciona como um imposto oculto. Ao contrário do imposto explícito, que exige aprovação legislativa, debate e votação, a inflação opera por via monetária. Reduz o valor real dos saldos monetários. Diminui o peso real da dívida pública, transferindo o custo para os detentores de moeda.

    Quando o Estado se endivida e o Banco Central monetiza essa dívida, a despesa é financiada por criação de moeda como aconteceu sem paralelo durante a dita pandemia. Não há necessidade de aumentar impostos no momento. O custo aparece na perda de poder de compra. A população paga sem receber a respectiva factura.

    Alguns economistas defendem metas de inflação positivas, dois por cento, três por cento. Argumentam que uma inflação ligeira evita deflação, encoraja o consumo, mantém a economia em movimento. A ideia parte do pressuposto de que queda de preços é indesejável por natureza, pois o consumidor nunca pode beneficiar de aumentos de produtividade gerados pelo capitalismo e abundância, tem sempre de ser confiscado em grande parte por uma casta parasitária ao leme do estado e à frente do sistema bancário.

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    Foto: D.R.

    No entanto, num contexto de aumento de produtividade, preços mais baixos são sinal de abundância. Se a produção cresce mais depressa do que a oferta monetária, os preços tendem a cair. O consumidor beneficia. O salário compra mais. Não há nada de perverso.

    A aversão à deflação nasce do medo de contracções creditícias após períodos de expansão artificial, fruto de um sistema assente em reservas fraccionárias. Confunde-se o ajustamento necessário com calamidade. Em vez de permitir que erros sejam corrigidos, prefere-se reiniciar a expansão.

    A inflação também afecta a poupança. Numa moeda que perde valor ao longo do tempo, poupar torna-se um exercício de defesa. O aforrador procura activos que protejam o seu poder de compra. Investimentos são escolhidos não pela sua produtividade, mas pela capacidade de servir como escudo contra a erosão monetária, como acontece hoje com a aquisição desenfreada de ETFs.

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    Foto: D.R.

    Este ambiente altera incentivos. Endividar-se torna-se racional, pois a dívida futura será paga com moeda desvalorizada. A disciplina financeira é penalizada. A prudência perde atracção.

    Num sistema monetário sólido, a moeda serve como reserva de valor, unidade de conta e meio de troca. Quando a inflação corrói a reserva de valor, a função da moeda é comprometida. A confiança enfraquece.

    Alguns dirão que a alternativa é impraticável. Que o padrão-ouro pertence ao passado. Que a economia moderna exige flexibilidade. A questão não é nostalgia. A questão é responsabilidade na criação de moeda. Enquanto a expansão monetária for instrumento de política corrente, a tentação de usar a impressora para resolver todos os problemas fiscais e políticos persistirá.

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    Foto: D.R.

    A inflação não é acidente. É escolha. Pode haver momentos em que a expansão monetária não se traduz de imediato em subida de preços ao consumidor. Pode haver fases em que o dinheiro novo fica retido em reservas bancárias ou se concentra em mercados de activos. Isso não altera a natureza do processo. O potencial de erosão existe. A pressão acumula-se.

    Quando finalmente os preços reflectem a expansão passada, o público surpreende-se. Pergunta-se de onde veio a inflação. A resposta encontra-se nos balanços do Banco Central, nas decisões tomadas anos antes.

    Compreender a inflação exige recusar a narrativa da ganância dos especuladores. Exige olhar para a origem da moeda, para a estrutura do sistema bancário, para a relação entre política fiscal e política monetária. Exige reconhecer que criar dinheiro não cria riqueza.

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    Foto: D.R.

    Riqueza surge da produção, da poupança, do investimento orientado por sinais de mercado. A moeda é um mero instrumento de troca, não a fonte de prosperidade. Quando se transforma o instrumento em fim, o sistema perde rumo.

    A defesa contra a inflação começa pela clareza conceptual. Enquanto o debate público aceitar a definição superficial de inflação como simples aumento de preços, a atenção permanecerá no sintoma e nunca na doença. A discussão girará em torno de controlos de preços, subsídios, tectos administrativos. Medidas que tratam a febre com gelo, mas ignoram a infecção.

    Se a inflação é expansão monetária, a solução passa por disciplina monetária. Por limites institucionais à criação de moeda. Por transparência quanto ao financiamento do Estado. Por responsabilidade quanto à gestão do crédito. Com a ilegalização das reservas fraccionárias, alterando a legislação sobre o depósito de bens fungíveis no código civil.

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    Sem essa base, a moeda continuará a servir como instrumento de transferência silenciosa de riqueza. O comum mortal continuará a sentir que trabalha mais para obter o mesmo. A inflação continuará a ser apresentada como um fenómeno natural, quando na verdade é uma decisão humana.

    A inflação não é um mistério. É a consequência lógica de uma arquitectura monetária que permite criar poder de compra por decreto. Enquanto essa arquitectura permanecer intacta, a erosão do poder de compra será companheira constante.

    Quem quiser compreender o problema deve começar pela pergunta simples: quem controla a oferta de moeda? Os Bancos Centrais e os bancos. A partir daí, o resto encaixa.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

  • Ouro e prata:  sinais de uma crise do dólar?

    Ouro e prata: sinais de uma crise do dólar?


    Na última sexta-feira, dia 30 de Janeiro, na derradeira sessão bolsista do mês, assistimos a um dos movimentos diários mais violentos registados nos mercados de metais preciosos nas últimas quatro décadas. A prata caiu 27% num único dia. O ouro recuou 9,8%, ambos medidos em dólares norte-americanos (USD).

    Para muitos, foi um choque; para outros, um sinal; para alguns, um pretexto. Mas quem olha apenas para a violência do dia ignora a substância do mês – e mais ainda, a substância dos momentos que vivemos.

    Evolução do valor do preço do ouro entre Fevereiro de 1970 e Janeiro de 2026
    / Unidade: dólares norte-americanos por grama de ouro; Período: mensal; Cotação correspondente ao fecho do período/ Fonte: Reuters / (*) Taxa de crescimento anual composta

    Porque apesar dessa queda abrupta, o ouro terminou Janeiro a subir 12,75%, passando de 139 dólares norte-americanos (USD) por grama no final de 2025 para 156 USD por grama no fecho de Sexta-Feira. A prata avançou cerca de 19% no mesmo período, de 2.292 USD por quilo para 2.723 USD por quilo. Tivemos uma das piores quedas diárias em décadas dentro de um dos meses mais fortes da história recente dos metais. Não há contradição. Há hierarquia: o dia é ruído; a tendência é sinal.

    Comecemos, pois, pelo ruído. O que aconteceu naquela Sexta-Feira não foi um colapso da procura física por ouro ou prata, nem uma súbita revelação metafísica de que os metais perderam utilidade. Foi mecânica de mercado – rigorosa, previsível e amplificada pela alavancagem.

    Nos mercados de opções e futuros, muitos vendedores institucionais de opções de compra encontravam-se cobertos através de contratos futuros. Enquanto o preço do metal estava acima do preço de exercício da opção – isto é, enquanto a opção tinha valor intrínseco e probabilidade elevada de ser exercida – o vendedor precisava de manter a cobertura comprando futuros para neutralizar o risco.

    Mas quando o preço de mercado começou a cair e ficou inferior ao preço de exercício, a opção deixou de ter valor, deixando de exigir cobertura. Assim, a posição de protecção tornou-se desnecessária e começou a ser desfeita: os contratos futuros foram vendidos. Essa venda pressionou ainda mais as cotações.

    Evolução do valor do preço da prata entre Fevereiro de 1970 e Janeiro de 2026
    / Unidade: dólares norte-americanos por quilo de prata; Período: mensal; Cotação correspondente ao fecho do período / Fonte: Reuters / (*) Taxa de crescimento anual composta

    Simultaneamente, o mercado estava saturado de posições longas alavancadas. Quando o preço cai com violência, as bolsas exigem reforço de margem. Se o investidor não o faz, a sua posição é encerrada automaticamente com venda forçada. Mais vendas geram mais quedas; mais quedas geram novas chamadas de margem; a cascata instala-se.

    Mas quem se detiver aqui terá apenas descrito o mecanismo, não a causa profunda. A pergunta essencial permanece: por que razão estavam o ouro e a prata em máximos históricos antes da queda?

    A resposta exige que distingamos aquilo que muitos confundem deliberadamente: o dólar norte-americano não está, neste momento, ameaçado como moeda dominante nas transacções internacionais. Continua a ser a unidade de liquidação da esmagadora maioria do comércio global, o pilar do financiamento internacional, o denominador do comércio energético e o eixo do sistema bancário internacional. A sua infra-estrutura é profunda, líquida e institucionalmente enraizada. O que está a mudar não é o seu uso como meio de troca. É a sua confiança como reserva de valor.

    Esta distinção é crucial. O mundo continua a operar em dólares norte-americanos. Mas os Bancos Centrais estão a reduzir gradualmente a sua exposição a obrigações do Tesouro norte-americano e a aumentar a proporção de ouro físico nas suas reservas, e mesmo prata. Não se trata de abandonar o dólar norte-americano nas transacções; trata-se de diversificar as reservas. A dívida soberana é um passivo de um Estado; o ouro é um activo sem contraparte. A diferença é estrutural.

    Evolução da dívida pública federal norte-americana entre Junho de 1970 e Janeiro de 2026
    / Unidade: biliões de dólares norte-americanos / Fonte: fiscaldata.treasury.gov / (*) Taxa de crescimento anual composta

    A expansão monetária foi extraordinária. A dívida pública norte-americana cresceu com uma taxa composta anual de 8,7% desde 1970, acelerando nos últimos anos, especialmente depois da suposta pandemia. A trajectória é exponencial. O sistema fiduciário moderno assenta na premissa de que essa dívida pode crescer indefinidamente desde que o crescimento nominal acompanhe. Mas a confiança é o cimento invisível do edifício. Quando esse cimento começa a fissurar, os actores institucionais ajustam a sua carteira de investimentos.

    O ouro não paga juros. Não distribui dividendos. Não promete. Mas também não depende da solvabilidade de ninguém. Essa característica é precisamente a sua força.

    É aqui que importa introduzir o conceito que atravessa toda esta análise: força monetária. Um activo possui força monetária quando a sua oferta é previsível, estruturalmente limitada e resistente à manipulação política.

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    Foto: D.R.

    O ouro extraído cresce aproximadamente 1,5% ao ano. O inventário acumulado mundial ronda as 208 mil toneladas; a produção anual é ridícula face ao que foi minerado desde sempre pela humanidade. A inflação anual é, desta forma, mínima: entre 1,5% e 1,7%. A oferta adicional anual, entre 3 a 3,5 mil toneladas, é irrelevante perante o total acumulado. Nenhum governo pode decidir multiplicar a oferta; nenhum produtor pode inundar o mercado com facilidade. A escassez é estrutural, não circunstancial.

    Foi esta força monetária que levou a humanidade, ao longo de milénios, a seleccionar o ouro e a prata como dinheiro. Não foi um decreto real, nem um tratado parlamentar. Foi uma selecção espontânea. Entre todos os bens disponíveis, aqueles que melhor preservavam o poder de compra ao longo do tempo foram naturalmente preferidos como meio de troca e reserva de valor.

    A prata desempenhou esse papel durante milénios; o ouro consolidou-o como padrão internacional no século XIX. Ambos partilham uma característica essencial: não podem ser criados por vontade política.

    three round gold-colored coins on 100 US dollar banknotes
    Foto: D.R.

    A história monetária moderna é a história do progressivo abandono dessa disciplina. Em 1913 foi criado o Banco Central norte-americano, a Reserva Federal. Em 1933, o ouro foi confiscado à população norte-americana, com risco de cadeia para quem não se submetesse. Em 1971, a conversibilidade do dólar em ouro foi definitivamente encerrada. Desde então, a moeda passou a assentar exclusivamente em dívida pública. O dólar norte-americano deixou de ser promessa de conversão em metal; passou a ser promessa de aceitação universal.

    O sistema funcionou porque era necessário. O comércio internacional, especialmente o energético, estruturou-se em torno do dólar norte-americano. Os excedentes comerciais estrangeiros eram reciclados em dívida norte-americana. Era um circuito fechado: os Estados Unidos importavam bens, exportavam dólares; os parceiros reinvestiam esses dólares em obrigações do Tesouro. A confiança sustentava o equilíbrio.

    Se quisermos compreender a profundidade desta arquitectura monetária, basta observar o que sucede quando mudamos a unidade de medida. O petróleo, a principal fonte de energia da economia mundial e o verdadeiro pilar do sistema de liquidação em dólares norte-americanos, quando medido em ouro, nunca esteve tão barato como hoje: apenas 0,42 gramas de ouro.

    Evolução do preço do Petróleo (WTI) entre Fevereiro de 1970 e Janeiro de 2026
    / Unidade: gramas de ouro por barril; Período: mensal; Cotação correspondente ao fecho do período
    / Fonte: Reuters

    O gráfico é inequívoco: em gramas de ouro por barril, o preço caiu cerca de 61% desde 1970. Isto significa algo simples, mas raramente dito: a energia não se tornou estruturalmente mais escassa ao longo destas décadas; pelo contrário, tornou-se relativamente mais abundante quando avaliada numa unidade monetária estável.

    A narrativa permanente de escassez energética, frequentemente usada para justificar a inflação estrutural e a intervenção política, dissolve-se quando se altera a régua. O que parece caro em dólares norte-americanos revela-se barato em ouro. Não é o petróleo que mudou; é a moeda que mede. Quando a unidade de conta perde poder de compra de forma persistente, o mundo parece mais caro do que realmente é.

    Evolução do valor do índice S&P 500 entre Fevereiro de 1970 e Janeiro de 2026
    / Unidade: gramas de ouro por índice; Período: mensal; Cotação correspondente ao fecho do período.
    / Fonte: Reuters

    Quando alargamos o olhar à medição do capital produtivo, o retrato torna-se ainda mais perturbador. A mesma distorção que afecta a energia afecta também a avaliação do sucesso empresarial. Em dólares norte-americanos, o índice S&P 500, o principal índice bolsista do mundo, parece uma história de prosperidade contínua, de inovação triunfante e de riqueza crescente.

    Porém, quando convertido em ouro – isto é, quando medido numa unidade monetária com força estável ao longo do tempo – o índice (desconsiderando dividendos) vale hoje cerca de 44% (44 gramas de ouro) menos do que valia em 1970 (79 gramas de ouro). O que isto significa é simples e profundo: a moeda deixou de medir correctamente os lucros e as perdas do sistema capitalista. A valorização nominal das bolsas é, em grande medida, reflexo da expansão monetária e da acumulação de dívida, não necessariamente da criação líquida de riqueza real.

    Quando a unidade de conta se degrada, os balanços parecem robustos, os lucros parecem estar em máximos, os índices parecem imparáveis – mas essa prosperidade pode ser, em parte, ilusão contabilística. Ao contrário do que frequentemente se afirma, este sistema fiduciário assente em dívida pública crescente não protege as classes médias, nem tão pouco as baixas; pelo contrário, acentua o confisco silencioso daqueles que não possuem activos reais e vivem de rendimentos fixos.

    Foto: D.R.

    Quem vive do salário e da poupança em moeda fiduciária é sistematicamente penalizado; quem possui activos reais e escassos tende a proteger-se. Se, ao longo de meio século, o principal índice accionista do mundo perdeu valor quando medido em ouro, isso sugere que o capital produtivo não tem sido remunerado acima da degradação monetária com a consistência que a narrativa oficial proclama.

    O mercado, silenciosamente, está a enviar um sinal: uma economia de mercado saudável exige uma moeda séria. Quando a dívida cresce sem limite e a inflação se torna estrutural, o sistema aproxima-se de um ponto de tensão. E talvez o que estamos a assistir não seja apenas volatilidade, mas o início de um ajuste histórico que redefine a própria régua com que medimos o sucesso.

    Mas dois acontecimentos recentes alteraram a percepção de risco: a expansão monetária massiva durante e após a putativa pandemia e o congelamento dos activos russos no contexto da guerra na Ucrânia. O segundo teve impacto simbólico profundo: reservas denominadas em dólares norte-americanos ou euros podem ser bloqueadas por decisão política. Para um Banco Central estrangeiro, essa possibilidade não é teórica; é estratégica. A gestão de reservas deixou de ser apenas questão de rendimento; passou a ser questão de soberania.

    black and silver door knob
    Foto: D.R.

    Os gráficos que acompanham este artigo são reveladores. O ouro em dólares norte-americanos apresenta um crescimento composto anual de cerca de 9,2% desde 1970. Não é euforia; é erosão monetária acumulada. O petróleo medido em gramas de ouro por barril caiu cerca de 61% no mesmo período. A energia não se tornou estruturalmente mais escassa; tornou-se aparentemente mais cara quando medida numa unidade que perde poder de compra.

    A prata, embora mais volátil, apresenta um crescimento composto anual próximo de 7% em dólares norte-americanos. É o preço da sua dupla natureza – monetária e industrial – mas a tendência acompanha a erosão do poder de compra da moeda fiduciária. Quando activos com elevada força monetária sobem ao longo de décadas, não é febre especulativa; é ajuste estrutural.

    A dívida pública norte-americana, ao crescer quase ao ritmo do ouro em dólares norte-americanos, revela uma coincidência inquietante: a expansão da dívida acompanha a depreciação da unidade de conta. Se a dívida cresce exponencialmente e a moeda perde poder de compra, o crescimento nominal pode mascarar a estagnação real.

    burned 100 US dollar banknotes
    Foto: D.R.

    E quando traduzimos essa expansão em termos físicos, a imagem torna-se ainda mais crua. Com a dívida pública norte-americana na ordem dos 38,7 biliões de dólares, e com o ouro a cotar em torno de 156 dólares norte-americanos por grama, seriam necessárias aproximadamente 247 mil toneladas de ouro para a liquidar integralmente.

    Ora, estima-se que toda a quantidade de ouro alguma vez extraída na história da humanidade ronde as 208 mil toneladas. Mesmo admitindo variações nas estimativas, a ordem de grandeza é inequívoca: o passivo do Estado norte-americano excede o inventário físico total de ouro existente acima do solo. Não se trata de retórica; trata-se de aritmética elementar.

    Desde o final da década de 1960, quando a administração norte-americana expandiu maciçamente a emissão monetária para financiar simultaneamente o Estado-Providência e a guerra do Vietname, a disciplina imposta pelo padrão-ouro tornou-se incompatível com a realidade política.

    American flag
    Foto: D.R.

    A ruptura formal de 1971 apenas oficializou um desequilíbrio que já era estrutural. Desde então, a estratégia tem sido recorrente: financiar défices persistentes através da criação monetária e da expansão da dívida, confiando que a procura global por dólares norte-americanos absorverá o excesso.

    O resultado é um sistema que se mantém funcional enquanto a confiança subsiste, mas cuja solvência, medida em termos reais, depende da contínua diluição da unidade de conta. Não é uma falência declarada; é uma falência diferida, administrada no tempo pela inflação e pela rotação da dívida. É precisamente essa diferença entre solvência nominal e solvência real que os metais preciosos ajudam a revelar.

    Nada disto significa que o dólar norte-americano esteja prestes a desaparecer do comércio internacional. A sua infraestrutura é vasta, a sua liquidez profunda. Os Estados Unidos continuam a ter os mercados de capitais mais líquidos do mundo. Mas significa que a sua função como reserva está sob reavaliação. A “desdolarização” não é o abandono da moeda nas transacções; é a sua substituição gradual como activo de reserva.

    red and white no smoking sign
    Foto: D.R.

    A queda de 30 de Janeiro foi técnica. A tendência de fundo é monetária. O ouro e a prata não são relíquias sentimentais; são instrumentos de cálculo intertemporal. Quando sobem persistentemente, o que está a subir não é apenas o metal; é a percepção de risco no sistema fiduciário.

    Os sistemas monetários raramente colapsam subitamente. Transformam-se. Ajustam-se. Reequilibram-se. O mercado não escreve editoriais; escreve preços. Os preços dos metais preciosos, confrontados com dívida, energia e capitais medidos na mesma unidade estável, contam uma história coerente. Não é uma história de pânico. É uma história de prudência. Quando a confiança na promessa diminui, a força monetária volta a ser o critério.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

  • Marques Mendes, o homem que chega sempre atrasado

    Marques Mendes, o homem que chega sempre atrasado


    Marques Mendes nem para porteiro da Sonae servia porque demorava demasiado tempo a explicar como se entra nas instalações”, disse Belmiro de Azevedo, num daqueles momentos raros em que a lucidez empresarial atravessa a cortina de fumo da política e acerta em cheio no alvo. Talvez nunca se tenha dito tanto, com tão poucas palavras, sobre Luís Marques Mendes.

    Não é apenas uma piada cruel; é uma definição ontológica. Mendes não é incompetente por azar, nem ineficaz por circunstância. É estruturalmente tardio, discursivamente prolixo e politicamente inútil. Chega sempre depois – do problema, da decisão, da coragem – e quando chega, traz consigo apenas palavras gastas, prudência postiça e um ar grave que pretende passar por sabedoria.

    O próprio o admitiu, com aquela falsa humildade ensaiada que tanto aprecia: dizia que chegava atrasado a quase tudo. Garantiu, porém, que isso era coisa do passado, que se corrigira com os anos, que agora era pontual como um relógio suíço. Bastaram minutos para a realidade o desmentir em directo, quando Guilherme Geirinhas o confrontou com o atraso no próprio programa onde se gabava da reforma moral. Não é um detalhe; é um símbolo. Marques Mendes mente sem necessidade, mente por reflexo, mente para manter a pose. Não é um mentiroso engenhoso; é um mentiroso irresponsável, daqueles que acreditam que a gravidade da voz substitui a verdade do conteúdo.

    Mas o atraso crónico de Marques Mendes não é apenas físico; é sobretudo intelectual. Sempre chegou atrasado aos acontecimentos, às crises, às evidências. Quando o país caminhava alegremente para o colapso bancário, lá estava ele, na sua homilia dominical, a garantir que o Banco Espírito Santo estava sólido, seguro, confiável, digno da fé dos depositantes. “O banco está bem”, dizia. “Não há perigo nenhum para as pessoas.” “Isto dá confiança.” Poucos dias depois, o BES colapsava de forma retumbante, levando consigo poupanças, vidas e ilusões.

    Perante isto, há apenas duas hipóteses: ou Marques Mendes não tem a mínima ideia do que diz – hipótese generosa – ou sabia e mentiu com a tranquilidade de quem nunca paga pelos erros. Quando mais tarde afirmou que “as pessoas têm razão para se indignar”, completou o retrato: primeiro engana, depois solidariza-se com os burlados. É a ética do comentador profissional.

    Este padrão repetiu-se, com requintes de perversidade, durante a suposta pandemia. Não há memória recente de Marques Mendes a questionar o vírus invisível, as variantes imaginárias ou o pânico fabricado. Pelo contrário, aplaudiu com entusiasmo o esmagamento das liberdades fundamentais, elogiou a actuação do Partido Socialista, então liderado por Costa, do Capitão Iglo, e apresentou-se como catequista da obediência sanitária.

    As vacinas, dizia, “fizeram milagres”. Milagres! Uma substância experimental, concebida em poucos meses, autorizada de forma excepcional, com ensaios clínicos apressados e resultados discutíveis, elevada por Marques Mendes à categoria de intervenção divina. Quer ser Presidente da República, mas não teve um único sobressalto constitucional quando direitos foram suspensos, pessoas confinadas sem mandado judicial e pessoas segregadas por decreto administrativo. A Constituição, tal como para os demais candidatos, é decorativa: serve para ser citada em tempos normais e ignorada em tempos de medo.

    Há, contudo, um domínio onde Marques Mendes revela um génio indiscutível: os negócios. Em apenas dois anos, encaixou cerca de 709 mil euros, sem que ninguém consiga explicar exactamente a fazer o quê. Não o vimos nos tribunais, não o vimos a defender causas, não o vimos a produzir valor identificável. O que faz? Facilita. É o que agora se chama um “facilitador de negócios”, essa figura etérea que vive da agenda de contactos, do telefonema oportuno, do almoço certo no dia certo.

    Numa sociedade verdadeiramente livre, personagens destas desapareceriam por inanição. Mas num Estado obeso, regulado, licenciado e capturado, são essenciais. Marques Mendes não vive apesar do sistema; vive do sistema há décadas.

    O episódio dos líbios tratados em Portugal – desde que não viessem mortos, mas apenas “tortos” – é mais uma janela para esta ética pantanosa. Escutas, pedidos, favores, humanitarismo selectivo temperado com pragmatismo político. Nada que surpreenda. É o seu “humanismo”, praticado à distância, onde vidas humanas são abstracções logísticas e a moral se ajusta à conveniência do momento. Tudo envolto naquela gravidade solene que Marques Mendes usa como escudo contra qualquer escrutínio sério.

    Quando finalmente se aproxima do terreno das propostas, a indigência torna-se embaraçosa. A ideia de resolver o problema dos jovens colocando um “jovem” no Conselho de Estado é talvez o ponto alto da sua vacuidade intelectual. É como tentar resolver a crise da habitação convidando um sem-abrigo para um painel de debate.

    Esta gente acredita genuinamente que a representação simbólica substitui soluções reais. Nunca trabalharam fora do circuito estatal, nunca criaram riqueza em ambiente competitivo, nunca enfrentaram o risco. Sabem, isso sim, pedir mais intervenção, mais conselhos, mais comissões, mais regulações – tudo o que os torna indispensáveis e bem pagos. Sem o Estado, seriam autênticos zeros à esquerda.

    Na política externa, Marques Mendes não surpreende. Sobre a Ucrânia, repete o catecismo globalista com a disciplina de um aluno aplicado: qualquer plano de paz que não humilhe completamente o agressor “parece escrito em Moscovo”. Sem originalidade, sem reflexão estratégica, sem consideração pelos custos humanos e económicos. Assinaria qualquer medida desde que viesse carimbada pelos círculos certos e abrisse caminho a mais um jantar, mais uma conferência, mais um telefonema, mais um negócio. Venderia o país com um sorriso patriótico, convencido de que está a fazer História, quando na verdade apenas faz carreira e ajuda o seu bolso.

    É aqui que tudo se fecha. Luís Marques Mendes não é perigoso por excesso de convicção; é perigoso pela total ausência de pensamento próprio. Não cria, não arrisca, não rompe. Limita-se a comentar, a validar, a explicar – sempre tarde demais – como se entra nas instalações do poder. É a nulidade elevada a método, a vacuidade transformada em profissão.

    Quer ser Presidente da República não para defender a Constituição, mas para a citar em tom grave; não para travar abusos, mas para os normalizar; não para representar o país, mas para continuar a existir dentro do circuito fechado que sempre o alimentou prodigiosamente.

    Em conclusão, Luís Marques Mendes é uma nulidade bem vestida, um comentador que confundiu tempo de antena com estatuto, prudência com sabedoria e sobrevivência com mérito. Nunca esteve certo quando importava, nunca se calou quando devia e nunca falou quando era preciso coragem. Chega sempre depois. Quando chega, já nada resta.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

  • André Ventura, populista e socialista quando conveniente

    André Ventura, populista e socialista quando conveniente


    Chega quer internamento compulsivo em casos de infecção do Covid-19”, anunciava o Jornal de Notícias em 4 de Março de 2020, no início da (putativa) pandemia, com o entusiasmo de quem relata uma boa ideia! A proposta vinha assinada por André Ventura, o autoproclamado paladino da “liberdade”, então deputado único do Chega, esse mesmo que viria mais tarde brandir a Constituição como se fosse uma relíquia sagrada sempre que lhe convinha.

    Naquele momento inaugural, porém, a Constituição era apenas um incómodo técnico a contornar. Para salvar o país – sempre em nome do povo, essa entidade abstracta que nunca assina nada – Ventura propunha alterar o artigo 27.º da Lei Fundamental, de modo a permitir o internamento compulsivo de cidadãos, saudáveis ou não, culpados ou não, apenas por suspeita sanitária. Prisão sem crime, sem acusação, sem julgamento e sem juiz; ou seja, fascismo sanitário.

    O detalhe delicioso, é que Ventura se esqueceu de ler até ao fim. O artigo 288.º da Constituição da República estabelece os limites materiais da revisão constitucional; entre esses limites estão precisamente os direitos, liberdades e garantias, que não podem ser revistos, nem numa falsa pandemia, nem em pânico, nem para agradar a turbas histéricas.

    Ventura, professor de Direito, ignorava isto? Não. Fingiu ignorar. Porque o autoritário não precisa de razão; precisa de aplauso. Para cartão-de-visita de um candidato à Presidência da República, fica desde logo definido o perfil: um homem que, perante o medo, escolhe sempre o Estado; perante o indivíduo, escolhe sempre a força; perante a Constituição, escolhe sempre a conveniência. Começar melhor era difícil.

    Depois veio aquilo que Ventura faz melhor: escolher um inimigo identificável, palpável, suficientemente minoritário para não se defender e suficientemente visível para ser explorado. Os ciganos. Quando declarou que “só 15% dos ciganos vivem do seu trabalho”, Ventura não estava a produzir sociologia, nem estatística, nem sequer opinião estruturada.

    Estava a lançar uma suspeita colectiva, esse veneno antigo que sempre precede o arbítrio. A frase, na sua lógica implícita, é cristalina: se 15% trabalham, os restantes 85% são suspeitos, parasitas, vigaristas ou criminosos em potência. O que exactamente fazem os 85%? Vivem de subsídios? De crime? De magia? Ventura não explica. Não precisa. O método do populista é este: insinuar, deixar o ódio completar a frase.

    Esta é uma técnica velha como os regimes totalitários que Ventura diz detestar. O inimigo pode ser invisível – um vírus, um “sistema”, um russo, um especulador – ou pode ser um grupo humano inteiro, reduzido a caricatura. O indivíduo desaparece; surge a categoria. O João e o Pedro deixam de existir; passa a existir “o cigano”. Mas crimes são cometidos por pessoas concretas, com nome, rosto e responsabilidade penal. A culpa colectiva é sempre o prelúdio da tirania e da injustiça. Ventura sabe-o; escolhe ignorá-lo porque lhe rende votos. Não combate o crime; combate abstracções étnicas. É mais fácil, mais ruidoso e dá votos.

    Curiosamente, há um domínio onde Ventura toca num problema real: a imigração descontrolada. O país está de facto a ser inundado por imigrantes de terceiro mundo que não resultam de uma escolha livre do mercado, mas de engenharia política e subsídio estatal.

    Aqui, Ventura identifica correctamente o problema. Mas perde imediatamente qualquer razão quando se recusa a atacar a causa estrutural: o Estado Social. No século XIX, quem chegava aos Estados Unidos não tinha nada à espera. Nem escola gratuita, nem hospital gratuito, nem subsídio, nem tribunal gratuito. Trabalhava ou partia. Era brutal? Talvez. Mas era honesto.

    No Portugal moderno, ergueu-se um sistema obsceno: empresários ávidos exploram mão-de-obra barata importada de culturas nos antípodas da nossa, vinda do terceiro mundo, pagando salários de miséria, enquanto o Estado – com dinheiro roubado aos contribuintes líquidos – se encarrega de completar o resto, distribuindo subsídios, serviços “gratuitos” e promessas vazias. Cria-se assim um incentivo artificial à imigração em massa, não para produzir riqueza, mas para sustentar um modelo falido.

    O resultado é visível a olho nu e dispensa estatísticas: salas de aula onde vinte nacionalidades disputam atenção sem língua comum, urgências hospitalares onde a espera se medem em dezenas de horas, repartições públicas paralisadas pela sobrelotação e uma habitação tornada inacessível para quem aqui nasceu, trabalhou e pagou.

    Ventura explora o desespero legítimo de quem vive isto. Mas não oferece qualquer solução. Não propõe acabar com o Estado Social, que é o íman que atrai esta massa humana e a fonte do colapso. Pelo contrário: quer preservá-lo, reforçá-lo, blindá-lo. O seu projecto não é de direita, não é liberal, nem tão pouco conservador; é socialista. Uma fortaleza estatista onde os de dentro continuam a ser espoliados para sustentar o sistema, enquanto se grita contra os de fora.

    Como bom socialista, Ventura não resiste à tentação de comprar votos com promessas economicamente impossíveis. Quando propôs elevar o salário mínimo para 1.150 euros até 2029, não explicou de onde viria o dinheiro. Não podia. Não há poupança, não há fundo, não há capital acumulado. Há apenas pagadores líquidos de impostos, cada vez menos, espremidos até ao osso para sustentar promessas eleitorais. É exactamente o método dos dois partidos socialistas do actual regime, esses que Ventura diz combater mas imita com entusiasmo. A política transforma-se num leilão obsceno: vence quem prometer o maior saque à minoria produtiva. Ventura entrou no jogo; aparentemente, irá ganhar.

    Na prática, Ventura utiliza as mesmas armas do regime que diz detestar. Nunca fala em cortes brutais na despesa pública. Nunca fala em extinguir ministérios inúteis. Nunca fala em despedir milhares de funcionários públicos. Nunca fala em eliminar subsídios, fundações, observatórios, institutos e clientelas. Promete apenas redistribuir melhor o saque. A equação é simples e falsa: não roubar mais, mas dar mais. É a promessa clássica do charlatão político.

    Quando chega a hora da verdade, o instinto estatista revela-se sem pudor. Ventura votou contra a privatização da TAP, alinhado com o Bloco de Esquerda e demais socialistas, preferindo manter uma empresa falida, com prejuízos crónicos e salários principescos, paga pelo empregado do café e pelo pequeno empresário. O patriotismo acaba onde começa a folha salarial.

    Ventura gosta de posar como defensor dos “portugueses que trabalham”. Mas acha natural que uma companhia aérea que perde dinheiro há décadas seja sustentada por impostos. É o socialismo clássico: prejuízos socializados, lucros privados, responsabilidade inexistente. Não é erro; é convicção. Ventura não quer um Estado pequeno; quer um Estado musculado que funcione ao seu serviço.

    No plano internacional, a incoerência é ainda mais evidente. Ventura proclama fidelidade eterna à NATO, mas recusa o envio de tropas portuguesas para a Ucrânia para agradar ao público doméstico, sabendo perfeitamente que, no quadro das alianças militares, Portugal não decide sozinho. É teatro. Promete o impossível e nega o inevitável. Ao mesmo tempo, chama “bandido” a Putin, mas aplaude outros tiranos, ditadores e criminosos de guerra quando isso lhe rende aplauso interno. Condena uns, absolve outros, sempre com o mesmo critério: utilidade política. A moral é acessória; o voto é central.

    Ventura diz combater o sistema, mas vive dele. Denuncia a corrupção, mas defende o Estado que a produz. Ataca os “subsidiodependentes”, mas preserva o sistema de subsídios. Critica o socialismo, mas pratica-o com outro vocabulário. É, no fundo, o herdeiro natural do regime: mais barulhento, mais agressivo, mais histriónico, mas estruturalmente idêntico. Onde o PS fala de justiça social, Ventura fala de ordem. Onde o PSD fala de responsabilidade, Ventura fala de punição. Mas o Estado permanece intacto. O saque continua. A despesa cresce. A liberdade encolhe.

    Em conclusão, André Ventura não é uma ruptura. É uma mutação. No único tema onde tem razão – a bandalheira da imigração – recusa atacar a raiz do problema: o Estado Social, essa máquina insaciável que precisa de mais gente, mais impostos e mais dependência para sobreviver. É por isso que os dois partidos socialistas necessitam de imigração em massa: para alimentar um esquema falido. Ventura não desmonta o esquema; promete geri-lo com mais ruído. Sobre reduzir drasticamente a despesa pública, o seu silêncio é absoluto. No fundo, Ventura pratica a velha táctica populista: agradar sempre, prometer tudo, participar no saque.

    Não é o anti-sistema. É o sistema em versão gritante. Ventura não é a alternativa ao socialismo. Ventura é o socialismo que nos arruína há mais de 50 anos.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

  • António José Seguro, o sonso do regime

    António José Seguro, o sonso do regime


    “Deslealdade e traição…isto não se faz; não foste solidário com o teu partido, nem com o líder do partido.” Assim falou António José Seguro de António Costa em 2014, num daqueles momentos em que o Partido Socialista resolveu devorar-se a si próprio, como é seu hábito, antes de voltar a sentar-se à mesa do poder com o Segundo Partido Socialista, também conhecido por PSD.

    A frase ficou célebre não pelo conteúdo, mas pelo carácter involuntariamente autobiográfico. Porque poucos políticos portugueses encarnam tão bem a deslealdade mansa, a traição higienizada e a ambição sem risco como António José Seguro – o homem que nunca afronta, nunca rompe, nunca decide, mas que aparece sempre quando o cheiro do poder se torna mais intenso.

    Seguro surge agora como candidato presidencial com o ar beatífico, de quem nunca sujou as mãos porque nunca fez nada que exigisse coragem. Ele é o produto acabado de mais cinquenta anos de regime: um político moldado na espuma morna do consenso, onde ninguém é responsável por coisa alguma e todos falam em nome de valores abstractos.

    Senão vejamos: temos mais um devoto da sucessora da defunta União Soviética, a União Europeia, apresentada como espaço natural da soberania portuguesa. Seguro defende a continuação de Portugal na UE e na zona euro com o fervor de quem defende um dogma religioso. Não há reservas, não há dúvidas, não há reflexão. O euro é vital, Bruxelas é vital, o BCE é vital. Vital para quem?

    Não para a classe média, certamente, que vê salários e poupanças destruídos pela inflação do cartel bancário liderado pelo BCE, enquanto os detentores de activos enriquecem obscenamente. É o socialismo reinventado: em vez de todos pobres e miseráveis, temos uma aristocracia financeira e uma plebe assaltada por impostos e inflação.

    E porque todo o bom “europeu” precisa de bons aliados internos, Seguro não escondeu a sua alegria em convergir em tempos com os comunistas trotskistas do Bloco de Esquerda. Há “espaços de diálogo”, diz, designadamente em matérias sociais e europeias. Traduzindo: há espaço para mais Estado, mais redistribuição coerciva e mais integração supranacional.

    Quando tenta pensar o país, a indigência intelectual torna-se quase embaraçosa. Um pacto para a saúde. Um pacto. Como se o Serviço Nacional de Saúde, esse monumento soviético à ineficiência, falhasse por falta de abraços interpartidários. Um sistema sem preços, sem pagamentos voluntários, financiado por impostos arrancados coercivamente à população, há-de funcionar se os partidos e as corporações do sector fizerem as pazes e prometerem portar-se bem. É a economia tratada como um jardim-de-infância, onde o problema nunca é estrutural, mas comportamental. O menino SNS só precisa de carinho e mais dinheiro roubado aos mesmos de sempre.

    Seguro revela-se também um entusiasta da planificação económica em nome da “defesa da Europa”. Acha que a Europa não pode estar sempre a ceder, defende medidas retaliatórias, tarifas e restrições ao comércio, como se os consumidores não pagassem sempre a conta. É o socialismo proteccionista: combate-se a liberdade de troca em nome de uma soberania que já não existe. Para Seguro, a tirana Ursula von der Leyen é uma espécie de espadachim de opereta, enfrentando Trump, enquanto destrói silenciosamente a competitividade europeia. Seguro aplaude, porque planear é sempre mais nobre do que deixar as pessoas escolher livremente.

    Globalista por formação e por instinto, Seguro não caiu de pára-quedas na Europa. Foi eurodeputado, participou em relatórios sobre o Tratado de Nice e sobre o futuro da União. Viveu dentro da máquina. O projecto europeu não é para ele um debate; é um ambiente. Por isso nunca o questiona. Nunca discute a centralização de poder, nunca problematiza a erosão democrática, nunca levanta a questão da soberania. Para Seguro, a União Europeia é como o ar: respira-se, não se interroga.

    Durante a putativa pandemia, esse instinto autoritário floresceu sem constrangimentos. Seguro defendeu confinamentos, restrições, obediência cega às autoridades de saúde e suspensão prática de direitos fundamentais. Apoiou prisões domiciliárias sem mandado, acusação ou julgamento.

    Legitimou a eliminação do consentimento informado, a segregação de cidadãos com base no estado sanitário, a exclusão social dos que recusaram inocular-se com uma substância experimental. Para alguém que se diz defensor da Constituição, revelou-se mais um para quem a Lei Fundamental é papel decorativo em tempos de medo. “Direitos, liberdades e garantias” são para tempos normais; em emergência, manda o Estado.

    A agenda verde encaixa-se perfeitamente neste perfil. Seguro nunca a criticou, nunca falou dos custos económicos, nunca se preocupou com a destruição da indústria europeia provocada pelo encarecimento da energia. Pelo contrário, promove reuniões com especialistas do clima, fala de gerações futuras e abraça a transição energética como se fosse um imperativo moral absoluto. Que a classe média seja esmagada, que empregos desapareçam, que a indústria se desloque – tudo isso é secundário face à virtude abstracta. Ambientalismo de Estado, sem cálculo económico, sem debate democrático, sem legitimidade popular.

    Os apoios que recolhe são elucidativos. Pedro Nuno Santos, o homem que ajudou a enterrar 3,2 mil milhões de euros na bancarroteira nacional, mais conhecida por TAP, surge a apoiá-lo com entusiasmo. O regime reconhece os seus. O cheiro do poder atrai sempre os mesmos, sobretudo aqueles que já demonstraram talento para gastar o dinheiro que roubam aos outros com total impunidade.

    Já em relação aos apoios que dá, como todo o homem do regime reconhece instintivamente os seus, António José Seguro não hesitou em sair em defesa de José Sócrates, o célebre engenheiro dos computadores Magalhães, num vídeo que voltou a circular oportunamente antes de eleições e que o verificador de factos apressou-se a contextualizar como sendo “de outros tempos”, como se a desonra tivesse prazo de validade.

    Seguro falou então de injustiça, de presunção de inocência e de perseguição, esquecendo-se apenas de mencionar, pela mão da mãe do engenheiro, a herança milagrosa de um milhão de contos guardado num cofre, os amigos oportunos, os testas-de-ferro distraídos e o pequeno detalhe de o protegido andar há semanas sem advogado, sinal inequívoco de quem confia serenamente na própria inocência.

    O gesto não surpreende: Seguro sempre teve este instinto maternal para com figuras caídas do regime, desde que caiam dentro do mesmo círculo. Não é solidariedade humana; é solidariedade de casta. Quando o Estado falha, quando a justiça hesita e quando a vergonha devia impor silêncio, Seguro surge – grave, compungido e institucional – para lembrar que, no socialismo português, ninguém é realmente culpado enquanto tiver utilidade política ou cartão partidário.

    No plano internacional, Seguro não falha: a NATO é essencial, repete. Os bombardeamentos de Belgrado em 1999, sem mandato da ONU, não lhe causam incómodo. A guerra na Ucrânia exige sacrifícios, diz. Sacrifícios de quem? Nunca esclarece. Certamente não dele. Os filhos dos outros servem sempre melhor para morrer em nome da democracia abstracta. Se a convicção fosse genuína, talvez já tivesse partido para a frente de combate. Mas a coragem de Seguro é sempre delegável.

    Em conclusão, António José Seguro é a personificação do “choninhas” institucional: aquele rapaz da escola que não fazia mal a uma mosca, mas denunciava todos ao professor, o verdadeiro “queixinhas”.

    Nunca levanta a voz, nunca rompe o consenso, nunca desafia o poder – limita-se a aplaudir, com ar sério e grave, enquanto direitos são atropelados, a riqueza é destruída e o país se afunda numa mediocridade gerida. Seguro não é perigoso por excesso de convicção; é perigoso pela ausência dela. É o homem perfeito para presidir à decadência do regime, sorrindo, pedindo pactos e garantindo que tudo está a ser feito em nome do “bem comum”.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

  • Gouveia e Melo, o ‘capitão iglo’ catapultado por uma vacina

    Gouveia e Melo, o ‘capitão iglo’ catapultado por uma vacina


    Se isso acontecer, dêem-me uma corda para me enforcar.” A frase dita em Outubro de 2021 ficou célebre e deveria ter ficado definitiva. Foi dita com a leveza de quem acredita que certas portas jamais se abrem, sobretudo quando dão para o pântano da política.

    Surpreende, pois, que ninguém tenha ainda aparecido com a prometida corda, agora que o mesmo homem surge, de peito feito, como candidato presidencial. A política, como se sabe, tem o condão de transformar juramentos em notas de rodapé e a vergonha em simples detalhe biográfico. A corda ficou esquecida, talvez porque em Portugal a memória é curta e a contradição raramente cobra juros.

    Gouveia e Melo foi coordenador da task force da vacinação contra a covid-19 durante nove meses de 2021.

    Henrique Gouveia e Melo não chegou à ribalta como político, mas como comandante de uma guerra improvável. A putativa pandemia foi elevada a campanha militar, o vírus transformado em inimigo externo e invisível, e o país mobilizado como se se tratasse de uma invasão estrangeira. “Nós já ganhámos a este vírus”, proclamou o então vice-almirante em Setembro de 2021, com a solenidade de quem anuncia a queda de uma capital inimiga. A vitória, claro, foi simbólica: o vírus nunca assinou a necessária rendição, nunca depôs armas, nunca pediu tréguas. Mas a metáfora serviu. O povo gosta de generais, sobretudo quando não há tiros nem trincheiras, apenas conferências de imprensa e gráficos coloridos.

    Nesse teatro marcial, Gouveia e Melo foi apresentado como líder providencial, homem de pulso firme, disciplinador de massas, capaz de pôr ordem no caos com o simples franzir do sobrolho. A logística virou epopeia, a obediência cívica virou virtude suprema e a dúvida passou a ser tratada como deserção. Portugal, país de brandos costumes, descobriu subitamente que gostava de quartel, desde que o quartel viesse com sorrisos televisivos e promessas de salvação colectiva.

    A guerra, porém, tem sempre danos colaterais. Houve o episódio pouco edificante em que o Almirante deu uma mãozinha ao antigo bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães (hoje deputado do PSD) para vacinar médicos não prioritários, num exercício de cunha que, em tempos normais, teria suscitado escândalo. E usando o Hospital das Forças Armadas, instituição onde, por coincidência, Gouveia e Melo exercia então funções como adjunto do planeamento do Chefe do Estado-Maior-General. Mas a guerra tudo (talvez) desculpa. Em nome do bem maior, as regras tornam-se elásticas, os critérios dissolvem-se e a ética entra em confinamento. A autoridade moral cresce na razão directa da urgência declarada.

    Mais grave foi o caso do NRP Mondego. Homens foram mandados navegar um navio sem condições de segurança, recusaram fazê-lo e acabaram castigados exemplarmente. A justiça, essa entidade teimosa que insiste em estragar narrativas heróicas, veio depois arrasar os processos disciplinares.

    O Supremo Tribunal Administrativo descreveu um cenário digno de um manual do que não fazer: instrutor legalmente impedido, provas recusadas, direitos de defesa ignorados, garantias constitucionais tratadas como incómodos burocráticos. O Almirante, tão zeloso da disciplina, revelou uma curiosa indiferença pelos direitos dos subordinados quando estes ousaram dizer não.

    A autoridade foi exercida nua e crua, sem contraditório, sem prudência, sem humanidade. Um belo cartão-de-visita para quem aspira a Chefe de Estado – depois do actual inquilino, a fasquia também pouco se eleva do subsolo.

    No capítulo pedagógico da sua cruzada sanitária, houve também episódios de uma criatividade duvidosa. Centros de vacinação com DJs, música ambiente e animação infantil, enquanto crianças eram inoculadas com uma substância experimental. A cena tinha algo de surreal: uma festa para distrair menores enquanto se praticava um acto médico irreversível. A crítica foi desqualificada como histeria, a prudência confundida com ignorância e o consentimento informado reduzido a formalidade. O Almirante parecia satisfeito: a alegria artificial servia de anestesia moral.

    Quando, mais tarde, se tentou perceber que ideias políticas sustentavam tão zelosa autoridade, o vazio tornou-se ensurdecedor. “Situo-me politicamente entre o socialismo e a social-democracia”, declarou, como quem resolve um dilema metafísico de escolha entre duas sombras. É uma afirmação que não compromete, não esclarece e não arrisca. Um pensamento tão profundo quanto uma poça de água depois da chuva. Dizer isto em pleno século XXI é confessar que não se pensa, apenas se flutua.

    No plano internacional, Gouveia e Melo revela-se um entusiasta da NATO, com um fervor quase juvenil. “Se a Europa for atacada e a NATO nos exigir, vamos morrer onde tivermos de morrer para a defender.” A frase soa nobre, mas convém perguntar: quem é esse “nós”?

    A experiência ensina que raramente inclui quem a profere. É sempre reconfortante ouvir apelos ao sacrifício supremo vindos de quem não tenciona sacrificar nada além de palavras. Já que o Almirante aprecia tanto a retórica da morte heróica, propõe-se-lhe uma viagem, apenas de ida, ao centro de recrutamento de Boryspil, na Ucrânia. Que leve filhos, sobrinhos e familiares, dê o exemplo e mostre a sua liderança no terreno. Depois da vitória sobre o vírus, talvez vejamos também os russos a fugir em debandada perante tão formidável presença.

    Apesar de se apresentar como um homem acima da política, imaculado e puro, Gouveia e Melo escolheu cuidadosamente os seus apoios. Entre eles contam-se Isaltino Morais, ex-presidiário, e Rui Rio, figura central do coro pandémico que pedia mais centros de vacinação e mais coragem para apertar as medidas. Sobre prisões sem julgamento, mandado ou acusação, o silêncio foi absoluto. Sobre a segregação de cidadãos que recusaram inoculações experimentais, nada disseram. A coragem moral foi sempre selectiva, aplicada apenas onde não havia custo pessoal.

    Quanto à União Europeia, essa herdeira tardia da defunta União Soviética, o Almirante mantém um silêncio eloquente. Não questiona a arquitectura, não discute a centralização, não problematiza a perda de soberania. O silêncio, aqui, não é neutralidade: é cumplicidade. Gouveia e Melo é um globalista por omissão, federalista por inércia, europeu por falta de pensamento próprio. Aceita o sistema como quem aceita o clima: algo que existe e não se discute.

    Resta, por fim, a nota quase caricatural da sua aparência. A semelhança física com o Capitão Iglo, mascote dos douradinhos congelados, é difícil de ignorar. Talvez seja injusto para o marinheiro dos congelados, que ao menos nunca fingiu ser estadista nem prometeu salvação nacional. Um vende peixe empanado; o “nosso Capitão Iglo” manda-nos morrer onde tivermos de morrer.

    No conjunto, Henrique Gouveia e Melo não surge como estadista, nem como pensador, mas como produto mediático de uma suposta pandemia, inflado por metáforas militares, sustentado por silêncios convenientes e rodeado por apoios que dizem tudo sobre a sua verdadeira natureza. A corda continua por entregar. Talvez porque, na política portuguesa, a memória é curta, o sarcasmo seja raro e a honra um luxo antiquado.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

  • Cotrim de Figueiredo, o globalista

    Cotrim de Figueiredo, o globalista


    João Cotrim de Figueiredo surge nas presidenciais com o ar de quem traz novidades, mas há novidades que chegam já cansadas, como cartas reenviadas demasiadas vezes. Fala-se de mudança, de ruptura, de “liberalismo” moderno, mas basta escutar-lhe a voz sem o eco da propaganda para perceber que nada ali se move fora do perímetro autorizado.

    Não sopra vento; circula ar reciclado. É o ar de Bruxelas, esse bafio morno feito de regulamentos, sanções, relatórios de impacto, comissões de peritos e uma convicção inabalável de que os povos são incapazes de se governar sem tutela tecnocrática. Cotrim não representa uma alternativa ao sistema europeu: é a sua versão educada, sorridente e bem-falante.

    O “liberal” português encaixa-se com perfeição na engrenagem da União Europeia, essa entidade que herdou da União Soviética não as frases feitas, mas a alma: centralização, planeamento central, moralismo oficial e a certeza absoluta de que há uma direcção correcta da História, definida por comissários que nunca responderam perante qualquer eleitor.

    A diferença é estética. Onde Moscovo usava tanques, Bruxelas usa directivas; onde o Politburo falava em planos quinquenais, a Comissão fala em metas climáticas; onde antes se confiscava em nome do proletariado, confisca-se agora em nome dos valores europeus.

    Quando Cotrim afirma que o impasse na Ucrânia demonstra “falta de testosterona dos líderes europeus”, oferece-nos um raro momento de franqueza involuntária. A metáfora, musculada e viril, pede coerência. Se o problema é falta de testosterona, talvez o candidato devesse começar por dar o exemplo.

    Aparentemente segue saudável, disponível e em idade funcional. A frente de guerra carece de homens. Pode levar filhos, sobrinhos e familiares, pois a Ucrânia necessita urgentemente de corpos para alimentar a trituradora. O “liberal” apoia incondicionalmente a guerra por procuração dos EUA, essa forma moderna de heroísmo em que se morre longe enquanto se discursam princípios virtuosos, como a democracia e a liberdade.

    Não satisfeito com a retórica guerreira, Cotrim defende ainda o confisco de bens russos. Pouco importa que grande parte desse património pertença a privados russos que nada decidiram, nada votaram e nada bombardearam. Para um “liberal”, violar a propriedade privada de terceiros em nome de uma causa colectiva seria, em tempos, heresia. Hoje é virtude. O “liberalismo” de Cotrim parece ter descoberto que a propriedade é sagrada apenas até à fronteira errada.

    A elasticidade moral reaparece na economia. As sanções à Rússia são apresentadas como actos nobres e necessários, apesar de não serem mais do que a suspensão coerciva de trocas voluntárias entre indivíduos pacíficos. Um português e um russo que ontem comerciavam livremente passam hoje a infractores por ordem administrativa.

    A liberdade económica, afinal, é um luxo revogável para o “liberal”. Já quando Donald Trump aplica tarifas – uma forma menos intrusiva de intervenção – Cotrim protesta com fervor. A diferença não está no princípio, mas na bandeira. A liberdade é boa quando convém; quando não convém, chama-se geopolítica.

    No entusiasmo europeu, Cotrim critica quem condiciona a entrada da Ucrânia na União Europeia a impostos ou a orçamentos. O projecto europeu é demasiado “nobre” para ser travado por detalhes financeiros. Pouco importa que a Ucrânia figure entre os países mais corruptos do mundo. Talvez não esteja mal pensado: mais uma organização criminosa a juntar-se ao Cartel. A União Europeia, que se diz uma união de valores, tem um talento singular para confundir virtude com adesão.

    A veneração pela NATO segue o mesmo padrão selectivo. O bombardeamento da Sérvia em 1999, sem mandato da ONU, não provoca qualquer incómodo ao defensor do “direito internacional”. A ocupação do norte do Chipre pela Turquia passa despercebida. O rapto de líderes soberanos deixa de ser crime quando a geografia é favorável e o subsolo estratégico. O partido que sustenta Cotrim chegou mesmo a celebrar tais violações com entusiasmo. O “direito internacional”, percebe-se, não é direito: é cartografia e geologia.

    No domínio moral, o “liberal” Cotrim revela-se exemplarmente alinhado com o espírito do tempo. Defende a legislação actual do aborto e opõe-se a “retrocessos”. Impedir um crime passa a ser regressão histórica. Nada mais moderno. A vida humana, enquanto projecto em gestação, vale menos do que a coerência ideológica. O respeito pela vida termina no útero, onde o Estado exerce soberania absoluta e a consciência individual é substituída por protocolos.

    a close up of a bunch of bullet casings

    Na imigração, Cotrim adopta a mesma benevolência abstracta que a Comissão Europeia. Portas abertas, discursos comovidos e Estado social intacto. Um liberal clássico defenderia a imigração para a América do século XIX, onde não havia subsídios nem garantias universais.

    Cotrim prefere o modelo europeu: importação maciça de mão-de-obra barata, proveniente do terceiro mundo, empresários locais a esmagar salários com a bênção moral do humanitarismo e a anunciar, com sorriso virtuoso, que a escola é grátis, o hospital é grátis, os tribunais são grátis e as estradas são grátis. A factura recai sobre os contribuintes portugueses – mais conhecidos por assaltados pelo estado –, que colocam os filhos em turmas com trinta nacionalidades e aguardam horas por uma urgência hospitalar. Cotrim, naturalmente, não espera. Vai ao privado.

    Resta a sua obra-prima intelectual: a agenda verde, apresentada sob a forma mais requintada de maionese política. Não a rejeita, mas critica a execução. Aceita o objectivo, mas pede transições. Reconhece custos, mas exige compensações. Aceita, portanto, todas as premissas essenciais: que o objectivo é legítimo, que o Estado pode definir trajectórias tecnológicas, que destruir a competitividade das empresas é aceitável e que empobrecer a classe média é um preço moralmente nobre. Quem aceita isto já perdeu a discussão.

    people holding flag of U.S.A miniature

    Se a agenda verde encarece energia, deslocaliza indústria e empobrece sociedades, então não é um problema de execução. É um problema de desenho. Não existe boa implementação de planeamento central energético com metas políticas e prazos arbitrários. Isso chama-se economia administrada. As transições suaves traduzem-se em subsídios pagos pelos contribuintes, impostos novos, dívida verde e transferência de rendimentos para sectores protegidos. Mais Estado para corrigir o Estado. Exactamente a lógica europeia.

    No fim, a conclusão impõe-se com a serenidade das evidências. João Cotrim de Figueiredo não é uma lufada de ar fresco. É apenas o bafio globalista e socialista, polido, educado e embalado em retórica liberal. Um homem perfeitamente integrado no sistema que diz querer mudar. Nada de novo.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

  • Venezuela: quem se mete com o dólar, leva!

    Venezuela: quem se mete com o dólar, leva!


    No passado sábado, na Venezuela, consumou-se mais um acto solene do teatro imperial contemporâneo. Os Estados Unidos lançaram uma operação militar de grande envergadura, com bombardeamentos sobre Caracas e outras zonas sensíveis do território, culminando na captura do presidente Nicolás Maduro e da sua esposa, conduzidos a solo norte-americano para enfrentarem acusações criminais.

    O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou, sem rodeios nem pudor, que o país seria “gerido temporariamente” por Washington. A linguagem é reveladora: não se fala de soberania, nem de autodeterminação, nem sequer de transição negociada. Fala-se de administração, como se um país fosse uma massa falida, um condomínio mal gerido, uma colónia regressada ao seu tutor natural.

    Vintage gas pumps on a deserted seashore with a clear sky and ocean view.

    Perante este quadro, impõe-se a pergunta elementar, aquela que precede todas as outras e que raramente é respondida com honestidade: para que serviu esta intervenção?

    Uns dizem que foi para combater o narcotráfico, como se as drogas fossem um fenómeno exógeno que cai do céu tropical sobre as cidades norte-americanas. Outros afirmam que se tratou de restaurar a “liberdade” do povo venezuelano – curiosamente, à bomba, ao míssil, à prisão do chefe de Estado, numa pedagogia que faria corar qualquer tirano do século XX. Outros ainda apontam para o petróleo, e não sem razão: a Venezuela possui reservas estimadas entre 300 e 303 mil milhões de barris de crude, cerca de 17 a 20% das reservas globais, superiores às da Arábia Saudita. Quando a realidade é incómoda, multiplica-se a retórica; quando o motivo é simples, inventam-se justificações morais.

    Comecemos pelo primeiro argumento, o mais gasto e talvez o mais cínico: o combate ao narcotráfico. O proibicionismo moderno, erigido como cruzada moral em 1971, iniciou-se num contexto em que cerca de 1 a 2% da população norte-americana apresentava dependência de drogas. Meio século depois, após décadas de guerra declarada, de repressão policial, de encarceramento em massa, de vigilância e controlo, o problema não diminuiu: multiplicou-se.

    1 U.S.A dollar banknotes

    O número de dependentes é hoje várias vezes superior ao de então. Se os Estados Unidos quisessem, genuinamente, resolver o problema das drogas, a solução seria simples e já conhecida: pôr termo ao proibicionismo, retirar o negócio ao crime organizado, tratar a dependência como uma questão de saúde e responsabilidade individual. Mas isso não interessa. O proibicionismo não é um fracasso acidental; é um instrumento funcional. Serve de pretexto para intervenção externa, para financiamento de aparelhos repressivos, para expansão do Estado penal e para exportação do caos sob a capa da moral.

    Passemos ao segundo argumento: a “libertação dos povos”. Mais de metade da população mundial vive sob regimes autoritários ou ditaduras declaradas. Se a solução “ética e lúcida” para cada tirania é chamar o império de serviço, então abrimos a porta à intervenção permanente: África, Médio Oriente, Ásia, América Latina – não sobra um continente incólume. Isso não é realismo político; é guerra sem fim. O critério deixa de ser a justiça e passa a ser a conveniência do mais forte – a lei da selva, a única que se aplica entre Estados, organizações criminosas por excelência –, aplicada de forma selectiva, arbitrária e interessada. Ditaduras amigas são toleradas; ditaduras desalinhadas são demonizadas. A moral varia conforme a latitude e o subsolo.

    Além disso, convém desfazer um equívoco persistente: as chamadas democracias não são moralmente superiores por definição. São, em muitos casos, ditaduras da maioria, sustentadas por eleições onde se promete roubar uma minoria para comprar os votos da maioria. O mecanismo é mais sofisticado, mais polido, mais decorado com linguagem jurídica e cerimónia institucional, mas a essência permanece: coerção legitimada pela maioria que deseja assaltar a outra parte. Não é virtude; é aritmética. Quem aceita um salvador armado abdica, desde logo, da própria dignidade política.

    U.S. American flags under clear sky

    Resta o petróleo, o argumento que muitos repetem como se fosse a chave de tudo. Mas também aqui a análise exige sobriedade. Os Estados Unidos são, há vários anos, o maior produtor de petróleo do mundo, à frente da Arábia Saudita e da Rússia. Produzem energia suficiente para cobrir o seu consumo interno e, desde 2019, são exportadores líquidos de energia. Importam petróleo, sim, mas por razões logísticas, de refinação e de qualidade do crude: importam alguns tipos pesados e exportam outros mais leves. Não precisam do petróleo de ninguém para sobreviver. Importam e exportam por eficiência económica, não por necessidade vital. O petróleo venezuelano, por si só, não explica aviões, helicópteros e bombardeamentos.

    A razão principal é outra, mais funda e mais perigosa: a defesa do dólar norte-americano. Desde a Segunda Guerra Mundial, ao tornarem-se emissores da moeda reserva do mundo, os Estados Unidos habituaram-se a um privilégio exorbitante: imprimir dinheiro e comprar ao resto do mundo aquilo que este produz.

    Não é casual que a produção industrial norte-americana seja hoje uma sombra do que foi, quer no pós-guerra imediato, quer mesmo há algumas décadas. A fábrica do mundo é hoje a China. O dólar permitiu aos norte-americanos viverem sistematicamente acima do que produzem, exportando inflação e importando bens reais. É um estatuto que nenhum império abdica voluntariamente. A história ensina-o: a perda do estatuto de moeda reserva termina quase sempre com violência.

    architectural photograph of lighted city sky

    Sempre que um país necessita de comprar petróleo – a principal fonte de energia do sistema económico moderno – tem, regra geral, de adquirir dólares norte-americanos para efectuar os pagamentos. Essa procura estrutural por dólares norte-americanos permite aos Estados Unidos exportar inflação para o resto do mundo, sem sofrerem as consequências que qualquer outro país sofreria. A inflação torna-se global; o benefício é local. É este mecanismo, e não uma súbita paixão pela “liberdade dos povos”, que sustenta a política externa norte-americana.

    É aqui que a Venezuela entra como problema. Há anos que o regime venezuelano procura afastar-se do dólar norte-americano. Em Setembro de 2017, anunciou oficialmente que passaria a cotar o preço do petróleo em iuane chinês, abandonando a referência exclusiva ao dólar norte-americano, como resposta directa às sanções norte-americanas.

    O próprio Ministério do Petróleo publicou preços nesse formato, gesto simbólico mas politicamente explosivo. Em 2019, surgiram relatos de ofertas de pagamento a fornecedores e contratados através de contas em iuane mantidas na China, precisamente para evitar os sistemas financeiros em dólares norte-americanos bloqueados pelo OFAC (Office of Foreign Assets Control dos EUA). Durante algum tempo, os preços do petróleo venezuelano foram efectivamente publicados em iuane chinês, sinal claro de intenção estratégica. Não se tratou de uma transição total e imediata, mas de uma ruptura progressiva, e isso bastou.

    assorted banknotes

    Por isso sofreu o golpe. O regresso das grandes empresas petrolíferas à Venezuela implicará, quase inevitavelmente, o regresso da venda de petróleo exclusivamente em dólares norte-americanos. O argumento de que tal intervenção serve para reparar antigas nacionalizações não resiste a um exame sério.

    Os Estados Unidos são peritos em confiscar o petróleo dos outros quando lhes convém. Síria e Iraque são exemplos recentes de um desprezo absoluto pela propriedade alheia, a que se somam as frequentes apreensões de petroleiros em águas internacionais. A propriedade privada só é sagrada quando pertence aos aliados certos.

    O padrão é claro e repete-se com regularidade. No Iraque, Saddam Hussein anunciou, em 2000, que o petróleo passaria a ser vendido em euros. Seguiram-se sanções, invasão em 2003, derrube do governo e retorno imediato do petróleo ao dólar norte-americano. Na Líbia, Muammar Gaddafi defendeu um dinar de ouro africano e comércio energético fora do dólar norte-americano. O resultado foi a intervenção da NATO em 2011, a destruição do Estado, o desaparecimento das reservas de ouro, mercados de escravos a céu aberto, e um país fragmentado até hoje.

    Na Venezuela, sob Chávez e Maduro, assistimos a tentativas de vendas em iuane e acordos fora do sistema bancário norte-americano, seguidas de sanções severas, bloqueio da PDVSA (a petrolífera do estado venezuelano), asfixia económica prolongada e uma mudança de regime tentada, agora consumada pela força.

    Há ainda o caso que muitos preferem esquecer, talvez por ser demasiado claro: o Irão. Em 2008, criou uma bolsa de petróleo com contratos em euros, rial e iuane, recusando explicitamente o dólar norte-americano. O resultado foi previsível: décadas de sanções, exclusão do sistema SWIFT, pressão militar constante, operações encobertas e sabotagem. É talvez o exemplo mais limpo do padrão depois do Iraque.

    Há o caso grande demais para “resolver” da mesma forma: a Rússia. Desde 2014, após o golpe de estado perpetrado pelos EUA, que depôs um presidente ucraniano eleito democraticamente, reduziu o uso do dólar norte-americano e celebrou acordos energéticos em rublos, iuane e ouro.

    sunset

    Após 2022, exigiu pagamentos de gás em rublos. O resultado foi um pacote maciço de sanções, congelamento de reservas, guerra económica aberta e um conflito militar indirecto na Ucrânia. Aqui não houve mudança de regime rápida porque há armas nucleares. A variável decisiva é sempre a mesma: capacidade de dissuasão.

    Casos em observação multiplicam-se. A Síria, alinhada com Irão e Rússia, recusou a arquitectura financeira ocidental e foi mergulhada numa guerra prolongada, com sanções e fragmentação territorial. A China criou o petroiuane, contratos de petróleo em iuane convertíveis em ouro, e enfrenta hoje pressão comercial, guerra tecnológica e cerco geopolítico. Aqui o confronto é estrutural, não militar directo – por enquanto.

    Energia é poder. O dólar é o instrumento de controlo, a base em que assenta o império norte-americano. Quem tenta sair do sistema é sancionado, isolado ou destruído. Sem dissuasão, cai; com dissuasão nuclear, entra-se numa guerra longa e indirecta. Isto não é teoria da conspiração; é geopolítica monetária elementar.

    Desde o fim do padrão-ouro, o mundo tornou-se totalmente dependente da infra-estrutura do dólar, um império que começa a ruir, visível nas fracturas abertas pela guerra na Ucrânia e pelos acordos energéticos fora do dólar norte-americano entre Rússia e China. O império apela ao direito internacional quando lhe convém e ignora-o quando o contraria. As fronteiras são sagradas, excepto quando estão sobre petróleo, rotas estratégicas ou moedas indisciplinadas.

    O ponto de partida é simples e raramente explicitado: o dólar norte-americano não é dominante apenas porque é usado, mas porque se tornou a moeda reserva do mundo desde a segunda guerra mundial. Qualquer transacção que toque no dólar norte-americano, ou que atravesse um banco correspondente sediado nos Estados Unidos, cai automaticamente sob jurisdição norte-americana, ainda que nenhuma das partes seja norte-americana e a operação ocorra integralmente fora do território dos EUA.

    Uma empresa portuguesa pode comprar petróleo a uma empresa angolana, ambas em pleno acordo e sem qualquer conflito jurídico entre si; se o pagamento for feito em dólares norte-americanos, esse pagamento terá de passar por um banco correspondente em Nova Iorque, ficando sujeito às regras, sanções e listas do Departamento do Tesouro e da OFAC. O dólar norte-americano transforma um negócio externo num assunto interno dos Estados Unidos. Isto não é uma anomalia: é jurisdição extraterritorial de facto, normalizada e aceite como se fosse uma lei da natureza.

    brown and white concrete building

    Este poder não se exerce directamente, mas através de um filtro silencioso: o sistema de branqueamento de capitais. O AML (políticas de combate ao branqueamento de capitais) funciona como um porteiro do sistema financeiro global, com uma pergunta implícita e não negociável: “queres operar no mundo?” – então terás de cumprir regras que não definiste. KYC (Conhece o teu Cliente) detalhado, monitorização permanente, reporte de transacções suspeitas e cooperação estreita com as autoridades, sobretudo norte-americanas, tornaram-se condições de existência.

    Formalmente, os padrões são definidos por entidades multilaterais como o GAFI (liderada por burocratas não eleitos e totalmente desconhecidos); na prática, alinham-se com os interesses estratégicos dos Estados Unidos e dos seus aliados. Não se trata de combater crime, mas de condicionar o acesso. O sistema não pergunta se algo é justo ou legítimo; pergunta se é compatível com a arquitectura dominante.

    O verdadeiro gargalo está nos bancos correspondentes. Mesmo um banco europeu, a operar em euros e a servir clientes não norte-americanos, depende estruturalmente do acesso ao dólar norte-americano para o comércio internacional, energia, matérias-primas e liquidação final. Se violar – ou apenas se aproximar perigosamente – das regras AML ou das sanções dos EUA, perde esse acesso e fica morto do ponto de vista funcional.

    a yellow sign with black text

    Não é preciso encerrar o banco; basta cortar o dólar. É por isso que bancos europeus já pagaram multas multimilionárias por violarem sanções norte-americanas, mesmo quando não infringiram qualquer lei local. É por isso que o cumprimento com excesso de zelo se tornou regra: perante um cliente venezuelano, iraniano ou russo, perfeitamente legal à luz do direito europeu, o banco prefere recusar. Não por justiça, mas por medo. O AML deixa de ser jurídico e passa a ser preventivo.

    Daí a parte mais desconfortável: na prática, o AML não elimina o grande crime financeiro. A lavagem sistémica, os fluxos gigantescos através de fundos, veículos offshore e instituições “grandes demais para cair” continuam a passar.

    O que é efectivamente punido são países, empresas e indivíduos que tentam sair da órbita do dólar norte-americano. Quando um país decide vender petróleo fora do sistema, usar iuane, ouro ou trocas directas, o castigo chega sem tiros: bancos recusam pagamentos por “risco AML”, seguradoras retiram cobertura, transportadoras recusam cargas, o acesso ao SWIFT é cortado. O país fica isolado sem que uma única bomba seja lançada.

    Donald Trump nesting dolls on red textile

    Tudo legal, tudo regulatório. É assim que o dólar norte-americano mantém a sua hegemonia sem necessidade de coerção permanente – e é por isso que qualquer alternativa monetária real, do iuane ao Bitcoin, provoca reacções tão viscerais: não ameaça o crime, ameaça o controlo, obrigando o exército norte-americano a actuar em defesa.

    A Venezuela é apenas o capítulo mais recente de uma longa narrativa. Não é sobre drogas, nem sobre liberdade, nem sequer sobre petróleo em bruto. É sobre a sobrevivência de um sistema monetário que permite a uns viverem do trabalho dos outros. Quando esse sistema é posto em causa, as bombas voltam a falar. Sempre falaram!

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • Salário mínimo: dignidade por decreto, pobreza na realidade

    Salário mínimo: dignidade por decreto, pobreza na realidade


    O Governo voltou a anunciar, com a solenidade própria de quem distribui indulgências, um novo aumento do salário mínimo nacional: de 870 para 920 euros por mês, um salto de 5,7%, apresentado como prova irrefutável de virtude social, coragem política e sensibilidade humana.

    O número é repetido com ênfase, acompanhado de sorrisos e de comparações com a chamada “inflação oficial”, sempre convenientemente inferior, como se o poder de compra real pudesse ser apurado por decreto, por alquimias estatística do INE, por comunicado do Conselho de Ministros.

    two Euro banknotes

    Para o espectador distraído, a encenação funciona: o Estado aparece como benfeitor, o trabalhador como protegido e o empregador como figurante silencioso de uma peça que nunca escolheu representar.

    Mas estas proclamações são, na realidade, uma fraude aritmética cuidadosamente embalada. Vejamos os números, que têm o mau hábito de não respeitar a retórica. No final de 1997, o salário mínimo era de 294 euros. Em 2025, com o recente anúncio, será de 920 euros. Nominalmente, o crescimento impressiona.

    Traduzido em taxa anual composta, dá cerca de 4,2% ao ano durante quase três décadas. É um ritmo mais do que suficiente para alimentar discursos sobre o progresso “económico” e para justificar a sensação enganadora de melhoria contínua. O problema, como quase sempre, não está no numerador, mas no denominador que ninguém menciona.

    Evolução do valor do salário mínimo entre 1997 e 2025 – para 2025, assume-se o aumento recentemente anunciado (unidade: Euros por mês); Fonte: INE; * Taxa anual de crescimento composta

    Porque o euro de hoje não é o euro de 1997. Não o é por uma razão simples: o dinheiro foi massivamente adulterado. Se, em vez de olharmos para índices politicamente domesticados, olharmos para a expansão monetária efectiva, o quadro muda radicalmente. O agregado M2 em Portugal passou, no mesmo período, de cerca de 94 para 342 mil milhões de euros, o que corresponde a uma taxa anual próxima de 5%, superior ao crescimento do salário mínimo. Traduzido em linguagem clara, isto significa que um euro de 1997 vale hoje apenas cerca de 27 cêntimos. Mais de 70% do seu poder aquisitivo foi destruído, não por acaso, mas por política deliberada.

    Evolução do agregado M2 entre 1997 e 2025 – previsão com base no valor de Outubro de 2025 (Unidade: milhares de milhões de Euros); Fonte: Banco de Portugal; * Taxa de crescimento anual composta

    Feita esta conversão elementar, o milagre desvanece-se. Os 920 euros de 2025, corrigidos pela expansão monetária, correspondem a cerca de 253 euros em euros de 1997. Ou seja: abaixo dos 294 euros de então. O saldo real é uma perda de cerca de 14%.

    Em quase trinta anos de anúncios triunfais, o trabalhador no salário mínimo não foi elevado; foi lentamente empurrado para trás, enquanto se lhe dizia, com voz grave, que estava a avançar. Eis a essência da fraude: devolver em prestações uma parte do que foi previamente roubado, e ainda assim devolver menos do que se tirou.

    Mas o embuste não se fica pela erosão monetária. Há uma segunda camada, mais obscena, que explica o entusiasmo sincero da classe política sempre que o salário mínimo sobe. Ao contrário do que a narrativa sugere, um salário mínimo não é uma dádiva; é um custo imposto.

    Evolução do salário mínimo entre 1997 e 2025 – para 2025, assume-se o aumento recentemente anunciado (unidade: Euros por mês, ajustado pelo crescimento do agregado M2); Fonte: INE e Banco de Portugal

    Esse custo vem acompanhado de um prémio fiscal imediato. Em Portugal, o salário mínimo paga “descontos” – na realidade mais um imposto – para a Segurança Social: 11% atribuídos ao trabalhador e 23,75% ao empregador. Esta divisão é uma ficção contabilística. Tudo sai do mesmo bolso: o do empregador, enquanto o Estado, quando contrata, não paga nada disto. No total, estamos perante um confisco adicional de 34,75% sobre o valor pago.

    Com um salário mínimo de 870 euros, pagos em 14 meses, o encargo anual em contribuições rondava os 4.233 euros. Com o novo valor de 920 euros, esse encargo sobe para cerca de 4.476 euros por trabalhador por ano. A diferença é clara: mais 243 euros por ano enviados directamente para o Estado, por cada trabalhador no salário mínimo! Eis a verdadeira razão do entusiasmo oficial.

    O aumento não é apenas “social”; é fiscalmente rentável. O trabalhador recebe um pouco mais no recibo; o Estado, obviamente, garante que também recebe mais; o empregador, como sempre, financia o espectáculo e ainda é convidado a aplaudir.

    Evolução do valor de segurança social pago pelo empregador privado (11% + 23,75%; 14 salários ano); Unidade; euros por ano

    Perante isto, impõe-se uma pergunta que nenhum governante ousa formular em voz alta: se é legítimo decretar um salário mínimo de 920 euros, por que não 10.000 euros? A resposta surge de imediato, até nos corredores do próprio regime: porque isso destruiria a actividade económica. Ao admitir este limite, o Estado confessa o essencial: o salário mínimo não é um princípio moral; é um instrumento táctico. Não serve para criar prosperidade, mas para extrair o máximo possível sem matar a galinha depressa demais. É a arte antiga de desnatar o povo em lume brando, enquanto se declama poesia social.

    Do ponto de vista económico e moral, o problema é ainda mais profundo. O salário resulta de um contrato voluntário entre duas partes: quem oferece trabalho, dispondo do seu tempo e da sua capacidade, e quem paga o trabalho, dispondo do seu capital e antecipando o consumo presente ao trabalhador em troca de produção futura.

    Quando o Estado impõe um salário mínimo, está a declarar que esse contrato só é legítimo se obedecer a um número arbitrário fixado politicamente. Está a dizer ao empregador: “és obrigado a pagar X, mesmo que X seja superior à produtividade marginal desse trabalhador.” Isto não é regulação; é invasão directa da propriedade privada.

    people doing office works

    As consequências não são abstractas. Em empresas do interior, em sectores de margens estreitas, num país com fraca procura interna e custos crescentes, este novo patamar pode significar a diferença entre sobreviver e fechar. Não porque os empresários sejam cruéis ou gananciosos, mas porque a aritmética não responde a discursos.

    O salário mínimo não cria valor; apenas proíbe contratos abaixo de um certo nível. Quando se proíbem contratos, proíbem-se empregos – sobretudo os de entrada, os que permitem aprender, produzir pouco no início e mais depois.

    Os defensores do presente regime apressam-se então a brandir a expressão mágica: “pleno emprego”. Mais um número encantado. Em 2020, a população activa em Portugal era de cerca de 5,076 milhões. Em 2024, passou para 5,507 milhões, um aumento de 431 mil pessoas. No mesmo período, o número de estrangeiros residentes saltou de cerca de 662 mil para mais de 1,544 milhões, um acréscimo próximo de 900 mil. Estes números, por si só, não provam automaticamente ilegalidade em massa – há estudantes, dependentes, reformas, emigração de portugueses –, mas revelam um desfasamento estrutural que não pode ser varrido para debaixo do tapete.

    people walking on grey concrete floor during daytime

    Um mercado que absorve fluxos migratórios desta dimensão, sem que a população activa cresça proporcionalmente, só pode fazê-lo de três maneiras: comprimindo salários reais, empurrando pessoas para a informalidade ou recorrendo a esquemas contratuais cada vez mais opacos.

    Aqui reside a hipocrisia suprema: o mesmo Estado que proclama o salário mínimo como estandarte da dignidade tolera, por omissão ou conveniência, um mercado paralelo onde muitos trabalham abaixo desse mínimo, sem contrato e sem papéis. O decreto serve para o discurso; a realidade trata-se nos bastidores.

    O salário mínimo não protege os trabalhadores; protege apenas aqueles cuja produtividade já se encontra acima do patamar imposto. Os outros ficam de fora. Jovens, imigrantes recentes, pessoas sem qualificações, trabalhadores de regiões pobres – precisamente os que mais precisavam de entrar no mercado – são empurrados para o desemprego, para a economia informal ou para a dependência do Estado. O salário mínimo não eleva salários baixos; elimina empregos baixos.

    a calculator sitting on top of a table next to a laptop

    A isto soma-se o velho problema do cálculo económico. Nenhum comité central possui a informação dispersa necessária para determinar preços justos, salários adequados ou produtividades individuais. Os salários são sinais. Condensam informação local, sectorial, temporal.

    Impô-los por decreto é desligar o sinal e fingir surpresa quando o sistema entra em curto-circuito. No longo prazo, a consequência é inevitável: menos investimento, menor acumulação de capital, falências de pequenos produtores e favorecimento de grandes estruturas capazes de absorver custos e navegar a teia regulatória. Não é política social; é política anti-capital e anti-mobilidade.

    Tudo isto torna ainda mais embaraçosa a comparação internacional. Países como Áustria, Dinamarca, Finlândia, Itália e Suécia não têm estabelecido um salário mínimo nacional estatutário. Não praticam este confisco encenado por decreto. Ainda assim – ou talvez por isso mesmo – são, em média, muito mais ricos do que Portugal. A prosperidade não nasce de anúncios nem de números mágicos. Nasce de produtividade, investimento, capital acumulado, segurança jurídica e liberdade contratual. O resto é teatro.

    Valor do salário mínimo para os diferentes países da União Europeia (Unidade: Euros por mês; ajustado a 14 salários anuais); Fonte: Eurostat

    No fim, sobra a verdade nua, que raramente cabe nos comunicados oficiais: o salário mínimo, tal como é praticado, não é um instrumento de justiça social. É um mecanismo de extracção fiscal, de controlo político e de gestão simbólica da miséria. Serve para extorquir mais dinheiro ao sector privado, enquanto se proclama virtude.

    Quem paga, como sempre, é o mesmo: quem trabalha, quem investe, quem arrisca – tratado como uma vaca leiteira, com a diferença de que a vaca, ao menos, não é obrigada a agradecer enquanto é ordenhada.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

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