Segundo a narrativa oficial que nos chega de Israel e dos Estados Unidos, a recente ofensiva contra o Irão foi, ao mesmo tempo, preventiva, preemptiva, defensiva, libertadora e humanitária.
Foi preciso atacar porque o Irão estava prestes a obter uma arma nuclear – embora ainda não a tivesse. Foi necessário agir porque existia uma ameaça iminente – ainda que essa ameaça estivesse situada num futuro indefinido. Era imperioso evitar um ataque – ainda que o único ataque concreto tenha partido de quem afirmava querer evitá-lo. Era indispensável garantir a estabilidade regional – tarefa que, ao que parece, exige bombardear mais um país do Médio Oriente.

Tudo isto também foi feito para proteger o povo iraniano, missão que a história costuma associar a mísseis de precisão e bombardeamentos cirúrgicos. No limite, quem sabe, talvez a operação ajude os próprios iranianos a descobrir as virtudes de uma mudança de regime.
A lógica é cristalina. Ataca-se para impedir um ataque que ainda não ocorreu. Destrói-se uma arma que ainda não existe. Salva-se um povo que não pediu para ser salvo. Defende-se a paz iniciando mais uma guerra.
Se a história recente ensina alguma coisa, é que esta lógica não nasceu ontem. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos criaram uma rede global de influência política e militar que se apresenta como “defensora da liberdade”, mas que inclui uma longa sequência de intervenções, golpes de Estado e guerras por procuração. Muitas dessas operações passaram pela CIA, cuja missão oficial consiste em proteger os interesses estratégicos de Washington – o que, na prática, significou reorganizar o poder político em países considerados problemáticos.

Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em 1953, no próprio Irão. O primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, eleito democraticamente, cometeu o erro de nacionalizar o petróleo iraniano, até então dominado por interesses estrangeiros. A resposta chegou através da Operação Ajax, organizada pelos serviços secretos britânicos e pela CIA, que derrubou o governo e restaurou o poder do Xá. O episódio tornou-se um manual clássico de intervenção clandestina e marcou de forma profunda a história política iraniana.
O padrão repetiu-se pouco depois. Em 1954, na Guatemala, o presidente Jacobo Árbenz tentou implementar uma reforma agrária que afectava os interesses da United Fruit Company. A reacção foi rápida: uma operação clandestina da CIA apoiou forças que acabaram por derrubar o governo. Mais uma vez, tudo em nome da liberdade e da estabilidade.
A década seguinte não foi menos pedagógica. No Congo, o primeiro-ministro Patrice Lumumba foi deposto e assassinado durante a crise pós-colonial, num contexto em que potências ocidentais temiam a sua aproximação ao bloco soviético.

Em 1964, no Brasil, o presidente João Goulart caiu perante um golpe militar apoiado por Washington. Um ano depois, na Indonésia, a ascensão do general Suharto ocorreu no meio de purgas anticomunistas que custaram centenas de milhares de vidas. Em 1973, no Chile, o governo democraticamente eleito de Salvador Allende – a democracia funciona desde que se vote correctamente – foi esmagado por um golpe militar que abriu caminho à ditadura de Augusto Pinochet.
Depois vieram as guerras apresentadas como garantes da “estabilidade internacional”. A Guerra do Vietname devastou o Vietname, o Laos e o Camboja, deixando milhões de mortos e territórios saturados de bombas.
Entre 1980 e 1988, o Guerra Irão‑Iraque transformou o Médio Oriente num campo de batalha. O regime de Saddam Hussein, no Iraque, recebeu apoio político, financeiro, tecnológico e militar de várias potências ocidentais e regionais, incluindo dos Estados Unidos, que viam no conflito uma forma conveniente de conter o Irão após a revolução de 1979. O resultado foi uma guerra de desgaste brutal, com cerca de um milhão de mortos, cidades destruídas, ataques com armas químicas e uma geração inteira sacrificada numa guerra que muitos consideram ter funcionado, na prática, como um prolongado confronto por procuração entre potências regionais e internacionais.

Décadas mais tarde, no Afeganistão, a intervenção iniciada em 2001 prometia erradicar o terrorismo, construir uma democracia exemplar e libertar as mulheres. Vinte anos depois terminou com o regresso ao poder dos Talibã, milhares de mortos, um país destruído e com as mulheres novamente por libertar. No Iraque, a invasão de 2003 justificou-se com armas de destruição maciça que nunca apareceram, deixando para trás um Estado fragmentado e uma região ainda mais instável.
A lista continua. Intervenções no Líbano, operações militares na Síria, ataques no Iémen ou na Líbia surgem sempre como episódios necessários de uma guerra permanente pela chamada segurança internacional. Cada intervenção traz o mesmo vocabulário: defesa, estabilidade, prevenção, libertação. As palavras mudam; os resultados permanecem.
Também Israel acumula décadas de acusações de violação do “direito internacional” – a lei do mais forte, a única lei entre organizações criminosas, como são os estados –, sobretudo no contexto da ocupação da Cisjordânia, na expansão de colonatos considerados ilegais por várias resoluções das Nações Unidas e nas sucessivas operações militares na Faixa de Gaza e no Líbano. Naturalmente, tudo em nome da necessidade imperiosa de Israel defender-se.

Mais recentemente, a guerra na Ucrânia acrescentou outro capítulo a esta longa história de confrontos indirectos entre potências. Em 2014, após meses de protestos em Kiev, o presidente democraticamente eleito – mais uma vez, as pessoas votaram mal –, Viktor Yanukovych, foi derrubado por um golpe de estado perpetrado pelos EUA. A partir daí, o país entrou numa espiral de tensão que culminaria anos depois na invasão russa de 2022 e numa guerra devastadora que transformou a Ucrânia num campo de batalha que mata, todos os dias, milhares de jovens ucranianos e russos.
No fim de contas, o mundo habituou-se a uma curiosa hierarquia moral. Há guerras que chocam e guerras que se normalizam. Há vítimas que mobilizam indignação global e outras que passam quase despercebidas. A indignação internacional depende menos da gravidade dos acontecimentos do que da posição geopolítica de quem sofre ou de quem ataca. Quando, no meio deste teatro geopolítico, uma escola é atingida por bombas – como aconteceu recentemente no Irão – o silêncio internacional torna-se ensurdecedor.
Talvez porque, no fundo, a estabilidade internacional tem um guardião muito particular. Os Estados Unidos possuem o maior orçamento militar do planeta, superior ao de qualquer outra potência e maior do que o de muitos países juntos. Uma máquina militar gigantesca, presente em centenas de bases espalhadas pelo mundo. Mas não há motivo para preocupação. Afinal, garantem-nos, todo esse poder existe apenas para assegurar uma coisa: a “estabilidade internacional”.

Talvez por isso valha a pena recordar algo elementar. Não é o Irão que nos confisca grande parte do fruto do nosso trabalho. Não é o Irão que decretou prisões domiciliárias sem acusação, sem julgamento e sem qualquer controlo judicial. Não é o Irão que construiu um labirinto regulatório que transforma cada projecto de vida numa corrida de obstáculos.
Não é o Irão que controla os tribunais, que detém o monopólio da violência e que desarma as pessoas em nome da “segurança”. Não foi o Irão que há poucos anos perseguiu famílias para impor inoculações experimentais sob pressão política e social. Não foi o Irão que expandiu a massa monetária em proporções históricas, destruindo poupanças, salários e o futuro das novas gerações.
Não foi o Irão que criou um sistema económico que torna cada vez mais difícil a jovens famílias comprar uma casa ou construir uma vida autónoma. Não é o Irão que permitiu uma invasão de terceiro mundo.

No entanto, é para o Irão – ou para qualquer outro inimigo externo conveniente – que a nossa atenção é constantemente dirigida. A propaganda tem sempre esta função essencial: deslocar a nossa atenção. Criar um inimigo distante para evitar que se olhe para os mecanismos de poder que actuam perto de nós. A guerra externa tem frequentemente esta utilidade política: unir, distrair, silenciar perguntas incómodas.
Talvez a verdadeira pergunta não seja o que acontece em Teerão, Kiev ou Gaza. Talvez a pergunta seja outra: até quando aceitaremos esta permanente engenharia da nossa atenção, esta sucessão de narrativas destinadas a impedir que se olhe para o poder que governa a nossa própria vida? Porque, no fim, o perigo raramente se apresenta sob a forma de um inimigo distante. O perigo instala-se sempre mais perto.











































































