Autor: Lourenço Cazarré

  • A mansa loucura do professor de teatro e cinema

    A mansa loucura do professor de teatro e cinema


    O que se encontra no coração dos homens permanece um mistério para mim. Desdeaquela época, tenho observado vários tipos de pessoas – escroques, falsários,
    gente que matou ou morreu por dinheiro – e todos eles parecem pessoas normais;
    fico confuso.

    Relato autobiográfico, Akira Kurosawa


    Dias atrás, de manhã, fui até essa porta, mas não consegui ultrapassá-la. Não que houvesse problema com a fechadura. Girei a chave e, depois, simplesmente, meu braço se recusou a movimentar a maçaneta.

    Não, não ria. Embora também ache que a situação é ridícula, eu lhe peço que não se entregue à zombaria antes de ouvir o que tenho a dizer. Também nunca levei a sério essas histórias de sujeitos que se veem, repentinamente, impossibilitados – por uma espécie particular de loucura – de realizar atos insignificantes do cotidiano.

    Porém, foi exatamente isso que se deu comigo.

    *

    Na primeira semana, ninguém reclamou da ausência do velho.

    É possível que alguém tenha estranhado a falta dele, sim, mas o certo é que o tal aluno não se perdeu em considerações sobre o assunto porque aqui, mais que em qualquer outro campus, uma folga inesperada é sempre bem recebida.

    A vantagem de uma universidade nos trópicos é que a coisa toda é levada na maciota, por alunos e professores. Vejamos pelo nosso lado. Em geral, não ganhamos bem, mas, em compensação, quase não trabalhamos. Resumindo: professores fingem que lecionam; estudantes fingem aprender. O mundo nem para nem gira mais depressa por causa desse nosso jeitinho inzoneiro.

    rectangular brown wooden framed window at daytime

    Em outras palavras: uma gazeta professoral, mesmo que larga, não espanta ninguém por aqui. Professores estão sempre viajando para conferências, seminários, mesas-redondas ou outras tapeações. Nos nossos banheiros faltam torneiras e papel higiênico, mas há bastante dinheiro para passagens aéreas.

    Vocês podem achar que falo assim por despeito. É verdade, sou ressentido porque não fui esperto o suficiente para descolar um doutorado no exterior. E falo maldosamente sempre que posso porque sou do signo de escorpião.

    Fui menos amargo quando jovem, mas a vida me triturou tanto que acabou por me transformar nessa poção venenosa. Namoros ridículos, um casamento fracassado e uma vida profissional medíocre fizeram de mim uma víbora peçonhenta.

    O certo, repito, é que na primeira semana nem deram pelo sumiço do velhote. Acontece que os alunos dos primeiros semestres, que são justamente os que ele leciona, gostam muito de ficar a maior parte do tempo no pátio, namorando, dizendo bobagens e rindo como idiotas. Já os mais espertos preferem as áreas arborizadas, onde podem, incógnitos, queimar a sua maconhazinha cotidiana.

    Nem tão incógnitos, é verdade, porque o cheiro nos invade as salas e sempre tem alguém pedindo para ir ao banheiro. Aí, eu digo:

    – Vá, mas vá correndo, porque já devem estar na bagana.

     

    *

    Eu sentia que não devia sair do apartamento. Em silêncio, eu me dizia: Caetano Antunes, pare, não abra a maldita porta!

    Assim, deixei a chave na fechadura, ali, onde ela se encontra até agora, como você pode ver, e voltei ao meu quarto. Deitado, eu pensava no cômico da situação, e ria. Mas também chorava. Eu já sabia que jamais poderia sair daqui.

    Agora, passados tantos dias, sei o motivo pelo qual estou confinado neste apartamento. Se você tiver tempo e paciência, eu poderei lhe falar sobre…

    *

    Não, o velho nunca foi considerado maluco. Neurastênico, impaciente, áspero e sarcástico, isso sim. Mas doido, não.

    Embora sua ironia seja invariavelmente ranzinza e raivosa, em toda turma que leciona ele sempre consegue capturar a cumplicidade de dois ou três gozadores que se divertem com suas tiradas ferinas.

    *

    Percebo que agora, enquanto me observa, entre condoído e assustado, você se pergunta se não estou louco. Reconheço que tem todos os motivos para pensar assim, mas acontece que jamais estive tão lúcido.

    No fundo, o que você mais teme é que eu lhe tome demasiado tempo com o relato dessa história.

    *

    No final da segunda semana, a coisa veio à tona.

    O alarme foi dado por uma aluna. Estava eu na secretaria da faculdade, passando a limpo as notas de uma das minhas turmas, quando a garota se apresentou no guichê, afoita, querendo saber o que estava ocorrendo com “o bode velho”.

    – Será que ele agora está fazendo uma greve particular, uma continuação da paralisação de quarenta dias que os vagabundos dos nossos professores fizeram no início do semestre? Ou será que se acostumou a ficar em casa, de papo para o ar, coçando o saco murcho?

    A tal mocinha é um caso raro de muito estudo mesclado a vocabulário de quartel.

    Permaneci com a fuça enfiada nos papéis temendo que sobrassem xingamentos para mim. Como a maioria dos professores, adotei a tática da invisibilidade.

    empty chairs in theater

    A funcionária que a atendia – uma das pessoas mais preguiçosas e cínicas da face da terra – perguntou:

    – Você está falando de quem, afinal, minha filha?

    – Não sou sua filha e, obviamente, estou falando do professor Caetano. Quem mais se parece com um bode velho do que ele?

    – É verdade – disse a funcionária. – Você tem razão, faz dias que ele não aparece por aqui. Vou informar esse fato ao chefe do Departamento.

    – Fale agora mesmo! – retrucou a garota. – Se ele não voltar logo às aulas, entro com uma representação contra ele no Conselho Universitário.

    *

    Como você sabe, sou homem de poucas palavras. Sempre fui obrigado por esta nossa exigente profissão a papagaiar bastante nas salas de aula. Por isso, sou lacônico fora delas.

    Nunca ninguém me viu – em mais de trinta anos em que leciono aqui – fazendo em sala confissões constrangedoras, que são os sinais mais fortes da vulgaridade.

    Tenho um pudor quase invencível no meu relacionamento com outras pessoas. Como sempre me considerei o maior dos maçadores, preferi viver fechado em mim mesmo. Se me abro hoje, com você, é porque este é o momento de falar para, em seguida, calar-me para sempre.

    Só lhe peço que me escute com a atenção que, em tese, é devida a um homem de setenta anos.

    *

    No final daquela manhã, fui chamado ao gabinete do chefe do nosso Departamento, o Mascarenhas.

    Sabendo que eu era vizinho do professor Caetano, ele me pedia para dar uma passada pelo apartamento do velho a fim de verificar o que estava acontecendo com ele.

    – Sujeito idoso e meio pirado. Sempre lendo, dia e noite. Os miolos vão se gastando, como o resto. Um dia, a casa cai. Fora uma ida às livrarias, nas manhãs de sábado, nunca deixa o apartamento. A velhice, a solidão.

    Mascarenhas, que sempre fala como se estivesse tratando com alunos imbecis, riu amarelo e arrematou:

    – Faça-me esse favor. Veja se o bruxo não está morto debaixo de uma pilha de livros.

    Era uma sexta-feira chuvosa.

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    *

    Há cerca de vinte anos, comecei a lecionar sobre teatro e cinema. Antes devo frisar que, na época, não me interessava nem um pouco por essas duas artes. Sempre fui um homem de letras. Letras impressas. Um homem totalmente de papel. Nunca havia me interessado por outra realidade além daquela – aparentemente falsa – que encontramos nas obras de ficção.

    Certo início de ano, Margarida, a então diretora, pediu-me que ministrasse umas aulas de Dramaturgia. O titular da disciplina pedira demissão. Não me recusei. Naquele tempo, éramos poucos professores. A partir dali, passei a ler loucamente sobre teatro.

    Dois anos depois, inventaram uma cadeira chamada Linguagem Cinematográfica, que também acabou caindo sobre os meus ombros.

    Aos poucos, com a contratação de novos professores, fui repassando minhas disciplinas originais.

    Por fim, há cinco anos, acabei ficando só com essas duas: Dramaturgia e Linguagem Cinematográfica.

    Que ironia!

    Veja: eu, amante da Literatura, acabei afastado da palavra escrita. Empurraram-me para a escuridão dos teatros e dos cinemas. Mas os homens se acostumam a tudo, e eu não sou diferente.

    Agora, ao cabo de tantos anos, creio que posso dizer que adoro essas disciplinas que estudei com afinco de jovem mesmo sendo já um sujeito maduro.

    Sempre tive consciência do valor de meu papel como professor. Digo, agora que estou velho, que sou um homem feliz, pois sempre trabalhei naquilo que mais gosto. Nasci para estar em uma sala de aula, de pé, falando e gesticulando, a cabeça enfiada num redemoinho em busca das palavras mais exatas, dos exemplos mais significativos, das histórias mais engraçadas, de tudo, enfim, que consiga prender a peregrina atenção dos estudantes.

    Todo professor é um homem do mundo livresco. O nosso parco saber nos vem dos livros. Há quem saiba ler no chamado livro da vida, mas eu não consegui jamais decifrá-lo. Aliás, parece-me bastante mal escrito.

    O ensino da Dramaturgia levou-me a perceber, com nitidez, as pequenas trapaças que eu próprio vinha encenando há tanto tempo. Tive consciência então dos truques, tiques, escamoteações e trejeitos dos quais me utilizava ao longo de tantos anos nas salas de aula.

    Todo professor é um ator, só que extremamente privilegiado: tem público cativo, casa sempre cheia e seu espetáculo fica um ano inteiro em cartaz. Uma aula, como uma peça, tem de comover e fazer rir, alternadamente, num ritmo meticulosamente ajustado.

    Ao entrar em sala eu me sentia como se estivesse ingressando num túnel, do qual sairia um outro homem. Ao fim da aula, eu tinha que respirar fundo para voltar a ser o que era antes.

    Assim ocorre com os atores, creio, que costumam deixar abertas as portas de suas almas para o vaivém dos personagens.

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    Confesso que me sentia eletrizado – quase levitando – ao fim das aulas de Dramaturgia. Mas essa agradável impressão durava pouco porque o impacto de um bom espetáculo de teatro, como o de um belo poema, só permanece em nós por instantes fugazes. Em seguida, o mundo nos avassala com suas solicitações e estrangula nossos sonhos de beleza.

    Num certo momento, notei que não mais estava preparando aulas; o que eu fazia era imaginar monólogos. Pela reação previsível dos alunos, bocejos ou risadas, eu retocava esses monólogos. De um ano para outro, aprimorava-os. Por fim, cheguei à sofisticação de engendrar diálogos. Sim, eu estabelecia perguntas e imaginava as respostas mais prováveis dos alunos e, para todas elas, preparava réplicas jocosas. E, assim, fui tomado por um homem espirituoso quando, na verdade, meu pensamento é extremamente moroso. Jamais tive uma resposta pronta na ponta da língua.

    Estudei cuidadosamente a marcação. Depois de algum tempo, eu sabia o exato momento de me levantar da cadeira para ir à janela. Havia momentos de fitar sonhadoramente o céu. Ou de encarar silenciosamente os alunos. Há frases para serem ditas andando. Há palavras que só podem ser pronunciadas por um homem que, sentado, taciturno, observa o entardecer.

    Poderia falar muito mais, baseado na minha experiência, sobre a colocação da voz, os movimentos das mãos e o uso desta máscara de infinitas possibilidades que é o nosso rosto. Mas chega!

    Preciso lhe dizer também algumas palavras sobre Cinema.

    *

    Peguei o carro e fui direto ao decrépito edifício cujos apartamentos a universidade nos aluga a precinhos camaradas. No elevador, por força do hábito, apertei o botão do quinto andar. Morava ali há três anos. Estava já desembarcando quando me lembrei que precisava subir até o sexto, onde residia o professor Caetano. Tornei a pressionar o botão.

    O corredor do sexto andar é idêntico ao do quinto andar: cerâmicas frouxas, pintura descascada e iluminação deficiente. Quando ia premir a campainha, tive um instante de vacilação. Por que aceitei o pedido do idiota do Mascarenhas?

    Parei o gesto no meio, braço no ar, indicador esticado. Não seria melhor descer ao meu apartamento sem falar com o velho? Na segunda-feira, inventaria qualquer mentira para engambelar o Mascarenhas.

    Mas acabei apertando o botão. Afinal, não é todo dia que um pacato professor de Literatura Brasileira tem a oportunidade de bancar o detetive.

    *

    Quando não consegui abrir a porta, considerei num primeiro momento que estava apenas com medo de sair à rua. Nada mais natural do que ter medo de deixar nossa casa hoje em dia. Nas ruas, há sempre carros dispostos a atropelar um pedestre desatento como eu. Nos becos, há sempre assaltantes à espera de um velhote que não possa reagir.

    Mas não, não era esse tipo de medo que me retinha.

    Eu não saí de casa porque, se passasse da porta, se cruzasse o umbral, o mundo desapareceria todo comigo. O mundo seria sugado.

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    Vejo que mais um sorriso quer tomar conta de seus lábios e percebo também que você luta para escondê-lo. Não se contenha, ria. Porque o que eu estou lhe contando parece mesmo sem pé ou cabeça.

    Porém, devo ser honesto com você, ainda que parecendo bizarro.

    Confesso que antevi o que aconteceria se eu chegasse ao corredor: o mundo se desintegraria por trás de mim, cidades, campos, árvores e fábricas, homens e animais, tudo sumiria às minhas costas, todas as coisas seriam sugadas e tragadas por um abismo negro, tudo o que foi construído, plantado ou sonhado seria diluído na escuridão. O mundo desapareceria, em meio a uma nuvem de poeira e a um rascar estridente, exatamente como some a lição escrita no quadro-negro, ao fim da aula, quando movimentamos o apagador. Ou melhor, o mundo sumiria como um pedaço de celuloide consumido pelo fogo.

    Se fosse um sujeito vulgar, você venceria o espanto e o desconforto que o tolhem neste momento e me perguntaria: onde foi que o senhor arranjou esta maluqueira, professor Caetano?

    Mas como você é comedido, e não me fará essa pergunta, eu tomarei para mim a tarefa de lhe explicar esse tipo particular de doidice.

    *

    A campainha soou forte.

    Prolongavam-se os segundos e eu não escutava nada. Passos, ruído de chaves, pigarro ou tosse. Nada.

    Será que o velho morreu?

    Um calor nervoso me subiu ao rosto. Esfreguei as mãos úmidas.

    Eu vacilava, sem saber se apertava de novo na campainha ou se me ia embora, quando a porta foi aberta.

    De repente, sem um ruído, escancarou-se.

    – Que surpresa! – disse o velho.

    O professor Caetano Antunes era um homem de estatura média, mais para o gorducho, com uma barbicha branca pendente da ponta do queixo. Encimando a boca chupada, um imenso nariz. A mão que estendeu para mim era grande e seu aperto vigoroso e visguento.

    Uns olhos castanhos, escondidos por trás de lentes garrafais, me fitavam com intensidade.

    – O que o traz ao meu modesto apartamento?

    Ao fim de uma caótica introdução, recheada de perdões e escusas, expliquei a ele que ali me encontrava, a pedido do chefe do Departamento, para ver como ele estava passando.

    – O Mascarenhas está preocupado com a sua ausência. Intelectuais, em geral, não cuidam da própria saúde ou são orgulhosos demais para admitir que estão doentes. Por isso, ele me mandou até aqui. Para ajudar, se preciso.

    – Diga ao Mascarenhas que ele deve preparar o edital para a contratação de meus sucessores nas duas disciplinas.

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    Depois dessas palavras, o professor Caetano explodiu numa formidável gargalhada, daquelas que trazem junto seu próprio eco.

    Enquanto ele gargalhava, troquei o pé de apoio três vezes.

    – Mas entre um instantinho!

    Embora intimidado por aquele riso histérico, avancei. A visão das paredes da sala, inteiramente cobertas de livros, do chão ao teto, me puxou para dentro do apartamento.

    Havia livros por todos os lados: na mesa, nas cadeiras, nos sofás, nos aparadores. Por toda a sala, como soldados de um batalhão em debandada, erguiam-se pilhas vacilantes de livros que exalavam o aroma da poeira longamente acumulada.

    O professor Caetano retirou braçadas de livros de duas cadeiras.

    – Sente-se! Há muitos anos não recebo a visita de ninguém. Estou contente em vê-lo, professor. Quero aproveitar sua presença aqui para dar início ao meu processo de desligamento da universidade.

    *

    Apaixonei-me também pelo Cinema. Acho que não há arte que exija mais talento que essa. É preciso ser um gênio para falar através de imagens em movimento. De início, o meu amor era platônico, quase frio, o único tipo de amor que nós, intelectuais, sabemos viver. Passei depois a adorar as imagens tanto pelo que estampavam quanto pelo que escondiam. Admirava Fellini, Buñuel e Kurosawa, os três gênios. Mas um amor só se transforma em paixão quando é amplo e generoso. Passei, então, a apreciar também as comédias, os musicais, os faroestes, as aventuras para crianças e os filmes policiais.

    Vejo que neste momento, discretamente, você tenta ler o mostrador do relógio. Está com pressa. Ou com fome. Ou cansado. Deve estar doido para chegar em casa e tomar uma cervejinha. É sexta-feira. Compreendo. Não se preocupe. Vou concluir rapidamente.

    Diga ao Mascarenhas que me mande até aqui alguém com a relação dos documentos que devo apresentar para requerer minha aposentadoria. Acrescente, porém, que jamais porei um pé para fora deste apartamento. Diga-lhe que aqui estou e que aqui ficarei até o fim dos meus dias, que não deve tardar.

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    Diga a ele que estou me lixando para tudo, diga que tenho setenta anos e que agora quero descansar. Diga a ele também que pretendo assistir a todos os filmes que foram feitos no mundo e que para isso basta que eu levante o telefone e ligue para a loja que aluga fitas de vídeo que logo chega o rapaz da motocicleta com belos filmes suecos, japoneses, italianos, franceses, espanhóis e alemães. Existem milhares de filmes e não me resta vida para assistir a todos eles, como antes não pude ler todos os livros, mas…

    Diga ao Mascarenhas que não abri minha porta porque finalmente compreendi que este mundo faz parte de uma única peça escrita e dirigida por um só diretor, um sujeito cuja face ninguém conhece, que eu chamo O Sem Rosto; e que, por fim, eu percebi que esta fabulosa peça teatral vem sendo filmada o tempo inteiro por um diretor, que ninguém jamais conheceu, e que eu chamo O Sem Olhos, que pretende um dia montar um filme que seja a síntese perfeita da história da humanidade, e quem não é tolo sabe que o sol não passa de um canhão de luz, que nós nada mais somos que figurantes, e que os olhos d’O Sem Olhos são câmeras, e que um dia, se eu sair por essa porta, Ele vai gritar: Corta!

    Lourenço Cazarré é escritor


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  • Ilhados

    Ilhados


    E disse Maria ao anjo: Como se fará isto, visto que não conheço varão?

    Lucas I, 24


    Choveu a noite inteira.

    Com as trevas, veio a chuva. De início, mansa, silenciosa, pouco mais que uma garoa. Então todos se recolheram às suas casinhas de madeira e pouco depois as luzes foram apagadas porque eram pescadores e teriam de sair cedo para a lagoa no dia seguinte. Era uma vila de casebres, que pareciam ter sido improvisados sobre a areia estéril da praia, nada mais que frágeis caixotes de madeira corrompida, vulneráveis.

    E todos eles dormiram embalados pela chuvinha sobre o teto e, mais tarde, quando começou o temporal, tiveram sonhos ruins. Eram ribombos sacudindo as janelas, raios finos retalhando o céu e um vento frio que se enfiava pelas frestas. Parecia que aquela tormenta não teria fim.

    Por causa dos trovões e dos laçaços da chuva no teto de zinco das casinhas, ele pode serrar e martelar tranquilo, como se fosse marceneiro e não pescador. Ninguém viu quando ele, lutando contra o vento, lampião balouçando na mão, saiu para o pátio e pegou a tora de madeira. Dois ou três raios se afogaram nas águas distantes enquanto ele a arrastava até a porta dos fundos, que estava escancarada. Como tinha empurrado as cadeiras para o canto, pôde passar, espremido, entre o armário e a mesa.

    photo of body of water and droplets

    Depositou a madeira no chão de terra batida, soltou o lampião em cima da mesa e puxou o banquinho. Ainda havia tempo para recuar. Não que tivesse qualquer dúvida a respeito do valor que sua empreitada teria para Deus, que aceita de bom grado todos os nossos sacrifícios, mas porque acreditava, justo que era, que, no fundo da alma, os homens conspurcam tudo que fazem, mesmo suas mais nobres ações, se pensam em demasia sobre elas.

    Fazia aquilo por amor a Deus ou por orgulho e soberba? Não era, ele próprio, também um pecador? Tudo muito confuso.

    Mais do que a indiferença dos homens, temia a chacota, porque podemos muito bem suportar os corações desapiedados, que se fecham à nossa passagem, mas a dor que sentimos quando zombam da nossa fé é insuportável, e não adianta nos lembrarem que Ele ofereceu a outra face porque a ira que nos invade o peito é irrefreável. De todo modo, talvez o temporal, que prendia todos dentro de suas casas, que os tornava surdos para a barulheira do serrote, fosse um sinal positivo do Senhor.

    Colocou a tora sobre o banquinho e se pôs a serrar.

    Cortou confiando no olho, não mediu nada. Como a madeira estava úmida, padeceu com o serrote enferrujado. Gostava da palavra madeiro. Madeiro era palavra de homem de fé. Rezava enquanto o serrote, penosamente, subia e descia.

    Na hora de nossa morte, amém.

    Pensou na estrada até o barranco, que teriam de percorrer de pés descalços. Sangrariam por causa das pequenas pedras pontiagudas do caminho. Mas fazia parte do holocausto.

    O Senhor nos dará forças.

    Quando a madeira se partiu, respirou fundo. Perfume bom de terra molhada e de serragem. As coisas de Deus cheiram bem. As dos homens, não. Os bafios da sua própria casa, por exemplo: a sopa do magro jantar, o último cigarro e o ranço peculiar, entre doce e amargo, de fêmea adormecida.

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    Tinha agora dois pedaços de madeira, o mais curto era para os braços. Marcou o lugar onde deveria fazer o encaixe. Recomeçou a serrar. Difícil concentrar-se nas orações. Pensava num homem de barbas brancas, seminu, voando entre anjos, quando murmurava Pai Nosso que estais no Céu. Via um letreiro luminoso, desses de fachada de loja grande, quando rezava Santificado seja o Vosso nome.

    Pegou o formão para fazer o chanfrado. Um cansaço quase invencível pesava-lhe nas pálpebras. Podia dormir, uns minutos só, sentado numa cadeira. Não! Passou a mão áspera pelo rosto, esfregou os olhos e persignou-se. Aquela soneira, está visto, era tentação do Capeta. Sacudiu os ombros magros e foi apanhar os pregos na gaveta do armário.

    Arrastando os dois pedaços de madeira, saiu para a tempestade. Aproveitou-se da nesga de luz do lampião, que escapava dançarina pela porta aberta, para cruzá-las. O encaixe não ficou lá essas coisas, mas ele não era marceneiro, como José. Os pregos entraram com facilidade na madeira úmida. O lenho. Gostava das palavras que o padre usava na missa. Santo Lenho. Guardou no bolso os pregos, para as mãos. A voz do padre dava dignidade até mesmo às coisas bem pequenas. O madeiro. O Santo Lenho.

    Martelando afastara o cansaço.

    Livrai-nos do mal, amém.

    Para onde teria o vento furioso levado o som dos golpes do martelo?

    Olhos fechados, chuva braba no rosto erguido para o céu negro, o homem ficou escutando o batuque do seu coração acelerado. Sentiu o sangue pulsando forte nas têmporas. Tudo é usado pelo Tinhoso para distrair a gente das rezas. Mas ainda bem que o trabalho duro mantém o demônio longe de nós.

    Venha a nós o Vosso reino: um castelo; assim na terra como no céu: um castelo entre as nuvens.

    Rezava para não pensar. De que adianta viver se atormentando? As coisas só se resolvem quando O Pai quer que se ajeitem. Às vezes, nos sonhos ou na vigília, Ele nos diz o que devemos fazer. Aquela cruz, no pátio, sobre o barro, por exemplo.

    Mas tinha de partir logo! Um homem de crença não pode vacilar. Um cidadão de bem não pode ficar parado sem fazer nada quando Deus Pai lhe deu uma missão. A cruz estava pronta. Não sabia quanto tempo gastariam para vencer a estrada. O barranco, frente à lagoa, era alto como um morro santo. A voz doce do padre. O Gólgota.

    a hammer and a block of wood on top of a bench

    *

    Por uns instantes, quando começou a chover mais forte, a mocinha sentiu uma alegria intolerável. Riu, rosto enfiado sob as cobertas. Uma alegria explosiva no coração. Água nas ruas, água dentro dela. No centro do corpo, atrás do umbigo, a nascente de água. Pensou naquele barulho quando a gente toma água demais. Marulho interior. E no meio das águas um menino encantador, Pequeno Polegar.

    Depois veio a tristeza, grossa e visguenta, como a aflição dos pesadelos, como o desalento que nos invade quando descobrimos que todos os dias são iguais e que seguirão sendo iguais até o final dos tempos.

    Perdera a mãe um ano antes. Recordava o dia terrível em que ao chegar da escola se defrontou com o pai na porta da casa, a esperá-la. Tua mãe morreu, disse ele. Vamos à cidade. Aquele foi o dia mais doloroso e lento de todos. Sentada no banco duro do hospital esperou pelo pai que percorria as funerárias pechinchando o preço do caixão. Por fim, por uns poucos instantes, pode ver pela última vez o rosto de sua mãe; mas não conseguiu beijá-la, porque os coveiros estavam com pressa. E no dia seguinte não foi mais à escola.

    Nas noites frias, gostava de dormir agarrando os joelhos ossudos contra os seios pequenos, mas tinha de parar com isso agora. Sufocava o Pequeno Polegar.

    Na escola, os dias eram diferentes porque sempre alguém dizia ou fazia uma coisa engraçada e na hora do recreio pegavam sol na cara. E elas, as meninas mais velhas, até flertavam, mesmo sendo aqueles guris uns crianções. Olhavam para eles de cima, não só porque eram mais altas, mas porque tinham seios e fluxos. E eles apenas corriam feito loucos e se davam coices e empurrões.

    Os dias se tornam iguais, tristes, quando a gente deixa a escola. Quis continuar estudando, bastava-lhe um expediente para fazer a lida: varrer a casa, lavar e passar a roupa, cozinhar. Mas o pai não permitiu. Disse que ela tinha de ser a dona da casa e ele não sabia de donas de casa que estudassem.

    Se, pelo menos, possuíssem um radinho de pilha! Gostava de música. E nem na janela podia ficar, o pai não deixava.

    Agora estava grávida, tinha dentro de si o Pequeno Polegar, não precisava de mais ninguém. De início temera a reação do pai, mas ele não falou nada. Sabia, sim, que a filha estava prenha, via a crescente barriga redonda, mas não disse lhufas. Ele, que já não falava quase, simplesmente se fechou. Isso foi o pior. Esperava ser xingada e agredida, talvez até mesmo expulsa de casa, mas o pai apenas se entrincheirou num mutismo ainda mais impenetrável. Agora, viviam como inimigos, inimigos que se vigiavam o tempo todo.

    Já nos primeiros dias, quando sentiu que não lhe vinha o sangue, decidiu que, por nada neste mundo, confessaria o nome do pai da criança. Guardaria sozinha o terrível segredo.

    sky filled with stars photography during nighttime

    Mocinha com criança na barriga fica mais esperta, mais matreira. Sabia que não podia esperar boa coisa do pai. Aquele mutismo era de rancor. Era silêncio de tocaia, de bicho caborteiro preparando o bote. Alguma coisa ele estava arquitetando, calado. Ela até pensou mesmo em morrer, em se deixar matar, mas isso foi no começo, nos dias de maior vergonha e desespero, quando queria encontrar aberta uma passagem para as chamas do inferno. Sim, a vergonha queimava como fogo. Aquele era pecado dos brabos, mortal, coisa para danação eterna. Pecado sem remissão. O pior dos pecados do mundo. Por isso aceitaria morrer junto com a semente que trazia no ventre. Não se pode matar um ser humano, está certo, mas e na sua condição? O que se pode esperar de uma criança gerada no mais hediondo dos pecados?

    Mas tudo neste mundo de Deus tem um fim, até mesmo a maior das vergonhas e o pior dos remorsos. Especialmente quando se sente o primeiro chute da criança. Então a gente se transforma. Por isso, agora, vigiava todos os movimentos do pai, movimentos de gato traiçoeiro.

    Quando sentiu no corpo o visgo da umidade fria do temporal estava com muito sono, olhos areentos, braços pesados. O pai ainda estava no seu quartinho, sentado na cama, fumando. Ela sabia que só poderia dormir depois de ouvir o estralejar do colchão de palha sob o magro corpo do seu pai. Poderia então relaxar um pouco, dormir o sono inquieto dos que temem uma armadilha. Depois de um primeiro sono, breve e profundo, dormiria outros, mais demorados, porém mais leves. Acordaria, então, ao menor movimento do homem que vigiava. Sabia que a cada dia tinha de redobrar os cuidados, mas a sucessão das vigílias sem incidentes a esgotara. Por isso, naquela noite, não escutou nem o serrote nem o martelo.

    Foi acordada pelo pai, que tinha o mesmo rosto fechado do dia em que lhe morrera a mulher.

    – Vamos!

    Permaneceu calada por uns instantes, seus sentidos captando toda a noite ao redor: a chuva grossa, o rugido dos trovões, o silêncio da casa adormecida, a respiração ofegante do pai, o frio que penetrava pela porta aberta da cozinha e o cintilo dos raios entrando pelas frestas. Ruim mesmo era o que não via nem ouvia, o horror que pressentia escondido no convite.

    – Vamos pra onde?

    O homem não respondeu. A filha notou então que ele estava com a cinta na mão. Apanhara muito antes de ter sua primeira regra, estava acostumada, mas naquela noite notou que a fivela de ferro pendia na ponta da cinta dobrada ao meio. Levantou-se. Não podia apanhar, não por ela, mas pela criança. Como era mulher, insensivelmente, ajeitou os cabelos. O sono se fora e o cansaço também. Alguma coisa tinha de ser feita e ela a faria, o mais depressa que pudesse, porque a criança tinha que voltar para o quente da cama. Enfiou a capa de oleado.

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    Saíram para a chuva.

    A nesga de luz que fugia pela porta da cozinha iluminava a cruz.

    *

    O dia se insinuava por trás da lagoa quando o padre e o comerciante entraram no casebre.

    Na sala, viram a mocinha deitada no sofá que usava como cama, o rosto virado para a parede, o cobertor cinzento moldando-lhe as curvas do corpo.

    Passaram ao quarto. Afundado na cama, o rosto tisnado destacando-se contra o branco do travesseiro, o pescador parecia ainda mais magro e triste. Seus olhos, pequenos e duros, luziram, entre raivosos e resignados, ao ver os visitantes.

    O padre ajoelhou-se ao lado da cama e, sem olhar diretamente para o pescador, perguntou-lhe se queria se confessar.

    O comerciante tomou a palavra:

    – Ele não deu um pio na vinda até aqui, padre. No geral, ele quase nunca abre a boca. Acho que agora não vai falar nada.

    – Mas eu preciso saber exatamente o que aconteceu, pra perdoá-lo.

    Cabeça abaixada, mãos unidas, o sacerdote parecia rezar.

    Depois de um fundo suspiro, o comerciante voltou a falar:

    – O pobre vivente não mexe um só dedo. É como eu lhe disse, padre. Ele deve de ter quebrado o espinhaço quando caiu de cima do barranco. Como é que pode um homem ficar louco de uma hora pra outra? Onde ele foi buscar a ideia daquela cruz…

    – Cruz? – indagou o padre. Era um homem jovem e bonito. Cabelos negros, olhos índios, pele amorenada.

    – Eu já não lhe falei na cruz? Ela estava cravada no chão no alto daquele barranco que tem ali na curva da estrada. Uma cruzona de mais de dois metros.

    O pescador voltou o rosto para a janela fechada, desinteressado dos homens que o ladeavam.

    person touching hands

    Depois de uma breve pausa, o comerciante recomeçou a contar, com a mesma ênfase caótica, a desencontrada história que iniciara ao bater na porta da sacristia.

    – Como lhe disse, eu estava voltando pra casa, porque não consegui ir até a cidade. Eu queria comprar combustível. Bem, quando cheguei na ponte sobre o arroio, vi que a água já estava cobrindo tudo. Aí, pensei cá comigo: estamos ilhados de novo. E comecei a voltar. Eu vinha até meio desatento, xingando Deus e o mundo. Estava muito escuro ainda. De repente, um raio mais forte alumiou tudo e eu pude ver aquela barranca bem alta perto da margem da lagoa. É tudo pelado lá em cima, sem uma árvore, porque o vento não deixa nenhuma semente se criar naquele ponto. Na beira do barranco, eu vi a cruz.

    O comerciante persignou-se.

    – De início, tive medo, seu padre. Cruz é coisa de Deus. Depois, em seguida, me atentei pra uma outra sombra. Parecia gente acocorada. Parei o jipe e fiquei olhando a escuridão, mas, aí, quando veio outro raio, vi mesmo a cruz e aquilo outro que devia de ser uma pessoa.

    Cabeça inclinada, o sacerdote observava atentamente o homem que falava.

    – Saltei do carro. E me botei a patinar no lodo da encosta em direção ao alto da barranca. Penei uma barbaridade pra subir. Veja, um homem da minha corpulência! Lá, em cima, encontrei a guria ajoelhada diante da cruz, de mãos postas, rezando. Parecia em estado de choque, a coitadinha. Comecei a falar com ela. De início, ela não dizia coisa com coisa. No chão, eu vi uns pregos grandes e um martelo. Aos poucos, ela foi se acalmando. E falando. Então eu entendi o caso. O pai queria crucificar a pobrezinha. Mas ela se defendeu, e acabou jogando ele lá de cima do barranco. Bah, estava um frio bárbaro lá no alto! Aí, peguei ela pela mão e, resvalando, descemos a ribanceira. No jipe, passei uma manta por cima dela.

    O comerciante fez uma pausa. Sabia que tinha toda a atenção do padre.

    – Depois de acomodar a guria, saí do carro e, de lanterna em punho, me fui procurar o pai. Não demorou nada. Mal meti o facho de luz nas macegas, eu vi esse pobre homem aí – com um gesto do queixo trêmulo, apontou o pescador – caído no chão, estatelado, os braços abertos. Arrastei o coitado até o jipe. Era um peso morto, um saco de batatas. E aquela areia fofa da praia cansa demais as pernas da gente. Deitei ele na traseira e pensei cá comigo: deve de ter caído de ponta-cabeça e arrebentado o espinhaço, não escapa de ficar paralítico.

    Pelas frestas da janela fechada entravam os primeiros raios grises do dia.

    a church with pews and stained glass windows

    – Aí, quando eu ia dar a partida no carro, a manta caiu de cima dos ombros dela. Fui ajeitar. Senti então uma coisa gosmenta nos meus dedos. Foquei a lanterna e vi. Era sangue mesmo. Devia de ser de carregar a cruz nos ombros. Mas será que tinha levado a cruz daqui até lá, estirão de uns dois quilômetros? Perguntei, mas ela não me respondeu. Só gemia. Aí, me vim, desembestado, pra cá. Mas o pior aconteceu aqui, na chegada. Quando descia do carro, ela fez água. Muita água. Aí, eu entendi que ela estava prenha. Devia de ter arrebentado a tal de bolsa. De modos que o parto é coisa pra logo, pensei. Larguei eles por aqui e fui correndo chamar o senhor. Veja, seu padre, uma guria que nem quinze anos tem!

    Depois de renovar o ar dos pulmões com mais um largo suspiro, o comerciante voltou a falar.

    – É como dizia minha mãe: em casa de pobre, o pão cai sempre com a manteiga pra baixo. O pai endoidou, quis pregar a filha numa cruz. A guria empurrou ele de cima do barranco e o coitado, agora, na certa vai ficar paralítico. Já a guria, pelo lado dela, está buchuda e resolveu parir justo quando estamos ilhados, justo quando não temos como chegar ao hospital.

    O homem interrompeu a narrativa ao mesmo tempo que um sorriso malicioso corria-lhe pela carantonha.

    Lentamente, agachou-se ao lado do sacerdote e sussurrou-lhe no ouvido:

    – Sabe o que me passou pela cabeça?

    – Não! – respondeu o padre, sobressaltado.

    – Que a guria foi embarrigada pelo próprio pai. Ele sempre foi meio maluco, mas piorou depois que a mulher dele morreu. Deve de ter abusado da filha. Aí, quando viu que ela estava barriguda, revolveu crucificar.

    – Vá correndo buscar a parteira! – disse o sacerdote e se pôs de pé.

    *

    A mocinha permanecia na mesma posição.

    Perto da porta, olhando o homem gordo que se afastava, o padre perguntou, voz quase inaudível:

    – Contaste pra alguém?

    photo of dried brown soil

    Ela voltou seus olhos para ele. Uns olhos que estampavam um rancor duro. Os olhos do padre desceram para o chão.

    Devagar, ela se sentou. Depois, colocou os pés no chão. Levantou-se. Caminhou na direção dele. Seus pés nus deixavam marcas de sangue no piso de tábuas.

    O padre recuou um passo.

    A guria sentia-se maior e mais forte do que ele. Havia carregado a cruz por toda a longa estrada, havia aguentado as chibatadas sem gritar, havia suportado o corte das pedrinhas nos pés descalços. Depois, lá em cima, havia tido forças para empurrar o seu próprio pai barranco abaixo.

    Pesando tudo, era uma pessoa muito forte. Certamente conseguiria criar sozinha o filho que tinha no ventre, não precisaria da ajuda do homem que a havia deflorado.

    – Fora daqui, seu porco! – disse ela e empurrou o sacerdote para a luz suja de mais um dia chuvoso.

    Lourenço Cazarré é escritor


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  • Um só corpo, corcovado e imenso

    Um só corpo, corcovado e imenso


    Lembrou-se da surra que levara e da noite passada na cadeia. Sim senhor. Aquilo ganhava dinheiro para maltratar as criaturas inofensivas. Estava certo?

    Vidas Secas. Graciliano Ramos


    – Se pudesse, eu metia logo um balaço na perna dele – diz o sargento.

    – Melhor no braço – retruca o soldado. – Facilitava pra gente ir pra cima ele.

    – Tu tá achando que a gente vai chegar nele de novo?

    – Sim, mas eu quero é ir sozinho.

    – Tu? – espanta-se o sargento. Depois ri. – Não é hora de brincadeira.

    Os dois trocam um rápido olhar. Depois, por entre os galhos ressequidos, voltam a espiar o homenzarrão na outra margem do pequeno canal.

    brass-bullet cases

    – Se o senhor deixar, eu vou.

    – Tu tá é maluco! Se ele te acerta um tiro não é nada, porque aquela espingarda dele é de chumbinho, mas o duro é se ele te agarra pelo pescoço. Aí tu podes encomendar a alma.

    – O que não pode é a gente continuar aqui, parada, com ele ali cantando de galo. É um desaforo.

    – Acho que vou pedir reforço pelo rádio da viatura.

    – Não, sargento! Isso seria mais humilhação ainda. Me deixa pegar ele!

    Estão deitados na margem direita do canalete, por trás duns caraguatás, observando o homem alto e gordo, sem camisa, que grita e gesticula diante deles. A separá-los, o leito quase seco do riacho, cortado pelo negro fiapo da água suja que serpenteia entre os monturos.

    – Mas o que é que tu tá pensando, homem de Deus? – pergunta o sargento, impaciente.

    – Tenho um plano. Num minuto estou com ele derrubado no chão. Aí, vocês chegam e metem as algemas nele.

    – Falar é fácil, língua não tem osso. Ele já botou o Caldeira e o Braga pra dentro do lodo! E eles são mais fortes que tu!

    – Deixa comigo, chefe – o soldado sorri. – Meu braço está comichando de vontade de apertar aquele pescoção.

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    O sargento suspira fundo.

    – Faz o que tu quiseres. És maior de idade e vacinado. Agora, uma coisa é certa: eu não me responsabilizo. Faz de conta que tomaste a iniciativa sem eu saber. Se ele te torcer o pescoço, azar.

    – Fechado.

    O soldado ergue-se. É muito jovem, terá no máximo uns vinte anos, e franzino.

    Enquanto corre, agachado, em direção aos casebres, escuta os gritos irônicos do grandalhão.

    *

    – Adonde tu vai com essa pressa toda, franguinho? Vai procurar tua mãe? Pois aproveita e te esconde debaixo das asas daquela galinha! Ou será que tu vai chamar mais brigadianos? Chama bem uns vinte que eu tomo conta deles tudo! Bando de cagão! Brigadiano só serve pra bater em mulher e criança! Que venham! Vou fazer com eles o que já fiz com os outros dois trouxas!

    *

    – Olha, lá, Caldeira! – diz o soldado grisalho, levantando o braço e apontando com o dedo. – Viste? Era o Magro correndo! Pra onde será que ele vai?

    – Acho que foi se esconder no meio dos barracos – responde o soldado negro, passando a manga da túnica pelo nariz. – Deve estar se cagando de medo.

    – O Magro não é medroso. Já me vi em hoscas com ele e ele sempre vai em frente. O que tem de leviano de peso tem de valente.

    – O que tu acha mesmo que o Magro foi fazer? – pergunta o soldado negro, enquanto olha para a mancha de sangue na manga.

    – Buscar reforço. Só pode ser isso.

    – Aí, sim. Quando a gente chegar no Luisão, ele vai ver o que é bom pra tosse. Vou dar uma porrada na boca dele.

    – Mas antes a gente vai ter que pegar ele. E aí é que eu quero ver! Não vai ser fácil!

    – Ele não tem nem três nem quatro colhões. Não é mais macho que nós!

    – Mais macho não é, mas que o bicho é forte, isso é – o soldado grisalho leva a mão ao queixo. – Já tivemos uma amostra hoje.

    – O filho da puta me quebrou o nariz, acho.

    – É caborteiro.

    – Tenho é vontade de afogar ele nessa água suja.

    – Isso nem é água mais.

    – Parece suco de merda. Tu já percebeu o quanto nós tamos fedendo, Braga? Credo! Esse puto vai lavar a minha farda lá no quartel!

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    – Ele é mais gabola que bandido.

    – Se o sargento tivesse deixado a gente usar o revólver!

    – Aí não tinha graça.

    – Eu meteria um balaço no meio daquela cabeça cabeluda.

    – Não precisa. Quando não tá bêbado, o Luís Gordo é gente boa – diz o grisalho, sempre observando o homenzarrão, que continua gritar e esbravejar. – Mas, bebum, ele gosta de cantar de galo.

    *

    Ao atingir o casario, o soldado se levanta. É de estatura meã, mais para baixa. Apressado, avança por entre as casinholas de paredes de lata, de compensado, de refugos de madeira e até mesmo de papelão.

    O barro negro das ruas está seco, não chove há muito. Mulheres e crianças escondem-se por trás das paredes vacilantes do Templo dos Crentes – um barraco um pouco maior, mas igualmente frágil – prontas para fugir caso Luís Gordo atravesse o arroio.

    O soldado circula os olhos pela gente assustada. Aponta para um velho barbudo.

    – Tu aí, me dá tua roupa. Vamos, ligeiro! Onde tem um lugar que a gente possa se trocar?

    O velho não diz nada.

    O soldado arranca a própria túnica, joga-a no chão. Depois toma a camisa do velho.

    – Vamos, tira a calça também!

    Um sussurro de espanto corre entre as mulheres.

    – Virem a cara pro lado! – ordena o soldado, ao mesmo tempo que veste a camisa remendada.

    Sentado no meio da ruela, desamarra os cadarços, tira as botinas. Despe a calça do uniforme. Seus gestos são rápidos, nervosos, De novo de pé, enfia a calça do outro, que está imunda. Por fim, arranca da cabeça do velho o roto chapéu de palha, deixando-o completamente nu.

    Este cachaceiro está podre de borracho, pensa o soldado. Inspira fundo e sente a catinga de canha da camisa que vestiu. Lança um olhar duro ao velho estupidificado, de cuja boca aberta pende um grosso fiapo de saliva.

    – Quem é o dono do bolicho? – pergunta o soldado, apontando a placa na porta de um barraco.

    Ninguém responde.

    – De quem é a merda do bolicho? – grita ele para os que estão escondidos por trás do Templo. – É bom dizer antes que eu ponha a porta abaixo!

    Um homenzinho balofo surge vindo de não se sabe onde.

    – De que é que o senhor precisa?

    – Pega uma garrafa de pinga. Rápido! E já me traz sem tampa!

    black and silver round coins

    Pouco depois, o bodegueiro chega com a cachaça. O soldado bebe um gole largo. Depois, de pés descalços, encaminha-se, vacilante, como se estivesse muito bêbado, para a pontezinha que atravessa o canal.

    É uma pinguela de duas pranchas largas de madeira, precária, vacilante. Na época das chuvas é retirada para que as águas não a levem.

    Agarrado ao fio de arame que serve de corrimão, o soldado observa Luís Gordo pelo canto dos olhos.

    Ele continua lá, na frente do minúsculo barraco, a berrar e a bracejar com a passarinheira segura, pelo cano, na mão direita. Seu largo peito glabro brilha suarento sob o sol cruel do meio-dia.

    O soldado magricelo tenta escutar o que ele diz, mas não há vento para trazer os sarcasmos daquela voz rouca até ali. Luís Gordo fala demais, pensa.

    Trôpego, assoviando uma desconchavada musiquinha, com a garrafa na mão esquerda, o soldado travestido em mendigo encaminha-se para onde está Luís Gordo.

    Deixa cair a cabeça para o lado. Espiando por baixo da aba do chapéu, consegue entrever, do outro lado do fosso, os seus colegas, deitados entre a vegetação ressequida.

    *

    – Braga, tem um cara atravessando a pinguela.

    – E tá pra lá de bêbado.

    – Era só o que nos faltava: um outro borracho pra se juntar com o Luísão!

    – Peraí! Aquele cara é o Magro! Com roupa de mendigo. E se fingindo de bebum!

    *

    Era menos que uma vila, era até menos que uma favela porque os que ali viviam eram menos que gente, eram qualquer coisa acima de bichos porque sabiam falar.

    Vieram de todos esses campos aí pela volta da cidade. Lá fora viviam mal das pernas, quase sem roupa e sem remédios, mas, no geral, tinham o que comer. Plantavam para o gasto, uns pés de milho, uma ponta de arroz, e carneavam uma ovelha de vez em quando, roubada quase sempre. Tinham galinha para os ovos e para a canjinha, quando adoeciam. Até passarinhos eles matavam, a bodocaços, quando a fome apertava.

    Na cidade só se tem ruas de asfalto e de calçamento e ninguém, a não ser Pedro Malasartes, desencava comida das pedras. Que lhes resta quando percebem que vieram de outro tempo e de outro mundo e que ali não tem lugar para eles? Se arrinconam lá pelas voltas do Forno do Lixo, sob um céu sempre negrejado por bandos de urubus. Ali podem colher alguma coisa, como antes colhiam no campo.

    São catadores de papel, vendedores de vidro e ferro, carroceiros, jardineiros, changueadores, biscateiros. Como chegaram há pouco, ainda não dominam os misteres urbanos, nos quais serão mestres seus filhos: ladrões de botijão de gás, punguistas na volta do mercado, gigolôs de perebentas, flanelinhas raivosos, cheiradores de cola, assassinos de velhas.

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    Por terem chegado há pouco do campo, foram obrigados a se acomodar nos confins da cidade, nas terras encharcadas, ao lado do arroio sinuoso que pastoreia os detritos da cidade toda. E lá ergueram suas casinholas, na maioria com paredes de lata, latas de conservas e de óleo de soja retalhadas a abridor.

    *

    Luís Gordo estava há um bom tempo por ali. Mas morava meio afastado, só ele naquela margem do arroio, porque não gostava de gente. Não se misturava Era um verdadeiro bicho do mato. No começo, ganhava uns trocos cabeceando sacos numa arrozeira, mas depois se deu bem, arranjou uma boca de leão-de-chácara num puteiro. Não era de briga, mas isso não importava porque era muito alto e forte. E tinha cara feia, cara de índio, com aquela cabeleira negra escorrida e uns olhinhos achinesados que botavam medo até mesmo nos vagais siderados pelo pico. Só o jeitão dele já amansava os chinelões mais brabos.

    Era conhecido dos brigadianos, por pacato e respeitador, mas, de longe em longe, acordava com os bofes virados e se passava na canha, como naquele domingo. Aí, a coisa desandava.

    De manhã, no bolicho, sentado num saco de feijão, bebera uma garrafa inteira, sozinho. Igual que sempre, estava meio emburrado. Depois, pateara o balcão. E saíra pela vila a dizer palavrões cabeludos, a inticar com as mulheres e a desaforar os homens. Gritou que eram uns machos de merda, e meteu a mão nos dois ou três que não tiveram tempo de se afastar. Que chamassem a Brigada! E se fora sestear.

    Estava no bem bom do sono quando bateram à porta do barraco. Eram dois brigadianos, um velhusco e um negro fortão. Disseram que ele tinha de ir à delegacia responder pela arruaça, que um cidadão tinha prestado queixa e que eles estavam ali, de viatura e tudo, para conduzi-lo ao distrito.

    Mas, bah, nem disse nada! Só enfiou o braço. Mandou um murro em cada um. Foi pá e pá. O grisalho se foi direto para o riacho, desconjuntado, mas o negro ainda conseguiu se equilibrar. O jeito foi dar-lhe uma cotovelada na cara. E ele, caindo de costas, foi se juntar ao outro.

    Num vupt, Luisão pegou a passarinheira que mantinha atrás da porta e fez mira na testa deles, que já tentavam escalar de novo a margem barrenta. Que se sumissem! Encagaçados, eles saíram patinhando pela água suja e galgaram a outra margem e foram se refugiar entre as unhas-de-gato.

    Pouco depois, vindos da camionete, juntaram-se a eles o sargento e o soldado magro.

    *

    – Tão pensando que eu sou o quê? Um alimal? Vocês tão é muito enganados! Acham que esta cidade é grande merda só porque tem um batalhão de brigadianos? Me cago pros brigadas! Tô de saco cheio disso aqui! Qualquer dia volto lá pra fora. Tem sanga limpa e não esse arroiozinho de merda. Tem cancha pra carreira e salão de dança. O que é que tem aqui pra se fazer num domingo? Nada. Tem futebol, mas isso é coisa de maricas. Meto-lhe uma bala num!

    *

    E Luís Gordo estava falando ainda, empolgado pela canha que lhe fermentava nas entranhas, quando o bêbado de camisa remendada entrou na pinguela e se veio na direção dele. Vinha bem devagarzito, desenhando a beira da barranca, quase que se despencando.

    three men standing wearing hoodies

    Era só um pobre borracho magro e miserável, de olhar turvo e boca aberta, um fiapo de homem. De pés descalços. Uma coisa à toa. Não merecia atenção. Desinteressado do pinguço, Luís Gordo continuou a despejar a mágoa armazenada. Com sua voz grossa e rouca, repetia, com pequenas variações, as mesmas frases. Sempre segurando a passarinheira pelo cano.

    Aí, de repente, sem mais nem menos, o bêbado, saltou nas costas dele. Os braços magros se aferraram em torno do grosso pescoço moreno e as pernas em torno da grande barriga, com os pés se entrecruzando na frente.

    De primeiro, os olhos arregalados mostraram estupor. Em seguida, raiva. E Luís Gordo se pôs a pinotear como se estivesse com um piá nas costas, o filho que não tinha, brincando de upa-upa cavalinho. Sufocado, não conseguia falar mais nada, apenas urrava como um burro triste, saudoso de sua querência.

    Nem podia mais pensar direito, o pobre homem. Tinha era que arranjar um jeito de se livrar daquele carrapato.

    Foi então que ele viu os três brigadianos descendo pela outra margem do arroio. Tropeçando na raizama, vinham de cassetete em punho. E em seguida, no embalo, pularam sobre o lodo preto que era o leito do arroio e começaram a subir o barranco.

    Pressentindo que ia entrar na borracha, Luís Gordo resolveu guarnecer as costas. Encostou-se então contra a parede do seu barraco e levantou a espingarda, como se ela fosse um tacape. E esperou os três brigadas que se vinham de cacete em punho, furiosos.

    Enquanto esgrimia com eles, Luís Gordo lembrou que na parede do seu barraco havia umas cabeças salientes de pregos enferrujados e umas rebarbas pontiagudas de lata.

    Aí, pôs-se a esfregar contra ela as costas, as costas do soldadinho magro, que estava agarrado a ele como uma sanguessuga.

    Foi como se sentisse a dor do outro, os cortes, as fincadas, os lanhos na própria carne. Mas, como estava com aquele molambo de homem nas costas, Luís Gordo perdeu o jogo de cintura e se tornou alvo fácil para as porretadas dos brigadas.

    blue and brown brick wall

    Para se distrair, ele até se botou a contar as lapadas que levava e espantou-se porque elas cada vez doíam menos. Já estava chegando a vinte quando lhe acertaram uma no pé do ouvido.

    Então ele foi arriando, se encolhendo como um tatu mulita, devagarzinho, já entregue. Mas, de repente, não se sabe de onde, ele conseguiu arranjar um resto de força. Aí, se levantou e, lentamente, caiu para a frente. Se foi em direção ao leito imundo do arroio levando consigo, de carona, o bêbado das costas ensanguentadas. Na queda, Luís Gordo e o soldadinho nele agarrado pareciam um só homem, um só corpo, corcovado e imenso.

    Lourenço Cazarré é escritor


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  • A lenta flecha da beleza

    A lenta flecha da beleza


    Gostava do final do ano. Novembro anunciava os meses de férias, época boa para se ler o dia inteiro sem adulto incomodando, pai ou mãe, mandando fazer os deveres.

    Nos dias de sol forte escolhia a calçada da sombra, da estreita faixa de sombra junto à parede, para caminhar até a biblioteca. Ao passar por baixo das árvores, gostava de ver os estranhos desenhos que o sol – varando a galharia – fazia-lhe nos braços. Era como se ele fosse um sujeito tatuado, um pirata dos mares do Sul.

    Toda segunda-feira, depois do almoço, saía de casa para a fornalha da rua. Com dois livros debaixo do sovaco, olhos cravados no chão, pensava às vezes: quem me vê logo percebe que eu sou um intelectual.

    Cruzava sucessivas ilhas de luz e de sombra: calçada, árvores, calçada, marquises, calçada, postes, calçada, toldos, calçada, tabuletas.

    Chegando ao centro da praça, detinha-se por uns minutos no chafariz para admirar os negros peixes de ferro que esguichavam pela boca escancarada e os peixes vermelhos que, sinuosos, brincavam de pega-pega na água verdolenga do tanque.

    five koy fishes

    Dali podia ver a fachada imponente da Biblioteca. Uma fábrica silenciosa. Era assim que ele gostava de pensar: uma silenciosa fábrica de histórias interessantes. As estantes e mesas eram as máquinas. Os livros eram a matéria-prima. Os leitores eram os operários.

    Deixando o chafariz, dirigia-se ao banco da praça que ficava bem na frente da Biblioteca. Sempre que estava por ali, fazendo hora até que fosse aberto o portão, ficava observando o bando de gurias reunidas diante do velho edifício. Era muita guria bonita junta num só lugar.

    De quando em quando seu olhar era atraído para uma das retardatárias que atravessavam a rua correndo sem olhar para os lados. Vinha-lhe, então, um vago pressentimento: um dia, um auto vai atropelar uma dessas estabanadas.

    Quando a gigantesca porta de madeira maciça era aberta, elas enveredavam pelo corredor que levava ao interior do edifício centenário: dezenas de gurias de saia azul e blusa branca – agitadas, falantes – apertando as pastas escolares contra os seios nascentes.

    Ainda sentado, dando um tempo para que elas se instalassem nas mesas do grande salão, ele fechava os olhos e imaginava o atropelamento de uma delas. Via a guria estirada no calçamento de pedra, os encaracolados cabelos castanhos em volta do rosto pálido, os braços abertos, livros e cadernos espalhados e um fiapo de sangue escapando-lhe pela comissura dos lábios.

    Comissura, gostava da palavra. Ela aparecia em todo livro de aventuras que lia. Sempre tinha uma briga e alguém acabava sangrando pela comissura dos lábios.

    vintage books collection

    No caso da guria atropelada, claro, tinha que haver um pouco de sangue. Bem pouquinho. Se tivesse muito, ficaria nojento.

    Então ele se via correndo até ela. A pobrezinha abria a boca e tentava dizer alguma coisa, mas não conseguia. Lentamente, os olhos dela se fechavam. Pronto, estava desmaiada. Com a vítima nos braços, ele partia correndo em busca de socorro.

    Está certo, ele sabia que não era possível erguer uma garota com tanta facilidade e, menos ainda, sair correndo com ela no colo. Sabia que não se levanta do chão um atropelado. Isso ele aprendera numa aula de primeiros-socorros. A pessoa podia ter uma lesão na coluna ou uma fratura. Um osso quebrado podia, por exemplo, perfurar um pulmão. Morte certa.

    Mas digamos que, apesar de tudo, ele resolvesse correr com a guria nos braços. Bem, para isso, ele tinha de ser um cara forte para burro. O que não era o caso dele. Até que era bastante alto, mas muque não tinha.

    – Tu pareces mais um varapau! – dizia o pai dele.

    Bem, mas e se a guria atropelada fosse bem levinha?

    No dia em que decidiu que seria um escritor quando se tornasse adulto, o guri não atravessou a rua logo depois do sumiço da última menina. Permaneceu sentado no banco da praça, de olhos fechados, reflexivo. E se um dia tivesse que fazer uma redação sobre elas, o que escreveria?

    person holding book sitting on brown surface

    *

                  Uma cidade cheia de gurias.

                  As ruas estão eletrificadas. Gurias são fios desencapados. Se o sujeito trisca na mão delas, recebe uma baita descarga elétrica.

                  Gurias parecem pombas, não param de arrulhar. E falam muito rápido. Mudam de assunto a todo instante. Aliás, as frases delas não têm final. Umas não ouvem as outras. Falam tanto que, de vez em quando, no meio de uma conversa mais acesa, uma delas sente falta de ar.

                  Namoro é o assunto predileto delas. Todas vivem se exibindo, dizendo que os guris andam atrás delas, de joelhos. Até mesmo as mais feiosas. Na escola, durante o recreio, ficam horas e horas falando sobre meninos. Mas ninguém serve para elas. Um é exibido, o outro é nojento. O pior é quando dizem que o sujeito é asqueroso. E mentem na maior cara de pau. Dizem que recebem bilhetes apaixonados. Mentira deslavada. Um piá normal nunca vai se rebaixar a escrever um bilhetinho. Só se for um bocó. As mais descaradas inventam até beijos.

                  Elas não olham diretamente nos olhos da gente. Não encaram nunca. Olham de banda, e depois falam torcendo as mãos úmidas de nervoso. E se movem sem parar, têm bicho-carpinteiro pelo corpo. Parecem estar sempre com muita pressa, mesmo quando nada têm para fazer. Na saída da escola, elas gostam de andar em grandes bandos, falando pelos cotovelos. De braços dados, tomam a calçada toda, da parede à beirada. E saem varrendo. As pessoas têm que se equilibrar no meio-fio.

    Nos meses de verão, quando caminham pelas ruas, as meninas deixam um cheiro bom e um rastro luminoso como…

    woman putting her left arm on her forehead

                  *

    Olhou para os dois lados antes de atravessar a rua. Se fosse atropelado, nenhuma guria viria socorrê-lo. Tem isso: elas gostam que o cara se arrebente por elas, mas nunca juntariam do chão um sujeito machucado, ainda mais sangrando.

    Pelo corredor sombrio, dirigiu-se à portaria, onde entregou à funcionária os livros que havia retirado na semana anterior.

    – Tu és um leitor onívoro – a mulher sorriu por trás das lentes cortadas pelo meio.

    – Obrigado – respondeu.

    Teria de consultar o dicionário para descobrir o significado daquela palavra monstruosa: onívoro.

    De posse da carteirinha de sócio, com a entrega já carimbada, encaminhou-se para o salão.

    Naquele dia ficou inquieto com a presença de tantas gurias por ali. Nem se arriscou a olhar para os lados. Certamente elas estavam de risinhos, as patetas.

    Concentrou-se na escolha dos livros que levaria para casa.

    Em geral, escolhia pelo título. Mas levava em conta principalmente o número de páginas e o tamanho da letra. Livro grosso demais não era com ele. E nem livro de letra miudinha. Se o título lhe agradasse, e se o livro tivesse um número razoável de páginas – digamos, no máximo, trezentas -, ele o abria ao acaso. Lia um parágrafo e já sabia se gostaria ou não. Nunca se enganava.

    Abriu um dos livros mais grossos. Não pretendia levá-lo para casa, claro. Queria apenas se exibir, fazer com que as gurias pensassem que ele era um garoto-prodígio.

    assorted book lot

    Gostou do título daquele capítulo: A lenta flecha da beleza. Começou a ler pensando que fosse uma história de índios. Mas de saída, já na primeira frase, deu de cara com nove vírgulas. Era tanta vírgula que o sujeito ficava tonto, desnorteado, nem sabia para onde a história estava andando. Ah, e tinha muita palavra com mais de quatro sílabas. Tempestuosos, altissonantes, embriagadores. Odiava escritores que abusavam dos polissílabos. Aquele devia ser um livro igual a todos os outros de adultos: a história de um rapaz pobre apaixonado por uma moça rica. Ou vice-versa. Coisa bem chata.

    Abandonando o livrão na prateleira, escolheu quatro ou cinco livros de aventuras, de capas coloridas. Depois, equilibrando-os nos braços magros, dirigiu-se à carteira mais afastada, no cantinho do salão. Só na hora de ir embora, escolheria os dois que levaria para casa.

    Com gestos cuidadosos distribuiu pela carteira os livros, abertos, como via fazerem os estudantes de Medicina ou Direito. Queria que as garotas pensassem que ele era um cara super estudioso.

    Armado o cenário, ele apanhou na pasta os cadernos de matemática e de português. Rapidamente, resolveu cinco continhas e, em seguida, fez uns exercícios vagabundos de análise sintática. Pronto, havia matado o dever daquele dia.

    Não, ele não era muito estudioso. Sempre fazia o dever o mais depressa possível para ter mais tempo de olhar fotos e mapas nas enciclopédias. Era louco por enciclopédias ilustradas.

    Se lhe perguntassem do que ele mais gostava na biblioteca, responderia que era o silêncio daquele lugar. Todos os que entravam ali, até mesmo as gurias mais novas, caturritas de nove, dez anos, logo começavam a falar em voz baixa.

    O silêncio do enorme salão só era cortado de quando em quando pelo estalido das folhas de livros que iam sendo viradas. Ah, claro, também tinha um piado bem fraquinho, irritante, que vinha das gurias, sempre rindo e sussurrando.

    book lot on table

    Mas, naquele dia, terminado o dever, ele não foi à estante das enciclopédias, como costumava fazer. Abriu e o caderno resolvido a escrever a redação que imaginara, pouco antes, quando estava em frente à Biblioteca:

    Nos meses de verão, quando caminham pelas ruas, as meninas exalam um cheiro bom e deixam um rastro luminoso como o de uma lesma.

    Não gostou do final da frase. Aquela palavra – lesma – não era legal. Foi à estante dos dicionários. Depois de consultar o mais robusto deles, um que tinha mais de mil páginas, voltou a escrever:

    Nos meses de verão, quando caminham pelas ruas, as meninas exalam um cheiro bom e deixam um rastro luminoso como o de um molusco gastrópode terrestre, cujo corpo é desprovido de concha.

    Também não aprovou. Era muita palavra difícil em apenas duas linhas de caderno: molusco, gastrópode, desprovido.

    Resolveu escrever um poema. Mas tinha um porém: ele não gostava de poema moderno, desses sem rima, bagunçados. Queria tudo rimado, certinho. Escreveu:

     A menina andarilha

    Nas tardes de verão

    Deixa um rastro na trilha

    Que nos leva ao alçapão

    Ficou melhor, mas incompleto. Porque, pensando bem, gurias não deixam só o rastro. Elas exalam também um cheiro, que é parecido com o de uma flor esmagada pelos pés de uma pessoa distraída. Não, não, o cheiro delas é o da lagoa, na época da seca, quando as águas ficam lustrosas de limo grosso. Melhor ainda: cheiro de pêssego maduro exposto numa banca de feira.

    red apple fruit on four pyle books

    Suspirou e fechou o dicionário.

    Vou ficar louco, se pensar tanto em gurias.

    Levou a mão à testa. Talvez estivesse até com uma pontinha de febre.

    Perguntou-se: onde está o problema?

    A resposta era simples.

    Ele não era poeta. Era um guri que só gostava de livros de aventuras.

    Rasgou a folha do poema.

    Escreveu:

    Era uma vez uma bela garota que cheirava a pêssego maduro. Um dia, quando atravessava a rua diante da Biblioteca, ela foi atropelada por um automóvel que trafegava em altíssima velocidade. Ao vê-la caída ao solo, um jovem intelectual que frequentava a referida biblioteca correu para socorrê-la. Percebendo que ela sangrava pela comissura dos lábios, ele a ergueu com a força de seus poderosos braços e…

    Lourenço Cazarré é escritor


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  • Meia encarnada dura de sangue

    Meia encarnada dura de sangue

    Tudo numa plastada de sangue… tudo manchado de vermelho, toda a alvura daquelas coisas bonitas como que bordada de colorado, num padrão esquisito, de feitios estrambólicos… como flores de cardo solferim esmagadas a casco de bagual!…

    “Contrabandistas”, Contos gauchescos 

    João Simões Lopes Neto


    Pois este meu avô, disse o Poeta, dava a alma por um dedo de prosa. Parece que estou a vê-lo, pequeno, não media mais de um metro e meio, sentado na frente da nossa casa ali no Corredor das Tropas, naquela rua que desce da igrejinha de Nossa Senhora da Luz, com a cuia de chimarrão na mão esquerda, chaleira tisnada na direita, catando entre os passantes apressados do fim de tarde alguém que quisesse jogar fora um pouco de conversa.

    Meninos de canelas embarradas, nós estávamos sempre pela volta, aproveitando a última réstia de sol, ou na calçada, brincando de esconde-esconde, ou no campinho, que demarcamos no terreno baldio. Era só juntar dois ou três ao redor de meu avô que interrompíamos a brincadeira. Para escutar.

    Foi com ele que aprendi a dar valor à conversação. Primeiro aquela lengalenga sobre o tempo, se vai chover, ou fazer frio, e depois as trivialidades – como lhe vai a família? Por fim, quando um dos passantes se mostrava decidido a seguir seu caminho, o velho começava um causo.

    white Chevrolet vehicle parked near building during nighttime

    Meu avô era brigadiano, não sei se já te disse. Passou anos e anos ao relento, sozinho, seja na nossa cidade, seja nas cidadezinhas da volta, atravessando madrugadas frias sem ter com quem trocar um só cumprimento. Porque esses vultos esquivos que vemos pelas trevas da noite, no geral, nada querem com um sujeito de farda, nem mesmo trocar um buenas.

    Por isso, creio, ele tinha aquela quase desesperada necessidade de estar sempre conversando. Sim, porque passava a manhã na venda do Corcunda, dando trela aos que entravam e saíam; e depois da sesta se ia para a barbearia do Português repassar os dramas do dia, do passado, da nossa cidade, de todo o Rio Grande.

    Tinha uma história para cada assunto, muitas para vários: creio que o amor e a morte eram seus temas preferidos, e também as catástrofes inexplicáveis desencadeadas por forças desconhecidas, e honra, dignidade e hombridade, lealdade e amizade, os valores que, dizia ele, estavam desaparecendo de nossa cidade e, de resto, do mundo.

    Então, numa dessas tardes, falavam de futebol. Alguém comentava o dinheiro estúpido que estavam pagando a um porto-alegrense cheio de bossa que gostava de dar chapéus, que driblava o marcador até que se esparramasse sobre a grama, e que arrematava enfiando a bola por entre as pernas do goleiro. Um carrasco!

    O meu avô mateava e sacudia a cabeça, descrente, contrariado, e já aceso para pegar a palavra, enquanto o outro seguia discursando, indignado, porque o tal cretino ganhava mais do que a maioria dos trabalhadores honestos, porque com um dinheirão daquele podiam alimentar umas quantas famílias de miseráveis.

    Aí, quando o outro se calou, o meu velho contou a história do crioulo. Sabia muitas histórias de futebol porque ele mesmo havia sido um jogador, um ponta irritante, daqueles pequenos que são como flechas e que, por não terem nem altura nem força, se obrigam a ser mais velozes e matreiros e mais gambeteiros e mais debochados, para irritar os laterais.

    two boy's playing soccer near building during daytime

    O velho dizia que naquele seu tempo, sim, aquilo era um esporte para homens, porque os juízes só marcavam falta se o cara sangrasse, e só expulsavam o agressor quando o outro ficava estirado sobre o barro, desmaiado. E falava de como eles se cuspiam e davam cotoveladas e socos e como gostavam de esfregar as agarradeiras nas canelas dos outros e demais barbaridades.

    Mas voltemos ao rio, deixemos as vertentes. O tal crioulo foi o primeiro jogador profissional da cidade. Não sei quando, mas creio que pelo meio ou pelo final da década de trinta, porque o meu velho contava que por esse tempo, esse sujo tempo em que os atletas começaram a ganhar dinheiro pela sua arte, ele já estava fora dos campos com os joelhos arrebentados.

    Pois o crioulo jogava pelo Grêmio Esportivo Brasil, o time dos negros e mulatos. O campo deles ficava nos banhados da Estação Ferroviária. Aos dezenove anos, era o maior driblador e fazedor de golos da época. Nem alto nem baixo, era magro como a peste, leve como a brisa e dançarino como as borboletas. E frio. Jogava de olhos abertos, cabeça erguida. Calculista, ele não só queria fazer o golo, como queria também que seu marcador ficasse por terra, e gostava de ver o goleiro esmurrar a grama. Jogava rindo. Conheces o tipo, não é? Não era um sorriso, era mais um arremedo, uma máscara risonha que nada tinha a ver com o que lhe ia pelas entranhas. Ele ria daquele jeito só para enfurecer os adversários, para fazê-los perder a cabeça e começarem a querer matá-lo. Nada pior para o time da gente do que jogadores de cabeça quente. A gente grita que quer sangue – me mata esse filho da puta! – e eles partem para o pau, mas aí o jogador frio dá sempre aquele pulinho para o lado, aquele toque sutil, e ganha a parada.

    Era assim dentro do campo, implacável. Fora, era outra coisa. Um rapaz gentil, tímido, de fala mansa, cerimonioso. Sempre saía do campo de cabeça baixa, como que pedindo desculpas por jogar tanta bola.

    Trabalhava num matadouro. Mas não sei te dizer qual. Ficava para as bandas do Porto. Ele também morava por lá, na ruazinha que corre paralela ao canal e que devia ser naquela época ainda mais triste e suja. Morava com sua mãe, viúva. Durante a semana, gastava o dia dentro daqueles galpões sombrios – iluminados apenas pelo cintilo fugaz dos facões afiados – resvalando pelo chão ensanguentado.

    Era tão hábil com a faca quanto com a bola, dizia o meu avô. O negócio dele era a desossa. Desmanchava um boi em questão de minutos. E não deixava um só fiapo de carne nos ossos. Com a mesma precisão e elegância com que escapava dos coices do adversário, recuando o corpo apenas os milímetros necessários, ele destrinchava os animais.

    Aos domingos brilhava nos campos.

    Depois de perder quatro ou cinco jogos, de enfiada, os dirigentes do Esporte Clube Pelotas começaram a se perguntar se não estariam fazendo uma grande asneira em não aceitar jogadores de cor. E o meu avô dizia: está certo que esses negros são uns mandriões, e eu conheci não mais de sete que gostavam de trabalhar, mas a verdade é que nas safadezas, coisas como serenatas e jogos de bola, eles são bons. Então um inglês, que palpitava muito nas reuniões de diretoria, tanto encheu que acabaram aceitando conversar com o crioulo. Um dos diretores do clube, da família Almeida Guimarães, um cara que tinha tantos contos de réis quanto milhos há numa espiga, disse que cederia ao tal crioulo uma casa velha que tinha lá para os lados da Cerquinha. Se aceitasse o convite, podia morar lá de graça, enquanto servisse ao time.

    Então mandaram alguém falar com o rapaz.

    Moravam ele e a mãe num rancho de paredes vacilantes e teto de palha. Muitas vezes, nas cheias do rio, tinham que botar os trastes nas costas e sair para a casa de uns parentes, nas Terras Altas. Baixava a enchente, lá vinham ele e a mãe de volta. Mas não foi isso que o decidiu.

    Ele demorou muito para aceitar. Não que estivesse negaceando, como fazem esses jogadores de agora para ganhar mais uns trocados. Não! Gastou dois ou três meses pesando os prós e os contras porque sabia que a partir do momento em que concordasse em jogar pelo Pelotas não seria apenas mais um crioulo: seria o crioulo vendido. E o meu avô dizia: a gente de hoje não tem ideia do que se passou pelo coração do coitado, que nem mais dormia direito pensando no que fazer. Naquele tempo o valor dos homens era medido não pelo dinheiro que tinham, mas pela capacidade de manter a palavra empenhada.

    Por uma mulher, decidiu-se.

    Essa negrinha, que trabalhava numa casa de família, no centro da cidade, pesou mais que a honra ou o orgulho que ele pudesse ter. Se ficasse no seu time do coração, teria apenas os aplausos e os abraços de homens tão pobres quanto ele, ou mais, num desses melancólicos finais de tarde de domingo que trazem não só tristeza e neblina mas também a desesperada perspectiva de mais uma semana de trabalho duro.

    Nas incontáveis noites mal dormidas, sonhou com a casa da Cerquinha que já visitara, numa manhã de domingo, sentindo no braço esquerdo dobrado a pressão mais forte dos dedos da namorada, sonhou com a casa e se viu dentro dela, e fora, na soleira, dedilhando o cavaquinho, que ainda não possuía, numa noite de lua. Chegou a escutar o vagido de um anjinho que ainda não nascera. Sonhou, com um misto de orgulho e desvanecimento de proprietário, que passava as trancas nas portas e que se deitava ao lado da mulher, e que adormecia, como um homem normal.

    Aceitou. Aceitou porque se não aceitasse teria de continuar morando naquele casebre. E, como passaria a ocupar com a mulher o único quarto, sua mãe teria de dormir na sala, a sala cheia de goteiras.

    Disse que sim ao terceiro emissário.

    Faltava uma semana para o jogo.

    O tal inglês encarregou-se de espalhar o fato aos jornalistas e eles não pouparam nem tinta nem papel para execrar o mulato, para colocá-lo lado a lado com os flagelos da humanidade: Átila, Solano Lopez e todos aqueles caudilhos argentinos e uruguaios.

    Não teve mais paz. Não por causa dos jornalistas, pois os jornais não chegavam àquele canto da cidade, mas por causa dos risinhos, das piadas e das ofensas pesadas dos colegas de matadouro, mulatos e negros como ele. Esse era o desprezo que lhe dizia respeito.

    Aí ele perdeu a confiança em si mesmo, disse meu avô. Aquela mão que jamais havia tremido agora jogava a faca contra os ossos. E ele que nunca afiara o facão sem ter desmanchado uns três ou quatro animais precisava afiá-lo seguidamente.

    Sentia-se triste e solitário, acabado.

    Tinha o carinho da mãe e os afagos da namorada, mas a vergonha, que era muita e doía tanto, ele não poderia compartilhar com ninguém.

    white and blue soccer ball on green grass field during daytime

    O jogo seria no domingo.

    O acidente deu-se no final da manhã de sábado, quando estavam por fechar. Os outros já tinham saído, mal tocara o sino, mas ele ainda estava lá, sozinho, trabalhando. Não poderia acompanhá-los até o bolicho para a cachaça de todo o sábado porque sabia que não mais tinha mais direito a um lugar na beira do balcão. Não ouviria nem contaria piadas. Nem cantaria aquelas marchinhas. Não mais teria o direito de pedir emprestado o cavaquinho ao dono do boteco. Estava acabado para ele, era um vendido.

    Creio que foi uma lágrima, dizia o meu velho, que causou o acidente. Ele não dominava a faca como antes e aí, no instante em que a lágrima lhe toldou a visão, ele perdeu o comando da mão.

    Estava desossando uma carcaça no chão, como gostava de fazer, sobre a laje ensanguentada. Usava não só as mãos, mas também os pés descalços, para firmar a ossamenta. Quando a faca escorregou, ele não sentiu nada além de uma pequena ardência, quase uma cócega, na parte de dentro do pé esquerdo. A faca escapara e correra ao longo de todo o seu pé, do dedão ao calcanhar, abrindo um talho comprido. No primeiro instante, achou que tinha sido coisa pouca, mas então o sangue começou a manar, grosso, vermelho.

    Sozinho no pavilhão, ele escutava apenas o roçar da vassoura do negro velho que fazia a limpeza do pátio.

    Correu ao seu armário e pegou as botinas. Felizmente tinha vindo com elas. Quero dizer, viera com as botinas que usava nos sábados porque ao levantar, naquela manhã, não se dera conta de que era um homem marcado e que, por isso, não poderia ir para a cachaçada. Calçou-se. Rapidamente acabou o trabalho, sem se preocupar com o fio da faca, sem atentar para as pelancas grudadas nos ossos. Precisava ir embora logo. No vestiário, ao tirar o avental, notou que o sangue já escapava por entre os cadarços. Voltou ao pavilhão, tirou o calçado e verteu o sangue sobre a laje. Observou o ferimento: perdia sangue ainda. Lembrou-se de fazer um torniquete: pegou uma guasca. Tinha prática naquilo, não passava mês sem que alguém se cortasse feio. Ao sair, levava no bolso um pedaço de tripa seca. Já sabia o que teria de fazer. Na calçada, piscou os olhos para a luminosidade baça do dia e saudou o carroceiro que levaria a carne ao Mercado, mas não teve resposta. Aliás, o negro, acintosamente, virou-lhe a cara.

    Foi direto para casa. Almoçou e deitou-se, mas sem tirar as botinas, e manteve o pé sobre a guarda da cama.

    A mãe dele saiu do quarto com a sombrinha pendurada no braço:

    – Por que tu tá desse jeito, com as perna pra cima, se recém almoçaste?

    – Pra descansar os músculos, mãe. Amanhã tem jogo.

    – É, mas isso deve de fazer mal pro estômago. Tem tempo, faz isso mais tarde.

    – A senhora vai sair?

    – Sim. Vou benzer o filhinho da Matilde. O guri anda com a barriga floxa faz uma semana.

    Quando sua mãe saiu, ele calculou que teria meia hora no máximo. Levantou-se, pegou a bilha e verteu água na bacia de latão. Foi depois para baixo da bergamoteira florida, no pátio,

    Lavou o pé. O ferimento já não sangrava. Voltou à sala. Procurou no guarda-louça o caixote de marmelada no qual sua mãe guardava as coisas de costura. Escolheu uma agulha que servia, de furo largo. Pegou debaixo do colchão sua faquinha afiada e com ela tirou um tento da tripa, fino que nem barbante. Meio metro, mais ou menos. Daria. Então costurou o lado do pé, do dedão ao calcanhar. Uma costura bem apertada. Guardou a faca e recolocou a caixa de marmelada no guarda-louça sem portas.

    Calçou as botinas.

    Lembrou-se então da bacia suja debaixo da árvore. Correu até lá. Chegou justamente a tempo de jogar a água em cima do canteiro porque sua mãe já estava entrando pela cozinha. Passou a mão para limpar uns poucos respingos vermelhos.

    – Ué, já tomaste banho? Tão cedo?

    – Não, mãe, eu só lavei as mãos e o rosto.

    – Tu tá meio esquisito, hoje, guri!

    – É, tô preocupado com o jogo de amanhã.

    – É o que eu sempre digo: não tem bicho mais burro que homem. Durante a semana passam se gastando lá no serviço e no fim de semana, que Deus fez pra gente descansar, se metem na gandaia com as sem-vergonhas ou na cachaça. E agora, pra piorar, ainda tem esse tal de jogo de bola. Mas burras mesmo são as mulheres, que nunca deixam de parir outros homens.

    a person laying in bed with their head on a pillow

    Ele deitou-se e afundou num sono pesado, inçado de pesadelos. Sonhou que estava em campo, mas que não conseguia correr porque não tinha mais o pé esquerdo. E pela volta, por trás da cerca, homens riam e debochavam e gritavam: aí, perneta vendido, agora mesmo é que eu quero te ver fazer um golo.

    Foi acordado pela mãe, à tardinha.

    – Tá na hora do banho.

    – Não vou tomar banho hoje, mãe.

    – Ué, por quê? Deste agora pra relaxado? E a tua noiva, o que vai dizer?

    – Não vou até lá, mãe. Tô meio cansado hoje.

    – Não é nada disso, guri. Vai ver que tu brigou com ela! Alguma coisa tu tá tentando me esconder, mas eu vou descobrir porque a mim tu não me engana. Eu te conheço desde que não tinhas dentes e fazias cocô preto. Não te esquece que eu te fiz dentro da minha barriga. Sei tudo de ti, até mais do que tu mesmo. Agora, anda tomar banho antes que eu te meta a vara de marmelo.

    Quase não dormiu naquela noite. Só fechou os olhos quando viu, por entre os postigos, a chegada do sol, que nascia lá para cima, na lomba da Quinze.

    Almoçou cedo e saiu para o estádio. Teve sorte porque um carroceiro lhe ofereceu carona. Era um mulato claro que não parou de falar todo o trajeto. Pedia-lhe golos, muitos golos, porque o negócio era arrebentar com os almofadinhas da Avenida. Foi em silêncio, calado, porque não poderia dizer que faria golos, sim, muitos golos, mas que esses golos seriam para o time dos almofadinhas da Avenida.

    Pediu ao carroceiro que o deixasse a uma quadra do campo. O homem insistiu, queria ter o prazer de levá-lo até o portão. Não! Que parasse ali mesmo. Precisava passar antes na casa da namorada, mentiu.

    Desceu e fez o resto do caminho a pé. Meio às tontas procurou o portão de entrada dos sócios e atletas, onde jamais negro ou mulato algum havia pisado, a não ser os faxineiros, e, embaraçado, teve que dar uma longa explicação ao porteiro, um sujeito de bigodes de pontas reviradas. Estava nisso quando foi abraçado por um senhor muito alto, com jeito de alemão, que o arrastou até os vestiários e gritou para os homens seminus que ali estava o novo companheiro, o grande craque. Procurou um canto de banco, onde estava mais escuro, para tirar a roupa. Tinha vergonha em mostrar sua nudez marrom a todos aqueles brancos. O mesmo sujeito claro voltou, falando alto e gesticulando, e o rapaz demorou a entender que ele queria saber o número do seu pé para lhe dar chuteiras novas. Agradeceu. Disse que jogaria com as suas, velhas, desbeiçadas. O homem dos olhos azuis riu, disse que sim, mas que, pelo menos, era preciso dar um brilho nelas. E ordenou a um negrinho, que estava sentado em sua caixa de engraxate, que lustrasse aquelas chuteiras acalcanhadas.

    gray steel locker room inside the room

    Como se vindo de outro mundo, distante, chegava-lhe aos ouvidos o zunzum do próprio vestiário, marcado aqui e ali por risadas nervosas. Lento, renitente, sem olhar para os lados, envergou a camiseta amarela que desde menino se acostumara a repudiar.

    Percebeu, quando o engraxate ergueu para ele uns grandes olhos cheios de uma luz negra, que o menino tinha visto o enorme talho costurado com tripa. Colocou o pé direito sobre o esquerdo enquanto vestia as meias brancas. E depois permaneceu cabisbaixo enquanto o guri lhe lustrava as chuteiras.

    – Vai doer muito, seu moço.

    – Cala a boca, moleque! Cuida do teu trabalho!

    O menino continuou a lustrar, levantando de quando em quando os olhos para o jogador.

    – Tá pronto, seu moço.

    Então, espantado, ele viu o garoto se abaixar e beijar o bico reluzente da chuteira.

    – Não importa de que lado o senhor vai jogar. O que interessa é que o senhor é que vai fazer os golos.

    Então houve um lampejo, e apenas pelos olhos eles se entenderam: caminhavam contra o vento e o frio em uma interminável procissão de corpos vergados e rostos escuros, um atrás do outro, campo fora, tendo como destino lugar nenhum.

    two pairs orange-and-black Umbro shoes

    O que mais eu lhe posso dizer, meu amigo, perguntava meu avô neste ponto da narrativa. Pouca coisa, respondia ele próprio. Só que o mulato fez uma festa. Marcou três. E olha que os caras bateram nele! Saiu com os olhos escondidos debaixo de inchaços, um talho no supercílio. Apanhou muito dos seus antigos companheiros, mas em momento algum pediu para sair, como fazem esses frescos de hoje em dia. Foi até o apito final. E esbanjando categoria. Parecia um toureiro se esquivando daqueles animais furiosos. E dava chapéus neles, bola pelo meio das pernas então era mato! E os caras chutavam não a bola, ele, e ele só dava de banda, e a chuteira passava. Três golos, sabe o que é isso?

    Foi o último a deixar os vestiários porque não queria que lhe vissem a meia empapada de sangue. Naqueles tempos eles próprios tinham que arranjar quem lavasse o fardamento. Saiu do estádio sem que ninguém, além do engraxate, tivesse descoberto seu segredo.

    E como não queria que mais ninguém soubesse, especialmente sua mãe, foi até a casa onde trabalhava sua namorada e por sobre o muro, no fundo do pátio, entregou a ela a meia encarnada, dura de sangue seco, como uma espécie de dote, penhor, hipoteca.

    Lourenço Cazarré é escritor


    [1] Pode ser uma imagem extremamente desagradável para quem, como eu, detesta cãezinhos; mas que lá estão sempre limpinhos e escovadinhos, isso é indiscutível que estão.

    [2] Note-se que este “veiculo” tanto pode ser um pequeníssimo Smart como um colossal camião de caixa aberta todo pingado das obras. Não há volante que a Celina não maneje.

    [3] O meu galo de briga da Malásia, e melhor amigo do Sebastião.

    [4] Quando as pessoas se preparam para votar num Partido ao qual desconhecem o nome da Cabeça de Cartaz, digam-me se as coisas podiam estar piores.

    [5] Liberdades poéticas, claro.


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    Nascemos em Dezembro de 2021. Acreditamos que a qualidade e independência são valores reconhecidos pelos leitores. Fazemos jornalismo sem medos nem concessões. Não dependemos de grupos económicos nem do Estado. Não temos publicidade. Não temos dívidas. Não fazemos fretes. Fazemos jornalismo para os leitores, mas só sobreviveremos com o seu apoio financeiro. Apoie AQUI, de forma regular ou pontual.

  • Que Camões nos proteja!

    Que Camões nos proteja!

    Informa-me um amigo português que um jornal daquela terra de navegadores [o Diário de Notícias] vai publicar semanalmente uma edição em “português brasileiro” e que manterá um sítio no qual colocará, todos os dias, notícias de interesse da vasta parcela de brasileiros que por aí vivem.

    Num primeiro momento, leva-se um susto porque se trata de algo que soa estranho. Ou seja, uma empresa noticiosa se propõe a traduzir informações escritas, em tese, na mesma língua.

    Pouco depois, mais calmos, temos que admitir que são grandes as diferenças entre o português europeu e o linguajar brasílico.

    Christ Redeemer statue, Brazil

    A tradução em si já é um baita pepino. Ao se referirem à quase impossibilidade de verter um texto de uma língua a outra sem que se perca parte do sentido original, sentenciam os inventores da pizza: traduttore, traditore.

    Como seria a coisa entre “dois” idiomas que têm o mesmo nome?

    Vamos por partes, como diria o esquartejador no matadouro.

    Imagino que os dirigentes do jornal certamente fizeram estudos sobre a viabilidade dessa empreitada. Torço para que sejam bem-sucedidos!

    Ocorre-me, de início, que duas das nossas maiores diferenças linguísticas vêm do futebol: a divisão entre “adeptos” e “torcedores” e entre “times” e “equipas”.

    Aliás, por falar no esporte bretão, dele vem grande parte do nosso atual intercâmbio: há incontáveis jogadores brasileiros por aí, enquanto por cá pululam os treinadores lusos.

    Nas vezes em que fui a Portugal costumava frequentar as bancas de revistas porque aqui, em Brasília, sumiram. Melhor dizendo: transformaram-se em lanchonetes.

    Por que ia às bancas? Porque gosto de ler jornais e, em Lisboa, podia comprar vários.

    Aqui os impressos estão virando raridade.

    Recentemente, num voo para o Rio de Janeiro, desfraldei um exemplar de O Globo. Na fila dos que entravam no avião, todas as pessoas com menos de trinta anos me olhavam intrigadas, perguntando-se: para que serve essa imensa bandeira (tabloides aqui são raros) de papel borrado?

    Voltando. Nas minhas passagens por Portugal, sempre pensei que deveria haver um sítio jornalístico para os nossos exilados em Lusitânia, que são multidão. Uns 5 por cento da população local, dizem. É muita gente!

    Na base do puro palpite, acho que esses nativos de Pindorama querem, antes de tudo, notícias da sua “terrinha”.

    Mas não será “terrinha” uma expressão privativa dos filhos do país do bacalhau?

    Os brasileiros também precisam muito de notícias sobre o país no qual vivem, em especial dos órgãos públicos aos quais precisam recorrer no seu dia-a-dia.

    Mas quem é o brasileiro que vive em Portugal?

    Quando por aí passei, pareceu-me que o grupo mais numeroso dos brazucas (assim são chamados aqui os que moram nos Estados Unidos) seria o daqueles que, com menor escolaridade, exercem funções mais modestas.

    Percebi que há também muitas pessoas com mais estudo, saídas da classe média, na maioria jovens, que se lançam como empreendedores ou profissionais liberais.

    Há, ainda, uma ala de pessoas de mais idade, quase sempre aposentadas aqui (seriam reformadas aí), que escolhem viver seus anos outonais sem os muitos sobressaltos das nossas maiores cidades.

    Posso imaginar, por fim, que há ricos também, embora as más línguas digam, por aqui, que esses, na maioria, preferem Miami, a Meca Mundial da Cafonice.

    Traduzo: cafonice é mau gosto extremo.

    Os conterrâneos que encontrei por aí elogiavam, antes de mais nada, o sentimento de segurança. Podiam, em Portugal, flanar pelas ruas, mesmo à noite, sem grandes preocupações.

    Eu também pensava o mesmo. Nos anos de 2016 e 2017, quando fui a Lisboa, sentia-me como se estivesse caminhando na minha cidade (Pelotas, 300 mil habitantes, muitíssimos luso-descendentes) no começo dos anos 1970.

    Retornando à edição brasílica do periódico lusitano: 600 mil pessoas formam um belo público-alvo, como diriam publicitários ou marqueteiros tupiniquins.

    Mas quem serão os tradutores? Tudo nos leva a crer que serão brasileiros conhecedores do idioma de Graciliano Ramos. Não sei se lusos, mesmo tendo residido por muitos anos no Brasil, conseguirão trocar o infinitivo pelo gerúndio.

    a large ornate ceiling with a stained glass window

    É missão dificílima.

    Ouvi alguém (um brasileiro, claro) dizer certa vez:

    – Sempre que leio um texto acadêmico rabiscado em português de Portugal tenho a impressão de estar enfrentando um trabalho escrito originalmente em finlandês e traduzido, depois, por um húngaro.

    Não chego a tanto, mas penso, sem ser íntimo de gramáticas e dicionários, que os imensos Machado de Assis e Eça de Queiroz escreviam em uma língua que parecia a mesma. Hoje, sinto que é considerável a diferença entre as duas escritas (no jornalismo, na literatura).

    Publicar, em Portugal, um jornal para os que nasceram na nação dos sambistas, além de ser uma árdua tarefa, certamente será uma grande diversão.

    Que Camões nos proteja!

    Lourenço Cazarré é um escritor brasileiro


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  • A segunda morte de Miguela de Alcazar

    A segunda morte de Miguela de Alcazar


    A primeira publicação de A misteriosa morte de Miguela de Alcazar ocorreu em meados de 1991, quando um amigo de peladas de futebol de salão do Clube da Imprensa, Vicente Sá, poeta e jornalista da área de Cultura, me convidou para escrever um folhetim para o BsB Letras, suplemento literário de um semanário de distribuição gratuita no Distrito Federal.

    Acho que já tinha uns capítulos escritos, mas não estou certo disso. O fato é que me comprometi a partejar um capítulo de umas quinhentas palavras por semana. E foi o que fiz, metralhando de madrugada num computador pré-histórico que me custou uma boa grana. Título da época: Morte no Brasília Palace.

    O primeiro capítulo saiu em 28 de abril de 1991. Depois, vieram 21 semanas, sem pular uma só, até que no dia 15 de setembro apareceu o derradeiro. Tenho todos esses hoje amarelados fascículos nos meus arquivos implacáveis. Para mostrar aos inimigos, se a isso for desafiado.

    Lourenço Cazarré

    Passaram-se uns dez anos e um dia falei a um amigo, Jorge Schelb, sobre o folhetim. Ele se interessou, quis ler. Passei-lhe então uma cópia. Ele leu, ou mentiu para mim que leu, e me incentivou a recuperar aquela historieta, dando a ela mais altura, largura e profundidade.

    Foi assim que, em 2001, o livro começou a crescer. Trabalhei nele por alguns anos, vitaminando episódios, apimentando diálogos e retocando os personagens. Mas sempre me rindo muito porque A Misteriosa morte de Miguela de Alcazar é, antes de tudo, um livro de humor. Ou dito de outra forma: é uma sátira aos romances policiais.

    Confissão de leitor: durante décadas consumi literatura policialesca. Comecei com o belga Georges Simenon, em 1972, quando comprei, numa promoção da Livraria Mundial, em Pelotas, dez volumes protagonizados pelo detetive Jules Maigret. Depois, li os americanos Raymond Chandler e Dashiell Hammett.

    Voltando ao Miguela. Em 2009, com o apoio do Fundo de Cultura do Distrito Federal, o livro foi publicado pela editora Bertrand Brasil. Pelo que sei, não teve lá uma vendagem muito boa. Talvez até se possa dizer que foi péssima. Mas a verdade é que o panfleto teve uma boa recepção por parte da crítica. Guardo cópias de várias dessas resenhas positivas. Para mostrar aos inimigos, se isso eles me exigirem.

    Pois bem, rolaram mais alguns anos e lá por 2017 conheci em Lisboa um escritor português, Pedro Almeida Vieira, autor de romances históricos e crónicas que se passam no Brasil (Assim se pariu o Brasil e O profeta do castigo divino). Encontramo-nos no Chiado, ao redor de um bacalhau, Pedro, Enio Squeff e eu. Enio é um artista plástico gaúcho radicado em São Paulo que ilustrou livros meus e do Pedro.

    Edição original em livro de ‘A misteriosa morte de Miguela de Alcazar’, publicada no Brasil em 2009.

    Algum tempo depois, falei para o Pedro sobre A misteriosa morte. Confessei a ele que nunca havia ficado satisfeito com as frases que inventara para o personagem coadjuvante, o lusitano senhor Joaquim Manoel Batota.

    Mal comparando, o Batota, o gerente de um hotel de Brasília, é feito da mesma matéria-prima que Watson, o auxiliar de Sherlock Holmes.

    Aliás, já que falamos do ajudante, não custa nada dizer algumas palavras sobre o principal personagem do livro, Campestre de Campos Campelo, um jovem jornalista gaúcho recém-chegado ao Planalto Central. Anarquista e debochado, é ele quem narra a confusão que ocorre durante um Seminário Internacional de Escritores Policiais, que não se realizou em Brasília em meados dos anos 1970.

    Voltando ao Pedro. Depois de ler o original, ele decidiu a participar da brincadeira. Mais que isso, eu diria que ficou muito entusiasmado diante do desafio de assumir a grave missão de dar à dicção de Batota a parecença de uma fala realmente lusitana. E de plantar, aqui e ali, flores de sarcasmo português pelo meio de um folhetim tupinambá.

    Seguindo. Pode-se dizer, sem medo de errar, que este é também um romance sobre alguns dos muitos sotaques da língua portuguesa. Título da resenha do poderoso O Globo: “Uma divertida homenagem à literatura”.

    Pois muito que bem, todos os escritores que participam do tal Seminário falam português, com diferentes sotaques brasileiros.

    A russa Fedorova Smerdlova Dornascostasviskáia, por exemplo, fala exatamente como o vigarista cearense – conhecido nos seus anos de degredo na Sibéria – que consertava relógios, no escuro, usando só os cotovelos.

    Primeiro capítulo publicado em 28 de Abril de 1991 no BsB Letras do folhetim então intitulado ‘Morte no Brasília Palace‘.

    Já a inglesa Lady Águeda Christine pratica o mineirês, um jargão no qual a palavra você perde o v. Aliás, os mineiros, quando conversam, ficam o tempo todo girando. “Aí, ela virou pra mim e disse”. “Aí, eu virei pra ela e disse”.

    Já o belga Sim et Nom se socorre do carioquês, dialeto em que os esses deslizam, os erres derrapam e o esse final é trocado pelo x (pronuncia-se doix, treix).

    Vem depois o americano Dax Chamber, conhecedor do gauchês, um linguajar meio espanholado, cheio de metáforas campeiras (quase sempre grosseiras), cujos falantes, em todas as suas frases, metem um bah e um tchê, expressões que não têm significado algum.

    O chinês Foo Li Shi Man fala como um paulistano, ou seja, alguém que chama os outros, o tempo todo, ou de mano ou de meu. Ah, e que pronuncia cinqueinta por ceinto.

    Só agora, passados trinta e tantos anos, vejo que não dei um sotaque específico ao argentino Jorge Luís Bugres. Se o desse, hoje, seria o curitibano, difícil de satirizar porque as pessoas da capital do Paraná pronunciam perfeitamente todas as letras como elas parecem dentro de uma palavra.

    São conhecidas por falarem corretamente a frase “leite quente da dor de dente”, brincadeira que não pode (obviamente) ser reproduzida em um texto (obviamente) impresso.

    Pois bem, agora, durante vinte e duas semanas, se é que a matemática não em engana, Pedro e eu trabalhamos na versão final, que é essa que os leitores do PÁGINA UM tiveram diante dos olhos. Sinceramente, espero que nossos improváveis leitores tenham se divertido tanto quanto nós, ao escrever. Trocando (a trocar) e-mails todas as semanas, fomos afinando a ironia e a zombaria, a mofa e a galhofa. Rindo sozinhos diante do écran (tela) luminescente, destilamos doses de veneno bem maiores que as das edições anteriores.

    Uma das recensões do folhetim policial aquando da sua publicação original em livro.

    Como se sabe, escritores do Brasil gostam de falar mal do seu país tanto quando os portugueses adoram atacar a mítica Terrinha (vide Eça).

    Agora, nos unimos, Pedro eu, para, pela primeira vez na História da Humanidade, apresentar uma novela policialesca escrita por gajos separados por quase oito mil quilômetros de distância. Sim, senhoras e senhores luso-falantes, orgulhem-se: nós saímos na frente. Porque não se sabe de iniciativa semelhante levada à frente por americanos e ingleses, que, como dizia Oscar Wilde, são separados por um oceano e por uma língua.

    Assim como nós, na falta de coisa melhor para fazer, imagino que aqueles que passaram os olhos por essa história deram algumas boas risadas. E, se houve alguém que não soube ou quis apreciar esta obra de finíssimo e sutil lavor, nele daremos, Pedro e eu, como sugeriu Machado de Assis, uns valentes piparotes.


    Leia todos os capítulos de A misteriosa morte de Miguela de Alcazar

  • Eça de Queirós, Rússia e Brasil

    Eça de Queirós, Rússia e Brasil

    Título

    Ecos do Mundo

    Autor

    Eça de Queiroz

    Editora (Edição)

    Editora Carambaia, Brasil (2019)

    Cotação

    20/20

    Recensão

    Um dos maiores escritores da língua portuguesa do século 19 – tinha do outro lado do Atlântico um rival (e adversário?) de idêntico quilate: Machado de Assis -, José Maria de Eça de Queirós (1845-1900) foi também um formidável cronista que por décadas colaborou com inúmeras publicações de seu país e do Brasil.

    A observação implacável dos fatos, calcada em informações idôneas; a construção de perfis de grandes homens públicos; o esquartejamento impiedoso das idiossincrasias de certas nacionalidades e a análise acurada das tendências políticas e comportamentais de sua época; tudo isso – temperado por uma prosa elegante e uma ironia corrosiva – marca as crônicas jornalísticas do criador de Os Maias e A ilustre casa de Ramires.

    Em 2019, a editora Carambaia lançou no Brasil o livro Ecos do Mundo – reunião de 40 crônicas – que nos permite descobrir quanto o trabalho diplomático de Eça certamente contribuiu para que se tornasse o grande articulista que glosou, como fina inteligência e implacável sarcasmo, os principais acontecimentos do seu tempo.

    Essa obra traz artigos que podemos dividir em quatro grandes blocos. No primeiro, temos oito crônicas que fazem referência ao Brasil ou a brasileiros. No segundo, aparecem oito composições sobre a Inglaterra, país no qual o diplomata morou por 14 anos. No terceiro, há mais oito escritos sobre assuntos da França, onde Eça de Queirós atuou por 12 anos. Finalmente, na quarta parte, vêm 16 escritos sobre 13 nações.

    Golpes de tacape

    Ao final da leitura, a primeira pergunta que pode ocorrer ao leitor dos nossos dias é: como Eça de Queirós – ainda que sob pseudônimo – pode escrever o que escreveu sem perder o emprego no Ministério dos Negócios Estrangeiros?

    Sim, porque é incontável o tanto de ferozes e certeiros golpes de tacape que desfere contra civilizações, países, potentados e culturas. Mesmo quando traça um retrato simpático de alguém, como é o caso do Czar Alexandre III da Rússia, Eça não deixa de ser incisivamente crítico.

    “Ora, o Czar é um autocrata onipotente e de uma onipotência sem igual na história, pelo menos na história da Europa civilizada. Mesmo nas grandes civilizações asiáticas, os soberanos não dispõem de um poder tão incircunstrito”.

    Já a fotografia que Eça faz do mais extenso país do mundo é ainda mais vitriólica: “A Rússia é de fato uma velha casa asiática com uma varanda rasgada sobre a Europa… Um pouco do ar da Europa penetra então pela varanda levando o rumor de nossas ideias, de nossas inovações morais. Mas é um ar que mal passa das grades. E quando as portas da varanda se fecham, só há dentro um oriente antigo e muito estranho, que nós não podemos compreender”

    O livro todo

    A inclinação natural de alguém que escreve um artigo sobre Ecos do Mundo é a de pedir ao editor do jornal (hoje, blog) a mera transcrição dos trechos mais surpreendentes, certeiros e divertidos. Ocorre, porém, que esses belos trechos são tão numerosos que, no fim da conta, melhor seria reproduzir o livro todo, crônica a crônica.

    Vamos aqui nos concentrar principalmente na Rússia – onipresente na mídia mundial desde que há cerca de dois anos desencadeou uma “operação militar especial” para “desnazificar” a Ucrânia – e no Brasil.

    Maior que a Europa

    Comecemos por uma análise que Eça faz do trabalho de um jornalista do Times, de Londres, que escreveu sobre vários países da América do Sul, entre eles o Brasil, do qual traça um retrato favorável.

    Transcreve Eça do jornal britânico: “Doze milhões de homens estão perdidos num Estado que é maior que toda a Europa; a receita pública que é de doze milhões de libras esterlinas é muitos milhões inferior à de Holanda e Bélgica; com uma linha de costas de 4 mil milhas de comprimento, e com pontos de uma largura de 2.600 milhas, o Brasil exporta em gêneros a quarta parte menos que o diminuto reino da Bélgica”.

    Mais adiante, o filho de Póvoa do Varzim se refere à Suíça, “que tem dois milhões de habitantes e juntamente os mesmos dois milhões de libras de receita, e vive em condições de prosperidade, de liberdade, de civilização, de intelectualidades bem superiores à tenebrosa Rússia, com seus 80 milhões de libras de receita e os mesmos 80 milhões homens”.

    Populações

    Esses números certamente causam uma grande surpresa nos leitores de hoje porque, como vimos, em 1880 (data da publicação da crônica), a Rússia tinha uma população quase sete vezes maior que a brasileira.

    Porém, enquanto o último censo brasileiro apontou, em 2023, a existência de 203 milhões de habitantes, estima-se que a pátria de Tolstói, Tchecov e Gógol teria agora cerca de 143 milhões de habitantes. Mesmo que possa haver alguma imprecisão nesses indicadores, o certo é em pouco menos de um século e meio a população russa cresceu 80 por cento, enquanto a brasileira multiplicou-se por cerca de 17 vezes. Dito de outra forma: o Brasil tem atualmente a sexta maior população do mundo, enquanto a Rússia fica em nono lugar.

    Aliás, dizem as más línguas que aquilo que os russos mais desejavam, com a guerra que desencadearam em 2022, era incorporar à sua estatística mais 43 milhões de cidadãos (mulheres, crianças e homens ucranianos).

    Economias 

    Ao longo desse tempo, a posição das duas economias também se alterou radicalmente. Nos anos 80 do século 19, a produção russa de riquezas era quase sete vezes maior que a brasileira. Hoje, o Brasil, nona maior economia do mundo, tem um PIB de 2,1 trilhões de dólares, ao mesmo tempo em que a Rússia, a décima-primeira, produz o equivalente a 1,8 trilhão de dólares

    Se nós, brasileiros, temos muitas reclamações quanto ao desempenho do nosso país, que jamais cresce no ritmo que desejamos e consideramos possível, o que podem pensar os russos da sua própria nação?

    O czar mujique

    Eça dedica à Rússia dois longos artigos. No primeiro deles esboça um até generoso retrato do Czar Alexandre III, conservador empedernido que pôs abaixo todas as iniciativas modernizadoras seu pai, Alexandre II, combateu qualquer influência vinda da Europa e agarrou-se firmemente à fímbria do manto da Igreja Ortodoxa.

    Nesse texto, Eça revela que o grande (1m90) Alexandre III preferia a vida familiar à da Corte, veraneava na pacata Dinamarca e pouco frequentava São Petersburgo por medo de seu explodido por uma bomba, como seu pai.

    “Do mujique tinha a robustez enorme e malfeita, o andar bovino, o olhar cismador. Os seus prazeres eram os trabalhos rudes dos homens do campo, em luta com a natureza áspera – desbastar mato, derrubar árvores e rachar lenha”. E, mais adiante, crava um prego: “O imperador substituía a pequenez do gênio pela imensidade da aplicação”.

    Guerras e roubalheiras

    Num dos artigos mais extensos do livro – na verdade, a reunião de seis crônicas escritas entre abril de 1877 e março de 1878, intitulado “Rússia e Turquia” – Eça de Queirós analisa a guerra entre aquelas duas nações.

    Sobram alfinetadas para os dois países em conflito, mas as mais corrosivas são às destinadas aos russos.

    “Outros atos desagradáveis têm sido praticados no exército russo; assim, o comissário-geral dos fornecimentos acaba de ser fuzilado sem processo. Esse funcionário estimável introduziu na farinha uma quantidade de cal que realmente não era possível deixar de lhe meter algumas balas no peito. Uma certa quantidade de cal na farinha, como uma certa quantidade de pau campeche no vinho, são procedimentos razoáveis que dão honra, grandes proveitos e ordinariamente uma condecoração. Mas uma tal porção de cal, que torna a farinha mais própria para pintar paredes do que para fazer pão, é realmente abusivo, e o conselho de guerra foi apenas justo dando àquele funcionário uma disponibilidade… na eternidade”.

    E acrescenta: “As falsificações dos comissários, a vergonhosa qualidade das rações, a insuficiência dos socorros sanitários, a desorganização das ambulâncias, das pagadorias, de tudo; os hospitais apinhados, a imbecilidade visível dos generais – não são condições para aumentar o respeito pelo regime autocrático”

    Talvez relinchando

    A crônica mais hilariante, sem dúvida, vem no bloco brasileiro. Seu título: “Aos estudantes do Brasil: sobre o caso que deles conta Madame Sarah Bernhardt”.

    Deus poupou a divina Sarah (1844-1923) do aprendizado do português porque, caso tivesse lido essa crônica de Eça no original, certamente teria sentido uma forte inclinação para o cometimento de um ato extremado, como o de beber um frasco de formicida. Diretamente no gargalo.

    A grande atriz concedeu uma entrevista tão extensa quanto imodesta ao Fígaro que seu título, segundo Eça, deveria ser: “História da minha missão e da minha influência civilizadora na América do Norte e do Sul“.

    Nela, candidamente, Madame Sarah relata suas viagens pelo mundo. Diz que na sua passagem pelo Canadá “o meu trenó andava seguido e acompanhado por todos os senadores e deputados”. O escritor lusitano deita e rola: “E bem podemos, pois, pensar que as duas câmaras eletivas seguiam Madame Bernhardt funcionando, providas do seu presidente e dos secretários, e da tribuna, e do copo de água…”

    Madame Sarah passa também pela Austrália, onde morre, no palco, em quase todas as peças que interpretava. Registra o português: “De tal sorte que se ela não cessasse de morrer… a Austrália seria hoje uma província da França… onde o último inglês estaria comendo o último canguru à sombra do último eucalipto”.

    Mas o melhor de sua graça zombeteira ele dedica aos brasileiros. Relata dona Sarah que, na sua visita à terra dos tupinambás, “os estudantes arrancavam os sabres e distribuíam cutiladas, porque os não deixavam desengatar os cavalos, meter os ombros aos varais e puxar eles a minha carruagem”.

    Eça descreve o episódio: fecha o tempo na frente do teatro, apresenta-se um policial que quer evitar o ridículo pátrio, mas é ferido pelos estudantes. A esses estudantes o autor se dirige no fecho do artigo: “… depois de duras cutiladas naqueles que vos queriam salvar do humilhante serviço, desengataste as éguas de Sarah, lançaste aos ombros democráticos os tirantes de Sarah, e puxastes a caleche de Sarah, trotando, talvez relinchando!”.

  • Evangelho das coisas ínfimas

    Evangelho das coisas ínfimas

    Então, por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em voz alta: “Elohi, Elohi! Lemá sabachtháni?”, que traduzido quer dizer: “Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonaste?”

    Marcos 15,34


    Eu, o Narrador, vos digo:

    Olhai a grande cidade obscena sob o sol luminoso. Encurralados entre o mar e as altas montanhas de pedra, milhares de edifícios. Apertados uns contra os outros, parecem assustados, mas não têm para onde fugir. O sol no alto do céu azul está a vigiá-los.

    Atentai bem:

    A boca negra da estação do metrô incessantemente vomita pessoas cabisbaixas e apressadas que provavelmente têm coisas urgentes para fazer. Mas o mundo passaria bem sem elas e sem as coisas que pretendem fazer. O sol não se importa com elas, quer apenas fustigá-las.

    Todas as histórias se parecem:

    De quando em quando corre um rápido sopro de ar pelo meio das ruas escaldantes. É como um suspiro que escapasse do peito da grande cidade de concreto. Nada mais que uma breve lufada que dobra a esquina e segue. E, logo, as ruas voltam ao ranço de todos os dias: misto de mijo velho e chope azedo.

    black and white building during daytime

    As cidades não se diferenciam muito:

    Quem consegue vencer o labirinto das ruelas estreitas, pode ver o mar que se estende preguiçoso e verde sob o céu sem nuvens. Na branca areia da praia, meninos e meninas andrajosos dormem amontoados. Por toda a longa noite cataram moedas no asfalto. Agora repousam. Sujos e ainda famintos. Quando acordarem, já levantarão com a mão estendida. Pedindo. Mas também ameaçando.

    A gente é sempre a mesma:

    Entre as altas palmeiras, homens amarram grandes fardos de latas amassadas de cerveja. Milhares de latas. É a fruta que mais dá por ali, seja nos regadios do asfalto preto seja no latifúndio da areia infértil. Dá coco também. Ocos cocos vazios que nada valem.

    Mesmo pesaroso, devo informar-vos que:

    Homens e mulheres passeiam pela grande calçada que separa a branca areia da barreira de edifícios. Aos milhares, velhos quase todos, azafamados. Nada têm a fazer, porém estão sempre apressados. Incessantemente, vão velozes de uma ponta à outra da longa praia. Parecem seguros de que, com essas caminhadas, enganarão a morte.

    Eu, fiscal de ninharias, vos asseguro que:

    A grande cidade movimenta-se também no interior dos edifícios. Pessoas vão de uma peça a outra realizando pequenas tarefas. Falar ao telefone, por exemplo. Preparar um café. Assistir televisão. Estão vivas e é isso que se espera de pessoas vivas: que andem de um lado a outro fazendo pequenas coisas.

    Eu vos alerto, porém, para um detalhe:

    Naquele meio-dia algo viria para sacudir o ramerrão.

    Escutai o meu relato:

    Um homem negro, de uns quarenta anos, nem alto nem magro, estava deitado numa daquelas calçadas sujas. Não era um homem decente derrubado por um mal súbito, como pode ocorrer às vezes. Não! Via-se pelas roupas rasgadas que era um nenhum. Tinha uns poucos fios de cabelos brancos nas têmporas. Ostentava os pés inchados e os calcanhares rasgados dos bêbados. Era, portanto, um dos tantos milhares que dormem naquelas calçadas e nos poucos desvãos onde os síndicos de edifícios ainda não colocaram ferros pontiagudos.

    Eu, auditor de insignificâncias, preciso insistir:

    Havia um homem preto de uns quarenta anos deitado numa calçada sob o sol amarelo. Daria um belo quadro, se ainda existissem pintores. O sereno rosto quase azul, a rala barba, o corpo ossudo por baixo dos trapos. Parecia estar dormindo. Mas, não, ele não estava dormindo.  Isso as pessoas só perceberam depois.

    Eu, praticante da esquecida arte dos contadores de histórias curtas, asseguro-vos que:

    Os que deixavam apressados a boca da estação do metrô tinham que desviar do homem estirado sobre as lajes rachadas do largo. Os que chegavam para pegar o trem também contornavam aquele corpo estendido no chão. Se estivesse morto, certamente alguma alma caridosa se encarregaria de jogar uma folha de jornal sobre ele. Mas o homem estava vivo.

    white and red textile on gray concrete floor

    Como sabeis, meu dever consiste em ajuntar minúcias ridículas:

    O braço esquerdo dobrado é o travesseiro. O braço direito, ligeiramente flexionado, está estendido diante do corpo. Um movimento muito leve, carinhoso, percorre a mão desse braço direito.

    Sim, reconheço que vós não precisais desta parábola:

    Muitos contornam o corpo sem lançar um só olhar para ele porque sabem que, hoje em dia, o que mais há são corpos caídos pelas ruas desta cidade.

    Ouvi, porém, o que tenho a declarar:

    Mas também existe gente curiosa. Uns velhos bem velhos e uns meninos bem meninos que olham o corpo estirado e percebem logo o lento movimento daquela mão. Uns riem abertamente. Outros sorriem. Outros, subitamente chocados, viram o rosto.

    Prestai atenção neste irrelevante pormenor:

    Naquela rua, havia um gato dormindo dentro de uma vitrina vazia.

    Digo-vos mais:

    O homem caído tem os olhos fechados e uma expressão quase beatífica. Seus lábios estão ligeiramente entreabertos de modo que todos podem ver uns belos dentes brancos e, entre eles, a ponta lúbrica de uma língua vermelha. É manso, quase imperceptível, o movimento daquela mão de grossos dedos que vai e vem empolgando o cilindro de carne quente.

    Sim, admito que aqui ninguém precisa de fábulas, no entanto:

    O homem do negro rosto azulado está fazendo amor consigo mesmo. Certamente pensa numa mulher porque seu rosto está como que suavizado por um sorriso. Uma mulher distante no tempo. Uma jovem mulher. E lentamente ele se afaga. Indiferente ao sol e aos edifícios. Sempre pensando numa fêmea. Em certos trechos do corpo dessa mulher. A bunda. Os seios. A racha úmida. A catinga boa que elas exalam quando estão excitadas.

    Concluirei, sim:

    Indiferente às pessoas apressadas e estamos todos apressados , o homem continua a se acariciar. Indiferente a tudo, o preto de cabelos ligeiramente grisalhos nas têmporas permanece deitado no largo da estação executando um movimento muito suave com a mão direita. A mão que acaricia uma parte daquele mesmo corpo. Um movimento muito suave sob o sol inclemente, na calçada, na clareira entre os altos edifícios.

    Eis, filhos de Deus, a moral desta alegoria:

    Muitos se reconheceram naquele movimento triste de mão solitária: o amor que se fabrica a si mesmo, o amor possível.

    Lourenço Cazarré vive em Brasília e é jornalista e escritor, sendo autor, entre outros, dos romances Kzar Alexander, o louco de Pelotas e A longa migração do temível tubarão branco

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  • A movimentada festa dos praticantes de um ofício extinto

    A movimentada festa dos praticantes de um ofício extinto

    Prezado chefe, conforme combinado segue relatório de minha investigação:

    Tendo chegado a este Planeta Terra, mais especificamente a uma cidade chamada Brasília, nos últimos dias do mês de Seu Júlio, de 2023, vi surgir logo uma oportunidade de fazer o levantamento sobre os terráqueos ordenado por Vossa Excelência.

    Foi quando um senhor, cujo sobrenome seria em nossa linguagem marciana algo como Casa dos Fundos, acessou o Google e lançou naquele sistema de busca duas palavras: Preciso sósia. E acrescentou uma fotografia dele.

    People Toasting Wine Glasses

    O diálogo

    Assumindo o aspecto daquele cidadão, apresentei-me a ele e travamos o seguinte diálogo:

    – Para que o senhor precisa de um sósia? – perguntei.

    – Para me representar numa festa.

    – Festa?

    – Sim, amigos reuniram-se e, depois de muito refletirem, resolveram me dar um inusitado presente no dia do meu septuagésimo aniversário: uma festa.

    – Pessoas carinhosas, presumo.

    – Sim, e extremamente criativas.

    – Qual será o meu trabalho?

    – Representar-me na tal festa.

    – O que terei de fazer?

    – Circular entre pessoas sentadas ao redor de mesas e sorrir para elas.

    – Mas o que devo dizer a elas?

    – Nada. Pessoas que vão a festas de aniversário não querem ouvir nada. Preferem falar muito e em voz alta. E beber loucamente.

    – Portanto, posso imaginar que por lá encontrarei alguns chatos.

    – Vários. Diga a eles duas ou três frases banais e complete: preciso circular entre meus convidados.

    – Mas eles, pelo lado deles, não ficarão chateados?

    – Não. Logo pegarão outra vítima.

    – Por que o senhor não vai à festa?

    – Porque me sentiria ridículo!

    – Foi então que resolveu me contratar?

    – Sim, porque seria ainda mais ridículo uma festa sem o homenageado. Seria, como diria Mário Quintana, um velório sem defunto.

    group of people tossing wine glass

    Os retardatários

    No dia seguinte, na hora aprazada, seis da tarde, apresentei-me no local indicado. Permaneci por lá até às três da madrugada, quando a dona da casa, literalmente, varreu para fora os retardatários.

    Os jornalistas

    Pelo que pude depreender, tratava-se de uma festa de pessoas que exerceram um ofício hoje inexistente chamado jornalismo impresso.

    Jornalistas eram pessoas inteligentíssimas, que ganhavam pouco, trabalhavam muito e divertiam-se ainda mais. Produziam diariamente algo que era como um livro, só que de folhas imensas.

    Os jornalistas dividiam-se em duas categorias: os repórteres, que escreviam inverdades sobre políticos honestos; e os redatores, cuja função era deturpar ainda mais aquelas torpes acusações.

    Para executar sua missão, eles se utilizavam de aparelhos chamados máquinas de escrever. Um senhor idoso disse que recentemente levou uma dessas máquinas a uma neta que vive nos Estados Unidos e que a menina ficou realmente espantada:

    – Puxa, vô! Ela até imprime.

    shallow focus photo of black corded microphone

    Os patrões

    Jornalistas eram comandados por patrões, pessoas que eles costumavam roubar quando prestavam conta de suas viagens de trabalho.

    Dou dois exemplos:

    Um jornalista que foi a Manaus e por lá comeu um peixinho de 30 reais num boteco fuleiro apresentou a seu patrão uma nota de 300 reais na qual constava: Bacalhau à Lagareiro.

    Um fotógrafo bastante robusto foi a Buenos Aires e lá comprou dois galos de prata numa loja de artesanato. Quando apresentou a nota, salgadíssima, na qual constavam “dos pollos”, o patrão reagiu:

    – Mas você comeu dois frangos numa só refeição?

    – Veja o meu porte!

    Detalhe sórdido e líquido: Na foto acima está a bebida servida à sorrelfa, à socapa, por trás do balcão, só para os mais chegados ao aniversariante, contratante e tratante.

    Os bêbados

    Quando reunidos, jornalistas preferem contar anedotas sobre seus companheiros de profissão que não tinham controle pleno sobre o ato de ingerir bebidas alcóolicas, pessoas que carinhosamente tratam por “bêbados”.

    Célebre é o caso de um deles que foi a Florianópolis e lá caiu no sono em local inapropriado. Ao despertar, viu diante de seus olhos grossas barras de ferro. E exclamou: “Que merda fiz ontem para estar preso?” Ao levantar-se, percebeu que estava dormindo sobre uma calçada da Avenida Beira Mar Norte e que a grade pertencia a um edifício, que com ela, a grade, procurava livrar-se dos mendigos.

    A piscina

    A festa foi realizada à beira de algo que chamam piscina, uma escavação que contém água, recoberta por uma grade de proteção feita com fios de nylon trançados.

    Durante a festa, curiosamente, caíram apenas duas pessoas (ambas abstêmias!) na tal piscina. Um desatento jornalista esportivo cruzou-a rapidamente, em ângulo oblíquo, tropicando sobre a grade de proteção. Teve ali, disse ele depois, a ideia para uma nova competição olímpica.

    O outro jornalista não chegou a atravessar a piscina. Deu apenas meia dúzia de delicados saltos acrobáticos, de rara beleza plástica, sobre a tela de proteção, mal molhando os sapatos.

    As bebidas

    Jornalistas, aparentemente, gostam muito de beber. Os mais idosos, que eram numerosos, davam preferência a uma bebida insípida, incolor e inodora chamada “água”. A maioria, porém, inclinava-se por um suco escuro servido em taças bojudas. A minoria dedicava-se a um líquido amarelado que era retirado de garrafas vermelhas. Essa última espécie me pareceu a mais sedenta.

    Os pelotenses

    A mesa que mais me chamou a atenção era aquela na qual estavam pessoas que se consideravam realmente especiais, mais cultas e civilizadas. Eram oriundos todos de um lugar chamado Pelotas.

    Havia um chamado Karl Edward, que se apresentava como Príncipe da Pomerânia, e outro que se dizia Kzar de Leningrado, Serguei Narigovitch. Um outro era plebeu, porém milionário, chamado Joseph Cross, o Lorde das Cidades Satélites. Nessa mesa havia um cidadão que não quis me declinar seu nome. Disse-me apenas: “Sou O Empresário Paulista”. O mais jovem daquela mesa sussurrou: “Não, eu não sou, como andam dizendo por aí, O Novo Tubarão Branco”.

    Lourenço Cazarré vive em Brasília e é jornalista e escritor, sendo autor, entre outros, dos romances Kzar Alexander, o louco de Pelotas e A longa migração do temível tubarão branco


    Nota do autor:

    Embora não seja comum o autor dizer de onde tirou a ideia de escrever uma crônica (na minha época, em Pelotas, dizia-se: quem explica é porteiro de boate), resolvi dar aqui um breve esclarecimento:

    Odeio aniversários, em especial os meus. Sabendo disso, meus filhos resolveram comemorar o septuagésimo. Chamaram inclusive pessoas de lugares distantes. Quando soube, fiquei furioso. No tal dia, quase não fui à festa. Mas acabei cedendo ao choro da minha mulher. Lá o vinho tratou de acalmar-me. Como a maioria dos convidados era jornalistas com os quais trabalhei nos anos 1970 e 1980, resolvi vingar-me deles.