Ontem à noite
– Não dá. O que o senhor está me pedindo para fazer é imoral.
– Imoral? Como assim? Dona Rosa me disse que o senhor fez muitos trabalhos desses.
– Fiz. Mas esse, do jeito que o senhor quer, não faço.
– Pago o que você quiser!
– Não é questão de dinheiro. É de consciência. Finalizar um cidadão sem saber o motivo…
– Suicídio.
– O quê? O cidadão quer ser morto? É pior do que eu pensava.

Hoje
O grande silêncio final. Os espaços vazios de gente. Isso só encontramos do outro lado.
Antes de dormir, enrodilhado, escutei a chuva caindo mansa sobre as telhas. Depois, o delicado gorgolejar da água nas calhas.
Ao despertar, fiquei deitado por um bom tempo escutando a inteira sinfonia do canário.
Chuva e canário. Os bichos todos do mato. O vento nas árvores. São muitos os sons da solidão.
Pensei assim: tenho de levantar e escrever uma história, a última.
Quase desisti. O mundo está cheio de histórias. As bocas estão cheias de palavras.
O melhor que tenho a fazer, pensei, é botar a roupa e sair para o vazio trabalho honroso de todo dia.
No frio das manhãs, eu me visto. Todo dia, o terno, a gravata. Remédios. Óculos. O carro. Ruas. O trabalho.
Mas hoje não. Não mesmo.

Enquanto bebia o café, eu me perguntei: não tens medo?
Não. Acho que não. Quero dizer, não sei. Eu penso assim: as pessoas olham a morte de frente, com seus próprios olhos. Por isso, têm medo. Mas eu estarei de costas para ela. Eu me apagarei como chama de vela em dia de tormenta assim que a janela é arrombada pelo vento furioso. Um ponto final. A morte é um problema exclusivo dos que ficam. A trabalheira para se livrar daquele ser que não mais respira.
Depois eu me disse: desiste dessa insensatez, vai trabalhar, vai pôr um tijolo no meio do deserto, que é o único que sabes fazer.
Ontem à tarde
– Terás um tanto de horas para escrever. Ou um dia inteiro, tanto faz. Senta-te diante do computador e escreve. Escreve feito um louco. Escreve o que te der na veneta. Do jeito que vier, sem polimentos. Uma coisa selvagem. Violência e morte. Se tiver sexo, melhor. Com perversões, melhor ainda. É isso. Mas não será uma operação fácil, depois, projetar-te. Eu te digo: tu és um burocrata anódino, sem charme. Assim, me darás um trabalhão. Mas eu vou pensar em alguma coisa louca para ti. Depois, se fizeres como eu mando, tudo sairá bem. As pessoas vão te ler. Finalmente, lerão os teus escritos. Eu te juro. O abstruso. É isso que elas querem: o bizarro, o insólito. Não, não estou me referindo ao que escreves. Precisamos descobrir algum gancho na tua vida, entendes? Uma esquisitice. Uma anomalia. Uma tara.

Hoje
Eu queria dizer tantas coisas e agora só me ocorre falar do canário e do frio que está fazendo nesses últimos dias. O frio é como uma parede que se move conosco. O canário é toda uma orquestra. Compõe, rege e toca todos os instrumentos amarelos.
Nós somos assim mesmo. Quero dizer, eu não sei se devo falar em nome de todos, mas a verdade é que nossas bocas estão cheias de palavras. Um estoque considerável de frases feitas, acumulado ao longo dos tempos. Fazemos tudo que considerávamos errado há trinta anos. Somos hoje cínicos senhores grisalhos.
Ontem à tarde
– Tu não podes alegar que és um estranho no ninho. Não. Tu entendes muito bem dessas coisas. Mas insisto: não tem mistério, é só deixar por minha conta. Vou nos lugares certos. Falo com as pessoas certas. Eu digo a elas: tenho uma bomba. Abrirão espaço na hora. Jornais, emissoras de televisão e rádios. Em seguida, entramos na rede. Mas é preciso bolar algo que seja realmente impressionante…
Ontem à noite
– Pago mais. Quanto?
– Não é questão de dinheiro. Nunca fiz assim, pelas costas.
– Como, não? Dona Rosa me disse…
– Não desse modo. Eu chego pela frente, olho no olho, e meto a faca.
– Faca, não! Revólver.
– Revólver faz barulho.
– Mas a casa é afastada! No meio do mato! Não há vizinhos pela volta.
– Meu negócio é peixeira.
– Deve doer muito.
– Nem dói, eu acho. O que pega mais é o desespero da vítima quando vê o sangue.
– Tem que ser revólver.

Hoje
Ao recolher a gaiola do canário, lembrei que antigamente as pessoas sentavam-se em cadeiras, nas calçadas, para olhar a lua e as estrelas.
Veio-me, então, uma ideia maluca. Que bom seria se todos nós, calados, cruzássemos os braços no mesmo momento, no mundo inteiro! A imensa calmaria. O mundo afundaria no silêncio e na imobilidade.
Decidi que começaria essa revolução, imediatamente, por mim mesmo. Então me deitei de costas no chão do alpendre e fiquei observando o céu preto.
Agora, aqui, estou escrevendo talvez mais depressa do que deveria.
Ontem à tarde
– Não tens mesmo um caso escandaloso? Adultério. Pedofilia. Um desfalque. Serve tudo. É como eu te digo: no mundo de hoje o sujeito não pode ser um qualquer. Ele precisa de um diferencial, como um produto. Se não tens, eu te arranjo um. Sou profissional, invento um diferencial para ti. O nosso tempo odeia os iguais e os anônimos.

Hoje
Pensei em escrever um poema. O elogio da preguiça. Cantar os que cruzam os braços, os que fazem de seus braços travesseiros para melhor apreciar o tráfego das nuvens.
Desisti do poema e disse em voz alta para mim mesmo: não volto a botar aquele terno, aquela gravata.
Ontem à tarde
– Nós, os espertos, sabemos tudo e mais um pouco. As sacanagens todas. As grossas bandalheiras. Em suma, dominamos a matéria-prima. Nós somos aqueles que comem mais do que podem digerir. Construímos de dia, desmanchamos de noite. Sabemos que não vamos a lugar nenhum, mas continuamos caminhando. Estamos em permanente combate nesta guerra civil. Metemos o bico para fora da porta de noite? Paramos o carro no semáforo? Socorremos uma velha atropelada? Bem, voltando ao coração do meu discurso: tu precisas tomar uma decisão louca. Por exemplo, mete uma bala na cachola! O que não pode acontecer é ficares parado feito um marco de estrada. Tens que abandonar essa segurança de natureza morta… Antigamente, havia um ditado: falem bem ou mal, mas falem de mim. Mudou, hoje é: falem mal de mim. Ninguém quer ouvir falar bem de ninguém. As pessoas todas querem o escabroso. O podre. Esse é o coração da nossa época. Enlamear-se com o sujo. Com o asqueroso, o assustador. Andas fazendo o quê?
– Bem, eu escrevo.
– Isso eu sei. Li uma notinha em algum lugar. Que merda é essa de escrever? Para que serve? Ninguém quer saber mais de escritos. As pessoas querem imagens e sons. Ler cansa, dá dor de cabeça. Não se pode ler num carro, entendeu? Nem mesmo no ônibus, desloca a retina. Livros não passam na tevê. As pessoas que realmente interessam rodam sozinhas nos seus automóveis. Há os que os que andam de ônibus, mas esses são descartáveis. Só existem para consumir música brega.

Hoje
A nuvem negra decretou: tu, que não tens filhos, que não legaste tua miséria ao mundo, tu que foste abandonado pela única mulher que amaste, tu que nunca tiveste amigos, tu que malbarataste teus anos em um emprego idiota, tu estás pronto para morrer. Tu és uma ilha desabitada.
Ontem à noite
– Não confio muito no senhor. Pode ser arapuca?
– Que tipo de arapuca?
– Sei lá. Caso de mulher. Isso é o que mais tem: corno querendo se vingar.
– Tudo que eu disse é verdade. Você entra, faz o trabalho, apanha o dinheiro e sai. O lugar é deserto, eu lhe asseguro. E, se quiser, você pode até pegar alguma coisa que lhe interessar…
– Nunca fui ladrão! Meu negócio é outro!
– Calma! Não quis ofendê-lo.
– Tem gente aí que faz qualquer coisa por dinheiro. Não é o meu caso.
– Você está certo. Faça o seu preço.
– Mas a coisa ainda não está toda explicada. Quem é esse homem que eu devo matar pelas costas? É figurão?

Ontem à tarde
– O que a experiência me ensinou? A maioria dos leitores gosta mesmo é de histórias de amor. Depois vêm os que preferem novelas policiais. Quanto mais violentas, melhor. Há também gente que se interessa por romances históricos. Vendem bem os livros que contam a saga de famílias cujos ancestrais vieram da Europa: portugueses, italianos, alemães, árabes e judeus. Agora, os mais politizados se interessam por obras que tratem da formação do nosso povo tão caloroso e gentil, embora sofrido.
– Não, eu não escrevo esse tipo de coisa. Trabalho só com fragmentos, estilhaços e retalhos. Ensinamentos: zero. Valores: nenhum. Escrevo relatos desconchavados. Sem moral da história.
– Isso não interessa. O que não correu pelas redes e não passou na tevê não existe. Eu não acredito que um sujeito como tu, com essa carga de anos no lombo, ainda não tenhas entendido isso. Imagem! És jornalista, ou foste, tanto faz, dá no mesmo, devias saber. Ninguém lê. Os jornais só trazem fotos. E um pouco de lixo ao redor. Uma imagem impressionante e um texto curto ao lado. Ninguém tem tempo. Ninguém quer ler nada. O homem é o único ser preguiçoso que se mantém vivo na natureza. Sou publicitário, sei bem disso. Frases com cinco palavras: isso é o máximo que as pessoas aguentam.

Hoje
Meu mundo acabará logo, eu disse à grama do jardim. Era um mundo pequeno, que funcionava com umas duas operações: ler e escrever. Mas houve um tempo em que amei uma mulher, ela ficou grávida, perdeu o bebê e percebeu que não gostava mais de mim. Sumiu. Os anos passaram a voar com asas de condor. As pernas abertas das mulheres eventuais. As páginas dos livros abertos. Tudo se sucedendo vertiginosamente. Há uns poucos anos, construí esta casa no meio do mato. O asfalto ficou a cinco quilômetros daqui. Eu, porém, estava enganado. Não existe o silêncio imóvel. Os animais do campo são tão barulhentos quanto os homens. E ainda preciso viajar à cidade todos os dias para trabalhar. Eu sou um fingimento enganoso.
Ontem à noite
– Fechado! Farei o serviço. O senhor é um cidadão muito insistente.
– Eu lhe agradeço.
– Não precisa. Pague.
– O dinheiro estará lá.
– E na casa, tem cachorro?
– Não.
– Nunca vi casa de roça sem cachorro!
– Não gosto de cachorro.
– Como? Quer dizer que a casa é sua?

Ontem à tarde
– Nunca falo o que penso. Digo apenas o que me mandam dizer. Pode-se dizer que eu vendo vento. Porém, se fosse sincero, o que nunca fui, eu diria o seguinte: Estamos marchando para o caos. Não tenham filhos! Não haverá emprego para eles, assim como não há para vocês. Logo, a guerra civil ficará mais acesa e todos vocês perecerão. As casas serão soterradas por toneladas de grades. Os cães de guarda serão cada vez maiores e mais ferozes. Esta cidade está condenada à extinção. Raios vermelhos consumirão tudo o que vocês criaram, essa miragem toda.
Hoje
Vesti-me na frialdade da manhã. Eu poderia dizer isso de outra maneira, mas sou um escritor. Vesti-me na frialdade da manhã. Não o terno de todos os dias e a gravata – traje do insensato ritual diário. Uma calça e uma camisa, honestas. Um homem comum.
Nunca mais irei à cidade, eu disse ao espelho. Preciso dar vida – ou morte, melhor dizendo – a uma história, a história que aqui estou escrevendo.
Só ontem, no meio da tarde, ao sair do alto edifício de janelas brilhantes, percebi que a cidade está vazia de gente. Quando o vertiginoso elevador me transportou do último andar ao térreo, suas paredes de vidro me permitiram ver o mecanismo que movimenta a cidade: os giros incessantes do nada.
A vida está escondida nos breus, eu pensei, nos desvãos. A vida é inencontrável.

Ontem à tarde
– Vieste, enfim, procurar os meus serviços profissionais?
– Não! Estava só passeando.
– Mas eu precisava falar contigo. Dar-te alguns conselhos. Li em uma notinha de jornal que andas escrevendo um livro. Foi Deus quem te mandou até aqui. Precisas explodir na mídia. Olha o meu caso: cheguei aqui de mãos abanando, mas hoje estou no topo. Literalmente, no topo da cidade. Eu faço reputações. E destruo, se me pagarem. Posso fazer o teu nome brilhar no neon. Em memória dos anos em que esquentamos os traseiros nos bancos daquela faculdade fuleira, abre teu coração! Com que idade estás? Deves ser uns dois ou três anos mais moço do que eu…
Hoje
Queríamos erguer montanhas, fomos soterrados. Desabamentos, isso é o que mais existe. Tentamos remendar com barro um edifício que estava ruindo. Mas, de todo modo, mesmo que estivéssemos tentando construir com tijolos vermelhos uma casa de verdade, como deve ser, teríamos falhado.
Ontem à tarde
Já na calçada, observando os carros coloridos na larga avenida, dirigi umas frases ao asfalto: Sim, sou um morto-vivo vagando por uma cidade-fantasma. Um personagem de Gogol andando pela avenida Niévski em São Petersburgo. O que ele disse tem fundamento. Sou mesmo um idiota. Ninguém escreve mais. Ninguém mais lê. Dedicamos o dia ao celular. À noite, cansados, podemos recorrer à tela grande da televisão. Sim, ele tem razão. Ele me apontou o caminho das ásperas pedras cortantes.
Hoje
A sombra da noite me disse: estás ficando velho. Teus gestos repetem os gestos do teu pai. Estás penetrando no inferno sem ar dos idosos. Nenhuma paixão te pode mais queimar. És agora uma máquina de viver. As vinte e quatro horas. Os trinta e um dias. Os doze meses.

Ontem à tarde
– Uma jogada. Tens que fazer uma só. Uma grande jogada. Algo bem pensado. Explosivo. Como dizia o dramaturgo: é preciso atear fogo às vestes ou beber formicida! Queres chamar a atenção das pessoas para os contos que escreveste? Pois muito bem. Não é preciso que saibam se os contos são bons ou ruins. O importante é que comprem o livro. Então, a jogada. Vamos!
Hoje
Andar a esmo é o destino dos meus personagens. Ir de um lado a outro. Para nada. Não sabem o que querem, mas eu narro esse perambular. Falam coisas banais, mas sinto que querem ser escutados…
Ontem à tarde
– Calma! Fica sereno e escuta. Vou ler para ti o trecho de um discurso que escrevi para um profeta televisivo: “Oh, Sodoma! Oh, Gomorra! A cidade que construímos é Sodoma e Gomorra, juntas. Ela será queimada junto com as arvores enfezadas no estio. Vocês todos, aves daninhas, terão de arribar. Sobre o campo calcinado, outros, mais nobres, construirão uma nova cidade!” Gostou? Para ti, amigo velho, posso escrever algo ainda mais impactante. Mas preciso da tua ajuda. Tens que vomitar para mim o teu lado escuro, algo que seja abstruso ou horrendo.

Hoje
Sempre havia duas pessoas nessas histórias. Só duas. Um homem e uma mulher. Nus. Deitados à beira de um rio, sob as árvores, iluminados pela lua. Trocam umas poucas frases leves, tolas, insignificantes. Depois levantam-se e dançam em volta de uma garrafa de vinho. Abraçam-se. Assim funciona o noturno mecanismo do amor.
Ontem à noite
O táxi me levou até a floresta de pardieiros. Meu coração era um tambor, rufando. O cérebro, um caldeirão, onde borbulhava a fórmula mortal. Aquilo não era um bairro, era uma grande chaga exposta à luz da lua. De lata, paus podres e papelão se faz uma favela. Cheiro de urina e cachaça.
– Morrer é muito fácil – disse a mulher dos dentes podres. – Não é, João?
– Morre-se demais nesse mundo de Deus, dona Rosa.
A desdentada voltou-se para mim, rindo.
– O João não mata. Só ajuda as pessoas a atravessarem a passarela.

Hoje
Sherazade. Toda noite, todo amanhecer, sob as cobertas, antes de adormecer, antes de abrir os olhos, eu contava histórias para mim mesmo. Às vezes, eu me levantava nas madrugadas para escrevê-las. Era o que me mantinha vivo.
Mas descubro agora que nunca rabisquei qualquer coisa sobre a cantiga da chuva ou sobre os canários.
A escuridão derradeira se aproxima e ainda estou escrevendo. O silêncio descerá sobre as minhas narrativas. Embora insignificantes, eu precisava escrevê-las.
Os antigos escultores sabiam achar os veios invisíveis do mármore. Eu mesmo, agora, estou me esculpindo.
Ontem à noite
– Ninguém verá você! – garanti, enfático. – De noite, aquilo é um deserto. A porteira estará aberta. Você desce até a casa. A luz do alpendre estará acesa. A porta, aberta. Você entra. É uma sala ampla. No canto, à direita, um homem estará diante de um computador. Escrevendo. De costas para você e de frente para uma janela. Você pode caminhar tranquilo, que ele não se voltará. Continuará escrevendo. Você chega e mira na nuca. Um tiro só. O dinheiro estará num envelope, ao lado do computador. Se quiser, você pode até contar o dinheiro antes…

– Contar antes? E o homem?
– Ele fica cego e surdo quanto está escrevendo.
– E se ele não estiver escrevendo?
– Estará. É só o que ele sabe fazer. Escrever.
– Parece fácil demais.
– Parece e é. Mas só tem uma coisa. Não mexa no computador. Um amigo dele, antigo colega de faculdade, um homem grande e gordo, virá depois para buscar o que ele deixar escrito…
– Então é isso? Um roubo de poema?
Lourenço Cazarré é escritor.
Publicado originalmente no livro A Arte Excêntrica dos Goleiros, 2ª edição, 2023, Arribaçã Editora













































































































