Autor: Lourenço Cazarré

  • Romance policial do contista fracassado

    Romance policial do contista fracassado

    Ontem à noite

    – Não dá. O que o senhor está me pedindo para fazer é imoral.

    – Imoral? Como assim? Dona Rosa me disse que o senhor fez muitos trabalhos desses.

    – Fiz. Mas esse, do jeito que o senhor quer, não faço.

    – Pago o que você quiser!

    – Não é questão de dinheiro. É de consciência. Finalizar um cidadão sem saber o motivo…

    – Suicídio.

    – O quê? O cidadão quer ser morto? É pior do que eu pensava.

    Hoje

    O grande silêncio final. Os espaços vazios de gente. Isso só encontramos do outro lado.

    Antes de dormir, enrodilhado, escutei a chuva caindo mansa sobre as telhas. Depois, o delicado gorgolejar da água nas calhas.

    Ao despertar, fiquei deitado por um bom tempo escutando a inteira sinfonia do canário.

    Chuva e canário. Os bichos todos do mato. O vento nas árvores. São muitos os sons da solidão.

    Pensei assim: tenho de levantar e escrever uma história, a última.

    Quase desisti. O mundo está cheio de histórias. As bocas estão cheias de palavras.

    O melhor que tenho a fazer, pensei, é botar a roupa e sair para o vazio trabalho honroso de todo dia.

    No frio das manhãs, eu me visto. Todo dia, o terno, a gravata. Remédios. Óculos. O carro. Ruas. O trabalho.

    Mas hoje não. Não mesmo.

    Enquanto bebia o café, eu me perguntei: não tens medo?

    Não. Acho que não. Quero dizer, não sei. Eu penso assim: as pessoas olham a morte de frente, com seus próprios olhos. Por isso, têm medo. Mas eu estarei de costas para ela. Eu me apagarei como chama de vela em dia de tormenta assim que a janela é arrombada pelo vento furioso. Um ponto final. A morte é um problema exclusivo dos que ficam. A trabalheira para se livrar daquele ser que não mais respira.

    Depois eu me disse: desiste dessa insensatez, vai trabalhar, vai pôr um tijolo no meio do deserto, que é o único que sabes fazer.

    Ontem à tarde

    – Terás um tanto de horas para escrever. Ou um dia inteiro, tanto faz. Senta-te diante do computador e escreve. Escreve feito um louco. Escreve o que te der na veneta. Do jeito que vier, sem polimentos. Uma coisa selvagem. Violência e morte. Se tiver sexo, melhor. Com perversões, melhor ainda. É isso. Mas não será uma operação fácil, depois, projetar-te. Eu te digo: tu és um burocrata anódino, sem charme. Assim, me darás um trabalhão. Mas eu vou pensar em alguma coisa louca para ti. Depois, se fizeres como eu mando, tudo sairá bem. As pessoas vão te ler. Finalmente, lerão os teus escritos. Eu te juro. O abstruso. É isso que elas querem: o bizarro, o insólito. Não, não estou me referindo ao que escreves. Precisamos descobrir algum gancho na tua vida, entendes? Uma esquisitice. Uma anomalia. Uma tara.

    Hoje

    Eu queria dizer tantas coisas e agora só me ocorre falar do canário e do frio que está fazendo nesses últimos dias. O frio é como uma parede que se move conosco. O canário é toda uma orquestra. Compõe, rege e toca todos os instrumentos amarelos.

    Nós somos assim mesmo. Quero dizer, eu não sei se devo falar em nome de todos, mas a verdade é que nossas bocas estão cheias de palavras. Um estoque considerável de frases feitas, acumulado ao longo dos tempos. Fazemos tudo que considerávamos errado há trinta anos. Somos hoje cínicos senhores grisalhos.

    Ontem à tarde

    – Tu não podes alegar que és um estranho no ninho. Não. Tu entendes muito bem dessas coisas. Mas insisto: não tem mistério, é só deixar por minha conta. Vou nos lugares certos. Falo com as pessoas certas. Eu digo a elas: tenho uma bomba. Abrirão espaço na hora. Jornais, emissoras de televisão e rádios. Em seguida, entramos na rede. Mas é preciso bolar algo que seja realmente impressionante…

    Ontem à noite

    – Pago mais. Quanto?

    – Não é questão de dinheiro. Nunca fiz assim, pelas costas.

    – Como, não? Dona Rosa me disse…

    – Não desse modo. Eu chego pela frente, olho no olho, e meto a faca.

    – Faca, não! Revólver.

    – Revólver faz barulho.

    – Mas a casa é afastada! No meio do mato! Não há vizinhos pela volta.

    – Meu negócio é peixeira.

    – Deve doer muito.

    – Nem dói, eu acho. O que pega mais é o desespero da vítima quando vê o sangue.

    – Tem que ser revólver.

    Hoje

    Ao recolher a gaiola do canário, lembrei que antigamente as pessoas sentavam-se em cadeiras, nas calçadas, para olhar a lua e as estrelas.

    Veio-me, então, uma ideia maluca. Que bom seria se todos nós, calados, cruzássemos os braços no mesmo momento, no mundo inteiro! A imensa calmaria. O mundo afundaria no silêncio e na imobilidade.

    Decidi que começaria essa revolução, imediatamente, por mim mesmo. Então me deitei de costas no chão do alpendre e fiquei observando o céu preto.

    Agora, aqui, estou escrevendo talvez mais depressa do que deveria.

    Ontem à tarde

    – Não tens mesmo um caso escandaloso? Adultério. Pedofilia. Um desfalque. Serve tudo. É como eu te digo: no mundo de hoje o sujeito não pode ser um qualquer. Ele precisa de um diferencial, como um produto. Se não tens, eu te arranjo um. Sou profissional, invento um diferencial para ti. O nosso tempo odeia os iguais e os anônimos.

    Hoje

    Pensei em escrever um poema. O elogio da preguiça. Cantar os que cruzam os braços, os que fazem de seus braços travesseiros para melhor apreciar o tráfego das nuvens.

    Desisti do poema e disse em voz alta para mim mesmo: não volto a botar aquele terno, aquela gravata.

    Ontem à tarde

    – Nós, os espertos, sabemos tudo e mais um pouco. As sacanagens todas. As grossas bandalheiras. Em suma, dominamos a matéria-prima. Nós somos aqueles que comem mais do que podem digerir. Construímos de dia, desmanchamos de noite. Sabemos que não vamos a lugar nenhum, mas continuamos caminhando. Estamos em permanente combate nesta guerra civil. Metemos o bico para fora da porta de noite? Paramos o carro no semáforo? Socorremos uma velha atropelada? Bem, voltando ao coração do meu discurso: tu precisas tomar uma decisão louca. Por exemplo, mete uma bala na cachola! O que não pode acontecer é ficares parado feito um marco de estrada. Tens que abandonar essa segurança de natureza morta… Antigamente, havia um ditado: falem bem ou mal, mas falem de mim. Mudou, hoje é: falem mal de mim. Ninguém quer ouvir falar bem de ninguém. As pessoas todas querem o escabroso. O podre. Esse é o coração da nossa época. Enlamear-se com o sujo. Com o asqueroso, o assustador. Andas fazendo o quê?

    – Bem, eu escrevo.

    – Isso eu sei. Li uma notinha em algum lugar. Que merda é essa de escrever? Para que serve? Ninguém quer saber mais de escritos. As pessoas querem imagens e sons. Ler cansa, dá dor de cabeça. Não se pode ler num carro, entendeu? Nem mesmo no ônibus, desloca a retina. Livros não passam na tevê. As pessoas que realmente interessam rodam sozinhas nos seus automóveis. Há os que os que andam de ônibus, mas esses são descartáveis. Só existem para consumir música brega.

    Hoje

    A nuvem negra decretou: tu, que não tens filhos, que não legaste tua miséria ao mundo, tu que foste abandonado pela única mulher que amaste, tu que nunca tiveste amigos, tu que malbarataste teus anos em um emprego idiota, tu estás pronto para morrer. Tu és uma ilha desabitada.

    Ontem à noite

    – Não confio muito no senhor. Pode ser arapuca?

    – Que tipo de arapuca?

    – Sei lá. Caso de mulher. Isso é o que mais tem: corno querendo se vingar.

    – Tudo que eu disse é verdade. Você entra, faz o trabalho, apanha o dinheiro e sai. O lugar é deserto, eu lhe asseguro. E, se quiser, você pode até pegar alguma coisa que lhe interessar…

    – Nunca fui ladrão! Meu negócio é outro!

    – Calma! Não quis ofendê-lo.

    – Tem gente aí que faz qualquer coisa por dinheiro. Não é o meu caso.

    – Você está certo. Faça o seu preço.

    – Mas a coisa ainda não está toda explicada. Quem é esse homem que eu devo matar pelas costas? É figurão?

    Ontem à tarde

    – O que a experiência me ensinou? A maioria dos leitores gosta mesmo é de histórias de amor. Depois vêm os que preferem novelas policiais. Quanto mais violentas, melhor. Há também gente que se interessa por romances históricos. Vendem bem os livros que contam a saga de famílias cujos ancestrais vieram da Europa: portugueses, italianos, alemães, árabes e judeus. Agora, os mais politizados se interessam por obras que tratem da formação do nosso povo tão caloroso e gentil, embora sofrido.

    – Não, eu não escrevo esse tipo de coisa. Trabalho só com fragmentos, estilhaços e retalhos. Ensinamentos: zero. Valores: nenhum. Escrevo relatos desconchavados. Sem moral da história.

    – Isso não interessa. O que não correu pelas redes e não passou na tevê não existe. Eu não acredito que um sujeito como tu, com essa carga de anos no lombo, ainda não tenhas entendido isso. Imagem! És jornalista, ou foste, tanto faz, dá no mesmo, devias saber. Ninguém lê. Os jornais só trazem fotos. E um pouco de lixo ao redor. Uma imagem impressionante e um texto curto ao lado. Ninguém tem tempo. Ninguém quer ler nada. O homem é o único ser preguiçoso que se mantém vivo na natureza. Sou publicitário, sei bem disso. Frases com cinco palavras: isso é o máximo que as pessoas aguentam.

    Hoje

    Meu mundo acabará logo, eu disse à grama do jardim. Era um mundo pequeno, que funcionava com umas duas operações: ler e escrever. Mas houve um tempo em que amei uma mulher, ela ficou grávida, perdeu o bebê e percebeu que não gostava mais de mim. Sumiu. Os anos passaram a voar com asas de condor. As pernas abertas das mulheres eventuais. As páginas dos livros abertos. Tudo se sucedendo vertiginosamente. Há uns poucos anos, construí esta casa no meio do mato. O asfalto ficou a cinco quilômetros daqui. Eu, porém, estava enganado. Não existe o silêncio imóvel. Os animais do campo são tão barulhentos quanto os homens. E ainda preciso viajar à cidade todos os dias para trabalhar. Eu sou um fingimento enganoso.

    Ontem à noite

    – Fechado! Farei o serviço. O senhor é um cidadão muito insistente.

     – Eu lhe agradeço.

    – Não precisa. Pague.

    – O dinheiro estará lá.

    – E na casa, tem cachorro?

    – Não.

    – Nunca vi casa de roça sem cachorro!

    – Não gosto de cachorro.

    – Como? Quer dizer que a casa é sua?

    Ontem à tarde

    – Nunca falo o que penso. Digo apenas o que me mandam dizer. Pode-se dizer que eu vendo vento. Porém, se fosse sincero, o que nunca fui, eu diria o seguinte: Estamos marchando para o caos. Não tenham filhos! Não haverá emprego para eles, assim como não há para vocês. Logo, a guerra civil ficará mais acesa e todos vocês perecerão. As casas serão soterradas por toneladas de grades. Os cães de guarda serão cada vez maiores e mais ferozes. Esta cidade está condenada à extinção. Raios vermelhos consumirão tudo o que vocês criaram, essa miragem toda.

    Hoje

    Vesti-me na frialdade da manhã. Eu poderia dizer isso de outra maneira, mas sou um escritor. Vesti-me na frialdade da manhã. Não o terno de todos os dias e a gravata – traje do insensato ritual diário. Uma calça e uma camisa, honestas. Um homem comum.

    Nunca mais irei à cidade, eu disse ao espelho. Preciso dar vida – ou morte, melhor dizendo – a uma história, a história que aqui estou escrevendo.

    Só ontem, no meio da tarde, ao sair do alto edifício de janelas brilhantes, percebi que a cidade está vazia de gente. Quando o vertiginoso elevador me transportou do último andar ao térreo, suas paredes de vidro me permitiram ver o mecanismo que movimenta a cidade: os giros incessantes do nada.

    A vida está escondida nos breus, eu pensei, nos desvãos. A vida é inencontrável.

    Ontem à tarde

    – Vieste, enfim, procurar os meus serviços profissionais?

    – Não! Estava só passeando.

    – Mas eu precisava falar contigo. Dar-te alguns conselhos. Li em uma notinha de jornal que andas escrevendo um livro. Foi Deus quem te mandou até aqui. Precisas explodir na mídia. Olha o meu caso: cheguei aqui de mãos abanando, mas hoje estou no topo. Literalmente, no topo da cidade. Eu faço reputações. E destruo, se me pagarem. Posso fazer o teu nome brilhar no neon. Em memória dos anos em que esquentamos os traseiros nos bancos daquela faculdade fuleira, abre teu coração! Com que idade estás? Deves ser uns dois ou três anos mais moço do que eu…

    Hoje

    Queríamos erguer montanhas, fomos soterrados. Desabamentos, isso é o que mais existe. Tentamos remendar com barro um edifício que estava ruindo. Mas, de todo modo, mesmo que estivéssemos tentando construir com tijolos vermelhos uma casa de verdade, como deve ser, teríamos falhado.

    Ontem à tarde

    Já na calçada, observando os carros coloridos na larga avenida, dirigi umas frases ao asfalto: Sim, sou um morto-vivo vagando por uma cidade-fantasma. Um personagem de Gogol andando pela avenida Niévski em São Petersburgo. O que ele disse tem fundamento. Sou mesmo um idiota. Ninguém escreve mais. Ninguém mais lê. Dedicamos o dia ao celular. À noite, cansados, podemos recorrer à tela grande da televisão. Sim, ele tem razão. Ele me apontou o caminho das ásperas pedras cortantes.

    Hoje

    A sombra da noite me disse: estás ficando velho. Teus gestos repetem os gestos do teu pai. Estás penetrando no inferno sem ar dos idosos. Nenhuma paixão te pode mais queimar. És agora uma máquina de viver. As vinte e quatro horas. Os trinta e um dias. Os doze meses.

    Ontem à tarde

    – Uma jogada. Tens que fazer uma só. Uma grande jogada. Algo bem pensado. Explosivo. Como dizia o dramaturgo: é preciso atear fogo às vestes ou beber formicida! Queres chamar a atenção das pessoas para os contos que escreveste? Pois muito bem. Não é preciso que saibam se os contos são bons ou ruins. O importante é que comprem o livro. Então, a jogada. Vamos!

    Hoje

    Andar a esmo é o destino dos meus personagens. Ir de um lado a outro. Para nada. Não sabem o que querem, mas eu narro esse perambular. Falam coisas banais, mas sinto que querem ser escutados…

    Ontem à tarde

    – Calma! Fica sereno e escuta. Vou ler para ti o trecho de um discurso que escrevi para um profeta televisivo: “Oh, Sodoma! Oh, Gomorra! A cidade que construímos é Sodoma e Gomorra, juntas. Ela será queimada junto com as arvores enfezadas no estio. Vocês todos, aves daninhas, terão de arribar. Sobre o campo calcinado, outros, mais nobres, construirão uma nova cidade!” Gostou? Para ti, amigo velho, posso escrever algo ainda mais impactante. Mas preciso da tua ajuda. Tens que vomitar para mim o teu lado escuro, algo que seja abstruso ou horrendo.

    Hoje

    Sempre havia duas pessoas nessas histórias. Só duas. Um homem e uma mulher. Nus. Deitados à beira de um rio, sob as árvores, iluminados pela lua. Trocam umas poucas frases leves, tolas, insignificantes. Depois levantam-se e dançam em volta de uma garrafa de vinho. Abraçam-se. Assim funciona o noturno mecanismo do amor.

    Ontem à noite

    O táxi me levou até a floresta de pardieiros. Meu coração era um tambor, rufando. O cérebro, um caldeirão, onde borbulhava a fórmula mortal. Aquilo não era um bairro, era uma grande chaga exposta à luz da lua. De lata, paus podres e papelão se faz uma favela. Cheiro de urina e cachaça.

    – Morrer é muito fácil – disse a mulher dos dentes podres. – Não é, João?

    – Morre-se demais nesse mundo de Deus, dona Rosa.

    A desdentada voltou-se para mim, rindo.

    – O João não mata. Só ajuda as pessoas a atravessarem a passarela.

    Hoje

    Sherazade. Toda noite, todo amanhecer, sob as cobertas, antes de adormecer, antes de abrir os olhos, eu contava histórias para mim mesmo. Às vezes, eu me levantava nas madrugadas para escrevê-las.  Era o que me mantinha vivo.

    Mas descubro agora que nunca rabisquei qualquer coisa sobre a cantiga da chuva ou sobre os canários.

    A escuridão derradeira se aproxima e ainda estou escrevendo. O silêncio descerá sobre as minhas narrativas. Embora insignificantes, eu precisava escrevê-las.

    Os antigos escultores sabiam achar os veios invisíveis do mármore. Eu mesmo, agora, estou me esculpindo.

    Ontem à noite

    – Ninguém verá você! – garanti, enfático. – De noite, aquilo é um deserto. A porteira estará aberta. Você desce até a casa. A luz do alpendre estará acesa. A porta, aberta. Você entra. É uma sala ampla. No canto, à direita, um homem estará diante de um computador. Escrevendo. De costas para você e de frente para uma janela. Você pode caminhar tranquilo, que ele não se voltará. Continuará escrevendo. Você chega e mira na nuca. Um tiro só. O dinheiro estará num envelope, ao lado do computador. Se quiser, você pode até contar o dinheiro antes…

    – Contar antes? E o homem?

    – Ele fica cego e surdo quanto está escrevendo.

    – E se ele não estiver escrevendo?

    – Estará. É só o que ele sabe fazer. Escrever.

    – Parece fácil demais.

    – Parece e é. Mas só tem uma coisa. Não mexa no computador. Um amigo dele, antigo colega de faculdade, um homem grande e gordo, virá depois para buscar o que ele deixar escrito…

    – Então é isso? Um roubo de poema?

    Lourenço Cazarré é escritor.

    Publicado originalmente no livro A Arte Excêntrica dos Goleiros, 2ª edição, 2023, Arribaçã Editora

  • Para que não te sintas muito só

    Para que não te sintas muito só

    Imagina uma mulher solitária que tenha perdido sua única amiga. Pois bem, sou eu.

    Morreu Lolita, minha cachorrinha. Faleceu, coitada, aos oito anos. Dizem que doze meses na vida de um cão correspondem a sete anos humanos. Portanto, se fosse gente, estaria com 56 anos.

    Compramos Lolita quando eu ainda integrava o mundo insosso das mulheres casadas.

    Estávamos – era um dia esplendoroso de verão – num bar de praia quando passou por nós uma velha encarquilhada arrastando pela coleira um minúsculo cachorrinho marrom. Ele correu até ela, pediu-lhe que parasse por um instante e ajoelhou-se para afagar o cãozinho. Havia tido um da mesma raça e cor, quando menino. Quis saber onde poderia comprar um igual.

    A bruxa deu a ele um cartão com o endereço do negociante de cães.

    Naquela época eu não era tão gorda e a gente ainda mantinha aquilo que se convencionou chamar vida amorosa. No papel de esposo, ele condescendia em transar uma vez por semana comigo, então uma fogosa senhora de trinta e nove anos.

    Como não tínhamos filhos, eu achava que devíamos gastar toda nossa energia em causas nobres: grandes comilanças e fornicação frequente, por exemplo. Ele não pensava o mesmo. Era então um melancólico sujeito de quarenta e oito anos e nessa idade, como sabemos nós, as mulheres, todos eles estão liquidados.

    Nos dias seguintes, ele insistiu muito. Precisava comprar um cachorrinho, de qualquer jeito. Queria voltar ao passado, à infância perdida. Num desabafo que me deixou magoadíssima, disse que necessitava dar vazão ao seu instinto paternal, que meu útero improdutivo insistia em cercear.

    Um dia, cedi, mas com uma condição.

    – Nunca na puta da minha vida eu cato cocô. Um só que seja. Mesmo que sequinho, desidratado, sem cheiro, cocô de ração.

    Sou daquelas mulheres que não têm papas na língua. Meu pai era policial e foi com ele que adquiri um vocabulário truculento que, adulta, aperfeiçoei nas muitas redações de jornais pelas quais passei.

    Dois anos depois da chegada de Lolita o casamento ruiu.

    Numa noite, ao retornar de uma viagem de trabalho, não achei uma só peça de roupa dele no guarda-roupa. O cretino levara também todos os discos e livros de que mais gostava. Deixou para mim todo o rebotalho. Mais a cadelinha, com um bilhete amarrado na cauda.

    “Lolita fica, para que não te sintas muito só.”

    Então, chorei.

    Desde pequena, cultivei um mito: eu não chorava, nunca. Como toda gordinha, eu vivia rindo. Ria de mim, mas também e principalmente dos outros. Herdei a risada escancarada e escandalosa do meu pai.

    Naquela noite, desmontei. Caí de joelhos, berrando como uma condenada. Eu sabia que ele não gostava mais de mim, mas, como era um covarde, julguei que jamais teria coragem de me abandonar. Depois me estendi no chão e me arrastei como lesma.

    “Lolita fica, para que não te sintas muito só.”

    As pessoas simplórias podem ser terrivelmente cruéis. Ele não tinha discernimento suficiente para perceber a tremenda humilhação embutida naquelas palavras e, especialmente, no fato de ter amarrado o bilhete naquele lugar.

    Quando uma mulher inteligente se reúne a um homem de condição intelectual inferior a relação é sempre particularmente dolorosa.

    Meu choro avançou noite a fora. Eu descontava com aquele pranto sentido os muitos anos de risos tolos. Chorei por todas as vezes em que, precisando chorar, me contentei com uma risadinha cínica.

    Os gordos são assim: vão além do limite até que, um dia, explodem.

    Muitas horas depois, quando o dia já se anunciava na janela aberta, adormeci. Tinha chorado até mais do que o necessário. Estava seca para todo o sempre.

    Pois bem, nesta madrugada, seis anos depois da fuga do dono, morre a cadela do bilhete desonroso e aviltante.

    Não fui vê-la. Acho que a morte passa muito bem sem a minha presença.

    Odeio cemitérios e hospitais. Amo os bares, que são a negação da morte e da doença. Mas sei também que os bares são o refúgio da alegria e que toda a alegria é vã e vazia. Mas nós, os gordos, somos intrinsecamente superficiais.
    Eu soube da morte de Lolita pela empregada. Ela me disse a seguir que ia pedir ao porteiro do edifício que se desfizesse do corpo.
    Quando o porteiro chegou, eu quis saber dele como daria sumiço na cachorrinha. O velhote sacudiu os ombros, espetou os beiços e disse que ao sair do serviço, à noite, jogaria o corpo dentro da primeira lata de lixo que encontrasse.
    Não gostei da solução. E nem queria que a morta passasse o dia estatelada na minha área de serviço. Peguei o telefone e chamei um veterinário.
    Há muitos veterinários aqui no bairro. Hoje a maioria das pessoas sabe que é melhor ter um papagaio ou um iguana do que um filho. Não se desperdiça dinheiro com escola ruim e o carinho que se tem depois é maior.

    O veterinário era um jovem risonho e falante.

    – Qual é a religião da senhora? – perguntou-me, à queima-roupa.

    – Fui católica – respondi. – Frequentei missa até completar catorze anos, mas não gostava da confissão, da hóstia colada no céu da minha boca e do bafo de cebola do padre.

    – Para animais católicos, temos um cemitério exclusivo. É lindo, com túmulos de excelente qualidade, enfeitados com cruzes e anjos. Fica num morro pedregoso, a vinte quilômetros daqui. É um terreno muito seco. Ali, os animais não se desintegram facilmente, mas, se a senhora quiser reforçar, podemos embalsamar…

    – Quero que Lolita se funda com a terra. Quero que morra inteiramente.

    Por um instante, ele ficou suspenso. Aquela minha ideia de uma morte irrestrita, integral, o desnorteou um pouco.

    – E quanto aos rituais?

    – Como assim? – perguntei.

    – A senhora quer que rezemos por ela? Orações, missa?

    – Missa por uma cadela? Tu estás me gozando?

    Uma ruga aprofundou-se no meio da testa dele. Não, não estava gostando do meu jeito. Encarou-me, francamente contrariado. Todos eles odeiam mulheres que fazem muitas perguntas.

    Suspirou fundo e piscou os olhos. Isso pareceu acalmá-lo.

    – Mentimos para o sacristão. Como o contrato é feito por telefone, se inventa uma biografia para ela. Será, por exemplo, Maria da Paz Barqueiro, vinte anos, estudante, que morreu atropelada na saída da universidade. Se a gente paga as taxas direitinho, eles não fazem perguntas…

    – Não quero missa – cortei, ríspida.

    – Cânticos, leitura de salmos?

    – Nada! Era uma cadela agnóstica, como eu.

    O rosto do jovem veterinário assumiu uma expressão profissional de tristeza. Havia concluído que eu estava psicologicamente abalada pela morte do meu animalzinho de estimação.

    – A senhora não gostaria de cremá-la?

    – Como assim? – perguntei ao mesmo tempo em que saltava da cadeira.

    Meu movimento brusco o assustou. Ele não imaginava que eu, gorda como sou, fosse tão ágil.

    – Não se ofenda! A senhora disse que gostaria que ela desaparecesse totalmente. Então resolvi sugerir que…

    Parei diante dele. Lentamente, o rapaz afundava no sofá, ruborizado. Tinha belos olhos negros, francos, leais.

    – Gosta de ler, meu jovem? – perguntei.

    – Sim.

    – Que tipo de coisa?

    – Leio obras sobre a minha profissão.

    – Sei. Hoje em dia todos só leem jornais e revistas especializadas. Precisam avançar na profissão. Todos querem ganhar o rico dinheirinho. Mas eu só leio livros. Livros de contos! Sabe o que é isso?

    – Sim, faz uns dois anos, li um. Não me recordo do nome do autor, mas uma história me impressionou. Era sobre um pai que batia no filho quando ele não tirava notas boas nas provas. Lembrei do meu pai. Ele me puxava pelas orelhas quando eu me saia mal… Mas, quanto ao caixão para a falecida, temos urnas funerárias para todos gostos e orçamentos.

    – Até mesmo para os bichos que são cremados?

    – Naturalmente são produtos menos dispendiosos – ágil, ele sacou um livrão do interior da sua pasta.

    Era o mostruário de caixões.

    – Vamos fazer o seguinte – eu o impedi de abrir o livro. – Enterra Lolita num lugar que seja úmido. Mulheres e cadelas sentem muita sede. Prefiro que ela fique perto de um arroio. Quanto ao caixão, enfie ela dentro de um decente. Que não seja nem muito vagabundo nem muito caro.

    – A senhora gostaria de visitá-la mais tarde?

    – Não. O que realmente interessa de um ser que morre são as imagens que ele nos deixa. Essa é a minha religião. A religião das imagens que ficam na memória dos sobreviventes.

    – Respeito todas as religiões. Se um muçulmano ou um judeu vier até a minha empresa, atendo na hora. E rezo as orações que pedem, só não garanto que minha pronúncia de árabe ou de hebraico será boa.

    Encarei-o.

    Não, ele não estava debochando de mim. Era um desses jovens profissionais competentes e íntegros. É deles que a nação precisa. Um dia eles serão a maioria e então nosso país afundará na mediocridade satisfeita em que vegetam as nações que têm população educada.

    – A imagem de Lolita ficará para sempre aos meus pés – eu disse. – Quando eu me sentar diante da televisão, ela vai se estender no tapete: a carinha entre as patas dianteiras, as narinas inquietas, os olhinhos piscando. Dormirá em seguida. Mas, de quando em quando, será sacudida por um pesadelo. Cadelas sonham muito.

    – Posso, então, recolher o animalzinho? – disse ele e se pôs de pé, ansioso por sair de perto de mim.

    – Mercedita! – gritei. – A moça vai levar o senhor.

    A moça parece uma velha. Tem trinta e três anos, mas aparenta setenta. Vê-la ao despertar faz um bem enorme ao meu ego.

    Mercedes cuida do meu apartamento de mulher sem homem e faz a comida que, sem prazer, engulo em grandes quantidades. Se um dia ela se for, como Lolita, este apartamento vira uma tapera.

    – Mercedita, por favor, conduza o doutor até o local onde está a falecida.

    Mercedes pesa mais de cem quilos e mede apenas um metro e meio. Caminha como um lutador de sumô. Faz chocalhar copos e taças na cristaleira. Sempre que olho para ela, sinto-me um manequim. Afinal, peso noventa quilos, mas meço um metro e setenta.

    Quando chegaram à área de serviço, escutei a voz esganiçada de Mercedes.

    – Doutor, a patroa lhe disse se vai comprar outro cachorro?

    O veterinário não respondeu.

    Pouco depois, a voz dela soou mais alta, mais esganiçada, enfurecida.

    – Eu já não aguentava mais juntar tanta bosta!

    Quando escutei a batida da porta de área de serviço, por onde saíra o cadáver daquela que fora minha companheira por longos anos, falei à imaginária cachorrinha que se acomodou junto aos meus pés.

    – Feitas as contas, Lolita, saíste no lucro. Tiveste vida mansa numa casa de mulheres gordas. Comeste até ficar uma bola. Dormias o tempo todo. E o melhor: não conheceste varão. Eras uma cadela sadia e tiveste uma boa morte, fulminante. Foi melhor que morresses tu. Eu tenho a quem recorrer. No trabalho, falo com as idiotas que me cercam. São estúpidas, mas são numerosas. Fico variando de uma para outra e isso as torna suportáveis. Mas tu só tinhas a mim. Quando gemias, eu nem prestava atenção em ti. Então, eu te pergunto: se eu morresse antes, quem cuidaria de ti? Mercedita? Nunca! Ela costuraria o teu cuzinho.

    Lourenço Cazarré é escritor.

    Publicado originalmente no livro Exercícios espirituais para insônia e incerteza, 2022, Insular Editora (Florianópolis).

  • As mutações de um conto sobre a arte

    As mutações de um conto sobre a arte

    Na última sexta feira deste agosto, dia 28, às 17 horas, entrei no sítio de uma editora porque, pouco antes, recebera um aviso de que o resultado de um concorrido concurso literário seria divulgado naquele dia. Li os nomes dos 30 selecionados na categoria Conto e não encontrei o meu ali.

    Bem, bola para a frente. Autor que mora fora do eixo Rio-São Paulo e distante das grandes províncias literárias (Minas, Rio Grande do Sul, Pernambuco), venho recorrendo, desde 1980, aos concursos literários como forma de divulgar, com cepticismo e desesperança, meu trabalho como narrador de histórias breves.

    Mal saí do sítio da editora, recebi um e-mail no qual era informado de que havia ganhado o primeiro lugar na categoria Contos. Voltei a reler a relação. E lá encontrei meu nome no alto da página, em negrito, seguido pelos outros quatro finalistas. Os selecionados vinham a seguir.

    Começo com esse causo engraçadinho para falar do que realmente me interessa: descrever a longa e movimentada caminhada de um conto cujo título é “Noite brasileira (O Artesão e suas criaturas)”.

    Essa narrativa começou a nascer quando cheguei a Brasília, aos 24 anos, para trabalhar como jornalista. De madrugada, entre onze e meia e uma hora, espancava furiosamente o teclado de uma maquininha de escrever. Eram esboços de contos, poemas, crônicas e outros objetos literários ainda hoje não identificados. Na maioria poemas sobre o que via nas noites da, ainda, nova capital. Escrevia – em grandes quantidades e em alta velocidade – em laudas de jornal, que ia empilhando. Talvez um dia usasse alguma daquelas frenéticas escrituras.

    Em 1993, fui convidado a participar de uma edição da Revista da Academia Brasiliense de Letras. Não sei por qual motivo, já autor de 15 impressos de ficção, acabei apresentando dois poemas. O primeiro dele intitulado “Canção da Oficina (Toada à moda de João Cabral)” constava de 19 estrofes de quatro versos de sete sílabas.

    Sem saber e canhestramente, eu estava usando a redondilha maior, estratagema lírico que só viria a conhecer melhor em 2014, ao ter aulas informais com o poeta Kledir Ramil, quando escrevemos a letra de uma canção de título bifronte: “Mistérios do Bule Monstro – Brincando na Praça dos Enforcados”, que entrou em um disco (“Com todas as letras”), de Kleiton e Kledir, mestres em harmonia e poética.

    Vejamos, pois, às primeiras duas estrofes desse velho poema operário:

    A regra deste obreiro

    É começar pelo fim

    E acabar por primeiro

    O que tem fome de sim

    Segue férrea disciplina

    Seja pedra, lama ou lenha

    (Ou outra matéria indigna)

    É o caos que o orienta

    Passemos ao segundo poema, intitulado “Cantiga do Artesão (Exercícios espirituais de um fazedor de bonecos)”, que assim principia:

    Dei a eles um só rosto

    De alegria e dor mesclado

    Sejam jovens, sejam velhos

    Na virtude ou no pecado

    Parecem todos iguais

    De uma inteireza macabra

    Às vezes os funde o fogo

    Às vezes o tempo os acaba

    Avancemos. Em meados dos anos 1990 andei de namorico com o teatro. Escrevi duas peças, ambas premiadas (Funarte e Prefeitura de Manaus), ambas ainda não encenadas: “Umas poucas cenas vistas do caos” e “Teatro da Bolsa: Valores”. Porém, tive a alegria de ver montada e exibida em três unidades da federação uma divertida e movimentada peça infantil musicada: “Puro tempo perdido”. Com uma banda de cinco músicos (irmãos!) sete personagens e oito dançarinos, foi um espetáculo que não faria feio se existisse uma Off-Broadway no Cerrado.

    Foi nesses anos de um peregrino interesse pelos palcos que ajuntei todos os muitos poemas que escrevera vinte anos antes. Passei-os pelo triturador a fim de que formassem um drama. Partejada a peça, cujo título era “Noite cega adentro”, eu a coloquei a dormir na tal gaveta hipotética de que dispõem todos os rabiscadores.

    Finalmente, lá pelo começo deste novo e aterrador século, percebi que aquela versão teatral, nascida de um punhado de versos, deveria sofrer mais uma mutação. Essencialmente contista, obviamente eu deveria tentar transformá-la em um relato curto.

    Foi o que fiz, em junho de 2004, quando estava a elaborar meu quinto livro de contos: A arte excêntrica dos goleiros (LGE Editora, Brasília, 2004). Nessa coletânea reuni catorze contos. Sete deles tratam de, digamos, pessoas normais. Os outros sete são sobre, digamos, artistas ou quase isso.

    Eu já tinha contos sobre uma escultora maluca, um pintor agonizante, um leitor apaixonado pela literatura russa, um amante do cinema e do teatro, um contista fracassado e um mestre na estranhíssima arte de jogar no gol. Ou golo, como se dizia em Pelotas antigamente. Alcancei o número cabalístico com “Drama do artesão e das suas criaturas”, o novo nome daquele ser mutante.

    Passadas quase duas décadas, o livro ganhou uma segunda edição (Arribaçã, Paraíba, 2023), prefaciada por Regina Zilberman, uma das mais destacadas estudiosas de literatura do Rio Grande do Sul. Nessa nova impressão, o conto de que estamos aqui tratando passou do penúltimo para o último lugar da coletânea e ganhou uma nova denominação: “O drama do artesão e das suas criaturas (Noite brasileira)”.

    E, em seguida, voltou para o entulho do gavetão de guardados a serem burilados, porque jamais me satisfaço com o que fabriquei e passo muito tempo a retocar velharias.

    No começo deste ano, eu o pincei do limbo e o lapidei a marteladas para que fosse estampado no Página Um – sítio noticioso e encrenqueiro da Lusitânia -, no qual apareceu em 8 de março. Cinco dias depois foi publicado no sítio do Pelotas 13 Horas, respeitado programa radiofônico – quase cinquentenário! – da Atenas Sul-rio-grandense, a Princesa do Sul, a terra de João Simões Lopes Neto.

    Ainda naquele mês, ao saber de uma disputa que aceitava contos já publicados, voltei a mourejar nele. E muito, muito, muito. Ajustei melhor a movimentação dos personagens em cena e inverti o título. Foi com essa nova denominação que ele desembarcou no tal prêmio.

    Enfim, eu, que nada entendo de estudos literários – pois nunca li uma só dessas obras que examinam os desconhecidos mecanismos que movem as mãos de escrevinhadores e vates -, sinto-me inclinado a dizer que “Noite Brasileira (O Artesão e suas criaturas)” é uma historinha sobre a arte, sobre as artes, sobre qualquer uma delas. Sobre a minha arte, se é que tenho alguma.

    Como costumo colocar o ano de 1976 como aquele em que passei a dedicar todas as poucas horas que me restavam do trabalho de jornalista à literatura, acredito que se pode dizer que esse é um dos contos de mais demorada confecção de que se tem notícia aqui nesta nossa carnavalesca Pindorama. O danado levou cinco décadas para chegar à versão final, para a qual peço a piedade e a atenção daqueles cinco improváveis leitores com os quais sonhava o pulha, pilantra e pelintra Brás Cubas, que atualmente, ressurrecto, anda a escrever aleivosias em um pasquim vitriólico da comarca de Lisboa.

    Pode aceder ao conto premiado aqui.

    Lourenço Cazarré é escritor.

  • Noite brasileira: o artesão e suas criaturas

    Noite brasileira: o artesão e suas criaturas


    E eu voltei-me para todas as obras que minhas mãos fizeram e o trabalho duro que isso me custou. Pois bem, tudo isso é vaidade e perseguir vento; e não há proveito algum sob o sol.

    Eclesiastes 2, 11

    ***

    Caótico é uma boa palavra para descrever o meu ateliê. Nas paredes laterais e do fundo, estantes atulhadas de bonecos. Estou no centro da peça, imóvel, de pé junto à cabeceira da mesa. Diante de mim, estão alinhados os bonecos que construí nos últimos meses.

    Apenas uma lâmpada, colocada exatamente por cima da minha cabeça, está acesa. Começo a montar o cenário. O velho abajur avariado será o poste de luz. O grande cinzeiro redondo será o chafariz. Coloco lado a lado três caixas de sapato: serão os bancos nos quais acomodarei, de frente para o público, as personagens.

    A mesa quadrada é o palco.

    Um minuto de silêncio e imobilidade basta para que eu me concentre. Abro os olhos e estendo o braço para o maior dos bonecos. O Artesão é um homem grisalho que veste um macacão de brim azul. Levo-o à boca da cena para que cumprimente o público. Quando os aplausos cessam, com o polegar levantado, ele aponta para trás (o fundo do palco, onde estão os bonecos) e fala.

    – Em silêncio, de boca travada, eu os construí da matéria mais indigna: a carne.

    Pego então a boneca franzina que parece ter menos de quinze anos e que veste uma saia muito curta. É a Prostituta. Sento-a no banco da esquerda e dali, em voz alta, esganiçada, ela interroga o Artesão.

    – Encontras prazer no teu trabalho, monótona repetição de máquina?

    – Meus movimentos são sempre iguais. Para juntar ou separar.

    Pego o Marinheiro e faço com que caminhe, gingando, para o banco da direita.

    Lá, antes de sentar-se, apontando para o Artesão, o Marinheiro interroga os espectadores.

    – Digam-me: não tem esse homem a deselegância do albatroz quando aterrissa numa praia fustigada por ventos cruéis?

    De pé, à beira do palco, onde se manterá quase o tempo todo, o Artesão fala ao público.

    – Procuro o horror que se esconde em todos. Nos mortos e nos vivos.

    Mal eu o coloco em pé, o Pivete, oito anos, maltrapilho, aproxima-se do Artesão e, com sua voz flauteada, o interroga.

    – O senhor não se cansa, nunca?

    – Só o passar dos anos poderá vencer o rancor das minhas ferramentas.

    Depois de colocar o Pivete no banco do centro, recuo o braço e agarro a Mendiga, suja e feia, que levo até o Artesão. A Mendiga agarra o braço do Artesão e o interroga.

    – Por que criaste tanta gente, ainda que de engonço?

    – Não controlo minhas mãos. São tenazes.

    A Mendiga exalta-se.

    – Quem achas que és? Como ousas avançar noite cega adentro?

    O Marinheiro se levanta bruscamente e, mais uma vez indicando o Artesão, se pronuncia.

    – Busca rumo no intrincado da vida, mas o certo é que seu barco só poderá conduzi-lo às funduras abissais!

    A Mendiga, voltada para a plateia, torna a falar.

    – Este pobre homem traz o estupor de quem ceifou na seara da morte. Noctâmbulo como a lua, ele certamente se orienta pelas poças de água das chuvas adormecidas.

    O Marinheiro deixa o palco. A Mendiga senta-se no banco do meio, ao lado do Pivete.

    ***

    Feita essa breve introdução, trato de finalizar o cenário.

    Espalho os meus lápis de cor, que serão as flores do jardim. Meu isqueiro será uma árvore raquítica. Uma caixa de papelão para seis garrafas de vinho, deitada de lado, representará um conjunto de casebres arruinados. A caixinha de música será o parque de diversões.

    ***

    Recita o Artesão.

    – No úmido cimento das calçadas, ficará meu legado. Agora será de vocês a foto do estudante ao lado de um globo terrestre. No jardim, entre as hortênsias, depositarei a hóstia, áspera e seca, que no céu de minha boca se aferrou para sempre. Deixarei ainda uma janela que se abrirá para os vermelhos verões de antigamente: bolinhas de gude, pandorgas, estilingues, morros, córregos, eucaliptos, pardais e ovelhas. Só não entregarei a vocês a dama-da-noite, porque preciso que ela continue a me ninar, perfumosa, todas as madrugadas.

    ***

    Coloco em cena a Cigana, ao lado do Artesão.

    Voltados para o público, travarão um diálogo.

    Começa ela.

    – O rumoroso passado ou o silente futuro? Qual deles te atormenta mais?

    – A eterna obrigação de criar espantalhos.

    – Mas por que os fabricas se tua criação está condenada a vagar seminua e descalça?

    – Nada mais sei fazer.

    – Soturno e mísero, cumprirás a rota das latas de lixo. Sombras terás por parceiras. Na noite interminável são as mais fiéis companheiras.

    A Cigana deixa o palco.

    ***

    Coloco em cena o Louco, maltrapilho, encurvado, barba branca. De pé na beira do palco, com sua voz de baixo profundo, travará um diálogo com o Artesão.

    Começa o Louco.

    – Esta praça vai morrer. É o que anuncia o brilho dessas pedras polidas por tantos passos perdidos.

    – Eram incontáveis os aromas do turbado agosto: bergamoteiras, pessegueiros e laranjeiras.

    – Esta praça vai morrer de madrugada, justo quando o primeiro trabalhador cruzar pelo último bêbado.

    – A carroça do leiteiro foi a orquestra da minha infância. As ferraduras soavam como clarins na garoa e havia também a lira das garrafas vazias.

    – Esta praça vai morrer quando o sol, exausto, se aninhar no roxo canteiro das hortênsias!

    – Houve uma manhã que fez de mim um menino triste. Foi no tempo em que o vento gris da primavera me embalava na gangorra dos domingos imóveis. Não posso viver sem relembranças.

    Saindo de cena, o Louco deixa atrás de si uma última frase.

    – Homens inquietos só servem para recortar silhuetas na neblina das praças.

    ***

    Acendo a lanterna e dirijo o facho para o banco do centro, onde a Mendiga, amamentando o Pivete, cantarola.

    Mama para esquecer a fome

    Que do alto do telhado

    Te observa o lobisomem

    Bebe enquanto a criatura

    Sonha com o teu sangue

    E da garganta a quentura

    A Mendiga se cala por um minuto, depois levanta o rosto e se dirige ao público.

    – Ainda bem que meu último anjinho se finou mal me saiu do bucho. Por isso, troco meu leite pelas moedas deste moleque.

    O Pivete dá-lhe uma cotovelada.

    – Canta, feia bruxa má!

    A Mendiga engrola uma outra cantilena.

    Saiba senhor menininho

    Que a mula sem cabeça

    Virá por este caminho.

    De novo voltada para a plateia, a Mendiga fala pausadamente.

    – Gerei muitos bacorinhos, mas a todos vendi numa terra onde criança vale prata. Para mim, mesmo os que nascem mortos são negócio: alugo as tetas, a melhor das mutretas.

    Com um movimento do queixo, a Mendiga aponta o Pivete.

    – Este aqui matou a mãe no parto. É ruim, uma fera, nefasto. Fede mais do que um rato, mas paga bem, cumpre o contrato.

    ***

    O foco da lanterna volta-se para a beira do chafariz, ou seja, para a lateral do cinzeiro. Ali sento o Drogado.

    É jovem, magro e pálido. Traz na mão direita uma seringa, que, com um gesto brusco, crava no braço esquerdo. Depois fala em voz alta, quase gritando.

    – A morte viaja na bandeira dos piratas! A morte é preta como a roupa do Cavaleiro Negro. Rasguei a morte como se ela fosse a máscara do Batman, uma camiseta de goleiro ou qualquer outra coisa escura.

    O Artesão senta-se ao lado do Drogado, que se deita na mureta do chafariz e, em seguida, acomoda a cabeça no colo do Artesão.

    Afagando os cabelos do Drogado, falará o Artesão.

    – Minha carícia é um parco remanso no teu mar revolto. Meu carinho é pouco para o teu corpo roto.

    ***

    A Mendiga deixa o palco.

    O Pivete, de canivete na mão, se aproxima do Artesão e do Drogado.

    – Cuido carro, busco maconha ou cigarro. Arranjo mesa em bar, macho ou mulher para te amar.

    O Artesão o interroga.

    – Onde brincaste tua infância, se drenaram o rio, aplainaram os morros e cimentaram a praça?

    – Deram-me estrelas para pastorear. No estéril sereno eu sei semear.

    – Que fruta colhes com o fio do teu canivete?

    – A cidade me dá bêbados e putas. São eles o meu maná.

    Num gesto muito rápido, o Pivete rouba a carteira do bolso da calça do Drogado e, correndo, sai de cena.

    ***

    O Drogado senta-se na mureta do chafariz e se dirige ao Artesão.

    – Quem és?

    – Sou cacimba, falha na rocha, perdida entre a folharada. Perene, límpida, sou a mãe do arroio que rola sobre seixos redondos enquanto os meninos, sob o sol, estilhaçam o cristal das suas risadas. Sou olho de água na pedra perdendo crianças para a estrada. Sou muita coisa amalgamada.

    – Que fazes?

    – Da seca madeira, uso as achas. Da bruta rocha, arranco as lascas. Do duro ferro, produzo faíscas. Fabrico viventes.

    – Boa coisa não deves ser, se, como eu, nas profundas da noite fazes questão de viver.

    ***

    Coloco em cena o Pregador, homenzinho mirrado, espremido em terno preto, cabelo enlameado de brilhantina e Bíblia na mão.

    Levo-o até onde estão sentados o Artesão e o Drogado.

    O Pregador discursa.

    – No princípio era o silêncio e o espírito de Deus movia-se sobre o silêncio. E, vendo que o silêncio era bom, Deus disse: unam-se os silêncios num só lugar e apareça a solidão. E disse depois: Que a solidão dê sementes assim como as árvores dão frutos!

    O Pregador se cala e observa o Artesão e o Drogado. Como eles nada dizem, reata sua fala.

    – Em nome de Jesus, tudo tem um preço nesta terra de trevas e luz. Eu vos peço um óbolo para financiar uma cruz.

    ***

    A Prostituta deixa o banco, aproxima-se dos três homens e anuncia seus serviços.

    – Nos ocos dos becos, dou prazer aos coitados. Nos breus, satisfaço os tarados. Na escuridão, eu topo tudo: meus vícios e os seus.

    O Drogado e o Pregador retiram-se de cena.

    O Artesão se levanta, volta ao seu lugar e, de lá, dirige-se ao público.

    – Em madrugadas exaustivas eu os fabriquei, mas restaram inconclusos. Não passam de esboços, destroços.

    ***

    O Pivete aproxima-se da Prostituta e entrega a ela a carteira que roubou do Drogado.

    A Prostituta senta-se no chão. O Pivete deita-se, em posição fetal, ao lado dela.

    Acariciando a cabeça do Pivete, a Prostituta cantarola.

    O canto do primeiro galo

    Era só o que te ninava

    O orvalho na relva insone

    Era o leite que tu sugavas

    A tocaia dos salteadores

    Com facas prenhas de lua

    Era o medo que te afligia

    Nas longas vigílias tuas

    ***

    Fala o Artesão.

    – Nenhuma cidade é minha cidade. Com água e vento moldo incertas figuras. Fabrico minhas sombras numa oficina sem luz. Construí o silêncio para que a voz não me traia. Nenhuma cidade é minha cidade.

    ***

    Cambaleante, reaparece o Marinheiro.

    Aproxima-se da Prostituta e dá um violento pontapé no Pivete, que sai correndo de cena.

    A Prostituta suspende o vestido e abre as pernas.

    Deitando-se sobre ela, falará o marinheiro.

    – No calor de nossos corpos suados deveria vicejar uma flor. Na rede por nossos corpos trançada deveria repousar o amor. Mas contento-me em semear nos teus falsos suspiros o meu inteiro rancor.

    O Marinheiro e a Prostituta adormecem abraçados.

    O Pivete volta ao palco, aproxima-se do Marinheiro, rouba-lhe a carteira e sai por onde entrou.

    ***

    A Prostituta levanta-se, caminha até o Artesão.

    – Toda noite eu os acolho. Deito limpa na calçada, caio suja na sarjeta. Sejam velhos ou jovens, eu sempre os amanso. Sou feito cata-vento, nunca me canso. Com mentirosos miados de gata no cio, eu os arrasto com a força de um rio que varre tudo, até ficar só o restolho.

    Voltando-se para o público, fala o Artesão.

    – Quando os vejo assim, tristes, penso em dar-lhes um livro. Não um livro que fale daquilo que os aflige. Não! Um livro que narre tantos prodígios que o fardo, depois, lhes parecerá quase suportável. Um livro de divertidos poemas para se ler quando mais nada pode ser dito ou escutado.

    A Prostituta agarra a mão do Artesão e, sorrindo ironicamente, fala.

    – Tu, que tens a boca cheia de belas palavras e o corpo livre das tentações, poderias contar para mim uma história de amor!

    O Artesão recita.

    – Sou ruidoso arroio raso que corre entre pedras, encoberto pelas árvores, sou um mero riacho umbroso. Sou fio de água que corre entre morros, azul, sinuoso, vacilante, dissipado, inexato e manhoso. Sou relógio que nunca se cansa, sou espelho que nunca embaça.

    A Prostituta chora.

    O Marinheiro se levanta e sai pelo fundo do palco.

    ***

    Girando o cassetete, vindo do fundo do palco, surge o Policial, cantarolando com sua voz rouca que mais parece um rosnado.

    – Circulando! O medo é uma pilhéria, um impropério, uma miséria. Circulando! O medo é um grito que se doma, que se sufoca, que se dana. Circulando! Pouco ou pleno, o medo é tudo: máscara e manto, lume e acalanto.

    A Mendiga volta ao palco. De mãos entrelaçadas, como se rezasse, ajoelha-se diante do Artesão.

    – Negras contas do rosário, dedos finos, magra mão! Doze quedas no calvário para nossa salvação!

    O Artesão dá à Mendiga uma moeda e a interroga.

    – Será o frio teu amigo, pois vejo que dele construíste um abrigo? E do vento, o que fabricas? Luvas, vestidos, túnicas?

    – Sou íntima da fome. Tão íntima que a trato só pelo primeiro nome. Vivemos em harmonia. Se o medo é uma nota, o horror é a sinfonia. Minha vida é um sino tocando em lenta agonia.

    ***

    O Policial se dirige ao Artesão.

    – Nada dê a ela! Compaixão é seu alimento, piedade é sua eira. Sempre colhe de mão cheia. A miséria é uma chaga, um veneno, uma praga.

    O Artesão fala à plateia.

    – O mundo é só um vasto subterrâneo vazio. Estranha indústria é a poesia que nele fez sua moradia.

    ***

    A Cigana volta ao palco.

    A Prostituta vai até ela e indaga.

    – Será de terra dura minha rasa sepultura?

    Responde a Cigana.

    – Aberta no lodo será, com lama será coberta.

    – E este meu corpo magro, terá descanso?

    – O barro é sempre um bom leito.

    – Que será de minha alma?

    – Essas coisas todas tuas, lama, alma e sepultura, são apenas palavras nuas.

    ***

    Ressurge, irado, o Marinheiro.

    A Prostituta caminha na direção dele.

    – Atocaiada no sereno, eu, danada mulher, mais uma vez te ofereço um corpo.

    Com um gesto brusco, o Marinheiro a empurra.

    – Não procuro teu prazer fingido! Recuso teu amor isento de afagos!

    – Vem, marujo, aqui me tens determinada a dar-te consolo, delírio e talvez um fugaz beijo tolo.

    – Por que me roubaste, mulher, enquanto burlávamos a paixão com nossos corpos incendiados?

    – Não entendo o que dizes, extraviado! Por que me recusas se sou o que mais procuram tuas vísceras?

    O Marinheiro ergue o braço.

    – Não turvemos o silêncio com nossas palavras malsãs.

    O Marinheiro crava um punhal no peito da Prostituta e corre para o fundo do palco. O Policial o segue.

    ***

    O Artesão segura a cambaleante Prostituta.

    Logo eles são cercados pelos demais personagens.

    Chorando, fala o Artesão à Prostituta.

    – Jamais te neguei o vermelho da minha caridade. Para ti, sempre tive as mãos abertas como flores. Para ti, sempre tive os braços abertos em cruz.

    ***

    Som de altercação.

    O Policial vem do fundo do palco arrastando o Marinheiro, que tem as mãos algemadas às costas.

    Os dois param junto à aglomeração e ali travarão um diálogo.

    Começa o Policial.

    – Em terra, maldito, era certo que matarias. Se fosses tecelão, só mortalhas tecerias.

    – O fio da honesta faca entrou no peito e, ligeiro, cortou pelo meio o pecado, no lugar justo, certeiro.

    – Como era o fio da tua adaga, Marinheiro? Era fino e furioso ou era do talho que alarga, que tudo arrebenta, cioso?

    – Era um fio delicado. Não do que costura, do que une e conserta, mas do que desata, que a tudo desbarata.

    – Era, Marinheiro, daquele fio que traz um nefasto sinal, fio que não liga nem ata, fio final?

    – Se linha fosse, seria da que só embaraça, sem ver religião ou raça.

    – Orgulhoso Marinheiro, que vives no mais fundo dos infernos, no rubro que mais queima. Orgulhoso Marinheiro, que tens por pai o ódio e por mãe a crueldade. Orgulhoso Marinheiro, aviso-te que o xadrez das grades de ferro, brilhantes nas noites de tormenta, acabará com tua soberba.

    O Policial arrasta o Marinheiro em direção ao fundo do palco.

    ***

    A Mendiga estende o braço e acaricia o rosto da Prostituta.

    – Um corpo dissoluto no negrume era todo o seu patrimônio. Devasso no amor que não se consumou, obsceno na paixão que lhe foi negada.

    Exaltado, reage o Pregador.

    – Buscou no vinho santo só a perdição!

    Volta a falar a Mendiga.

    – Era apenas uma carne esfomeada de amor, de carinho sedenta. Só queria o bem mais raro, aquele que não se compra nem se inventa.

    ***

    O Artesão toma a Prostituta, já morta, nos braços e encaminha-se para o fundo do palco, seguido por todos os personagens, com exceção da Mendiga, que, ajoelhada, volta-se para o público, aponta os que estão deixando o cenário e fala.

    – Devagar, aí vai o tardo caminhante levando a filha morta. Nada o deterá, pois é andarilho das perdidas veredas, onde só há vertigem e vácuo. Leva morta a filha que moldou com suas próprias mãos. Não, ele não tem culpa. Também a ele tudo foi negado. Deram-lhe tão somente barro, tristeza e dor para fabricar suas criaturas. Por isso viaja só, como todos nós. Mas o mais terrível é que ele me lembra Deus Pai carregando seu filho, Jesus, morto.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Este conto foi originalmente publicado no livro A arte excêntrica dos goleiros e é o vencedor do 3º Prémio Prata da Casa (2026) – Casa Brasileira dos Livros.

  • Às seis da tarde, naquela rua, o medo

    Às seis da tarde, naquela rua, o medo

    Fosse o que fosse – fosse o verão e estivéssemos, caras vermelhas e topetes suados, sobre o verdadeiro fogão que era aquela calçada de cimento; fosse o inverno e estivéssemos pálidos e rígidos dentro de nossas japonas de lã; fosse o outono e estivéssemos observando melancólicos a dança das folhas secas, fosse a primavera e estivéssemos aspirando o aroma das margaridas – ele estava sempre ali, às seis da tarde.

    Sentado naquele mocho bambo, encurvado dentro da concha de seus demorados silêncios de inveterado mateador, ele conseguia segurar por alguns bons minutos a permanente inquietude da nossa infância. Era meu avô.

    Estava sempre ali, às seis da tarde, às seis em ponto da tarde, quando desciam aquela rua, apressados pela vergasta da noite, os homens e as mulheres que passavam os dias encerrados como feras nos galpões sombrios dos curtumes, da fábrica de sabão e do imenso lanifício.

    Estava sempre ali, naquela calçada, às seis da tarde, quando, vinda da penumbra sonolenta da cozinha, surgia minha avó trazendo a velha chaleira tisnada com a água quente e a cuia, com o mate já montado. Ele permanecia em silêncio por mais um pouco, mas sempre vagando o cinzento dos seus olhos pelos nossos rostos ou pelo brilho opaco das estrelas recém-nascidas ou pelo vermelho do sol que morria por trás do terreno baldio. Sempre na calçada, sentado num banquinho de pernas bambas.

    Estava sempre ali, naquela rua, ao cair da tarde. Gostava muito de falar sobre os céus e os ventos, os solaços e as frialdades, mas disso não queríamos saber pois o que nos interessava mesmo era a história que viria a seguir.

    Esperávamos brincando já que, para nós, o tempo era apenas uma sucessão ininterrupta de esconde-esconde, pega-pega, pula carniça, mocinho-e-bandido e chicotinho-queimado.

    Impacientes, esperávamos que ele começasse a contar uma daquelas histórias, sempre as mesmas duas, com as variações que as noites de insônia e os dias vagabundos de aposentado iam introduzindo a cada nova narração.

    Inquietos, esperávamos o medo, enquanto ele cuidadosamente punha a água quente na cuia e em seguida sugava o ouro do bico da bomba, num preparativo indispensável para que o medo fosse se aninhando em nossas magrezas e crescendo ali, vicejando em nossos peitos, alastrando-se por nossas pernas e braços.

    Naquela rua, à seis da tarde, naquela calçada, tínhamos medo.

    Medo do açougueiro, baixo e retaco, medo dos seus grossos braços peludos e da sua cara azulada de barba, medo dos seus olhos mansos de homem honesto. Medo do mísero eletricista alemão, alto e magro, que morava num casebre no fim da rua, medo dos seus olhos verdes de gato, medo do seu jeito esquivo e silencioso.

    Foi ali naquela rua, às seis da tarde, onde permanecemos por tantos anos, calados e atemorizados, expectantes e respeitosos, que vimos o medo multiplicar-se… Multiplicar-se como os incontáveis coelhos que saíram da cartola do mágico daquele circo mambembe a que fomos num domingo.

    Suas frases curtas eram alinhavadas por longos silêncios.

    Houve uma vez, num tempo muito antigo, um castelo.

    O medo começava a pulsar dentro de nós quando ele, ao mesmo tempo que levava a bomba aos lábios, erguia os olhos para o céu.

    Naquele castelo vivia uma princesa muito bonita.

    O medo era como um gato enroscando-se em nossas canelas glabras.

    Pois numa noite de lua cheia a princesa escancarou a janela para dormir melhor. Era o verão.

    Mais do que imaginávamos, nós víamos de verdade a bela jovem abrindo a janela como se convidando as estrelas a partilhar com ela o leito.

    Descuidada, adormeceu. No meio da noite, acordou sobressaltada por um barulho que não era nem de gente nem de bicho.

    Éramos o medo, todos nós, dos pés à cabeça, inteiriços, arrepiados.

    A princesa acordou e viu um vulto ao lado da sua cama. O vulto voou sobre ela.

    Sabíamos o que viria a seguir, mas não tínhamos como controlar o medo, frio e pegajoso, que já era então como uma serpente que se enrolava em nossos pescoços para nos estrangular.

    A princesa gritou. O vulto fugiu pela janela. No pátio, o guarda do castelo fez fogo.

    Mesmo que não fosse inverno, sem perceber, nós sempre acabávamos nos aconchegando, para enfrentar o gelo do terror.

    Ouviu-se um urro de fera. A fera desapareceu, mas deixou no chão um rastro de sangue.

    Chegávamos ao horror, ao fundo do poço do horror, nas noites em que, naquele exato ponto da história, passava por nós o pobre eletricista arrastando ao lado da bicicleta sua sombra triste de homem solitário.

    No dia seguinte, o médico foi ao castelo para atender a um homem que estava morrendo. Era o cavalariço. Enquanto fazia o curativo num ferimento causado por tiro, ele viu entre os dentes do homem fiapos do tecido delicado de que era feito o mosquiteiro da princesa.

    E ali, naquela rua, ficávamos nós, trêmulos e ofegantes como se tivéssemos corrido muito e sem destino e observando, cabisbaixos, as manchas de escuridão que se multiplicavam ao nosso redor e temendo ver nascer delas o lobisomem.

    E dali só nos movíamos quando, das portas de nossas casas, gritavam as mães: Janta na mesa! Já para dentro! Hora do banho!

    Era outro dia, outro céu e outra história, mas sempre às seis da tarde, e lá estávamos novamente, mudos e quietos, ao redor do banco, observando respeitosos o ritual eterno do chimarrão – impermeáveis à voz do rubro vento do outono, às névoas cinzentas do inverno, ao perfume branco da primavera ou ao inferno alaranjado do sol que morria.

    Havia aí para esses lados, faz muito tempo, um matadouro.

    Acompanhávamos o movimento do braço que, depois de soltar a chaleira sobre o descanso calcinado de madeira, se erguia e fazia uma curva no ar pesado de umidade e apontava para a nossa rua, sinuosa, e descia por ela, acompanhando-a, como se na verdade continuasse com ela depois da pinguela de madeira sobre o arroio e avançasse por entre as árvores altas até se encontrar com as ruínas da sombria construção que muitas vezes visitávamos, amedrontados, na sonolência incendiada das tardes de verão.

    Foi no tempo dos escravos. No matadouro havia um capataz malvado. Tão malvado que, quando não tinha homem ou animal para maltratar, chicoteava-se a si mesmo.

    À seis da tarde, estávamos sempre naquela rua, cujo nome pomposo, de marechal ou general, jamais decoramos, como ninguém antes de nós havia decorado, naquela rua que já era conhecida e sempre será como Corredor da Tropas porque por ali transitavam melancólicas manadas, conduzidas por peões sorumbáticos, cem anos antes, em direção ao matadouro que fora erguido sobre a pestilência do pântano.

    Um dia esse capataz malvado roubou a mula de um pobre padeiro português que morava perto da igrejinha.

    Mais uma vez a chaleira era depositada e o braço erguia-se na frialdade de julho e traçava uma rota meio incerta pela ladeira que subia e só se detinha quando alcançava à torre da igreja de Nossa Senhora da Luz.

    Arrastou a pobre mulinha por esta rua e se foi na direção do matadouro.

    A mão fazia então o movimento correspondente: descia da igreja, caminhava sobre as pedras irregulares da nossa rua e ganhava depois a estrada que avançava, sombria, entre plátanos, figueiras bravas e salsos chorões.

    A mula empacava, mas o capataz batia nela com uma acha de lenha. O pobre animalzinho zurrava de dor. Umas pessoas viam aquela maldade, mas não falavam nada porque tinham medo daquele bandido.

    O medo. Como tínhamos muito medo às seis da tarde, naquela rua, apertava-se o círculo – corpos franzinos, uns colados nos outros, ao redor do banco do velho contador de causos – enquanto chegavam até nós, abafados, o som da ave-maria rezada nas emissoras de rádio e os cânticos das velhas carolas na igrejinha.

    Lá longe, no meio do banhado, de raiva, ele degolou o pobre animal. Depois voltou trazendo nas mãos a cabeça da mula. E deixou a cabeça na porta da casa do padeiro. O pobre português estava sesteando.

    A morte. Nós já tínhamos visto a morte cruzar muitas vezes a nossa rua dentro dos modestos caixões que traziam corpos de gente que havia morado e morrido nas vilas erguidas sobre o pântano domado.

    O padeiro morreu de tristeza ao ver a cabeça da sua companheira de trabalho. Morreu de tristeza diante de tanta maldade. Então, dali para a frente, de vez em quando, a mula passava por esta nossa rua. Vinha zurrando, empacando, zurrando de novo, empacando. Mas ela só passava ou na hora da sesta quando todos estavam dormindo ou à meia-noite. Vinha sem a cabeça a coitadinha… Dizem que ainda passa por aqui, às vezes.

    Apavorados, nem prestávamos atenção ao canto inexplicável das cigarras ou a algazarra dos pardais que se acomodavam nas laranjeiras dos nossos pátios para atravessar a noite ou os pios soturnos das corujas que se ajeitavam nas árvores enfezadas do terreno baldio para sua longa vigília.

    Um dia o malvado capataz não aguentou mais as visitas da mula sem cabeça. Com a mão esquerda segurou seus próprios cabelos, melena preta e feroz, e com a direita empunhou o facão afiado com que tinha matado a mula. E degolou-se. De um só golpe.

    Entrávamos em pânico quando naquele trecho da história, apurando os ouvidos, conseguíamos ouvir, vindo do açougue, o ruído de uma faca sendo amolada na beira do ensanguentado balcão de mármore.

    Dizem que o capataz, já degolado, ainda deu uns passos. Com as duas mãos erguidas. Na direita segurava o facão. Na esquerda segurava sua própria cabeça de homem perverso.

    Hoje somos todos homens e estamos espalhados por este mundo de Deus. Mas às seis da tarde, em qualquer lugar, estejamos onde estivermos – em meio a balbúrdia de nossos filhos em casa, no frio cinzento dos escritórios ou na escura solidão das grandes avenidas -, sempre voltamos àquela ruazinha estreita, àquela calçada, e temos medo, muito medo.

    Lourenço Cazarré é escritor.

    Publicado originalmente no livro Histórias Suburbanas, 1986, Editora Atual (São Paulo)

  • Um mergulho no mar encapelado da mais radical contestação

    Um mergulho no mar encapelado da mais radical contestação

    – O senhor trate de ir saindo, professor. Vá para sua residência!

    – Agora? Não, sargento. Ainda me falta uma noite de recolhimento.

    – Não desconheço esse fato, mas necessito da cela.

    – Recuso-me a partir. Ainda não me considero inteiramente sóbrio.

    – Porém está. O senhor permanece alerta mesmo quando ébrio.

    – Necessito deveras da solidão deste cubículo.

    – Mas eu preciso dele ainda mais. Para alojar aqui um hóspede especial.

    – Quem o senhor pretende trazer para cá?

    – Um quase assassino.

    – Quase?

    – Tentou passar fogo em uma autoridade constituída, mas falhou.

    – Merece sanção. Teve chance de alterar o rumo invariável da história e não o fez. Poderia ter detido mesmo que por um instante a marcha irrefreável da tirania e não o fez. Seria digno de enforcamento? Não. Demanda garrote civil.

    – O senhor me sai com cada uma, professor! Garrote o quê? Garrote, até onde sei, é filhote de rês. O caso é que o bandido quase defunteou o prefeito, mais esposa ventruda e motorista.

    – Não mo diga! O alcaide desta comarca?

    – Exato. Nosso preclaro Glicínio. Também um homem aculturado, embora não dotado de diplomação como o senhor. Pensei que o senhor fosse amigo dele.

    – Tenho apreço pelo referido, sim, mas apenas na sua dimensão privada e particular. Sei que é pessoa comedida no falar. Versado no vernáculo, não faz disso alarde. Julgo, porém, que todo aquele que ocupa cargo de mando em instituição corrompida merece supressão.

    – Realmente, o senhor ainda não assimilou a borracheira. Seus miolos permanecem embaralhados pela branquinha. Quando sarar, mudará de parecer. Diz que o intendente deveria ter sido justiçado. Parolagem. No fundo, o senhor não sacrifica nem muriçoca. Agora envergue seu paletó e ganhe a via pública.

    – Prefiro pernoitar aqui. Volto para o meu lar amanhã, segunda-feira, como de hábito, ao romper o novo sol. Nesta noite histórica aceito partilhar minha célula com o destemido e desafortunado justiceiro.

    – Justiceiro? O senhor me sai com cada uma, professor! Aquilo não logra ser um homem. É só um calcanhar-rachado.

    – As suas palavras são aleivosias preconceituosas, sargento! Lídimo representante de uma instituição cruel, o senhor não consegue alçar-se à dimensão do demasiado humano. Jamais reconhecerá um homem verdadeiro quando este lhe aparecer disfarçado sob uma aparência humilde.

    – Humilde? Pois pense. O quase assassino é um gaiato. Papeei com ele, faz pouco, na Sala do Comando. Fingiu ser um zero à sinistra, pensando que me engambelará. Aqui tem seu paletó. Saia.

    – O senhor permitiria que eu apertasse a mão desse anjo vingador?

    – Anjo o quê?

    – Anjo vingador dos perenemente ofendidos, verdugo de tiranos…

    – Não elabore teses, professor. Foi mera tentativa de assassinato. Morte contra pagamento. O caso não tem rima nem ritmo. Não é poesia.

    – Não utilize em vão essa tão sagrada palavra, sargento!

    – Respeito e amo a poesia, professor.

    – O senhor aprecia sonoridades rimadas!

    – Não me menoscabe. Sou um cidadão decente e civilizado.

    – O senhor é um silvícola. Ontem, mais uma vez esbofeteou-me.

    – De certa forma, ainda que inconscientemente, como um diabrete fuzarqueiro, o senhor estava a pedir punição corretiva.

    – O senhor me agrediu covardemente.

    – Covardemente, não. O senhor não estava de mãos atadas

    – Mas eu me encontrava inteiramente embriagado.

    – Quem lhe ordenou que se encharcasse de caiana? Acaso fui eu?

    – Por que o senhor me estapeou?

    – Aqui ou na rua?

    – Tanto faz.

    – Do que se deu dentro desta repartição pública, professor, eu lhe devo explanações, visto que este é um próprio do Estado. Aqui, o senhor foi premiado com um safanão porque se agarrou às grades da Jaula Grande e aos berros tentou sublevar os detidos.

    – Eu queria atraí-los para a minha causa.

    – Que não se percebia qual era. O senhor ululava.

    – De fúria, de compreensível e justíssima indignação!

    – Talvez o senhor possua corretos motivos para se revoltar contra o estado em que se encontra o mundo atual. Mas esse é um

    problema comum a todo homem de inteligência. Por falar nisso, devo admitir que os dois cavalheiros mais apurados culturalmente desta comarca são o senhor e o burgomestre.

    – O prefeito tem leituras, mas não chega a ser um intelectual. As pessoas que conversam com ele não morrem de tédio. Sei que possui um humor amargo, áspero e sombrio, porém certeiro. Só lamento que seja comunista…

    – Comunista! E o senhor é o quê?

    – Anarquista.

    – Anarquista?

    – Sim. Registre isso na sua cadernetinha.

    – Em voz baixa para que ninguém nos ouça, eu lhe digo o seguinte, professor: a cidade inteira tem de certeza assentada que o senhor e o prefeito são dois comunas safados.

    – O intendente é um lacaio de Moscou, sem dúvida. Eu, não. Sou um espírito independente. Não obedeço a ninguém. Repugna-me toda e qualquer ordem. Sou um libertário. Batalho pela liberdade mais dilatada. Desprezo e rejeito todas as instituições, públicas ou privadas.

    – Enfie-se para dentro do seu paletó, por favor.

    – O senhor vai espancar também o homem que tentou assassinar o prefeito?

    – É possível. Mais que isso: eu diria que é bastante provável.

    – O senhor não tem vergonha?

    – Não. Pagam-me para manter a Ordem. O Progresso virá depois.

    – Às vezes eu penso que o senhor é um monstro, sargento.

    – Não exagere! Todos nós somos minúsculos seres rastejantes ansiosos por iluminação. Nossos caminhos é que diferem. E já que o senhor está muito falante hoje eu gostaria de lhe fazer uma pergunta.

    – Faça, pois. Responderei se quiser.

    – Muito bem. Por que o senhor, varão culto, consorciado com senhora digníssima e pai de lindas donzelas, cidadão que labuta tenazmente durante a semana, se entrega à bebedeira desenfreada nos sábados?

    – Justamente por ser cultivado, trabalhador dedicado, esposo fiel de uma senhora decente e pai de recatadas moçoilas. Observo o funcionamento do mundo, reflito sobre ele e me desespero. Só os maus saem vitoriosos na refrega da vida. Os inocentes são tragados pela humilhação e pela dor. Por isso, por ter alcançado essa verdade, todo sábado, eu me livro do meu falso eu, acomodatício, e me entrego à zoeira e à desorganização. Quando borracho, sou o alguém libérrimo que sonhei ser quando era um adolescente rebelado. O álcool me liberta das convenções mortas.

    – O senhor não poderia se embebedar em casa?

    – Não. Enquanto ser anárquico, preciso mergulhar nos braços daquilo que o senhor tacha de choldra, patuleia, plebe ou populaça.

    – Pinguços e piranhas?

    – Renego essas suas expressões redutoras! Eles são o povo sofrido e menosprezado, o gentil, carinhoso e ingênuo povo do Brasil. Pago para que bebam comigo, a fim de que, entre um gole e outro, eu possa despertá-los para o horror da vida dos homens.

    – Acho que nem prestam atenção ao que o senhor diz. E olha que o senhor tem o dom da locução! Só se interessam mesmo pelo champanha da terra que o senhor proporciona a eles.

    – Isso é o que intui o senhor, um materialista vulgar. Os descamisados não se preocupam com níqueis, pratas, réis ou tostões. Desprezam o metal abjeto. Libertos da ambição e da ganância, eles e eu, entramos em comunhão profunda nessa libação alcoólica. Guiada por mim, essa mísera gente vivencia, mesmo que por escassos instantes, um mergulho no mar encapelado da mais radical contestação.

    – Talvez. Pode ser. Quem sabe? Mas, pronto! Vá para casa. Sua senhora ficará alegre e surpresa ao vê-lo antes do esperado. Ande. Agora, agorinha mesmo, vou acomodar aqui o meu novo prisioneiro.

    – O senhor me promete que não vai machucar o cidadão?

    – Faça a barba. Tome um banho.

    – Prometa!

    – Vou cuidar direitinho dele.

  • Um semeador de escândalos

    Um semeador de escândalos

    Digo uma coisa: se um dia você quiser torturar um jornalista – especialmente um colunista de economia, como eu – não pegue nem fios elétricos desencapados nem ferros em brasa. Basta sumir com o telefone celular do elemento.

    Após a entrada do celular nas nossas vidas, nunca mais tiramos férias, nem folgas. Antigamente, quando deixávamos o jornal e não queríamos ser achados por redatores covardes – os que gostavam de verificar com o repórter o que já está mais do que comprovado -, bastava ir a qualquer boteco que ficasse fora do circuito noturno do pessoal das redações. Hoje não há escapatória.

    Depois do celular, privacidade nunca mais. Nem noturna nem diurna. Hoje só há um caso aceitável de fuga: uma rápida escapada para prevaricar. Férias de quinze dias, um mês? Nunca mais. Hoje em dia o sujeito permanece ligado na sua rotina mesmo estando em lugares inóspitos, como, por exemplo, as praias do Rio de Janeiro. Se ocorrer ali uma chacina, uma guerra entre traficantes, um arrastão ou uma execução sumária, você pode passar os dados diretamente ao jornal sem tirar os pés da areia suja.

    Você já esteve por dentro da mente de um jornalista histérico?

    Siga-me.

    O mundo lá fora parecia estar congelado.

    Quando passa dez minutos sem receber uma ligação, um colunista de jornal sente-se como uma engrenagem emperrada.

    – Por que o senhor não se deita um pouco? – era a enfermeira. – Por que não relaxa?

    – Um jornalista garimpa no éter – expliquei. – Pega um telefone e liga para pessoas que sabem das coisas. Uma delas dá a você uma pista interessante. Então você dá outros telefonemas e verifica com pessoas espertas se aquilo que o primeiro informante lhe disse faz sentido. Sempre faz. Se não fizer sentido, você arranja um meio de fazer aquele boato parecer verdadeiro. Mas, sem telefone, eu não planto nem colho. Sem celular, eu não existo, entro em desespero. Você me entende?

    – Claro – respondeu, desinteressada.

    – Não! Você não pode avaliar o horror que é ver as horas se esgotarem sem que a gente consiga cavar uma notícia. Uma só. Para os jornalistas, as horas nada mais são do que uma sucessão interminável de telefonemas. Você me entende?

    – Calma! Deite-se, por favor!

    – Vou explicar melhor para você, que é uma mulher sensível. Rastrear a notícia é como levantar a caça. Um telefonema lhe dá uma pista. Depois, em telefonemas sucessivos, você vai cercando o animal. Um sujeito experiente como eu consegue perceber claramente quando a notícia vai ficando de pé, acuada por trás da vegetação rasteira. Raramente é um tigre. O que mais se acha é perdiz e cutia: notinhas de sete linhas.

    – O senhor quer que eu chame o médico plantonista?

    – Não. Sei que divago, mas isso, no meu caso, é a normalidade. Estou sempre assim, a mil. Só que não falo. Escrevo ou telefono. Você entende? Aqui, não, estou de mãos amarradas, algemado. Estou meio doido por não ter um celular. Eu seria capaz de tudo para recuperar meu telefone,

    Arregalei os olhos, contraí os dedos e, ameaçador, acrescentei:

    – Até mesmo esgoelar uma mulher.

    – Tome jeito! – ela ergueu os punhos fechados, como um boxeador prestes a se defender.

    Aquela pose era desanimadora. Olhei para o punho dela e constatei que era mais grosso que o meu. Se bobear, pensei, ela me põe a nocaute. Analisei mais atentamente o braço torneado dela. Antebraço e bíceps tinham sido trabalhados ao longo de décadas com vassouras, roupas molhadas à beira de um tanque e macas que conduziam rubicundos gordos agonizantes.

    Desabei na cama.

    – Minha mulher, Luciana, era belíssima aos vinte anos. A psicóloga já morava dentro dela, mas ainda não dava o ar de sua graça. Quando ela passava pela rua, arrastava atrás de si o olhar dos homens. Tinha um caminhar elegante e, mais importante que isso, um belo traseiro, que ela própria odiava. Não gostava de ouvir o assobio dos vagabundos.

    – Os homens todos são uns porcos capados – filosofou a enfermeira.

    – O que Luciana mais odiava era quando o sujeito chupava o ar entre os dentes, assim: chuuup!

    – O senhor não está com dor de cabeça?

    – Não! Tenho uma filha, Edméa, a do meio, que é igual à mãe. Inclusive no traseiro, bem-feito. Você sabe o que ela me perguntou um dia? “Pai, por que você não arranjou uma profissão decente? Por que virou um semeador de escândalos?”

    – O quê? – abespinhou-se a enfermeira. – A menina perguntou isso mesmo ao senhor? Que falta de respeito!

    – Você já teve essa experiência? Algum dos seus filhos já lhe fez pergunta tão violenta quanto essa?

    – Deus me livre! Se tivesse um filho, e ele me fizesse uma pergunta dessas, dava-lhe uma coça de porrete!

    – Naquele dia, minha primeira reação foi achar que ela estava brincando. Mas Edméa não brinca, nunca, jamais. É igual à mãe.

    – Tome pelo menos um copo com água, homem de Deus! Eu entendo o senhor, com uma família dessas! Mas sossegue. Essa agitação vai lhe fazer mal. Vou ao posto de enfermagem pegar um calmante. Mas, se precisar de mim, é só apertar a campainha aí na cabeceira da cama.

    Eu a puxei pelo braço.

    – Escute só o final. Aí, eu perguntei para ela: por que você fala assim comigo, Déda? Você não sabe que o pai ama o Jornalismo? Ela respondeu: “Pai, que graça você acha em ficar fuçando na lama o dia todo?”

    A enfermeira pegou-me a mão, carinhosamente, e sacudiu afirmativamente a cabeça.

    – Fiz bem em não parir. Filho é como escorpião. Quando fica grande, envenena pai e mãe.

    – Tentei me explicar. Calma, Déda, não é bem assim. Um jornalista econômico só vive preocupado em descobrir quem está roubando de quem. É um serviço de utilidade pública. De quando em quando, alguém vai para cadeia… 

    – Só muito raramente – comentou a enfermeira.

    – Sabe o que a menina me respondeu? Ela disse assim: “Pai, você só parte para cima dos sujeitos que já estão quebrados e acaba com o pouco que eles ainda tentam salvar”.

    – Essa foi pesada!

    – Veja só que resposta para uma menina de dezoito anos! Eu quase caí de costas. E retruquei: Não, filhinha, não somos tão poderosos quanto as pessoas imaginam. Eu nem sempre consigo publicar o que apurei. Há muita coisa que não pode ser dita. Você deve entender: grandes interesses. Aí, ela me disse: “Pai, o que você faz é chutar cu de onça morta”.

    – Sua filha deve ser uma cadelinha – disse a enfermeira e saiu.

    Lourenço Cazarré é escritor.

    Publicado originalmente no livro A grande migração do temível tubarão branco, 2018, Fundação Cultural de Curitiba

  • A seita dos leitores de relatos breves

    A seita dos leitores de relatos breves

    É simples, como disse. À noite, o praticante deita-se, acende o abajur, apanha um livro e lê um conto entre os indicados por nós.

    Nosso critério básico: amplitude mundial.

    Por exemplo, digamos que alguém, um de nossos crentes, leia religiosamente durante vinte anos (sete mil e trezentas noites). Obviamente, ao cabo desse tempo, ele terá adquirido uma sólida base de leitura, mais do que suficiente para que se transforme, caso queira enveredar por essa penosa senda, em escritor.

    É impossível que alguém, num prazo tão dilatado como o do exemplo acima, não consiga descobrir o secreto mecanismo que move as histórias enxutas.

    Dizem os jocosos taoístas – que não devemos confundir com os enfadonhos budistas – que, com a experiência prolongada, o artesão se transforma em ferramenta.

    Não somos preconceituosos. Aceitaremos até mesmo contistas norte-americanos. Nesse caso, daremos preferência a Herman Melville, claro. Dele recomendaremos especialmente a leitura de “Bartleby, o escriturário”. Não só porque a fruição dessa tragicômica novela curta (ou conto demorado) esteja hoje na moda, mas, sim, porque se trata de um causo especialmente comovente para brasileiros e portugueses porque tem como personagem um escrivão, figura destacada na ficção destas nossas nações advocatícias e cartorárias.

    Ernesto Hemingway entrará também, com aquele conto estendido (ou novela curta) sobre o peixe que fisga o velho cubano do pescoço gretado pelo sol e que o leva a passear pelo golfo incendiado de luz dourada.

    Que uma coisa fique clara! Hemingway foi aceito no nosso rol não pelo seu contestado talento literário, mas porque nasceu em 1899, o mesmo ano que nos presenteou com Nabokov e Borges.

    Outro convocado para a nossa lista será o senhor Bret Harte, autor de “Os exilados de Poker Flat”, aquela comovente história sobre a lufada de azar que matou mister John Oakhurst, jogador de profissão, e que levou junto, de cambulhada, seus companheiros de infortúnio: Mamãe Shipton, Duquesa, Tio Billy, Inocente e Piney Woods.

    Para quem não sabe, esclareço que o filosófico mister Oakhurst foi o sujeito que cravou em um pinheiro, com uma faca de mato, uma carta de baralho (dois de paus), na qual estava escrita, com letras firmes, a seguinte sentença:

    Ao pé desta árvore jaz o corpo de John Oakhurst que encontrou uma aragem de má sorte em 23 de novembro de 1850 e sucumbiu aos seus golpes no dia 7 de dezembro de 1850.

    Aceitaremos mais uns poucos americanos. Entre eles, a querida senhorita Carson McCullers.

    Na verdade, admito, criamos severas restrições para a entrada em nosso cânone de ficcionistas de uma nação que ama esportes violentos, entre os quais se sobressai a caça às mulheres alheias. Mas só a invenção do beisebol já bastaria para expulsá-los do convívio humano.

    A excelência literária é o nosso único critério.

    Mas advirto: não seremos tão democráticos a ponto de aceitar muitos franceses. Ficaremos restritos a Mérimée e Maupassant. Quatro contos para cada um. E, vá lá, três para Flaubert! Não, não insistam, não aceitaremos nenhum outro comedor de lesmas.

    Sem dúvida, escolheremos as melhores narrativas curtas. Estilo, conteúdo e originalidade serão critérios inarredáveis.

    O melhor conto do mundo, como já afirmamos, trata-se de “A sereia”, de autoria do Senhor Príncipe Lampedusa, um homem avesso a badalações, alto e bem-vestido, um tanto frouxo de carnes, de olhar impenetrável.

    Não quero descer a detalhes sobre a produção local, mas um dos contos do ministro Machado de Assis será “Noite de almirante”, uma historieta na qual nos defrontamos, novamente, com mais uma mulher vulgar, promíscua e lúbrica, exatamente como Capitu, a protagonista do romance Dom Casmurro.

    Outra presença luminosa do senhor Joaquim de Assis Machado será o conto “Uns braços”, que retrata um caso clássico de pedofilia, no qual uma insidiosa e viciosa mulher madura avança sobre o imaginário de um jovem abobado de quinze anos.

    Ninguém soube retratar tão bem como o Bruxo do Cosme Velho a desfaçatez e a iniquidade femininas.

    A relação de contos que indicamos a nossos seguidores já se encontra, sob cláusula de sigilo, com o Concílio para a Propagação da Fé entre os Gentios Devoradores de Letras Impressas.

    Nós, luminares desta nascente religião, não prometeremos recompensas terrestres ou mesmo celestiais a nossos fiéis.

    Mas uma coisa é certa: o cidadão que está preso na malha de um conto perfeito certamente não esfaqueará, durante a leitura, sua esposa adúltera. Ele postergará essa sua inclinação criminosa. Por fim, vencida a leitura ritual, mais calmo e tranquilo, ele se contentará em tão somente surrar a vadia.

    Por meia hora, uma hora, o praticante ficará embevecido com a leitura de uma história curta.

    Se, porém, um dos nossos fiéis ceder à tentação de agarrar-se a um livro de autoajuda, mesmo que metamorfoseado em obra de ficção, nós lhe imporemos, a título de penitência, a travessia da Galícia espanhola na pernada lendo livros de bruxaria rabiscados por escrevedores do Hemisfério Sul.

    A leitura de “Carmen” se estenderá por duas horas.

    O passeio com “Emma Zunz” durará dez minutos.

    Em uma hora e meia lê-se “O alienista”.

    Função, natureza e fim último da literatura: entreter homens e mulheres, estas últimas em menor grau.

    Um ensaio a ser escrito por um de nós, o Mestre ou um dos Iniciados, esclarecerá tudo que foi dito acima para a turbamulta de analfabetos e ignorantes crassos que povoa esta Nação Futebolística.

    Reconheçam que nunca nenhum entre vocês imaginou que poderia ouvir em vida uma palavra tão insólita e inquietante quanto essa: turbamulta.

    Os ignorantes são rancorosos. Quando nos veem com um livro nas mãos, logo pensam em arranjar-nos um trabalho braçal.

    Pode existir trabalho decente – que não o de escrever ou ler – para aqueles que, como nós, só obtêm prazer e gozo com continhos ou de noveletas?

    Não!

    Mulheres, quando aceitas na seita, terão carga menor de leitura. Meio conto por dia. Para que não sofram lesões mais graves no aparelho cerebral, quando dotadas de um.

    A cabeça de uma mulher só é equilibrada pelo uso dos brincos.

    Amorosas? Vossa Excelência afirmou que mulheres são mais amorosas. De onde tirou essa conclusão? Sim, sim, aceito vosso argumento. Sim, é verdade que alguém precisa trocar as fraldas embarradas dos bebês. Sim, também é verdade que essa tarefa imprescindível só pode ser desempenhada por alguém que alcançou a suprema benção/maldição do amor genuíno. Não falta razão a Vossa Excelência: as mulheres são mais amorosas. Reconheço.

    Mulheres preferem filhos às obras impressas.

    Mulheres só se apaixonam por homens que as tratam como se fossem cortesãs.

    Para que não sejamos acusados por falsários de incentivar e exaltar a misoginia, aceitaremos na nossa seita ledora pessoas pertencentes ao segundo sexo, mesmo que sabidamente tenham dificuldade de concentração.

    Adúlteras ou não serão acolhidas em nosso seio.

    Em nosso mamilo, quero dizer.

    “Jesus mamilo” é um conto muito bom de Nick Hornby, que nasceu na Inglaterra. Ah, britânicos não são americanos! Autores britânicos terão preferência na cota que destinaremos aos cínicos e debochados.

    Mulheres odeiam a solidão.

    Enquanto lê o ser humano tem apenas a si mesmo.

    Estar absolutamente só é inaceitável para uma mulher.

    À solidão elas preferem a companhia de qualquer um. Mesmo que esse qualquer um seja uma pessoa constrangedoramente inculta.

    Mulheres preferem amantes grosseiros, mesmo que sejam surfistas ou que se expressem em inglês de lutador de jiu-jitsu.

    Quem lê basta-se a si mesmo.

    A mulher, porém, enquanto avança na leitura de uma obra impressa, lança, de segundo em segundo, olhares angustiados em torno de si à procura de concavidades auriculares nas quais possa descarregar o furacão de palavras fúteis que lhe ocupa a mente o tempo todo.

    Mas nós as receberemos de braços abertos porque tudo isso é sabido há milênios. Vide Bíblia.

    O que direi a seguir já foi dito aqui, mas é imperioso repisar certos conceitos éticos e estéticos para que fiquem gravados na nossa mente.

    Leitores não têm fome ou sede.

    Leitores apaixonados não se movem até o banheiro ou à geladeira.

    O corpo e a mente daquele que lê estão unidos, entrançados, visando um único objetivo, que é a perdição no encadeamento encantatório das palavras impressas.

    A função última da literatura é o entretenimento.

    Oratore, oraculu.

    Confesso-vos que ficaria desvanecido caso um de vocês, meus queridos apóstolos, venha a elaborar no futuro (no passado seria ainda mais criativo) um breve ensaio, com ares de conto, sobre essa minha revelação a respeito da finalidade exclusiva – o entretenimento! – da obra literária.

    Por fim, peço-vos humildemente que divulguem essa nova em todo o desmedido universo, vasta terra devastada, desde que, é claro, antes, vocês tenham comprado os devidos selos e estampilhas. Imprima-se em mimeógrafo. E dê-se o crédito ao autor.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Publicado originalmente no livro Kzar Alexander, o louco de Pelotas, 2018, Biblioteca Pública do Paraná

  • Os miseráveis vivem à beira dos  rios

    Os miseráveis vivem à beira dos rios

    – Pega o teu refresco e te senta aqui, filhote – disse ele.

    Voltei-me e encontrei o rosto balofo e debochado que via todas as manhãs. Diante dele, uma garrafa de cerveja pela metade um copo de fundo grosso com cachaça. A cara e o pescoço avermelhados assumiam tons violáceos sob a luz amarela do bar.

    Tentei sorrir, mas só consegui fazer uma careta. Era muito ruim vê-lo diariamente na rádio, pior era encontrá-lo fora de lá, mas eu era educado demais para me livrar dele. Sentei-me.

    – O mundo está se afogando lá fora e eu me afogo aqui dentro. São as chuvas que Deus nos manda. Pela volta da cidade, a ralé já deve estar com água pelo pescoço. E isso é bom para nós, porque nos garante os noticiários.

    A voz pastosa e o bafo azedo indicavam bebedeira forte.

    Naquela época, ele trabalhava na emissora de rádio em que eu cumpria meu estágio obrigatório da Faculdade de Jornalismo. Com mais de vinte anos de profissão, perambulara pelo interior do Estado trambicando em jornalecos que saíam de vez em quando, quando saíam, ou biscateando em troca de comida nas emissoras que só tocavam música campeira.

    Preguiçoso e relapso, servia-se de mim para não fazer absolutamente nada na rádio. No começo da manhã, antes de entregar-se ao sono, com os braços cruzados sobre a máquina de escrever, queixo enterrado no peito, ele me pedia que eu só o acordasse se o gerente se aproximasse da redação. Protege o meu flanco, dizia ele. Ando cansado de receber pontapés no rabo só porque sou um tantinho sonolento.

    – É sempre a mesma história. Nada muda nessas cidadezinhas. Todas têm um rio e todo rio transborda. Já notaste que os miseráveis vivem sempre à beira dos rios?

    Eu redigia os noticiários matinais. Por volta das dez, ele interrompia a soneca e deixava o prédio. Ia tomar um “cafezinho” que lhe consumia o resto da manhã. Voltava pouco antes do meio-dia, fedendo a pinga, sempre com uma frase ferina para criticar alguma das notas que eu escrevera para o jornal das onze.

    – De formas, meu caro, que o jornalismo é isso: repetição. Se não é chuva, é vendaval.

    Enquanto ele falava, eu o observava. Aos quarenta anos, era já um rebotalho de gente em decrepitude acelerada. Impressionavam-me sobretudo seus olhos de um azul aguado, riscados por estrias vermelhas, que jamais fitavam o interlocutor.

    – E o vento, então? Verão ou inverno, tanto faz, a ventania destelha os ranchos deles. Não dá outra. Um ventinho mais forte e lá se vão pelo ar as chapas de madeira, o papelão, telhas quando há. E o que é que se vê, então? A miséria explícita, obscena, promíscua. Cama grande onde se misturam pai, mãe e filharada. E aí, como os seres humanos têm um fogo inapagável na forquilha das pernas, às vezes acontece de o pai se atracar com a filha mais crescidinha. A guria com medo e vergonha, hirta e estuporada, e o velho se refestelando, ligeiro como quem rouba, bebum.

    A verdade é que eu o desprezava por ser indolente e velhaco. Nojento mesmo. Mas, como meu estágio logo acabaria, eu o tolerava mais ou menos como as pessoas aguentam chuva, frio e vento.

    Bebeu um gole de cachaça, pigarreou e (segurando um microfone imaginário) falou com voz empostada de locutor:

    – Ventos de até cem quilômetros percorreram ontem os campos da nossa região causando grandes prejuízos às classes produtoras.

    Os cachaceiros das mesas próximas voltaram-se para nós, curiosos, e eu me senti envergonhado, com as orelhas em fogo. Estava na ponta dos pés, na beira da bunda, prestes a me catapultar da cadeira, mas os olhos escorregadios do radialista canalha me seguravam ali.

    Bebeu com um só gole o que restava de cerveja no copo e depois, segurando o pescoço da garrafa vazia, acrescentou:

    – Isto aqui só serve para me refrigerar o motor porque o meu combustível mesmo é a canha.

    Agarrou então o copo e bebeu o que nele havia de cachaça.

    – Este, sim, é o verdadeiro néctar do paraíso. Aquece, amansa, traz sono e esquecimento. Ou atiça, agita, traz fúria e morte.

    De longe em longe, por cima do vozerio do bar, explodia lá fora o ribombo dos trovões. Maldita chuva! Por causa dela eu havia me refugiado naquele boteco.

    Quando terminei de beber o refrigerante, deixando o sanduíche pela metade no prato, tentei me levantar, mas ele se espichou sobre a mesinha e pôs a mão no meu ombro.

    – Te acalma! Te senta de novo aí que eu vou te contar uma história. Um causo que se passou comigo. Foi num dia como o de hoje, chuvoso. Eu era novinho, assim como tu, magro desse jeito. É coisa de uns vinte anos, talvez. Naquele tempo não tinha essa bobagem de Faculdade de Jornalismo, a gente se formava no dia a dia. Eu arranhava minhas primeiras reportagens de jornal, tinha sido puxado da revisão. Era garotão metido a besta: lia os poetas, adorava toda bosta que rimasse e rabiscava poemas pensando nas putas que rondavam o Mercado. Em suma, eu tinha um coração cheio de mel, açucarado. E, como ainda hoje, trabalhava por um salário de merda.

    A chuva lá fora não dava sinais de cansaço. E de vez em quando a porta do bar se abria para dar entrada a mais um refugiado.

    – Pois bem, certo dia, de manhã bem cedo, um táxi parou na porta da minha casa. Eu ainda morava com os meus pais, que me acordaram. O carro fora enviado pelo jornal. Qual era o enrosco? Bem, tinha chovido a noite inteira, um temporal brabo como o de hoje, e precisavam de mim para fazer uma reportagem. Na redação deserta, o chefe passou o braço pelo meu ombro, me falou rapidamente da enchente nas margens do rio e me disse: “Agora, vai lá e vê como os pés-rapados estão se virando”. E eu me fui empolgado com caderno e caneta na mão. Saltei do carro e, decidido como escoteiro que vai praticar sua boa ação do dia, comecei a descer a ladeira. Cruzei pelo povaréu que, no alto da rua, observava as ruas alagadas lá embaixo. Imóveis, como vacas na chuva, esperavam que a água se fosse para voltar aos seus casebres. Continuei avançando firme mesmo quando a água me chegou aos joelhos. Caminhei um quarteirão pela rua mais larga e depois enveredei pela viela que findava junto ao rio. Ali, a água já me batia no umbigo. De vez em quando eu parava e tomava notas…

    Levou aos lábios o copinho de cachaça e, percebendo que estava vazio, bateu com ele sobre a mesa.

    – Mais uma pinguinha! – gritou para o garçom. – E traz também uma loira para me hidratar!

    E de imediato continuou:

    – O cadáver inchado de um leitãozinho passou por mim. A princípio, pensei que fosse um corpo de criança, rosado e liso. Tudo quanto era porcaria vagava por entre as ruas submersas: mesas, cadeiras, panelas e garrafas. Bah! De repente, do interior de uma das casinhas me veio o canto de um passarinho. Foi então que eu senti o quanto era ruim o silêncio daquelas águas barrentas.

    Percebi que, aos poucos, a voz dele se desnudava. Perdia a falsa entonação dos locutores. Talvez aquela voz rouca, sem brilho, fosse a sua verdadeira voz. Quero dizer, ele trabalhava há tanto tempo em emissoras de rádio que a falsa impostação já fazia parte dele, mas bêbado, ou comovido, como parecia estar naquela noite, recuperava a voz de sua juventude.

    – Voltei ao jornal e escrevi de um só jato um texto que me pareceu genial. O chefe pegou o calhamaço e começou a ler, mas, antes de acabar a segunda lauda, berrou: “Aqui só tem discurso!” Rasgou as seis ou sete folhas, jogou-as na minha cara e berrou ainda mais alto: “Eu quero uma história de gente de carne e osso, caralho! Eu quero emoção!”

    Quando ele interrompeu a narrativa para bebericar a cachaça que o garçom colocara à sua frente, me veio a impressão de que ele não mais estava falando para mim. Monologava, conversava consigo mesmo.

    – Bem, eu tinha uma história e foi com ela que salvei a minha carreira. Pensando bem, uma carreira que nem deveria ter sido salva. Se não tivesse escrito a danada daquela história, talvez eu fosse hoje um professor de ginásio ou um funcionário da prefeitura, um anônimo qualquer, bêbado também, mas certamente mais bem remunerado…

    Uma pergunta saltou-me da boca:

    – Que história era essa?

    Olhos fixos no copo, distante de mim, distante do mundo, perdido nos anos de sua juventude, retomou o conto com sua voz verdadeira:

    – A história da velha que ficou pendurada a noite toda… Eu já estava dando por encerrada a minha missão, depois de ter percorrido aquelas ruas tomadas pelas águas, quando me pareceu ouvir uma voz. Uma voz muito fraca. Só escutei essa voz porque há meia hora vagava entre os casebres e já estava acostumado ao rumorejo das águas que se batiam contra as paredes de madeira. Um fiapo de voz. Eu estava no fim da vila, quase debaixo da ponte. Entrei então no barraco mais próximo. Era de uma peça só. Se tivera divisórias, não tinha mais. No centro, bem no centro daquela peça, uma cama pairava sobre as águas. Quase não acreditei no que vi: um metro acima das águas, uma cama. Que mistério era aquele? Não demorei para compreender que a tal cama certamente fora erguida e amarrada aos paus podres do telhado antes da tormenta. Mas por quem? Aproximei-me. Deitada sobre o leito, uma velha horrenda, magra e pálida, me olhava assustada…

    . – Aconteceu o seguinte, meu garoto. O entulho acumulado debaixo da ponte nos meses de verão tinha obstruído a passagem das águas. Como a chuva se veio furiosa, as águas subiram com a velocidade do fogo que devora um campo seco. E mal deu para o povinho fugir às pressas levando os relógios de parede e as fotos dos antepassados. E a tal velha essa, que era meio paralítica, pedia socorro, desesperada, mas ninguém se apresentava. Dentro do casebre, a luz do lampião mostrava a escalada da água que subia ligeira pelas pernas cambaias da cama. Ia morrer, a pobre mulher, da pior das mortes, afogada. Tinha quase perdido a esperança, mas ainda rezava para Santa Teresinha, quando lhe apareceu o preto. “É gente da pior extração”, me disse ela. “Eu também sou muito pobre, mas tenho a pensão deixada pelo falecido e a casinha. Sempre é alguma coisa. Mas o preto esse é um infeliz completo. Meio tocado da cabeça, cata papelão, vidro e ferro numa carroça que ele mesmo puxa, igualzinho um burro. E depois revende no ferro-velho”. Ao ver que o homem trazia uma corda enrolada no ombro, a velha teve certeza de que sua vida acabaria ali mesmo. Seria enforcada. Fechou os olhos e começou e rezar.

    Pareceu-lhe depois, pelo rumorejo da água, que o preto circulava ao redor dela. Sentiu então uns puxões nos pés da cama. O condenado estava movendo a cama dela, mas para quê? Ela abriu os olhos e viu que, depois de entrelaçar a corda nas pernas da cama, ele estava tentando fazê-la passar por cima da viga que sustentava o telhado. Quando o conseguiu, aproximou-se da cabeceira. A velha fechou os olhos e ficou aguardando, tensa, pelo momento em que sentiria a frialdade da corda úmida ao redor do pescoço. Por estar certa de que seria morta, entregou-se nas mãos de Santa Teresinha. Mas o carroceiro nunca da vida que lhe passava a corda. Por fim, de repente, ela sentiu que a cama começava a subir.

    Lembrou-se de Jesus saindo do Santo Sepulcro e subindo aos céus. Lentamente, mas aos trancos, sua cama se elevava. Achou que estava morta e subindo para o encontro com Deus Pai Todo Poderoso. Mas o curioso é que ela não estava sendo alçada do modo como imaginava que os cristãos sobem ao céu: deslizando rápida e suavemente. Não! Estava subindo aos trancos e arrancos. E o que mais estranhava é que a morte não trazia de imediato o silêncio, porque ainda continuava a escutar as águas…

    O radialista bebeu mais um copo de cerveja e, a seguir, bateu forte com a mão espalmada na mesa.

    – Foi assim, meu guri, foi exatamente assim que o pobre catador de lixo salvou a velha. Ele simplesmente ergueu a cama o mais que pode e a amarrou depois a uns caibros. Deixou a bruxa velha com o nariz quase enterrado no madeiramento que sustentava as telhas rachadas. É claro que o barraco dela não tinha forro, nem piso, como todos os outros da beira do rio, era só uma ossada de paus podres à flor da terra. O certo é que o preto meio maluco levantou a tal cama e, quando percebeu que já estava com o estrado dela na altura dos ombros, amarrou a ponta da corda no pau que lhe pareceu o mais resistente. E deixou a velha dependurada por lá, como se fosse uma coruja descarnada num poleiro, e se foi embora para salvar o próprio lombo.

    Quando me levantei para me despedir, ele segurou a mão que não estendi a ele e apertou-a com firmeza. E, de novo sorrindo cinicamente, mais uma vez com sua voz empostada, voltou a falar:

    – Foi essa a história que garantiu a minha estreia no movimentado e fascinante mundo do jornalismo. De lá para cá, nunca mais achei assunto tão interessante, embora os miseráveis continuem morrendo em todas as cheias e ventanias. Pobre morre à toa. Mas, enquanto eles batem as botas, o mundo continua parindo rapazes magros e corcundas, como fui, como és, que escrevem versos febris para mulheres insensíveis e que de vez em quando dão de cara com a miséria. Não a miséria ligeira dos famintos, mas a miséria mais funda e amarga que é o acordar, todo dia, um dia depois do outro, para ver o tempo destruir todas as nossas poucas certezas.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Publicado originalmente no livro IA arte excêntrica dos goleiros, 2004, LGE Editora, Brasília

  • Menino tranquilo nos braços do pai

    Menino tranquilo nos braços do pai

    Assim, mana eguinha… Não temos mais Kusma Ionitch… Foi-se desta para melhor… Pegou e morreu, à toa… Agora, imagina tu, por exemplo – tu tens um potrinho, e tu és a mãe desse potrinho… E de repente, imagina, este potrinho se despacha desta para melhor… Dá pena ou não dá?

    “Angústia”. Anton Tchekhov

    Lá vem ele, anônimo como todos os homens que cruzam esta rua, esta coisa que já foi rua. Anônimo como os que sobem e os que descem tantas vezes por dia esta mesma rua. Tantas que são anônimos. Ele não tem nome porque seu rosto é igual aos de tantos outros: duro, fechado por dentro, trancado. Tem menos de trinta anos, mas isso também não importa porque, tenham trinta ou cinquenta anos, os homens que passam por esta rua são e serão sempre assim: magros, tensos, assustados. São tisnados todos porque o sol sempre os surpreende ao meio-dia quando vêm ou quando vão nas suas desconjuntadas bicicletas.

    Este que vamos acompanhar tem menos de trinta anos, mas isso não interessa. O certo é que tem grandes mãos, calosas e honestas mãos, que seguram firme o guidão da bicicleta. Muito firme, hoje bem mais firme que ontem e nos outros dias todos. Muito firme, não. Desesperadamente firme, isso sim. Mas disso ninguém sabe neste trecho da rua.

    Lá vem ele, anônimo, descendo da cidade na sua decrépita bicicleta. Não há nada de digno na sua postura, embora esteja sofrendo. Não tem o jeito descansado dos outros ciclistas, o jeito preguiçoso que ele mesmo tinha nos outros dias. Vem apressado. E atento por causa dos buracos. Ah, os buracos! Um dentro do outro, um ao lado do outro, um emendando no outro. Uma grande face escaveirada isso é o que é esta rua. Esta coisa que já foi rua, no tempo em que funcionava o porto, é hoje um buraco só.

    Por isso lá vem ele aos trambolhões. Não pode se concentrar na sua dor o pobre homem. Tem que cuidar os buracos porque, se facilita, esparrama-se pelo chão. E isso, um tombo, ele não poderia suportar.

    Lá vem ele, anônimo e desesperado. Mas ninguém sabe disso. Há meninos jogando bola. Sim, jogam bola no meio da rua porque carros e ônibus não passam mais por ali. Há meninas também, sossegadas, acarinhando suas desconjuntadas bonecas de pano. Há mulheres olhando extáticas, por cima das cercas de madeira, o pequeno mundo da rua esburacada. Ninguém o vê pois ele faz parte da paisagem. Como os outros homens cinzentos, ele passa tantas e tantas vezes por dia que se tornou invisível. É como se ele fosse um buraco. Por isso não podem mesmo saber da dor que o estraçalha.

    O homem não olha os meninos, mas sente a quente vibração de seus gritos na manhã. Parece uma algazarra de passarinhos na margem do rio, depois da chuva.

    Isto aqui já foi rua movimentada. E não faz tanto tempo assim. Levava até o porto antigo. Mas abriram uma avenida nova, num lugar mais alto e mais seco. E não foi só isso: construíram também um outro porto, maior e mais fundo. Daí, ficou só o risco negro do asfalto que as chuvas de inverno comeram em pouco tempo. Quando esta rua deixou de ser movimentada surgiram estes homens curvados, pais dos meninos que jogam bola e das meninas que ninam bonecas de pano, maridos das mulheres dos olhos bovinos. Foi aí que vieram aqueles que construíram estas coisas que, com certo orgulho, orgulho impróprio, chamam casas.

    Contei que abriram uma avenida para o novo porto, mas creio que isso não tem mais importância porque também o novo porto está fechado agora, com todos aqueles guindastes enferrujando contra o nublado do céu, guindastes que lembram braços erguidos pedindo clemência. Quero dizer, poucas coisas interessam além do sofrimento dos homens. Deste nosso homem.

    Os primeiros homens a chegar instalaram-se deste lado aqui, que é menos pestilento do que o outro, o que costeia o rio. Quero dizer, isso tudo é um banhado só, mas daquele lado da rua é bem pior. E eles foram se instalando daqui para lá, seguindo a estrada, na direção do antigo atracadouro. Assim, os últimos tiveram que ficar junto às águas barrentas do rio.

    O homem da bicicleta chegou entre os últimos dos últimos. De certeza posso afirmar isso porque ele mora lá longe, depois do final da curva, onde a cidade se acaba, bem no meio da estradinha de terra batida que leva ao matadouro. O matadouro fechou faz uns dez anos, mas isso também não é muito importante.

    O certo é que ele vem arrastando sua miséria pela buraqueira. Pobre! Um homem precisa de uma rua decente onde possa andar de bicicleta sem parecer um domador de baguais. Especialmente quando carrega a dor e, mais terrível ainda, a morte no coração.

    Passa por aqui todo dia, bem cedo ou no fim da tarde, mas hoje ninguém percebe que ele está fora dos seus horários. São tantos e tão iguais os homens desta rua que ninguém mais presta atenção neles, mesmo quando trazem os olhos assim luminosos, brilhantes de umidade.

    Ele já sabia que teria que cruzar esta rua numa hora insólita porque o médico disse:

    – É coisa para poucos dias.

    Era um velho médico, vagaroso de gestos, desencantado médico de gente pobre, recitador de muitas frases de consolo.

    – Não se preocupe, ele vai se finar como um anjo. Tanta gente ruim neste mundo! Mas Deus, de infinita piedade, sabe o que faz.

    Esgotadas as frases, o médico macilento pôs a mão fria nas costas da mão áspera do homem e assim ficaram por um bom tempo no silêncio cheio de odores fortes do posto de saúde.

    O homem da bicicleta teve vontade de falar, de dizer qualquer coisa, agradecer ou maldizer, mas não disse nada porque ele próprio não sabia se era um homem ou uma coisa seca, uma coisa que vai trabalhar e que volta todo santo dia, dia após dia, até o final de tudo.

    Ainda há pouco, quando preparava a argamassa – metodicamente puxando a mistura de areia e cimento, sempre atento à poça de água no meio, vendo surgir a cor bonita do cimento, a forte cor cinzenta do cimento, forte como o próprio cimento -, a mulher do escritório se aproximou dele e disse, de soco:

    – Telefonaram. O teu anjinho se foi.

    Largou a enxada no meio do movimento e correu até a sua bicicleta. Pela primeira vez em tantos anos não se preocupou em perder um traçado de massa. Não calculou quanto de cimento e quanto de areia se perderiam pela sua saída às pressas, caso ninguém o substituísse. Nem pensou nos quantos minutos aquele traçado levaria para se tornar duro e áspero como as pedras, uma estranha pedra feita pelo homem.

    Por isso, hoje, não se deterá no boteco para a canha amarga de todos os dias, nem para apanhar o pacote de fumo e o papel de enrolar. Vai direto para sua casa que fica lá embaixo, na trilha que leva ao matadouro, uma casa azul que a partir de hoje não mais será azul, será de qualquer cor depois que se for o azul. Nem mais casa será, será apenas uma coisa qualquer abandonada à sua condição de qualquer coisa, tendo no pátio aquele pé de salso, já grandote, quase dando sombra, e mais a fileira das hortênsias fazendo às vezes de cerca. Pois que as tormentas de julho arranquem o salso, que venham as ervas ruins para sufocar as hortênsias, que venham os gambás fazer tocas no telhado, que venham as varejeiras do verão e os mosquitos da noite, que os marimbondos se aninhem no alpendre, que os ratos tomem conta de tudo! Tanto faz!

    O que lhe importa, além da dor que traz consigo?

    Depois que deixa a rua esburacada já não tem mais medo de levar um tombo, de ser ridicularizado, porque a trilha de terra batida foi aberta pelas rodas das bicicletas e pelos tamancos de todos aqueles homens tisnados que por anos passaram por ali quando se dirigiam aos galpões sombrios do matadouro.

    Pelo canto dos olhos, o homem percebe que há mulheres diante de todos os casebres. Compungidas, estão ali para vê-lo passar na sua desconjuntada bicicleta, mergulhado na sua dor. Naquele trecho da rua, para aquelas silenciosas mulheres que o miram por cima das cercas de paus podres, ele não é anônimo.

    Há mulheres demais neste mundo, pensa ele.

    Há mulheres demais e elas estão sempre fazendo o sinal da cruz, choramingonas, esbugalhando olhos trágicos e rezando orações desencontradas.

    Diante de uma casinha de madeira, cujas paredes ainda são azuis, ele salta da bicicleta. Cruza o portão, encosta a bicicleta no pé de salso chorão. Há mulheres pelo pátio todo. O homem passa por elas sem encará-las e entra pela porta dos fundos. Há milhares de mulheres naquela cozinha, as mais velhas e as mais jovens parecendo ter todas a mesma idade por baixo das mantilhas negras. Lamentam-se todas elas, porque são mulheres e mães. Sussurram, arrulham como pombas, murmuram em uníssono, sincrônicas, consolam-se mutuamente, dizendo que é assim mesmo, a vida é isso, dor, dor de parir, dor de ver partir, sempre dor, nada mais que dor.

    Na sala, o menino está na sala.

    Agora, são quatro na saleta: sua esposa, sua mãe, o menino e ele.

    Sem dar pela entrada dele, a mulher continua a adorar o filho, como se aquilo ali onde ele está deitado não fosse um velho e roto sofá de molas frouxas, mas uma manjedoura, e como se o próprio guri, que veste o uniforme branco dos escolares, fosse um recém-nascido. Do fundo da mulher, do bem fundo dela, sai aquela coisa que parece um cântico religioso, mas que na verdade é apenas uma antiga cantiga de ninar, tão triste e desconsolada como o correr de um arroio ou o bater do rio contra os juncos.

    Ajoelhada num canto, a mãe dele reza.

    Só então o homem descobre o quanto sua mãe está velha, magra e feia. Velha embora não tenha cinquenta anos, e pequena e frágil como uma trouxa de gravetos secos, e feia porque foi sugada por dentro de tal modo que só restaram a máscara gretada pelas rugas, os lábios murchos que não param de engendrar rezas inúteis e as mãos ossudas postas em oração.

    Ali está o menino, mais lindo que todos os outros: o cabelo negro como a noite, os ombros fortes apertados pelo aventalzinho branco, os grandes olhos tristes escondidos pelas pálpebras abaixadas. O mais lindo menino do mundo. Seu filho, enfim, repousa em paz.

    O homem que chegou na desconjuntada bicicleta corre os olhos pela parede nua, não inteiramente nua, até detê-los diante do crucifixo. Ah, se soubesse praguejar, blasfemar! O pequeno crucifixo está ali há anos sem outro objetivo que enferrujar sob o bafo pestilento do rio. As mulheres e o crucificado se entendem, pensa o homem. Mas o que pode fazer, ele, que não sabe falar ou rezar, ele que é apenas um homem anônimo que vai e vem pela rua esburacada?

    Ergue a mão para o crucifixo.

    – Deixa Ele no lugar, filho.

    A voz da mulher que está ajoelhada é forte, surpreendentemente forte, e faz com que o homem lembre de quando era menino, de um tempo bom, que está muito longe, um tempo de banhos de açude e caçadas de passarinho.

    – Por que Ele fez isso comigo, mãe?

    – Não reclama. Ele sempre nos dá o direito de chorar.

    Contrariado, o homem recolhe a mão. Precisa fazer qualquer coisa. Está sufocando dentro daquela casa. As mulheres que rezam por ali estão consumindo todo o ar. Olha a porta da frente, que está fechada há anos, desde que perderam a chave. Para entrar e sair daquela casinha usam apenas a porta dos fundos. Mas ele não quer enfrentar aquela manada de mulheres lamurientas. Quer escapar daquela saleta apertada, abafada, que fede a velas.

    Lança-se de ombro contra a porta que cede, em parte. Com um pontapé, arremata a tarefa. Sai para o sol da manhã luminosa. Caminha até o portão. Respira fundo. Volta-se e contempla a casa, que ainda é azul, mas que deixará de ser porque ele jamais voltará a pintá-la, olha o salso que mal se move tocado pela brisa pegajosa do rio, vai cortá-lo, incendiará suas raízes. Para que serve uma árvore senão para receber um balanço? Que venham todos os elementos furiosos! As ventanias de agosto, o gelo das madrugadas, os incêndios de janeiro! Que venham, que destruam tudo! Que lhe importa que a maldita rua seja apenas um buraco, um gigantesco buraco? Que importância tem aquele corpo retorcido no crucifixo? Quem se interessa em escutar o riso cristalino dos garotos no rio ou no lamacento campo de futebol?

    Lento, surdo e cego, o homem caminhou até a birosca da esquina e ali se quedou a beber, enquanto o grande sol amarelo cruzava as cidades e os campos. Permaneceu calado e indiferente a tudo, até a passagem da carroça da prefeitura, com o caixãozinho na traseira, indo em direção à sua casa.

    Então tomou de um só gole a canha que lhe restava no copo e avançou com passos firmes porque, pela primeira vez naquele dia, sabia de uma coisa que era realmente importante.

    Quando reentrou na sala os defunteiros, cercados pela choradeira crescente das mulheres, já fechavam o caixão.

    Sem dizer uma só palavra, insensível aos protestos de sua mulher e de sua mãe, o homem moreno pegou a urna branca com o corpo do filho. Caprichou nos gestos, queria que eles fossem serenos e elegantes. Colocou-a nos ombros e saiu para o pátio.

    Depois, acompanhado apenas pela mulher e pela mãe, avançou pela trilha que leva ao matadouro desativado, a velha trilha batida pelos pés dos homens, porque nela podia andar com dignidade, sem tropeçar, sem cair. Foi de cabeça erguida.

    Demorou muito mais para chegar ao cemitério, mas chegou, de qualquer jeito chegou porque tanto a vereda suave do matadouro quanto a rua esburacada levam até lá. Na verdade, toda a cidade desemboca lá.

    O menino foi tranquilo nos braços do pai, e isso é o que importa.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Publicado originalmente no livro Ilhados, em 2001 (WS Editor).

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