Autor: Elisabete Tavares

  • Filho de procurador do MP ganha quarto contrato de avença com o Tribunal Constitucional

    Filho de procurador do MP ganha quarto contrato de avença com o Tribunal Constitucional


    Já diz o ditado que não há duas sem três. E, em alguns casos, não há três sem quatro. Que o diga o filho do procurador-geral adjunto do Ministério Público (MP) que acaba de obter o seu quarto contrato de avença junto do Tribunal Constitucional (TC), onde o pai coordena a actividade do MP.

    João Possante vai ganhar, durante um ano, a verba de 36 mil euros, quase o dobro do que auferia no TC no ano passado, para prestar serviços de “assessoria jurídica e financeira para a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP)”.

    Tribunal Constitucional. / Foto: D.R.

    O contrato, com data de ontem e publicado esta quarta-feira na plataforma de registo dos contratos públicos, o Portal Base, foi assinado pelo secretário-geral do TC – Entidade para a Transparência, João Sebastião Lucas.

    João Possante, o filho, licenciou-se em Direito na Universidade Europeia em 2019 e tem um mestrado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, concluído em 2022. Começou a ter avenças no TC quando ainda era advogado estagiário.

    Além de colaborações com o TC, a sua única experiência profissional é na área de vendas da empresa ETS-Multimédia, segundo a sua página na rede social profissional LinkedIn.

    Foto: Captura de imagem do Portal Base

    João Possante, o pai, tomou posse como procurador-geral adjunto em 4 de Maio de 2021, passando, nessa data, a exercer funções como representante da procuradora-geral da República no TC. Foi nomeado coordenador da actividade do MP no TC em Janeiro de 2022.

    No Portal Base, constam quatro contratos adjudicados ao jovem assessor do TC. O primeiro, no valor de 9.648,5 euros, remonta a 30 de Novembro de 2022, e teve como objecto a “aquisição de serviços de assessoria jurídica, na modalidade de avença, para apoio à atividade da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos”. Isto numa altura em que o jovem licenciado não tinha qualquer tipo de experiência na área. O contrato foi adjudicado por ajuste directo. No ano seguinte, João Possante ganhou nova avença, também por ajuste directo, mas agora no valor de 19.992 euros, para prestar “serviços jurídicos” para a ECFP.

    No dia 18 de Novembro de 2024 o TC assinou novo contrato, no montante de 18.700 euros, com João Possante, agora através de um procedimento de consulta prévia – um expediente comum usado para não ter vários ajustes directos sucessivos. Isto porque existem limites na contratação por ajuste directo.

    João Possante, filho (à esquerda), vai na quarta avença anual obtida junto do Tribunal Constitucional. João Possante, pai, é procurador-geral adjunto e coordenador da actividade do Ministério Público no Tribunal Constitucional. / Fotos: D.R.

    Não podem ser convidadas a apresentar propostas as entidades às quais a entidade pública já tenha adjudicado, por consulta prévia ou ajuste direto, no ano económico em curso ou nos dois anteriores, contratos cujo valor acumulado seja igual ou superior aos limites previstos no Código dos Contratos Públicos. No procedimento de ajuste direto o limite é de 20 mil euros, no caso de aquisição de bens e serviços. No procedimento de consulta prévia o limite é de 75 mil euros.

    Mas João Possante, o filho, já tinha auferido de outras avenças junto do TC, que não constam no Portal Base, como noticiou a Sábado. Numa notícia publicada em Junho de 2024, a revista expôs as avenças obtidas até então pelo jovem assessor e apurou junto do TC que tinha existido uma avença de 4.600 euros por serviços prestados durante quatro meses, entre Dezembro de 2021 e Março de 2022. Seguiu-se uma outra avença para prestação de serviços jurídicos, pelo período de três meses, de Junho a Agosto de 2022, no montante de 3.450 euros.

    Na altura da publicação da notícia pela Sábado, todos os envolvidos negaram existir qualquer tipo de favorecimento. João Possante, o filho, explicou que a sua colaboração com a ECFP teve início na sequência da sua própria iniciativa. “Fui eu que submeti o meu currículo com vista à prestação de serviços jurídicos na ECFP, por ter tido conhecimento, através de colaborador da mesma, da respectiva falta de recursos humanos”, afirmou, citado pela revista.

    José João Abrantes, presidente do Tribunal Constitucional. / Foto: D.R.

    Logo em 27 de dezembro de 2021, celebrou contrato “para monitorização das acções e meios de campanha para a eleição antecipada dos deputados à Assembleia da República realizada em Janeiro de 2022”.

    O jovem não referiu, na altura, quem foi o colaborador que o alertou para a falta de recursos humanos na ECFP.

    Quanto a João Possante, o pai, garantiu à Sábado que nada teve a ver com a contratação do filho pelo TC. Também referiu à revista que não comunicou a situação à Procuradoria-Geral da República “por não ter de o fazer”.

    Foto: D.R.

    O que é certo é que para as funções que foi agora contratado, como “assessor jurídico júnior”, João Possante, o filho, teve de cumprir o seguinte requisito: “a prática, ao longo, pelo menos, dos últimos 3 anos, de serviços jurídicos nestes ramos do Direito, designadamente, através do mandato forense e/ou do exercício do patrocínio judiciário nestas áreas, em sociedades de advogados, em prática individual ou integrado em entidade pública, ou através da prestação de serviços a entidade pública”. Contudo, já nos anos anteriores prestou serviços como assessor da ECFP sem, no entanto, preencher aqueles requisitos.

    Quanto aos requisitos, em termos de formação académica, o cargo apenas exige “licenciatura em Direito”.

    O jovem assessor vai trabalhar 32 horas semanais na ECFP e tem como tarefas, designadamente, a “elaboração de propostas de deliberação a apresentar à Direção da ECFP, no âmbito de processos de apreciação de contas dos partidos políticos e
    das campanhas eleitorais, nomeadamente apreciação de eventual contraditório dos partidos políticos e candidaturas aos relatórios proferidos pela ECFP”.

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    Os assessores contratados pelo TC vão trabalhar para a ECFP e escrutinar as contas dos partidos / Foto: D.R.

    A contratação pelo TC de João Possante, o filho, surgiu no âmbito de um concurso público que visou contratar, para a ECFP, um assessor jurídico júnior, um assessor jurídico sénior e um assessor financeiro. O valor global da despesa ascende a 104.261 euros. O assessor jurídico sénior vai ganhar 28.877 euros para trabalhar 20 horas semanais. O assessor financeiro vai receber 39.384 euros por 35 horas por semana.

    O assessor financeiro contratado ainda não está publicado no Portal Base (à hora da publicação desta notícia) mas o lugar de assessor jurídico sénior já está preenchido por Marta Rasteiro Jacques Pena Afonso. Trata-se de uma avençada do TC que tem vindo a fazer contratos por ajuste directo e consulta prévia desde 2022. Também desta vez esta “avençada frequente” do TC foi contratada por concurso público.

    Marta Afonso surge na lista de candidatos, em 2025, ao concurso para ocupação de nove postos de trabalho na categoria de inspetor da carreira especial de inspeção do mapa de pessoal da Inspeção-Geral de Finanças–Autoridade de Auditoria. Contudo, acabou por ser excluída com a seguinte justificação: “não aprovado/a na prova de conhecimentos”. Terminou a prova com uma classificação de 9,2 (de zero a 20), não conseguindo passar à fase seguinte do procedimento.

    Foto: Captura de imagem do Portal Base

    A assessora do TC também surge na lista de candidatos, em 2025, ao procedimento para recrutamento com vista ao preenchimento de quatro postos de trabalho para a categoria de assessor parlamentar do mapa de pessoal da Assembleia da República na área de Direito, mas foi excluída por falta de comparência à prova.

    Aguarda-se agora por conhecer o nome do contratado pelo TC para a função de assessor financeiro da ECFP para apurar se se trata de mais um “avençado frequente” do TC, com recurso ao expediente “ajuste directo, seguido de consulta prévia, seguido de concurso público”. Porque outras entidades públicas recorrem a este “esquema” para contratar sucessivamente os mesmos avençados, mas ser o TC a fazê-lo ganha uma outra dimensão e tem o potencial de servir de (mau) exemplo.

  • Assessoria de comunicação: LPM ganha o seu maior contrato público de sempre graças ao Turismo de Portugal

    Assessoria de comunicação: LPM ganha o seu maior contrato público de sempre graças ao Turismo de Portugal


    A empresa que é recordista na angariação de contratos públicos de assessoria de comunicação acaba de bater um novo recorde. A LPM Comunicação viu o Turismo de Portugal entregar-lhe, praticamente de bandeja, mais um contrato milionário. Trata-se do maior contrato de sempre que a LPM obteve junto de uma entidade do Estado.

    A adjudicação foi assinada no passado dia 18 de Dezembro, mas só esta terça-feira foi publicado no Portal Base. O contrato, no valor de 270.109 euros (com IVA), tem um prazo de execução de 36 meses e foi assinado pelo presidente do Instituto do Turismo de Portugal e por João Paixão Martins, que lidera a conhecida empresa de comunicação fundada por Luís Paixão Martins.

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    Foto: D.R.

    O contrato — o oitavo que o Turismo de Portugal adjudicou à LPM — foi adjudicado após um “concurso limitado por prévia qualificação”. Segundo a informação registada no Portal Base, apenas duas empresas participaram neste concurso limitado: a LPM e a Jervis Pereira Representações e Consultoria.

    Segundo o caderno de encargos do procedimento, a LPM terá como funções, nomeadamente, “contribuir para a máxima expressão mediática” do Turismo de Portugal e “colaborar na preparação de deslocações de profissionais de meios de comunicação social — press trips —, para a cobertura de eventos levados a cabo ou apoiados pela entidade adjudicante, no país ou no estrangeiro”.

    A LPM terá de ter pelo menos quatro elementos da sua equipa disponíveis para prestar os serviços ao Turismo de Portugal, sendo que terá de “assegurar a presença nas instalações da entidade adjudicante de um dos membros da equipa referidos no n.º 6 por um período superior ao mínimo semanal de 20 horas até ao máximo de 30, repartidas equitativamente pelos dias úteis semanais”.

    Carlos Abade é o actual presidente do Turismo de Portugal. / Foto: D.R.

    De resto, dos contratos entregues por aquela entidade à LPM, cinco foram feitos no formato de “concurso limitado” e três no modelo de ajuste directo. No total, o Turismo de Portugal já deu a ganhar à LMP 1,3 milhões de euros (com IVA) desde 2010.

    Com este contrato, a LPM reforça a sua posição como “papa concursos” de assessoria, tendo já facturado sete milhões de euros junto de entidades públicas (8,6 milhões de euros com IVA) através de 149 contratos.

    Uma investigação do PÁGINA UM, publicada em Julho de 2024, já tinha revelado que de entre todas as empresas de comunicação, a LPM á que tem estado no topo dos contratos sem concorrência decente.

    A LPM já ganhou 1,3 milhões de euros em contratos ganhos junto do Turismo de Portugal. / Foto: Captura de imagem do Portal Base

    Desde 2008, altura em que começaram a ser registados os contratos no Portal Base, a empresa facturou milhões a entidades públicas. O seu período de ouro foi o triénio 2009-2011, quando ultrapassou mais de 2,3 milhões de euros de ganhos em contratos públicos, quase todos obtidos por ajuste directo.

    Mas a LPM não é a única empresa de comunicação a facturar milhões com entidades públicas. A First Five Consulting (F5C) já ganhou 5,5 milhões de euros (6,7 milhões de euros com IVA) em 144 contratos.

    O maior contrato de sempre angariado pela F5C foi-lhe adjudicado por Isaltino Morais em Outubro passado. O contrato, no valor de 174 mil euros, teve por objecto a prestação de serviços de assessoria de comunicação à autarquia de Oeiras durante um ano.

  • Ex-dono da Visão acumula acções de execução de mais 2,3 milhões de euros em seis meses

    Ex-dono da Visão acumula acções de execução de mais 2,3 milhões de euros em seis meses


    A revista Visão começou este ano com a esperança de vir a ser “salva” por um comprador no processo de venda que ocorrerá em breve — sendo que os jornalistas da revista estão na corrida à compra da publicação. Mas a venda da Visão e dos restantes activos da insolvente Trust in News (TIN)não acabam com as dores de cabeça de Luís Delgado, sócio único e fundador da empresa de media.

    Depois de ter sido condenado a uma pena suspensa de cinco anos pelo crime de abuso de confiança fiscal na forma agravada por dívidas contraídas ao Fisco nos primeiros anos de actividade da TIN, o comentador e empresário caído em desgraça acumula acções de execução em Tribunal.

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    Foto: D.R.

    Só nos últimos seis meses, Delgado foi visado em sete acções de execução no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa, somando um valor global de 2.310.020,74 euros.

    Quatro dos processos, que deram entrada na Justiça em Outubro e Novembro últimos, partiram do BCP e são relativos a dívidas de 1. 439.473,04 euros. Num dos processos, o BCP executou também uma empresa de Delgado, a Regula e Acerta Unipessoal, como o PÁGINA UM noticiou.

    Também o Banco BPI avançou, no dia 29 de Outubro, com uma acção de execução contra Delgado no valor de  415.023,49 euros, sendo que neste processo também é alvo de execução uma outra empresa de Delgado, a Mtduq – Gestão Imobiliária, Lda, a qual não apresenta contas desde 2021.

    Luís Delgado. / Foto: D.R.

    A mais recente acção de execução, deu entrada no Tribunal no passado dia 1 de Janeiro. Neste processo, a empresa  Rubis Energia Portugal executa Delgado por uma dívida de 1.545,59 euros.

    Recorde-se que, no final de Julho passado, também a Taguspark – Sociedade de Promoção e Desenvolvimento do Parque de Ciência e Tecnologia de Lisboa avançou com um processo de execução contra o gestor, por rendas devidas da TIN no valor de 453.978,62 euros.

    A empresa foi alvo de despejo, no ano passado, e alguns dos seus bens foram já vendidos em leilão na sequência do processo de insolvência, depois de a TIN ter acumulado estranhamente dívidas superiores a 30 milhões de euros, sendo o Estado o maior credor. Apesar da gigantesca dívida ao Fisco e à Segurança Social, a empresa conseguiu sempre continuar a laborar e os seus gerentes mantiveram-se na gestão da sociedade até à insolvência, em 2025.

    Revista Visão. / Foto: PÁGINA UM

    O certo é que, para Delgado, o acumular de acções de execução vem já de trás. Aliás, Delgado avançou, no passado dia 10 de Dezembro, com uma acção junto do Tribunal Administrativo e Fiscal de Sintra para tentar travar um processo de execução de que foi alvo por parte do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social (IGFSS) no montante de 9.424.107,39 euros.

    Mas não é só Delgado quem está em maus lençóis. A outra gerente da TIN que se manteve ao leme da empresa, Cláudia Serra Campos, está a tentar travar na Justiça as acções de execução de que foi alvo por parte da Segurança Social no valor de 1.020.951,06 euros.

    No passado dia 15 de Janeiro, a gestora avançou com uma acção junto do Tribunal Tributário de Lisboa para travar uma acção no valor de 290.542,96 euros da parte do IGFSS. Antes, a 30 de Dezembro, tinha dado entrada de um processo de reclamação junto do mesmo Tribunal no âmbito de um processo de execução do IGFSS no montante de 730.408,10 euros. 

    Captura de imagem do Portal Citius. / Foto: D.R.

    Serra Campos e o ex-gerente da TIN, Luís Filipe Passadouro, têm vindo a ser alvo de processos de execução e também foram condenados a cumprir uma pena suspensa de cinco anos pelo crime de abuso de confiança fiscal na forma agravada.

    Os três gestores envolvidos na gerência da TIN nos últimos anos, desde a sua fundação em 2017, arriscam novas condenações, incorrendo no risco de terem cumprir pena efectiva em futuras sentenças na Justiça.

    Por outro lado, numa altura em que o principal título da TIN, a Visão, se prepara para mudar de mãos, muitas perguntas continuam por responder na derrocada da empresa de Luís Delgado, que comprou em 2018 um portfólio de publicações tóxicas à Impresa, com respaldo financeiro do Novo Banco.

    Luís Delgado e o Francisco Pedro Balsemão, presidente-executivo da Impresa, na assinatura do acordo de venda do portfólio de publicações à Trust in News, em Janeiro de 2018.O negócio “salvou” a dona da SIC e do Expresso, que se encontrava numa situação difícil. / Foto: D.R.

    Não se sabe como a empresa conseguiu continuar a laborar acumulando uma gigantesca dívida ao Estado. Aliás, a crise na TIN só foi tornada pública graças ao PÁGINA UM, que noticiou em primeira mão, em meados de 2023, a dívida ao Estado que a empresa estava a esconder.

    Também se ignora como, passados anos, Delgado e os outros dois gerentes da TIN, apenas tenham uma condenação (conhecida), e com pena suspensa, por dívidas fiscais, sendo que também acumularam dívidas à Segurança Social.

    Acresce que há dúvidas acerca da contabilidade da TIN ao longo dos anos, designadamente sobre a existência de cerca de 14 milhões de euros em activos que Luís Delgado atribuiria a receitas futuras.

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    Foto: D.R.

    Esse montante está registado na rubrica “Outras contas a receber”, que nem sequer são registadas com factura emitida, subsistindo dúvidas quanto à sua correspondência a um activo real, ou seja, que possa efectivamente ser convertido em receitas — e, em última instância, em dinheiro.

    A empresa, que passou a ser gerida pelo administrador de insolvência, André Correia Pais, não apresentou as contas de 2024 até hoje. Fica assim a dúvida sobre se algum dia se vai saber a verdade sobre a contabilidade da empresa e se vão ser apuradas responsabilidades para a sua insolvência.

    O “buraco” que ficará nos bolsos dos contribuintes, esse já é certo e rondará os 17 milhões de euros.

    Sede da ERC, em Lisboa. / Foto: D.R.

    Sobre a Visão também subsistem dúvidas, designadamente se vai ser feita uma venda “à medida” para entregar o título ao grupo de jornalistas que se têm mantido a elaborar a revista, quando o que estava previsto anteriormente era o procedimento regular, com a realização de um leilão electrónico para maximizar os ganhos para os credores, nomeadamente o Estado.

    Também não se sabe se entidades ou “mecenas” têm estado a financiar a publicação da revista [ainda que como credores ou suportando determinados custos], pois nenhuma informação foi divulgada sobre como se tem mantido em banca, criando opacidade em torno da publicação e de eventuais interesses que teriam de estar publicados no Portal da Transparência da Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

  • PGR oculta estado de inquérito que envolve Gouveia e Melo na vacinação irregular de médicos

    PGR oculta estado de inquérito que envolve Gouveia e Melo na vacinação irregular de médicos


    A Procuradoria-Geral da República (PGR) está a recusar informar em que fase se encontra o inquérito criminal aberto no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) há cerca de vinte meses sobre o processo da vacinação irregular de quatro mil médicos não-prioritários no início de 2021 — um caso que envolve suspeitas de irregularidades contabilísticas, desvio de vacinas do circuito oficial e um acordo informal entre a Ordem dos Médicos, a task force da vacinação e o Hospital das Forças Armadas, que recebeu cerca de 27 mil euros.

    O processo foi formalmente iniciado na Primavera de 2024, após o envio ao Ministério Público de um vasto conjunto de documentação pela Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS), no âmbito de um procedimento de esclarecimento sobre o acordo celebrado entre a Ordem dos Médicos, as Forças Armadas e a estrutura coordenada por Henrique Gouveia e Melo para a vacinação contra a covid-19, que envolveu pagamentos, donativos de farmacêuticas e actos praticados à margem das normas da Direcção-Geral da Saúde.

    Apesar de o inquérito estar a correr no DCIAP — o órgão do Ministério Público competente para investigar criminalidade económica, corrupção e criminalidade altamente organizada —, a PGR recusa revelar se o processo está em investigação activa, arquivado, parado ou à espera de despachos. Trata-se de uma omissão institucional com impacto político directo, uma vez que Henrique Gouveia e Melo é hoje candidato à Presidência da República.

    No passado dia 7, o gabinete do director do DCIAP, Rui Cardoso, respondeu ao PÁGINA UM que “as informações que houver a prestar sê-lo-ão através do Gabinete de Imprensa da Procuradoria-Geral da República”. Porém, apesar de sucessivos pedidos formais enviados ao gabinete do procurador-geral Amadeu Guerra, não foi prestado qualquer esclarecimento. O Ministério Público sabe que existe um inquérito sensível envolvendo um candidato presidencial — e optou pelo silêncio.

    Saliente-se que decorre actualmente, no Campus de Justiça, o julgamento do director do PÁGINA UM, Pedro Almeida Vieira, acusado de crime de difamação em dois processos distintos: um da Ordem dos Médicos e de três médicos (Luís Varandas, Filipe Froes e Miguel Guimarães, este último agora deputado do PSD e antigo bastonário da Ordem dos Médicos) e o outro intentado pelo próprio Gouveia e Melo.

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    Contudo, no decurso das audiências, a estratégia de Gouveia e Melo – que até teria a prerrogativa de testemunhar por escrito – tem sido de adiar sucessivamente a sua intervenção, ‘empurrando-a’ agora para as ‘calendas’ por causa das Presidenciais.

    Apesar de o seu chefe de gabinete na task force da vacinação, Nuno Ribeiro, ter declarado, numa audiência em Novembro passado do julgamento do director do PÁGINA UM, que Gouveia e Melo não tinha funções nas Forças Armadas ao longo de 2021, certo é que existem despachos nesse ano que o desmentem.

    Com efeito, Gouveia e Melo acumulou funções como coordenador da task force da vacinação e como adjunto para o Planeamento e Coordenação no Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), quando então foi montado um circuito paralelo de vacinação para médicos que não cumpriam os critérios de prioridade definidos pela DGS, envolvendo os pólos de Porto, Coimbra e Lisboa do Hospital das Forças Armadas.

    Pólo do Porto, Coimbra e Lisboa do Hospital das Forças Armadas apareceram como ‘salvação’ para o bastonário da Ordem dos Médicos contornar a norma da DGS que dava prioridade aos idosos e profissionais de saúde em contacto com doentes. Foto: EMGFA.

    As responsabilidades de Gouveia e Melo na cúpula da instituição militar eram bastante relevantes, tanto assim que, quando tomou posse em Janeiro de 2020 como adjunto de António Silva Ribeiro, o EMGFA divulgou que ele seria o seu “colaborador imediato […], no que respeita ao planeamento geral e coordenação da actividade […], cabendo-lhe coadjuvar o CEMGFA no desempenho das suas funções e exercer as competências que lhe sejam delegadas pelo mesmo”.

    Miguel Guimarães, então bastonário da Ordem dos Médicos, nunca aceitou que, no início do processos de vacinação, quando escasseavam doses, fossem preteridos os médicos sem contacto clínico face à população mais idosa. Esses médicos, que representariam menos de 10% do contingente total, por exercerem sobretudo actividades burocráticas deveriam aguardar para serem vacinados como cidadãos comuns em função da idade.

    Por esse motivo, com a saída do anterior líder da task force, Francisco Ramos, o então bastonário da Ordem dos Médicos viu em Gouveia e Melo um aliado. Um e-mail consultado pelo PÁGINA UM prova que, em 10 de Fevereiro de 2021, o actual deputado do PSD reuniu-se com Gouveia e Melo, seguindo-se contactos até que, após um telefonema a 25 de Fevereiro, foi fechado um acordo ad hoc — sem contrato escrito — para vacinar 4.198 médicos não-prioritários no Hospital das Forças Armadas: 1.382 no Porto, 2.004 em Lisboa, 623 em Coimbra e 189 no Algarve. Foram efectivamente vacinados cerca de 3.700 médicos, com doses desviadas do circuito oficial numa fase de escassez crítica.

    Gouveia e Melo manteve-se como ‘braço direito’ do CEMGFA Silva Ribeiro mesmo quando esteve na task force da vacinação. O Hospital das Forças Armadas foi usado como estrutura de desvio operacional para vacinação de médicos não-prioritários fora do circuito oficial do SNS e das normas da DGS. Foto: EMGFA.

    Como contrapartida, o Hospital das Forças Armadas recebeu 27.365 euros da Ordem dos Médicos, à razão de 3,7 euros por administração. No processo consultado pelo PÁGINA UM, no decurso de uma sentença do Tribunal Administrativo de Lisboa, não existe qualquer contrato que legitime este pagamento.

    A factura foi emitida à Ordem dos Médicos, mas paga pela conta pessoal conjunta dos três gestores da campanha “Todos por Quem Cuida” — Miguel Guimarães, Ana Paula Martins e Eurico Castro Alves —, enquanto surgem depois donativos de quatro farmacêuticas (Gilead, Ipsen, Bial e Atral) sem declaração no Portal da Transparência do Infarmed.

    A inexistência de um acordo escrito não é acidental: a task force não tinha autonomia jurídica nem competências para definir critérios ou celebrar acordos em Fevereiro de 2021. Somente em Maio foram atribuídas competências mais alargadas a Gouveia e Melo, mas mesmo assim jamais poderia contrariar as normas da DGS. Não se sabe quem autorizou o uso do Hospital das Forças Armadas e quem autorizou Gouveia e Melo a disponibilizar as doses e a contrariar a norma vigente da DGS.

    Extracto do e-mail de 17 de Março de 2021 enviado por Miguel Guimarães a Gouveia e Melo, admitindo a administração de uma dose “em Lisboa a uma personalidade política, por uma questão de necessidade e oportunidade”.

    Houve, porém, também outras questões éticas e legais graves que eventualmente estarão a ser analisadas pelo DCIAP. No processo de esclarecimento da IGAS – que alterou uma data de uma norma para tentar ‘limpar’ ilegalidades nessa vacinação – existe ainda um e-mail de 17 de Março de 2021 em que Miguel Guimarães informa Gouveia e Melo de que uma dose de vacina contra a covid-19 foi “administrada em Lisboa a uma personalidade política, por uma questão de necessidade e oportunidade”. Trata-se de uma confissão de uma verdadeira cunha política no acesso às vacinas. A IGAS ignorou o facto. E Gouveia e Melo não o comunicou ao Ministério Público.

    Nos termos do Código Penal, quem no exercício de funções públicas tem conhecimento de uma infracção penal e não a comunica incorre em responsabilidade criminal por prevaricação ou abuso de poder. Mas também nada disto parece ter incomodado a PGR, que mantém há quase dois anos um inquérito em silêncio absoluto sobre estes factos.

  • Vigilância policial de imigrante a ‘viver’ no Amadora-Sintra foi caso “excepcional”

    Vigilância policial de imigrante a ‘viver’ no Amadora-Sintra foi caso “excepcional”


    Foi um caso verdadeiramente “excepcional”. É assim que a Polícia de Segurança Pública (PSP) explica a situação insólita que obrigou à presença de agentes para efectuar um serviço de “vigilância permanente” de um utente do Hospital Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra).

    O caso noticiado pelo PÁGINA UM no passado dia 11 de Dezembro envolveu o utente António Gomes, um imigrante em situação ilegal no país que, após ter tido alta médica em meados de Maio, recusou deixar aquele hospital e acabou por ficar a “residir” até ao início de Dezembro no serviço de Neurologia, causando, ao longo de cerca de seis meses, diversos constrangimentos e ameaçando pessoal hospitalar.

    Foto: D.R./PSP

    Recorde-se que, perante as crescentes ameaças do utente, a administração hospitalar teve de condicionar os acessos ao serviço de Neurologia, mas estranhamente só no dia 3 de Dezembro tomou a decisão de solicitar a presença de um agente da PSP, em regime de remuneração, para vigiar António Gomes, em permanência, que então se encontrava a ocupar a cama 7 no quarto piso no Serviço de Neurologia.

    A nota de missão a que o PÁGINA UM teve acesso explicitava que o imigrante exigia “que o Estado português te[ria] que lhe arranjar casa” para sair pelos próprios pés. Agora, segundo resposta oficial da PSP, tratou-se de um caso raro. “No que respeita à requisição de agentes da PSP para assegurar a vigilância permanente de um utente, esclarece-se que tal não é uma prática comum, tendo a situação em apreço assumido um carácter excepcional e de urgência preventiva, limitada a um único dia, até ser possível verificar e confirmar a situação concreta do utente em causa”.

    Insólita ordem de missão da PSO da Amadora de 3 de Dezembro de 2025

    Ou seja, a presença da PSP acabou por espoletar a detenção de António Gomes. Ao que o PÁGINA UM apurou, aquele imigrante teria vindo para Portugal acompanhado de um irmão na expectativa de ter uma cirurgia. Acabou por ficar em situação irregular e até já teria ordem de expulsão do país. Antes de se deslocar ao Amadora-Sintra terá estado no Hospital de São José, em Lisboa, onde os médicos terão concluído que não reunia as condições clínicas para ser operado.

    Na sua longa “estadia” no Amadora-Sintra, o homem exigia ser operado, mas chegou também a afirmar que só sairia do hospital se o Estado lhe desse uma casa.

    Apesar de os hospitais estarem habituados a lidar com situações de internamentos sociais, com utentes abandonados pelas famílias ou com grave carência socio-económica, não foi este o caso com António Gomes.

    Foto: D.R./PSP

    Também para a PSP a situação foi inédita. Relativamente ao número de pedidos desta natureza, para vigilância permanente de um utente, recebidos pela PSP nos últimos anos, “este foi o primeiro e único pedido registado”.

    Assim, “presentemente, não se encontra qualquer agente da PSP destacado a prestar este tipo de serviço em hospitais, uma vez que o pedido referido foi pontual e não se encontra em curso qualquer outro de natureza idêntica”.

  • Leilão: futuro dono da revista Visão só será conhecido em Fevereiro

    Leilão: futuro dono da revista Visão só será conhecido em Fevereiro


    Será nos primeiros meses de 2026, previsivelmente em Fevereiro, que deverá ocorrer o leilão para a venda em definitivo da revista Visão e restantes títulos da Trust in News (TIN), empresa unipessoal do empresário e comentador Luís Delgado, que se encontra em irreversível processo de insolvência.

    Esta é a previsão do administrador de insolvência da empresa, André Correia Pais. De resto, as marcas do grupo já foram apreendidas no mês de Novembro, sendo que o registo das mais recentes foram publicadas no boletim oficial do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) do dia 2 de Dezembro. Neste momento, formalmente as marcas pertencem à massa insolvente da TIN Unipessoal.

    Revista Visão (Foto: PÁGINA UM)

    Saliente-se que este registo de apreensão é um passo obrigatório no âmbito do processo de encerramento e liquidação da empresa, aprovado pelos credores no início de Outubro. O objectivo é fazer o máximo dinheiro possível de qualquer activo para pagar aos credores, sabendo-se que muita dívida jamais será paga.

    O passo seguinte será a avaliação dos títulos, incluindo a Visão, a revista Exame e o Jornal de Letras, uma imposição dos dois maiores credores da TIN, a Segurança Social e a Autoridade Tributária — procedimento que levará cerca de “três semanas a um mês” a concluir.

    A empresa que avaliará os títulos, isto é, o preço base do leilão será escolhida pelo administrador de insolvência, André Correia Pais. Isto porque a assembleia de credores da TIN, que integra ainda, designadamente, o Novo Banco, a Impresa e representantes dos trabalhadores, não respondeu dentro do prazo ao administrador judicial sobre qual a empresa a contratar para proceder à avaliação.

    Luís Delgado, proprietário da Trust in News (à esquerda na foto), e Francisco Pedro Balsemão, presidente da Impresa, em Janeiro de 2018, na assinatura do acordo de venda do portfólio de publicações que permitiu aliviar a crise financeira na empresa dona do Expresso e da SIC. / Foto: D.R.

    A opção de venda através de leilão é certa, porque existem já vários interessados em fazer propostas de compra, pelo menos no caso da revista Visão. Entre os interessados estão colaboradores da revista que pretendem fazer uma angariação de fundos (crowdfunding) para tentar adquirir a publicação. A revista tem continuado a ser publicada por uma dúzia de jornalistas em regime de teletrabalho.

    Entretanto, já se procedeu à venda em leilão de equipamento e material da empresa que já tinha sido despejada das suas instalações no Tagus Park, o que rendeu pouco mais de 19 mil euros.

    A liquidação da TIN irá colocar um ponto final no calvário de um grupo de media que nasceu “torto”. Recorde-se que Luís Delgado criou a empresa em 2017 para adquirir à Impresa um conjunto de publicações que se revelaram “tóxicas”. Desde cedo que a TIN acumulou dívidas ao Fisco e à Segurança Social, sendo as suas principais marcas penhoradas em 2020 pelo Estado.

    No INPI, as marcas da Trust in News já foram registadas em nome da Massa Insolvente da empresa.
    / Foto: Captura de ecrã do portal de marcas registadas no INPI

    Para já, é certo que o Estado — que misteriosamente permitiu que a TIN acumulasse milhões de euros em dívidas ao longo de anos — ficará “a arder” em dezenas de milhões de euros. O mesmo se aplica à Impresa e ao Novo Banco — que também misteriosamente emprestou milhões a Luís Delgado sem quaisquer garantias sólidas.

    Mas a liquidação da empresa não vai significar o fim das dores de cabeça para Luís Delgado e os restantes antigos gerentes da TIN que se encontram a cumprir uma pena suspensa de cinco anos pelo crime de abuso de confiança fiscal na forma agravada por dívidas contraídas ao Fisco nos primeiros anos de actividade da TIN. Se não pagarem o montante em dívida, de 828 mil euros, arriscam ir para a prisão. Por outro lado, correm na Justiça outros processos de execução sobre os gerentes da TIN, os quais envolvem penas de prisão.

    Depois, falta apurar se houve insolvência dolosa, o que poderá acarretar mais consequências para a gerência da TIN. Para a gerência da TIN ser processada por insolvência dolosa, punida com uma pena até cinco anos de prisão, será necessário previamente que o Tribunal considere que houve uma “insolvência culposa”.

    Alguns dos bens da TIN que foram vendidos em leilão. / Foto: D.R.

    Ora, a juíza do processo de insolvência concedeu, em meados de Maio, mais seis meses para serem apresentadas provas que indiciem culpa dos gerentes no descalabro financeiro do grupo que detém mais de uma dezena e meia de títulos de media.

    Por fim, uma ponta solta são as contas de 2024 da empresa que ainda não foram fechadas, inexplicavelmente. Aguarda-se por saber, por exemplo, se irá ser feita uma ‘limpeza’ contabilística e alterada uma rubrica misteriosa que permitiu a Luís Delgado evitar o registo de prejuízos ao longo de anos e esconder a real situação da empresa perante os trabalhadores, os credores e a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).

    Uma das várias dúvidas financeiras que paira sobre a contabilidade da TIN prende-se com a existência de cerca de 14 milhões de euros em activos que Luís Delgado atribuiria a receitas futuras. Esse montante está registado na rubrica “Outras contas a receber”, que nem sequer são registadas com factura emitida, subsistindo dúvidas quanto à sua correspondência a um activo real, ou seja, que possa efectivamente ser convertido em receitas — e, em última instância, em dinheiro.

    Luís Delgado. / Foto: D.R.

    Para já, a liquidação está em andamento e marcará o fim de linha da empresa, depois de ter falhado o avanço do plano de insolvência apresentado por Delgado, que era a sua derradeira ’tábua de salvação’ perante diversas acções de execução em curso por parte de credores de TIN.

    Por saber, fica a dúvida sobre como é que uma empresa com um capital social de apenas 10 mil euros acumulou, estranhamente, dívidas superiores a 30 milhões de euros sobretudo junto do Estado, mas também junto do Novo Banco e da Impresa. Um mistério que provavelmente nunca ficará resolvido.

  • Hoje, recordo o “Pontes”

    Hoje, recordo o “Pontes”


    Seja o 25 de Novembro ou o 25 de Abril, jornalistas estavam lá para cobrir os acontecimentos. Hoje, uma crónica que publicámos no PÁGINA UM inclui uma foto que aqui republico porque é especial, para mim.

    Na imagem, um grupo de jornalistas recolhe os comentários e respostas a perguntas do embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Frank Carlucci, na sua chegada à capital em Janeiro de 1975. Entre eles, a segurar num dos microfones, de gravador na mão, está um querido colega: Carlos Pontes, companheiro na Reuters.

    Frank Carlucci, na altura embaixador dos Estados Unidos em Portugal, na sua chegada ao aeroporto de Lisboa em meados de Janeiro de 1975.  Carlos Pontes é o jornalista que está quase de frente para o fotógrafo. / Foto: Embaixada dos Estados Unidos


    Imagino que, logo a seguir, desatou a correr para uma cabine telefónica, tirou as muitas moedas que carregava nos bolsos, e ligou para ditar a notícia, que seria depois difundida para todo o mundo. (Agora já sem os riscos da censura da PIDE que rasuravam os muitos takes que guardava do tempo da ditadura.)

    O Carlos estava lá. Estava em Santa Apolónia, aquando da chegada de Mário Soares, também. E era uma delícia ouvi-lo contar como se “apoderou” de uma cabine que havia na estação antes de outros jornalistas, os quais faziam fila para poderem também enviar as suas notícias para a redacção.

    Gostaria de poder ouvi-lo hoje a contar uma das suas histórias do 25 de Novembro … e a acabar por escutar outras tantas, de outros acontecimentos históricos do país, que ele testemunhou e noticiou.

    Sinto que, de algum modo, falou comigo hoje, na mesma, ao aparecer-me essa foto. Consigo imaginar alguns dos comentários que provavelmente faria sobre os tempos que vivemos. E recordo, em silêncio, algumas das muitas suas histórias que tive o privilégio de escutar.

    Foi bom “rever-te”, Carlos. Um abraço, daqui.

  • Casal Ventoso é (novamente) um ‘shopping de drogas’ aberto a tempo inteiro

    Casal Ventoso é (novamente) um ‘shopping de drogas’ aberto a tempo inteiro


    A manhã estava cinzenta e a chuva já ameaçava cair. Na outra ponta da cidade, convidados da Web Summit preparavam-se para discutir as últimas inovações tecnológicas e promover Lisboa como a capital da inteligência artificial por uns dias. Mas na zona do antigo Casal Ventoso o ambiente é outro: miséria, desolação, abandono.

    O PÁGINA UM visitou o local com o psiquiatra Luís Patrício, uma “autoridade” nacional em matéria de prevenção e tratamento da toxicodependência e que foi co-fundador do centro de desintoxicação das Taipas, o primeiro do género em Portugal. O que encontrámos, ao realizar esta reportagem, foi um centro comercial de drogas a céu aberto, num ecossistema onde consumidores e traficantes convivem lado a lado com bairros residenciais e famílias no seu dia-a-dia.

    No antigo Casal ventoso, toxicodependentes vivem em abrigos improvisados rodeados de lixo. / Foto: PÁGINA UM

    As várias reportagens jornalísticas e denúncias que têm sido feitas nos últimos anos sobre aquela zona têm tido pouco efeito prático. Localizada na freguesia de Campo de Ourique, a zona foi alvo de reconversão há 26 anos, com o realojamento de moradores e novos bairros, mas está em acelerado processo de degradação. Pedro Costa, membro do secretariado nacional do PS e filho do ex-primeiro-ministro António Costa, liderou aquela junta de freguesia entre 2021 e 2024, altura em que renunciou ao cargo para ser director-geral de uma empresa de comunicação, a GCI Media. A freguesia é agora presidida por Ana Mateus, da coligação liderada pelo PSD.

    A nossa visita ao antigo Casal Ventoso começou na Rua Maria Pia, onde a pressão imobiliária já se faz sentir, com apartamentos novos ou renovados a serem vendidos a preço de ouro. Mas persistem vestígios que remontam ao passado de degradação — um muro tosco, pintado de cinzento, esconde o passado, mas também um presente que ninguém parece querer ver.

    Logo na “meia laranja” — como é conhecido um miradouro existente junto a um cruzamento da rua — tornou-se de imediato evidente, pelos jovens que por ali pousavam àquela hora da manhã, que a venda de droga é uma realidade habitual naquele ponto da rua.

    Nas traseiras de prédios da Rua Maria Pia há um mundo à parte onde o consumo de drogas é o normal. O chão está coberto de lixo, dejectos humanos e de materiais usados no consumo, como seringas, isqueiros, folhas de papel de prata, e caricas. / Foto: PÁGINA UM
    Paredes ficaram de pé com memórias de outros tempos, quando vivia ali gente em casas de tijolo e cimento com telhado. / Foto: PÁGINA UM

    Mas é na parte das “traseiras” da “meia-laranja” que começamos a perceber a dimensão real do problema de consumo e tráfico de droga naquela zona da capital. Logo que damos os primeiros passos, encontramos seringas, isqueiros e outros vestígios de que é um local onde se consome droga.

    Ali, nas “traseiras” da Rua Maria Pia há um mundo à parte. Fachadas de prédios esburacadas estão parede meias com prédios em construção, que nascem em sintonia com o negócio milionário em que se tornou a habitação em Lisboa. Ao longo das fachadas dos prédios e dos muros, ervas daninhas e vegetação variada misturam-se com azulejos de casas que ali já foram o tecto de famílias, formando uma paisagem tão fantasmagórica quanto bela.

    Um prédio em ruína serve de ‘casa’ para toxicodependentes. / Foto: PÁGINA UM
    Um vislumbre de um prédio na Rua Maria Pia. Um muro separa duas realidades diferentes da cidade, com prédios recuperados e casas vendidas a peso de ouro a contrastar com os abrigos improvisados dos que vivem ‘agarrados’ a drogas. / Foto: PÁGINA UM
    Nas traseiras da Rua Maria Pia, prédios em ruína estão paredes-meias com novos projectos imobiliários que têm vindo a nascer naquela zona. / Foto: PÁGINA UM

    Mas o que vamos encontrando no chão revela uma outra realidade, um mundo à parte, de abandono, miséria e degradação. Todo o terreno encontra-se pejado de seringas usadas, isqueiros, caricas e papel de prata — usados no consumo de heroína. Também se vêem preservativos por usar espalhados pela vegetação — às dezenas. Costumam ser distribuídos com kits oferecidos a toxicodependentes, mas o seu destino são estas lixeiras ao ar-livre. “Nesta fase, um toxicodependente não só já não consegue, como não tem libido sequer”, afirmou Luís Patrício.

    Cada árvore tem por debaixo um amontoado de lixo e dejectos e uma ou duas peças de roupa penduradas em ramos. Mas ali, naquele lugar esquecido, não apenas se consome droga diariamente. Ali, vive gente. Por detrás de tijolos partidos em fachadas em ruínas há “camas” feitas no chão onde dorme quem já não tem nada a não ser o vício da droga.

    Túneis antigos servem de abrigo a toxicodependentes. / Foto: PÁGINA UM
    A zona do antigo Casal Ventoso está pontuada por abrigos improvisados onde vivem toxicodependentes rodeados de lixo e monos. / Foto: PÁGINA UM

    Ao fundo do terreno, dois “túneis” fechados são hoje “casa” para alguns que pernoitam e, naquela manhã, se abrigam da chuva fria que começa a cair. Lençóis velhos servem de porta a estas “casas” com vista para o verde de Monsanto e para os viadutos. Ao longe, os carros passam velozes a caminho da Ponte, na azáfama do dia — pequenos, de várias cores, a fazer lembrar carrinhos de brincar.

    Caminhando na colina, para baixo, mais abrigos improvisados. Desta vez, são tendas feitas de panos, plásticos, móveis e monos. A chuva já caia a sério e molhava tudo. A cada passo, mais uma ou duas seringas se moldam ao solo, engolidas pela terra, ficando cravadas no terreno junto com pedras, isqueiros e caricas. Vestígios que ficarão ali para a posteridade, como peças arqueológicas a retratar uma época.

    Por todo o lado se encontram seringas e lixos, incluindo pensos higiénicos e fraldas, mas também muitas embalagens de preservativos ainda fechadas, que são distribuídas com os kits de consumo e depois descartadas pelos toxicodependentes. / Foto: PÁGINA UM
    Moradores e toxicodependentes cruzam caminho nas escadas que ligam a Rua Maria Pia ao parque verde que se estende até aos bairros camarários e à Avenida de Ceuta. Lixo, roupas e seringas cobrem o terreno. Só as escadas mantêm-se limpas, pelo menos no dia em que visitámos o local. / Foto: PÁGINA UM

    Avançando de regresso às traseiras da “meia-laranja”, chegamos junto à longa escadaria que leva a um jardim. Com a chuva pesada, apenas avistamos por ali um homem a passear o cão e uma outra pessoa a passar naquela zona que é usada como eixo pedonal de ligação para acesso às paragens de autocarro na Rua Maria Pia.

    No jardim, o cenário que encontramos é de abandono do espaço público. Numa colina, uma avalanche de sacos de plástico com lixo sobrepõem-se ao verde da vegetação ali existente. Não há ali tronco de árvore que não tenha por companhia um pedaço de lixo, seja uma camisola velha, restos de comida ou plásticos já comidos pelo tempo. Isso e seringas.

    As colinas do parque verde adjacente à Rua Maria Pia estão cobertas de lixo e seringas. / Foto: PÁGINA UM

    Debaixo de cada banco de cimento, com vista para o vale da Avenida de Ceuta e Monsanto, restam as sobras do que ficou de actos de consumo de drogas. Ao lado, moradores dos bairros em redor passam já sem ligar ao estado degradado do jardim.

    Junto a um grande e longo muro de pedra, um tapete de objectos e lixo estende-se entre árvores, ervas e musgo. Uma tampa de um tacho que um dia esteve num fogão, jaz ali no meio do chão. Ao lado, um relógio de parede de cozinha marca as 11 horas.

    Mas, ali, o tempo não parou. Está a andar ao contrário, de regresso ao passado, ao tempo do Casal Ventoso decadente, mortífero. Perigoso.

    No chão, ao lado de uma tampa de um tacho e seringas usadas, um relógio mostra as horas. Aqui, o tempo parou para muitos do que residem no local, vivendo à margem da esperança. / Foto: PÁGINA UM
    Foto: PÁGINA UM
    Junto a caminhos por onde passam moradores todos os dias, encontram-se seringas usadas. / Foto: PÁGINA UM

    Adiante, mais escadas levam agora aos bairros sociais que repousam ao lado da Avenida de Ceuta e para onde foram viver os antigos moradores do defunto Casal Ventoso. Pelo caminho, há tantas seringas no terreno quanto degraus na escadaria. Ou mais. Lá em baixo, a linha férrea deixa adivinhar mais locais recônditos e escondidos usados para consumo diário.

    “Está pior agora do que estava quando cá vim há umas semanas”, lamentou o psiquiatra, que tem vindo a alertar para a progressiva degradação da zona. Luís Patrício vê sinais preocupantes de que o antigo Casal Ventoso está a ressuscitar, sem que as autoridades tomem medidas para travar o consumo e o tráfico. E a criminalidade. Ainda há cerca de um mês, foi por ali encontrado morto um jovem irlandês com sinais de possíveis agressões.

    Foto: PÁGINA UM
    Foto: PÁGINA UM

    A colina que abraça a linha do comboio serve de terreno para mais abrigos feitos de plásticos e cobertores velhos. O chão ao lado das tendas improvisadas onde vivem toxicodependentes está coberto de lixo e dejectos até à linha férrea. Do outro lado, mesmo em frente, um parque infantil e um campo de jogos marca o contraste destes dois mundos que ali se habituaram a viver lado a lado. O Casal Ventoso pode ter sido desmantelado mas a droga nunca saiu dali e o negócio hoje até prospera, pelo que observámos.

    O topo do túnel da linha de comboio serve de miradouro e zona predilecta de consumo com vista para o parque infantil e os prédios de habitação social. No chão, é preciso ter cuidado para não pisar as muitas seringas. Bem na berma deste “miradouro”, um elástico de cabelo jaz ali esquecido junto a uma seringa usada.

    Por toda a zona são avistadas tendas feitas de panos, plásticos e monos. / Foto: PÁGINA UM
    O psiquiatra Luís Patrício conhece a zona como a palma da mão e avisa que o Casal Ventoso está a voltar ao que era antes da reconversão daquela zona problemática de Lisboa. / Foto: PÁGINA UM
    No topo do túnel da linha do comboio o chão está polvilhado com seringas e outros objectos usados no consumo de drogas. De um lado, um campo de jogos e um parque infantil, do outro, tendas improvisadas e amontoados de lixo. Na linha de comboio, as margens estão ocupadas com lixo e seringas. / Foto: PÁGINA UM

    Perto do túnel da linha férrea, há vários locais usados para consumo. O próprio túnel está cheio de seringas, garrafas e lixos. O volume de vestígios encontrados na zona revela que se tornou num pouso para quem consome. Não será coincidência a proximidade aos bairros onde se pode comprar drogas facilmente na rua.

    É esta a vista de quem vive ali nos prédios dos bairros camarários e das crianças e jovens que frequentam o parque infantil e o parque de jogos. Cada descida de escorrega, cada golo marcado na baliza têm esta paisagem decadente — mas já familiar — por companhia.

    Foto: PÁGINA UM
    Junto ao topo do túnel do comboio, tal como os muitos toxicodependentes que ali se rendem às drogas, um pinheiro sobrevive, mesmo estando tombado. / Foto: PÁGINA UM

    Entrando na zona das traseiras dos prédios camarários, encontramos um aparente cenário urbano pacato, com carros estacionados e cortinas nas janelas com vista para a linha do comboio. Mas, ao virar da esquina, percebe-se que é ali o centro comercial a que vai quem consome. A chuva a cair cerrada e gelada não demove os vendedores de droga que armaram a sua “banca de vendas” debaixo das arcadas dos prédios.

    A chuva forçou uma paragem. Ficámos ali uns minutos, debaixo das mesmas arcadas onde se pode encontrar “produto” 24 horas por dia. Este é um shopping que nunca fecha. Faça sol ou chuva. Seja noite ou dia.

    Parede lateral do Serviço de Apoio Integrado (SAI), na Quinta do Loureiro, local onde os toxicodependentes podem consumir de forma segura, com acompanhamento especializado, e onde receber aconselhamento e tomar duche, entre outros serviços. / Foto: PÁGINA UM
    Encostado à parede do SAI, um abrigo feito de plásticos e cobertores serve de ‘casa’. / Foto: PÁGINA UM

    Adiante, junto aos prédios onde vivem famílias, situa-se um centro de apoio a toxicodependentes, o Serviço Integrado de Apoio (SAI). Ali, pode trocar-se seringas novas ou tomar duche. Estavam três pessoas junto à entrada do centro. Ao lado, um muro baixo acolhe uma imagem de Jesus Cristo crucificado. Mas para muitos, aqui não há salvação, só a cruz pesada que lhes coube.

    Uma jovem deambulava por ali, meio perdida. O cabelo louro sobre o corta-vento verde azeitona escondia um rosto pálido e magro. Pediu-nos cinco euros “para regressar a Portalegre”. Luís Patrício ofereceu-se para comprar o bilhete de autocarro ou comida. Recusou. “Já só me faltam mesmo os cinco euros”, disse a jovem. Os seus dentes, já meio escurecidos, são testemunho de que o seu calvário na vida de consumo já leva um tempo. Uma vida desperdiçada pela dor. [Impossível não pensar que aquela jovem já foi, um dia, um bebé no colo de uma mãe, e que está ali, agora, sozinha e vulnerável, prisioneira de uma vida sem saída. A tristeza e a impotência que senti foram avassaladoras.]

    Do outro lado da Avenida de Ceuta, na colina em frente, o consumo de drogas é também habitual. / Foto: PÁGINA UM
    Subindo pela estrada de regresso à zona da Rua Maria Pia, o terreno está pautado por abrigos improvisados onde dorme gente. / Foto: PÁGINA UM

    O regresso à Rua Maria Pia, pela estrada, não tem um cenário muito diferente do que vimos ao descer pela escadaria: abrigos e tendas feitos de plásticos e monos marcam a paisagem, entre árvores, ervas e lixo.

    “Isto é a prova do insucesso das políticas de prevenção e combate [à toxicodependência]”, afirmou Luís Patrício já perto do final da nossa reportagem. Questionado sobre como solucionar o problema, o psiquiatra indicou sem hesitar: “afastar os gestores das entidades competentes e adoptar novas medidas”.

    Não existem dados actualizados sobre a situação do consumo de drogas em Portugal. Os dados mais recentes, reportados num relatório publicado pelo Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), remontam a 2023. Naquele ano, estiveram 24.246 utentes em tratamento na rede pública com problemas relacionados com o uso de drogas. Em 2023, dos 3.621 utentes que iniciaram tratamento, 1.680 eram readmitidos e 1.941 correspondiam a novos utentes.

    Kit para o consumo “seguro”. / Foto: D.R.

    Numa reunião online de profissionais médicos ligados ao acompanhamento de toxicodependentes, que o psiquiatra Luís Patrício organiza regularmente, e que decorreu este mês de Novembro, ficou patente que existe um forte aumento de incidência do consumo de crack , um derivado da cocaína. A falta de vagas para internamento na rede pública e a escassez de médicos foram dois dos problemas apontados pelos participantes no encontro, a que o PÁGINA UM assistiu. Outro flagelo relatado é o aumento das doenças sexualmente transmissíveis nos pacientes com dependências.

    De resto, em Lisboa, a proliferação do consumo de drogas no espaço público tem sido evidente, com toxicodependentes sem-abrigo a ocupar algumas zonas da cidade, não só no Casal Ventoso mas também em áreas do centro da capital, incluindo na Graça, como o PÁGINA UM já relatou.

    Para o psiquiatra Luís Patrício, as políticas públicas têm falhado tanto na prevenção como no combate ao flagelo da toxicodependência. Ainda, recentemente, houve uma polémica em torno de uma campanha de informação sobre o uso de drogas, lançada em Outubro pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS). Isto porque a campanha, que foi promovida nas redes sociais, promovia as “virtudes” das substâncias. A campanha acabou por ser retirada das redes sociais.

    O psiquiatra Luís Patrício criou uma ‘Mala da Prevenção’ que contém diversos materiais visando informar sobre o mundo de dependências de diversas substâncias. Existem três ‘Malas’ para públicos diferentes: famílias; profissionais de saúde; profissionais de educação. / Foto: PÁGINA UM
    Esta ‘Mala da Prevenção’, usada para formar profissionais de saúde, é a mais completa e está recheada de materiais que visam informar e desmistificar questões em torno das dependências e abuso de substâncias diversas. / Foto; PÁGINA UM

    De resto, apesar do aparente desalento, Luís Patrício não baixou os braços e tem apostado na divulgação de informação. Além de manter actualizada com informação educativa a sua página no Facebook e um blog, o psiquiatra também é autor de diversos livros e orador.

    No seu consultório clínico, em Lisboa, o psiquiatra também mostrou ao PÁGINA UM uma das suas “Malas de Prevenção”, um projecto pedagógico que visa a educação e a prevenção do consumo de drogas e álcool. Tem três “malas” diferentes: uma para famílias; uma para profissionais de educação; e outra, a mais completa, destinada a profissionais de saúde. Lá dentro, estão diferentes objectos relacionados com o tema e caixinhas de plástico transparente com substâncias variadas, entre outros materiais.

    Já depois da visita ao Casal Ventoso com o PÁGINA UM, Luís Patrício levou a sua “Mala da Prevenção” a Cabo Verde, onde se deslocou para um conjunto de apresentações e palestras no âmbito de uma iniciativa da Fundação Menos Álcool Mais Vida.

    Na zona do antigo Casal Ventoso há vidas suspensas por um fio devido ao consumo de drogas. / Foto: PÁGINA UM

    Entretanto, em Portugal, foi anunciado o regresso da dispensa e administração de metadona nas farmácias, em 2026, para alargar o acesso ao tratamento de pessoas com dependência de opiáceos. A implementação operacional da medida fica formalizada com a assinatura, hoje, de um protocolo pelo ICAD, a Associação Nacional das Farmácias, a Associação de Farmácias de Portugal, a Ordem dos Farmacêuticos e o Infarmed, a Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde.

    Para Luís Patrício, esta medida concretiza “finalmente, o aproveitamento de recursos, que também é contributo para a quebra de estigmas”. Agora, defende que se deve ajudar os decisores a aceitar “o benefício da máquina de recolha de seringas”, bem como “a entrega de um kit de redução de riscos novo nas 24 horas do dia”.

    Para já, nada mudará na realidade que o PÁGINA UM encontrou na zona do antigo Casal Ventoso, em Lisboa, onde o consumo e o tráfico de drogas ilícitas proliferam, bem como os frágeis abrigos construídos por toxicodependentes que ali irão procurar sobreviver ao vício e ao Inverno.

  • Isaltino mete erário público a pagar mojitos e margaritas à discrição em eventos públicos

    Isaltino mete erário público a pagar mojitos e margaritas à discrição em eventos públicos


    Não há tempo a perder. As eleições autárquicas já lá vão e os almoços e cocktails organizadas por autarquias e pagos pelos contribuintes seguem já a seguir. Que o diga Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras, que arregaçou as mangas e já assinou dois contratos para a organização de eventos e cerimónias da autarquia para os próximos dois anos.

    A empresa escolhida, com sede em Lisboa, é a Carrilho de Almeida – Investimentos Imobiliários, pertencente a dois irmãos (Manuel e José Luís Almeida),que têm uma vasta panóplia de empresas o sector do imobiliário e turismo. No caso dos serviços para a autarquia de Oeiras, no valor de quase 1,5 milhões de euros, a empresa só começou a actuar no sector da restauração após um alteração do objecto social de 2021.

    three different types of alcoholic drinks on a table
    Foto: D.R.

    A Carrilho de Almeida fica assim com a responsabilidade de servir os menus para os comensais e convidades, que incluem desde queijos e presuntos, passando por canapés e mousse de chocolate com flor de sal, até mojitos e margaritas à discrição. E há ainda, em certos casos, tamboril aromatizado de ervas e bacalhau lascado em cama de espinafres, entre os pratos principais.

    O concurso público, lançado em Junho deste ano, previa a adjudicação de contratos em dois lotes distintos, um referente a eventos com mais de 100 convidados e outro relativo a eventos abaixo desse limite. A empresa Carrilho de Almeida ficou com os dois — sendo que no Portal Base esta empresa consta como tendo sido a única a concorrer ao procedimento.

    Os dois contratos foram já assinados com a nova maioria, no dia 14 de Novembro, levaram mesmo a assinatura do próprio Isaltino Morais, com vista à aquisição de “serviços de organização de eventos sociais e cerimónias protocolares do Município de Oeiras”.

    Foto: D.R.

    O contrato relativo ao Lote 1 para eventos com mais de 100 convidados envolve uma despesa máxima de 984 mil euros (com IVA). Segundo o caderno de encargos do procedimento, a autarquia prevê realizar anualmente cinco eventos desta dimensão. Assim, cada destes eventos terá um custo médio de 98.400 euros.

    Por este contrato, a Carrilho de Almeida recebe 150 mil euros ainda em 2025. “No dia 1 de janeiro de 2026, o contrato renova-se automaticamente pelo prazo de 12 meses e até ao montante de 492 mil euros, acrescido de IVA”, lê-se no contrato. Em 2027, a empresa receberá mais 307.500 euros.

    O segundo contrato, relativo a eventos com menos de 100 convidados, vai custar aos contribuintes até 492 mil euros, dos quais 123 mil euros serão pagos já este ano, 246 mil euros em 2026 e 123 mil euros em 2027. A autarquia indica que poderá organizar 50 eventos com esta dimensão anualmente, o que perfaz um custo médio de perto de cinco mil euros.

    Os convidados jamais ficarão mal servidos com a hospitalidade da autarquia de Oeiras com recurso a dinheiros públicos. Isaltino Morais exige que no menu constem produtos de qualidade. Assim, tanto no catering dos brunchs como nos almoços e jantares, terá de ser servido queijos e presunto como entrada.

    a large fish on a cutting board
    Foto: D.R.

    O município dá várias opções de menu nos almoços e jantares que terão de ser compostos de “couvert, entradas, prato de carne ou peixe e sobremesa”. Para prato principal, as opções incluem, por exemplo, “medalhões de porco com molho de ameixa”, “arroz de tamboril aromatizado de ervas” e “bacalhau lascado em cama de espinafres, com manto de broa acompanhado de batatinha a murro”. Nas sobremesas, o catering poderá incluir, por exemplo, “panacotta de frutos vermelhos” ou “mousse de
    chocolate com flor de sal”.

    Os eventos que forem no formato buffet volante ou sentado serão compostos por “entradas diversas, um a dois tipos de pratos de carne ou peixe e sobremesas diversas”. Nos eventos que tiverem a modalidade cocktail, haverá um “serviço de canapés quentes e frios, salgados e doces e long drinks & cocktails“. No menu, à discrição, estarão mojitos, margaritas, cosmopolitan e gin tónico.

  • O Jornalismo passou a ser crime (com a ajuda do silêncio dos jornalistas)

    O Jornalismo passou a ser crime (com a ajuda do silêncio dos jornalistas)


    Sou jornalista há quase 30 anos e assisti ontem ao impensável: um jornalista sentou-se no banco dos réus no Campus de Justiça, em Lisboa, por fazer Jornalismo. Isso mesmo. Foi isso que testemunhei, ontem, na primeira sessão deste julgamento perigoso que decorreu na Sala 3, do quarto piso no edifício B do Campus de Justiça.

    Tive de assistir enquanto o procurador do Ministério Público se transformava num inquisidor perante um jornalista cujas investigações apontaram a existência de diversas irregularidades que envolveram, inclusive, o “desvio” de vacinas contra a covid-19 para vacinar médicos não prioritários quando estas escasseavam em Portugal, no início de 2021. Foi também vacinado um político, que assim conseguiu passar à frente na lista de vacinação. Tudo à margem das normas da Direcção-Geral da Saúde. Está tudo documentado.

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    Foto: D.R.

    Ou seja. Um jornalista fez o trabalho que o Ministério Público não fez (ou não quis fazer). Investigou. Conseguiu ter acesso a documentos e provas (com recurso aos tribunais). Publicou. Mostrou as provas, os e-mails comprometedores, as facturas falsas, os pagamentos indevidos. Provou as fugas ao fisco e as vantagens fiscais indevidas obtidas por empresas farmacêuticas.

    O que faz o Ministério Público? Colocou o jornalista como arguido. E liderou, ontem, no início da sessão, o ataque ao jornalista, agora sentado no banco dos réus, acusado de calúnia e difamação por Henrique Gouveia e Melo, a Ordem dos Médicos, o seu ex-bastonário Miguel Guimarães, e os médicos Filipe Froes e Luís Varandas.

    Isto não é só mau. Isto não é só incompetência. Isto é perigoso. Porque não foi o jornalista que esteve ontem sentado no banco dos réus a ser inquirido num tom condenatório, como se fosse um qualquer criminoso. Foi o Jornalismo. Não foi o jornalista que esteve sob o dedo acusador do procurador. Foi a democracia. E tudo está a acontecer com o silêncio cúmplice dos jornalistas, associações e reguladores do sector da imprensa e do Sindicato.

    A man holds a burning newspaper at night, creating a vivid and dramatic effect.
    Foto: D.R.

    Quando um procurador, perante as provas, os e-mails e os documentos, opta por perseguir e pedir a condenação não dos infractores mas do mensageiro, o que é isto senão um ataque à democracia?

    Além disso, chocou-me a forma desrespeitosa como o procurador se dirigiu ao jornalista. O tom cínico. A voz elevada. Como quando um mau professor enxovalha um aluno com o único intuito de o humilhar perante a turma.

    No meio do seu desastroso fio inquisitório, o procurador chegou até a querer saber que “coisas” andou o jornalista a fazer quando suspendeu a sua carteira profissional durante alguns anos. Como é público, o jornalista investiu na escrita, publicou diversos romances históricos e ensaios e dedicou-se ainda à investigação académica. Obteve também duas licenciaturas no ISEG, um mestrado, uma pós-graduação e está preparar um doutoramento.

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    Foto: D.R.

    A cada frase, o objectivo do procurador era ver se conseguia que o jornalista escorregasse numa qualquer armadilha. Um espectáculo triste demais para se ver. Um comportamento que nos faz questionar, afinal, para quem trabalha o Ministério Público.

    A atitude do Ministério Público neste caso abre um precedente grave e cria espaço para outros atropelos à liberdade de imprensa e ao Jornalismo nos tribunais. Deu margem, por exemplo, a um dos advogados de acusação, para questionar o uso de uma palavra por parte do jornalista numa das suas notícias. Ao que chegámos.

    Também foi com estupefacção que ouvi a meritíssima juíza questionar o jornalista sobre se, antes de escrever a notícia, pensou em como iria afectar “a honra” dos visados na investigação jornalística.

    Foto: D.R.

    Desde quando é que cabe aos jornalistas defender a honra seja de quem for? Não é esse o papel de nenhum jornalista. Há aqui uma confusão sobre o que são os deveres e responsabilidades dos jornalistas. Mas o que dizer quando até uma juíza desconhece isso?

    Talvez o magistrado do Ministério Público que quer condenar este jornalista também não saiba qual é o papel dos jornalistas. Talvez não saiba qual é a relevância do Jornalismo na saúde das democracias.

    Cabe ao jornalista escrutinar, investigar, apurar os factos. Publicar o resultado das suas investigações e apresentar as provas.

    Foi isso que fez Pedro Almeida Vieira quando investigou e noticiou os vários escândalos em torno da campanha “Todos por quem cuida” promovida pela Ordem dos Médicos e a Ordem dos Farmacêuticos. (Curiosamente, três dos envolvidos nas polémicas da campanha “Todos por quem cuidam” provaram que tinham ambições políticas e aproveitaram bem a pandemia para “subir”: Miguel Guimarães é deputado do PSD; Ana Paula Martins, ex-bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, é ministra; Gouveia e Melo é candidato à Presidência da República.)

    Uma coisa é certa: o procurador parece não saber qual é o papel do Ministério Público. Porque perseguir jornalistas não é certamente. (Já investigar se houve crime na campanha “Todos por quem cuidam” já parece ser uma das suas competências.)

    Algumas das perguntas que foram ontem colocadas ao jornalista na primeira sessão do julgamento são inaceitáveis em democracias que honram a liberdade de imprensa. Procurou-se queimar o Jornalismo numa fogueira, ali, na Sala 3.

    Afinal, o jornalista viu os documentos? Viu os e-mails? Então o que dizia aquele e-mail? E onde viu aquela factura? E o que estava na factura? E o jornalista lá ia respondendo a este rol de questões da inquisição tosca que se montou naquela Sala 3. Lá o jornalista, de tablet na mão, andava a ter de procurar os documentos que todos os presentes podiam consultar no processo e nas notícias que publicou. Lá o jornalista, pacientemente, ia lendo os e-mails em voz em alta. Os e-mails que aquele procurador ali sentado queria usar para condenar o jornalista que os revelou, ao invés de procurar sentar no banco dos réus os autores dos mesmos.

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    Foto: D.R.

    O jornalista teve ainda de responder a questões do foro pessoal: com quem vive; quanto ganha; quais as despesas fixas mensais…

    Ali, sentada naquela sala, a ver um jornalista a ter de responder como se fosse um criminoso apenas por ter feito o seu trabalho, provocou-me, a certa altura, um arrepio. Um calafrio de quem acabou de ter uma má premonição. É que percebi, naquela Sala 3, que a democracia está mesmo por um fio, quando um jornalista é perseguido por um procurador por ter noticiado a descoberta de irregularidades.

    Ainda assim, no final da sessão de ontem, a juíza travou o questionário do advogado de Gouveia e Melo e acabou ela própria a fazer um resumo breve das revelações do trabalho de investigação jornalística de Pedro Almeida Vieira e do PÁGINA UM, no dossier sobre o caso da vacinação contra a covid-19 feita a um grupo de médicos à margem das normas da DGS. Uma luz de esperança neste dia.

    Também o procurador ficou a saber que o Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa pediu ajuda a Pedro Almeida Vieira e abriu, em 2024, um inquérito para investigar a campanha polémica da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Farmacêuticos. O seu tom mudou. No final da sessão, já não era o professor que enxovalhava enquanto se via forçado a tomar nota do número do inquérito do DIAP que lhe foi fornecido pelo jornalista.

    Foto: PÁGINA UM

    Falta ainda assistir às próximas sessões deste julgamento que é duplo: o jornalista também é acusado (incluindo pelo Ministério Público) por ter trazido transparência à situação de promiscuidade que envolve dois conhecidos e mediáticos médicos, Filipe Froes e Luís Varandas. Estes médicos, consultores de farmacêuticas, consideram que é difamação e calúnia quando um jornalista revela que… são consultores de farmacêuticas e não apenas médicos. E que esse seu estatuto de consultor deve ser divulgado a cada intervenção pública e mediática que fazem, quando comentam situações de saúde pública ou promovem fármacos na imprensa.

    Estes médicos sabem que podem contar com o procurador na perseguição do Jornalismo. Porque, no fim, para o procurador, fazer Jornalismo é difamar, é caluniar. Investigar é atentar contra o bom nome. Publicar notícias com base em documentos e e-mails é um crime que merece condenação pública. Uma condenação que sirva de aviso a todos os jornalistas. E isto, caros leitores, é a normalização da intimidação judicial de jornalistas. Isto é, caros leitores, a democracia com cheiro a fim de prazo.

    Nota: Aguardamos, serenamente, que o Sindicato dos Jornalistas se pronuncie publicamente e condene este julgamento que está em curso, bem como a actuação perigosa do Ministério Público neste processo. Vamos aguardar sentados, em todo o caso. Afinal, trata-se do director do PÁGINA UM, um jornal que investiga também a promiscuidade na imprensa. E, sobretudo, um jornal que não faz fretes. A ninguém.