Autor: Brás Cubas

  • Bestas, homens e estádios: uma apologia da animalização

    Bestas, homens e estádios: uma apologia da animalização


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Confesso — e começo por onde dói — que estarei entre os menos habilitados a erguer o dedo acusatório quando o assunto é racismo. Não por virtude, mas por culpa antiga. No meu Brasil do século XIX, ainda de calções curtos e soberba longa, divertia-me a xingar e a infligir pequenas e grandes barbaridades ao meu moleque negro, Prudêncio. Chamavam-se travessuras – na verdade, eram crueldades. A consciência, essa, vinha depois, quando vinha, sempre atrasada e com ar de quem chegava por engano.

    Libertei-o mais tarde, gesto que a minha vaidade registou como magnânimo. Anos passados, reencontrei Prudêncio que, para meu espanto, chicoteava o seu próprio escravo. A liberdade nunca erradica hábitos ruins – muda apenas de mãos.

    Hoje, graças aos céus, às leis e a algum decoro público, o racismo mirrou, mesmo não se desenraizando, mesmo estando nas antípodas dos meus tempos. Viceja ainda como certas plantas daninhas em disfarces de flor respeitável.

    Com este lastro nas órbitas, olhei, sem pressa e com curiosidade clínica, o episódio recente de dois jogadores de bola em despique quente: um meu conterrâneo agora em terras madrilenas festeja o golo e, no tropel do momento, um argentino de cores encarnadas lança-lhe uma nefandice. Dizem que lhe chamou mono.

    Em português de Portugal, mono serve para qualificar o feio, o insípido, o apalermado, o molengão, o sensaborão ou o macambúzio — como bem quis exprimir o vosso Eça. No meu Brasil, podendo significar tudo isso, a palavra evoca de imediato os muriquis, o que, em sentido moral, não é necessariamente ofensivo. Estas criaturas de selva e de convivência, caminham sem intriga, jamais usando os seus longos braços para se pendurarem no trabalho dos outros.

    Eu, que sempre fui homem de salão, de coche e de sobrancelha levantada, que nunca cultivei gosto por expedições tropicais ou entusiasmos naturalistas, posso ainda assim garantir que, tendo conhecido Coimbra, Paris — onde gastei o tempo com elegância — e ainda Marcela — o que já representa fauna assaz respeitável —, conheci alguns homens que honrariam esses macaquinhos e outros tantos que, pelos seus actos, fariam por desonrá-los.

    Já em castelhano estrito, convenhamos que mono é, sem rodeios, macaco. Percebo, pois, a subtileza — e a malícia — de recorrer à figura do primata para ofender um negro. Ainda assim, tratando-se de argentinos — esse povo de vocação para a grandiloquência, onde o banal se declama como épico e o exagero se protege como património nacional —, seria de esperar algo mais composto: um negro de mierda, um cabecita negra, ou mesmo um mono hueco. Nunca apenas mono – assim, dissilábico, tão só e tão pobre. Na terra das pampas, a ofensa sempre exigiu excesso.

    Seja como for, o racismo não se consuma — nem se deve consumir — no simples uso do nome de um animal, reduzindo o humano a bicho como expediente de desqualificação sumária. Tal gesto é pobre, não por convocar o animal, mas por o fazer sem arte nem pensamento. Usar animais para ofender alguém pela cor da pele, pela origem ou pela condição de nascimento nada tem de sátira, nem de retrato, nem de inteligência: há nisso apenas preguiça moral e crueldade bruta.

    Essa forma de desumanização serve exclusivamente os espíritos menores, que necessitam de diminuir o outro para evitar o confronto com a própria pequenez. Conheci-os bem no meu século; reconheço-os hoje, embora muitos surjam agora de luvas calçadas e munidos de certificados de boas intenções.

    Seria, porém, erro não menos grosseiro — e intelectualmente ainda mais pobre — lançar fora, com a água suja do racismo, toda a criança do bestiário. Importa, pois, judiciosas donzelas e sapientes cavalheiros, erradicar o racismo sem amputar a animalização: essa nobre arte de iluminar os vícios humanos; esse exercício antigo e exigente de esculpir defeitos morais; esse insigne ofício de rebaixar o homem à besta para impedir que a besta se finja homem.

    A animalização satírica e moral nunca visa a pele, mas o carácter; não a origem, mas o vício; não a pessoa enquanto carne e osso, mas o comportamento enquanto gesto e hábito; não rebaixa o humano; eleva-o, desnudando-o; não inventa defeitos, concentra-os; não cria monstros; revela monstruosidades.

    Por isto, quando Juvenal chamou porcos aos glutões de Roma, não praticou antropologia comparada: exerceu crítica moral. Quando Quevedo povoou a corte castelhana de cães e macacos, não fazia zoologia, mas anatomia do poder. Quando Ezequiel comparou governantes a pastores que se apascentavam a si próprios, não insultou ovelhas — acusou comportamentos humanos. Quando Esopo pôs raposas a discursar e lobos a julgar, não falava de bichos: descrevia vícios perenes. Quando Jonathan Swift fez dos Yahoos a caricatura do homem degradado, não desumanizou a espécie — devolveu-lhe um espelho. E quando George Orwell deixou os porcos governarem a quinta, não rebaixou os animais: denunciou a metamorfose moral do poder. A animalização, usada assim, não retira humanidade — retira máscaras.

    A hipocrisia, quando dita em prosa, escapa – mas quando vestida de lobo em pelo de cordeiro, denuncia-se sozinha. A ignorância, quando discursada, disfarça-se – mas quando surge como asno de biblioteca, cai por terra. A subserviência, quando justificada, convence – mas quando aparece como cão de apito, humilha-se sem ajuda. Há nisto não ódio, mas economia; não violência, mas precisão.

    Convenhamos, a animalização moral é uma forma de taquigrafia ética, porque dizem em três penadas aquilo que relatórios prudentes evitam escrever em trezentas páginas. A animalização não pergunta quem alguém é, mas sim o que alguém faz repetidamente.

    Feita esta distinção necessária, posso regressar sem remorso a esse cortejo de bichos que atravessam os séculos com assento garantido nas assembleias, nos gabinetes e nos palanques. Vi-os funcionar no meu tempo, nos salões do Império e nos corredores da Corte; vejo-os agora, com renovada vitalidade, nas assembleias modernas, onde se mudam os trajes, mas persistem os bichos.

    Desde tempos imemoriais, o bestiário serviu para condensar caracteres. O asno representa a ignorância, mas aquela que também é teimosa — conheci-o em Coimbra, bacharel em latim macarrónico e certezas definitivas. Já o jumento é aquele que persevera no erro com dignidade rural, enquanto o boi de canga se mostra como trabalhador diligente mas que pensa pouco, espécie abundante nos ministérios de outrora e de agora. Depois, temos a mula, que emperra por princípio; o touro de praça que avança sem razão; o camelo que suporta sem compreensão; a anta que, pachorrenta, transforma a estupidez em cerimónia oficial, com actas, selfies e coffee-break.

    Também há quem seja gado, por aceitar a cerca — vi-o eu seguir docilmente o imperador; hoje anda atrás do algoritmo ou das autoridades sanitárias. Há quem seja cabra, oscilando entre lascívia e obstinação; ou bode, carregando a sujidade moral com ar sacrificial; ou porco, revirando-se no chiqueiro do interesse; ou leitão, mamando do orçamento com apetite juvenil; ou javali, investindo sem freio nem leitura prévia.

    E há sempre os canídeos — e aqui Quevedo me ajudou. Temos o cão sarnento, mastim da vileza reincidente; o cão-de-fila, feroz apenas quando há dono por perto; o cão de câmara, submisso, tremendo de afecto remunerado; o lobo de sacristia, que reza com dentes à mostra e absolve conforme a conveniência. A estes, conheci-os em púlpitos barrocos; reconheço-os hoje em colunas de opinião e corredores institucionais.

    Há depois os emuladores, muito do meu tempo e mais ainda do vosso: o macaco-de-imitação, que copia sem génio; o papagaio de serviço, que repete a ordem do dia com ar de descoberta; o pavão de protocolo, que abre penas vazias à custa do erário; o galo de poleiro, que canta uma coragem decorativa; a foca de plenário, que aplaude por reflexo condicionado…

    Não faltam ainda as sevandijas da intriga: o rato de corredor, especialista em boatos; a ratazana de bastidor, que rói reputações; o piolho da insignificância, persistente; a mosca abelhuda, constante; o peixe morto, a inércia absoluta, tão comum em conselhos, comissões e task forces. E até, mais peçonhentos, os venenosos: a serpente da perfídia, calculada; a cobra da traição, silenciosa; o escorpião da malícia, administrativa — este último prosperando em gavetas, despachos e anexos técnicos.

    Há ainda os oportunistas: o abutre do despacho, que vive do acidente; o urubu do contrato, que sobrevoa crises; a hiena que ri da desgraça alheia; o carrapato que não larga; a sanguessuga do parasitismo social; o corvo do mau augúrio, sempre pronto a anunciar o fim do mundo — desde que seja lucrativo. E, por fim, os pesos mortos: o elefante do gabinete; o hipopótamo institucional; o rinoceronte da força obtusa; o caracol burocrático; a ostra do mutismo, essa pérola interesseira; e a toupeira subterrânea, de cegueira voluntária.

    Este é um desfile antigo, admito, mas que continua a trespassar as minhas cavidades oculares. Dir-me-eis: isto, que aqui apresentais, é crueldade. Vos respondo: não; é apenas inventário. E, como todo o inventário, concedo que incomode, sobretudo quem se reconheça na lista.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • Nova SBE, ou algumas notas etológicas sobre Mr. Peter Saint Clear

    Nova SBE, ou algumas notas etológicas sobre Mr. Peter Saint Clear


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Ah, minhas senhoras e meus senhores — vós, leitores, cúmplices e eventuais vítimas —, permitam-me que hoje ajuste apressadamente o colarinho do fraque mortuário antes de prosseguir.

    A morte, além de nos libertar da vaidade, concede-nos eternidade, mas não o tempo, que hoje, precisamente hoje, me escasseia. E tempo, essa estreiteza existencial, é coisa que a Economia nunca soube medir sem a reduzir, nem administrar sem a empobrecer.

    Escrevo, pois, desta vez, privado desse luxo obsceno do vagar — luxo que tanto irrita os homens de spreadsheet, charts e keynotes, sobretudo quando se julgam intérpretes exclusivos do destino de um povo. Ainda assim, como convém aos mortos bem-educados, não deixarei de dizer o essencial, mesmo que o faça com o ordinário estilete.

    Pois bem: comove-me — pela sua infantilidade — a convicção profunda de certos economistas de que o mundo começa e acaba na sua folha de Excel, esse rectângulo luminoso onde habita uma tríade venerável, não menos respeitada do que as antigas divindades: o Lucro, entidade suprema e invisível, a quem tudo se sacrifica; o Custo de Oportunidade, essa culpa original que condena qualquer gesto ou prazer; e a Eficiência, virtude operacional que absolve o primeiro e legitima o segundo. Fora desta santíssima grelha, nada existe — ou, existindo, não merece atenção.

    Portanto, tudo aquilo que não cabe na célula correcta se classifica como ruído, sentimentalismo ou, no pior dos casos, humanidades. Para um economista, um poema não optimiza, uma língua não escala, uma ideia não produz retorno imediato — tudo são luxos exóticos, toleráveis apenas enquanto não perturbam o balanço final. O ócio é a negação de negócio. A econometria e as previsões transformam-se, assim, em tribunal metafísico: absolve-se o útil, condena-se o inútil e arquiva-se, com desprezo silencioso, tudo o que ousa não render.

    Ora, é precisamente aqui que começa a tragédia dos economistas — e, para mim, a comédia, sempre mais instrutiva. Porque estes homens, tão declaradamente hostis à poesia, revelam-se afinal profundamente poéticos na sua vaidade.

    Em Portugal, observo alguns destes doutores do cálculo entregues à convicção quase mística de que fazem mais pelo país de Camões, Vieira, Camilo, Eça e Pessoa ao baptizar uma escola em inglês do que todos quantos, ao longo de séculos, estudaram, escreveram, ensinaram e transmitiram a língua que esses nomes tornaram habitável. É uma fé curiosa, esta, que dispensa leitura, mas exige marketing.

    Chegam mesmo a imaginar-se alquimistas da modernidade tardia, persuadidos de que uma mera operação nominal — Faculdade convertida em School, e Economia transfigurada em Business & Economics — produz, por si só, milagres civilizacionais instantâneos.

    E assim brotou a Nova SBE da doméstica Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, como quem troca um casaco gasto por um sobretudo importado, não por ter mudado o corpo que o habita, mas por vergonha confessada — ainda que nunca assumida — da denominação anterior, demasiado portuguesa, demasiado prosaica, demasiado pouco global para as ambições de vitrina. Eis aqui a metafísica do letreiro, a crença ingénua de que mudar o rótulo equivale a transformar a substância.

    Permitam-me uma suspensão mais demorada do discurso para contemplar a solenidade quase litúrgica deste raciocínio, tão seguro de si quanto indiferente à História. Um povo, neste caso o lusitano, fala a sua língua há oitocentos anos: com esse instrumento antigo e dúctil fundou ordens jurídicas e legitimou transgressões, trocou promessas amorosas sussurradas e injúrias cruas aos berros, consignou pactos, desferiu agravos, traçou rotas sobre mares incertos e deu forma verbal à experiência do assombro, da perda e da esperança.

    Foi por meio desse mesmo idioma que se administraram impérios e se narraram naufrágios, que se rezou e se blasfemou, que se celebrou a glória e se registou a miséria. E ainda até, enfim, enquanto tive língua, eu falei. E escrevi as minhas memórias, e estas crónicas, quando o vermes já a tinha deglutido.

    Ao longo de séculos, essa língua, a vossa e nossa, serviu tanto o poder como a intimidade, tanto o cálculo frio como o excesso lírico. Sustentou a retórica dos púlpitos e a astúcia dos tribunais, a precisão dos contratos e a vertigem dos poemas. Acompanhou um povo nas suas horas de afirmação e nos seus momentos de queda, sobreviveu a regimes, modas e catástrofes, e permaneceu como arquivo vivo de tudo o que foi pensado, desejado, temido e sonhado.

    E depois vem um pacóvio economista, armado em cosmopolita, um Luca Pacioli do século XXI, munido de ábaco e tally sticks pós-moderno, mas em formato de pancrácio, e descobre que tudo na língua materna se mostra madrasta perante a gloriosa brand identity plantada à beira-mar num campus universitário.

    Mas não sejamos injustos. Estes homens não desprezam a língua por maldade; fazem-no por convicção estética — o que se mostra sempre mais grave. O português, para os coitados, soa-lhes pesado, rural, pouco sexy, excessivamente carregado de mundo. Não gera likes, não produz peer reviews, não sobe em rankings nem impressiona avaliadores estrangeiros de pronúncia neutra e entusiasmo calibrado.

    Ao invés, o inglês funciona como perfume importado: mesmo quando aplicado em excesso, mesmo quando disfarça a ausência de substância, confere sempre uma ilusão de sofisticação. E quem não gosta de parecer sofisticado? Sobretudo quando não o é.

    Emerge neste ambiente — saturado de fragrâncias linguísticas e vaidades cuidadosamente embaladas — a figura central da nossa sátira: um astro fulgurante do pensamento económico aplicado à cultura, cuja identidade se ajusta com notável elasticidade à latitude académica de Carcavelos, ao auditório presente de Cascais e, sobretudo, ao financiamento disponível.

    Trata-se de um homem de múltiplos nomes e nenhuma raiz, que se apresenta sob o pseudónimo adequado a cada cenário e a cada festa, como convém a quem confunde universalidade com adaptação oportunista.

    Nos corredores internacionais, onde o passado pesa e a memória atrapalha, atende por Peter Saint Clear — nome translúcido, higienizado e rigorosamente desprovido de lastro histórico. Quando o contexto exige solenidade e ar de concílio, metamorfoseia-se em Petrus Sanctus Clarus, convencido de que a verdade ganha autoridade quando declinada em latim e protegida por um ablativo absoluto.

    Em colóquios francófonos, onde se fala muito para decidir pouco, responde por Pierre Clair-Sacré. Já quando a estética mediterrânica pede renascimento de caput mundi, gesticulação elegante e sotaque artístico, assume com naturalidade o papel de Pietro Santa Chiara.

    Para os mercados germânicos, mais bárbaros, ajusta o semblante e adopta a severidade moral de um Peter Klarheilig ou de um Petr Klarer Heiliger, conforme o grau de rigor que o auditório reclama. Se o encontrarem nos circuitos nórdicos, depura-se em Peder Klarlys, austero, funcional e cuidadosamente despido de ornamentos supérfluos — como a memória.

    Em cenários eslavos mais graves, veste a solenidade de Pjotr Sviatoi Yásnyi, nome que sugere santidade conceptual e pureza metodológica, ainda que nenhuma seja comprovável. No eixo anglo-americano, pragmatiza-se sem pudor em Pete Clearfield, diminutivo executivo ideal para relatórios ESG, gráficos verde alface e um capitalismo de consciência fotogénica.

    Nunca responderá, porém, por Pedro Santa Clara – nome excessivamente português, demasiado compacto, carregado de sílabas com História, com língua e com densidade simbólica. Essa é nominata que cheira a baptismo antigo, a registo paroquial, a arquivo vivo — tudo coisas difíceis de traduzir, impossíveis de valorizar e profundamente embaraçosas para quem prefere existir apenas na versão exportável de si mesmo.

    Pois bem. Eis que o senhor Saint Clear declarou, por estes dias, com a gravidade de quem anuncia uma Lei da Física, que uma Escola de Economia teria feito mais por Camões ao atrair estrangeiros do que a Faculdade de Letras alguma vez fez. Confesso-vos: tive de reler a frase. Não por dificuldade de compreensão, mas por incredulidade estética, porquanto se mostra raro encontrar tamanha confiança no disparate enunciado com tão serena convicção.

    Segundo esta lógica luminosa, Camões não se promove estudando a sua obra, analisando a sua língua, ensinando o seu contexto, discutindo as suas ambiguidades. Não. Camões promove-se por osmose económica: basta que alguns estudantes estrangeiros passem pelas praias do Stóril, frequentem aulas em inglês em KarKabellos e bebam cervejas artesanais à noite. A língua, aparentemente, absorve-se pelo ar, como humidade marítima.

    Imagino Camões, esse funcionário mal pago do Império, a erguer-se do fundo do túmulo, a limpar o pó dos séculos e a agradecer, com a ironia amarga de quem afinal percebeu tudo demasiado tarde: “Thank you, Saint Clear, for finally explaining my mistake to me. I was utterly mistaken — not in writing Os Lusíadas, but in doing so in a dead language. I should have written it in plain English, complete with an executive summary, impact charts, and an attached branding deck.” Talvez assim tivesse contribuído mais para a Pátria.

    Agora, falando com a sobriedade que o disparate alheio exige, importa dizê-lo sem rodeios: o argumento do senhor professor Pedro Santa Clara não é apenas intelectualmente frágil — é culturalmente indecoroso. Não por iconoclasta, mas por redutor.

    Ao converter a Cultura lusitana numa simples externalidade positiva do turismo académico, rebaixa-a à condição de efeito colateral simpático, como quem tolera uma paisagem enquanto o verdadeiro negócio se faz dentro do hotel. A língua deixa de ser fundamento; passa a subproduto. A História deixa de ser herança; passa a ornamento. O pensamento deixa de ser valor; passa a ruído.

    Não se trata aqui de uma ingenuidade teórica, mas de uma visão do mundo. Uma visão onde tudo o que não se traduz imediatamente em circulação, captação ou visibilidade perde estatuto ontológico. Não entra na folha de cálculo, então evapora-se; não gera fluxo, não pesa; não está em rankings, não merece existência. Eis a aplicação rigorosa da contabilidade ao espírito — um exercício que nunca produziu uma civilização, apenas inventários.

    Mas o mais revelador não está na pobreza do espírito do senhor Pedro Santa Clara e do seu raciocínio — está no desprezo que o sustenta: é um desprezo polido, sorridente, cheio de boas intenções, mas nem por isso menos profundo.

    As Humanidades, para ele, surgem como um luxo arcaico, tolerado enquanto não reclama centralidade, nem ousa lembrar que houve pensamento antes do funding, inteligência antes do ranking, densidade antes da internacionalização. Este é o ressentimento clássico do tecnocrata perante aquilo que não domina — porque a língua, ao contrário dos modelos económicos, não obedece — persiste, acumula e relembra.

    Daí a irritação mal disfarçada perante a simples ideia de que uma instituição pública portuguesa se nomeie em português. E não porque isso limite o diálogo internacional — essa objecção é infantil —, mas por reintroduzir algo de intolerável para certas sensibilidades: a pertença. Obriga a assumir um lugar, uma língua, uma continuidade.

    Neste suposto cosmopolitismo deste obscuro Santa Clara há, na verdade, um profundo provincianismo. Só quem nunca saiu da província mental acredita que a grandeza se alcança pedindo licença. Só quem nunca conheceu o mundo para além do seu umbigo imagina que lá fora se respeita quem abdica de si mesmo. Roma sempre se chamou Roma e governou; Paris nunca precisou de tradução; Cambridge não teve necessidade de apagar o pequeno rio Cam para fundar a Bridge of Knowledge University e descobrir, só a partir daí, a ciência.

    Por isso, apenas as culturas inseguras sentem necessidade de se apagar para parecerem universais. E os homens débeis também — como o vosso Peter Saint Clear, ou Petrus Sanctus Clarus, ou Pierre Clair-Sacré, ou Pietro Santa Chiara, ou Peter Klarheilig, ou Petr Klarer Heiliger, ou Peder Klarlys, ou Pjotr Sviatoi Yásnyi, ou Pete Clearfield… ou… como é mesmo o nome dele?!

    Adeus, e um piparote.

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  • Morte, ou a ontologia do evitável, segundo Luís Montenegro

    Morte, ou a ontologia do evitável, segundo Luís Montenegro


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Tantos anos depois de ter provado a finitude — morrendo, como é sabido, às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumby, corriam-me ainda rijas e prósperas as sessenta e quatro primaveras —, confesso que não me ocorreu evitar semelhante consequência.

    Morri de pneumonia com a naturalidade de quem cumpre um destino elementar: sem planos alternativos, sem mapas de fuga, sem essa moderna obsessão pela gestão do inevitável. A morte, para mim, não me pareceu ter sido falha nem descuido — foi somente o ponto final de uma frase que já vinha longa.

    Nem Epicuro me avisara, nem os estóicos me deixaram instruções práticas: limitaram-se a explicar que a morte existe, o que, reconheço agora, é uma orientação manifestamente insuficiente para os tempos actuais.

    Hoje percebo que fui ingénuo. Faltei à prudência contemporânea. Não tratei a vida como um projecto susceptível de optimização nem a morte como um risco mitigável. Aceitei-a, imagine-se, como quem aceita a gravidade ou o tédio: sem resistência estratégica.

    Agora, vista à distância, a finitude talvez seja, por má ventura, um erro de planeamento. Talvez me tenha faltado essa visão moderna que transforma o destino em variável e o acaso em negligência.

    Digo-vos isto, prudentes leitoras e precavidos leitores, depois de ouvir Luís Montenegro contristar-se pelas famílias das vítimas da depressão Kristin, falando daqueles que “não evitaram a trágica consequência de perder a vida”. Só então me dei conta de que, em abono de uma verdade obnubilada, até a morte pode nascer da escassez de visão estratégica. Talvez se devesse elaborar um plano de contingência vital aos primeiros berros. Talvez a morte seja, afinal, um mero lapso de gestão pessoal.

    Montenegro, convém reconhecê-lo, trouxe inadvertidamente à Filosofia uma concepção nova e de assinalável originalidade: a ideia de que a morte não é destino, nem condição, nem sequer fatalidade — é, antes, um insucesso evitável. Na sua construção engenhosa, o morto não é exactamente vítima, mas também não é inteiramente inocente: não evitou, mas poderia ter evitado, supõe-se. No limite, é um incompetente. A morte surge assim como um deslize administrativo, uma falha de procedimento, uma queda sem grande dramatismo — como quem escorrega por não segurar bem no corrimão do destino. Tudo dito com respeito, embora com um respeito tão abstracto e higienizado que acaba por absolver os vivos e responsabilizar, com elegante discrição, os defuntos.

    A frase do vosso primeiro-ministro tem esta virtude perversa: não acusa ninguém em particular e, por isso mesmo, acusa quem já não pode responder. Não há ali agentes, decisões, circunstâncias ou responsabilidades — há apenas consequências. Aliás, consequências, trágicas, mas apenas por não terem sido evitadas pelo ex-vivo. O morto transforma-se num gestor falhado da própria existência, alguém que, no último instante, não cumpriu os protocolos mínimos da permanência no mundo. Morreu, não porque a vida se extinguiu, mas porque falhou o morto no dever tácito de continuar vivo.

    Pensando bem, do ponto de vista filosófico, a formulação de Montenegro é um pequeno milagre negativo. Epicuro, com quem já não concordava desde que escrevi as minhas Memórias Póstumas, tentou-vos tranquilizar afirmando que a morte nada tem que ver convosco — pois quando ela está, já não estaríamos para a apreciar —, ficaria sinceramente perplexo com esta nova tese.

    Afinal, segundo a moderna metafísica governativa, a morte diz-vos respeito, sim, e profundamente, sobretudo se não tiverdes sido suficientemente diligentes em evitá-la. A morte deixa assim de ser, na visão do vosso primeiro-ministro, um facto natural para se tornar um fracasso operacional. Já não morrereis por serdes mortais; morrereis quando falhardes.

    Na ontologia montenegrina — essa que se constrói sem o saber —, trata-se aqui de uma revolução silenciosa. A finitude deixa de ser condição humana e passa a ser deficiência de desempenho. O homem não é mortal: é mal preparado. O destino não é trágico: é negligente. E a morte, essa velha certeza democrática que sempre igualou reis e mendigos, converte-se num erro individual, num lapso de gestão pessoal que poderia — quem sabe — ter sido corrigido com mais atenção, mais prudência ou um melhor plano de contingência existencial.

    Com a sua formulação, Montenegro não se limitou a comentar uma tragédia contemporânea; operou uma verdadeira reconfiguração hermenêutica da mitologia, esse antigo repositório de mortes claras, frontais e sem subterfúgios administrativos. Onde os mitos viam destino, hybris ou intervenção divina, a nova leitura montenegrina introduz um elemento até agora ausente: a culpa difusa por falha de evitamento. A morte deixa de ser narrativa trágica para se tornar erro de procedimento.

    Assim, Aquiles não terá morrido por possuir um calcanhar vulnerável — detalhe menor de anatomia heroica —, mas por ter ignorado um manual elementar de segurança épica. Ícaro não caiu por excesso de audácia nem por desrespeito à justa medida; caiu porque não evitou a consequência previsível da gravidade, essa força que, afinal, sempre exigiu maior prudência e menor entusiasmo. Quanto a Sísifo, continua a empurrar eternamente a pedra não por castigo dos deuses, mas por manifesto défice de planeamento estratégico: se tivesse previsto melhor o percurso, se tivesse optimizado o esforço, talvez hoje descansasse.

    A mitologia clássica, assim reinterpretada, errou não por excesso de imaginação, mas por ingenuidade moral. Aceitou o destino onde deveria ter identificado negligência. Viu tragédia onde existia apenas falta de diligência. Os deuses, outrora responsáveis pelos desígnios cruéis, tornam-se dispensáveis; basta agora uma vaga irresponsabilidade humana, uma omissão mal explicada, para justificar tudo.

    Enfim, a morte deixa de ser fatalidade e passa a ser resultado não conforme, inscrito numa cadeia de responsabilidades tão ampla quanto vaga.

    Deste modo, a antiga dramaturgia do trágico dissolve-se numa nova pedagogia do erro: não se morre porque se é mortal, morre-se porque não se evitou. A culpa já não pesa sobre os céus nem sobre o fio do destino; espalha-se, discretamente, como um nevoeiro moral, até repousar — com a máxima elegância — sobre quem já não pode defender-se.

    Posto isto, aceito agora humildemente a minha culpa e a merecida censura: morri porque falhei — que conste em acta. E se vós, os vivos, mais bem preparados, conseguirdes evitar a consequência por mais algum tempo, felicito-vos — até nova instrução de Luís Montenegro.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • Exercícios de onicofagia do ministro Leitão Amaro em pavor da Kristin

    Exercícios de onicofagia do ministro Leitão Amaro em pavor da Kristin


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    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Sempre me pareceu mais nobre, virtuoso e respeitável o ócio ostensivo do que o labor exibido. O primeiro é honesto; o segundo, quase sempre, uma impostura. Entre um homem que nada faz e o admite, e outro que nada fez mas encena com afinco, sempre preferi o primeiro: poupa os outros à farsa e a si mesmo à caricatura. O segundo, porém, tornou-se a regra da modernidade — sobretudo na política — onde a inacção não é pecado, desde que seja bem representada.

    Há muito que governa entre vós uma estranha moeda simbólica: a moeda do parecer. Não se trata já de fazer, nem sequer de tentar fazer; trata-se de parecer que se faz, sobretudo quando, por natureza das coisas, nada há realmente a fazer. Em situações de emergência — tempestades, apagões, depressões atmosféricas ou morais —, o Estado dispõe de técnicos, serviços, cadeias de comando e rotinas automáticas que funcionam melhor quanto menos ministros lhes caírem em cima. Mas eis o drama dos tempos hodiernos: se o ministro não aparece, alguém poderá pensar que ele não existe — e isso é intolerável.

    Nasce daqui a circularidade perpétua do político: ele aparece porque pensa que os outros esperam que ele apareça; e os outros esperam que ele apareça porque ele apareceu sempre. Um circuito fechado, auto-alimentado, sem entrada nem saída, onde a presença substitui a utilidade e o gesto suplanta o resultado.

    O político moderno não confia verdadeiramente na Administração Pública — suspeita mesmo que é incompetente —, mas, num curioso acto falhado, revela apenas que julga os outros à sua imagem. Se ele próprio nada saberia fazer sem câmara de filmar e post nas redes sociais, conclui que os técnicos também nada farão sem a sua manga arregaçada a supervisionar-lhes a alma.

    Tudo isto me ocorreu ao contemplar o recente mas delével, porque entretanto apagado, espectáculo do ministro Leitão Amaro em pleno exercício da liturgia do trabalho aparente aquando da depressão Kristin: mangas de camisa, telefone na mão, semblante compungido e, detalhe supremo, entregue à onicofagia — magnificada por um grande plano de câmara, desses que não perdoam nem a consciência nem as falanges.

    Ah, a onicofagia! essa nobre arte de converter a ansiedade privada em prova pública de diligência, onde um pequeno apêndice humano, constituído por queratina endurecida disposta sobre o leito ungueal da falange distal, é elevado a argumento de Estado. A Leitão Amaro não bastava dizer que estava a coordenar; era preciso mostrá-lo — com unhas e dentes, mesmo que as unhas ficassem roçadas até à cutícula.

    Para o ministro, não bastava aparentar trabalho; era essencial sofrer em público. Leitão Amaro não tentava governar a tempestade; procurava governar a percepção da sua inquietação — e fê-lo com a aplicação de quem sabe que, nas redes sociais, a eficácia é secundária, desde que o gesto seja visível e a angústia convenientemente filmada.

    Isto, contritas donzelas e cavalheiros penitentes, recorda-me as Escrituras. No Evangelho segundo São Mateus, Cristo adverte contra os fariseus que rezavam nas praças somente para serem vistos. Ora, hoje, o fariseu não reza; telefona. Não jejua; arregaça as mangas. Não proclama a fé; publica no X. E, como Pilatos, lava as mãos — mas em slow motion, para que todos verem a água correr. Nisto, a unha roída é o novo cilício: sinal visível de sacrifício interior, ainda que a alma permaneça intacta e a acção se mostre dispensável por inexistente.

    Também ao ver Leitão Amaro a mitologia me assaltou. Pensei logo no padecente Sísifo, condenado a empurrar a pedra montanha acima pela eternidade. Mas o penitenciado rei de Corinto, ao menos, empurrava. Já o ministro filma a pedra, comenta o peso, convoca uma task force para estudar a inclinação do monte e publica um tweet sobre a importância do planeamento na deslocação de pedras. A pedra, essa, continua onde sempre esteve, mas o vídeo alcança sete mil visualizações — e isso, nos tempos que correm, já conta como vitória moral.

    Enfim, se ressuscitasse, e vendo Leitão Amaro em exercícios de onicofagia, Platão não expulsaria os poetas da República: expulsaria sim os assessores de comunicação. São eles, na verdade, os verdadeiros sofistas do vosso tempo, capazes de transformar a ausência de acção num épico de proximidade e empatia. O ministro já nem decide — comunica que decide. Não actua — diz que coordena. Não resolve — garante que protege os portugueses, expressão tão vaga quanto confortável, pois ninguém sabe ao certo como se protege um povo através de um smartphone.

    E contudo, confesso, algo de admirável nesta nova estética do poder. Existe nos exercícios de onicofagia de Leitão Amaro em pavor da depressão Kristin uma crença sincera de que o gesto mínimo, quando amplificado, se torna acto máximo. Roer a unha, esse hábito infantil e privado, converte-se em metáfora de responsabilidade nacional. “Vede como me preocupo”, diz a mão à boca; “vede como me inquieto por vós”, sussurra o dedo maltratado. É a psicologia substituída pela política e a ansiedade elevada a Programa de Governo.

    Historicamente, os grandes estadistas sempre procuraram esconder o nervosismo. Churchill fumava charutos; César disfarçava a epilepsia; Frederico II tocava flauta. Porém, o político moderno faz o inverso: exibe a fragilidade, não como traço humano, mas como estratégia de marketing. A vulnerabilidade tornou-se argumento; o desassossego, credencial. O desamparo converteu-se em prova; a agitação, em mérito. Pouco importa se resolve a crise — importa sim sentir-se visto a senti-la.

    No fim, resta uma melancolia irónica. Portugal enfrenta uma depressão meteorológica, enquanto o ministro vos oferece uma depressão cénica. A tempestade passa, enquanto o post do ministro fica. As árvores tombam, enquanto as unhas voltam a crescer. E no meio destas encenações, a política lusitana, essa, continua a roer-se a si própria, convencida de que, enquanto mastiga a aparência, se aguenta tão firme como palito numa ciclogénese explosiva e tão reluzente como fósforo em borrasca.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • É oficial: Montenegro consulta uma médium antes de cada Conselho de Ministros

    É oficial: Montenegro consulta uma médium antes de cada Conselho de Ministros


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    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    De entre os equívocos mais antigos — talvez tão primevo como o achar que a barba confere sabedoria, o confundir a própria voz com a voz de Deus ou o supor que escrever em latim absolve o disparate — apraz-me destacar este: o de acreditar que a solenidade fabrica dignidade e que dessa dignidade de oficina nasce, por simples imposição do tom, a autoridade.

    Nada mais falso. A solenidade fabrica aparência; a dignidade nasce do carácter; e a autoridade verdadeira revela-se em quem suporta a ironia sem ir a correr chamar o carrasco para punir a insolência e convocar o escrivão para certificar o agravo.

    Os deuses do Olimpo, esses, sabe-se que quando se enfureciam lançavam raios; mas convém não esquecer que Zeus, senhor do trovão e da arbitrariedade cósmica, tolerava com displicência olímpica as chacotas ligeiras de Hermes. Também a tradição bíblica nos apresenta um Deus que, podendo ter esmagado Jó com um gesto, preferiu instruí-lo com perguntas irónicas e longos rodeios retóricos. E, descendo à prosa dos homens, vê-se Frederico II da Prússia, monarca absoluto e general temível, a suportar o sarcasmo de Voltaire; ou ainda Abraham Lincoln que, governando em plena guerra civil, respondia às caricaturas da sua figura e aos insultos da oposição com humor auto-depreciativo.

    Vem isto a propósito de um episódio recente da vossa vida pública, protagonizado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, que entendeu reagir a um texto satírico que circulou nas redes sociais, no qual se lhe atribuíam frases de bajulação grotesca dirigidas a Donald Trump, misturadas com um apoio entusiástico às tarifas aduaneiras como suposto barómetro de lealdade aos Estados Unidos e culminando numa entrega, em acto de deditio solene, do arquipélago dos Açores.

    Em vez de um desmentido lacónico, de um sorriso superior ou de um encolher de ombros republicano — gestos clássicos de quem distingue ironia de impostura — Montenegro preferiu o caminho solene do expediente penal, acompanhado de um comunicado edificante sobre os perigos da chamada “desinformação”.

    Ora, este gesto abre-me, argutas donzelas e perspicazes cavalheiros, uma hipótese intelectualmente fascinante: a de que o vosso primeiro-ministro terá lido a sátira como enumeração literal de providências políticas plausíveis.

    Se assim foi, então dever-se-á, por elementar coerência lógica, admitir que ele também possa ser promotor — ou, no mínimo, potencial ideólogo — de outros gestos igualmente graves e sumamente absurdos, como governar por horóscopo, ajustar a política fiscal às fases da lua, substituir as previsões do Orçamento do Estado por presságios astrais e cartas de tarot com búzios, consultar uma médium antes de cada Conselho de Ministros ou, hipótese verdadeiramente temerária, cumprir o Programa do Governo.

    Mas eis o ponto essencial: o problema não residiu no texto, mas no leitor — isto é, no vosso primeiro-ministro, Luís Montenegro. Porque a sátira não mente: exagera. Não falsifica: distorce. Não engana: revela. É um espelho deformante que apenas incomoda quem dele se aproxima convencido de que é estátua e não carne falível. Quem possui distância ri; quem carece dela vê injúria onde há caricatura e conspiração onde há figuração.

    Não receia, pois, o vosso primeiro-ministro que a sátira minta — receia que diga demais. Receia que, à maneira do bobo antigo, autorizado a dizer verdades sob o disfarce da loucura, ou de Cassandra, condenada a ser desacreditada precisamente por não saber mentir, a sátira se limite a expor aquilo que a solenidade apenas maquilha.

    E assim, surpreendido não como alvo injustiçado, mas como figura reconhecível, apressa-se a reprimi-la: não por falsa, mas por exacta; não por ofensiva, mas por inconveniente; não por perigosa para a verdade, mas por excessivamente elucidativa para a sua própria imagem. E assim se ofende com a sátira — e assim a deseja punir e silenciar com o peso da autoridade. Outrora cortavam-se pescoços; hoje corta-se a palavra, declarando-a falsa antes que tenha tempo de ser entendida.

    O vosso tempo inventou uma palavra respeitável para designar o velho impulso censor: chama-lhe “desinformação” — é elegante, técnica, quase higiénica. Com a “desinformação”, e o seu combate, tudo se resolve: a piada vira delito, a metáfora vira prova, o exagero vira dolo. O humor passa a exigir manual de instruções, selo de autenticidade e, se possível, parecer jurídico. Aquilo que antes se solucionava com um sorriso, soluça-se agora na barra do tribunal. A República, essa dama outrora espirituosa, transformou-se numa senhora melindrosa que confunde gracejo com desacato.

    E, no entanto, sempre assim foi, ainda que alguns insistam em ignorá-lo: quem tem poder e inteligência ri; quem tem apenas poder ofende-se. Lançar uma sátira é um teste simples, quase infantil, mas infalível. Se o visado compreende o exagero, demonstra cultura e segurança. Se o ignora, demonstra prudência. Se o criminaliza, demonstra medo.

    Não há quarta hipótese, Luís Montenegro. Nem Moisés desceu do Sinai para processar caricaturistas; limitou-se a partir as tábuas — e foi um excesso que lhe ficou mal na História.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas.

  • Filipe Santos Costa e os trauliteiros de Miranda

    Filipe Santos Costa e os trauliteiros de Miranda


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    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Permitam-me, donzelas serenas e imponentes cavalheiros — vós que habitais desde as várzeas mansas onde a água se demora em reflexos de salgueiro até aos planaltos austeros onde o granito sustém, com dignidade mineral, o peso do céu —, que eu, Brás Cubas, defunto-autor por ofício e por inclinação, comece pelo fim, tal como fiz nas minhas Memórias, onde tive a delicadeza de morrer antes de vos mostrar que vivi. Começar pelo fim é uma forma superior de honestidade: poupa ilusões e reduz páginas, duas economias que a literatura deve à fatigada Humanidade.

    Desta sorte, anuncio desde já a minha conclusão, para que ninguém a espere como quem aguarda uma absolvição tardia: o ridículo dura mais do que a culpa. As culpas prescrevem nos códigos, dissolvem-se nos corações e são arquivadas nos noticiários; o ridículo, porém, não conhece indultos — tem direitos de autor perpétuos e edição crítica garantida na memória dos vivos.

    Feito este prólogo fúnebre, posso agora descer, ou subir, com a elegância que me é própria, à pequena comédia dos vivos — que é sempre mais grotesca do que a tragédia dos defuntos. E entre essas comédias modernas, nenhuma me diverte tanto como a dos comentadores televisivos, esses novos oráculos de Delfos que, em vez de trípodes e vapores sagrados, dispõem de powerpoints e maquilhagem HD.

    Há um destes hermeneutas da tudologia em particular, de nome Filipe Santos Costa, que me diverte e exaspera em doses quase iguais. Esta criatura — outrora tão suave nos dias em que exerceu o ofício de mordomo serviçal em podcast do Partido Socialista, oferecendo chá de camomila a ministros e louvaminhas a secretários de Estado como quem distribui biscoitos num salão bem frequentado — descobriu, na CNN Portugal, a voluptuosidade tardia da severidade moral.

    Transmutou-se. O criado afável deu lugar a uma Brites de Almeida do comentário político, agora a sovar furiosamente o Partido Chega como quem esmaga crâneos de castelhanos com a pá do forno e o rolo da massa, antes de os lançar às chamas purificadoras da ortodoxia. Já não há festa nem festança, romaria nem feira, em que Filipe Santos Costa não arremesse epítetos, anátemas e excomunhões verbais a Ventura e aos seus catecúmenos, como quem enfarinha hereges para melhor os empurrar para a fornalha.

    E quando brande adjectivos como alfaias e indignações como archotes, o Exegeta da Trivialidade — antigo sacristão do poder agora travestido de justiceiro de estúdio —, pontificando do seu púlpito de plasma com a solenidade de um inquisidor da Sé de Évora, ufana-se em mostrar que cada sentença sua é um acto de higiene moral no grande forno do prime-time. Tudo lhe é claro, tudo lhe é óbvio, tudo lhe é condenável — desde que não seja aquilo que, ainda há pouco, ele próprio servia com açúcar e colherinha.

    E foi então que, num recente sermão de estúdio, quis dizer que certo fundador do Chega — ironicamente anatemizado pela igreja que fundara — seria um ultramontano, isto é, herdeiro das correntes conservadoras e reaccionárias do século XIX, inimigo da modernidade, paladino da infalibilidade do Sumo Pontífice e filho tardio do Syllabus errorum de Pio IX.

    Mas ai da língua quando se aventura pela filosofia. Em vez disso, saiu-lhe transmontano — e, nesse átimo fonético, o obscurantismo metamorfoseou-se em paisagem, e a teologia degenerou em geografia. Onde deveria estar Roma, apareceu Miranda do Douro; onde se pretendia uma encíclica, surgiu uma alheira.

    Para agravar o pecado, acrescentou-lhe o epíteto de trauliteiro, palavra respeitável, mas que designa um brigão, um sujeito de punho rápido e argumento lento. Ora, sendo Miranda a terra dos pauliteiros, esses dançarinos rituais que batem paus com a graça coreografada da tradição, do lapso do ultramontano produziu-se uma imagem de rara poesia grotesca: os pauliteiros transmutados em trauliteiros, o folclore convertido em milícia, a dança em porrada. Não foi uma metáfora; foi uma confissão.

    E aqui, laboriosas leiteiras e abnegados leiteiros, entra a ciência delicada da paronomásia, que é o nome elegante para os tropeções da língua. Quem não domina as palavras, troca-as.

    Assim se pode confundir teologia com tecnologia, como se o divino tivesse sido substituído por servidores; sociologia com zoologia, reduzindo a sociedade a um curral; ontologia com oftalmologia, como se o problema do ser fosse um defeito de visão; teocrata com tecnocrata, mudando Deus por uma folha de cálculo; liberalismo por libertinismo, fazendo da liberdade uma orgia; nacionalismo por naturalismo, trocando a pátria pela botânica.

    E, no domínio sacrossanto — que não se deve confundir com osso sacro —, o canónico pode virar canino, o secular tornar-se ocular, o clerical resvalar para cervical — e eis o clero reduzido a uma dor no pescoço. Na Economia, talvez o capitalismo se transmute em capilarismo, e a fiscalidade degradar-se em fecalidade, passando os impostos a tresandar ao que sempre cheiraram, mas agora com aprovação tributária.

    Portanto, em abono da verdade, Filipe Santos Costa não errou: revelou-se — ou resvalou-se. Ao dizer transmontano quando queria dizer ultramontano, confessou que, no seu mapa mental, uma postura ideológica e uma província remota são vizinhas de porta. E ao chamar trauliteiro talvez o associasse a pauliteiro, mostrando essa velha tentação lisboeta de confundir tradição com brutalidade. A televisão fez apenas o resto: amplificou o eco.

    Assim, se lerdes o seu discurso com as palavras que ele julgava usar, vereis um moralista moderno a combater obscurantismos, nacionalismos e libertinismos alheios. Se o lerdes com as palavras que efectivamente proferiu, vereis um etnógrafo distraído a falar de transmontanos, trauliteiros e naturalismos, como se estivesse a descrever uma feira de gado e não uma ideologia.

    Eis, pois, o meu veredicto final: não houve um deslize de língua, foi um acto falhado da alma. Porque homens como Filipe Santos Costa podem mentir com as ideias, mas tropeçam sempre nas palavras — e quando um comentador troca a História por geografia, a doutrina por folclore e dogma por enchidos, não erra apenas; denuncia-se. O ridículo, repito — ou sentencio —, é a forma mais implacável de verdade.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • Manual terapêutico para uso de autóctones, destinado à edificação moral no trato quotidiano com migrantes

    Manual terapêutico para uso de autóctones, destinado à edificação moral no trato quotidiano com migrantes


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Encontro épocas em que a moral era instinto, depois lei, mais tarde doutrina e código, até chegar à vossa, em que morreu de causas naturais e foi enterrada como procedimento administrativo, com certidão, despacho e visto verde. Daí que a vossa geração tenha optado não pela inquietação moral, mas pela via segura do cumprimento regulamentar. A virtude deixou de ser uma inquietação interior — um conflito entre aquilo que são e o que deveriam ser — para se transformar num conjunto de procedimentos simples, verificáveis e, sobretudo, assinaláveis com um visto verde. Não é preciso pensar demasiado, nem duvidar, nem errar: basta cumprir.

    Deparo-me, assim, com uma ética que prefere listas, guias práticos e instrumentos “reflexivos”, esses engenhos tão cuidadosamente desenhados para evitar qualquer reflexão incómoda. É neste contexto que florescem instituições, conselhos, observatórios e ordens profissionais, solenes e bem-intencionados, armados de ciência aparente, linguagem terapêutica e da convicção inabalável de que a virtude se aprende por preenchimento assistido, através de um formulário.

    É sobre um desses documentos, recentemente oferecido com zelo pastoral à população lusitana — essa gente que outrora se reconhecia por estamentos, linhagens e circunstâncias, muito antes de ser recenseada em categorias pedagógicas —, que eu, do alto da minha experiência póstuma, resolvi pronunciar-me. Não para contestar a virtude, não para negar a bondade, mas para sorrir da sua gestão.

    Confesso, pois, sensatas donzelas e ponderados cavalheiros, que, ao ler o novo catecismo comportamental distribuído pela Ordem dos Psicólogos, senti uma emoção antiga, semelhante àquela que experimentei quando, em menino, me ensinaram o exame de consciência antes da confissão. Também ali havia perguntas simples, respostas previsíveis e a certeza de que Deus — ou o pároco — ficaria satisfeito se eu dissesse “sim” com convicção suficiente. A diferença é que, naquele tempo, falava-se de pecados; hoje, a confraria da doutora Sofia Ramalho fala de atitudes. O inferno mudou de nome, mas conserva a estrutura.

    O documento intitula-se, convenientemente, Como estou a interagir com as pessoas migrantes? — uma pergunta de uma profundidade abissal, que só poderia ser respondida com uma checklist de bolinhas amarelas, símbolo cromático dessa pedagogia moderna que transforma dilemas morais em exercícios visuais de fácil validação emocional.

    Neste singelo inquérito, a Ordem dos Psicólogos oferece ao público um exercício de edificação moral que lembra as velhas cadernetas de mérito do século XIX, essas onde se premiava a boa compostura com estrelinhas e se corrigia a alma por repetição. As perguntas sucedem-se com a delicadeza paternal de um preceptor zeloso: dizer “bom dia” a um migrante vale um assentimento; sorrir a um forasteiro, outro; não ser ofensivo contra um transumante, rende aprovação imediata — e assim, por acumulação de gestos elementares, constrói-se uma virtude de fácil manejo, própria para consciências fatigadas. Nada aqui convida ao conflito interior; basta cumprir, assinalar e seguir adiante, como quem passa revista à própria respeitabilidade.

    Mais curioso ainda é o silêncio absoluto sobre o óbvio: em parte alguma deste checklist, composto pela ordem lusitana dos herdeiros de Simão Bacamarte, se pergunta se o tratamento dispensado às pessoas migrantes coincide com aquele que se reserva aos naturais da terra. Não se interroga a rudeza em geral, apenas a rudeza selectiva; não se condena a injustiça, apenas a injustiça dirigida ao grupo pedagogicamente eleito. Ser áspero, indiferente ou mesmo uma besta com os compatriotas permanece um vício menor, quase pitoresco — o verdadeiro desvio moral começa apenas quando o destinatário é estrangeiro. A ética, outrora universal e exigente, surge aqui repartida por categorias, administrada com brandura e certificada em bolinhas — não para formar carácter, mas para distribuir tranquilidade.

    Enfim, aplicado este inquérito da Irmandade Terapêutica e dos Bons Costumes, a alma humana — essa entidade complexa, contraditória e frequentemente mal-educada — pode ser finalmente catalogada e domada: mede-se agora por quantos “bons dias” distribui por metro quadrado, por quantas piadas evita no convívio social e por quantas vezes se informa sobre onde se podem comer pastéis de nata sem caril. Freud, que já sobreviveu a várias reinterpretações piedosas, morreria aqui definitivamente pela engenhosa simplicidade com que o conflito psíquico associado ao estranho foi convertido em formulário pedagógico.

    O método, convenhamos, é absolutamente simples e engenhoso. Ao responder “Sim” a mais de dez afirmações, o cidadão alcança o estado de graça multicultural. Entre cinco e dez, permanece em purgatório pedagógico, onde deverá reflectir — expressão usada no sentido moderno, isto é, sem pensar demasiado. Abaixo disso, encontra-se no limiar da perdição cívica, carecendo de pequenos gestos consistentes, como sorrir mais e generalizar menos. Santo Agostinho falou do livre-arbítrio; a Ordem dos Psicólogos sentencia o sorriso obrigatório.

    Há, neste exercício, algo de profundamente bíblico — não no Antigo Testamento, onde Deus ainda detinha sentido de humor cruel, mas no Novo, na versão mais açucarada e instagramável. Assim, “bem-aventurados os que partilham experiências positivas”, porque deles será o reino da inclusão. Ou então: “Ai de vós, que fazeis comentários injustos”, porque sereis objecto de formação contínua.

    Mas os mitos também ajudam a compreender este fenómeno promovido pela intelligentsia da Consciência Virtuosa. No lago da Beócia, o novo Narciso já não se contempla nas águas: contempla-se no espelho moral da checklist da Ordem dos Psicólogos. Na ilha de Circe ou no estreito de Cila e Caríbdis, o polimétis e errante Ulisses já não enfrenta monstros: enfrenta estereótipos interiores, munido de apps de tradução, linguagem simples e recomendações validadas. No Olimpo, Prometeu não rouba o fogo aos deuses: apropria-se de informação útil e distribui-a pelos migrantes como se fosse heroísmo civilizacional, pouco se importando com as consequências de acabar acorrentado a um rochedo qualquer — ainda que no Cabo da Roca.

    Politicamente, estais também perante uma maravilha: a transformação do problema colectivo em virtude individual. Não há falta de políticas de habitação, de trabalho ou de integração institucional — há, sim, pessoas que ainda não explicam suficientemente bem os costumes locais. A desigualdade deixa de ser estrutural e passa a ser uma falha de atenção emocional no local de trabalho. Marx falava de luta de classes; a Ordem dos Psicólogos fala de atenção aos sinais. É tudo mais higiénico e nem as mãos sujam.

    E, do ponto de vista da psicologia comportamental — essa ciência que outrora estudava estímulos e respostas —, este progresso alcançado sob os auspícios da associação profissional da doutora Sofia Ramalho é, de facto, notabilíssimo. O sujeito deixa de ser condicionado por recompensas materiais ou punições tangíveis e passa a desejar apenas aprovação simbólica.

    Assinalar “Sim” produz imediato alívio moral; assinalar “Não” gera uma ansiedade leve, mas perfeitamente sanável com sessões adicionais de formação cívica e uma criteriosa redução do sentido crítico. Skinner — que defendia que o comportamento humano se explica, se prevê e se molda quase só por estímulos externos e reforços, sem incómodas incursões pelos estados mentais internos — deve andar agora por aqui, onde estou, a aplaudir com fervor tamanha simplicidade e economia de pensamento.

    Porém, ainda mais admirável é a convicção serena com que tudo isto se expõe: não há dúvida, não há ambiguidade, não há espaço para o trágico da convivência humana. Para a Ordem dos Psicólogos, a integração é fácil, desde que todos cumpram os gestos certos e evitem pensar nas perguntas erradas. O mundo torna-se, assim, um grande consultório ao ar livre, onde todos serão pacientes uns dos outros, mas ninguém está verdadeiramente doente — apenas insuficientemente consciente.

    Termino com uma nota pessoal: respondi “Sim” a quase todas as afirmações do inquérito da Ordem dos Psicólogos. No fim, senti-me profundamente virtuoso — e vagamente falso. Talvez seja este o verdadeiro efeito terapêutico do exercício: não integrar melhor ninguém, mas ensinar-vos a representar com convicção a vossa própria bondade.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • A exortação do Dr. Luís Montenegro: um CR7 por dia, não sabe o bem que lhe fazia!

    A exortação do Dr. Luís Montenegro: um CR7 por dia, não sabe o bem que lhe fazia!


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

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    Começo esta crónica por uma elevação filosófica, não porque resolva o assunto, mas por o adornar. Sempre assim foi: quando o pensamento não chega, a retórica sobe — como incenso em templo vazio. Os antigos suspeitavam disso; desde Aristóteles, que chamou ao homem animal político, já se intuía que a política começa muitas vezes onde a reflexão acaba. Eu, porém, com a vantagem da morte e da desilusão acumulada, direi que os homens são antes um animal simbólico, dado a trocar a aspereza das ideias pelo conforto imediato das imagens, como quem prefere o vitral à fundação.

    Conservando os vícios, a Humanidade muda de amos sem desmontar os altares: já se ajoelhou diante dos santos; já exaltou heróis — alguns dos quais, in extremis, escaparam por pouco à corda no pescoço por traição —; já obedeceu a generais de peito enfunado; e chegou mesmo a fiar-se em economistas, e pior ainda, em advogados, com idêntica fé e semelhante ingenuidade. A vossa era, agora mais prática e pragmática, mais televisiva do que reflexiva, prefere atletas. Não exigem coerência, não pedem explicações e cabem perfeitamente num discurso de ocasião, porque são a alegoria ideal para quem deseja parecer profundo sem tocar no fundo, sendo superficial com método.

    Foi assim que o vosso primeiro-ministro, Luís Montenegro, em tom solene e expressão grave, resolveu oferecer ao país dos Descobrimentos — que in illo tempore dividiu com Castela o Mundo em duas metades — não um plano, não uma estratégia, não uma política, nem sequer uma promessa, mas uma metáfora: a mentalidade de um futebolista. Confesso que, deste meu confortável além, sorri com ternura maldosa: há qualquer coisa de comovente na fé que certos governantes depositam em frases que não precisam de orçamento, como se a gramática pudesse substituir o erário.

    Não se zombe do atleta, Cristiano Ronaldo — longe disso. Embora não seja um Camões, que fundou uma língua; nem um Vasco da Gama, que abriu o mundo; nem um Fernão de Magalhães, que o circundou; nem um Egas Moniz, que o esclareceu, o futebolista da Madeira fintou adversários, acelerou em sprints quase mecânicos, rematou com o pé esquerdo e com o direito, cabeceou com precisão aérea, executou pontapés de bicicleta e converteu livres e penáltis com método e obstinação, acumulando golos e troféus, como um contabilista aplicado do êxito físico.

    Como poucos, ou nenhuns, fez ele do próprio corpo um instrumento de eficácia absoluta, disciplinado até à exaustão e afinado para o êxito competitivo, num ascetismo muscular que faria inveja a certos monges menos convictos. Dir-se-ia que Cristiano Ronaldo está, à escala lusitana, como o Discóbolo de Míron, o Doríforo de Policleto e o Apoxiómeno de Sicião estiveram para a Grécia Antiga: a apoteose do corpo educado, perfeito no gesto, mas mudo quanto ao destino da pólis.

    Por isso, aquilo que me espanta não é o seu sucesso individual de Cristiano Ronaldo — legítimo e meritório —, mas a sua canonização política, esse baptismo apressado que dispensa catecismo.

    Transformar uma excepção estatística num modelo nacional é, como se sabe, expediente antigo, muito caro aos moralistas preguiçosos como Luís Montenegro: preferem o exemplo que comove à ideia que obriga a pensar, o caso singular à regra incómoda. Esta lógica é simples, quase bíblica, mas do Antigo Testamento lido à pressa e sem exegese: quem vence é justo; quem perde falhou na fé.

    A política, essa arte ingrata de escolher entre males concretos, dissolve-se assim numa moral ligeira, portátil e sem custos. A desigualdade deixa de ser estrutural e passa a ser psicológica. E o problema do povo não é ter o campo inclinado — é a falta de crença no remate, como se a gravidade fosse questão de atitude.

    Mas façamos justiça à metáfora de Montenegro e levemo-la até ao fim, como convém aos raciocínios honestos e às autópsias bem feitas. A nação que vos propõem é um país que avança a pontapé e insiste à cabeçada. O progresso de Luís Montenegro faz-se com os pés: rápido, impulsivo, barulhento. A persistência resolve-se com a testa: dura, repetida, indiferente às consequências, como certas ideias fixas.

    As mãos, porém, serão sempre suspeitas — não por roubarem, mas por planearem. As mãos constroem. As mãos regulam, redistribuem, corrigem. As mãos exigem intenção e responsabilidade. Logo, mão na bola. Falta.

    Política de saúde? Mão! Falta.
    Política de educação? Mão! Falta.
    Política industrial? Mão! Falta.
    Política social? Mão! Falta.
    Transparência? Mão! Falta.
    Planeamento a longo prazo? Mão! Falta deliberada — e ainda protestam com o árbitro.
    Decência política? Mão! Expulsão por falta de fair play.

    Nesta ética futebolizada da governação, o Estado ideal jamais age: exorta. Não organiza: motiva. Não corrige: aconselha resiliência. Governa como um treinador de bancada, desses que gritam muito, gesticulam com convicção e nunca são culpados pelo resultado final. Se ganham, foi pela mentalidade que inculcaram; se perdem, faltou crença — e não governo.

    A ironia — essa velha amiga dos mortos atentos — é que o futebol verdadeiro, aquele que realmente vence e dura, é feito precisamente do que este discurso de Montenegro despreza: método, disciplina, organização, investimento silencioso, paciência histórica. Sem isso, não há craques; há correria e fé excessiva no improviso.

    Até os mitos sabiam disso: Hércules tinha força, mas precisava de tarefas claras; Ícaro tinha ambição, mas voos nas asas da imprudência e caiu; Prometeu trouxe o fogo, mas foi castigado por dispensar as regras — a civilização, ao contrário do discurso, cobra sempre juros.

    Historicamente, este tipo de discurso, encaixado agora por Luís Montenegro em mensagem natalícia, surge sempre que o poder entra em fadiga intelectual. Quando já não sabe para onde ir, aponta para quem já chegou com mérito a algum lado — e Cristiano Ronaldo estava ali ao pé, como um cartaz providencial. Quando não consegue explicar o caminho, celebra o destino do outro. Se vivo fosse, Maquiavel, que tinha pouca paciência para ilusões edificantes, avisaria o vosso primeiro-ministro de que governar por aparências é eficaz — mas apenas por algum tempo, e nunca sem factura.

    Sociologicamente, o gesto de Montenegro é, porém, de uma elegante crueldade. Pede-se a um país envelhecido, desigual e mal pago que adopte a mentalidade de quem escapou precisamente a essas condições. Promete-se igualdade de expectativas mantendo intacta a desigualdade de meios. E depois, quem não chega ao destino não foi excluído — foi frouxo. Quem cai não foi empurrado — faltou-lhe atitude, essa categoria metafísica que tudo explica e nada resolve.

    Politicamente, o ganho do vosso primeiro-ministro aparenta ser imediato e confortável. Elimina-se o conflito: quem critica não discute — desanima; quem questiona não propõe — atrapalha; quem exige regras mais justas não ambiciona — joga para empatar. Assim se governa, sem governar, substituindo escolhas difíceis por metáforas inatacáveis e frases que soam bem ao ouvido cansado, como música ambiente.

    Audazes leitoras e altaneiros leitores, eu, que nunca tive estima especial pela Humanidade, reconheço aqui um velho expediente: o poder que se absolve culpando os governados. Não falhámos nós; falhaste tu. Acertámos no desenho; faltou-te garra. É a política reduzida a sermão motivacional, com a vantagem adicional de dispensar resultados mensuráveis, esse incómodo hábito da realidade.

    E termino — porque até os mortos se fartam do óbvio — com uma verdade singela, que vos ofereço como dádiva natalícia: um país não se constrói a pontapé no futuro nem à cabeçada contra a realidade. Constrói-se com mãos firmes, ideias claras e a coragem, raríssima, de governar sem metáforas emprestadas. Tudo o resto é barulho de estádio: entusiasma, distrai mas mostra-se fútil, inútil — e acaba sempre em silêncio ao fim dos noventa minutos. E assim, nem os descontos vos salvarão.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • A foca de Cascais e o caracol do Estado

    A foca de Cascais e o caracol do Estado


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    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Sempre desconfiei das explicações tranquilizadoras. Não porque sejam sempre falsas — muitas são apenas inúteis —, mas porque amiúde chegam a horas impróprias, como uma indulgência concedida após a carreira completa da lâmina do verdugo ou um diagnóstico certeiro feito sobre um cadáver morno. A Humanidade, desde Caim, tem este vício: declara que está tudo bem quando já só resta provar que esteve mal — é uma inclinação antiga, que Pôncio Pilatos apenas seguiu, essa de lavar as mãos antes de a água se tingir de vermelho.

    Este intróito surge-me porque o triste desfecho da foca-cinzenta de Cascais — animal marinho, jovem, saudável e, segundo nota oficial, perfeitamente dentro da normalidade da vida — veio recordar-nos essa velha lição. Durante dias, ali esteve, fora do seu mundo, encalhada num teatro de rochas e curiosos, observada com solenidade científica por uma autoridade “nunificamente banza­da” — ou será mumificamente parada? — cuja principal virtude sempre foi a serenidade imóvel.

    O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas afirmou, com cara de pau, que nunca houve problema algum com o pinípede. A foca treme? Normal. A foca não sobe às rochas com destreza? Natural. A foca parece perdida? Antropomorfismo popular. Tudo estava bem, asseguraram-vos, com a convicção de quem fala não para a realidade, mas para o arquivo.

    Dois dias depois, a foca morreu.

    A morte, porém, não invalidou a nota. Pelo contrário: completou-a. Como nos silogismos mais complacentes de Aristóteles, a conclusão passou a valer não por corresponder ao real, mas por fechar o raciocínio sobre si próprio. O facto consumado — a morte — converteu-se em prova a posteriori da justeza da imobilidade prudencial: se ocorreu, era necessário; se era necessário, foi prudente abster-se de qualquer acção impeditiva. A causalidade, assim invertida com método, produziu uma lógica perfeita, redonda, tautológica, tão impermeável à dúvida quanto à compaixão, essa falha menor que costuma perturbar os sistemas demasiado bem construídos.

    Não admira que tal arquitectura mental do Instituto do senhor Nuno Banza fizesse sorrir de aprovação qualquer mestre formado no comentário às Sentenças de Pedro Lombardo, de um Tomás de Aquino aplicado a um doutor anónimo da Sorbonne. A realidade, essa criada sem direito a glosa, limitou-se a cumprir o papel que lhe foi atribuído: morrer para confirmar a doutrina. Assim, o mundo deixou de ser instância de verificação e passou a ser mero apêndice da tese, sacrificado com a docilidade de quem sabe que, no fim, a razão — desde que circular e auto-legitimadora — nunca perde.

    Porém, estamos perante algo que excede largamente o domínio da tese escolástica: trata-se de um procedimento estabilizado, um padrão decisório reiterado que se consolidou como doutrina prática do Estado português — e não apenas da política de conservação de bicharada. Há muito que o aparelho público cultiva esta virtude contemplativa travestida de prudência, também nos humanos. Governa-se por monitorização contínua, administra-se por acompanhamento técnico e age-se apenas quando a intervenção já não produz efeitos materiais.

    Esta é uma forma superior de quietismo burocrático, quase ascético, não fora o facto de os cadáveres não responderem a notas explicativas e de os relatórios finais não possuírem propriedades terapêuticas. Mas isso, enfim, pouco importa.

    A foca, nesse sentido, não é um episódio isolado: é um caso-tipo, um exemplo didáctico de manual, um apólogo marinho que Esopo teria escrito se tivesse sido assessor de um gabinete ministerial.

    Na Bíblia, recordo-vos, sapientes leitoras e esclarecidos leitores, há um episódio instrutivo: o do bom samaritano. Passa primeiro o sacerdote; vê o homem ferido, avalia a cena e segue caminho. Passa depois o levita; observa, reconhece a gravidade da situação e, com idêntica prudência, afasta-se. Ambos cumprem a lei da distância respeitosa. Só o samaritano — figura menor, estrangeira e imprudente — intervém. Convém notar que o Estado moderno se reconhece mais facilmente no sacerdote e no levita do que no samaritano: prefere passar adiante, não por crueldade, mas por fidelidade ao procedimento.

    A compaixão, quando institucionalizada, torna-se um acto administrativo complexo: exige formulários, pareceres e, se essa for a ordem natural das coisas ou o desígnio divino, um desfecho fatal que legitime retrospectivamente a ausência de risco. O Estado prefere o muro das lamentações à estrada de Jericó — o lugar onde a compaixão implica risco e decisão imediata.

    Dir-me-ão que exagero, que uma foca não é um cidadão, que a Biologia nada tem a ver com a Política. Enganam-se. A foca é, para o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, a metáfora perfeita do português médio perante o Ministério da Saúde: deslocada do seu meio natural, observada à distância regulamentar, tranquilizada por comunicados e abandonada àquilo que se designa, com solenidade técnica, por “evolução do estado”. Tremer é normal. Estar exausto é expectável. Agonizar encontra-se no intervalo estatístico. Mas estejam descansados: “será realizada qualquer intervenção se se verificar uma alteração no seu estado de saúde que justifique a sua captura”. Para intervir quando já nada há a salvar, para lavrar o óbito, organizar o enterro e mandar flores protocolares, o Estado português não pede meças a ninguém.

    Também os portugueses, como a foca, são frequentemente descritos como “jovens”, “resilientes” e “sem ferimentos visíveis”. As dores são subjectivas, os sinais são interpretáveis e as preocupações dos cidadãos, quase sempre, infundadas. Se o doente insiste em sentir-se mal, explica-se-lhe que o seu sofrimento é compatível com a normalidade clínica. Se persiste, acompanha-se. Se morre, lamenta-se. E segue-se.

    Marco Aurélio aconselhava a aceitar serenamente aquilo que não depende do próprio — mas o problema começa quando o Estado transforma essa filosofia individual numa colectiva política pública e decide que quase nada depende de si. A morte passa então a ser uma fatalidade estatística, não um fracasso institucional. Como diria Hegel, o real torna-se racional — sobretudo quando já não incomoda.

    Há, portanto, neste episódio da foca de Cascais, uma pedagogia involuntária, mas preciosa. Revela como funciona o poder quando se convence da sua própria inocência. Nunca erra, nunca falha, nunca hesita: limita-se a não agir. E, quando questionado, responde com notas tranquilizadoras, redigidas naquele dialecto peculiar que mistura biologia sumária, paternalismo administrativo e um subtil desprezo pela percepção comum. O povo vê um animal a definhar; a autoridade vê um “caso acompanhado”. A sociedade observa a mortalidade a agravar-se; a autoridade encarrega os jornais de explicar que a culpa é da gripe — essa entidade metafísica, sazonal e sempre conveniente.

    Talvez seja injusto exigir pressa a quem foi cuidadosamente treinado para a lentidão. Mas também é injusto evocar o caracol, animal respeitável, símbolo antigo da prudência e da constância. Convém recordar que, tanto nos rochedos de Cascais como numa urgência de Santa Maria, há criaturas que não sobrevivem ao ritmo da contemplação. A foca precisava de água, orientação, algum medicamento ou curativo — recebeu vigilância à distância, recomendações nas redes sociais e um obituário silencioso. Ora, o mesmo sucede com a Dona Alzira ou o Senhor Joaquim: precisam de cuidados, recebem acompanhamento; precisam de acção, recebem promessas — até à morgue.

    Entretanto, no meio disto, a administração moderna prossegue incólume, sobrevivendo intacta à realidade. Não salva, não age, não se compromete — limita-se a sobreviver intacta àquilo que deixou morrer.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • Fraca é a carne e fraco é o juízo

    Fraca é a carne e fraco é o juízo


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    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Somente a curiosidade perseverante dos desencarnados — tão íntegros no ócio como democraticamente repartidos entre a terra e os vermes — me poderia levar a deter o olhar na entrevista publicada no suplemento Fugas do Público, esse curioso caderno de viagens morais onde hoje se passeia indistintamente entre restaurantes, consciências, catecismos e negócios. Ali, uma psicóloga social e activista vegana, de nome Melanie Joy, discorreu longamente sobre a tese de servir a comida não para viver nem sequer para degustar os prazeres elementares da gastronomia, mas antes para significar, expiar, militar e, se possível, redimir o mundo inteiro entre os acepipes e a sobremesa.

    Outrora, a refeição era um requisito objectivo da subsistência —mas agora surge, nas papilas teóricas da senhora Melanie Joy, investida de uma missão ética universal, como se o garfo fosse uma encíclica portátil e o prato um manifesto político pronto a salvar a Humanidade — desde que bem temperado.

    Ora, debrucemo-nos de faca e garfo, como convém a um defunto com pretensões filosóficas, pelo princípio dos princípios. Comer, longe de constituir um exercício contingente ou uma metáfora edificante, é antes de tudo um acto obscenamente material: a boca abre-se, os dentes trituram, misturam-se sucos, e o estômago trabalha com uma diligência mecânica que nenhuma ética conseguiu abolir nem nenhuma teoria jamais sublimou. Antes de qualquer moral, há mastigação; antes de qualquer consciência, há digestão. Tudo o resto — ideias, sistemas, catecismos — virá depois, quando vem.

    Neste primeiro nível, tudo o mais é ornamento narrativo. Adão comeu o fruto e saiu do Paraíso, não por perversão filosófica, mas por curiosidade mastigável; Esaú vendeu a primogenitura por um prato de lentilhas, provando que a fome argumenta melhor do que qualquer genealogia; o povo hebreu, já liberto, implorou para voltar ao Egipto com saudades das panelas de carne, preferindo a escravidão alimentada à liberdade faminta; Elias só pôde continuar a profetizar enquanto os corvos lhe trouxeram pão; e o próprio Cristo, antes de debater o Reino dos Céus, teve de discutir com o estômago no deserto. A Bíblia, quando lida sem incenso, ensina uma verdade elementar: a metafísica começa sempre depois da digestão.

    Num segundo plano, histórico e pragmático, a comida revela-se não como símbolo moral, mas como condição de possibilidade da própria vida social. Nada há menos filosófico, neste sentido, do que a mecânica da mastigação. Diógenes, mesmo vivendo num barril, aceitava de bom grado o que lhe dessem para comer, desde que não viesse acompanhado de lições morais — prova de que o cinismo tolera a pobreza, mas não a pedagogia. Os romanos discursavam longamente sobre virtude cívica, mas sabiam que o império se mantinha menos pela retórica do Senado do que pelo trigo do Egipto e pelo pão distribuído ao povo; quando este faltava, a filosofia era rapidamente substituída por motins.

    Nas cidades medievais, a ordem social dependia menos da escolástica do que da regularidade das colheitas e do preço do pão. Até os monges, mestres do ascetismo verbal, jejuavam para domar a carne, mas inventaram receitas suficientemente engenhosas para tornar a renúncia suportável. A história do espírito humano, vista sem solenidade excessiva, é também a história dos seus compromissos com a panela — e quase nunca o contrário.

    Por fim, num terceiro nível — o único onde a filosofia ousa meter o garfo —, a comida surge como limite absoluto das abstrações morais. Gargântua — e, com ele, Pantagruel — fizeram da gula um método pedagógico e da digestão uma forma elementar de inteligência. O fiel escudeiro manchego de Dom Quixote, mais sensato do que todos os cavaleiros andantes, pensava melhor de pança cheia. Até Kant, esse rigorista do dever, precisava de horários fixos para as refeições — sinal inequívoco de que a razão pura não se sustenta sem sopa.

    Na guerra, Napoleão lembrava que um exército marcha sobre o estômago. Na fábrica, Henry Ford percebeu que trabalhadores alimentados produzem mais do que consciências despertas por panfletos — uma intuição prática que Marx nunca conseguiu pôr à mesa. Na navegação, os almirantes sabiam que motins começavam menos por ideais do que por bolachas rançosas e carne salgada em falta. Na política, Bismarck governou com ferro e sangue, mas garantia refeições regulares ao funcionalismo, certo de que a disciplina enfraquece quando o almoço falha. Na administração do quotidiano, até Maquiavel recomendaria prudência a um príncipe faminto, pois nenhum Estado se sustenta sobre bocas vazias. E na literatura — sempre mais honesta do que os programas políticos —, Brecht resolveu a questão sem adornos metafísicos: primeiro vem o comer e só depois a moral.

    Nunca, em nenhum destes casos, a comida foi, portanto, previamente convocada como instrumento de redenção universal. O desiderato do alimento é nutrir o corpo, serenar o espírito, prolongar a conversa, se necessário — e seguir-se na vida. A comida sempre foi um meio, não um catecismo; uma necessidade, não um manifesto; um prazer, não uma penitência. Só agora há quem queira que a faca se torne um instrumento de análise psicológica, a travessa uma espécie de espelho da alma e que cada garfada implique uma tomada de posição ontológica, política e moral, como se o ventrículo gástrico fosse uma assembleia deliberativa e o prato um tribunal de última instância.

    Segundo a nova metafísica alimentar — exposta com convicção missionária na teoria da senhora Melanie Joy —, quem mastiga carne dilacera também a empatia, o humanismo, a igualdade e, por arrasto lógico, esfacela a democracia, a paz mundial e, talvez, o bom gosto musical. Comer um bife passou a ser um acto suspeito, quase um pequeno golpe de Estado contra a sensibilidade universal.

    Confesso que me comove esta confiança ilimitada na capacidade simbólica da comida. No meu tempo, uma galinha com pirão era apenas uma galinha cozida acompanhada de papas salgadas de mandioca — hoje é um manifesto. Um ensopado de carne-seca já não é um prato concebido para sustentar o corpo — é um tratado de dominação interseccional. E um simples feijão com charque deixou de ser comida de estômago para se transformar num diagnóstico moral, político e psicológico do comensal. O carnívoro deixou de ser alguém com fome e passou a ser um caso clínico: um ser dessensibilizado, desligado moralmente, um bárbaro de guardanapo ao pescoço.

    E aqui entra, pois então, a Psicologia — essa ciência respeitável, quando modesta, e perigosíssima, quando moralista. Em vez de estudar comportamentos concretos, resolve-se explicar o mundo inteiro a partir do prato alheio. O método é simples: escolhe-se uma prática humana antiquíssima, universal e biologicamente explicável; cobre-se tudo com um verniz ideológico contemporâneo; e declara-se, por fim, que quem não adere à nova moral sofre de défice empático. Galeno, se se lembrasse disto, ficaria orgulhoso; Torquemada, emocionado.

    O mais curioso é que esta nova filosofia alimentar, tão preocupada com a empatia pelos animais, revela escassa simpatia pelos humanos — esses seres contraditórios que comem, amam, cuidam, erram e convivem sem pedir licença a um comité ético global.

    A humanidade concreta, com as suas cozinhas, tradições, geografias e pobrezas, é substituída por um humano abstracto, ideal, que come correctamente e pensa da forma certa. Quem come carne padece, de forma irredutível, de uma masculinidade patriarcal autoritária, dominadora e historicamente cúmplice de todos os horrores — do genocídio ao mau tempero —, enquanto os que não comem carne são criaturas eticamente superiores, dotadas de empatia expandida, consciência planetária e uma superioridade moral que dispensa contraditório.

    Para a senhora Melanie Joy, a carne não é alimento — é ideologia mastigável. O bife não entra pela boca — entra pelo inconsciente, onde instala um pequeno ditador de avental. O churrasco, esse ritual bárbaro, nada mais é do que uma aula prática de dominação simbólica; a chouriça, uma falocracia pendurada; o entrecosto, um manifesto reaccionário. Comer é votar — e quem vota no animal grelhado vota invariavelmente contra a Humanidade.

    Enfim, para a senhora Joy, jamais haverá alegria no mundo sem o veganismo. A fome, a guerra, a desigualdade, a estupidez e até as alterações climáticas resolver-se-iam com uma simples mudança de dieta. Troque-se a chanfana da Serra da Lousã por grão-de-bico e cessará o conflito na Faixa de Gaza, ver-se-á Putin a colher alfaces com Zelensky, e até André Ventura a comer tofu, em vez de caldeirada de borrego, num casamento gitano nos arrabaldes de Moura.

    Permitam-me, nutridas donzelas e cevados cavalheiros, uma derradeira heresia póstuma: não foi a carne que inventou a crueldade, nem a salada que produziu a virtude. Houve tiranos vegetarianos, santos glutões, assassinos ascetas e caridosos apreciadores de enchidos. A História, essa senhora inconveniente, recusa alinhar-se por regimes alimentares. Se Esparta comia pouco, matava muito; e se Roma comia de tudo, construiu estradas e aquedutos — e até, hélas, poemas medíocres.

    Já os vermes que me desossaram me diziam: comer é somente um acto comezinho, no sentido mais nobre do termo — liga à terra, ao corpo e ao tempo. Retirar ao alimento essa dimensão para o transformar num exame de consciência permanente é uma forma subtil de desprezo pelo humano tal como ele é. Talvez seja isso que mais me diverte nesta nova moral de talheres: proclama-se empatia universal enquanto se olha com desdém para o vizinho do lado — sobretudo se ele pedir carne.

    Termino como convém a um defunto sincero: enquanto vivo, comi porque tinha dentes, fome e circunstância. Não fiz da mesa um tribunal nem do jantar um catecismo. E, se isso me tornou menos humanitas aos olhos dos novos filósofos do menu, imploro indulgência. Se eu, Brás Cubas, tivesse sabido que o meu maior pecado não foi a vaidade, nem a inutilidade, nem o amor mal administrado, mas a ausência de reflexão sobre o conteúdo do prato, talvez tivesse morrido mais cedo — de riso ou de fome.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas