A greve dos professores levou-me a prestar um pouco mais de atenção à Educação que se pratica no Portugal de hoje.
Como sempre que decidi analisar, com algum cuidado, o que se passa no meu País, o resultado foi uma tremenda decepção, uma dolorosa angústia e imensas perguntas para as quais não consegui resposta.
Começo por dizer que, não sendo expert (também) nesta área, é possível que algumas das minhas dúvidas possam parecer disparatadas à maioria daqueles que tenham a suficiente pachorra para me ler.
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Há, até, a hipótese de algumas das minhas observações parecerem “estranhas” (para não ser o primeiro a insultar as minhas próprias ideias).
Ainda assim, deixo aqui algumas das questões para as quais não vislumbro resposta.
Comecei por comparar a minha passagem pelas diversas escolas com o dia-a-dia dos estudantes de hoje.
Lembro a escola primária do meu tempo.
Recordo que todos os alunos do Minho ao Algarve, Ilhas e Colónias, tinham as mesmíssimas disciplinas e estudavam pelos mesmos livros.
Desde há muito que cada escola tem os livros que o professor selecciona para cada disciplina.
A “explicação” mais comum é que as realidades são diferentes nas diversas regiões.
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Num país do tamanho de uma caixa de fósforos (das pequenas) a explicação não faz muito sentido.
Menos ainda quando sabemos que os exames (ou provas, ou lá como é que se chamam, hoje) são iguais para todas as escolas do país.
Não vejo grande problema em haver livros únicos, para cada disciplina, desde que elaborados por educadores qualificados e que não tenham, como missão, quaisquer tentativas de criação de “pensamento único” ou, pior, de incutir, nas crianças em idade escolar, as grandes linhas políticas e sociológicas de qualquer área política.
O livro único tinha, pelo menos, a enorme vantagem de ser muito mais barato por ser editado em grandes quantidades.
O grande murro no estômago que apanha quem começa a analisar a escola dos nossos dias é, todavia, o facilitismo, a falta de exigência, a ausência de qualidade.
Das escolas desapareceram livros essenciais como a gramática e, até, a tabuada.
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Hoje, um aluno vai do primeiro ano da escola primária ao último ano da universidade sem ter, nas mãos, uma gramática.
O resultado é conhecido.
Os erros gramaticais, mesmo de profissionais que deveriam ser mais exigentes (professores e jornalistas, por exemplo), são constantes.
A matemática é a disciplina mais temida e odiada porque exige método, atenção e disciplina.
Tudo o que não existe na maioria das salas de aulas onde se presta mais atenção aos telemóveis do que aos professores.
E será “estranho” acreditar que haja material escolar “ridículo”, aos olhos de alunos, pais e professores de hoje, a fazer falta nos primeiros anos de ensino?
Pode parecer absurdo, mas lembrei-me, por exemplo, do “caderno de duas linhas”, onde aprendíamos a escrever direito, e com letra legível, quando li que testes de miúdos de sete anos, vou escrever de novo, sete anos, serão feitos, este ano, com respostas à base de cruzinhas, em computadores.
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Gravíssimo é, também, constatar o desdém pelo esforço e trabalho dos alunos com a ausência do prémio ao mérito e castigo ao desleixo.
Como se pode compreender que, no fim de um ano escolar, todos os alunos passem para o ano seguinte sem se ter em conta o trabalho desenvolvido?
Com o fim das reprovações o esforço deixou de ser valorizado e, logicamente, a qualidade do ensino baixou assustadoramente.
A medida, recorde-se, foi tomada para poupar, aos cofres do Estado, cerca de 250 milhões de euros, visto que era estimado que cada um dos 50 mil alunos do 9º ano que, em média, reprovava todos os anos, custasse cerca de 5 mil euros.
Fizeram contas a uma poupança imediata esquecendo os custos dessa estupidez no futuro.
Os pais têm, por tudo o acima dito, e muitas mais razões que uma crónica não permite desenvolver, um papel cada vez mais preponderante no acompanhamento escolar dos seus filhos.
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Tentemos perceber porque raio é que, actualmente, entre os melhores alunos das escolas portuguesas, de norte a sul, uma enorme percentagem seja de jovens chineses e ucranianos.
Não nos preocuparmos com estas realidades, não pormos a Educação como a grande prioridade do País, vai fazer com que nos afastemos, cada vez mais, dos países desenvolvidos.
Nada que não seja conhecido de todos.
Apesar de tudo, vamos continuar na mesma pela simples razão que nos falta… Educação.
Vítor Ilharco é secretário-geral da APAR – Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso
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