Há bilhetes fantásticos que nos chegam inesperados, mas atempados.
Cinco da tarde de um sábado preguiçoso.
Concerto de piano às sete da noite, no CCB, como um prelúdio de inspiração.
Vamos.
Rui Massena entrou, sentou-se ao piano, tocou umas notas e perguntou-nos se nos importávamos que fosse buscar não sei o quê. A plateia riu-se e ele evaporou-se durante uns bons minutos.

Reparei que não havia partituras em cima do piano. Talvez as fosse buscar. Talvez se tivesse esquecido dos óculos.
Rui Massena tardava. Sentia-se um frenesim, passos semi-encobertos na lateral do palco… e eu comecei a ficar preocupada. Não com o músico, mas comigo.
Porque é que toda a gente parecia ouvir o que Rui Massena tinha dito e eu não? Eu estive naquele mesmo auditório há cerca de dois meses e ouvi tudo na perfeição. Estaria a perder a audição? Seria capaz de distinguir os sons e apreciar o espectáculo? Como me iria relacionar com os outros se os deixasse de ouvir?
Uma sucessão de preocupações inesperadas e injustas, que turvavam o prazer de assistir ao concerto.
O músico reapareceu, sem óculos nem partituras, visivelmente tranquilo.
Começou a tocar e eu comecei a ouvir. Sosseguei, também.

Rui Massena preparou um espectáculo para nos falar de si. Uma história narrada entre sustenidos e bemóis, encrustada numa luz de intimidade muito aconchegante. Impressionou-me essa capacidade de transformar um espaço enorme numa salinha onde nos sentamos à sua volta.
Quis falar-nos da família, das suas origens. Mais do que um concerto, foi uma homenagem às raízes, talvez uma nostalgia. Senti saudade em volta dele. Uma viagem conduzida com doçura.
Ele estava de costas para mim e senti intensamente a vibração da sua coluna enquanto tocava. Às vezes, as costas de Rui Massena ondulavam, estremeciam até, como se a música viesse mais do seu interior do que do piano. As pausas da mão direita demoravam-se numa dança espectacular. Ritmo, vida, luz.
Gostei especialmente de um momento em que parou de tocar para nos falar do que lhe ia na alma. Voltei a não ouvir tudo completamente, mas, desdramatizando, resolvi captar a intenção. Falou da mulher. Acho que disse que ela canta muito bem. Fosse o que fosse, não há nada mais tocante do que parar de tocar piano para falar de quem se ama.

Falou também dos pais, que lhe tinham ensinado a olhar pelos retrovisores, como forma de garantir que ninguém fica para trás. Aliás, no final do concerto, Rui Massena agradeceu ao técnico de luzes, ao técnico de som, mas também ao senhor que transportou o piano. Sem todas essas pessoas, disse, não conseguiria fazer o espectáculo sozinho.
Houve muitos momentos em que a música e as palavras formaram um único corpo. Aliás, muitas vezes tive a sensação de a música ser o acompanhamento que aquele ser humano usou, enquanto se revelava num lugar cheio de gente atenta e receptiva.
Quando o espectáculo terminou, eu estava verdadeiramente convencida de que não havia melhor sítio para estar naquele momento.
Bati muitas palmas. Batemos muitas palmas. E Rui Massena voltou.
Disse então que nos ia apresentar uma música nova, ainda nunca tocada em público. Uma estreia.

Começou a tocar e rapidamente percebemos que era uma partida. Mas, mais do que isso, uma forma bonita de nos confidenciar o desejo de um mundo melhor. Quer também que o seu sonho possa ser sonhado por quem o acompanha.
Os primeiros acordes foram de Imagine, de John Lennon.
A letra foi projectada no palco. Massena tocava para nos acompanhar e comandava um mar de gente como uma plateia de paz: primeiro cantam as senhoras, depois os homens, e depois todos juntos. Estávamos alinhados. De repente. Por causa de um artista que decidiu dar-nos muito mais do que música.
Depois desse momento belíssimo, o concerto terminou com uma música a que deu o nome de House Parents. A tela animou-se com imagens da criança que traz dentro de si. Um miúdo doce e traquinas, com um olhar que fala mais alto que as palavras. E os pais lá estavam, sempre atentos e babados.
No final, reparando que ainda estava um casal na tribuna, perguntei-lhes de que é que Rui Massena se tinha esquecido, porque eu não tinha compreendido nada.

— Nós também não. Devem ter sido os fones. Nunca percebemos bem o que ele dizia. Achamos que a coluna aqui por cima não está boa mas, fora isso, foi um concerto muito bom. Sempre a crescer.
— Ah… então também não ouviram? Mas sim, sem dúvida, foi um excelente concerto.
Desci para a plateia à procura de alguém que lá tivesse estado.
Encontrei um casal que me falou em redutores de som. Enquanto conversávamos, um rapaz aproximou-se e o senhor disse-me que ele é que percebia dessas coisas.
O rapaz, pensando que eu era amiga dos avós, sorriu, deu-me dois beijinhos e disse que se chamava Francisco.
— Eu sou a Zu. Prazer.
— Pois, ele foi buscar um redutor de som. Quando o piano está assim aberto, o som é demasiado forte. Depois o ouvido habitua-se, mas com um redutor é melhor.
Não disse, mas pensei que, em matéria de ouvidos, cada um usa o que precisa — e eu, felizmente, ainda não preciso de nada.
Não disse, mas pensei que, em matéria de ouvidos, cada um usa o que precisa — e eu, felizmente, ainda não preciso de nada.
Fui-me embora duplamente feliz: com o concerto e com as consequências do concerto. Porque senti que desconhecidos falaram entre si sem desconfiança, sem carantonhas. Desconhecidos falavam com desconhecidos e sorriam-se – até com alguma alegria.
Acho que foi o efeito Imagine.
Nota: 5 (em 5)

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