Jornalismo: entre o abismo e a (necessária) revolução

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Num mundo em revolução, com o advento da inteligência artificial e a evolução da Internet, é absurdo — e negligente — pensar-se que é viável manter a lógica de os meios de comunicação social terem estruturas rígidas, com custos enormes, acumulando passivos insanos e até dividas ao Estado.

O Jornalismo tem sido a principal vítima desta ilusão. E, claro, os jornalistas.

Tantos jornalistas bons que conheço que já abandonaram a profissão porque o sector os… abandonou.

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Foto: D.R.

Neste mundo em mudança, ousar criar meios de comunicação social com um modelo de negócios inovador é algo disruptivo e enfrenta resistência. Foi também o que sucedeu com a economia blockchain. Mas é absolutamente necessário.

A ideia de empregos fixos, bem pagos, com benefícios. A ideia de directores pagos a peso de ouro, com carro novo e despesas extra. A ideia de departamentos comerciais que entram pelas redacções e “arrastam” directores e jornalistas para podcasts, conferências, talks, parcerias … A ideia de meios de comunicação social que fazem tudo, vão a todas. Tudo isto está… obsoleto. 

Pensar em meios de comunicação social com uma filosofia colaborativa, que envolve os investidores/empresários, os jornalistas, e leitores. Pensar em meios de comunicação social modernos, ajustados a este mundo em revolução, em que a informação deixou de ser centralizada e passou a ser descentralizada. Isto, sim, faz sentido.

a white mailbox with a bunch of books in it

O verdadeiro “power to the people” está aí, mas traz riscos. O Jornalismo é, não só, viável neste novo ecossistema, como é essencial. Pode ser uma peça-chave nesta revolução global. Mas só se largar os vícios e os grilhões que o prendem. Só se aceitar passar por uma revolução. E isso envolve quebrar barreiras culturais e de mentalidade sobre o mercado de trabalho e estruturas de funcionamento das empresas no sector dos media. E recentrar no essencial: levar informação de valor aos leitores, telespectadores ou ouvintes.

À escala de Portugal, é isso que o PÁGINA UM tem vindo a fazer. A testar um modelo colaborativo em que os leitores também são participantes activos. Há aqui uma responsabilização de todos os chamados “stakeholders“. Incluindo os jornalistas e outros profissionais.

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Há quem diga que isto é utopia. Mas isto é já a realidade. Só alguns ainda não perceberam que a revolução chegou e o modo antigo de funcionar já está obsoleto.

E, convenhamos, não era positivo. Nem para a gestão carreira/família dos profissionais, nem para o Jornalismo. Nem para o Estado, que é credor de empresas de media. Nem para os jornalistas com salários em atraso ou que foram parar ao desemprego.

O futuro disruptivo traz riscos, mas também oportunidades para, no sector dos media, haver maior eficiência, maior justiça nas remunerações dos vários profissionais e mais tempo, mais alegria, tanto na forma de viver a vida, como a carreira. E mais alegria e propósito na forma de gerir negócios. 

Two people shake hands, possibly a deal.

Propósito é a palavra. Surfar o mundo em revolução com propósito. No caso do Jornalismo isso é crucial. Pois chegou o tempo de realmente respirar e valorizar o Jornalismo, a sua autenticidade e absoluta necessidade de independência de poderes políticos e económicos.

Só assim o Jornalismo vai, não apenas sobreviver à revolução, mas prosperar e contribuir para a construção de um mundo totalmente novo, que pode ter na cooperação e na solidariedade dois pilares fundamentais.

Adenda:

Publicado ontem no Diário de Notícias, este artigo do Filipe Alves contém afirmações falsas graves e passíveis de levarem a vários processos judiciais contra o seu autor e as publicações que o divulgaram.

Como o Filipe Alves sabe e finge não saber, o jornal PÁGINA UM tem um modelo de negócios assente num modelo colaborativo e solidário, com os custos indexados às receitas.

Os jornalistas e outros profissionais que decidiram colaborar com o jornal já trabalhavam por conta própria antes de decidirem apoiar o jornal.

O modelo de negócios está condicionado às receitas. Se houver mais receitas, é possível ter mais colaboradores e trabalhos jornalísticos ou de cultura, como crónicas, e opinião, entrevistas, etc.

O PÁGINA UM é um jornal de acesso livre para que mesmo quem não tem meios possa aceder aos artigos.

O jornal adoptou o conceito willingness to pay, no qual os leitores podem subscrever o jornal voluntariamente, ou contribuir com donativos cujas regras estão fixadas desde o dia 1 de vida do jornal.

A maravilhosa redacção física do jornal, com um custo fixo da ordem dos 1000 euros mensais, permite aos colaboradores ter um espaço onde é possível fazer entrevistas e podcasts e, no futuro, ter novos colaboradores ali a trabalhar, quando as receitas o permitirem.

O jornal tem como pilares: não contrair dívida; não ter apoios do Estado ou instituições e grupos económicos; não ter prejuízo.

Assim, obviamente que a sua estrutura tem de ser flexível e assente na parceria, cooperação e colaboração. Quem colabora com o PÁGINA UM fá-lo porque sabe quão importante o jornal é para o Jornalismo em Portugal. E como a sua existência é, não só, importante como crucial.

O Filipe Alves sabe tudo isto. Ainda assim, publica mentiras e insiste em fazer acusações difamatórias e graves.

Entendo que para Filipe Alves, haver jornais com uma estrutura flexível, com os custos ajustados às receitas e o foco na qualidade jornalística, seja algo estranho.

Mas os tempos exigem inovação e um regresso da qualidade e isenção total no Jornalismo. E as coisas ainda vão mudar muito mais daqui em diante com o avanço tecnológico e a IA.

Concluo, lamentando que o Diário de Notícias esteja a ser instrumentalizado para publicar notícias falsas e artigos com desinformação evidente.

Mas isso também mostra quais são as prioridades do seu director e os motivos da crónica crise do jornal.

Para se vingar de uma notícia verdadeira sobre as contas da empresa que o emprega, avançou com um ataque vingativo com falsas acusações. É agora evidente que Filipe Alves não está a defender o melhor interesse do Diário de Notícias. Nem da imprensa.