No passado dia 21 de Setembro escrevi neste jornal um artigo bastante duro sobre a viagem que Bárbara Reis, do PÚBLICO, Pedro Cordeiro, do Expresso, e Rebecca Abecassis e Tiago Passos, da RTP, fizeram à Sérvia a convite da Embaixada daquele país em Lisboa.
Intitulei-o “Jornalismo na lama ou os palhaços foram ao circo pagos pelo Governo da Sérvia“. Ontem, Bárbara Reis resolveu responder, embora sem responder ao PÁGINA UM, que primeiro levantou o problema e que aparentemente não merece que a antiga directora do PÚBLICO desça do pedestal para lhe pronunciar o nome.

Preferiu citar o Correio da Manhã, a que chama “tablóide”, mas que, pelos vistos, conserva dignidade bastante para servir de interlocutor quando dá jeito. No texto, Reis confirma o essencial: foi a Belgrado “a convite da embaixada da Sérvia em Lisboa” e explica aos leitores que a fórmula significa que alguém pagou a viagem — “em regra o avião e o hotel, às vezes algumas refeições”.
A partir daqui o texto entra num curioso exercício de condescendência. Bárbara Reis diz ter um “béguin por conspiracionistas”, divide os leitores entre os que compreendem a normalidade da coisa e os que “pensam coisas estranhas”, e explica que um convite significa acesso, não controlo editorial.
O argumento teria alguma utilidade se alguém tivesse demonstrado que a Embaixada da Sérvia lhe escreveu o artigo, lhe ditou perguntas ou lhe proibiu entrevistas. Não foi esse o problema que coloquei. A questão é muito mais antiga, muito mais elementar e, pelos vistos, muito mais incómoda: deve um jornalista aceitar que uma entidade sobre a qual vai informar — neste caso, a representação de um Estado que a própria Bárbara Reis reconhece não constituir “um modelo de liberdade de imprensa ou de democracia” — lhe pague avião, hotel e eventualmente refeições?
A resposta nem precisa sequer de ser procurada no PÁGINA UM. Convém procurá-la no PÚBLICO.

A primeira edição em livro do (verdadeio) Livro de Estilo do PÚBLICO, publicada em Fevereiro de 1998, continha na entrada “envolvimento” uma regra cuja simplicidade talvez hoje pareça arqueologia moral: “Também por isso todas as despesas de reportagem, contactos ou deslocações são sempre suportadas pelo jornal.” E acrescentava-se que os jornalistas não deveriam aceitar presentes, viagens, convites ou benesses susceptíveis de condicionarem a sua independência. A primeira edição data efectivamente de 1998 e a versão ainda disponibilizada pelo próprio PÚBLICO conserva aquela formulação.
Não se tratava de puritanismo, mas sim de compreender algo elementar que o jornalismo profissional soube durante décadas: independência não significa apenas ninguém nos ordenar o que escrever. Significa também evitar relações materiais susceptíveis de criarem dependência, gratidão ou, sequer, a aparência de uma delas. Um Governo pode abrir uma porta a um jornalista; não precisa de lhe comprar a passagem para que atravesse essa porta. Um jornal que considera uma reportagem suficientemente importante para enviar alguém a Belgrado deve, em princípio, considerar também suficientemente importante pagar-lhe o avião.
O PÚBLICO acabou por flexibilizar essa regra. Na segunda edição do Livro de Estilo, de 2005, passou a admitir viagens a convite de empresas ou em comitivas oficiais, impondo que o facto fosse revelado junto dos textos; mantinha, contudo, a proibição de presentes, viagens ou benesses quando pudessem condicionar ou coarctar a independência editorial. Foi uma mudança relevante: onde o princípio original eliminava a dependência financeira, o novo princípio passou a administrá-la através da transparência.

As contas da História, contudo, pregam partidas extraordinárias. Em 2011, quando Bárbara Reis dirigia o PÚBLICO — foi directora entre 2009 e 2016 —, o provedor José Queirós recebeu protestos de leitores por causa de uma reportagem realizada no Saara Ocidental numa viagem paga e organizada pelas autoridades marroquinas. O então provedor considerou que a reportagem não era tendenciosa, mas reconheceu o problema que hoje Bárbara Reis procura transformar em delírio: aquelas condições davam origem a dúvidas legítimas sobre independência e credibilidade.
E Bárbara Reis até respondeu então de forma muito diferente da actual: aceitou que as dúvidas dos leitores “são legítimas”, reconheceu que aceitar convites “não é o ideal” e disse que, com outros meios, gostaria de adoptar uma regra semelhante à do New York Times: a empresa pagar sempre as despesas.
Quinze anos fizeram maravilhas na cabecinha de uma jornalista que, ó ironia, tem uma coluna intitulada “Livre de Estilo”. A dúvida legítima de 2011 de Bárbara Reis converteu-se na acusação contra o “conspiracionista” de 2026. Aquilo que “não era o ideal” tornou-se uma prática tão natural que estranhá-la já justifica uma pequena aula de jornalismo aos indígenas. Talvez isto se chame evolução. Prefiro chamar-lhe aburguesamento deontológico: primeiro aceita-se a excepção por falta de dinheiro; depois habitua-se a redacção à excepção; por fim, olha-se com superioridade para quem ainda se lembra do princípio.

Aliás, o PÚBLICO tem sido um dos jornais que mais mercantilizam, de forma pornográfica, a aceitação de convites, “por regra o avião e o hotel, às vezes algumas refeições”, nas palavras deliciadas da agora redactora principal do jornal do grupo Sonae.
Longe de se resumir a Bárbara Reis, o levantamento dos últimos quatro meses mostra uma redacção em trânsito por conta alheia, associada a peças produzidas graças a governos, organismos de turismo, companhias aéreas, grupos hoteleiros, marcas e empresas directamente interessadas na exposição editorial obtida. Para usar a explicação da própria Bárbara Reis, trata-se de trabalhos em que a fórmula “viajou a convite” permite saber quem pagou, “em regra o avião e o hotel, às vezes algumas refeições” — embora nem todas as peças discriminem quais destas despesas foram suportadas em cada caso.

Assim, Sandra Silva Costa e Adriano Miranda aparecem associados a uma reportagem sobre os espumantes brasileiros realizada a convite da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul; Miguel Judas percorreu a ilha de Santiago a convite do grupo hoteleiro Oásis Atlântico; Rita Caetano foi a Menorca a convite da Relais & Châteaux; e Maria José Santana, numa peça fotografada por Adriano Miranda, viajou a convite da Estrelacoop.
Bárbara Wong foi conhecer Olhão a convite do Real Marina Hotel & Spa; Mara Gonçalves ficou alojada a convite do Masana Algarve; e Rita Siza deslocou-se à Eslováquia a convite da NATO, que também forneceu fotografias para a reportagem. tarde, Patrícia Carvalho foi à Jamaica a convite do Jamaica Tourist Board; Amílcar Correia e Daniel Rocha produziram trabalhos sobre Curitiba e as Cataratas do Iguaçu numa deslocação apoiada pela TAP, pela CTur – Instituto Municipal de Turismo de Curitiba pela Visit Iguassu; Teresa Serafim escreveu sobre a Suíça numa viagem a convite do Turismo da Suíça; e Cláudia Lima Carvalho foi à Eslovénia numa deslocação associada ao restaurante Milka e ao Hiša Franko.
Em Agosto, Sandra Silva Costa, numa peça com fotografias de Paulo Pimenta, regressou a Cabo Verde a convite da TAP e do Instituto do Turismo de Cabo Verde; Luís J. Santos foi ao Sal a convite da easyJet e do Turismo de Cabo Verde; Rita Caetano percorreu São Vicente e Santo Antão a convite da easyJet, em parceria com o Instituto do Turismo de Cabo Verde e a Agência de Viagens e Turismo Actour; Sandra Silva Costa visitou a Boa Vista a convite do Barceló Marine Boa Vista; e Camilo Soldado chegou à Mongólia através de um convite do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.

Em Setembro, Vera Moutinho e Matthis Kleeb produziram na Noruega uma reportagem resultante de convite da Embaixada norueguesa em Lisboa; Inês Nadais acompanhou em França o espectáculo de Tiago Rodrigues numa deslocação apoiada pelo Centro Cultural de Belém, pela Culturgest e pelo Teatro Municipal do Porto; Alexandra Prado Coelho publicou uma reportagem sobre o luxo hoteleiro de Porto Santo a convite do próprio Legacy Ithos; Diogo Cavaleiro foi levado a Paris pelo grupo Banque Populaire et Caisse d’Épargne, interessado em apresentar aos jornalistas portugueses os seus planos para o Novo Banco; e Bárbara Reis fechou o quadrimestre em Belgrado, a convite da Embaixada da Sérvia em Lisboa. Muitos destes casos têm sido revelados pelo ContraProva, na rubrica saturnina Aliança das Carteiras.
Não estamos perante uma excepção ditada por uma oportunidade jornalística rara, mas diante de um sistema editorial: as fontes públicas ou comerciais escolhem destinos, abrem portas, pagam ou subsidiam deslocações, oferecem alojamento e, por vezes, refeições. O PÚBLICO transforma depois esse itinerário em conteúdo editorial e acredita que uma linha final com a identidade do pagador restitui a independência que decidiu não financiar. A transparência permite ao leitor ver a boleia, mas não converte a boleia em autonomia.
Na sua crónica de ontem, Bárbara Reis teve ainda o despudor de tentar legitimar a promíscua prática invocando “os melhores jornais do mundo” e adianta mesmo que o Washington Post, a BBC ou outros viajam há anos a convite de governos.

Ora, o Washington Post constitui uma escolha particularmente infeliz. A sua política ética actual começa por uma frase que dispensa seminários: “We pay our own way.” O jornal declara que não aceita viagens gratuitas e que não aceita pagamentos, incluindo despesas, de governos ou organizações financiadas por governos. Se Bárbara Reis quis dizer apenas que jornalistas do Washington Post acompanham iniciativas organizadas por governos, nem esse exemplo lhe serve: podem aceitar o acesso mas pagam as despesas. Se quis dizer que aceitam que os governos lhes paguem avião e hotel, então a afirmação é falsa à luz das regras publicadas pelo próprio jornal.
A Associated Press aplica exactamente o princípio que Reis procura fazer agora parecer exótico: quando uma fonte organiza uma deslocação que a agência considera jornalisticamente relevante, a AP vai — e paga a sua parte. Se o acesso implicar viajar no avião privado de uma fonte, reembolsa um valor razoável. O El País estabelece como regra geral que não aceita convites para produzir informação; as excepções carecem de autorização da direcção e o patrocínio deve ser declarado. O Le Monde admite viagens suportadas por terceiros, mas chama-lhes aquilo que são — deslocações organizadas com finalidade promocional —, determina que permaneçam excepcionais, exige justificação profissional e obriga à identificação de quem pagou.
Portanto, nem sequer no universo dos jornais que admitem excepções existe a naturalidade displicente sugerida por Bárbara Reis. Uns pagam sempre. Outros partem da recusa. Outros toleram convites em circunstâncias excepcionais e com transparência. A transparência, porém, nunca transforma o conflito numa virtude. Escrever no fim de cerca de 20 reportagem em apenas quatro meses que a embaixada pagou a viagem não faz desaparecer o facto de a embaixada ter pagado a viagem. Apenas permite ao leitor conhecê-lo.

Bárbara Reis explica ainda que a deslocação estava organizada havia meses, que a entrevista a Zoran Kesić foi solicitada pelos próprios jornalistas e que, em quatro dias, realizaram onze entrevistas à margem da agenda oficial. Muito bem. Esses factos respondem a uma acusação de controlo editorial, caso alguém a queira formular. Não respondem ao problema deontológico.
Um jornalista pode aceitar uma passagem aérea paga por um Governo e continuar a fazer perguntas incómodas; pode até produzir uma excelente reportagem. O conflito não está naquilo que escreveu, mas nas condições materiais que aceitou para poder escrever e na erosão de uma fronteira que deveria interessar sobretudo a quem vive da confiança dos leitores.
Talvez os jornais comecem a morrer muito antes de fecharem portas. Morrem um pouco quando os princípios passam a ser considerados luxos financeiros; mais um pouco quando as excepções se transformam em rotina; e bastante quando aqueles que ainda perguntam por esses princípios deixam de ser interlocutores e passam a “conspiracionistas”. O velho PÚBLICO queria que as despesas fossem suas porque percebia que a independência também se compra — no sentido literal de pagar o próprio bilhete para não ficar a dever a viagem a ninguém. O PÚBLICO de Bárbara Reis acabou por descobrir uma solução mais barata: paga o Governo estrangeiro e acrescenta-se uma linha no fim.

Penitencio-me, por isso, pelo título que escolhi em 21 de Setembro. “Jornalismo na lama ou os palhaços foram ao circo pagos pelo Governo da Sérvia” continha uma injustiça: ainda atribuía demasiada importância ao circo. Depois de ler Bárbara Reis, o problema parece-me mais profundo. Quando uma antiga directora de um jornal que nasceu com regras exigentes transforma a cedência dessas regras em normalidade, invoca como exemplo um jornal cuja norma diz e o contrário e chama conspiracionistas aos que se recusam a confundir transparência com independência, já não estamos perante uma simples viagem a Belgrado. Estamos perante a pedagogia da rendição.
Se hoje tivesse de dar um título ao caso, seria bastante mais simples: “Bárbara Reis, a algoz do jornalismo.”










































































