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  • Bárbara Reis e os 21 jornalistas do Público a quem pagaram “o avião e o hotel, às vezes algumas refeições.”

    Bárbara Reis e os 21 jornalistas do Público a quem pagaram “o avião e o hotel, às vezes algumas refeições.”

    No passado dia 21 de Setembro escrevi neste jornal um artigo bastante duro sobre a viagem que Bárbara Reis, do PÚBLICO, Pedro Cordeiro, do Expresso, e Rebecca Abecassis e Tiago Passos, da RTP, fizeram à Sérvia a convite da Embaixada daquele país em Lisboa.

    Intitulei-o “Jornalismo na lama ou os palhaços foram ao circo pagos pelo Governo da Sérvia“. Ontem, Bárbara Reis resolveu responder, embora sem responder ao PÁGINA UM, que primeiro levantou o problema e que aparentemente não merece que a antiga directora do PÚBLICO desça do pedestal para lhe pronunciar o nome.

    Bárbara Reis, ex-directora do Público e actual redactora principal do jornal da Sonae. Foto: captura de ecrã.

    Preferiu citar o Correio da Manhã, a que chama “tablóide”, mas que, pelos vistos, conserva dignidade bastante para servir de interlocutor quando dá jeito. No texto, Reis confirma o essencial: foi a Belgrado “a convite da embaixada da Sérvia em Lisboa” e explica aos leitores que a fórmula significa que alguém pagou a viagem — “em regra o avião e o hotel, às vezes algumas refeições”.

    A partir daqui o texto entra num curioso exercício de condescendência. Bárbara Reis diz ter um “béguin por conspiracionistas”, divide os leitores entre os que compreendem a normalidade da coisa e os que “pensam coisas estranhas”, e explica que um convite significa acesso, não controlo editorial.

    O argumento teria alguma utilidade se alguém tivesse demonstrado que a Embaixada da Sérvia lhe escreveu o artigo, lhe ditou perguntas ou lhe proibiu entrevistas. Não foi esse o problema que coloquei. A questão é muito mais antiga, muito mais elementar e, pelos vistos, muito mais incómoda: deve um jornalista aceitar que uma entidade sobre a qual vai informar — neste caso, a representação de um Estado que a própria Bárbara Reis reconhece não constituir “um modelo de liberdade de imprensa ou de democracia” — lhe pague avião, hotel e eventualmente refeições?

    A resposta nem precisa sequer de ser procurada no PÁGINA UM. Convém procurá-la no PÚBLICO.

    a statue of a woman standing on top of a hill next to a river
    O monumento ao Vencedor domina Belgrado, sobre a confluência dos rios Sava e Danúbio. Foto: Dimitrije Milenkovic.

    A primeira edição em livro do (verdadeio) Livro de Estilo do PÚBLICO, publicada em Fevereiro de 1998, continha na entrada “envolvimento” uma regra cuja simplicidade talvez hoje pareça arqueologia moral: “Também por isso todas as despesas de reportagem, contactos ou deslocações são sempre suportadas pelo jornal.” E acrescentava-se que os jornalistas não deveriam aceitar presentes, viagens, convites ou benesses susceptíveis de condicionarem a sua independência. A primeira edição data efectivamente de 1998 e a versão ainda disponibilizada pelo próprio PÚBLICO conserva aquela formulação.

    Não se tratava de puritanismo, mas sim de compreender algo elementar que o jornalismo profissional soube durante décadas: independência não significa apenas ninguém nos ordenar o que escrever. Significa também evitar relações materiais susceptíveis de criarem dependência, gratidão ou, sequer, a aparência de uma delas. Um Governo pode abrir uma porta a um jornalista; não precisa de lhe comprar a passagem para que atravesse essa porta. Um jornal que considera uma reportagem suficientemente importante para enviar alguém a Belgrado deve, em princípio, considerar também suficientemente importante pagar-lhe o avião.

    O PÚBLICO acabou por flexibilizar essa regra. Na segunda edição do Livro de Estilo, de 2005, passou a admitir viagens a convite de empresas ou em comitivas oficiais, impondo que o facto fosse revelado junto dos textos; mantinha, contudo, a proibição de presentes, viagens ou benesses quando pudessem condicionar ou coarctar a independência editorial. Foi uma mudança relevante: onde o princípio original eliminava a dependência financeira, o novo princípio passou a administrá-la através da transparência.

    O primeiro Livro de Estilo do PÚBLICO determinava que todas as despesas de reportagem, contactos e deslocações fossem suportadas pelo jornal, para preservar a independência dos jornalistas.

    As contas da História, contudo, pregam partidas extraordinárias. Em 2011, quando Bárbara Reis dirigia o PÚBLICO — foi directora entre 2009 e 2016 —, o provedor José Queirós recebeu protestos de leitores por causa de uma reportagem realizada no Saara Ocidental numa viagem paga e organizada pelas autoridades marroquinas. O então provedor considerou que a reportagem não era tendenciosa, mas reconheceu o problema que hoje Bárbara Reis procura transformar em delírio: aquelas condições davam origem a dúvidas legítimas sobre independência e credibilidade.

    E Bárbara Reis até respondeu então de forma muito diferente da actual: aceitou que as dúvidas dos leitores “são legítimas”, reconheceu que aceitar convites “não é o ideal” e disse que, com outros meios, gostaria de adoptar uma regra semelhante à do New York Times: a empresa pagar sempre as despesas.

    Quinze anos fizeram maravilhas na cabecinha de uma jornalista que, ó ironia, tem uma coluna intitulada “Livre de Estilo”. A dúvida legítima de 2011 de Bárbara Reis converteu-se na acusação contra o “conspiracionista” de 2026. Aquilo que “não era o ideal” tornou-se uma prática tão natural que estranhá-la já justifica uma pequena aula de jornalismo aos indígenas. Talvez isto se chame evolução. Prefiro chamar-lhe aburguesamento deontológico: primeiro aceita-se a excepção por falta de dinheiro; depois habitua-se a redacção à excepção; por fim, olha-se com superioridade para quem ainda se lembra do princípio.

    David Pontes, actual director do PÚBLICO. Foto: captura de ecrã.

    Aliás, o PÚBLICO tem sido um dos jornais que mais mercantilizam, de forma pornográfica, a aceitação de convites, “por regra o avião e o hotel, às vezes algumas refeições”, nas palavras deliciadas da agora redactora principal do jornal do grupo Sonae.

    Longe de se resumir a Bárbara Reis, o levantamento dos últimos quatro meses mostra uma redacção em trânsito por conta alheia, associada a peças produzidas graças a governos, organismos de turismo, companhias aéreas, grupos hoteleiros, marcas e empresas directamente interessadas na exposição editorial obtida. Para usar a explicação da própria Bárbara Reis, trata-se de trabalhos em que a fórmula “viajou a convite” permite saber quem pagou, “em regra o avião e o hotel, às vezes algumas refeições” — embora nem todas as peças discriminem quais destas despesas foram suportadas em cada caso.

    Vicente Jorge Silva, primeiro director do PÚBLICO: nessa altura era proibido aceitar viagens ou pagamento de hotéis. Foto: captura de ecrã.

    Assim, Sandra Silva Costa e Adriano Miranda aparecem associados a uma reportagem sobre os espumantes brasileiros realizada a convite da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul; Miguel Judas percorreu a ilha de Santiago a convite do grupo hoteleiro Oásis Atlântico; Rita Caetano foi a Menorca a convite da Relais & Châteaux; e Maria José Santana, numa peça fotografada por Adriano Miranda, viajou a convite da Estrelacoop.

    Bárbara Wong foi conhecer Olhão a convite do Real Marina Hotel & Spa; Mara Gonçalves ficou alojada a convite do Masana Algarve; e Rita Siza deslocou-se à Eslováquia a convite da NATO, que também forneceu fotografias para a reportagem. tarde, Patrícia Carvalho foi à Jamaica a convite do Jamaica Tourist Board; Amílcar Correia e Daniel Rocha produziram trabalhos sobre Curitiba e as Cataratas do Iguaçu numa deslocação apoiada pela TAP, pela CTur – Instituto Municipal de Turismo de Curitiba pela Visit Iguassu; Teresa Serafim escreveu sobre a Suíça numa viagem a convite do Turismo da Suíça; e Cláudia Lima Carvalho foi à Eslovénia numa deslocação associada ao restaurante Milka e ao Hiša Franko.

    Em Agosto, Sandra Silva Costa, numa peça com fotografias de Paulo Pimenta, regressou a Cabo Verde a convite da TAP e do Instituto do Turismo de Cabo Verde; Luís J. Santos foi ao Sal a convite da easyJet e do Turismo de Cabo Verde; Rita Caetano percorreu São Vicente e Santo Antão a convite da easyJet, em parceria com o Instituto do Turismo de Cabo Verde e a Agência de Viagens e Turismo Actour; Sandra Silva Costa visitou a Boa Vista a convite do Barceló Marine Boa Vista; e Camilo Soldado chegou à Mongólia através de um convite do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.

    A nota final identifica o Real Marina Hotel & Spa como entidade que suportou a deslocação, não se esquecendo o Público de indicar o preço e o endereço electrónico para as reservas. Tudo feito numa peça jornalística.

    Em Setembro, Vera Moutinho e Matthis Kleeb produziram na Noruega uma reportagem resultante de convite da Embaixada norueguesa em Lisboa; Inês Nadais acompanhou em França o espectáculo de Tiago Rodrigues numa deslocação apoiada pelo Centro Cultural de Belém, pela Culturgest e pelo Teatro Municipal do Porto; Alexandra Prado Coelho publicou uma reportagem sobre o luxo hoteleiro de Porto Santo a convite do próprio Legacy Ithos; Diogo Cavaleiro foi levado a Paris pelo grupo Banque Populaire et Caisse d’Épargne, interessado em apresentar aos jornalistas portugueses os seus planos para o Novo Banco; e Bárbara Reis fechou o quadrimestre em Belgrado, a convite da Embaixada da Sérvia em Lisboa. Muitos destes casos têm sido revelados pelo ContraProva, na rubrica saturnina Aliança das Carteiras.

    Não estamos perante uma excepção ditada por uma oportunidade jornalística rara, mas diante de um sistema editorial: as fontes públicas ou comerciais escolhem destinos, abrem portas, pagam ou subsidiam deslocações, oferecem alojamento e, por vezes, refeições. O PÚBLICO transforma depois esse itinerário em conteúdo editorial e acredita que uma linha final com a identidade do pagador restitui a independência que decidiu não financiar. A transparência permite ao leitor ver a boleia, mas não converte a boleia em autonomia.

    Na sua crónica de ontem, Bárbara Reis teve ainda o despudor de tentar legitimar a promíscua prática invocando “os melhores jornais do mundo” e adianta mesmo que o Washington Post, a BBC ou outros viajam há anos a convite de governos.

    A reportagem de Amílcar Correia e Daniel Rocha, publicada no dia 12 de Setebro, foi realizada numa viagem paga pela TAP Air Portugal, pela CTur, de Curitiba, e pela Visit Iguassu.

    Ora, o Washington Post constitui uma escolha particularmente infeliz. A sua política ética actual começa por uma frase que dispensa seminários: “We pay our own way.” O jornal declara que não aceita viagens gratuitas e que não aceita pagamentos, incluindo despesas, de governos ou organizações financiadas por governos. Se Bárbara Reis quis dizer apenas que jornalistas do Washington Post acompanham iniciativas organizadas por governos, nem esse exemplo lhe serve: podem aceitar o acesso mas pagam as despesas. Se quis dizer que aceitam que os governos lhes paguem avião e hotel, então a afirmação é falsa à luz das regras publicadas pelo próprio jornal.

    A Associated Press aplica exactamente o princípio que Reis procura fazer agora parecer exótico: quando uma fonte organiza uma deslocação que a agência considera jornalisticamente relevante, a AP vai — e paga a sua parte. Se o acesso implicar viajar no avião privado de uma fonte, reembolsa um valor razoável. O El País estabelece como regra geral que não aceita convites para produzir informação; as excepções carecem de autorização da direcção e o patrocínio deve ser declarado. O Le Monde admite viagens suportadas por terceiros, mas chama-lhes aquilo que são — deslocações organizadas com finalidade promocional —, determina que permaneçam excepcionais, exige justificação profissional e obriga à identificação de quem pagou.

    Portanto, nem sequer no universo dos jornais que admitem excepções existe a naturalidade displicente sugerida por Bárbara Reis. Uns pagam sempre. Outros partem da recusa. Outros toleram convites em circunstâncias excepcionais e com transparência. A transparência, porém, nunca transforma o conflito numa virtude. Escrever no fim de cerca de 20 reportagem em apenas quatro meses que a embaixada pagou a viagem não faz desaparecer o facto de a embaixada ter pagado a viagem. Apenas permite ao leitor conhecê-lo.

    O Washington Post, invocado por Bárbara Reis como exemplo, estabelece precisamente o contrário: paga as próprias despesas e não aceita viagens gratuitas nem custos suportados por governos. Foto: D.R.

    Bárbara Reis explica ainda que a deslocação estava organizada havia meses, que a entrevista a Zoran Kesić foi solicitada pelos próprios jornalistas e que, em quatro dias, realizaram onze entrevistas à margem da agenda oficial. Muito bem. Esses factos respondem a uma acusação de controlo editorial, caso alguém a queira formular. Não respondem ao problema deontológico.

    Um jornalista pode aceitar uma passagem aérea paga por um Governo e continuar a fazer perguntas incómodas; pode até produzir uma excelente reportagem. O conflito não está naquilo que escreveu, mas nas condições materiais que aceitou para poder escrever e na erosão de uma fronteira que deveria interessar sobretudo a quem vive da confiança dos leitores.

    Talvez os jornais comecem a morrer muito antes de fecharem portas. Morrem um pouco quando os princípios passam a ser considerados luxos financeiros; mais um pouco quando as excepções se transformam em rotina; e bastante quando aqueles que ainda perguntam por esses princípios deixam de ser interlocutores e passam a “conspiracionistas”. O velho PÚBLICO queria que as despesas fossem suas porque percebia que a independência também se compra — no sentido literal de pagar o próprio bilhete para não ficar a dever a viagem a ninguém. O PÚBLICO de Bárbara Reis acabou por descobrir uma solução mais barata: paga o Governo estrangeiro e acrescenta-se uma linha no fim.

    O PÚBLICO nasceu com regras exigentes de independência; décadas depois, a prática das viagens a convite tornou-se corrente na redacção. Foto: PÁGINA UM

    Penitencio-me, por isso, pelo título que escolhi em 21 de Setembro. “Jornalismo na lama ou os palhaços foram ao circo pagos pelo Governo da Sérvia” continha uma injustiça: ainda atribuía demasiada importância ao circo. Depois de ler Bárbara Reis, o problema parece-me mais profundo. Quando uma antiga directora de um jornal que nasceu com regras exigentes transforma a cedência dessas regras em normalidade, invoca como exemplo um jornal cuja norma diz e o contrário e chama conspiracionistas aos que se recusam a confundir transparência com independência, já não estamos perante uma simples viagem a Belgrado. Estamos perante a pedagogia da rendição.

    Se hoje tivesse de dar um título ao caso, seria bastante mais simples: “Bárbara Reis, a algoz do jornalismo.”

  • GNR diz não ter base de dados sobre uso de bens apreendidos

    GNR diz não ter base de dados sobre uso de bens apreendidos

    A Guarda Nacional Republicana (GNR) recusou ao PÁGINA UM o acesso aos processos e registos sobre bens apreendidos, arrestados ou perdidos a favor do Estado que passaram pela sua utilização desde 2020. Na primeira resposta recebida de uma ronda de oito entidades públicas, a GNR invoca risco operacional, segredo de justiça e um esforço “manifestamente desproporcionado”, mas acaba por admitir não dispor sequer de uma base de dados que concentre a totalidade da informação.

    Ou seja, tal como como se verificará com a Polícia Judiciária, o descontrolo na gestão de bens apreendidos é absoluto porque sem uma base de dados ninguém no Comando Geral da GNR poderá indicar quantos bens existem nestas condições nem onde estão localizados. Ou mesmo se estão a ser usados a título pessoal por altos quadros da instituição.

    Perante esta recua, e sobretudo pela alegações da GNR, PÁGINA UM já apresentou nesta terça-feira uma intimação ao Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa para obrigar o Ministério da Administração Interna a disponibilizar o acesso a documentação mesmo avulsa e distribuída por diversos departamentos.

    O requerimento inicial do PÁGINA UM, apresentado em 23 de Setembro, procurava reconstruir o percurso administrativo dos bens que entraram na esfera da GNR: desde a apreensão e eventual declaração de utilidade operacional até à unidade beneficiária, avaliações, transferências, despesas, cessação, restituição ou integração no património do Estado. O pedido abrangia veículos, embarcações, equipamentos electrónicos e outros bens entre Janeiro de 2020 e Setembro de 2026.

    A resposta chegou dois dias depois. Assinada pelo tenente-coronel Carlos Canatário, chefe da Divisão de Comunicação e Relações Públicas, começa por recusar o pedido em bloco. Segundo a Guarda, “grande parte” da documentação respeita a meios afectos à actividade operacional, cuja divulgação poderia comprometer a capacidade operacional, a eficácia das operações e a segurança dos militares.

    A GNR apreende uma vasta diversidade de bens no âmbito das suas operações, desde veículos e equipamentos a mercadorias, dinheiro, armas ou estupefacientes. Parte desses bens pode vir a ser destinada a utilização operacional, ficando sujeita a regras próprias de registo, controlo e destino. Foto: GNR.

    E, em seguida, a GNR acrescenta que não dispõe de “documento ou base de dados” que concentre a informação pedida e sustenta que a recolha dos elementos exigiria recursos desproporcionados. Invoca ainda bens apreendidos em processos criminais, sujeitos a segredo de justiça, dizendo ser “alguns” casos, mas nem sequer os quantifica.

    A resposta deixa, desde logo, uma questão pertinente: se a GNR não dispõe de uma base de dados que concentre, nos termos pedidos, o universo dos bens apreendidos que utiliza, como controla, em termos globais, património que pode permanecer durante anos ao serviço da instituição?

    O regime jurídico da avaliação, utilização e alienação de bens apreendidos pelos órgãos de polícia criminal, em vigor desde 2007, obriga a que cada bem seleccionado para utilização operacional seja objecto de registo informático, com descrição, fotografias, marca, modelo, matrícula ou outro identificador, estado de conservação e local onde se encontra.

    Nesta operação da GNR, a apreensão abrangeu dinheiro, telemóveis, balanças de precisão, substâncias suspeitas e outros objectos. O exemplo mostra como os bens à guarda das forças policiais podem ter natureza e valor muito distintos, exigindo registos que permitam acompanhar a sua localização, utilização e destino. Foto: GNR.

    A declaração de utilidade operacional tem de ser averbada nesse registo e comunicada por via electrónica às autoridades competentes. O mesmo sucede quando cessa a utilização. A lei não impõe uma base única com todos os campos pedidos pelo PÁGINA UM, mas impõe um rasto informático de cada bem utilizado.

    A recusa ganha maior relevo porque o requerimento antecipara as objecções agora invocadas. No requerimento, o PÁGINA UM declarou que não pretendia a criação de uma base de dados nova, nem mapas ou estudos feitos de propósito: pediu documentos existentes e exportações obtidas por simples manipulação dos sistemas. E aceitou mesmo a disponibilização faseada, expurgo de informação protegida e excluiu dados operacionais em tempo real susceptíveis de comprometer operações, instalações ou militares.

    Perante um eventual volume elevado, a GNR foi ainda convidada a indicar o número aproximado de processos, os serviços detentores e uma calendarização de entrega. Mas a resposta não apresentou nenhuma dessas alternativas, o que levou o PÁGINA UM a intentar logo no dia seguinte à recusa global uma intimação urgente no Tribunal Administrativo de Lisboa.

    O artigo 3.º do Decreto-Lei n.º 11/2007 obriga ao registo informático individual de cada bem seleccionado para utilização operacional, incluindo identificação, fotografias, estado de conservação e localização, bem como ao averbamento e comunicação da decisão de utilização às autoridades competentes.

    Também a invocação genérica do segredo operacional não encerra a questão. A Lei de Acesso aos Documentos Administrativos permite restringir informação que possa colocar em causa a capacidade operacional ou a segurança das forças e serviços de segurança, mas determina a comunicação parcial sempre que a matéria reservada possa ser expurgada.

    Ora, mas a GNR não identificou documentos concretos, não quantificou o universo abrangido e não separou informação histórica e patrimonial de informação operacional sensível. Simplesmente recusou o acesso ao conjunto.

    A própria intimação do PÁGINA UM entretanto apresentada salienta que expressões como “grande parte”, “um número muito elevado” ou “alguns dos bens” não permitem saber que parcelas estão efectivamente protegidas nem controlar a proporcionalidade da recusa.

    Rui Alberto Ribeiro Veloso, comandante-geral da GNR. Foi ao comando que dirige que o PÁGINA UM requereu o acesso aos registos e processos relativos aos bens apreendidos utilizados pela Guarda, pedido entretanto recusado pela instituição. Foto: GNR.

    A investigação ampla do PÁGINA UM surge num momento em que a utilização de bens apreendidos pelas polícias deixou de constituir uma questão confinada aos serviços administrativos. Luís Neves, actual ministro da Administração Interna e antigo director nacional da Polícia Judiciária até Fevereiro, tomou posse no Governo em 23 de Fevereiro, mas já enquanto governante continuou a utilizar um Volkswagen Golf GTD apreendido pela PJ que conduzia quando chefiava aquela polícia. A viatura, associada ao processo de Rúben Oliveira, conhecido por “Xuxas”, foi cedida ao gabinete do ministro em regime de comodato, e o Ministério Público abriu um inquérito para apurar as circunstâncias dessa utilização.

    Outro inquérito incide sobre um atrelado apreendido na Operação Pacoba que acabou armazenado nas instalações da Construbarcelos, empresa com contratos com a PJ e cujo proprietário realizou obras para Luís Neves.

    Foi neste quadro que o PÁGINA UM alargou o escrutínio, procurando saber não apenas o que aconteceu nos casos que chegaram aos jornais, mas qual o universo de bens apreendidos ao serviço de entidades públicas, quem os recebeu, com que fundamento, durante quanto tempo, com que custos e com que destino.

    Luís Neves, ministro da Administração Interna e antigo director nacional da Polícia Judiciária. Por ser o Ministério da Administração Interna a entidade tutelar da GNR, a intimação apresentada pelo PÁGINA UM no Tribunal Administrativo é dirigida contra aquele Ministério. Foto: captura de ecrã.

    A ronda principal de pedidos abrangeu, nesta fase, a Guarda Nacional Republicana (GNR), a Polícia de Segurança Pública (PSP), o Gabinete de Recuperação de Ativos (GRA) da Polícia Judiciária, a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), a Autoridade Tributária e Aduaneira (AT), a Polícia Marítima, integrada na Autoridade Marítima Nacional (AMN), o Gabinete de Administração de Bens (GAB), integrado no Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça (IGFEJ), e a Secretaria-Geral do Ministério da Justiça.

    A GNR foi a primeira destas entidades a responder e, em vez de abrir os registos, apresentou três razões para os manter fechados: risco operacional, dispersão documental e segredo de justiça. A “decisão” passa agora para os tribunais administrativos, que terão de apurar se a gestão de bens apreendidos — e, em muitos casos, colocados ao serviço de instituições policiais e militares — pode continuar a andar ao deus-dará, como se o património sob controlo do Estado fosse gerido numa casa da mãe Joana.

  • Prioridades de Montenegro: Dinheiro para a guerra, sim; habitação, saúde e transportes ficam para trás

    Prioridades de Montenegro: Dinheiro para a guerra, sim; habitação, saúde e transportes ficam para trás

    O Governo de Luís Montenegro tem deixado nas contas públicas uma indelével impressão digital sobre as suas prioridades: dinheiro para a Defesa — ou, mais concretamente, para a guerra da Ucrânia —, mesmo para além do que estava orçamentado; na habitação, saúde e transportes, centenas de milhões de euros de investimento prometido ficaram adiados.

    Num Orçamento onde os recursos não são infinitos, o cobertor foi puxado para o lado militar, sobretudo para a Ucrânia — e deixou a descoberto, em Portugal, algumas das áreas onde o país e a sua população enfrentam maiores carências.

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    Gastos na defesa, um eufemismo para os gatos feitos para alimentar uma máquina de guerra na Ucrânia. Foto: Mohammed Ibrahim

    Os números, claros e evidentes, constam do Parecer sobre a Conta Geral do Estado de 2025, entregue esta pelo Tribunal de Contas ao presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco. E ao longo do texto mostram uma assimetria que dificilmente poderia ser mais expressiva: enquanto o investimento público ficou 2.294 milhões de euros abaixo da previsão do Orçamento, a Defesa conseguiu não apenas gastar aquilo que lhe estava destinado como ultrapassar a previsão em 695 milhões.

    Do outro lado ficaram os transportes, com menos 1.006 milhões de euros de investimento do que o programado; a habitação e infra-estruturas colectivas, com menos 417 milhões; e a saúde, com menos 384 milhões. Só estas três áreas somaram uma subexecução de 1.807 milhões de euros.

    A opção militar também se encontra noutra parcela das contas. As aquisições de bens de capital aumentaram 19,4% em 2025 e dois terços desse crescimento concentraram-se na Defesa. Entretanto, apesar de o investimento público ter aumentado 31,5% relativamente a 2024, terminou o ano mais de dois mil milhões de euros abaixo daquilo que o próprio Governo inscrevera no Orçamento.

    Entrega do Parecer sobre a Conta Geral do Estado de 2025 ao presidente da Assembleia da República, em 29 de Setembro de 2026. Foto: A.R.

    Não faltou, portanto, dinheiro para tudo. Faltou dinheiro — e capacidade de o transformar em investimento — de forma muito desigual. E quando surgiu durante o ano uma nova prioridade política de Montenegro para mostrar lá fora – em gastos militares –, o Governo encontrou sempre margem para acrescentar centenas de milhões àquilo que inicialmente previra gastar.

    Esta execução orçamental, detectada pelo Tribunal de Contas, acaba por acompanhar uma escolha assumida pelo próprio primeiro-ministro. Em Junho do ano passado, Luís Montenegro decidira antecipar o cumprimento da meta de despesa militar correspondente a 2% do Produto Interno Bruto. No mês seguinte, quantificou a factura: seriam necessários cerca de 1.300 milhões de euros adicionais naquele ano para alcançar o objectivo.

    E o dinheiro apareceu para isso. Portugal terminou 2025 com a meta dos 2% cumprida, segundo os dados posteriormente divulgados pela NATO. Mas como o dinheiro público funciona como um cobertor de dimensão limitada, puxá-lo para cobrir uma nova despesa significa reduzir a margem disponível para as restantes.

    O maior buraco entre intenção e execução encontra-se nos transportes. O parecer identifica, na subexecução de cerca de mil milhões de euros, os investimentos que foram adiados sine die, sobretudo os da Infraestruturas de Portugal e dos metropolitanos de Lisboa e do Porto.

    No caso da habitação e infra-estruturas colectivas, com 417 milhões de euros abaixo da previsão, a dimensão do desvio assume particular significado no Parque Público de Habitação a Custos Acessíveis. Só este programa, executado pela Construção Pública, gastou menos 247 milhões de euros do que estava previsto.

    Num país confrontado com preços elevados da habitação e dificuldades de acesso a casa, quase um quarto de milhar de milhões de euros destinados a aumentar a oferta pública não chegaram a transformar-se no investimento programado.

    Nuno Melo, ministro da Defesa. Foto: D.R.

    Na saúde, com menos 384 milhões de euros de investimento do que o previsto, o parecer do Tribunal de Contas mostra que os gastos com pessoal até aumentaram 8,5%, bem como as aquisições de bens e serviços, que cresceram 6%. Mas, mesmo assim, centenas de milhões de euros de investimento programado não foram executados, porque houve desvio para a interminável guerra na Ucrânia e para um sistema económico e industrial que tem beneficiado com a sua continuidade.

    Não foi apenas neste aspecto que o Tribunal de Contas — precisamente quando o Governo Montenegro pretende reduzir de forma substancial o perímetro da sua fiscalização prévia, deixando fora do visto mais de 90% dos contratos hoje abrangidos — foi particularmente crítico. O próprio Tribunal já advertiu que a reforma governamental fragiliza a prevenção, o acompanhamento e a responsabilização no controlo das finanças públicas. Pela terceira Conta Geral do Estado consecutiva, a de 2025 voltou a não poder ser certificada.

    Os auditores identificaram ainda erros que subvalorizaram receitas e despesas em pelo menos 331 milhões de euros e omissões relativas à dívida pública, activos financeiros, património imobiliário e responsabilidades contingentes. A Conta omitiu ainda 22.543 milhões de euros relativos ao stock de dívida dos serviços e fundos autónomos e das entidades públicas reclassificadas.

    Prioridades de Luís Montenegro: primeiro-ministro tem investido mais na Defesa para o exterior e menos em sectores carenciados no país. Foto: D.R.

    Também os fundos europeus revelam problemas de execução. Mais de dois mil milhões de euros do PRR permaneciam no final do ano retidos numa fase intermédia da cadeia de financiamento, sem terem chegado aos beneficiários finais, enquanto o Portugal 2030 apresentava uma taxa de execução de apenas 14,7% depois de decorridos quatro anos do período de programação.

    O Tribunal encontrou ainda falta de quantificação de cerca de um terço dos benefícios fiscais, problemas na atribuição tempestiva de apoios destinados às vítimas de calamidades e uma situação em que 30% dos imóveis da Segurança Social estavam devolutos, ocupados indevidamente ou sem contrato de arrendamento válido.

    No total, são 57 as “recomendações” ao Governo e à Assembleia da República, depois de constatar que a maioria das recomendações anteriores continua apenas parcialmente concretizada.

  • Calvário

    Calvário

    Pela sexta vez, estou a caminho do Porto para comparecer no julgamento em que sou acusado de 31 crimes de difamação, na sequência da queixa apresentada pelo médico Gustavo Carona. A esta peregrinação já posso chamar calvário, embora dispense a canonização e preferisse estar na redacção.

    O processo incide sobre críticas que fiz às suas intervenções públicas durante a pandemia. Critiquei, contestei e recorri à ironia e à sátira. Assumo o que escrevi e estou a defender em tribunal o seu fundamento, porque continuo a considerar que a notoriedade de uma pessoa não deve funcionar como um certificado de imunidade ao escrutínio. Ainda mais como fez Gustavo Carona durante e após a pandemia.

    Mas o desgaste de um processo não espera pela sentença. Acumula-se nas deslocações, na preparação da defesa, nas despesas e no tempo retirado ao trabalho e à vida pessoal. Cada nova ida ao tribunal ocupa o lugar de outras coisas: documentos por ler, fontes por ouvir, investigações por concluir. Para quem dirige um jornal com os recursos do PÁGINA UM, esta contabilidade pesa muito mais do que pode parecer a quem vê apenas uma data marcada numa agenda.

    Chamo-lhe calvário também por isso. A discussão sobre liberdade de expressão costuma fazer-se com palavras solenes; a experiência de a defender faz-se com quilómetros, contas e dias que ninguém devolve. Mesmo uma absolvição não restituirá o tempo consumido pelo caminho.

    Preocupa-me o que este desgaste pode ensinar a quem observa: que talvez seja mais cómodo escolher assuntos inofensivos, evitar certas figuras e substituir a crítica por uma prudente vénia. Quando um jornalista começa a decidir o que escreve em função do custo de se defender, em vez do interesse que a matéria tem para os leitores, alguma coisa essencial já se perdeu.

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    Foto: Tingey Injury Law Firm

    Aos meus advogados, que partilham estas deslocações e esta luta, deixo um agradecimento especial. Nesta via-sacra, a paciência deles merece mais reconhecimento do que as minhas queixas. Aos leitores que continuam a apoiar o PÁGINA UM, agradeço a possibilidade de manter o jornal a trabalhar enquanto parte do seu tempo e dos seus recursos fica pelo caminho.

    Volto ao Porto para responder pelo que escrevi, não para prometer que deixarei de escrever.

  • Em contraciclo, ERC descobriu um maná no ‘caso das gémeas’: com segunda coima, encaixe já vai nos 57.000 euros

    Em contraciclo, ERC descobriu um maná no ‘caso das gémeas’: com segunda coima, encaixe já vai nos 57.000 euros

    No dia em que surgiu a acusação no ‘caso das gémeas’ — com António Lacerda Sales, antigo secretário de Estado da Saúde, Luís Pinheiro, ex-diretor clínico do Hospital Santa Maria, Nuno Rebelo de Sousa, filho do antigo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, e Daniela Martins, mãe das crianças, entre o lote dos acusados —, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) mostra que descobriu neste processo uma inesperada fonte de receitas.

    Cerca de duas semanas depois de se conhecer uma coima de 50 mil euros aplicada à TVI por sete reportagens da equipa de Sandra Felgueiras — sete contra-ordenações consideradas “muito graves”, sobretudo pela exposição da imagem das duas crianças e, num dos trabalhos, da morada da família —, o PÁGINA UM soube que o regulador regressou ao mesmo universo jornalístico para aplicar mais uma sanção.

    ‘Caso da gémeas’: SNS gastou indevidamente 4 milhões de euros, mas a ERC está a esforçar-se para recuperar algum dinheiro, através de coimas. Foto: captura de ecrã.

    Desta vez, a ‘vítima’ foi Jacques Rodrigues, proprietário da revista Nova Gente, condenado a pagamento e 7.000 euros por incumprimentos das regras de publicação de um direito de resposta do advogado da mãe das gémeas luso-brasileiras que sofrem de atrofia muscular espinhal e que beneficiaram de um tratamento especial que custou cerca de quatro milhões de euros aos contribuintes do Serviço Nacional de Saúde (SNS). A ironia do caso é que esse direito de resposta visava uma entrevista de Sandra Felgueiras à revista Nova Gente.

    Contas feitas, em dois processos, o ‘mealheiro’ dos conselheiros do regulador já vai em 57.000 euros. O dinheiro das coimas não constitui, naturalmente, receita pessoal dos membros da ERC e o pagamento determinado nesta decisão é feito por transferência para conta indicada pelo regulador ou através de cheque emitido à ordem da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública. Mas, entre os 50 mil euros cobrados à TVI e os 7 mil agora impostos ao proprietário da Nova Gente, o processo das gémeas vai acumulando uma curiosa factura sancionatória em torno dos órgãos de comunicação social que lhe deram espaço.

    A nova decisão, aprovada pelos cinco membros do Conselho Regulador — Helena Sousa, Pedro Correia Gonçalves, Telmo Gonçalves, Carla Martins e Rita Rola — encerra um processo iniciado dois anos antes e tem como origem uma entrevista de Sandra Felgueiras publicada pela Nova Gente em Março de 2024. Nessa entrevista, com chamada à primeira página, a jornalista da TVI contou ter recebido telefonemas de um advogado ligado à família das gémeas, referindo que este lhe teria dito que ela “devia morrer” e que aquilo que fizera era “horroroso”.

    Capa da Nova Gente de 6 DE Março de 2024, com destaque para a entrevista a Sandra Felgueiras que esteve na origem do pedido de direito de resposta de Wilson Bicalho e, mais tarde, da coima de 7.000 euros aplicada pela ERC ao proprietário da revista.

    Wilson Bicalho, advogado da família, reagiu exigindo um direito de resposta. A Nova Gente recebeu o pedido em 14 de Março, mas a directora da revista recusou parte do texto por considerar que vários parágrafos não mantinham uma “relação directa e útil” com a entrevista. Bicalho recorreu então à ERC, que lhe deu razão e determinou que a revista publicasse a resposta na primeira edição impressa depois de receber a decisão, assim como na edição online.

    A ordem continha instruções pormenorizadas. Na Internet, a Nova Gente teria de colocar junto da entrevista original uma referência ao direito de resposta e uma hiperligação para o respectivo texto. Tanto no papel como na edição digital, a publicação deveria ainda mencionar que resultava de uma deliberação da ERC. O regulador advertiu também para a possibilidade de aplicação de uma sanção pecuniária compulsória em caso de atraso.

    A resposta não apareceu dentro do prazo. Bicalho voltou a queixar-se à ERC em 11 de Maio e só depois de nova interpelação do regulador, em 22 de Maio, a revista publicou o texto online e, na edição de 30 de Maio, em papel. Mesmo então não terá cumprido todos os requisitos: faltaria na versão digital a referência junto da entrevista original e a hiperligação para a resposta. E, aparentemente, em nenhuma das versões surgia a menção de que a publicação decorria de uma deliberação da ERC.

    Jacques Rodrigues já foi dono de um grupo de media relevante. Agora, está insolvente. Foto: D.R.

    No papel, a resposta ficou ainda numa coluna da página 75, sem chamada à capa, enquanto a entrevista de Sandra Felgueiras ocupara seis páginas e tivera destaque de primeira página.

    Até aqui, a matéria factual não oferece grande mistério: existiu uma decisão da ERC e a revista não a cumpriu no prazo nem nos termos impostos. O elemento mais peculiar da deliberação surge, porém, quando o regulador abandona a constatação do incumprimento e procura demonstrar que existiu dolo, requisito necessário para preencher o ilícito que faz aumentar a coima.

    A directora da Nova Gente, Patrícia Branco, e a chefe de redacção, Neuza Gomes, disseram durante o processo que ocorrera uma falha de comunicação interna. Cada uma presumira que a outra trataria da publicação do direito de resposta. Ambas admitiram conhecer as regras aplicáveis e reconheceram que, depois da primeira falha, a resposta acabou também por ser publicada sem todos os elementos determinados pelo regulador.

    A ERC recusou acreditar que tudo se resumisse a um lapso. Na sua reconstrução dos acontecimentos, a sucessão de falhas — recusa inicial, atraso na publicação e cumprimento posterior incompleto — transformou-se, na visão do conselho regulador dos media, numa conduta intencional.

    Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social: Helena Sousa, Pedro Correia Gonçalves, Carla Martins, Telmo Gonçalves e Rita Rola. Foto: D.R.

    A deliberação chega a afirmar que a cronologia “destrói qualquer hipótese de actuação meramente negligente” e demonstra uma “estratégia deliberada de desgaste”, concluindo que existiu intenção de reduzir a eficácia do direito de resposta.

    O salto mais relevante surge, por outro lado, na identificação de quem teve essa intenção. Patrícia Branco e Neuza Gomes declararam expressamente que nunca informaram Jacques Rodrigues da existência do direito de resposta.

    A própria matéria de facto registada pela ERC confirma que o proprietário não fora informado pelas duas responsáveis editoriais, mas mesmo assim nada impediu o regulador de concluir que, afinal, foi o próprio Jacques Rodrigues que actuou com dolo.

    Em todo o caso, a argumentação da ERC passa por uma norma da Lei de Imprensa que determina que a responsabilidade contra-ordenacional pelas infracções recai sobre o proprietário da publicação. Para sustentar esta construção, o regulador invoca um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 2015, embora tenha o cuidado de reconhecer que esse processo não tratava “uma situação com as exactas circunstâncias” agora em apreciação.

    Crianças servem de cartaz de um documentário produzido em Agosto passado, do qual se conhece apenas um breve trailer, de onde se retirou a fotograma.

    A ERC acaba, assim, por fazer duas operações distintas. Primeiro, considera que as responsáveis editoriais agiram de forma deliberada, recusando a explicação do lapso. Depois, transfere juridicamente esse elemento subjectivo para o proprietário, apesar de não lhe atribuir qualquer intervenção material na decisão editorial e apesar de as próprias testemunhas terem declarado que Jacques Rodrigues nem sequer conhecia o problema.

    A qualificação como dolosa teve consequências financeiras, porque os limites passam a situar-se entre 5.000 e 25.000 euros. O regulador considerou a gravidade do incumprimento, mas reconheceu que, além da ausência de benefício económico, Jacques Rodrigues não possuía antecedentes contra-ordenacionais e se encontra insolvente. Ainda assim, fixou a sanção em 7.000 euros.

    A conta do “caso das gémeas” para os media sobe assim, por agora, para 57 mil euros para os cofres da ERC: 50 mil à TVI pelas reportagens que revelaram o processo que envolveu o acesso das crianças ao medicamento Zolgensma e mais 7 mil ao proprietário da Nova Gente por um direito de resposta nascido de uma entrevista à jornalista que conduziu essa investigação.

    ERC já aplicou coimas no valor de 57.000 euros no decurso do ‘caso das gémeas’. Foto: PAV.

    A ironia fica, por agora, nesta curiosa sequência: o “caso das gémeas”, que começou por colocar sob escrutínio a utilização de cerca de quatro milhões de euros do Serviço Nacional de Saúde e as relações entre a família das crianças, a Presidência da República e estruturas do Estado, começa também a produzir uma pequena contabilidade paralela.

    Por enquanto, na coluna das receitas sancionatórias associadas à cobertura jornalística do caso, a ERC já encontrou 57 mil euros. Haverá mais casos — e receitas futuras — na fila?

  • Memória de desastres ecológicos (que não precisaram da licença do ICNF)

    Memória de desastres ecológicos (que não precisaram da licença do ICNF)

    Noventa mil mosquitos parecem bastante menos assustadores quando se acrescentam três palavras: machos, estéreis e irradiados. Os machos de Aedes albopictus não picam — apenas as fêmeas procuram sangue para a produção dos ovos — e, por consequência, não constituem vectores directos das doenças associadas ao mosquito-tigre-asiático.

    A própria técnica usada em Alvalade, a chamada Técnica do Insecto Estéril, parte de um princípio simples: criar machos em massa, esterilizá-los por radiação e libertá-los para competirem com os machos selvagens, esperando que os acasalamentos com as fêmeas não produzam descendência.

    Mosquito-tigre-asiático (Aedes albopictus), espécie invasora presente em Portugal. Foto: D.R.

    Sob este prisma, a libertação de 90 mil exemplares em plena Lisboa até se prestava a uma notícia simpática de ciência aplicada. E foi, em grande medida, assim que a comunicação social portuguesa a tratou ao longo da semana passada. O Público anunciou: “Trinta mil mosquitos estéreis vão ser libertados em Lisboa”, mas sossegou logo os leitores no próprio título: “não vão picar”.

    A SIC Notícias apresentou a iniciativa como um “projecto experimental”, enquanto a CNN Portugal fez praticamente da garantia a notícia: “Mais 30 mil mosquitos vão ser libertados em Lisboa. Mas estes não picam”. Também a TVI pegou no assunto nesse dia, explicando que havia “mais 30 mil mosquitos à solta em Lisboa”, mas acrescentando entre parênteses que isso “não é necessariamente mau”.

    A Renascença salientava o objectivo de “reduzir [a] população do mosquito-tigre-asiático” e reproduzia a explicação de que os insectos tinham sido esterilizados através de uma técnica “comprovada e segura”. E o Correio da Manhã apresentou a libertação como um projecto experimental destinado a reduzir a população da espécie.

    A CNN Portugal noticiou, via Lusa, a libertação de mosquitos em Lisboa, sublinhando que os machos “não picam”.

    A notícia circulou, assim, quase sempre sob o mesmo prisma: os machos não picavam, tinham sido esterilizados, não produziriam descendência e a experiência destinava-se a proteger a saúde pública. Nenhum dos principais textos publicados nessa vaga que foi possível localizar perguntava, porém, quem autorizara a libertação, em pleno espaço urbano, de dezenas de milhares de exemplares de uma espécie classificada como invasora, nem se o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) fora sequer chamado a pronunciar-se. A curiosidade científica interessou, mas a legalidade e o controlo da experiência, aparentemente, não.

    A pergunta menos divertida foi feita pelo PÁGINA UM que revelou, na passada sexta-feira, que as três largadas, de 30 mil mosquitos cada, tinham sido realizadas sem que o ICNF tivesse concedido licença ou aprovação formal. No dia seguinte, só o diário espanhol La Razón pegou na investigação portuguesa, citou expressamente o PÁGINA UM e colocou no título aquilo que a cobertura inicial portuguesa nem sequer perguntara: como se libertaram 90 mil exemplares de uma espécie invasora em meio urbano sem a autorização legalmente exigível?

    A falta de uma licença pode parecer, neste caso, o triunfo da burocracia sobre o bom senso. Se os machos são estéreis, se não picam, se vivem poucos dias e se o objectivo consiste justamente em reduzir uma espécie invasora, para que serviria um papelucho do ICNF?

    O ICNF é a entidade pública responsável pela conservação da natureza e pela aplicação do regime das espécies exóticas invasoras em Portugal. Foto: D.R.

    A resposta encontra-se menos nos escaninhos administrativos, e mais na História da Ecologia Aplicada.

    O legislador português até explicou, com uma franqueza pouco habitual em diplomas legais, a razão do controlo prévio. O Decreto-Lei n.º 92/2019, que regula a introdução, detenção e controlo de espécies exóticas, invoca a “complexidade ou impossibilidade de prever com rigor o comportamento de determinadas espécies exóticas” e, por isso, exige “especial cautela”. O diploma submete a introdução na natureza de espécies exóticas ao princípio da precaução e prevê intervenção do ICNF, avaliação de riscos e mecanismos para conter efeitos adversos não esperados.

    A frase contém, no fundo, mais História da Ciência do que retórica jurídica. O problema das introduções biológicas nunca esteve centrada apenas naquilo que se sabia que o organismo iria fazer. Muitas catástrofes começaram por uma função que ninguém pensou que ele pudesse fazer.

    Equipa de investigadores que libertou os mosquitos-tigre-asiáticos conforme divulgado comunicado divulgado pela Unidade Local de Saúde de Santa Maria. Foto: ULS de Santa Maria.

    Vejamos alguns casos conhecidos desde o século XIX até aos nossos dias.

    Em 1869, nos arredores de Boston, o francês Étienne Léopold Trouvelot procurava uma solução para melhorar a produção de seda. Trouxe para Medford exemplares europeus de uma mariposa – conhecida como lagarta-do-sobreiro ou traça-cigana (Lymantria dispar), e hoje nomeada nos Estados Unidos como spongy moth – para realizar experiências de cruzamento com insectos produtores de seda. Alguns escaparam. A experiência doméstica de entomologia transformou-se numa das mais persistentes pragas florestais norte-americanas.

    Entre 1920 e 2020, a espécie desfolhou cerca de 38 milhões de hectares nos Estados Unidos, mais de quatro vezes o tamanho de Portugal. Em períodos de grande abundância, os pêlos das lagartas podem ainda provocar irritações cutâneas, reacções alérgicas e problemas respiratórios. O pequeno acidente experimental de Medford não ficou, portanto, em Medford.

    Traça-cigana (Lymantria dispar), espécie introduzida na América do Norte no século XIX, transformou-se numa importante praga florestal, porque as suas larvas são devoradoras de folhas de carvalhos e algumas coníferas. Foto: D.R.

    Entremos no século XX. A partir de 1906, autoridades e investigadores norte-americanos introduziram repetidas vezes uma mosca parasitóide europeia, com o nome específico Compsilura concinnata, para combater várias espécies consideradas pragas, entre as quais a famigerada traça-cigana. A mosca cumpria a função esperada — parasitava lagartas —, mas não lia os protocolos científicos antes de escolher a vítima.

    Um estudo publicado em 2000 na revitsa científica Conservation Biology encontrou-a responsável por 81% da mortalidade nas primeiras fases larvares da gigante (e agora rara) mariposa-cecropia (Hyalophora cecropia) e por taxas de parasitismo próximas dos 70% na mariposa-da-seda-prometea (Callosamia promethea). O agente de controlo biológico controlava, afinal, bastante mais do que aquilo para que fora levado.

    Em 1935, a Austrália decidiu resolver outro problema com uma solução que parecia engenhosa. Besouros estavam a atacar plantações de cana-de-açúcar em Queensland e cientistas importaram sapos-cururu (Rhinella marina), já usados noutros territórios tropicais como agentes de controlo biológico.

    Pior a emenda do que o soneto: Mosca parasitóide Compsilura concinnata, introduzida na América do Norte para combater pragas, acabou por atacar também mariposas nativas. Foto: D.R.

    Os animais foram reproduzidos e libertados. O resultado entrou nos manuais de Ecologia como um dos maiores desastres de uma introdução deliberada: os sapos não resolveram o problema dos besouros, espalharam-se por vastas regiões australianas e a sua poderosa toxina passou a matar predadores nativos que tentavam comê-los.

    Uma análise científica publicada décadas depois nem sequer encontrou melhoria significativa da produção açucareira decorrente da introdução, porque os efeitos indirectos sobre outras espécies podem ter anulado qualquer benefício sobre a praga que se pretendia combater.

    O Brasil forneceria, duas décadas depois, um exemplo ainda mais próximo daquilo que significa perder o controlo sobre organismos mantidos para investigação. O geneticista Warwick Kerr importou abelhas africanas em 1956 para estudar linhagens mais produtivas e adaptadas ao clima tropical. Um ano mais tarde, um erro permitiu a fuga de 26 rainhas com pequenos enxames. Cruzaram-se com abelhas europeias já existentes nas Américas e originaram populações africanizadas que se expandiram pelo continente.

    Sapo-cururu (Rhinella marina), introduzido na Austrália para combater pragas da cana-de-açúcar e depois transformado numa das espécies invasoras mais problemáticas do país. Foto: © David Sinnott

    O impacto ultrapassou a apicultura: ataques maciços de abelhas africanizadas produziram quadros de insuficiência renal, lesões hepáticas, rabdomiólise, choque e morte; estudos epidemiológicos brasileiros tratam hoje os acidentes com estas abelhas como problema de saúde pública.

    Uma série clínica do Instituto Butantan descreveu cinco vítimas atingidas por centenas de picadas, três das quais morreram, enquanto dados nacionais analisados na literatura mostram um forte crescimento dos acidentes ao longo das últimas décadas.

    Nos finais dos anos 60 do século passado, outro insecto recebeu autorização para uma missão que parecia suficientemente específica. O gorgulho europeu (Rhinocyllus conicus) foi libertado no Canadá e depois nos Estados Unidos para combater cardos exóticos. Os testes realizados antes da introdução tinham-se concentrado sobretudo em culturas agrícolas e plantas europeias. Na altura, a possibilidade de o insecto atacar cardos nativos norte-americanos não suscitara preocupação suficiente.

    Abelha-do-mel (Apis mellifera). A subespécie africana Apis mellifera scutellata, introduzida no Brasil em 1956, cruzou-se com abelhas europeias e deu origem às populações africanizadas que depois se espalharam pelas Américas. Foto: D.R.

    Depois da libertação, o gorgulho alargou o menu. Um estudo publicado na revista Science em 1997 registou danos em 16% a 77% das inflorescências de cardos nativos, redução da produção de sementes e efeitos sobre outros insectos associados às plantas.

    As licenças para redistribuição acabariam revogadas nos Estados Unidos em 2000. Serviu apenas para atenuar os estragos: hoje encontra-se documentado o ataque a pelo menos 22 espécies nativas de cardos, que fornecem alimento a polinizadores, aves e numerosos insectos.

    A década de 1970 forneceu uma surpresa ainda mais instrutiva porque o organismo introduzido nem sequer precisou de atacar uma espécie errada para criar um problema inesperado. Moscas do género Urophora foram libertadas na América do Norte para reduzir a produção de sementes de uma herbácea do género Centarea.

    Gorgulho europeu (Rhinocyllus conicus), introduzido na América do Norte para combater cardos exóticos e que acabou por atacar também várias espécies nativas. Foto: Graham Calow.

    A selecção parecia boa: as moscas apresentavam forte especificidade pela planta-alvo. Décadas depois, investigadores descobriram uma relação que os testes iniciais não tinham previsto. As larvas das Urophora, abundantes nas cabeças das plantas durante o Inverno, transformaram-se numa fonte suplementar de alimento para o rato-veadeiro (Peromyscus maniculatus), o principal reservatório do vírus Sin Nombre (SNV), responsável pela síndrome pulmonar por hantavírus.

    Um estudo publicado em 2006 na revista científica Ecology Letters encontrou mais de três vezes mais ratos seropositivos para hantavírus nas condições em que os roedores beneficiavam daquele suplemento alimentar. Os autores não demonstraram um surto humano causado pelas moscas, mas mostraram algo talvez mais importante para a avaliação de risco: um agente de controlo podia atingir o organismo previsto e, mesmo assim, alterar uma cadeia ecológica com potencial repercussão na saúde humana. A especificidade em relação ao alvo não bastava para garantir segurança.

    Em 1974, no Taiti, e em 1977, em Moorea, surgiu uma versão quase trágica da mesma confiança. As autoridades introduziram o caracol-canibal (Euglandina rosea) para combater outro invasor, o caracol-gigante-africano, prejudicial à agricultura. Mas o tal caracol predador apreciou bastante os caracóis arborícolas endémicos das ilhas.

    Moscas do género Urophora, introduzidas na América do Norte para controlar plantas invasoras e cujas larvas acabaram por alterar a cadeia alimentar local. Foto: Peter Smith.

    Resultado: cerca de metade das 55 espécies de caracóis partulídeos das Ilhas da Sociedade são hoje consideradas extintas, quase todas do género Partula, e diversos programas de reprodução em cativeiro precisaram de salvar algumas das restantes. Ou seja, um predador introduzido para corrigir uma invasão tornou-se, ele próprio, motor de maior crise de biodiversidade.

    Nenhum destes episódios está em causa em Alvalade. Os machos esterilizados do mosquito-tigre não são sapos-cururu, abelhas africanizadas nem predadores capazes de fundar, em princípio, uma nova população. Além disso, a Técnica do Insecto Estéril possui décadas de utilização e organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Agência Internacional de Energia Atómica desenvolveram procedimentos específicos para a testar contra mosquitos Aedes.

    Mas confundir desastres ecológicos históricos com uma demonstração de perigo dos 90 mil mosquitos lisboetas será tão pouco científico como concluir, pela aparente simplicidade do ensaio do INSA, que qualquer controlo externo se torna dispensável.

    Caracol-canibal (Euglandina rosea), introduzido em ilhas do Pacífico para combater o caracol-gigante-africano e que acabou por dizimar caracóis arborícolas nativos. Foto: D.R.

    A própria literatura técnica sobre a Técnica do Insecto Estéril mostra por que razão a fiscalização não constitui um capricho. A separação dos sexos representa uma das etapas críticas do processo, uma vez que a libertação de fêmeas deve ser evitada.

    Os métodos mecânicos usados em mosquitos do género Aedes podem atingir cerca de 99% de pureza masculina, mas o resultado depende do operador. As orientações técnicas recomendam controlo de qualidade, definição dos níveis aceitáveis de fertilidade residual e avaliação do risco associado a eventual contaminação por fêmeas.

    Com efeito, existe uma diferença entre “libertamos machos”, como frase de comunicação, e “verificámos a composição dos lotes”, como procedimento científico. Num programa espanhol de Aedes albopictus, cujos resultados foram publicados em 2021, a inspecção encontrou, em média, 0,17% de fêmeas residuais nos recipientes destinados à libertação, percentagem reduzida para cerca de 0,15% através dos procedimentos adicionais de controlo. O valor é baixo e não transforma esta técnica num perigo, mas demonstra apenas que a separação biológica não se realiza por decreto nem por comunicado de imprensa. Mede-se, controla-se e documenta-se.

    O mesmo raciocínio aplica-se à esterilidade, à dose de radiação, à sobrevivência, à capacidade de voo, à competitividade dos machos e às consequências de uma eventual falha. Uma experiência científica digna desse nome, ainda mais executada por um instituto de saúde pública, não parte do princípio de que nada pode correr mal.

    Pelo contrário, a prudência deve procurar saber quanto pode correr mal, como se detecta o desvio e quem tem autoridade para interromper o procedimento. A OMS chama-lhes, sem rodeios, decisões de “go/no-go”: avançar ou não avançar.

    Nesse contexto, a questão levantada pelo PÁGINA UM não consistiu em sugerir que 90 mil machos de mosquitos apresentados como estéreis vão desencadear uma calamidade em Lisboa. Nenhum elemento permite sustentar tal coisa.

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    Foto: Markus Spiske.

    A questão consiste em perceber quem verificou que eram apenas os organismos anunciados, quem avaliou os riscos do ensaio no local escolhido, quais os critérios que permitiriam interrompê-lo e, sobretudo, qual a entidade pública que assumiu a responsabilidade de autorizar a libertação.

    Ou então fica a saber-se que em Portugal se faz investigação envolvendo espécies exóticas na base da camaradagem e do voluntarismo. Hoje, é com mosquitos-tigre-asiáticos (supostamente todos estéreis); amanhã, será com o que calhar (e logo se vê se não dá merda).

  • A Nova Europa: mais quente, mais seca e a arder mais

    A Nova Europa: mais quente, mais seca e a arder mais

    Este Verão, a União Europeia (UE) contabilizou mais de 1.800 incêndios florestais nos seus países-membros. Segundo dados do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), quase 700 mil hectares de terra tinham ardido até ao final de Agosto, cerca de duas vezes e meia a média dos últimos 20 anos para este período — mas a época de incêndios está longe de terminar. Os dados da EFFIS indicam que a época de incêndios deste ano em toda a UE foi a terceira pior alguma vez registada, a seguir a 2025 e 2022.

    “A Europa é o epicentro dos impactos das alteracções climáticas”, diz o cientista sueco Johan Rockström, director do Instituto de Potsdam para a Investigação do Impacto Climático (PIK). Na sua opinião, 2026 foi apenas o começo: “Inevitavelmente vai piorar. Vai continuar a piorar cada vez mais até ao ponto em que, receio, ultrapassemos a nossa capacidade de adaptação.”

    Foto: Célula Grega de Coordenação dos Oficiais de Ligação

    No final de Agosto deste ano, França tinha registado 53 vagas de calor desde 1947 — quando começaram os registos. Vinte e oito dessas ocorreram nos últimos 15 anos. O serviço meteorológico e climático francês prevê que, até 2050, as ondas de calor poderão tornar-se cinco vezes mais frequentes, com temperaturas potencialmente a atingir os 48 graus Celsius.

    No final de julho, o presidente francês Emmanuel Macron descreveu as condições terríveis causadas pelos incêndios florestais como “a situação mais difícil que o país enfrentou desde a Segunda Guerra Mundial”. O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez afirmou que os incêndios florestais não foram “uma série de eventos isolados”, mas sim “a expressão mais dolorosa da crise climática”.

    Este Verão, a Europa assistiu a uma antevisão do futuro — ou melhor, a várias antevisões (como em Ceuta).

    O futuro é agora.

    Um estudo recente do PIK conclui que, sem uma acção adequada, o número de incêndios florestais na Europa aumentará 39% — mesmo no cenário mais optimista de alterações climáticas. Esta projecção aplica-se a um cenário em que a temperatura média na Europa, um continente a aquecer duas vezes mais rápido que a média global e mais rápido do que qualquer outro — sobe 1,6 graus Celsius em 2100. A Europa está a aquecer mais rapidamente do que qualquer outro continente devido ao aumento da frequência das cúpulas de calor [episódios de persistência de ar muito quente sob uma área de alta pressão] e à sua proximidade ao Árctico, onde o gelo reflector está a derreter rapidamente. Aliás, a Europa já aqueceu mais de 1,6 graus Celsius nos últimos 30 anos.

    Foto: Célula Grega de Coordenação dos Oficiais de Ligação

    Neste cenário extremamente optimista — que é essencialmente um exemplo clássico de pensamento mágico — os cientistas do clima acreditam que as consequências ainda poderão ser mitigadas através de uma abordagem melhorada (envolvendo a coordenação de todas as partes interessadas e um investimento substancial). No entanto, o cenário actualmente realista para a Europa prevê um aumento das temperaturas médias de 2,6 a 3,6 graus. Nesse caso — segundo um estudo do PIK — a área total queimada na UE poderá quase triplicar.

    “Um aumento do tempo quente, seco e ventoso — condições que fazem com que pequenos incêndios se transformem em incêndios violentos — varrerá grande parte da Europa, à medida que a poluição por carbono eleva as temperaturas”, afirma o estudo PIK publicado em Agosto.

    Os cientistas estimam que a proporção de incêndios florestais na UE causados pela actividade humana é largamente superior à dos causados por causas naturais; estudos recentes indicam que este número ultrapassa os 96%. Isto não significa que os humanos tenham literalmente ateado os incêndios em si, mas sim que, ao queimar combustíveis fósseis, desencadearam as intensas alterações climáticas que servem como principal combustível para estes incêndios. “Os investimentos na gestão dos fogos podem ajudar até certo ponto, mas se continuarmos com elevadas emissões de gases com efeito de estufa, continuaremos a ver um aumento acentuado na área queimada”, diz Maik Billing, investigador de ecossistemas do PIK e autor principal do estudo, acrescentando que a gestão dos fogos não pode substituir a mitigação das alterações climáticas.

    Foto: Célula Grega de Coordenação dos Oficiais de Ligação

    Os incêndios florestais massivos que atingiram França e Espanha no final de Julho forçaram 330.000 pessoas a fugir das suas casas. Os incêndios foram simplesmente demasiado intensos para que os bombeiros pudessem controlar. “O que estamos a ver agora em Espanha e França supera largamente as expectativas com base nos acontecimentos passados”, apontou Julie Arrighi, directora de Programas do Centro Climático da Cruz Vermelha, em Julho. Vários estudos indicam que o fumo dos incêndios florestais encurta a vida de aproximadamente 1,5 milhões de pessoas todos os anos.

    Especialistas do consórcio internacional World Weather Attribution (WWA) calcularam que o aquecimento global tornou as condições meteorológicas quentes, secas e ventosas pelo menos 20 vezes mais prováveis em Espanha e duas vezes mais prováveis em França — aumentando assim a probabilidade de incêndios florestais, já que a crise climática acelera significativamente a propagação das chamas pela Europa. A intensa vaga de calor no final de Junho — cujas estimativas iniciais sugerem ter causado 20.000 mortes — não teria ocorrido “sem o calor adicional retido pela poluição por carbono”, afirma o estudo da WWA.

    No estudo, os cientistas descobriram que “o calor impulsionado pela crise climática ‘sugou a humidade do solo’ à medida que a seca extrema se espalhava pela Europa”. O calor escaldante e o solo completamente seco levaram a “classificações diárias de severidade” muito elevadas — uma métrica usada na mais recente análise da WWA que mede a gravidade dos incêndios florestais.

    Foto: Boštjan Videmšek

    Incêndios florestais: desastres nacionais devastadores

    A rápida propagação dos incêndios florestais — um ponto que, infelizmente, merece repetições constantes — coincide com o aquecimento global acelerado: os últimos três anos foram os mais quentes de sempre. Incêndios florestais massivos — os chamados “mega-incêndios” que não podem ser contidos pelos métodos tradicionais de combate a incêndios — tornaram-se muito mais frequentes. As alterações climáticas aumentam significativamente a probabilidade de condições meteorológicas extremas: ondas de calor, secas prolongadas e aumento das temperaturas secam o solo e a vegetação, criando as condições e o combustível ideais para incêndios florestais.

    “Estes mega-incêndios europeus demonstram quão rapidamente o calor extremo e as paisagens secas — impulsionadas pelas alterações climáticas — podem transformar incêndios florestais em catástrofes nacionais devastadoras”, diz Simon Stiell, secretário-executivo da Organização das Nações Unidas (ONU) para o clima. “Ao continuar a queimar grandes quantidades de carvão, petróleo e gás, a humanidade está a criar condições cada vez mais perigosas. Consequentemente, os mega-incêndios estão a tornar-se ainda mais mortíferos e destrutivos. A ciência sobre as causas é inequívoca: o aquecimento global induzido pelo homem está a tornar as ondas de calor prolongadas, inundações severas e mega-tempestades violentas mais frequentes, intensas e dispendiosas”, acrescentou Stiell.

    Foto: Célula Grega de Coordenação dos Oficiais de Ligação

    Os custos alarmantes da crise climática — tanto humanos como económicos — já estão a atingir níveis de emergência à escala nacional.

    As alterações climáticas representam o maior risco sistémico para a segurança da Europa — mesmo face a guerras que se desenrolam nas fronteiras da UE. Nenhuma outra ameaça afecta simultaneamente tantos países, pessoas e sistemas críticos. Até a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), na sua avaliação de segurança de Janeiro de 2026, concluiu que as alterações climáticas são um “problema sistémico que afecta todos os outros riscos de segurança”. Afinal, milhares de soldados estiveram envolvidos no combate a incêndios florestais por toda a Europa este Verão.

    Segundo dados do Instituto Robert Koch, cerca de 12.500 pessoas na Alemanha morreram por causas relacionadas com o calor até 2 de Agosto deste ano — mais do que em todo o ano de 2018. Só em Junho, o calor ceifou pelo menos 10.000 vidas em toda a Europa.

    Estes são números de tempos de guerra.

    Foto: Boštjan Videmšek

    Na perspectiva de Stiell, as soluções são claras. Todos os países devem acelerar a transição dos combustíveis fósseis para fontes de energia renovável e proteger as pessoas de impactos climáticos cada vez mais severos — “desde incêndios florestais a tempestades severas, inundações e secas que afectam a produção alimentar”.

    No entanto, nos últimos anos, as alterações climáticas tornaram-se novamente um tema político de nicho – se não mesmo exótico. Os cépticos das alterações climáticas estão novamente em ascensão.

    Nuvens de fogo

    Os cientistas atribuem a intensidade dos incêndios deste ano na Europa aos padrões meteorológicos — especificamente uma Primavera muito húmida seguida de um Verão excepcionalmente seco — que são consequências diretas das alterações climáticas. Um Inverno húmido e uma Primavera maioritariamente húmida na Europa Ocidental impulsionaram um crescimento vigoroso de árvores, arbustos e outra vegetação. As altas temperaturas de Verão causaram uma rápida evaporação de rios e lagos, enquanto o ar escaldante retirava humidade das plantas e do solo. A seca deixou a vegetação seca e inflamável, fazendo com que o risco de incêndios florestais disparasse. Isto levou a incêndios extremos que os cientistas descrevem como “ondas de fogo”.

    Foto: Boštjan Videmšek

    Em França, os especialistas notam que a situação foi ainda mais agravada pelo fenómeno das “nuvens de fogo” (pyrocumulonimbus). Estas surgiram do calor intenso gerado por incêndios massivos e evoluíram para uma tempestade de fogo que lançava relâmpagos, provocando novos incêndios e efectivamente “alimentando-se”. Investigadores europeus que investigavam as causas dos incêndios florestais já tinham estabelecido há anos que existe uma ligação direta entre o aumento da actividade dos incêndios e o abandono das áreas rurais. As regiões rurais por toda a Europa estão a despovoar-se rapidamente, levando a uma acumulação de combustível para incêndios à medida que os campos ficam cobertos de vegetação, e o matagal e a vegetação florestal se tornam mais densos.

    Se as emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera continuarem a aumentar a este ritmo, a área da Europa afectada pelos incêndios florestais triplicará numa única geração. “Os incêndios em França, Espanha e Grécia demonstram quão rapidamente o tempo quente, seco e ventoso pode sobrecarregar os bombeiros e os seus recursos”, afirmou recentemente a climatologista Kirsten Thonicke, do PIK.

    “As alterações climáticas podem levar as condições a tais extremos que realmente atingimos os limites do que pode ser feito para prevenir e extinguir incêndios assim que atingem um certo tamanho”, acrescentou. Isto é particularmente verdade para o Mediterrâneo e grande parte da Europa Ocidental e Central, incluindo regiões que historicamente não registaram uma actividade significativa de incêndios florestais.

    Foto: Boštjan Videmšek

    Embora o aumento projectado do risco extremo de incêndio seja maior no Sul da Europa, incêndios florestais ocorreram este Verão em áreas anteriormente não consideradas propensas a incêndios — incluindo a Escandinávia, Europa Central, Oriental e Noroeste, Bélgica, Países Baixos e até as Terras Altas da Escócia.

    No entanto, não é só a Europa que está a arder. Incêndios florestais colossais — cada vez mais apocalípticos — ameaçam a Austrália, o Canadá (mesmo dentro do Círculo Polar Árctico), os Estados Unidos (especialmente a Califórnia), o Chile, a Sibéria e além. O número de pessoas que vivem em áreas em risco devido a incêndios florestais aumentou cerca de 40% nas últimas duas décadas e está previsto que aumente acentuadamente num futuro próximo.

    O poder destrutivo do pensamento mágico

    Os danos médios anuais causados por incêndios na UE até à data ascenderam a cerca de 2,5 mil milhões de euros. No início de Agosto, os danos causados pelos incêndios deste ano na UE eram estimados em 15 mil milhões de euros.

    Foto: Célula Grega de Coordenação dos Oficiais de Ligação

    Entre 2021 e 2027, a UE planeia investir aproximadamente 2,1 mil milhões de euros em programas de gestão florestal e de incêndios florestais em todos os Estados-membros. Isso está longe de ser suficiente.

    Se a UE quiser evitar as piores consequências das alterações climáticas, as estimativas actuais das organizações ambientais sugerem que precisa de investir cerca de 70 mil milhões de euros até 2050 para enfrentar as causas profundas e adaptar-se a novas condições. O custo da inacção? Só entre 2020 e 2024, as consequências das alterações climáticas causaram em média 45 mil milhões de euros em danos dentro da UE. Anualmente.

    No entanto, no último ano, a UE enfraqueceu várias “medidas verdes” devido à oposição política e ao lobby empresarial; a transição verde está longe de ser uma prioridade, e as alterações climáticas tornaram-se — mais uma vez — um tema exótico e altamente indesejado em Bruxelas. “A Comissão Europeia só pode ser tão ambiciosa quanto os Estados-membros quiserem. Quando os Estados-membros adiam [a resolução da crise climática]… há um perigo real e um custo incalculável”, disse recentemente a comissária para a Gestão de Crises, Hadja Lahbib, ao Financial Times.

    Foto: Boštjan Videmšek

    “Os incêndios florestais representam um desafio complexo para a UE, pois podem causar danos de grande alcance à sociedade europeia, à economia, ao ambiente, ao clima, às infraestruturas e ao património cultural. O custo humano — incluindo a perda de vidas e meios de subsistência — é incalculável. Os impactos na saúde pública resultantes da degradação dos ecossistemas e da deterioração da qualidade do ar são significativos. Além disso, os incêndios florestais ameaçam os abastecimentos alimentares locais e os rendimentos dos agricultores e silvicultores afectados”, refere um documento da Direção-Geral da Ajuda Humanitária e da Proteção Civil (DG ECHO) da Comissão Europeia.

    Bruxelas propõe, entre outras soluções, promover paisagens resilientes ao fogo; isto exige uma gestão activa e sustentável da terra, restauração dos ecossistemas e o envolvimento de agricultores, proprietários florestais e comunidades rurais.

    Quase toda a Grécia é uma linha da frente dos incêndios florestais

    Em 2021, a Comissão Europeia criou uma equipa dedicada de apoio a incêndios florestais no Centro de Coordenação de Resposta a Emergências (CCRE). Foi motivada pelos maciços incêndios rurais que devastaram Portugal durante o Verão de 2017. A Comissão Europeia lançou o programa “Aldeia Segura, Pessoas Seguras”, com o objectivo de implementar medidas estruturais para proteger pessoas e propriedades — particularmente na interface rural-urbana — e aumentar a consciencialização sobre comportamentos de risco e medidas de autoprotecção, apoiadas por simulacros de evacuação.

    Foto: Célula Grega de Coordenação dos Oficiais de Ligação

     Aviões Canadair de combate a incêndios voavam baixos sobre a baía perto do Parque Nacional de Schinias, localizado a pouco mais de 40 quilómetros de Atenas. As aeronaves recolhiam água para ser usada pelos bombeiros gregos para combater um incêndio na ilha de Evia, um importante foco de incêndios florestais na Grécia. Há cinco anos, um incêndio catastrófico em Evia — ocorrido depois de as temperaturas terem subido para 47,1 graus Celsius — incinerou completamente 50.000 hectares de terra. Quando os incêndios acalmaram, o céu “abriu-se” e as inundações foram seguidas por deslizamentos de terra.

    Na zona costeira turística de Mati, um incêndio aterrador que desceu das montanhas em direção ao mar como um tornado causou 104 mortos em 2018. Os bombeiros gregos descrevem este incêndio como a pior experiência das suas vidas — a própria definição de inferno. Durante o inferno que envolveu Rodes, no auge da época turística há três anos, as autoridades gregas evacuaram mais de 19.000 turistas em 24 horas. No Verão de 2023, o maior incêndio florestal da história moderna da Grécia devastou o Parque Nacional de Dadia, na Trácia (região de Evros), queimando quase 175.000 hectares de floresta e ceifando 35 vidas. Segundo a World Wide Fund for Nature (WWF) – Grécia, este foi o maior “mega-incêndio” alguma vez registado na Europa.

    Incêndios florestais deflagram na Grécia quase todos os anos na Trácia, na região da Ática Ocidental e em Creta. Este ano, também, os incêndios foram intensos, embora — ao contrário de França ou Espanha, por exemplo — este não tenha sido o pior Verão registado para a Grécia. Dois bombeiros morreram em incêndios em Creta e outro no continente. Há algumas semanas, dois helicópteros colidiram enquanto combatiam um incêndio no oeste da Ática. Na ilha de Salamina, dois idosos sufocaram durante um grave incêndio florestal. Incêndios deflagraram perto de Salónica, na região da Calcídica, no Peloponeso e numa dúzia de ilhas.

    No final de Agosto, o ministro da Crise Climática e Protecção Civil da Grécia, o general reformado da Força Aérea Evangelos Tournas, anunciou que os bombeiros estavam “sobrecarregados”. Acrescentou que ventos fortes criaram repetidamente “condições extremamente difíceis” neste Verão, impedindo que aeronaves — devido à turbulência extrema — apanhassem água ou descessem suficientemente baixo para realizar operações de combate a incêndios em muitos casos.

    O coronel dos bombeiros Vasileios Bikas. / Foto: Boštjan Videmšek

    No entanto, o longo, quente e ardente Verão na Grécia estava longe de terminar.

    “Estamos num estado de prontidão constante. No Verão, os bombeiros gregos não têm vida familiar”, disse o coronel dos bombeiros Vasileios Bikas (os bombeiros gregos têm patentes semelhantes às militares) na base de Nea Makri, a uma hora de carro de Atenas. Bikas é membro do serviço grego de protecção civil e chefe da Célula de Coordenação dos Oficiais de Ligação do programa da UE que destaca antecipadamente equipas de combate a incêndios florestais para as zonas de maior risco. Unidades europeias de “pré-posicionamento” estão estacionadas na base desde 2021.

    A presença e operações de bombeiros de vários Estados-membros da UE na Grécia, Espanha, Portugal, Itália, França e Chipre — os países do sul da Europa mais em risco de incêndios florestais — são totalmente financiadas pela Comissão Europeia, especificamente pelo departamento europeu de ECHO. Esta assistência no combate a incêndios não é de sentido único; por exemplo, bombeiros gregos ajudaram a combater incêndios devastadores em França este ano.

    Na altura da minha visita, os membros do corpo de bombeiros francês, que participaram no combate aos incêndios mais intensos deste ano na Grécia, estavam a caminho de casa. Devido à aproximação do fim do Verão, os bombeiros checos também abandonaram a base, enquanto 45 bombeiros romenos (“Pompierii”) permaneceram disponíveis para os bombeiros gregos como unidades de apoio, que treinaram intensivamente em caso de incêndio florestal no parque nacional próximo, cheio de pinheiros e combustível seco e extremamente inflamável. Há dois anos, o quartel de bombeiros “europeu”, situado numa posição estratégica, também foi ameaçado por chamas. Durante seis épocas de incêndios, 777 bombeiros de 14 países europeus, sob o comando central grego, treinaram e trabalharam na base de Nea Makri. Existem outras duas bases semelhantes na Grécia: uma localizada perto de Patras e a outra nos subúrbios de Salónica.

    Em 2021, a Grécia foi o primeiro país europeu a estabelecer um Ministério das Alterações Climáticas e Proteção Civil – uma das razões foi o aumento do número de catástrofes de origem humana. Após muitos anos de crise financeira e social e medidas brutais de austeridade, que esgotaram os serviços públicos (e especialmente uma grande parte da população) e influenciaram indirectamente a resposta, muitas vezes lenta e inadequada, a tragédias de um tipo ou de outro, foi estabelecido na Grécia um sistema de controlo central e todos os serviços públicos chave foram unificados sob o mesmo tecto (desde bombeiros a protecção civil e Ministérios).

    Foto: Célula Grega de Coordenação dos Oficiais de Ligação

    Os dados da unidade grega de investigação de incêndios criminosos indicam que a maioria dos incêndios deste ano foi causada por falhas na rede eléctrica – a infraestrutura pública da Grécia está em ruínas.

    Controlo de incêndios em sítios arqueológicos

    “Estamos bem cientes de que os incêndios florestais se tornarão cada vez mais frequentes e graves, e mais difíceis de extinguir. As consequências das alterações climáticas estão a intensificar-se rapidamente, especialmente no sul da Europa. A época dos incêndios está a prolongar-se. Os danos causados pelos incêndios estão a aumentar drasticamente. Consequentemente, o nosso trabalho torna-se cada vez mais difícil e perigoso ano após ano”, disse Vasileios Bikas na base de Nea Makri. Bikas estudou ciências ambientais, obteve um mestrado em Oceanografia e, posteriormente, ingressou no serviço de bombeiros grego (a Grécia tem 18.000 bombeiros profissionais). Sabe do que fala: combinou teoria com prática.

    “Devido às alterações climáticas, entrámos numa nova era que inclui incêndios devastadores. Só vai piorar”, afirmou o coronel dos bombeiros, cujas ideias e energia contribuíram significativamente para o desenvolvimento de unidades conjuntas europeias de combate a incêndios. “A Grécia é uma universidade aberta para aprender a combater incêndios florestais. Este ano, florestas arderam no Norte da Europa; isto já é o novo normal. O nosso conhecimento e experiência estão disponíveis para todos na Europa. Estamos a treinar aqui para o futuro. Enfrentaremos novos desastres, até agora desconhecidos, para os quais devemos preparar-nos com antecedência. Educar o público é crucial.”

    Foto: Célula Grega de Coordenação dos Oficiais de Ligação

    “Todos, desde jovens, devem dominar os fundamentos da protecção civil”, acrescentou Vasileios Bikas, que concorda que seria prudente estabelecer unidades conjuntas de combate a incêndios da UE o mais rapidamente possível; estas unidades seriam estacionadas permanentemente em vários locais, eliminando a necessidade de viajar para diferentes locais com os seus próprios veículos e equipamentos — um processo extremamente demorado e, consequentemente, pode até ser fatal.

    Devido aos incêndios florestais, as autoridades gregas instalaram sistemas avançados de detecção precoce e protecção contra incêndios em 22 sítios e monumentos arqueológicos este ano. Nos próximos anos, todos os principais sítios arqueológicos na Grécia estarão equipados com medidas de protecção contra incêndios.

    Afinal, as alterações climáticas ameaçam mais do que apenas o nosso futuro.

  • Teatro em máximos, fado em alta e pop/rock em recuo: mudou o gosto do público?

    Teatro em máximos, fado em alta e pop/rock em recuo: mudou o gosto do público?

    Longe já vai a pandemia, que condicionou a saída dos portugueses para se alimentarem de arte, mas olhando para os números do ano passado, ontem divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, o mapa cultural está muito diferente daquele que se viu em 2019. Seis anos depois do último ano inteiro antes da covid-19, o teatro está agora em máximos, o fado ganhou público, a dança moderna avançou e o pop/rock, que então concentrava um terço de todos os bilhetes vendidos e quase 60% das receitas de bilheteira, perdeu uma parte considerável do terreno conquistado.

    Os dados mais recentes do INE permitem olhar para o ‘buraco’ de 2020 e 2021 — devido às restrições impostas num sector cuja matéria-prima consiste em juntar pessoas no mesmo espaço —, mas deixou de ser a história principal. Na verdade, embora o impacte financeiro tenha sido catastrófico sobretudo naqueles dois anos, o público pagante superou há muito os níveis anteriores à pandemia.

    O recinto do NOS Alive, em Algés, ainda vazio, durante a montagem do palco e das estruturas técnicas que recebem milhares de espectadores nos grandes concertos e festivais. Foto: PAV.

    Em 2019 venderam-se 6,04 milhões de bilhetes para espectáculos ao vivo, enquanto no ano passado atingiram-se os 7,49 milhões, um aumento de 24%. Comparando com 2015, quando não se alcançavam sequer os quatro milhões de bilhetes, a progressão aproxima-se dos 94%.

    Mais interessante do que saber que os portugueses regressaram às salas, aos teatros, aos concertos, aos circos e às restantes formas de espectáculo é perceber onde passaram a decidir sentar-se. E aí a paisagem mudou bastante.

    O caso do teatro talvez seja o mais expressivo, até por contrariar algumas profecias recorrentes sobre o definhamento das formas mais tradicionais de espectáculo. Em 2015, o teatro vendeu 941.052 bilhetes. Quatro anos depois, em 2019, alcançava 1.238.863. Em 2025 chegou aos 1.693.599, o valor mais elevado de toda a série histórica, sem cortes metodológicos, disponibilizada pelo INE desde 2011.

    O teatro atravessa uma fase de forte crescimento: em 2025 vendeu 1,69 milhões de bilhetes, mais 36,7% do que em 2019, ficando a apenas 5.726 bilhetes do pop/rock. Foto: Pedro Rosário Nunes

    Numa década, o teatro aumentou assim em 80% o número de bilhetes vendidos. Mais importante para perceber o pós-pandemia: entre 2019 e 2025 cresceu 36,7%. Não estamos, portanto, perante um simples regresso ao ponto de partida depois da interrupção da pandemia. O sector ultrapassou-o por larga margem.

    A respectiva quota no conjunto dos espectáculos ajuda a perceber melhor esta mudança. Em 2019, de cada mil bilhetes vendidos para espectáculos ao vivo, cerca de 205 pertenciam ao teatro. Em 2025 já eram 226. Pode parecer uma diferença pequena até se olhar para aquilo que aconteceu no outro extremo da tabela, onde se encontra o pop/rock.

    De facto, poucos sectores culturais ilustram tão bem a diferença entre crescimento absoluto e perda relativa de força. O pop/rock teve uma expansão extraordinária na segunda metade da década passada. Em 2015 vendeu 842.345 bilhetes, menos do que o teatro. Em apenas quatro anos mais do que duplicou e chegou aos 2.017.413 bilhetes em 2019. Passou assim de 21,8% de todos os bilhetes vendidos em Portugal para 33,4%. Um em cada três bilhetes para espectáculos ao vivo pertencia então ao pop/rock.

    Em dinheiro, a concentração impressionava ainda mais. Dos 125,3 milhões de euros arrecadados pelas bilheteiras portuguesas em 2019, nada menos do que 74,6 milhões vieram do pop/rock. Quase 60 euros em cada cem gerados por espectáculos ao vivo provinham desta modalidade.

    Se alguém congelasse a fotografia nesse momento, poderia pensar que o futuro próximo pertenceria a uma crescente hegemonia dos grandes concertos. Porém, a fotografia de 2025 mostra outra coisa.

    Com efeito, o pop/rock vendeu em 2025 1.699.325 bilhetes. Continua a representar um mercado gigantesco e conserva, por uma unha estatística, o primeiro lugar entre as modalidades individuais: o teatro ficou a apenas 5.726 bilhetes de distância. Mas o sentido da evolução mudou. Face a 2019, o pop/rock perdeu cerca de 318 mil entradas, uma quebra de 15,8%, num mercado de espectáculos ao vivo que, no mesmo período, cresceu 24%.

    A explicação não parece poder procurar-se apenas no preço. Grandes concertos e festivais colocam sem dificuldade os bilhetes nas muitas dezenas de euros — o Rock in Rio Lisboa, por exemplo, cobrou cerca de 90 euros para 2026 —, mas os dados agregados do INE mostram que a receita média por bilhete de pop/rock ficou praticamente inalterada entre 2019 e 2025, em torno dos 37 euros. O encarecimento de alguns grandes eventos convive, portanto, com uma oferta muito mais heterogénea.

    Em todo o caso, aquilo que mudou de forma mais profunda foi a própria economia da música: desde a crise do disco físico e da pirataria digital, o espectáculo ao vivo ganhou importância como fonte de rendimento dos artistas, transformando as digressões, antes também instrumentos de promoção de álbuns, em centros de receita por direito próprio.

    A investigação económica documentou essa deslocação e o aumento do peso dos concertos nas receitas dos músicos. O streaming consolidou entretanto a revolução na forma de consumir música, mas já não será rigoroso apresentá-lo como responsável por uma actual “quebra das receitas da música gravada”: em 2025, pelo contrário, essas receitas mundiais cresceram pelo décimo primeiro ano consecutivo, impulsionadas até pelas subscrições de streaming.

    A consequência aparece de forma particularmente clara nas quotas. A fatia do pop/rock caiu de 33,4% de todos os bilhetes em 2019 para 22,7% em 2025. Em apenas seis anos perdeu mais de dez pontos percentuais de peso no mercado.

    O contraste com o teatro quase parece desenhado para uma ilustração. Em 2019, o pop/rock vendia cerca de 779 mil bilhetes mais do que o teatro. Em 2025, a diferença reduziu-se para apenas 5.726 bilhetes: 1.699.325 contra 1.693.599. Estatisticamente, chegaram lado a lado à meta.

    Esta quase igualdade recupera, num mercado muito maior, uma situação que já existia em 2015. Nesse ano, antes da grande explosão do pop/rock, o teatro até vendia mais bilhetes: 941 mil contra 842 mil. Seguiu-se uma corrida fulgurante dos concertos pop e rock até 2019, mas depois da pandemia, as duas linhas voltaram a aproximar-se.

    O ano de 2025 torna essa mudança ainda mais evidente. O conjunto dos espectáculos ao vivo perdeu cerca de 102 mil bilhetes face a 2024, uma descida de apenas 1,3%. O pop/rock, sozinho, perdeu 317 mil. Por outras palavras, a queda do pop/rock foi mais de três vezes superior à queda de todo o mercado, porque quase todas as restantes modalidades compensaram uma parte do recuo.

    Mas retirando o pop/rock das contas, em 2025 o mercado dos espectáculos ao vivo cresceu 3,9% em número de bilhetes e 11,1% em receitas. A ideia de uma travagem generalizada deve, por isso, ser vista com cautela. A estatística conta antes uma história de redistribuição.

    O mesmo fenómeno surge quando se recua a 2019. Excluído o pop/rock, os restantes espectáculos venderam nesse ano cerca de 4,02 milhões de bilhetes. Confrontando com 2025, com vendas de 5,79 milhões de bilhetes, o crescimento supera assim os 44%. Nas receitas, a diferença ainda impressiona mais: sem pop/rock, o mercado dos espectáculos passou de 50,7 para 131,1 milhões de euros.

    David Guetta na Bobadela: a música electrónica e outros géneros fora do universo pop/rock está a ganhar terreno. Foto: PAV.

    Uma parte muito substancial dessa transformação esconde-se, contudo, atrás de um nome estatisticamente pouco sedutor: “outra música”, mas que, segundo o INE, inclui géneros em expansão: música eletrónica, étnica, techno, rap, hip hop, world music e samba. Esta vasta categoria reunia 776.519 bilhetes em 2019, passando para 1.422.342 no ano passado, um crescimento de 83,2%. Só esta gaveta acrescentou quase 646 mil bilhetes em seis anos e explica cerca de 44,5% de todo o aumento líquido do mercado português entre 2019 e 2025.

    No total dos bilhetes de espectáculos ao vivo, o peso destes géneros de música era de 12,9% em 2019 e registou no ano passado já 19%. Nas receitas, a metamorfose torna-se ainda mais relevante: a “outra música” gerava 16,1 milhões de euros em 2019 e alcançou 62,2 milhões em 2025. A sua quota nas receitas totais saltou de 12,8% para 32,1%. Em suma, a categoria que o INE chama simplesmente “outra música” rendeu quase tanto como todo o pop/rock. A primeira arrecadou 62,17 milhões de euros; o segundo, 62,61 milhões. Uma diferença de apenas cerca de 447 mil euros num mercado conjunto superior a 124 milhões.

    Apesar deste crescimento de música mais moderna, o lusitano fado apresenta uma história menos volumosa, mas talvez culturalmente mais interessante. Em 2015 venderam-se 105.904 bilhetes, tendo subido em 2019 para os 138.004 bilhetes. Depois da inevitável queda nos dois anos da covid-19, os números de 2025 são bastante simpáticos: 218.100. O público pagante mais do que duplicou numa década e cresceu 58% desde o último ano anterior à pandemia.

    O fado foi uma das modalidades que mais público ganhou no pós-pandemia: passou de 138 mil bilhetes vendidos em 2019 para 218 mil em 2025, um crescimento de 58% e mais do dobro do registado há uma década. Foto: PAV.

    A progressão recente também sugere mais do que um simples efeito de recuperação: 130.800 bilhetes em 2022, quase 147 mil em 2023, 213 mil em 2024 e 218 mil em 2025. A subida abrupta entre 2023 e 2024 merece exploração própria, incluindo a eventual influência da procura turística, mas a tendência de fundo parece inequívoca. O fado vale hoje 2,9% de todos os bilhetes vendidos, contra 2,3% em 2019.

    A dança também saiu do outro lado da pandemia com mais público. Somando dança clássica e moderna, os cerca de 227 mil bilhetes de 2019 tornaram-se 293 mil em 2025. A dança moderna explica a maior parte da progressão: passou de 138.202 para 193.653 bilhetes, uma subida de 40,1%. Face a 2015, quando vendia pouco mais de 102 mil, o crescimento aproxima-se de 89%.

    Aliás, o teatro, o fado e a dança moderna têm uma característica comum que merece atenção: não recuperaram apenas aquilo que perderam durante a pandemia. A evolução dos últimos três anos permitiu ultrapassar, de forma clara, o patamar de 2019.

    Performance of "The Flying Dutchman" Opera in Mobile, Alabama
    Em Portugal, a ópera permanece praticamente ao nível de público de 2019: vendeu 37.177 bilhetes em 2025, menos 2,2% do que antes da pandemia, mas as receitas ficaram ainda 37% abaixo das registadas naquele ano. Foto: Carol Highsmith’s America.

    O circo apresenta outro crescimento vistoso, embora com maior volatilidade. Passou de 205.731 bilhetes em 2019 para 312.453 em 2025, mais 51,9%. O salto das receitas suscita ainda mais curiosidade: de 708 mil euros para quase sete milhões. Só entre 2024 e 2025, a bilheteira declarada passou de 1,25 para 6,96 milhões de euros, ao mesmo tempo que os bilhetes aumentaram 30,5%. Uma transformação tão abrupta aconselha prudência antes de se concluir por uma explosão de preços e justificará perceber se grandes produções ou alterações de classificação influenciaram o resultado.

    O mesmo sucede nas chamadas “mistas (variedades)”, ou seja, espectáculos híbridos — por exemplo, uma produção que combine música, dança, números de variedades, humor, performance ou outras formas artísticas: mais 44,7% de bilhetes entre 2019 e 2025, mas uma multiplicação ainda mais espectacular das receitas, de 2,16 para 8,56 milhões de euros. Alguns nichos pequenos produzem taxas de crescimento enormes porque partem de bases diminutas.

    A música popular e tradicional portuguesa constitui um bom exemplo dessa armadilha. Entre 2019 e 2025 cresceu uns impressionantes 128,5%, de 46.367 para 105.959 bilhetes. Olhando apenas para esses dois anos, pareceria uma das grandes histórias de sucesso. A perspectiva de dez anos tempera o entusiasmo: em 2015 vendia 147.701 bilhetes. Mesmo depois de mais do que duplicar desde 2019, permanece 28,3% abaixo do nível de uma década antes.

    O folclore continua longe dos níveis de há uma década: os 9.403 bilhetes vendidos em 2025 representam uma recuperação expressiva face a 2019, mas ainda ficam cerca de 38% abaixo dos 15.267 registados em 2015. Foto: CMB.

    O folclore fornece uma caricatura ainda mais extrema deste efeito de base. Os 9.403 bilhetes de 2025 representam mais 233% do que os miseráveis 2.822 de 2019, mas continuam 38% abaixo dos 15.267 de 2015. Uma percentagem sem denominador pode contar praticamente qualquer história.

    O jazz e blues também não encontrou uma segunda juventude na última década. Os 86.521 bilhetes de 2025 superam em apenas 6% os 81.633 de 2019 e ficam 20,6% abaixo dos quase 109 mil registados em 2015. A quota no mercado encolheu de 2,8% em 2015 para apenas 1,2% em 2025.

    A música clássica mostra um perfil diferente, com um crescimento moderado mas irregular. Os 320.964 bilhetes de 2019 tornaram-se 374.003 em 2025, mais 16,5%, enquanto a comparação com 2015 mostra uma subida superior a 40%. Pelo meio surgiu um pico curioso em 2023, com 502.506 bilhetes, seguido de uma quebra para 360 mil no ano seguinte. O sector parece crescer no horizonte longo, mas sem a linearidade que se observa, por exemplo, no teatro.

    O jazz e blues continua abaixo dos níveis de há uma década: os 86.521 bilhetes vendidos em 2025 representam apenas mais 6% do que em 2019 e menos 20,6% do que em 2015. Foto: Távola Jazz Club.

    A ópera, pelo contrário, ainda não recuperou integralmente o patamar anterior à pandemia. Em 2019 vendeu 38.032 bilhetes; em 2025, desceu para 37.177, ou seja, uma redução de 2,2%. O número parece quase uma igualdade, mas a receita conta uma história menos favorável: 1,21 milhões de euros em 2019 contra apenas 759 mil em 2025, uma queda de 37%.

    O dinheiro, aliás, introduz uma segunda grande transformação do mercado. Em 2019, os espectáculos ao vivo geraram 125,3 milhões de euros em bilheteira. Em 2025 produziram 193,7 milhões. O público pagante aumentou 24%, mas a receita cresceu 54,6%. A simples divisão da receita pelo número de bilhetes vendidos dá uma média de 20,75 euros em 2019 e de 25,87 euros em 2025. O aumento nominal ronda 24,6%.

    Este cálculo não significa que o preço médio de cada bilhete tenha subido nessa proporção, porque o cabaz de espectáculos mudou e as modalidades têm preços muito diferentes. Também seria necessário descontar a inflação para medir a evolução real. Ainda assim, a diferença mostra que o mercado de 2025 não só vende mais bilhetes do que o de 2019 como gera bastante mais dinheiro por cada entrada vendida.

    a large circus tent with lights around it
    O circo foi uma das modalidades que mais cresceu no pós-pandemia: passou de 205.731 bilhetes vendidos em 2019 para 312.453 em 2025, uma subida de 51,9%. Foto: Ingo Ellerbusch.

    O pop/rock perdeu domínio também neste capítulo. Em 2019 representava extraordinários 59,6% de toda a receita de bilheteira dos espectáculos ao vivo portugueses. Em 2025 ficou-se pelos 32,3%. A receita desceu de 74,6 para 62,6 milhões, enquanto o mercado total cresceu quase 70 milhões.

    Não desapareceu, nem sequer entrou numa situação que permita falar numa crise estrutural com base nestes números. Continua a movimentar 1,7 milhões de bilhetes e mais de 62 milhões de euros. Mas deixou de ocupar a posição quase hegemónica que alcançara antes da pandemia.

    Talvez este seja, afinal, o dado mais sugestivo de toda a série. O pós-pandemia não trouxe uma vingança de um género sobre outro, nem autorizaria conclusões apressadas sobre mudanças definitivas do “gosto dos portugueses”, até porque os turistas estrangeiros entram nestas contas. As estatísticas registam bilhetes, não preferências íntimas, e a oferta condiciona, de forma inevitável, a procura: mais festivais, mais digressões, mais espectáculos ou salas maiores criam mais possibilidades de comprar bilhetes.

    Os espectáculos ao vivo recuperaram com força no pós-pandemia: em 2025 venderam-se 7,49 milhões de bilhetes, mais 24% do que em 2019, embora o mapa do público tenha mudado, com o teatro, o fado e outras formas musicais a ganharem peso e o pop/rock a perder terreno relativo. Foto: PAV.

    Mesmo com essa cautela, a deslocação tornou-se grande demais para passar despercebida. Entre 2019 e 2025, Portugal ganhou 1,45 milhões de bilhetes vendidos. A música eletrónica, étnica, techno, rap, hip hop, world music e samba — agregada pelo INE em “outra música” — respondeu por quase 646 mil desse acréscimo, o teatro acrescentou 455 mil, o circo 107 mil, os espectáculos multidisciplinares 89 mil e o fado 80 mil. O pop/rock retirou 318 mil à conta.

    Nesta visão, a pandemia fica agora deliberadamente em segundo plano, funcionando como uma linha de separação entre dois mercados. O eixo principal passou a ser a perda de hegemonia relativa do pop/rock, a “nova vida” do teatro e o crescimento pós-2019 de fado, dança, circo e sobretudo da música eletrónica, étnica, techno, rap, hip hop, world music e samba.

  • Largada de 90 mil mosquitos-tigre-asiáticos em Lisboa pelo INSA terá sido feita à margem da lei

    Largada de 90 mil mosquitos-tigre-asiáticos em Lisboa pelo INSA terá sido feita à margem da lei

    A libertação de 90 mil mosquitos-tigre-asiáticos, com o nome científico Aedes albopictus, no bairro lisboeta de Alvalade, concluída esta semana no âmbito de um projecto experimental coordenado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), avançou sem que, até ao momento, tenha sido identificada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) qualquer licença ou acto formal de aprovação para a colocação destes insectos no meio natural.

    Fontes contactadas pelo PÁGINA UM garantem que o INSA nunca pediu sequer qualquer licença e que se tratou de um “acto voluntarioso”, sem se terem medido as consequências legais e, sobretudo, os impactes ambiental e social. Caso seja comprovada pelo menos a negligência, a coima para o INSA pode variar entre 24 mil e 144 mil euros.

    Originário das regiões tropicais e subtropicais do Sudeste Asiático e, em sentido mais amplo, da região Ásia-Pacífico, o chamado mosquito-tigre-asiático expandiu-se para outros continentes sobretudo através do transporte humano, com destaque para pneus usados e plantas ornamentais capazes de transportar ovos resistentes à dessecação. O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) descreve-o como uma das espécies invasoras de mosquitos com maior expansão mundial. Somente as fêmeas picam.

    O risco de saúde pública é, porém, bastante limitado. O maior perigo está na capacidade das fêmeas para actuarem como vectores de vírus, podendo participar na transmissão de doenças como dengue, chikungunya e zika, além de outros arbovírus em determinadas condições epidemiológicas, que, até agora, não se encontram em circulação autóctone em território nacional, em especial no Continente.

    Com efeito, Portugal já registou casos das principais doenças que o Aedes albopictus pode transmitir, embora a transmissão local permaneça uma situação bastante excepcional. O caso mais relevante ocorreu na Madeira, onde um surto de dengue entre 2012 e 2013 provocou 2.168 casos prováveis, cerca de metade confirmados laboratorialmente, mas associado a outra espécie de mosquito do mesmo género: o Aedes aegypti.

    Imagem da libertação de mosquitos divulgado em comunicado pela ULS de Santa Maria.

    No Continente, os casos recentes de dengue, chikungunya e outras doenças não endémicas transmitidas por mosquitos têm sido classificados pela Direcção-Geral da Saúde como importados, ou seja, as pessoas já estavam infectadas antes da chegada a Portugal. No mais recente relatório de monitorização, publicado em 18 Setembro, o INSA também não tinha detectado agentes patogénicos nas amostras de mosquitos invasores recolhidas no território nacional.

    A operação de libertação no bairro de Alvalade terá decorrido em três vagas de 30 mil exemplares, a última das quais nesta quinta-feira, 24 de Setembro, depois de já terem sido libertados 60 mil mosquitos numa fase anterior, antes da divulgação pública. Ao jornal Público, o responsável pela investigação, o médico Afonso Moreira, justificou a escolha de Alvalade com as características da freguesia, nomeadamente a vegetação e os logradouros, que podem “proporcionar condições favoráveis ao desenvolvimento do mosquito”.

    O projecto, designado POR5007, pretende testar em meio urbano a denominada Técnica do Insecto Estéril, conhecida pela sigla inglesa SIT, medindo nesta primeira fase a capacidade de dispersão e sobrevivência dos machos libertados. Se os resultados forem favoráveis, os investigadores prevêem avançar em 2027 para uma fase de controlo populacional, procurando reduzir a reprodução da espécie através do acasalamento das fêmeas selvagens com machos estéreis.

    Foto da equipa de investigadores que libertou os mosquitos-tigre-asiáticos conforme divulgado comunicado divulgado pela Unidade Local de Saúde de Santa Maria.

    A experiência do INSA conta com um apoio financeiro que pode parecer inusitado — o da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) —, embora a agência participe há décadas em projectos baseados na Técnica do Insecto Estéril, precisamente por esta recorrer à radiação ionizante. Não são revelados os montantes.

    O projecto envolve também, para além do INSA, a Unidade de Saúde Pública Francisco George, da Unidade Local de Saúde (ULS) de Santa Maria, a DGS, a Câmara Municipal de Lisboa, a Junta de Freguesia de Alvalade e a empresa pública espanhola Tragsa, que possuirá experiência na produção e libertação de insectos estéreis.

    O problema desta largada surge, sobretudo, num enquadramento legal que, aparentemente, foi negligenciado. O Aedes albopictus consta como espécie invasora numa Resolução do Conselho de Ministros de Maio de 2023, estando mesmo ao lado da vespa-asiática. Esse enquadramento remete para o regime das espécies exóticas invasoras, segundo o qual pode ser interdita “a detenção, cultivo, criação, comércio, introdução na natureza e o repovoamento” de espécimes das espécies abrangidas.

    A própria lei define “repovoamento” como a disseminação ou libertação de exemplares de uma espécie exótica num território onde essa espécie já tenha sido introduzida — situação que corresponde, à letra, ao que sucedeu em Alvalade, onde os investigadores libertaram os machos numa zona com uma população selvagem pré-existente.

    A questão nem sequer se resolve com a alegação de uma eventual licença comum para investigação científica. No mesmo diploma admite-se, com carácter de excepcionalidade, que haja detenção, cedência, compra, transporte, cultivo e criação de espécies invasoras para fins científicos, mas exige-se que essas actividades decorram em “espaços confinados”.

    A enumeração não inclui, por isso, a libertação na natureza e, menos ainda, em ambiente urbano, junto a aglomerados populacionais. Mais: o próprio regime qualifica como contra-ordenação ambiental muito grave a introdução na natureza ou o repovoamento de espécies constantes da Lista Nacional quando praticados em violação das proibições legais.

    Mesmo em caso de mera negligência, uma eventual infracção ambiental muito grave praticada por uma pessoa colectiva, como seria o caso do INSA, pode ser punida com coima entre 24 mil e 144 mil euros. Se houver dolo, a moldura sobe para 240 mil euros a cinco milhões de euros. A aplicação destes valores ao caso concreto depende, contudo, de se demonstrar que a libertação dos mosquitos preenche efectivamente uma das infracções muito graves previstas no diploma de 2019.

    Questionado pelo PÁGINA UM sobre a existência de autorização, Nuno Banza, presidente do ICNF, adiantou inicialmente que os seus serviços tinham encontrado referência a “uma comunicação do início dos trabalhos em 2021 ou 2022” e que, segundo as primeiras informações recolhidas internamente, “este tipo de libertação está excepcionado da autorização”.

    Mais tarde, acrescentou que os técnicos do instituto sustentavam existir uma excepção “porque [os mosquitos] são geneticamente modificados e com fins sanitários”. Banza afirmou ter solicitado aos serviços uma resposta organizada, mas, até ao fecho desta edição, não foi remetido ao PÁGINA UM qualquer pedido de autorização, licença, despacho, parecer ou outro acto administrativo que enquadre a libertação.

    A alegação de que os mosquitos poderão ser geneticamente modificados (OGM) seria relevante porque o regime jurídico aplicável ao controlo, à detenção, à introdução na natureza e ao repovoamento de espécies exóticas da flora e da fauna exclui do seu âmbito os organismos geneticamente modificados que sejam objecto de legislação própria.

    Contudo, os documentos conhecidos do projecto do INSA referem explicitamente a irradiação como mecanismo de esterilização. Aliás, a informação científica disponível confirma que a Técnica do Insecto Estéril apoiada pela AIEA não assenta em transgenia.

    Segundo a própria agência das Nações Unidas, os machos são tornados inférteis através de irradiação controlada e a AIEA distingue expressamente esta técnica das soluções baseadas em transgenia, salientando que o método que promove “não envolve engenharia genética”. Em concreto, são utilizadas radiações gama ou raios X para danificar as células germinativas dos machos, referindo a AIEA que os animais libertados “não são transgénicos”.

    Em todo o caso, mesmo a libertação de mosquitos transgénicos não pode ser feita sem controlo administrativo. Se os 90 mil mosquitos fossem efectivamente OGM, o que não resulta da documentação pública conhecida, entraria em aplicação um diploma de 2003, que também sujeita qualquer libertação deliberada no ambiente a autorização prévia. A autoridade competente seria, nesse caso, a Agência Portuguesa do Ambiente, que recebe a notificação do ensaio e aprecia a autorização, com intervenção da DGS.

    Ainda haveria outra possível exclusão de licenciamento se os mosquitos fossem usados como “auxiliares na luta biológica”, mas apenas “quando previstos em legislação própria”. Até ao fecho desta edição, também não foi identificada pelo ICNF qualquer legislação específica ao abrigo da qual os Aedes albopictus esterilizados para fins de saúde pública fossem considerados auxiliares de luta biológica e, por essa via, retirados do regime geral das espécies invasoras.

    Até porque esse plano, se for nacional, terá de ser aprovado por Resolução do Conselho de Ministros; se for um plano local, terá de ser promovido por uma entidade pública ou privada e previamente aprovado pelo próprio ICNF.

    A consulta das fontes públicas realizada pelo PÁGINA UM não permitiu localizar um plano nacional ou local aprovado ao abrigo do artigo 28.º que identifique a libertação de machos estéreis de Aedes albopictus em Alvalade como medida autorizada de controlo.

    Apesar desta polémica, sobretudo por a experiência se ter realizado em meio urbano da capital, o INSA já realizou, há quatro anos, em Gambelas, no concelho de Faro, ensaios de marcação, libertação e recaptura de Aedes albopictus. O estudo científico publicado em 2024 na revista científica Insects revela que então foram preparados para libertação 84 mil machos estéreis de mosquito, distribuídos por três operações semanais e por dois pontos de largada separados por cerca de 50 metros, numa área de estudo de cerca de 50 hectares.

    Contudo, um dado chama a atenção: dos 84.000 machos estéreis preparados para a experiência de Faro, 20.712 — quase um quarto, 24,7% — nem sequer chegaram a abandonar os recipientes, pelo que apenas cerca de 63.300 terão efectivamente levantado voo. Dos exemplares marcados, 528 foram recapturados, correspondendo a uma taxa média de apenas 0,8%. Os machos percorreram, em média, 88,7 metros, embora um deles tenha sido encontrado a 299 metros do ponto de libertação. A probabilidade média de sobrevivência diária rondou 61,6%, enquanto a esperança média de vida no terreno ficou pelos 2,1 dias.

    Bairro de Alvalade, em Lisboa. Foto: D.R.

    Apesar destas limitações, os investigadores consideraram os resultados encorajadores para preparar futuras operações de controlo. O próprio estudo mostra, contudo, a dimensão que uma intervenção destinada a reduzir a população exigiria: a proporção média obtida foi de apenas 0,86 machos estéreis por cada macho selvagem, quando a literatura citada pelos autores aponta para rácios entre 10:1 e 100:1 para atingir níveis de supressão.

    Como a população selvagem masculina foi estimada em cerca de 11.970 exemplares, isso corresponderia, numa aproximação puramente proporcional, a cerca de 120 mil a 1,2 milhões de machos estéreis presentes no terreno — e o número a libertar teria provavelmente de ser superior, atendendo à mortalidade, à curta sobrevivência e à necessidade de efectuar largadas repetidas. O próprio artigo conclui que os machos deveriam ser libertados pelo menos três vezes por semana para assegurar uma presença contínua na zona de intervenção.

  • Governo classifica como secretos os contratos de 75 milhões de euros de apoio espacial à Ucrânia

    Governo classifica como secretos os contratos de 75 milhões de euros de apoio espacial à Ucrânia

    O Governo destinou mais 52 milhões de euros em 2026 à aquisição de imagens de satélite e dados de vigilância espacial para as Forças Armadas ucranianas, mais de duas vezes e meia a verba atribuída em 2025 para a mesma capacidade. Desde Dezembro de 2024, Portugal autorizou e afectou 74,9 milhões de euros a este tipo específico de apoio, mas o Ministério da Defesa recusa revelar os contratos celebrados, alegando que constituem “informação classificada”.

    O novo despacho, assinado pelo ministro da Defesa, Nuno Melo, em 11 de Setembro e publicado ontem no Diário da República, atribui à Força Aérea 52 milhões de euros para aquisições destinadas a fornecer às Forças Armadas ucranianas imagens ópticas, imagens obtidas através de radar de abertura sintética — Synthetic Aperture Radar (SAR) — e dados de Space Surveillance and Tracking, destinados à vigilância e seguimento de objectos no espaço.

    Imagem de satélite do sul da Ucrânia, com a península da Crimeia, o mar Negro e o mar de Azov, captada em 22 de Agosto de 2005. Crédito: NASA / Visible Earth. Imagem em domínio público. commons.wikimedia.org

    A verba foi retirada da autorização global de despesa de 130,4 milhões de euros aprovada pelo Conselho de Ministros em Junho passado para o apoio militar à Ucrânia. Esse limite global foi, entretanto, aumentado: a Resolução do Conselho de Ministros n.º 182/2026, publicada em 18 de Setembro, elevou-o para 207,365 milhões de euros, a executar durante 2026. O despacho dos 52 milhões tinha sido assinado uma semana antes dessa alteração, embora tenha sido publicado cinco dias depois.

    O salto financeiro nesta componente específica tem sido substancial e crescente. Em 2025, o Governo destinara 20,5 milhões de euros à capacidade espacial, exclusivamente para disponibilização de imagens ópticas e SAR às forças ucranianas. Os 52 milhões de 2026 correspondem a mais 31,5 milhões de euros, um aumento de cerca de 154% face à verba do ano anterior. Em Dezembro de 2024, a primeira autorização específica para este apoio tinha ficado em 2,4 milhões de euros.

    Em resposta a perguntas do PÁGINA UM, o Ministério da Defesa confirmou agora que este tipo de apoio à Ucrânia começou apenas em Dezembro de 2024, já durante o Governo de Luís Montenegro, e discriminou os três montantes: 2,4 milhões de euros em 2024, 20,5 milhões em 2025 e 52 milhões em 2026.

    Nuno Melo, ministro da Defesa. Foto: D.R.

    A tutela acrescentou que os valores são “não cumulativos”. A expressão significa que cada verba corresponde a uma autorização autónoma para o respectivo ano e não a um total que incorpore as autorizações anteriores. Assim, os 52 milhões agora atribuídos não incluem os 20,5 milhões de 2025 nem os 2,4 milhões de 2024. Somadas as três afectações, as autorizações para esta componente de apoio espacial atingem 74,9 milhões de euros.

    A soma não significa, contudo, que os 74,9 milhões tenham sido já gastos ou pagos. Os despachos fixam montantes que o Governo autorizou e afectou a esta finalidade; a execução financeira integral, incluindo contratos celebrados, compromissos assumidos, pagamentos realizados e eventuais saldos, não foi revelada pelo Ministério da Defesa.

    A resposta da tutela ajuda, aliás, a explicar uma das principais lacunas encontradas pelo PÁGINA UM quando procurou reconciliar dezenas de milhões de euros autorizados com os contratos de imagens de satélite publicamente identificáveis no Portal BASE. A reduzida expressão financeira dos contratos visíveis não permite concluir que a diferença corresponda apenas a aquisições ainda por realizar, porque o próprio Ministério afirma que “os contratos estabelecidos com as empresas e entidades beneficiárias são informação classificada”.

    Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia.

    A Defesa não revelou, assim, nem a lista das empresas e entidades contratadas, nem os montantes atribuídos a cada uma, nem os valores já pagos. Relativamente aos 52 milhões de euros de 2026, a tutela limitou-se a indicar que “o Governo de Portugal estabeleceu e autorizou os montantes atribuídos”.

    O próprio despacho publicado esta semana mostra que parte da contratação poderá ainda decorrer. Nuno Melo delegou no chefe do Estado-Maior da Força Aérea, general Sérgio Roberto Leite da Costa Pereira, os poderes necessários para conduzir os procedimentos pré-contratuais, celebrar os instrumentos contratuais, acompanhar a execução e autorizar pagamentos. O diploma determina também o cumprimento das regras de contratação pública aplicáveis e estabelece que as decisões devem ser fundamentadas e, quando necessário, submetidas à fiscalização do Tribunal de Contas.

    A classificação invocada pela Defesa coloca, porém, uma barreira à reconstrução pública do destino dos 74,9 milhões: os elementos acessíveis nas plataformas de contratação não permitem estabelecer uma correspondência integral entre as verbas autorizadas, os fornecedores contratados e os pagamentos efectuados.

    Guerra na Ucrânica começou em Fevereiro de 2022. Foto: D.R.

    Entre os negócios que permanecem publicamente identificáveis encontra-se a GEO SAT, empresa portuguesa de observação da Terra. Em 20 de Dezembro de 2024, uma semana depois da publicação do primeiro despacho de 2,4 milhões de euros, a Força Aérea celebrou com esta empresa uma subscrição de imagens ópticas por 375 mil euros.

    Na mesma data, foi registada uma subscrição de imagens SAR por 487.975 euros através de ajuste directo. Os dados públicos agregados desse procedimento apresentam omissões quanto à identificação do adjudicatário. A ficha disponível assinala campos obrigatórios em falta, razão pela qual não é possível atribuir aquele contrato concreto a uma empresa apenas através dessa informação.

    A GEO SAT voltou a contratar com a Força Aérea em Julho de 2025, recebendo 420 mil euros por seis meses de imagens ópticas. Em Dezembro do mesmo ano, foi-lhe atribuído outro contrato, de 301.500 euros, para uma “subscrição de vídeo por satélite”. Os três negócios publicamente localizados entre a Força Aérea e a empresa portuguesa somam 1,096 milhões de euros.

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    A guerra também se faz nos céus. Foto: D.R.

    O contrato de vídeo não contém, na ficha pública, informação suficiente para estabelecer uma ligação ao apoio à Ucrânia. Já os dois contratos de imagens ópticas, num total de 795 mil euros, remetem para o programa “Capacidade Espacial — Força Aérea”, previsto na Resolução do Conselho de Ministros de 2024, que enquadrou o apoio português à Ucrânia no final daquele ano. A própria resolução incluiu a capacidade espacial entre as modalidades autorizadas de apoio.

    A GEOSAT apresenta uma particularidade relevante neste sector. A estrutura accionista divulgada aquando da sua criação colocava a Omnidea como accionista maioritária, com 55%, ao lado do CEiiA, com 35%, e do AIR Centre, com 10%. A Omnidea é controlada pelo empresário Tiago Pardal. A GEO SAT integra também o núcleo do ecossistema espacial português apoiado pelo Estado e tem colaborado com a Força Aérea na criação de capacidade própria de observação da Terra.

    Mesmo assim, os contratos visíveis da empresa portuguesa representam uma fracção reduzida das autorizações conhecidas. Os 795 mil euros dos dois contratos de imagens ópticas relacionados documentalmente com o programa correspondem a pouco mais de 1% dos 74,9 milhões de euros autorizados desde Dezembro de 2024. Essa diferença não permite determinar quanto mais poderá ter recebido a própria GEO SAT, quanto foi contratado a empresas estrangeiras, quanto foi já pago ou que parte permanece por executar.

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    Foto: NASA.

    A ICEYE constitui, por outra via documental, um dos principais fornecedores estrangeiros da capacidade SAR portuguesa. A empresa finlandesa opera uma extensa constelação comercial de satélites de radar, tecnologia particularmente relevante em contexto militar por permitir a obtenção de imagens durante a noite e através de cobertura de nuvens. Um contrato publicado em Agosto de 2025 para imagens SAR apresenta um preço de 497.800 euros, mas a ficha pública disponível não identifica o fornecedor.

    A presença da ICEYE no programa espacial português ultrapassa as subscrições de imagens. Portugal contratou à empresa finlandesa sistemas SAR destinados a criar capacidade nacional própria, enquanto outros procedimentos no sector adjudicaram satélites à Satellogic Solutions, sociedade espanhola integrada num grupo internacional.

    Estes negócios atingem dezenas de milhões de euros, mas pertencem ao desenvolvimento da capacidade espacial portuguesa e não podem ser contabilizados nos 74,9 milhões destinados especificamente à Ucrânia sem documentação que estabeleça essa ligação financeira. A correspondência torna-se ainda mais difícil de apurar quando o próprio Ministério recusa identificar os contratos e beneficiários deste último programa, invocando a classificação da informação.

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    Guerra nos confins da Europa determina segredo de contratos em Portugal. Foto: D.R.

    Questionado pelo PÁGINA UM sobre o enquadramento jurídico das aquisições, o Ministério da Defesa invocou um diploma que regula o acesso e exercício das actividades espaciais e contempla a salvaguarda dos interesses políticos e estratégicos da República Portuguesa. A tutela garantiu que os procedimentos observaram o enquadramento legal aplicável, incluindo as disposições pertinentes do Código dos Contratos Públicos, e que foram asseguradas as condições de segurança do fluxo de informação.

    O diploma citado contém, contudo, uma ressalva relevante: exclui do seu próprio âmbito de aplicação as actividades espaciais prosseguidas no quadro da defesa nacional para protecção dos interesses estratégicos, de segurança ou defesa da República Portuguesa. Essa exclusão do regime geral das actividades espaciais não equivale, por si só, a uma dispensa das regras de contratação pública, que o próprio Ministério afirma terem sido observadas.

    Sobre a escolha dos fornecedores, a Defesa acrescentou apenas que as opções adoptadas tiveram em consideração “os requisitos operacionais, técnicos e de segurança aplicáveis”, bem como o enquadramento nacional de desenvolvimento da Base Tecnológica e Industrial de Defesa. Não indicou quantas empresas portuguesas e estrangeiras foram contratadas, não revelou os preços acordados com cada uma e não esclareceu que parcela dos 22,9 milhões autorizados em 2024 e 2025 foi efectivamente executada e paga.

    Governo de Montenegro aumentou mais financiamento para a Guerra na Ucrânia, mas sem se saber quem beneficia. Foto: D.R.

    A nova autorização de 52 milhões de euros acentua, deste modo, a distância entre a informação pública sobre a decisão de gastar e aquela que permite escrutinar a execução da despesa. O Diário da República identifica as verbas, a finalidade e o ramo das Forças Armadas responsável. O Ministério confirma a existência de contratos com empresas e entidades beneficiárias, mas considera essa informação classificada e não revela quem recebeu o dinheiro nem os respectivos valores.

    O apoio espacial português à Ucrânia passou, em menos de dois anos, de uma autorização anual de 2,4 milhões para 52 milhões de euros. As três autorizações e afectações aprovadas desde Dezembro de 2024 somam 74,9 milhões de euros. Quanto desse montante já foi contratado e pago, quais as empresas que receberam a maior parcela e a que preços forneceram as imagens continua sem ser conhecido publicamente, uma vez que o Ministério da Defesa considera classificados os contratos celebrados com as empresas e entidades beneficiárias.