Esta é a primeira quantificação usando dados oficiais sobre um dos temas mais sensíveis no período pandémico e envolvendo a vacinação de adolescentes e jovens adultos. Os internamentos por miocardite nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde aumentaram de forma acentuada a partir de 2021, precisamente no período em que Portugal avançou para a vacinação em massa contra a covid-19, atingindo em 2022 um máximo de 561 episódios — o valor mais elevado de uma série que recua ao ano 2000.
A quantificação foi apurada pelo CORPUS, plataforma de dados em saúde pública do PÁGINA UM, disponível desde Julho e que permite analisar de forma integrada os registos da Base de Dados de Morbilidade Hospitalar relativos aos internamentos nos hospitais públicos entre 2000 e 2024.

A análise cronológica, desagregada por grupos etários e por sexo, realizada pelo PÁGINA UM, revela um sinal forte de crescimento abrupto entre adolescentes e adultos jovens do sexo masculino — precisamente os grupos em que a literatura científica e as autoridades reguladoras vieram a identificar maior risco de miocardite após a administração de vacinas de mRNA contra a covid-19.
Os registos hospitalares portugueses não permitem, porém, estabelecer a causa de cada episódio, nem separar as miocardites eventualmente associadas à vacinação das relacionadas com infecção por SARS-CoV-2 ou com outras etiologias.
A série da Base de Dados de Morbilidade Hospitalar da ACSS mostra, todavia, que a miocardite está longe de ser um problema cardíaco surgido com a pandemia. E até já se observava uma tendência de crescimento de longo prazo, influenciada, entre outros factores, pela melhoria da capacidade diagnóstica e pela utilização crescente da ressonância magnética cardíaca para detecção destes problemas.

Em 2000 contabilizaram-se 69 internamentos para todas as idades; em 2020 foram já 281, num ano marcado pela forte contracção da actividade hospitalar.
Mas foi a partir de 2021 que a curva mudou claramente de patamar. Em 2022, os 561 internamentos representaram um aumento de cerca de 57% face à média anual de 358 registada entre 2015 e 2019 e corresponderam quase ao dobro dos internamentos observados em 2020.
Em termos relativos e absolutos, foi nos rapazes entre os 12 e os 17 anos que a ruptura se tornou mais evidente. Entre 2000 e 2019 registavam-se, em média, cerca de oito internamentos por ano. Passaram para 31 em 2021, 38 em 2022 e 45 em 2023; em 2024 recuaram para 27, mas este número continuava a ser mais de três vezes superior à média histórica. Nas raparigas da mesma idade foram apenas três casos em 2021, sete em 2022, cinco em 2023 e quatro em 2024.


Nos homens dos 18 aos 30 anos, grupo em que já se observava uma tendência ascendente antes da pandemia, o salto é também bastante expressivo. Tinham ocorrido 129 internamentos em 2019, seguindo-se uma descida para 75 em 2020. Depois surgiram 147 em 2021 e 213 em 2022; nos dois últimos anos da série continuaram elevados, com 150 em 2023 e 168 em 2024.
Somando os dois sexos, os jovens entre os 18 e os 30 anos passaram de 95 internamentos em 2020 para 186 em 2021 e 253 em 2022. Saliente-se que a predominância masculina, porém, era já anterior à covid-19 e atravessa toda a série, sendo uma característica epidemiológica conhecida da própria miocardite. Mas agravou-se no período de vacinação.
A desagregação mensal dos internamentos entre os 18 e os 30 anos torna ainda mais visível a mudança de patamar ocorrida a partir de 2021. Em 2019 registavam-se, em média, 12,7 internamentos por mês, valor que caiu para 7,9 em 2020. Em 2021, a média quase duplicou face ao ano anterior, para 14,8 casos mensais, com uma subida especialmente pronunciada no segundo semestre e um máximo de 27 internamentos em Setembro. O pico surgiu em 2022, quando a média atingiu 21 internamentos por mês, com 27 casos em Fevereiro e novamente em Novembro. Nos dois anos seguintes houve uma descida, mas sem regresso aos níveis de 2020: a média manteve-se em 14,3 internamentos mensais em 2023 e 14,9 em 2024, acima também do valor observado em 2019.

Mais casos, mas internamentos mais curtos
Há, contudo, um dado que impede uma leitura simplista do aumento, embora a necessitar de maior estudo. A análise do PÁGINA UM procurou saber se a explosão do número de internamentos nas idades jovens foi acompanhada por um agravamento comparável da evolução hospitalar imediata. E a resposta é negativa: em média, os internamentos tornaram-se relativamente curtos.
Nos rapazes dos 12 aos 17 anos, a demora média no hospital foi de 3,7 dias em 2021, de 4,6 em 2022, de 3,6 em 2023 e de 4,7 em 2024. Nos homens entre os 18 e os 30 anos os valores oscilaram apenas entre 4,5 e 4,8 dias, mas aqui as diferenças com anos anteriores é mais pequena (cerca de um dia a menos). A média global de todos os internamentos, que fora de 6,6 dias em 2020, baixou para 5,1 em 2021 e situou-se entre 5,5 e 5,8 dias nos três anos seguintes.
Em todo o caso, a letalidade hospitalar foi também muito baixa nestas idades. Entre 2021 e 2024 não morreu nenhum adolescente dos 12 aos 17 anos internado com miocardite; entre os 18 e os 30 anos registaram-se apenas dois óbitos nas tabelas da ACSS durante esses quatro anos. O único óbito recente entre adolescentes ocorreu em 2020, portanto antes da vacinação contra a covid-19.

Estes números são compatíveis com uma menor gravidade aguda média dos casos adicionais — ou com a identificação e internamento de uma maior proporção de formas ligeiras, graças a uma maior vigilância e capacidade diagnóstica. Mas um internamento de quatro dias não significa que, depois da alta, o coração tenha regressado integralmente ao estado anterior. É aqui que os estudos de acompanhamento adquiriram particular importância.
FDA admite que sequelas de longo prazo continuam por esclarecer
A existência de uma relação causal entre as vacinas de mRNA e casos de miocardite é cada vez mais uma evidência para as próprias autoridades reguladoras, embora haja ainda adeptos da vacinação massiva que procurem negar os problemas. A Agência Europeia de Medicamentos recomendou em Julho de 2021 que miocardite e pericardite fossem incluídas como efeitos adversos da Comirnaty, da Pfizer/BioNTech, e da Spikevax, da Moderna, sendo o risco particularmente associado aos homens jovens.
Em Junho do ano passado, a Food and Drug Administration – a autoridade norte-americana de segurança alimentar e de fármacos – foi mais longe e obrigou à actualização da informação de segurança das vacinas de mRNA. Com base nas formulações usadas em 2023-2024, estimou cerca de oito casos de miocardite ou pericardite por milhão de doses entre os seis meses e os 64 anos, aumentando para cerca de 27 casos por milhão nos homens dos 12 aos 24 anos, sobretudo nos primeiros sete dias depois da vacinação.

Mas a actualização da FDA contém outro elemento relevante para a leitura dos dados portugueses. Num estudo de acompanhamento de cerca de 300 pessoas que desenvolveram miocardite após uma vacina de mRNA, as ressonâncias magnéticas cardíacas continuavam frequentemente a mostrar, cerca de cinco meses depois, alterações compatíveis com lesão do músculo cardíaco. Em alguns doentes houve melhoria, mas não em todos. E a FDA reconhece expressamente que não se conhece ainda o significado prognóstico dessas alterações nem as potenciais sequelas cardíacas de longo prazo.
A investigação entretanto publicada mantém esta dualidade. Num acompanhamento prospectivo australiano divulgado em 2025, 35% dos doentes avaliados entre 12 e 18 meses depois da miocardite pós-vacinal ainda referiam sintomas. Ao mesmo tempo, a evolução clínica global foi considerada favorável: houve poucas novas hospitalizações e nenhuma morte no período de seguimento.
Um grande estudo francês, publicado no JAMA, chegou a uma conclusão semelhante por outra via: aos 18 meses, os doentes com miocardite atribuída às vacinas de mRNA apresentavam menos complicações cardiovasculares do que os doentes com miocardites convencionais, embora alguns, maioritariamente homens jovens previamente saudáveis, continuassem a necessitar de acompanhamento médico meses depois da alta.

Vacina, infecção ou ambas? Os dados portugueses não dizem
Também não se pode esquecer que a própria infecção por SARS-CoV-2 provoca miocardite, embora os dados agora revelados mostrem que o aumento de casos nos jovens ocorreu sobretudo quando se iniciou a vacinação. Embora haja estudos científicos que tenham encontrado, para o conjunto da população, um risco maior após a infecção do que depois da vacinação, essa comparação muda consoante a idade, o sexo, o número da dose e a vacina utilizada.
Por exemplo, num estudo inglês publicado na Circulation, nos homens com menos de 40 anos o excesso de miocardites após a segunda dose da Moderna foi superior ao observado depois de uma infecção por SARS-CoV-2 naquele subgrupo. Infelizmente, apesar dos registos hospitalares indicarem se o internamento teve a miocardite como diagnóstico principal, não existe informação que permita cruzar cada internamento com a vacinação e com as infecções anteriores.
Em todo o caso, uma pesquisa específica de reacções adversas a vacinas víricas, efectuada também pelo PÁGINA UM, encontrou 127 episódios em 2021, todos como diagnóstico secundário. Em todo o caso, o código utilizado nos registos não distingue as vacinas contra a covid-19 das restantes vacinas víricas. Mas convinha que esse estudo se realizasse.

Recorde-se que, em Portugal, apesar dos avisos de alguns pediatrias, incluindo dois pareceres do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos ‘engavetada’ pelo então bastonário Miguel Guimarães (agora deputado do PSD), a Direcção-Geral da Saúde cedeu a pressões comerciais e políticas, acabando por recomendar a vacinação de adolescentes e jovens adulto saudáveis contra a covid-19, mesmo apesar do muito baixo risco da doença para estes grupos etários.
NOTA — O relatório completo do CORPUS, a plataforma de dados em saúde pública do PÁGINA UM, pode ser consultado aqui. Uma parte substancial da plataforma é de acesso gratuito, incluindo os estudos e relatórios já publicados, os principais painéis de consulta, mapas e diversos indicadores sobre hospitalização e mortalidade. O registo permite explorar mais informação disponível na base, que reúne cerca de 38 milhões de registos hospitalares do SNS entre 2000 e 2024. As funcionalidades mais avançadas — designadamente pesquisas complexas, cruzamentos e comparações aprofundadas, exploração estatística, elaboração assistida de relatórios e a possibilidade de interagir directamente com a base de dados através de perguntas em linguagem natural — estão reservadas à modalidade paga CORPUS Pro. Os novos utilizadores podem experimentar estas funcionalidades durante um período gratuito de sete dias, antes de decidirem se pretendem subscrever o serviço. O CORPUS continuará a incorporar novos dados, ferramentas de análise e funcionalidades.
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