Etiqueta: Pindorama

  • A religião dos desertos, os deuses de areia

    A religião dos desertos, os deuses de areia


    O mesmo também se diga do ferreiro sentado à bigorna com a atenção fixada nos trabalhos sobre o ferro. O vapor de fogo consome-lhe as carnes, e no calor do forno debate-se longamente. O ruído do martelo ressoa sem cessar a seus ouvidos e seus olhos estão fixos no modelo a reproduzir; ele empenha seu coração em aperfeiçoar seus trabalhos e suas vigílias se passam em retocá-los até a perfeição.

    Eclesiático 38, 28

    ***

    1. Adulta, meditando sobre suas defesas

    As grandes construções metálicas formam uma barreira quase intransponível. À volta, o grande deserto ocre. Estou cercada. Aos poucos, eles apertam o sítio, mas aguardo em profundo silêncio. Vou apedrejá-los, caso se aproximem. Mas não creio que desejem entrar na cidadela. Preferem o cerco.

    Por entre as tenebrosas figuras de ferro, ergui montes de pedras. Serão usadas como munição quando eles chegarem, gritando, montados nos seus pequenos cavalos. Montes de pedra que lembram piras crematórias.

    As construções metálicas são, na verdade, espantalhos. No começo, eram homens comuns. Depois, diante do cerco brutal e do ataque iminente, se tornaram guerreiros. Levei vinte anos para construí-los e só ontem descobri que são, na verdade, espantalhos, espantahunos.

    De repente, me veio a iluminação: eu já sabia, antevia, previa – desde quando era menina de joelhos ossudos e vi um ser humano aprisionado dentro de uma árvore – o ataque dos hunos e dos tártaros, dos godos e dos visigodos. Por isso, inconscientemente, construí os espantalhos de ferro.

    Não há mais retorno aos dias despreocupados e luminosos do passado. Agora, vigio constantemente e trabalho de maneira febril. Nos curtos intervalos de descanso, recolho pedras pontudas que reuno em grandes pilhas, às quais dou a forma de piras crematórias. Novas reservas de munição. Se vierem à cidadela, alguns deles terão a morte que mereciam os pecadores da Bíblia: lapidação.

    Nada foi planejado. Essa é talvez a minha melhor defesa: não construí essas figuras contra eles. Nem sequer as ergui pensando em me defender. Apenas trabalhei nelas, dia após dia, incansável. Simplesmente, eu as fui fazendo, sem plano nem meta. Colocava um elemento aqui e outro ali, obedecendo a uma secreta ordem interior. Por isso, hoje eu digo: há muitos anos, desde o início, eu já intuía que eles estavam se reunindo no deserto, por trás das dunas, formando o mais poderoso exército de todos os tempos. Nunca os vi, embora sejam numerosos e atrevidos, e nunca os escutei, mesmo sendo barulhentos, mas sei que estão lá. Reunindo forças, como eles gostam de dizer, ameaçadores.

    Se pudesse, eu não falaria sobre eles. Se o faço agora é porque é indispensável. Não posso calar, meu silêncio os fortaleceria ainda mais. Se soubesse escrever, se fosse poetisa, ergueria também barreiras de palavras. Disseram-me que eles temem mais as palavras do que os ferros ou as pedras. Disseram-me ainda, as esvoaçantes figuras noturnas, que, se um poeta dispusesse as palavras certas, por entre as construções metálicas e os montes de pedra, eles não entrariam jamais na cidadela. Mas onde achar um poeta?

    2. Menina, vê um homem preso dentro de uma árvore

    Falemos do meu pai. Era um homem baixo, de largos ombros, grandes mãos e dedos fortes. Eu era fascinada por aquelas mãos que se moviam sem cessar, moldando e retocando as palavras que não lhe paravam de sair da boca voraz. Quando caminhávamos – e todos os dias, no final da tarde, fazíamos a volta no quarteirão -, eu tinha de me esforçar para permanecer ao lado dele, que avançava com rápidas passadas marciais. Papai tinha pressa, sempre, mesmo nos meses de verão, quando a noite demorava muito para chegar. Enquanto caminhava, a sua grande mandíbula azulada mastigava as palavras – lambendo-as, chupando-as e, por fim, cuspindo-as. Tais palavras não caíam ao chão, nem eram levadas pelo vento, porque logo suas grandes mãos, espalmadas no ar úmido, as agarravam, uma a uma, a fim de torcê-las, sacudi-las ou alisá-las, de modo que pudessem, ao fim, serem estendidas diante dos meus olhos fascinados. Hombres. Guerreros. Espantapájaros.

    Também havia uma mãe, mas era menos visível. Estava nas dobras sombrias da casa, pelos desvãos, rezando, varrendo, limpando e costurando. Em silêncio. Nunca suas mãos me chamaram a atenção. Creio que eram pequenas, de dedos curtos e gordos. Quase não falava, sua voz era inaudível. Lembro que sempre tinha de pedir a ela que repetisse suas frases curtas. Eram palavras secas, incolores, sopradas sem gosto.

    Um dia, quando passávamos diante da igreja, vi o homem dentro da árvore. Alto, magro e tristonho, estava preso no tronco. Tinha um guarda-chuva enfiado no braço esquerdo, que trazia dobrado junto ao corpo. Muito pálido, usava um chapéu coco preto. Pensei em interromper a caminhada, mas meu pai estava tão entusiasmado com as palavras que lhe brotavam da boca que me calei. Tinha razão o pai de estar empolgado naquele dia: as palavras já lhe saiam da boca envolvidas em grandes bolhas de sabão e subiam no ar perfumado. Hombres. Guerreros. Espantapájaros.

    Mais do que as iridescentes bolhas recheadas de palavras, com que papai tentava me enfeitiçar, impressionou-me o ar triste do homem preso no caule da árvore. Não, ele não me dirigiu a palavra, apenas acompanhou, com o olhar mais desalentado deste mundo, a minha passagem diante da igreja. No dia seguinte, bem cedo, peguei uma velha machadinha enferrujada – de fio cego e tosco cabo de madeira – e fui libertar aquele pobre homem.

    3. Há prisioneiros dentro de todas as coisas

    Os verdadeiros seres estão presos dentro de alguma coisa. No princípio, você só percebe os maiores mananciais de vida. Nas montanhas há milhares de pessoas e bichos. Nas florestas há toda uma humanidade. Na água, não, não há ninguém. Mais tarde, você os vê também nas latas, nas garrafas e nas tábuas velhas. Uma infinidade de gente aprisionada. Cabe a você libertá-la. Também na argila não há ninguém. Você até consegue criar uns corpos. Mas eles não têm vida. O que falta nas obras de argila? O sopro.

    4. Aquilo que se convencionou chamar amor

    Chega um momento em que você acha que os seres humanos têm um só órgão: as mãos. Então, você está pronta para amar. Primeiro, você vai a uma festa de colegas da universidade. Depois, bebe um cálice de vinho e percebe que são impenetráveis as conversas que cruzam a sala. Em seguida, você descobre, num canto, um rapaz de mãos ossudas. Por fim, você está num quarto com aquele mesmo rapaz. Ele não vê ninguém preso em lugar nenhum. As palavras embolam-se na língua dele. A língua dele é vermelha. Os seres humanos não entram no cio. Não exalam nenhum odor particular, como os animais. Quero dizer, os seres humanos masculinos cheiram a creme de barbear, loção pós-barba e mais um tanto de suor azedo. Quando está deitada sob um homem desengonçado, você lamenta que ele não possa ver tudo o que está aprisionado nos objetos que cercam a cama.

    5. O crítico, seus conceitos sólidos e suas palavras líquidas

    Com sua arte peculiaríssima, ela persegue um novo paradigma. É como se buscasse atingir a maior profundidade possível num mergulho vertiginoso que a levará ao fundo do abismo da criatividade. Segundo o programa da última exposição – realizada há dez anos – “seus grandes guerreiros retorcidos, agônicos, são como vigilantes de um país de sonho, ameaçado pela banalidade do cotidiano”. Desde então, suas obsessões se cristalizaram. Ela continua a produzir as mesmas figuras, que não podem mais ser chamadas de “guerreiros”. Pelo acúmulo incessante de materiais, perderam a postura marcial, belicosa. Tornaram-se ridículos. Serão soldados que têm cravadas no próprio corpo tantas espadas quanto as que empunham? De certos ângulos, lembram ignotos animais pré-históricos, espinhentos.

    Guerreiros, homens, animais, monstros?

    Escolha a definição que lhe parecer melhor. Servem todas.

    Se há algo de que não se pode chamá-la é de incoerente. Ao longo de uma carreira que chega agora aos quarenta anos não fez jamais nenhuma concessão. De início, extraía da madeira os seus famosos “homens aprisionados”. Foi uma fase que se estendeu por muitos anos e que acabou quando – segundo escreveu um crítico que hoje está mergulhado no ostracismo – ela já estava “na antecâmara da perfeição”. Depois de uma breve incursão insatisfatória, que não passou de três anos, pela argila, ela chegou, por fim, aos metais. De lá para cá, construiu figuras cada vez maiores, mais ásperas, mais desesperadas, mais acuadas. Hoje, quem visita a chácara pela qual ela dispersa seus trabalhos fica impressionado com o ar entre assustado e cômico das estátuas.

    A rotina da artista é massacrante. De manhã à noite, ela manipula, escolhe, serra, corta, ajusta e solda. Com o auxílio de um pequeno guindaste, vai acrescentando às figuras os elementos que recolhe pelos ferros-velhos da cidade. Constrói pelo acúmulo. Num determinado dia, ela sente que o trabalho está pronto. Então, com a ajuda de um trator, desloca a figura para um “posto de vigia”, num dos cantos de sua chácara, onde ficará “à espera dos hunos”, como ela costuma dizer.

    6. Os laços com o mundo lá fora – o médico e o dentista.

    O médico existe para me mandar fazer exames e para, depois, percorrer com a ponta da caneta a interminável lista de números. O bom colesterol está mal. O mau colesterol está ótimo. Não há sinal de câncer. Pelo menos, à vista. O hemograma, como um todo, está normalíssimo. Não quer saber de câncer, corte a carne vermelha! E beba muita água, tanta quanto puder suportar. Dez copos por dia, tudo bem! O coração, nunca se sabe. Pode explodir de uma hora para o outro. Uma vez, eu estava aqui mesmo, nesta sala, lendo o eletrocardiograma de um cidadão. Um homem forte e sadio, de cinquenta anos. Tudo bem com o exame, eu disse. Ele se foi, feliz. No semáforo, aí na esquina, morreu. Infarto fulminante. Portanto, cuide-se!

    O dentista existe para cuidar das minhas gengivas. A boa gengiva é tudo. Você deve tomar o bactericida, sim, mesmo que ele lhe escureça os dentes. Em uma semana, uma bactéria vagabunda dá cabo de um dente sadio. Tudo é o estresse. Você deveria descansar nos finais de semana. No sábado e no domingo, sim. Vá caminhar pela cidade. E não venha me dizer que isso é coisa de burguês! Só Deus sabe o quanto eu peno com as suas gengivas. Tudo é o ph da saliva. Você vive tensa. É a pressão do trabalho, eu sei. Mas comigo não tem essa. De manhã cedo, antes de entrar aqui, alongamento! À tardinha, alongamento! Alongamento é tudo.

    7. À véspera do ataque

    São cada vez mais numerosos. Hunos, tártaros e mongóis. Godos, visigodos e ostrogodos. Reúnem-se no deserto que existe além da estrada. A religião do deserto, os deuses de areia. Estão armados até os dentes. Os alanos e os celtas. Os germanos e os gauleses. Estavam todos dentro do meu livro de História. São estupradores, todos eles. Passam as criancinhas nas espadas. Os bárbaros. O sacerdote deles é um aparelho de televisão. Cantam canções licenciosas no areal. Talvez ataquem esta noite. Antes, porém, eles se deitarão com as meninas que dançaram, lúbricas, ao redor da fogueira vermelha. Mas eu tenho meus espantahunos e todos os montes de pedras. Me faltam apenas as palavras cortantes dos poetas.

    8. Um apelo radiofônico à consciência da comunidade

    É preciso que alguém reaja. Um juiz, o prefeito. Está certo, é propriedade dela, as terras são dela. Mas acontece que as figuras podem ser vistas da estrada. Gigantescos bonecos de ferro em poses eróticas, retorcidos pela lascívia. Obscenos. Alguém tem que dar um basta. Uma senhora já idosa, como pode? Deve bem ter mais de sessenta anos. Não fica bem! É reconhecida nacionalmente? Sim, é. O seu nome projeta nossa cidade no panorama artístico nacional? Projeta, sim. Mas, e daí? Isso lhe permite agredir a sociedade? Será que a curto ou médio prazo, esse reconhecimento artístico que ela tem não reverterá contra a nossa cidade? Passa muita gente na estrada, pessoas que estão viajando à capital. Olham aquilo e… A televisão nem filma mais. Há quatro, cinco anos, ainda vinham equipes de tevê da capital para filmar as figuras. Mas, aos poucos, os objetos foram ganhando aquela conotação… sexual, para dizer o menos. Sim, uma estranha conotação sexual. Ela alega que são espadas. Sim, mas pergunto eu, por que espadas pelo corpo todo? Onde já se viu isso? É arte? Pode ser arte, tudo bem. Mas arte é uma coisa e decência é outra, bem diferente. Quero deixar bem claro: ninguém quer censurar ninguém. O que a comunidade quer é decência. Discrição. Que ela construa abrigos em torno das figuras! Pelo menos, das mais descaradas. O certo é o seguinte: alguém, uma autoridade, tem que tomar uma providência!

    9. O exército inimigo cerra fileiras

    Godos, jornalistas, visigodos, banqueiros, germanos, policiais, hunos, assassinos, tártaros, empresários, mongóis, psiquiatras, núbios, políticos, cartagineses. Homens comuns e bárbaros, todos misturados, além das dunas, sobre as areias escaldantes, com alto-falantes e pistolas, prontos para o ataque.

    10. Diálogo ao nascer do dia, no passado remoto

    – O que a senhoritazinha quer aqui, tão cedo, com esta machadinha? Cortar a árvore?

    – Não. Soltar o homenzinho magro.

    – Homenzinho?

    –  É. O que está dentro da árvore.

    – ?

     – Ele está preso aqui, ó, de chapéu e guarda-chuva. Está vendo?

    – Sim, sei, estou vendo… Mas a machadinha não está bem afiada. Sua mamãe viu quando você saiu de casa?

    – Não viu, não. Ela está dormindo.

    – Então, dê a machadinha aqui para o guarda. Vou mandar afiar. Mais tarde, quando a árvore estiver dormindo, eu tiro o homenzinho daí de dentro.

    – O senhor promete que depois dá ele para mim?

    – Dou, claro! Agora pegue a mão do guarda. Isso. Me leve até sua casa.

    11. Reconhecendo a vitória dos hunos

    Faltam-me as palavras. Se as tivesse, poderia espalhá-las por todo o terreno. Como minas explosivas. Não, não adianta. Eles saberiam passar entre elas.

    Não terei tempo de chegar às pilhas de pedras pontiagudas.

    Meus espantalhos não os assustam.

    Hoje, os inimigos estão particularmente felizes.

    11. O horror, antevisto de uma cadeira de dentista

    A saúde da gengiva é tudo. Não confunda periodontista, que é meu caso, com periodista. Periodista é jornalista, em espanhol. Sim, lembro que seu pai era uruguaio. As pequenas coisas são essenciais. As mãos, por exemplo. Elas são tudo, para um dentista. Tive uma colega de faculdade que abandonou o curso no último ano, um mês antes da formatura. Artrite nas mãos. Há quem diga que é coisa psicológica. Eu repito: para mim, as mãos são tudo. Por isso, nunca joguei vôlei. E eu sou louco por vôlei. Imagine se eu levo uma bolada num dedo? Posso ficar inválido para a minha profissão.

    Imagine se você, um certo dia, é enfiada numa camisa-de-força. Imagine só! Suas mãos presas, amarradas, nas costas, um braço por cima do outro. Você, uma escultora! Eu lhe pergunto: há horror maior?

    Lourenço Cazarré é escritor

  • O homem todo vestido de preto

    O homem todo vestido de preto


    O sol morria no horizonte, vermelho, mas o calor permanecia sobre a cidade, sufocando-a, úmido e pegajoso. Janelas e portas escancaradas mostravam gente suarenta e apática no interior das casas. Só as crianças não sentiam a quentura: corriam pelas calçadas incendiadas, empurrando-se, gritando.

    Vínhamos num carro velho, tão lento e preguiçoso quanto os homens que se arrastavam de volta à casa depois de um dia de trabalho. Éramos rapazes e mirávamos sem interesse a inquieta garotada de bochechas vermelhas e os velhos de pijama, já nas cadeiras de balanço, à espera da frescura da noite. Mas naquele lusco-fusco havia também mulheres debruçadas nas janelas.

    Esmagados pelo calor que entrava em jatos de vapor pelas janelas abertas do automóvel, vínhamos taciturnos, calados. Desembarcamos diante do ginásio de esportes. A rua era uma fornalha.

    Entramos. Lá dentro, por uns minutos nos detivemos junto à tela de proteção da quadra observando os caras que jogavam. Camisetas molhadas, coladas no corpo, cabelos empapados, rostos avermelhados, esbaforidos usavam mais de astúcia que de vigor.

    Fomos para o vestiário. Não senti alívio nenhum quando me livrei das roupas; o calor apalpou-me as pernas e o peito enquanto eu vestia o calção e a camiseta preta.

    – Eu é que não queria estar na tua pele, com este calor danado – disse-me o Boca. – Vestir uma camiseta grossa!

    – Todo mundo vai suar muito mesmo – retruquei. – Tanto faz.

    – Mas, em compensação, o goleiro fica parado – palpitou o Magro.

    – Parado não quer dizer descansando – acrescentei. – No golo, o ruim é o suor da testa entrando ardido no olho da gente.

    – Vocês conhecem o time deles? – perguntou o Turco.

    – Ouvi falar que jogam mais ou menos – respondeu o Boca. – Mas parece que sentam o sarrafo!

    – Quem te mandou acertar jogo contra o time de um matadouro? – intrometeu-se o Magro, encarando o Boca.

    – Matadouro? Como é que eu ia saber que eram de um matadouro? Só sei que é uma alemoada. Devem ser duros de cintura! Vai ser barbada.

    – Pra teu controle, é um matadouro de porcos – disse o Magro. – Clandestino, ainda por cima.

    Até as palavras soam mais quentes aqui no vestiário, pensei.

    Preguiçosamente, lentos, vestíamos o uniforme. Ninguém ali parecia disposto a fazer os exercícios de aquecimento.

    – O pior pra nós é o goleiro deles – disse o Boca.

    – O goleiro deles? – me interessei. – Quem é?

    – É um alemão meio velhusco. Um tal de Batata.

    – Batata?

    – É isso aí. Conheces?

    – Não vai dar pra nós – eu disse. – É melhor a gente ir pra casa. Não temos a mínima chance de ganhar.

    Todos me olharam, interrogativos.

    Resolvi não dizer mais nada. Não expliquei a eles que conhecia o Batata desde quando eu tinha nove, dez anos.

    Eu ainda usava calças curtas, quando meu pai começou a me levar para assistir às partidas do campeonato de futebol de salão, nas noites de sábado. Eu já era fascinado pelos goleiros. E ele, Batata, era o mais elegante de todos os arqueiros da cidade. Todo vestido de preto, magro e alto, uma risca perfeita cortando o cabelo claro ao meio. Batata, solitário como todos os goleiros, passava o tempo todo vigiando com seus olhos azuis semicerrados o movimento dos jogadores. Para mim, ele era o maior de todos, invencível.

    Sim, naquela noite infernal, jogamos contra os caras do matadouro. Foi uma partida comum, como essas tantas outras que nas noites de calor ou de frio entretêm os jovens das pequenas e médias cidades.

    Estou falando de futebol de salão e não desse negócio modorrento e sem graça que é o futebol de campo, esse jogo em que vinte marmanjos se arrastam por um gramado. Não, estou falando do futebol que é disputado numa quadra de cimento liso ou de taco por caras que correm feito loucos. Que trombam e caem. Caem a todo momento porque o campo é pequeno e a velocidade deles é tremenda. Mas que levantam no mesmo instante porque os segundos são preciosos. O desgaste físico é tanto que os tempos são de apenas vinte minutos. E aquela bola, que parece coisa de menino, tão pequena, é terrível porque machuca bastante. Um dia me contaram o caso de um cara que morreu com um rim dilacerado quando levou uma bolada. O pobre estava formando uma barreira.

    Ganha o time que erra menos. O sujeito não pode chegar um milésimo de segundo atrasado. Todo erro é fatal. É jogo que exige paciência, malícia. É jogo de estratégia, de espera. Para ganhar, é preciso acertar nas vezes em que o adversário erra. É como na vida, o sujeito só se alevanta quando o outro falseia a passada. É jogo bruto.

    As grandes jogadas são imperceptíveis. Dribles de centímetros, que só os muito habilidosos conseguem dar. O giro fulminante, o corta-luz. E os chutes? Ninguém chuta de lado de pé, bola colocada, essa frescura. É sempre de bico, chute seco. A bola zune, assobia no ar parado dos ginásios cobertos. A magia do futebol de salão está na vertigem do raciocínio dos jogadores.

    O nosso time era muito superior. Jogávamos juntos desde o nosso tempo de ginasianos. Estávamos entrosados de um jeito tal que nem precisávamos erguer o rosto para saber onde andava o companheiro – bastava jogar a bola no espaço vazio que ele chegava a tempo.

    Acima de tudo, éramos amigos, camaradas, parceiros de bailes e de namoricos, colegas de universidade, companheiros de noitadas. Então, se por acaso um perdia a bola, todos voltavam, juntos, para ajudar na defesa, e imediatamente preparar um contra-ataque.

    Jogamos muito bem naquela noite sufocante, jogamos bem pra burro.

    Mas não vencemos.

    O que eu quero dizer é que não pudemos explodir no grito de golo e bater nas palmas das mãos dos outros, dar socos no ar ou recolocar a bola no meio da quadra.

    Isso tudo por causa daquele goleiro, o goleiro do time do matadouro de porcos, talvez já beirando os cinquenta anos, aquele que todos chamavam Batata.

    Porque ele parecia ter uma dezena de mãos como a deusa hindu e seu corpo seco era movido por uma eletricidade de animal. Quando chutavam cruzado, ele se abria no ar, pernas e braços, um xis perfeito, e assim guarnecia toda a meta, porque sempre havia uma perna ou um braço para mudar a trajetória da bola, viesse ela de onde viesse. E quando chutavam bolas baixas, rasteiras, ele, que era um sujeito alto para goleiro de futebol de salão, vinha pegá-la com a mão, porque os pés são traiçoeiros, não nos obedecem. As mãos, sim. Elas fazem o que a gente quer.

    Era espantoso como aquele sujeito de cabelos já cinzentos apanhava, em mergulhos sinuosos, a bola com a mão. E logo se erguia e lançava a bola com força, sempre certeira, até o pé do atacante. Eram lançamentos perfeitos, quase que meio golo, como a gente dizia na época. Mas, naquele jogo, eles acabaram dando em nada porque aquele time do matadouro era muito do vagabundo e ninguém ali conseguia aparar a bola jogada pelo Batata, tirar-lhe o efeito, dominá-la.

    Quando terminou a partida, sai correndo da minha trave, comovido, atravessei a quadra e abracei o alemão velhusco pelos joelhos. Levantei-o do chão. Ele ficou um tanto surpreendido, porque já não tinha mais fãs há muito tempos. Quando o recoloquei no chão, ele passou a mão pelos meus cabelos e disse:

    – Valeu, guri!

    Depois, me fui correndo ao vestiário.

    Rapidamente, me botei debaixo do chuveiro.

    Enquanto tiravam o uniforme, vagarosos, meus companheiros discutiam. Por que não ganhamos? Onde falhamos?

    Quando saí do chuveiro, resolvi falar:

    – Vamos parar com este papo besta. O Batata jogou sozinho. Ainda é o maior goleiro da cidade. Sempre adivinha onde o sujeito vai botar a bola. As mãos dele têm imãs. A gente só ganharia se alguém tivesse trazido um revólver pra dar um tiro na cabeça daquele alemão filho da puta.

    Calaram-se.

    Enquanto me vestia, senti vontade de chorar mais uma vez, mas me controlei porque não tinha mais a água do chuveiro para mascarar.

    Fiquei apenas lembrando de tantos anos antes quando eu era apenas um piá de calças curtas e, mãozinha dentro da mão áspera de meu pai, escalava penosamente os altos degraus das arquibancadas do ginásio do Cruzeiro nas noites de sábado.

    Naquela época, Batata não tinha os olhos raiados e o pescoço avermelhado dos bêbados. Não! Era o mais elegante e vaidoso dos goleiros da cidade – sempre impecavelmente vestido todo de preto: tênis, meias, calção, camiseta e luvas.

    Foi por causa de uma mulher que se desgraçou. Mulher safada. Neste mundo cheio de mulheres ele só queria aquela, a vagabunda, a sem-vergonha que o enganava. Então deu em beber. Naquele tempo trabalhava num banco, e ganhava uma boa grana extra jogando. Tinha um carro e andava bem vestido. Mas ela queria luxos que um emprego decente não podia propiciar. Aí, um dia, ele roubou. Por causa dela. Pouca coisa, parece. O caso foi abafado, mas ele acabou sendo despedido. Por algum tempo ainda conseguiu outros empregos, sempre um pior que o anterior. Ainda gozou de impunidade por algum tempo por ser o melhor goleiro de futebol de salão da cidade. Mas depois aprontou tantas vigarices que um dia acabou dando com os costados na cadeia.

    Na época em que tive a suprema honra de enfrentá-lo, ele só jogava em times fuleiros. Jogava por qualquer coisa, um prato de sopa, uma carteira de cigarros, duas cervejas. Desde então, tenho disputado mil partidas. Esqueço todas, nem conto os golos. Mas aquele zero a zero eu não esqueço. Ainda me lembro da leveza dele quando o levantei, guardo o espanto dos olhos avermelhados que me fitaram, sinto o peso da mão dele, enluvada, na minha cabeça, e a voz rouca que me disse:

    – Valeu, guri!

    Lourenço Cazarré é escritor

    (*) (*) Do livro Ilhados.

  • O Brasil, desculpem, não é mais o país do futebol

    O Brasil, desculpem, não é mais o país do futebol


    Mesmo inexperto em coisas de futebol (assisti a três jogos nos últimos 11 anos) e morador de uma cidade que não têm tradição no esporte bretão (Brasília), resolvi meter a minha colher nesse assunto milionário para dizer que – atenção! cuidado! – o Brasil não é mais o país do futebol. Mas de imediato, antes de ser acusado de lesa-pátria, faço uma ressalva: os países do futebol, hoje, são muitíssimos.

    Vejamos. O Brasil foi mesmo o país do futebol até o final dos anos 1970, ou mais exatamente até a tragédia da Copa de 1982. A nossa última grande geração foi aquela de Zico, Falcão, Cerezo, Júnior, Sócrates, Paulo César Caju, Edinho e Careca. Mas ainda ganhamos três bolas de ouro entre 2002 e 2007 (Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká). Depois, necas.

    2 boys playing soccer on water during daytime

    Há uns trinta ou quarenta anos, todas as grandes equipes de futebol da Europa, contavam com uns poucos jogadores de fora que, na sua maioria, eram brasileiros, argentinos e uruguaios. Em 1995, veio a lei Bosman que escancarou as porteiras para que os europeus contratassem tanto forasteiros quantos seus cofres pudessem aguentar.

    Essa lei mudou profundamente o panorama. Hoje, todos os grandes clubes europeus contam com verdadeiras legiões estrangeiras. Há uns que tem vários integrantes das seleções nacionais de muitas outras terras. E a maioria dos vindos de fora não é mais formada por argentinos, brasileiros e uruguaios, não.

    Basta ir à internet buscar os números.

    Vejamos como são formados os plantéis de quatro grandes times do Velho Continente.

    Boys playing soccer on a sunny beach

    PORTUGAL

    Comecemos pelo Benfica. A equipa encarnada de Lisboa conta com 13 jogadores nacionais. Já Áustria, Ucrânia, Argentina e Noruega contribuem com dois peladeiros. Aí vem a estrangeirada (cada país com um atleta): Bélgica, Brasil, Colômbia, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Grécia, Guiné, Inglaterra, Itália, Luxemburgo, Suíça, Tchecoslováquia e Turquia.

    ESPANHA

    Passemos agora ao vizinho, o Real Madrid. Sim, depois dos 14 jogadores espanhóis, os mais numerosos estrangeiros são os brasileiros, que somam quatro. Mas, opa, quatro é o mesmo número de franceses! Os ingleses entram com dois.

    Depois vêm (com um solitário): Alemanha, Argentina, Bélgica, Holanda, Bélgica e, ainda, quem diria, Áustria, Turquia e Ucrânia.

    Detalhe sórdido: No RM, o Brasil tem um jogador para cada 53 milhões de seus habitantes. O Uruguai tem um jogador para seus 3,5 milhões de habitantes.

    Esse número, o relativo, medido entre a população de um país e os seus craques de exportação, deveria ser examinado com mais cuidado. Porque é, de fato, mais certeiro, mais correto.

    soccer field

    INGLATERRRA

    Passemos ao badalado Manchester City, desconhecido antes da chegada por lá de Pep Guardiola. Conta com 16 britânicos. Os portugueses se apresentam com três representantes. Os brasileiros, claro, vêm num honroso terceiro lugar, com dois atletas. Aliás, o mesmo número de croatas, espanhóis, holandeses e noruegueses. Aparecem ainda Alemanha, Argélia, Argentina, Bélgica, Burkina, Egito França, Itália, Noruega, Serra Leoa, Suíça, Uzbequistão.

    Em 2018, um amigo meu, que foi assistir a um jogo do City, ficou em choque com o fato de haver um só jogador inglês naquele dia em campo.

    ALEMANHA

    Vamos encerrar com o time germânico que vence tudo há muito tempo por lá. De forte tendência nacionalista têm 24 jogadores pátrios. Com dois atletas entram Croácia, França e Reino Unido. E aparecem (com 1 representante): Áustria, Brasil, Canadá, Colômbia, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos da América, Israel, Japão, Luxemburgo, Senegal, Sérvia e Suécia.

    a large stadium filled with lots of people

    CROÁCIA

    Esses números mostram que, em nossos dias, a produção de talentos se estende por todo o Universo, sim. Mas eu destacaria o Leste da Europa: vide Croácia. E, para não perder a caminhada planetária, vou até o Norte da África, para dar uma olhadinha em Egito e Marrocos

    Há quem diga que o Brasil é ainda o maior exportador de jogadores. Provavelmente é mesmo, mas não por um mérito especial, ou determinação dos deuses do balão esférico, mas, sim, porque tem uma impressionante população de 212 milhões habitantes, superada apenas por China, Índia, Estados Unidos, Indonésia, Paquistão e Nigéria, países sem tradição nos gramados. E amantes de outros esportes, como a Índia, que prefere o movimentado e empolgante críquete, cujas partidas podem durar 5 dias.

    PAÍS TROPICAL

    Passemos agora à terra de Pelé. Amigos jornalistas conhecedores do tema me dizem que, atualmente, a maioria dos treinadores dos nossos grandes clubes não nasceu no país tropical, de Jorge Benjor, não. Entre eles, destacam-se os lusitanos (Abel Ferreira, 47 anos, já está entre os maiores da nossa história) e os argentinos.

    man playing soccer game on field

    Disseram-me também que as quatro divisões do nosso futebol reúnem cerca de 245 alienígenas.

    Só na Série A eles são 137, de 18 nacionalidades, sobressaindo-se argentinos (46), uruguaios (26), colombianos (15), paraguaios (12), equatorianos e até (céus!) venezuelanos (7). E as más línguas fazem questão de lembrar que dois dos chamados grandes do Brasil, Grêmio e Vasco, contam com 11 exóticos no seu quadro.

    Lourenço Cazarré é escritor

    (*) Com a cumplicidade dos jornalistas Cezar Motta, José Cruz, Luiz Lanzetta e Mário Medaglia.

  • Sova, tunda, camaçada, surra, sumanta, coça

    Sova, tunda, camaçada, surra, sumanta, coça


    Credo!

    Não exagero quando vos digo que, naquela noite, senti a proximidade do Cão. Não dele, propriamente, mas de um agregado seu, talvez um afilhado. Teria o Senhor da Escuridão mandado até nós como seu embaixador aquela figura pouca?

    Admito que me arranharam os costados umas várias tremuras de pavor.

    Ao fim daquela impressionante algaravia, decidi retomar o meu costumeiro eu. Enquadrei os ombros, passei a mão pela cara, como se ajeitando as feições, e levantei-me. Suspirei devagar e fundo, a fim de permitir que a brabeza, vinda do centro da Terra, entrasse em mim, após atravessar a sola reforçada de minhas botinas. Quando me pus em pé já estava armado de fúria. Pouco me importava que ele tivesse vínculos com o Tinhoso.

    short-coated black dog

    Estamos no mundo real e eu sou um servidor da Lei e da Justiça, pensei.

    Decidi verificar se aquilo que estava diante de meus olhos, molambo que não era nem homem nem bicho, como ele próprio admitira, mas que sabia perorar com esperteza, possuía mesmo lombo reforçado, como alardeara orgulhoso.

    Chegamos, então, à mais dolorosa das estações dessa nossa sacrílega via sacra, a sexta. Não perca a conta, Excelência! A sexta!

    Trabalhar vagabundo é arte que exige malícia e determinação, Excelência.

    Pelo diálogo na Sala do Comando e pela confissão que acabara de escutar, eu havia detectado que o chaguento era mais que um simples matreiro: possuía adestramento na arte de apresentar-se como um toleirão zombeteiro.

    Saiba, Excelência, que todo campesino esperto é dessa mesma composição, mas aquele era fora da série, um raro exemplar polido por pó de tijolo.

    Bem. Tem profissional que acha que se deve ir logo para a apelação à ignorância. Já eu começo pela beirada. Uma distraída pisada num pé. Um beliscão quase amistoso. É só para desorientar o indivíduo, que está esperando pancadaria brutal. O trabalho deve seguir num crescente.

    brown wooden coffee table near wall inside room

    Se ganha de cara um murro, a vítima já sabe que dali para diante a humilhação vai diminuir. Bofetada só se emprega para esculachar meliante aprendiz ou inofensivo.

    Levantei-me, apanhei um banquinho que mantenho naquela cela para uma finalidade específica e me encaminhei até o bandidaço, genuflexo e ainda de mãos amarradas atrás.

    Ordenei então a ele que se acomodasse no banquinho, que se colocasse bem à vontade. Até brinquei.

    – Tome assento, cabeça de vento!

    Ressabiado, pressentindo maus bocados, ele se sentou devagar e cuidadosamente.

    Ato contínuo, principiei a sessão pela orelha.

    Ao lado dele, segurei-lhe o tampo da cabeça com uma mão e, com a outra, eu lhe grampeei o ouvido. Foi como se alguém, mal comparando, um gigante, tivesse agarrado a porta aberta de uma casa. De repente, dei um forte puxão. Eu era o gigante arrancando a porta do seu marco.

    O sujeito assombrou-se. Deve ter pensado: se o homem começa desse modo é porque vai me destruir a fachada.

    Deixei que se recuperasse um pouco enquanto esperava pelo próximo ataque. Onde será?

    Você se retarda. Deixa o indigitado aguardando. Aí, acaba fazendo o que ele de certo modo já esperava: ataca-lhe a outra orelha. Porém, num movimento contrário. Premiei-o com uma tapona de fora para dentro, de modo que ele teve a clara impressão de que a cartilagem ia penetrar-lhe pela lateral do crânio.

    Sabendo explorar, orelha rende bem.

    – Já estás me ouvindo melhor, minha flor?

    photography of lightning storm

    Nem era uma pergunta a valer, era mais uma informação à besta: que se preparasse para ser cozinhada em fogo baixo.

    Ele então me encarou pela primeira vez. Foi por fração de segundo, mas consegui perceber pelo risinho que escorria dos olhos dele que, interiormente, o danado já comemorava minha derrota.

    Por entre os dentes cerrados, caçoou.

    – Será dessa maneira que o coronel pensa me fazer recitar a tabuada?

    Sou um trabalhador controlado que raramente perde as estribeiras. Por isso, fervi sem soltar vapor e até motejei.

    – Erraste, burro. Vou te ensinar astrologia. Verás estrelas.

    Admito que não devia ter fornecido tanta trela a ele, porque prisioneiro gosta de ouvir a voz de quem lhe aplica a correção. O raciocínio é simples: esse aí tem boca e fala, portanto, é humano.

    O verdugo deve ser mudo.

    Chegou-me então uma ideia estranha. Encostei minha botina esquerda no nascedouro das costas dele e com as duas mãos agarrei a ponta da corda que lhe amarrava os punhos. Puxei-a para mim e para o alto, mas devagarzinho, testando a resistência da ossamenta dele.

    Botei muita força, me creia. Fui até ouvir uns estalidos de graveto seco. Parei antes de alcançar o ponto de ruptura. Julguei para mim que o indivíduo tinha ossos de borracha. Mas não lhe dei repouso.

    – Vou aumentar a pressão nas caldeiras. Ministrarei ao estimado companheiro um medicamento indicado para febre alta.

    Destaquei do cinto a bainha do facão.

    – Pode berrar à vontade. Não se acanhe. Dependendo da sonoridade, seu choro será educativo. Sinalizará à bicharada da Jaula Grande como a Justiça trata malfeitores que se deixam apanhar em flagrante.

    black and silver knife on brown wood

    De bainha em punho, eu me postei um pouco para trás do vadio, mas num ângulo bom para que ele pudesse me capturar pelo ladinho do olho. Num movimento muito vagaroso, levei a mão direita para o bem alto, muito acima da minha cabeça, alargando a extensão toda do braço. Dei um tempo para que ele me admirasse a postura. Só então comecei a contagem.

    – Um!

    Quando o meu braço se veio abaixo, eu, no meio do movimento, desmunhequei. Então, em vez de encontrar o alto do cocuruto, a bainha se acomodou na lateral do pescoço da personagem.

    Saltou faísca!

    Se eu batesse na cabeça, ele teria o resguardo da caixa craniana. Já o gasganete não tem amortecimento de gordura ou osso. É pura pelanca. Deve ter doído uma enormidade, mas ele nem mugiu. Não nego que fiquei meio desacorçoado.

    Aí, acintosamente, eu me plantei diante dele. Abri o braço para o lado, de modo que ele pudesse, depois, captar a aproximação do improvisado açoite. Eu queria acertá-lo no cume do nariz, mais precisamente no intervalo entre os olhos. Foi o que fiz com bom aproveitamento.

    – Dois!

    O golpe propriamente não deve ter doído tanto, mas o infrator se sobressaltou bastante. Afinal, o olho é dos nossos organismos o mais precioso. O que valeu, enfim, foi a surpresa ruim: o couro duro aparecendo de supetão, rente às órbitas, anunciando cegueira.

    Quando inteirei a primeira dúzia de lapadas, distribuídas por muitas superfícies, percebi que a faxina não estava rendendo. Naquela noite eu não me encontrava inspirado. Em busca de aconselhamento, fui ao pátio consultar o grande disco de prata.

    Lá fora, comecei botando em dia a respiração. Minutos depois, de chofre, enquanto distraído fitava o círculo que cintilava no firmamento, uma sugestão de origem transcendente penetrou-me no âmago da alma. Apanhei balde, atopetei de água e voltei ao prédio.

    three empty bottles are shown in black and white

    Sem palavreado, verti o precioso líquido sobre o custodiado, atentando para que os lados todos recebessem rega por igual. Diante daquela ducha fora de horário e em sítio inadequado, o sujeito alvorotou-se. Notei o corpo se encolhendo e a cabeça questionando: o que será que me vem pela frente?

    Molhado, o ser humano perde a atitude. Vira pintinho. Isso em se tratando de pensamento. Mas o mais importante se dá ao nível da epiderme, que fica mais sensibilizada.

    – Treze!

    Dei começo à fase molhada, limitando-me ao comezinho: a lambada corriqueira, sem muito método ou ciência. Eu, porém, nunca executo como os demais representantes da Lei. Não! É uma questão muito minha. Tenho a tentação de ser diverso e variante. Era um açoite no ombro direito, outro na paleta esquerda. O seguinte na base do crânio, de atravessado. Um na polpa da bunda. Outro, bem sonoro, no alto da coxa, de jeito que a bainha se transformasse em cobra e ameaçasse morder a virilha do condenado. Parei duas vezes para enxugar o suor da testa.

    – Quarenta e dois!

    Na última dessas paradas cheguei a agachar-me para analisar a fuça dele, que permanecia abaixada. Era a mesma, inexpressiva, de antes do suplício.

    Resumindo: parei de numerar em voz alta as pancadas ao inteirar meio cento.

    O porquê da contagem? É o efeito que ela causa no espírito de quem sofre a flagelação. O padecente imagina, penso eu, que o carrasco vai contar até o infinito. Acaba sofrendo tanto pelos golpes quanto pela enumeração.

    pink petaled flower closeup photography

    Bater é maquinal. Pode parecer exagero, mas aquele que fustiga se transforma em máquina acionada pelo seu próprio movimento. Motor perpétuo, como se diz.

    Não, Excelência, ele não soltou nome nenhum. Nem mesmo um suspiro exalou. Os recolhidos à Jaula Grande não ouviram nada além da estridência das lambadas. O sentenciado recebeu a coça sem dar resposta visível e retardou-se para amolecer.

    – Cinquenta!

    Foi só quando eu, consumido, resfolegava como cavalo após corrida forte que ele arriou. Aluiu de frente. Como uma casa arrastada pelas águas de um rio furioso depois que o barranco em que ela se assentava foi lambido pela inundação.

    Deitado no chão sujo, ele ficou sendo mesmo o que aparentava ser. Um traste. Aproveitei para encerrar com chave de prata, mas ele não acusou o pontapé que lhe mandei à junção das virilhas.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Publicado originalmente no livro O soldado amarelo.

  • O homem que amava os clássicos russos

    O homem que amava os clássicos russos


    Rindo, pestanejando e ameaçando a mancha verde com os dedos, Varka aproxima-se cautelosa do berço e inclina-se sobre a criança. Depois de estrangulá-la, deita-se rapidamente no chão, ri de alegria porque já pode dormir e, um instante depois, dorme profundamente, como se estivesse morta…

    “Olhos mortos de sono”, Anton Tchecov


    Às cinco da tarde, com um pontapé, livrou-se do lençol e saltou da cama. Em vez de encaminhar-se diretamente para a cozinha, como fazia sempre, espreguiçou-se demoradamente. Depois, entreabriu a janela.

    Seus esverdeados olhos de animal noturno contraíram-se diante do brilho dourado nas pedras do calçamento.

    – Todos os seres ficam quietos no verão.

    Ninguém cruzava a rua sonolenta. Era domingo e as pessoas estavam dentro de suas casas, sufocadas. O sol forte as mantinha prisioneiras.

    Inverno ou verão, acordava pelo fim da tarde e descia à cozinha para beber um copo de leite. O gosto ruim na boca. Anos e anos, varando as noites obscenas. Uísque. Mas nos últimos meses decaíra para a cachaça.

    – A sede dos homens aumenta com o passar dos anos.

    Sua voz era estrangulada, áspera.

    Afastou-se da janela. O quarto era amplo e caótico. Pés desencontrados de sapatos esfolados espalhavam-se pelo tapete, entre a cama e a cômoda. Havia roupas empilhadas de qualquer jeito sobre as cadeiras. Os lençóis amarfanhados estavam visivelmente sujos.

    – A maldita empregada cansou de trabalhar de graça.

    Adquirira o hábito de falar sozinho após a morte da mãe. Conversava com ela e com todos os outros fantasmas soturnos que o seguiam pela casa imensa.

    Mirou-se no espelho da cômoda.

    Era seco de carnes, estatura mediana, cabelos grisalhos. O traço mais forte no rosto pálido era o dos lábios, descaídos, como que sujeitados por um permanente riso de escárnio.

    – Como os ratos, os empregados sabem prever os naufrágios – murmurou, irônica, a figura esguia no fundo do espelho.

    Deixou o quarto, desceu a escadaria.

    Nuvens compactas de teias de aranha pareciam ligar as paredes ao forro da sala. Dir-se-ia que as paredes viriam abaixo ou que o teto ruiria, se não houvesse aquelas teias. Nas paredes manchadas pela umidade viam-se as silhuetas de quadros arrancados dali. Grossa camada de poeira cobria o sofá remanescente, estofado em couro, e formava um diáfano tapete sobre as tábuas do assoalho. Uma espécie de trilho, aberto por pés descalços, cortava a sala.

    – Amanhã ou depois viriam mesmo cortar a energia elétrica – murmurou, dando de ombros. – E eu não posso viver sem o meu leite gelado. Um homem precisa ter os seus luxos.

    Parado no centro da sala, na trilha que o conduzia todo entardecer à cozinha, observou os poucos retratos restantes. O riso desdenhoso lhe acentuava as rugas em torno dos olhos. Sempre que mirava aquelas fotografias, via-se instantaneamente levado a um tempo sem urgências, um tempo suspenso em algum lugar fora do mundo. Sentia-se menino enrodilhado no colo da mãe.

    – Todas as mulheres cheiram a pão quente.

    Arrastando os pés nus, passou à frescura da ardósia do corredor. Chegou à cozinha. A luz crua da tarde, que penetrava por uma janela destroçada, fez com que seus olhos piscassem.

    – Cinquenta anos, hoje. Deus é ambíguo. Nunca se sabe onde Ele quer chegar com suas brincadeiras. São incontáveis as formas que arranja para nos atormentar. O certo é que Ele se diverte.

    Abriu a geladeira e apanhou o leite. Sentou-se e derramou o leite num copo sujo. Bebeu com volúpia.

    – Palavras também correm o risco de extinção. Um dia o mundo se verá livre, por fim, dos homens sôfregos. Sofreguidão é uma dessas palavras.

    Era uma sede antiga, incontrolável. Naquele tempo bebiam porque eram jovens, ricos, atléticos e debochados. Precisavam extravasar a energia represada. Bebiam para ter coragem na hora de tirar as meninas para dançar no Clube Comercial ou para provocar brigas no final dos bailes.

    – Mulheres são redondas.

    Agora as compreendia um pouco mais. Tateava por fim no mistério de todas elas: as mocinhas do centro e as decaídas dos puteiros. Eram redondas, fechadas em si mesmas. Embora, por mais de trinta anos, tivesse vivido apenas entre as rameiras, sabia que todas elas, indistintamente, só querem dos homens os filhos que eles podem, eventualmente, semear nelas. Porque as prostitutas bebem, choram e se confessam como todas as outras.

    Persignou-se, ergueu o copo e disse:

    – A purificação pelo leite.

    O silêncio da casa. Apreciava a quietude das horas perdidas da tarde. Em geral, voltava logo ao quarto para ler. Mas naquele dia, dia do seu aniversário, deixou-se ficar à mesa, bebericando um segundo copo de leite, com os mesmos tragos curtos e lentos que dava no uísque, antes. E na cachaça, depois.

    Não, não leria naquela tarde, a derradeira, porque tinha muito a fazer. Mas, se fosse ler, na certa ficaria com Gógol. Se fosse mais jovem, escolheria o gigantesco Tolstói ou o amargo Dostoiévski. Mas a verdade é que, nos últimos tempos, se identificava mais com a loucura risonha de Gógol e com a leveza trágica de Tchecov.

    – Fevereiro não é um mês decente para se morrer. Concordas, Ivan Ilitch? As pessoas ainda estão na praia, veraneando.

    Morto, era certo que ninguém iria ao cemitério. Dedicara toda sua vida a cortar laços.

    Por anos, sonhara com uma discreta morte solitária. Uma síncope. Nesse caso, quantos dias seriam necessários para que lhe encontrassem o cadáver? Uma semana? Um mês? Quem viria primeiro? Os bombeiros? Os urubus?

    Depois, se alguém insistisse nos tolos rituais da morte, quem apareceria no velório? As mundanas? Sim, gostaria de tê-las perto de si, escandalosamente pintadas e vestidas. Macilentas todas. Chorando como acham que devem chorar as pessoas de bem: teatrais.

    – Putas não existem mais. Agora se chamam garotas de programa, têm nomes exóticos e atendem nos hotéis. Vão aos apartamentos de casais jovens. Aceitam deitar-se com mulheres. Fazem amor dentro dos carros. Dizem obscenidades ao telefone.

    Os antigos bordéis. Música e alegria. Homens ricos e mulheres bem-vestidas. Noitadas regadas a contrabando – champanha francês e uísque escocês. Era um rapaz, então.

    Tudo parecia tão distante no tempo. As mulheres foram ficando mais feias e pobres. Os músicos desapareceram – levando a alegria com eles – espantados pelas vitrolas. Casas com lâmpadas vermelhas na porta foram surgindo nas ruas estreitas do Porto. Pouca luz para mascarar a sordidez. Mesquinhos homens culpados. Magras mulheres amargas. Um mundo entrara em decadência e desaparecera em poucos anos.

    – Sobrevivi. Mas por pouco tempo. Sou um animal noctívago em extinção.

    Voltou à sala. Empurrou lentamente o sofá – era pesado – para o centro da peça. Secou o suor da testa. Finas nuvenzinhas de poeira subiam do assoalho. Espirrou. Concluída a tarefa, sentou-se no velho sofá para descansar um pouco.

    – Éramos jovens e o mundo girava em nossas mãos.

    Estava de frente para a fotografia dos seis rapazes sorridentes. Dos seus amigos de loucuras juvenis, dois haviam morrido. Um num acidente de carro. Outro, como Ivan Ilitch, corroído por uma doença má. Os outros agonizavam nessa coisa que chamam vida, cercados por filhos estúpidos, mulheres levianas e pelo vazio do cotidiano.

    – A vida é um saco sem fundo de pequenas atrocidades, mamãe. Melhor fechar esse livro ruim.

    De olhos cerrados, ligeiramente arquejante, recostado no sofá, percebeu que de alguma parte vinha uma leve brisa que lhe esfriava o suor e lhe arrepiava a pele. Estava nu. Lembrou do frescor que sentia quando, menino, enfiava os pés no arroio da fazenda.

    – Onde estarão meus pais, Anton Pavlóvitch? Será que os encontrarei no outro mundo? Devo falar a eles sobre minha vida inútil? Não, talvez eu não consiga, como não pôde o cocheiro Jonas falar da morte de seu filho.

    Sua respiração voltara ao normal. Abriu os olhos e demorou-se observando na fotografia amarelada o rapaz bem-vestido que abraçava amigos sorridentes. Por que raios se transformara em um amargo e solitário cinquentão?

    – Os deuses são sempre mais impiedosos com os que leem muito.

    Depois de mais um espirro, levantou-se. Dirigiu-se à biblioteca. As paredes tinham estantes de alto a baixo. Só num pequeno trecho ainda havia livros. Por entre as teias de aranha, sobre a poeira, adivinhava-se a marca dos volumes que, alinhados, aguardaram por décadas o momento de serem levados, sacola por sacola, ao sebo.

    Parado diante dos livros remanescentes, olho acostumado a medir, calculou que lhe restavam uns duzentos volumes. Sorriu. Se quisesse, poderia comer por mais uma semana.

    Estavam ali também os livros mais queridos, os que por anos mantivera no quarto ao alcance da mão.

    – Eras madeira, palavra. Madeira voltarás a ser.

    Apanhou um volume. Almas mortas.

    Desde setembro (ou seria outubro?), comia livros. Vinte ou trinta por dia, conforme a encadernação. Enfiava-os numa sacola. A loja de livros usados ficava bem próxima e o dono sempre lhe oferecia um cafezinho.

    O alfarrabista simpático quis comprar tudo de uma sentada.

    – Mando um carroceiro apanhar a livralhada toda de uma vez só, doutor.

    – Prefiro viver à prestação – respondeu.

    Gostava de negociar os livros aos poucos, do mesmo modo como antes vendera móveis, prataria, relógios, armas, bibelôs e até mesmo as molduras de prata de alguns retratos. Devagarinho.

    – Retratos deixam marcas nas paredes, como os pés na terra úmida.

    Mercadejava com gosto. Ah, com que secreto prazer vendera tudo, lentamente, entregando só o mínimo para assegurar meia dúzia de magros jantares e discretas bebedeiras! Excitavam-no as demoradas negociações com os belchiores nos bricabraques escusos. Encantava-se com a dissimulação e com as trapaças chorosas dos mercadores avarentos.

    Avaro ele mesmo, mesquinhamente vivera sua vidinha, medida em poucas doses de uísque por noite. Falsamente lúbrico, dirigia galanteios às mariposas, prometia-lhes o céu e pagava-lhes a cuba, mas jamais gastava o que realmente queriam as madames: o dinheiro do quarto e o michê.

    Gastando o mínimo, vivendo o menos possível.

    Dois anos antes, travara a batalha final, o Armagedon, contra os usurários. Teve que caçá-los nos porões onde se entocavam. Perambulou muito até encontrar aquele que aceitou receber – como garantia de um empréstimo que, sabia-se de antemão, jamais seria resgatado – o decrépito casarão de dois andares.

    Encenaram uma farsa.

    O cínico agiota sabia que a casa caía aos pedaços, que ruía lentamente desde o dia em que morrera a mãe do homem que o mirava com olhos brincalhões. Sabia também que aquele homem jamais havia trabalhado um só dia na porca da sua vida e que era um boêmio inveterado que varava as noites na companhia das vagabundas. Sabia, em suma, que a dívida jamais seria quitada e que o casarão, um dia, lhe seria entregue.

    – Foi como vender almas mortas, meu caro Nicolau Vassiliévitch. O danado nunca esteve interessado na casa. Pretende pô-la abaixo para vender o terreno aos construtores de edifícios. Mas também está de olho nos tijolos antigos, nas janelas e portas lavradas e nos vitrais, que pretende repassar aos negociantes de material de demolição. Terá bem menos do que imagina.

    Deixou cair o livro.

    Um arrepio de frio o sacudiu. Avançou para a estante e, lento e metódico, se pôs a derrubar os volumes restantes. Braçada por braçada, os livros estrondeavam no assoalho, em meio a poeira. Aos poucos, os movimentos do homem tornavam-se nervosos, urgentes, incertos. Queria acabar logo com aquilo.

    – Companheiros de tantos anos, o inferno vos espera de boca aberta!

    Ao contrário da corja espalhafatosa que encontrava nos botecos e lupanares, os livros eram contidos e silenciosos.

    – Só existe dignidade no papel.

    Invariavelmente, lia três ou quatro horas por dia, entre o copo de leite do tardio despertar e o momento em que saía à rua. Aninhado nos braços da poltrona que pertencera a seu pai, e, antes dele, a seu avô, pés apoiados na cama, imerso na quietude da casa vazia, afundava nos mundos maravilhosos que se escondem nas folhas amareladas.

    – Na leitura reencontramos o tempo da infância, quando não nos atormentam as paixões e os remorsos.

    Nos últimos três dias relera, pela undécima vez, A morte de Ivan Ilitch. Há anos ocupava-se apenas dos poucos volumes que mantinha empilhados sobre o toucador. Sempre os mesmos autores, russos todos. Lia-os conforme o que lhe ia pela alma.

    – Ajudaram-me a vencer o tempo. Que mais me poderiam dar?

    Fitava a pilha de livros no chão.

    Espirrou novamente. Pela primeira vez não temeu o ataque de asma que certamente viria depois. Não o assustavam mais nem a poeira nem a brisa. Estranhamente, sentia-se bem. Mais que isso: exultava, leve, liberto.

    Voltou à cozinha, apanhou a caixa de fósforos e saiu para o pátio.

    Por uns instantes, seus olhos piscos passearam curiosos pelo capim crescido tentando descobrir os canteiros de tantos anos antes. Não os encontrou. Nem percebeu o lixo que se acumulara ali – latas enferrujadas, jornais velhos e garrafas quebradas -, mas pensou ter vislumbrado um menino a correr por entre flores que não existiam mais.

    Vagaroso, dirigiu-se à curta escada de pedra que levava ao porão. A porta, sem fechadura, cedeu ao primeiro empurrão.

    – Aqui começa o meu subsolo, Fiódor Mikháilovitch.

    Encurvado, tateando as paredes, avançou para dentro da escuridão sufocante. Tropeçou, praguejou e riscou alguns fósforos até chegar ao quartinho.

    Lembrou então de uma tarde igual, incendiada de calor, trinta e tantos anos antes. Voltou a sentir, uma vez mais, o cheiro azedo da mulher. Escutou-lhe a voz encatarrada. Fedia a tabaco e suor. Recordou com renovado horror o ruído de um corpo que se estendia crepitando sobre o colchão de palha.

    A saliva. Não conseguiu evitar um engulho quando lembrou do gosto da saliva dela. Mais uma vez, sentia-se abatido pelo medo e pela humilhação. De novo, tantos anos depois, sentia vontade de fugir dali como um menino assustado.

    – O imorredouro horror da vergonha.

    Riscou mais um fósforo e protegeu a chama com a mão em concha.

    Seus olhos correram pela parca mobília – a cama desconjuntada, a cadeira sem uma das pernas, a mesa tosca, o pequeno guarda-roupa – e se detiveram no garrafão com a gasolina.

    Soprou o fósforo e retirou a rolha do garrafão. Às cegas, verteu o combustível por cima da cama.

    Resfolegando, recuou uns passos. Acendeu outro fósforo e o lançou em direção ao leito. O clarão o ofuscou. Perseguido pelo calor e enfeitiçado pelas labaredas, recuou andando de costas.

    Ao sair do porão, fechou a porta e nela encostou a testa suada. Ouviu ou pensou ouvir o alvoroço das chamas que comiam o pequeno quarto que hospedara tantas empregadas.

    – Anônimas mulheres que o tempo leva e traz.

    Voltou à casa.

    Na sala, por trás da cortina, estavam dois outros garrafões de gasolina.

    O homem nu sorriu ao lembrar do atendente do posto de gasolina que quis saber por que viera ele, por vários dias seguidos, todo final de tarde, encher com gasolina aqueles empoeirados garrafões de vinho.

    Não resistiu à vontade de zombar.

    – Vou dar uma festa no dia do meu aniversário de cinquenta anos.

    Com o sorriso triste ainda encavalado nos lábios, verteu parte do primeiro garrafão sobre o sofá no centro da sala. Com o resto banhou os cortinados de veludo.

    Respirava com dificuldade quando parou e se pôs a escutar a voz do fogo que vinha do porão: um lamento surdo, crescente, que prenunciava um rugido furioso.

    Com o segundo garrafão, encaminhou-se para a biblioteca.

    – As subterrâneas labaredas sedentas já mordem ávidas as tábuas do assoalho, Fiódor Mikhailovitch.

    Verteu a gasolina sobre o emaranhado de livros, em que se destacava a lombada mais grossa de Guerra e paz.

    – Você sabia, Leão Nicolaiévitch, que os homens queimam livros sempre que há problemas?

    Lento, nauseado pelo cheiro do combustível, dirigiu-se à escada.

    Galgados três degraus, lançou um fósforo aceso sobre a mancha de gasolina no chão. A chama correu, azul e ligeira.

    – Estantes vazias também são boa lenha.

    Imóvel, o homem magro observou o altear das chamas que logo galgaram, famintas, as cortinas de veludo.

    – Eu queimo o tempo.

    Sarcástico, fez a contrafação de um gesto religioso.

    Passos pesados, subiu ao seu quarto.

    Lá apanhou as roupas jogadas sobre as cadeiras e as empilhou em cima da cama que pertencera a seus pais, e onde dormia, sozinho, há tantos anos.

    Quando esvaziava as gavetas, encontrou o pequeno dragão chinês de porcelana, o único bibelô da mãe que guardara.

    – Salve, impávido rei dos seres imaginários!

    Colocou o bibelô sobre o assento da larga poltrona de couro na qual se sentava para ler todo final de tarde.

    Empurrou a penteadeira vazia para junto da cama e depois apanhou o garrafão de gasolina, que verteu sobre aqueles dois móveis.

    Apesar do bruto cansaço que lhe estrangulava a respiração, ele tinha nos olhos claros um cintilo de satisfação – raro nele, raro em toda sua vida – ao contemplar a desordem do quarto.

    – Caos definitivo, derradeiro caos.

    Pegou o dragão de porcelana e com ele no colo sentou-se na poltrona.

    Concentrou-se nas diferentes vozes do fogo: o remoto rosnar das chamas do porão, o macio deslizar das labaredas pelas cortinas de veludo e o doloroso crepitar dos livros.

    Precisava esquecer a saliva amarga da mulher, o frio das águas do regato ancestral e os sorrisos das velhas fotografias.

    Foi sacudido por um arrepio.

    Para estancar a vertigem dos pensamentos, levantou-se. Abriu a porta do quarto e viu a língua amarela alcançando o topo da escada: o fogo sequioso, o fogo faminto.

    Fechou a porta.

    Avançou até a janela. O martelo e os pregos estavam no chão.

    Precisava estar certo de que não ia fugir no último instante, como na tarde em que a mulher se deitou sobre a cama com um ruído de labaredas queimando gravetos.

    Pela última vez, contemplou as lisas pedras do calçamento da rua que levava ao porto, larga rua de um bairro de casarões decrépitos. Não viu um só ser humano. Se quisesse pedir socorro, não teria a quem recorrer.

    – Janelas e portas abertas tentam os suicidas arrependidos.

    Cravou o primeiro prego. E muitos outros, até que a janela não poderia mais ser aberta.

    Exausto, voltou a sentar-se na poltrona abraçado ao dragãozinho branco.

    – A melhor purificação possível – murmurou. E, para as chamas que lhe batiam à porta, gritou:

    – A purificação pelo fogo!

    E se pôs a cantarolar uma cantiga obscena.

    Lourenço Cazarré é escritor

  • O cavaleiro

    O cavaleiro


    Passeava nas tardes de domingo, sempre domingo à tarde.

    Às três em ponto, com vento ou frio, chuva ou sol, os empregados-fantasmas de sua mansão derruída moviam-se como bailarinos de corda e abriam os portões carunchados da cocheira. Pouco depois, ele surgia no alto da escada, magro, duro e invencível, os olhos azuis fincados em lugar nenhum. Com passos largos atravessava o pátio sombreado. Os galhos de todas as árvores, que haviam crescido sem controle, vinham bater-lhe no rosto, mas ele não fechava os olhos.

    Empertigado, impaciente, batendo com o chicote na perna, esperava que lhe trouxessem seu cavalo de transparente fumaça. Com gosto escutava os relinchos poderosos do mais garboso dos corcéis que se aproximava batendo os cascos nas pedras centenárias do pátio e sacudindo-se em corcoveios que tiravam brilhos inesperados dos aperos de prata.

    Com o capataz segurando as rédeas do animal arisco e fogoso, ele montava. Com um imperceptível gesto da cabeça leonina, ordenava ao empregado que se afastasse para o lado.

    Então, olhando duro para o nada mais distante, saía à rua.

    Os moradores dos edifícios próximos, pelas frestas das cortinas, observavam-no em silêncio. Os meninos tentavam enxergar a montaria invisível. Desalentadas, as mulheres, que geram os homens, sacudiam a cabeça.

    Era assim que ele iniciava seu único passeio semanal. Sereno e digno, cortava as ruas sem lançar um só olhar aos pequenos edifícios que agora conspurcavam a elegância do bairro. Também não se voltava para os antigos casarões porque ali talvez ainda residisse gente que tinha conhecimento da derrocada de sua família.

    Seguia em direção à praça. Passava pelas infinitas portas cerradas do Mercado, pelas agências bancárias e pelas soturnas repartições públicas. Em frente ao Grande Hotel, invadia o passeio que dividia a praça ao meio e, ignorando os meninos que corriam a seu lado, rindo, cotovelando-se e saudando-o com palavrões, levava seu cavalo para beber no chafariz. Deixava que o animal bebesse à vontade. A seguir, dirigia-se à estreita rua principal, onde ouvia, ainda mais claramente, a explosão dos cascos do seu cavalo inexistente sobre as pedras polidas pelo tempo.

    Atrás dele, de dedo colado na buzina, vinham os motoristas impacientes que, assim que podiam, dobravam na primeira transversal.

    Indiferente aos homens, ao frio, à chuva, ao vento, aos automóveis, aos palavrões, ele seguia tranquilo em direção à catedral.

    Passeava assim há mais de trinta anos, desde o tempo em que não havia um só edifício e os carros eram poucos. Passeava assim desde o dia em que, jovem ainda, viu levarem os dois automóveis de seu pai, desde o dia em que soube que não mais poderia voltar ao campo porque não eram mais proprietários daquelas terras, desde o dia em que soube que só lhe tinha restado aquele imperceptível cavalo na cocheira vazia, desde o dia em que ouviu o estampido do tiro no gabinete, desde o dia em que viu o corpo forte do seu pai caído sobre o tapete, desde o dia em que sua mãe refugiou-se no silêncio mais amargo.

    Aos domingos, inalcançável, imperturbável, cavalgava.

    Durante a semana, comia o feijão com arroz e o naco de carne que as empregadas de vizinhos bondosos, sorrateiramente, colocavam todos os dias à cabeceira da grande mesa do salão. Ao meio-dia, enquanto soava o relógio de pêndulo, envergando o melhor dos seus puídos trajes negros, descia para o almoço frugal, sua única refeição diária. Invariavelmente deixava restos, como lhe fora ensinado pela mãe.

    Depois de comer voltava ao seu quarto de jovem a fim de contemplar as gravuras de puros-sangues ingleses ou para escrever bilhetes endereçados aos capatazes das fazendas desaparecidas.

    Às vezes lia sem compreender os livros de Eça e de Machado de Assis.

    De noite, estendido no seu leito dirigia galanteios às moças que conhecera em sua juventude. E passeava pelos campos de sua imaginação marcando bezerros, orientando a preparação das pastagens e observando as mãos grosseiras das mulheres apertando os úberes das vacas. E trotava pelos campos congelados de inverno com a faca do vento a lhe cortar o nariz de imperador romano. E cavalgava mesmo sob os mais terríveis sóis vermelhos de todos os verões.

    Quando o sono demorava, caminhava pela mansão às escuras, esbarrando em móveis decrépitos, espirrando por causa das nuvens de poeira que suas botas de sola furada erguiam das tábuas frouxas, enredando-se nas teias de aranha. Durante esses passeios de sonâmbulo costumava conversar com seu pai sobre a necessidade de expandir os negócios, de buscar reprodutores na Argentina.

    No derradeiro domingo de sua loucura, fez o mesmo de sempre até que o raio da morte, na infalibilidade de um motoqueiro encourado, o abateu na frente da catedral.

    Era perto das cinco da tarde. Mês de julho. A neblina tinha se instalado nas ruas como que para impedir que as casas se chocassem umas contra as outras. Porque as pedras do calçamento estavam úmidas seu cavalo resvalou varias vezes, numa delas quase se indo de peito ao chão. Por isso ele segurava com firmeza as rédeas, a fim de manter o animal de seu sonho num trote muito leve.

    Altaneiro como sempre, atravessara a cidade indiferente às piadas dos rapazes, aos xingamentos dos meninos e às buzinas dos carros, mas naquele dia estava sendo muito custoso dominar o ímpeto do macho, mais arisco ainda por causa da cerração.

    Naquele maldito domingo de julho o homem magro e alto de desgrenhados cabelos prateados sustentou o trajeto de todos aqueles trinta anos. Não encurtaria em um só quarteirão o seu roteiro porque precisava mostrar àquela cidade, como vinha fazendo durante todos os domingos de todos aqueles anos de feitiço, que tudo continuava como antes. Não, não tinha acontecido nada. Eles precisavam saber, e estava tentando mostrar isso a eles havia trinta anos, que um fazendeiro de verdade jamais dobra o espinhaço, nem mesmo quando alguns ladrões lhe roubam as terras e o gado.

    Vinha enterrado na vertigem de seus pensamentos, quando a figura rubro-negra surgiu na esquina. Não, ele não viu o negro das roupagens de couro sobre o vermelho do cavalo de rodas. Não, não ele escutou o rugido daquela fera que não era do seu tempo. Seus ouvidos eram afinados apenas para o ploqueteploque dos cavalos e para o zurrar das manadas.

    Então um raio de aço e calor o atingiu entre as pernas e o projetou, desengonçado pássaro pernalta, sobre as ásperas tijoletas da pracinha da catedral.

    Deitado, fitando o manto da névoa que o cobria nos derradeiros minutos de sua longa vida de embruxado, pôs-se a dar ordens urgentes aos peões: que levassem o gado para outra invernada, que marcassem os novilhos, que sacrificassem aquele pobre cavalo que estava sofrendo sobre as pedras da rua.

    Depois seus lábios secos não se moveram mais.

    Nos últimos segundos de sua solitária vida de encantado, enquanto as garras secas da morte cravavam-se em seu peito murcho, ele deflorou finalmente a garota com a qual não pudera se casar. E, morto, voltou pela primeira vez, depois de um longo exílio, aos vastos campos de sua infância.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Texto originalmente integrado no livro Enfeitiçados todos nós.

  • Um magnífico espetáculo de aviltante bajulação

    Um magnífico espetáculo de aviltante bajulação


    – Mãe, o pai chorou!

    – Não me diga – a mulher fecha o livro.

    – Foi quando parou de cavar – diz o rapaz em voz baixa, inclinando.

    – Não acredito – ela passa a mão pelo rosto do filho.

    – Pois a senhora pergunte a ele.

    – Vou ao banho – diz o homem, atravessando a sala a passos largos. – Não nasci pra coveiro.

    – Me conte o que aconteceu – pede a mulher num sussurro.

    – Foi muito rápido. O pai passou a mão nos olhos, mas eu vi as lágrimas, poucas.

    – Seu pai chorando? Por essa eu não esperava.

    A grande cadela maluca corria que nem uma degenerada. De um salto saía da sua casa e zunia rente ao muro com a vizinha e dobrava à esquerda e cravando suas garras poderosas no chão pelado atravessava os dez metros até a esquina e quebrava mais uma vez à esquerda chispando junto à cerca gradeada, ao fim da qual encerrava sua exibição de fúria e perplexidade. Ainda latindo, ofegante, voltava então para sua casinha, construída sob a amoreira.

    A grande cadela maluca tinha o pátio a seu dispor, mas preferia preguiçar dentro de sua própria casa. Estendia-se sobre a frescura do piso de cimento alisado, a cabeça próxima da abertura, apoiada nas patas dianteiras. Piscava para a claridade e bocejava. Mordia o ar quente na tentativa de caçar moscas insidiosas. Após a pancada seca dos dentes se chocando, sacudia vigorosamente a cabeça. Moscas do diabo!

    De vez em quando, dama um espetáculo.

    Bastava alguém costear o muro do fundo do pátio falando alto ou rindo. Para quê? Esquecida das moscas, ela arrancava para mais uma demonstração de força, velocidade e indignação. Quem era o desaforado que se atrevia a romper o silêncio daquele canto calmo da cidade? Vinham latidos estrangulados pelo espanto e pela ira. Vais e vens de tontear. Repulsa colérica daquela monta, no entanto, não podia durar muito. E ela se dirigia à vasilha de água, mantida sempre na sombra, ao lado da casinha.

    No fim da tarde descia da escola uma garotada vasta, de toda espécie. Havia as criaturas muito pequenas que se agachavam e colocavam as mãozinhas pelo meio das grades para receber o carinho gosmento da longa língua vermelha. Havia diabretes maiores que gostavam mesmo era de bater com força as mãos abertas na chapa de metal da cerca para endoidecer a cachorra, que de calma não tinha nada. A pobre não sabia o que fazer. Acarinhava as vacilantes mãozinhas assustadas ou latia para a barulhada dos mais taludos?

    – A Pirata, sua louca! – gritavam os galalaus depois de estapearem o metal sonoro.

    – A Piratinha – balbuciavam os pequeninos, entre exultantes e enojados, retirando a mãozinha lambida.

    – Vamos chamá-la Pirata – disse a mulher.

    – Isso nunca – retrucou o homem. – Não pode ser Pirata porque não tem jeito de cachorra macha. É frouxa, não aguenta cócegas.

    – Vai ser Pirata – insistiu a mulher. – O apelido é perfeito. Olha só este olhinho.

    O homem pegou a cadelinha e aproximou seu rosto anguloso do trêmulo focinho úmido. Impressionante a negra mancha que circulava o olho esquerdo.

    – É um tapa-olho perfeito! – voltou a mulher. – Pirata!

    Os olhos míopes do homem, aumentados pelas lentes grossas, assustaram a coisinha branca pintalgada aqui e ali por bolinha negras, que se pôs a ganir.

    – Podia ser Maria Bonita – disse o homem. – No cangaço havia mulheres machonas. Eram ainda mais cruéis que os homens.

    – Pirata – teimou a mulher. – Ela nasceu com uma cara perfeita pra receber esse nome. Pirata.

    – A Pirata – concordou o homem. – Está bem. Eu cedo. Mas para mim ela será sempre A Pirata. Pirata só se fosse macho, mas não é. A Pirata.

    A cadela de pernas altas e musculosas em que aquele nada de filhote se transformou era apaixonada pelo menino da casa. Não digo que desprezasse os adultos e as meninas, apenas não prestava muita atenção a eles.

    Quando o menino surgia no pátio, ainda vestindo a farda do colégio, ela apresentava seu melhor número: um magnífico espetáculo de aviltante bajulação.

    Para começar, enterrava a cara na cerâmica fria da varanda. E com um olho só, desconfiado e brincalhão, observava o recém-chegado. Esperava que ele abaixasse para então saltar e escapar-se do abraço dele. A Pirata, sua doida. A seguir, fingia-se de morta, olhos semicerrados, focinho sobre as patas. A sua segunda fuga da tentativa de carinho era ainda mais espetacular. A bem dizer escorregava por entre os braços do garoto, dava-lhe uma lambida gosmenta na bochecha e chispava para o centro do pátio. Ali, latia furiosamente diante do ataque de incontáveis inimigos invisíveis. E, para livrar-se deles, encenava as mais estrambóticas performances guerreiras. Exibia dentes e garras, rosnava, unhava chão e ar. Mas, de repente, imobilizava-se, exausta. Admitia, por fim, o exagero cenográfico. Envergonhada, baixava a cabeça e varria o chão com as orelhas. A imobilidade, porém, não se delongava. Encostava-se à pitangueira e roçava com gosto e vigor o lombo lustroso. Era o patético ponto final. Dali em diante, dedicar-se-ia a receber as carícias do menino, latindo mansamente aos pés dele.

    Um dia, anos depois, a cachorra ficou velha.

    Não corria mais pelo quadrilátero do pátio. Não latia para ninguém, nem mesmo para os moleques nojentos que esmurravam a chapa metálica. Penava para subir os degraus que lavavam à varanda. Não mais abocanhava moscas. Dormia onde caía. As pessoas batiam à porta da casa para avisar que a coitada, caída no meio do pátio, sob um sol tenebroso, estava tentando se levantar e não conseguia. Não se exibia mais para o menino porque ele, já meio rapaz, de penugem acima dos beiços, não descia mais ao pátio depois da escola.

    – Ontem eu vi um rato enorme comendo a ração da Pirata – disse a mulher. – Ela deixou que ele comesse o quanto quisesse.

    – Chegou a hora – retrucou o homem. – Vou comunicar a triste verdade ao proprietário da besta.

    O rapaz não quis conversa.

    – Que história é essa, pai? Matar a Pirata?

    – Matar, não. Sacrificar é palavra mais ajustada.

    – Nunca.

    – Nunca diga nunca. Você já deve ter ouvido esta frase ridícula e certeira: nunca diga nunca.

    – Nunca.

    – Então vá ao pátio – disse o pai. – Da varanda observe sua filha. Verá que ela não corre mais, se arrasta. Verá que não presta atenção às crianças da escola. Verá que fica onde cai porque não consegue mais se botar sobre as patas. Ela está viva, porém morta. Isso acontece também com os homens. Muitos morrem antes de perder a respiração. O pior: ela já não enxerga mais os ratos, nem sente a catinga deles.

    Certa tarde veio o veterinário. A palavra nunca fora afastada.

    Aconteceu debaixo da pitangueira.

    O doutor explicou tudo direitinho.

    – A primeira injeção é pra que ela não sinta dor.

    A grande cadela magérrima e ossuda estava deitada sobre as pernas do rapaz que, sentado no chão, recostado contra o tronco da pitangueira, tinha a cara tisnada de tristeza.

    – A segunda injeção arrefecerá os batimentos do coração dela.

    O rapaz aquiesceu com um vago gesto de cabeça.

    Foi o que ocorreu. Duas agulhadas. O batuque do coração se enfraqueceu aos poucos. Devagar.

    De repente, a esplêndida fêmea branca com tapa-olho preto de flibusteiro não estava mais entre os vivos. Repousava deitada no chão umbroso, a cabeça no colo daquele que fora seu pai e sua mãe, um rapaz que um dia fora um menino. A grande cara comprida, espichada pela magreza, exibia para quem quisesse ver a pinta negra perfeitamente redonda em torno do olho esquerdo.

    – Deixe comigo – disse o pai. – Ela vai ser plantada ali onde parava a fim de lamber as mãos das criancinhas.

    O enterro foi naquela noite.

    – Pra onde vão as almas dos animais? – quis saber o rapaz, que segurava a lanterna.

    O homem parou de cavar. Enterrou a pá no montículo de areia fofa. Passou as mãos pela base das costas. Buscou um cigarro no bolso da camisa. Riscou o isqueiro.

    – Sim, senhor, isso é o que eu chamo de bela pergunta. Pois eu vou lhe esclarecer o que se passa com o espírito dos cães falecidos. Vão pra um lugar onde há muita água e pouco inseto. Várias vertentes, nem mosca ou pulga. Lá, como ninguém lhes dá comida, voltam a caçar. Apanham bichos pequenos que se entocam nos morros. Preás. Correm o tempo todo. Cansados, deitam-se à sombra das árvores.

    O rapaz movimentou a lanterna. O homem passou a mão pelo rosto, indicador e polegar drenando os olhos úmidos, e depois acabou de agasalhar na terra o corpo ossudo.

    Lanterna apagada, o rapaz saiu na frente a passos ligeiros.

    Na sala, aproximou-se da mulher que estava sentada no sofá, iluminada pelo abajur de pé, lendo um livro.

    – Mãe, o pai chorou!

    Lourenço Cazarré é escritor

    Este conto venceu o Prêmio Ana Maria Martins, da União Brasileira de Escritores (2022)

  • A cerimónia de adeus do Yokozuna Amoyama

    A cerimónia de adeus do Yokozuna Amoyama


    Meu velho avô Kurama Takahashi, o mais gentil dos homens, pediu permissão a meus pais para que eu faltasse às aulas a fim de acompanhá-lo à Cerimônia de Adeus do grande Amoyama.

    Meu velho e cego avô, Kurama Takahashi, queria que alguém de sua máxima confiança, alguém de sensibilidade semelhante à dele, lhe relatasse em detalhes a retirada daquele que considerava o maior lutador de sumô de todos os tempos.

    Meus pais cederam, claro, embora fossem rigorosos no controle dos meus estudos. Jamais eu havia faltado um só dia à escola. Mesmo quando estive com febre alta naquele inverno das fortes nevascas. Cederam porque ninguém resistia a um apelo do mais gentil dos homens, que era meu falecido avô Kurama Takahashi.

    Então fomos, meu idoso avô e eu, ele agarrado ao meu braço, pelas ruas de Tóquio, pela sempre cambiante paisagem colorida que se desdobrava diante de nossos olhos, os meus olhos cheios de luz e os de meu avô, plenos de sombras.

    Foi na manhã de um dos últimos dias do torneio de setembro.

    Embalado por uma entusiasmada orquestra de aplausos, o sempre majestoso Amoyama ingressou no estádio imenso que, naquele dia, tinha só uns poucos lugares vagos.

    Ladeado por uma dúzia de homens gordos, que vestiam quimonos azuis, o grande yokozuna subiu ao dojô a fim de cumprir o ritual da sua aposentadoria.

    Ali estava ele para, pela última vez, repetir com supremo rigor e elegância os gestos que haviam impressionados os japoneses ao longo de quase três décadas.

    Que gestos eram esses?

    Primeiramente, de olhos fechados, Amoyama abriu seus imensos e poderosos braços como se fosse um albatroz preparando-se para alçar voo na praia cinzenta de um mar sacudido por ventos furiosos.

    Depois, por três vezes, bateu com a mão direita fechada no peito, como alguém que, na porta do céu, implora aos deuses que lhe franqueiem o ingresso, o ingresso merecido por todos os que foram bons e justos ao longo de sua vida.

    A seguir, ainda mais vagaroso, demorou-se na certeira disposição dos pés.

    – Ele está se agachando – contei ao meu avô. – Acho que procura o ponto certo para obter depois o mais devastador dos impulsos.

    – É mais que isso – disse meu querido avô Kurama Takahashi. – Ele sabe o exato local em que sopra a energia represada no centro incandescente da terra.

    Sobreveio o silêncio. Um silêncio tão denso que só poderia ser cortado pelo afiado sabre ritual de um samurai.

    Imóvel, agachado, com as mãos fechadas apoiadas no chão, o yokozuna estava pronto para sua derradeira luta.

    Um combate de sumô, me disse certa vez meu amado avô Kurama Takahashi, é aquele mínimo espaço de tempo em que os homens conseguem se transformar nos animais mais ferozes: búfalos, leões, tigres…

    Ah, esqueci-me de narrar aqui, como também me esqueci de relatar a meu avô Kurama Takahashi naquele dia, que, enquanto Amoyama encenava sua preparação guerreira, do outro lado do dojô, de frente para ele, um menino repetia os mesmos gestos simbólicos.

    Que menino era esse?

    Era um pequeno ser magricelo – com a fina cintura envolvida por um mawashi branco – que um homem gordo de quimono azul colocara ali e, com gestos severos, ordenara a ele que se mostrasse um adversário à altura de Amoyama.

    Bem, concretamente: era um garotinho de quatro anos, noventa e cinco centímetros e quinze quilos, chamado Akira Nakamura.

    Dele veio a grande surpresa.

    Sem esperar que o árbitro ordenasse o início do combate, o destemido Akira Nakamura lançou-se contra o colossal homem seminu que tinha diante de si e aplicou-lhe um vigoroso e certeiro uwatê-naguê.

    O que se viu então foi uma maravilha, uma cena jamais registrada em qualquer outra Cerimônia de Adeus, a cena que tive a suprema felicidade de narrar, em todos os seus muitos pormenores, a meu bondoso avô Kurama Takahashi.

    O que se viu então foi o movimento elástico de um corpo de 150 quilos de músculos sendo projetado no ar, girando, o queixo enterrado no peito, os braços cruzados, os cotovelos projetados, as pernas flexionadas, girando, girando, até que se espatifou no solo com o estrépito de uma grande árvore que cai, abatida por um raio, na clareira de uma exuberante floresta tropical.

    Foi uma cena de segundos como são todas as cenas inesquecíveis do imorredouro sumô.

    Novamente a plateia explodiu. Muitos jogaram para o alto suas pequenas almofadas como se tivessem assistido, de fato, à derrota de um consagrado yokozuna por um maegashira novato.

    Amoyama levantou-se lento, mais lento que nunca, zonzo como jamais, trêmulo, atônito, assustado e incrédulo. Digna e dolorosamente, como se estivesse mesmo muito machucado, como se tentasse esconder dores insuportáveis, encaminhou-se com passadas incertas para o lugar de onde deveria cumprimentar o vencedor. E dali, com a reverência respeitosa que sempre destinara aos raros homens que conseguiram vencê-lo, saudou Akira Nakamura.

    Ainda no centro do dojô, porque esquecera que deveria voltar à sua posição, o pequeno rikishi não conseguiu nem mesmo abaixar a cabeça. Permaneceu imóvel, boquiaberto. Era uma delicada estatueta de assombro. Jamais imaginara as consequências quase fatais do tremendo golpe que aplicara naquele gigante que, agora, com as costas sujas de areia fina, se vergava diante dele, humilde.

    Nesse momento, o mesmo homem gordo de quimono azul, segurando na mão esquerda um pequeno banco, subiu ao dojô e pegou o pequenino Akira com a mão direita, como um pai que recolhe do gramado um brinquedo esquecido pelo filho, e, numa ação quase simultânea, colocou o banquinho no exato centro da arena.

    Nesse banquinho, demorado e majestoso, sentou-se Amoyama.

    Pouco depois subiu as escadas do dojô o avô de Amoyama, um velhíssimo pastor mongol, franzino e encarquilhado, com uma barbicha de uns poucos fios e uma espetada cabeleira branca, ainda íntegra.

    Olhos tomados por uma úmida luminosidade, ele agarrou com suas mãos nodosas a grande tesoura que lhe confiaram, aproximou-se do seu neto, seu único e adorado neto, e com golpes rápidos e certeiros lhe cortou os longos cabelos pretos.

    Passemos agora ao rosto de Amoyama.

    O que expressava aquela carantonha imberbe de maçãs salientes, olhos negríssimos e queixada de baleia?

    Nada além de tristeza. Exibia apenas a melancolia que o acompanhara nos seus muitos anos vitoriosos. A tristeza permanente que lhe dera o cognome famoso:

    Amoyama, o Triste.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Publicado no número 69 da revisita Brasil Nikkey Bangaku

  • A mulher que carregava dois felinos no nome

    A mulher que carregava dois felinos no nome


    Pede-me o discreto senhor doutor Tchevov, graduado em Medicina pela Universidade de Moscou, meu mantenedor estilístico e intelectual, que, em face de estarmos neste momento nos dirigindo a Portucale, em companhia do senador Rosario La Ciura, eu lhe conte (a ele, Anton) alguma história que tenha porventura vivido naquela antiga nação marítima. Vamos lá!

    Certa vez, há mais de vinte anos, depois de conhecer a portuária cidade do Porto, dirigi-me a passeio ao concelho de Cinfães, pois foi de lá, mais exatamente da aldeia de Santiago de Piães, que partiu há muito, em direção ao Brasil, um de meus ascendentes.

    Estava eu na Conservatória daquele concelho a tentar obter a certidão de nascimento de minha avó pelo lado materno quando parou ao meu lado, diante do balcão, um homem enxuto de carnes e de rosto martelado em granito.

    – Ora, pois, que os diabos me carreguem se não se trata do senhor Torga, escrevente e esculápio! – exclamei.

    – Pois não – retrucou, sereno e seco, o referido senhor, facultativo e, também, plumitivo, como o ínclito senhor doutor Tchecov.

    – Sou cá leitor dos vossos contos – disse eu. – Admiro-os.

    – Aos contos? Ou aos contos e a mim?

    – Admiro ambos, pois sim, os contos e o senhor doutor, que é deles o escrevedor – respondi sorrindo e acrescentei de pronto: – É dura a vida na montanha, pois não?

    – Pois sim, é.

    – As coisas acabam sempre mal por lá. Brigas, mortes violentas, partos solitários, sangrentas capações de varões lúbricos, homens partindo para o Brasil, mulheres abandonadas, muita reza, padres trêfegos, cabras escoiceando nas lojas, chicanices, aldrabices, traições e bandalheiras.

    – Pois assim é.

    – Muito aprecio as palavras desconhecidas que as usa o senhor Torga, embora eu não lhes atinja o sentido. Padeço. Quando o leio, doutor, peno com o pai dos burros ao colo, folheando-o incessantemente, embevecido com o palavrório exótico…

    – Exótico, diz o senhor?

    – Guardo na mente alguns dos seus lindos vocábulos que carregarei para sempre: talefe, gravelhos, quelhas, bragal, jalapa, relheiras, escarolado, pirisca, engrunhada, taró, desembelinhava, sedeiro, bagalhoça, sarrafusca, lampo, enfrenisava, alanzoar, murra, rinhado, panasco, lapedos, cainça, garanho, lódão, churra, cieiro, capilota, moca, preguiceiro, carolos, ilhentas, monco, trasfegas, farroncas, pedrado, courelas, sulipas, gravelho, desolhada, andilha, reloucaste, pútegas, parança, corcódea, esbarrondas, larinhoto, pantanas, coiras, estrafegada, sanguinidades, boldrego, borga, poviléu, farsola, paleio, daimoso, estopinhas, regueifas, conques, escândula, catraio, cibo, palhiço, bacelo, santanária e cardenha. Ufa! Só lembro destas.

    – Mas quanto às histórias, o senhor alcança-lhes o miolo, pois não?

    – Pois sim, doutor.

    – E com qual delas mais o senhor se impressionou?

    – Falando seriamente, doutor Miguel, apaixonei-me pela história da Maria Lionça, mulher de um belíssimo nome, já que unifica e condensa as forças de uma leoa e de uma onça. Um nome dessa grande beleza só poderia resultar em mulher de redobrada fortaleza a ponto de suportar, sem lamúrias, a longa ausência do marido, o Ruivo, que fora garimpar ao Brasil e que só retorna quando muito doente e desenganado, por males ruins, para defuntear-se logo. Mas aí, quando o ledor acredita que se exterminaram os infortúnios de Maria Lionça, eis que, um dia, já idosa, recebe ela um telegrama de Leixões instando que vá buscar seu filho, que retorna estrompado, não por ter ido gastar-se ao Brasil, mas porque se destroçou, de marujo, varejando o salso argento. Deram-lhe o filho no hospital, a exalar o último suspiro. Meteu-se então a Maria Lionça no comboio com seu rebento ao colo, já a arrefecer, embrulhado numa manta, a pedir licença a todos, recitando que levava ali uma pessoa muito doente. Arredavam-se logo todos. E assim conseguiu sentá-lo e sentar-se a seu lado. E daí a pouco, no macho do Preguiças, o Pedro subia a serra para dormir o derradeiro sono em Galafura, que era ao mesmo tempo a terra onde nascera e o regaço de sua mãe. É isso, senhor doutor Miguel Torga?

    Silêncio e compostura!

    Não me venham dizer que o português lusitano, quando impresso, parece uma inepta tradução de um livro escrito originalmente em basco ou húngaro. E nem defendam que o português lusitano, quando falado, é claramente uma língua germânica, cuja pronúncia se assemelha à do francês canadense, língua, esta sim, falada única e exclusivamente pelo nariz. Lusitanu, locale.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Texto originalmente integrado no livro Kzar Alexander, o louco de Pelotas

  • A coisa mais tremenda que eu já vi nesse banhado

    A coisa mais tremenda que eu já vi nesse banhado


    E como chegou, atropelou-a, agarrou-a, apertou-a, abraçando-a pela cintura, metendo a perna entre as dela, forcejando por derrubá-la, respirando duro, furioso, desembestado… mais mordendo que beijando o pescoço amorenado… e garboso…

    No manantial, João Simões Lopes Neto


    Está vendo aquele prédio verde mais alto, ali, à direita? É, o sobrado. Na parte de baixo funciona uma padaria. E lá, à esquerda, aquela casinha rosa bem na esquina? Imagine só: de um lado a outro, isso era só barraco. Um coladinho no outro, sem muro nem pátio. Uma amontoação que descia banhado dentro, quatro, cinco quadras. Ia mais ou menos até aquele poste lá na curva. Isso, onde a avenida dobra. Era muita gente que morava aqui.

    Faz mais de trinta anos, se não me engano. Eu era pequeno de uns nove anos quando chegamos aqui. A família toda: o pai, a mãe, a mana e eu.

    Não, não sei o ano direito, só sei que foi depois de uma enchente. A gente morava do outro lado da cidade, na Cerquinha. Perdemos quase tudo no aguaceiro.

    A vila surgiu num tapa. De repente, tinha aquele monte de barracos. O pai trouxe de charrete as madeiras da casa antiga, que a água tinha arrebentado. A gente veio de noite. De dia já me acordei morando na Vila dos Agachados.

    Ficamos sem colégio aquele resto de ano. Foi bom. A gente se metia pelo banhado: jogando bola, pescando, nadando e matando passarinho. A gente comia passarinho, claro. Pomba era melhor.

    Para todos os lados que se olhasse, só se via bandos e bandos de guris de canelas embarradas.

    No verão, a gente ia nadar num poço grande que tinha bem mais para a frente, depois dum matinho. O nome era Redondo, porque tinha o formato de uma roda mesmo. A gurizada passava o dia nadando. Só os machinhos, claro. As gurias não desciam das casas.

    O Redondo? Era como um açude, mas feito pela natureza mesmo. Fundo, sim. Bem no meião a água tampava a cabeça do indivíduo.

    Foi na beira desse tal Redondo que se deu a coisa mais tremenda que eu já vi nesse banhado aí.

    A senhora tem tempo? Tem mesmo? Olha que é história enrolada!

    Foi assim. Eu morava bem no meio da vila. Quero dizer, a minha casa ficava mais ou menos na metade da rua, a única rua, a que cortava de cima a baixo. Mais para lá, uns três barracos depois, morava o Magro. Era um bem mais alto do que eu, mas leviano de peso, cara fina. Parece que se chamava Nadir, não sei direito. Vivia só ele e mais o pai dele, um senhor emburrado, caladão. Tinham vindo da campanha e parece que o pai dele vivia de biscate.

    Mais adiante, bem no finzinho da rua, morava a Marianita. Era uma mulata sarará, de olho verde. O cabelo era bem loiro, mas ruim. Quando chegou na vila, ela era uma guria sem graça, gordinha, meio corcunda, com a carapinha sempre enfiada num lenço.

    A idade do Magro? Acho que tinha uns treze quando veio para cá. Mas o caso que eu vou lhe contar se deu depois, uns dois anos e pico depois. Então, a senhora faça os cálculos. É isso mesmo: o Magro tinha uns quinze e a guria devia andar pelos quatorze…

    Ah, tem mais uma pessoa nessa história: o Negãozinho. O nome dele era engraçado, nunca esqueci: Dionvaine. Ele morava perto da Marianita, mais na banda de lá. Era uma penca de filhos, uns sete. Tudo guri. O Negãozinho era o mais velho. De idade ele regulava com o Magro, mas era muito maior, ombrudo. O Negãozinho só entrava dobrado, de cabeça gacha, no barraco da família dele.

    Como eu lhe disse, a gurizada passava o dia no banhado. Na parte mais de cá a gente jogava bola. Num arroiozinho que tinha mais para lá se pescava. A gente caçava passarinho no mato que tinha perto do Redondo. Mas também se fazia guerra de bodoque com bolinha de barro. Teve um até que ficou caolho, um gordo foguinho.

    Eu gostava mesmo era do Redondo. Dava para fazer corrida de nado. Tinha prova de mergulho, para ver quem ficava mais tempo afundado. Até campeonato de ponta-cabeça fizemos, para ver quem é que saltava mais longe.

    No primeiro verão, todo mundo nadava. O Magro, o Negãozinho e eu. O Negãozinho era dose. Gostava de afogar os menores. Pegava pela nuca e empurrava para o fundo. Ele se prevalecia porque tinha muita força. O Negãozinho roubava na corrida. Puxava os outros pelo pé. Nadava mal, chegava atrasado e tinha a cara de pau de dizer que tinha ganhado. Todo mundo se arrolhava para ele, menos o Magro. Que era um peixe nadando.

     – Tu pode dizer o que tu quisé, Negãozinho, mas eu te ganhei – dizia o Magro. – E nadando de camisa!

    Ah, tinha isso também: o Magro não tirava a camisa nem para nadar, nunca. Dizia que tinha uma queimadura no peito que era uma coisa feia de se olhar. Nadava com camisa de botão por cima e com camiseta por baixo.

    Depois de perder uma carreira de nado para o Magro, o Negãozinho ficava buzina e ia embora, pateando. Ele podia, se quisesse, dar uma tunda no Magro, mas nunca saiu no pau.

    Por que isso? Eu lhe digo: o Magro era o mais esperto de todos. Era um piá estranho. Falava pouco. Acho que era por causa da voz dele, que era fina, meio fanhosa. Não fazia questão de mandar, mas a gente obedecia tudo que ele mandava. No futebol, ele dividia os times. E nunca deixava ninguém brigar. Se um se esquentava, ele mandava baixar a bola. O Magro jogava no golo. Era corajoso, se metia nos pés dos outros. Uma vez levou um baita bolaço no peito e caiu desmaiado. Na caça, ele era o melhor de pontaria. Mas não deixava ninguém matar só de maldade.

    – A gente só mata o que vai comer – ele dizia.

    O Negãozinho ficava fulo, chiava, mas acabava se michando.

    O Magro tinha uns tiques de nervoso. Se sacudia assim: girava a cabeça bem ligeiro e depois dava um coice para o lado.

    Um dia, a gente estava só os dois, e eu perguntei o porquê daqueles tirões com o pescoço e o pataço. O Magro me olhou, pensou um pouco e disse:

    – É a minha alma que quer se livrar do meu corpo.

    Fiquei arrepiado, me benzi e tudo.

    Um carroceiro, que também tinha vindo da campanha, disse uma vez no boteco da vila que a mãe do Magro tinha aparecido enforcada num galho de umbu.

    Então, eu achava que os tiques dele eram de recalque.

    No segundo verão, o Magro não foi mais nadar. Ficava em casa ouvindo radinho de pilha. Parou de brincar com a gente e, aí, a coisa complicou. O Negãozinho ficou de chefe. Eu era dos menores e tinha que obedecer. Um dia inauguraram o supermercado e o Negãozinho me mandou roubar cinco rolos de cordão para a pandorga dele. Roubei me borrando de medo, mas roubei. Então a gente começou a ir em bando para o centro da cidade e os guris do colégio dos padres trocavam de calçada quando viam a gente.

    Uma vez, anoitecendo, uns brigadas nos cercaram quando a gente vinha voltando pelo canalete. E, sem conversa, baixaram a borracha no nosso lombo. O Negãozinho foi o que tomou mais pau, mas não chorou. Um brigadiano disse:

    – Fiquem naquela vila de merda e não saiam de lá! Se aparecerem de novo por aqui, vai ter para vocês, maloqueiros!

    O tempo foi passando.

    Eu só sei que um dia os guris mais velhos estavam todos loucos pela Marianita. Foi de repente. Era feiosa, mas, de uma hora para outra, botou corpo. Um corpaço. Ajeitou o cabelo numa trança, comprou sapato de salto e começou a se pintar.

    Sempre fui um piá observador. Era menor que os outros, ainda nem dava bola para gurias, mas notei que o Magro foi o que mais se engraçou para o lado da Marianita. Ele ia até o fim da vila, passava na frente do barraco dela e voltava. Era um passeio sem fundamento porque não tinha nada para ver lá. Se entrava no banhado, e só entrava sozinho, o Magro sempre voltava trazendo uma coisa que dava um jeito de deixar com a Marianita. Era flor, era plantinha, era passarinho: cardeais e canários da terra. Uma vez pegou um ninho inteiro com filhotes de caturrita.

    Depois, começaram a conversar na porta do barraco dela. A Marianita toda arrumadinha de saia curta. O Magro sempre ficava de cabeça baixa, meio que rindo sem jeito, cavando o chão com a ponta do chinelo.

    A mãe da Marianita era uma polaca que trabalhava de faxineira na Santa Casa. Tinha também três guris. Dizem que cada um era de um pai. A Marianita, apesar de clarinha, era filha de negro, aposto. Tinha as feições. Os três menores eram um ruço, um meio índio e um alemão melado.

    Dizem que a mãe dela tinha descido do Morro Redondo ou do Monte Bonito para se virar na Tiradentes. Um dia, não se sabe como, arranjou o emprego de faxina e deixou a vida. Depois, ela e a filharada foram dar com os costados na vila.

    Mas aí tem um detalhe que eu ia me esquecendo. Um dia a prefeitura cercou a favela com arame farpado. Não podia levantar mais barraco nenhum. Os empregados vieram numa camionete com alto-falante. Botaram as pessoas em fila e fizeram um levantamento. Disseram que iam regular a nossa situação. O meu pai até ficou meio desconfiando, mas acabou enchendo uma ficha para eles.

    Tempo vai, tempo vem, a gente via uns sujeitos descendo pela nossa rua com umas fitas métricas compridonas e uns aparelhos de mirar. Começou a falaçada. Que iam nos jogar no banhado. As pessoas discutiam. Meu pai dizia:

    – Por mim, está tudo bem. Podem me botar até nos quintos, mas tem que ser de papel passado em cartório.

    Um dia, armaram um palanque na entrada da vila. A gente se chegou. Disseram que ia ter bandinha da Brigada, foguetório, churrasco, guaraná e até uns drinques. Depois apareceu um caminhão. Dele desceu o prefeito, que era um gordo, baixinho, de óculos. Ele foi para o palanque e começou o nhenhenhém. O bicho falava complicado, mas o caso era que iam mesmo nos dar uns lotes demarcados.

    Foi durante a fala do prefeito que o Negãozinho se enfiou pela traseira do caminhão da prefeitura. Pegou só duas garrafas da cachaça, para os funcionários não desconfiarem muito, e se mandou banhado adentro. Fomos dois guris atrás dele: eu e o Perninha, um que era rengo.

    O Negãozinho deu uma garrafa para nós e ficou com a outra para ele. Bebia e se gabava, dizendo que era homem e tal, que não ficava borracho nunca. O Perninha não falava nada, só bebia e careteava. Eu me fiz de sonso e não tomei quase. Aquilo me queimava as tripas.

    Lá pelas tantas o Perninha se foi embora, mais manco que nunca, meio que se vomitando. Em seguida caiu a noite. O Negãozinho tinha tomado mais da metade e continuava se balaqueando. Eu nem escutava direito o que ele dizia.

    Eu olhei para a vila e vi que as pessoas estavam acendendo as velas e os lampiões. Se acabou a festa, pensei.

    – Vambora, Negãozinho – eu disse. – A mãe deve de tá me procurando.

    – Eu vou é destampar a Marianita – disse ele e meteu o dedo no meu peito. – E tu vai olhá.

    Senti que a coisa estava ficando feia, mas não falei nada. No fundo, eu queria ver como ele ia…

    A senhora me entende?

    Eu era gurizinho novo, só sabia daquilo de ouvir falar.

    Além do mais, eu não tinha coragem de contrariar o Negãozinho. Ele era meu amigo. Não deixava os maiores me pegarem no futebol. Mas eu também gostava de ver o jeito como ele olhava para os brigadianos, assim de cima.

    – Vem comigo, piá – disse o Negãozinho. – Mas fica meio de longe. Não te mete. Eu vou trazer ela para cá. Depois, ela se lava aí no Redondo.

    Fomos. Era noite de lua cheia. Lembro de tudo, tintim por tintim. Lembro até do barulho dos bichos do banhado: era muito nhé de sapo e muito ruuu de coruja.

    O Negãozinho bateu na porta do barraco. Quando a mãe da Marianita abriu a porta, de vela na mão, o Negãozinho mandou um soco nos queixos da mulher. Entrou no barraco, pegou a Marianita assim, na gravata, e se veio. Um dos guris correu de atrás, o menorzinho. O Negãozinho deu-lhe um pontapé que o coitadinho levantou no ar e depois caiu deitado.

    Meio correndo e trazendo a guria de arrasto, o Negãozinho passou pelo matinho e se foi até o Redondo. Eu fiquei por trás, meio escondido num pé de araçá, só bombeando. Ele jogou a Marianita no capim e ela não gritou nem nada. Se levantou, fez que ia ajeitar o vestido, mas voou no pescoço do Negãozinho e cravou as unhas nele. O Negãozinho urrou de dor e derrubou ela com uma rapada. Depois se jogou em cima, metendo a perna no meio das pernas dela. Os dois rosnavam como animais. Ela quebrava a corpo e ele forcejava em cima. Não tenho vergonha de confessar: era uma coisa bonita de se ver, embora fosse maldade.

    Olha, vou dizer uma coisa – que Deus me perdoe, se eu estiver mentindo. Eu estava de olho bem aberto, vendo tudo. De repente, o Diabo me roncou nas tripas: achei que a Marianita estava gostando. Foi quando os corcoveios diminuíram e ela aceitou a boca dele.

    Mas, bah, aquilo não durou um segundo.

    Eu só vi um vulto branco – parecia uma assombração! – passar pela frente dos meus olhos. Um vulto que fez uns movimentos rápidos e aí eu escutei um grito. Um grito de dor.

    Demorei a entender.

    Era o seguinte: o vulto era o Magro. E ele tinha feito, de canivete, um xis nas costas do Negãozinho.

    O Magro estava de calça branca e de camisa branca, bem como eu tinha visto ele no discurso do prefeito, no gargarejo do palanque, ao lado da Marianita.

    – O que tu me fez, seu filho da puta? – perguntou o Negãozinho.

    – Só te marquei na paleta – disse o Magro, naquela voz esganiçada.

    – Eu vou te matar – disse o Negãozinho, e se levantou.

    Então eles começaram a caminhar de lado, como que se toureando.

    A lua brilhava no canivete do Magro.

    A cada volta o Negãozinho se aproximava mais. Estava meio encolhido, como gato pronto para atacar um rato.

    Então, com a mão esquerda o Magro começou a desabotoar a camisa. E perguntou:

    – Tu gosta mesmo de mulher, Negãozinho?

    Negãozinho não respondeu.

    Aí, o Magro deu um jeito de corpo e se livrou da camisa. A lua batia bem nele. Ele estava com uma faixa de pano enrolada no peito.

    Negãozinho parou de andar.

    O Magro deu um puxão e a faixa se foi ao chão. Duas tetas saltaram no peito dele. Duas tetas de mulher.

    O Negãozinho recuou um passo e ficou duro. O Magro abriu a cinta e deu um giro de bambolê na cintura, assim. E a calça dele caiu. O Negãozinho já tinha até abaixado os braços. O Magro meio que se agachou, arrastando a cueca com o dedão. Credo, que coisa! Ele deu um passo em frente, nu, e eu vi um corpo inteiro de mulher.

    – Se tu gosta mesmo, hoje tu vai ter que comer duas.

    Eu já nem respirava. O banhado estava em silêncio, como que estuporado pelo que estava se dando ali.

    O Negãozinho estava de costas para mim, parado. Dava para ver a sangueira na camisa dele.

    Então aquela mulher que tinha saído de dentro das roupas do Magro se encaminhou até onde estava a Marianita e deu a mão para ela. Sempre de canivete levantado, sem tirar os olhos do Negãozinho.

    A Marianita, que estava assistindo aquilo sentada, se levantou. A primeira coisa que fez foi ajeitar o cabelo. Depois recolheu do chão as roupas do Magro.

    Então as duas se foram, uma vestida, outra pelada, de mãos dadas, em direção ao casario.

    Eu me chispei banhado acima, na pontinha dos cascos. Dei uma volta bárbara para chegar até os barracos. Não queria que o Negãozinho soubesse que eu havia assistido aquilo tudo de camarote. Ele ia ficar com medo que eu saísse contando.

    Dias depois, houve a mudança da vila. Foi feita no rapidão porque todo mundo tinha pouca coisa. O pai ganhou um lote bem bom, naquela banda de lá. Em seguida, eu arrumei emprego de mandalete na cidade e comecei a trabalhar.

    Bem, para encurtar. O Magro tomou chá de sumiço naquela noite mesmo. A Marianita logo depois saiu da vila. Falavam mal dela, diziam que tinha seguido a antiga profissão da mãe.

    O Negãozinho só durou mais dois anos. Morreu de balaço pelas costas. Parece que foi um brigadiano.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Texto originalmente integrado no livro Exercícios espirituais para insônia e incerteza