Etiqueta: Opinião

  • Como falar de Camarate à mesa de Natal

    Como falar de Camarate à mesa de Natal


    Já se passaram 45 anos e continua-se a discutir se Camarate foi atentado ou acidente. O assunto pode vir à tona durante o Natal em família, tanto mais que vamos ter eleições presidenciais, algo que também estava no plano político de 1980. Por isso, aqui ficam algumas dicas sobre como pode ser abordado o assunto de Camarate de modo a evitar estragar a harmonia sempre tão necessária nesta festa da família.

    Placa em memória das vítimas do atentado que tirou a vida ao então primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, instalada junto ao local onde se deu a tragédia, em Camarate. / Foto: D.R.

    1 – Diga que foi acidente

    Ainda há dias, numa entrevista na rádio da rua João Saraiva, o candidato a candidato à Presidência da República, — o “não sou maçon” — Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo, disse de forma muito enfática e sem espaço para dúvidas que Camarate foi “acidente”. Como não creio que o ex-militar tenha sido testemunha ocular do acidente, deduzo que estivesse apenas a produzir uma opinião pessoal.

    É bem mais seguro dizer que Camarate foi acidente do que atentado. O acidente encerra logo ali o assunto, pelo que podemos seguir em frente na vida, sem mais questões. Esta opinião é até aquela que mais agrada a jornalistas, pois não têm depois de fazer perguntas que podem ser incómodas. Agrada igualmente a juízes, investigadores judiciais e a outros ligados à área, que assim podem dar o assunto por encerrado e não se fala mais nisso. E agrada ainda a certos meios políticos, já que não abre caminhos para se ir mexer em assuntos delicados e que não interessam nada aos seus interesses.

    O recém-falecido ex-primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão, por exemplo, era adepto do acidente e, no caso dele, sabemos bem que também não podia ter sido testemunha ocular, pois há testemunhas de que estava no Porto, no aeroporto de Pedras Rubras, à espera da chegada de Francisco Sá Carneiro para o comício extra que iria ter lugar no Coliseu da Rua Passos Manuel.

    Foto: D.R.

    Por isso, se não quiser arranjar problemas na conversa da família, diga que Camarate foi um infeliz acidente, que o avião estava podre, os pilotos andavam cansados e, sobretudo, não havia maneira de saber se Sá Carneiro iria estar ou não naquele avião, mas que, à última da hora, Sá Carneiro mudou para o aparelho podre. Ah! E ainda havia o avião da TAP, para onde ele tinha reservas.

    Por isso, acidente. Sem sombra de dúvidas. É bem mais seguro e evita chatices.

    2 – Diga que ainda não está bem esclarecido

    Se é daqueles que, por uma questão intelectual, não pode ficar calado e não consegue dizer que foi acidente, pois parece que é uma posição simples e de alguém que está mal informado, é então obrigado a dizer que foi atentado. Sabe que o acidente nunca foi verdadeiramente explicado e, um avião, mesmo podre, não cai assim. Que a falha de um motor até pode ser compensada pelos pilotos — por muito cansados que estivessem.

    E como seguiu a polémica, leu os livros do Cid, sabe ainda que havia um segundo avião, aquele que Balsemão pediu ao dono da RAR, o empresário João Macedo e Silva, e em melhores condições. Também esteve atento às inúmeras comissões de inquérito, pelo que pode sempre dizer mal do exagerado número de comissões — foram 10, mas metade delas foram a continuação da outra, após terem sido interrompidas pelo fim das legislaturas até serem retomadas na seguinte. Esta é também uma maneira segura de mostrar que até se interessou pelo assunto e procurou informar-se melhor sobre o caso. Que não tem uma opinião ligeira.

    Foto: D.R.

    Pode sempre demostrar alguma superioridade perante aqueles que dizem ter sido acidente, dando a entender que até sabe mais sobre o assunto.  Mas, como não quer ser visto muito deslocado do resto da família e convém não ser desagradável em relação aos que estão sentados na confortável ideia do acidente, o melhor a fazer é dizer que, mesmo sendo atentado, ainda existe muita confusão. Embora pense que o atentado é algo plausível, ainda assim não sabe explicar muito bem como foi e, por isso, seria melhor haver mais uma comissão, mas o problema dessa confusão toda é precisamente por ter havido já muitas comissões, pelo que não faz sentido haver mais outra, mas lá que seria necessário, lá isso seria.

    Uma posição informada, segura e que não ofende ou coloca em perigo a convicção daqueles que vivem tranquilamente na segurança do acidente. 

    3 – Diga que foi atentado, mas o alvo era o Adelino

    Este já está um nível mais acima, mas ainda assim dentro daquele conforto que também não cria perigos e não provoca choques sociais. Está apenas ao alcance de um grupo de pessoas muito específicas. Ainda há dias ouvi, por exemplo, o antigo grão-mestre da maçonaria regular, José Manuel Anes, a justificar as acusações da sua filha nas redes sociais — onde ele era acusado de ter feito a bomba de Camarate —, a dizer que as palavras da filha não faziam qualquer sentido, pois ele investigou o caso e concluiu que houve uma bomba. E que até foi ameaçado de vida — por quem? Não disse.

    Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    Manuel Anes, que na altura dos factos era funcionário do laboratório científico da PJ desde 1978, é uma daquelas pessoas, que ao contrário do Henrique Melo, não pode dizer que foi acidente. Mas como também não pode parecer ter dúvidas quanto a ter sido um atentado, acrescentou à jornalista Tânia que o atentado foi contra Adelino Amaro da Costa e não contra Francisco Sá Carneiro. E a jornalista nem tugiu nem mugiu.

    Esta opinião foi aquela que Conceição Monteiro, a secretária de Sá Carneiro e principal testemunha do que se passou durante aquele dia, começou a propalar quando se viu perante as evidências de um atentado, confirmado depois por Manuel Anes. Disse a senhora que, como não havia tempo para preparar um atentado contra Sá Carneiro, o alvo seria o ministro da Defesa, Amaro da Costa.

    Como se a morte de um ministro fosse algo que se pudesse varrer depois para baixo do tapete e não merecesse uma investigação cabal. Mas, como o mais importante é retirar o nome de Sá Carneiro desta equação, para evitar uma investigação mais aprofundada, esta posição é aquela que deve ser usada por aqueles que não têm mesmo hipóteses de negar o atentado e que, tal como Anes, não podem discutir as conclusões oficiais das últimas comissões de inquérito e não podem parecer ter dúvidas.

    Adelino Amaro da Costa na tomada de posse como ministro da Defesa do Executivo liderado por Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    Dizer que foi para o Adelino é uma boa maneira de dizer que foi atentado, mas depois arrumar o assunto sem ter de dar muitas mais explicações.

    4 – Sobretudo, nunca diga estes factos:

    Sá Carneiro estava no avião que caiu em Camarate porque era o único táxi-aéreo disponível no País depois de, uma semana antes, a 26 de Novembro, os aviões da campanha presidencial de Soares Carneiro terem sido apreendidos pela Guarda Fiscal no aeródromo de Tires. Essa apreensão, levada a cabo por uma autoridade que dependia do ministro das Finanças, Cavaco Silva, tem de ser considerada como parte do plano e demonstra que, ao contrário do que dizia Conceição Monteiro, houve mesmo tempo para preparar um atentado contra o primeiro-ministro Sá Carneiro.

    Sá Carneiro nunca teria tido necessidade de ir ao Porto de avião se não lhe tivessem marcado um comício extra no Coliseu do Porto, facto de que foi informado a 1 de Dezembro, quando estava em Évora. De acordo com a agenda há muito feita, o comício onde ele deveria ter ido era o de Setúbal e não no Porto. O comício do Porto fora no dia anterior.

    Foto: D.R.

    Havia um segundo avião privado, mas Sá Carneiro nunca foi informado da existência desse aparelho. Esse era o avião privado da RAR que Balsemão garantiu que iria haver e que, depois, a sua prima, a secretária Conceição Monteiro, desmarcou após o encontro de Sá Carneiro e Amaro da Costa à hora do almoço.

    Sim, havia reservas no voo comercial da TAP, mas isso era apenas uma medida de último recurso caso o avião privado não fosse autorizado a descolar devido ao mau tempo. Também havia, dentro da mesma linha de pensamento, reservas para o comboio. Aliás, o avião privado foi solicitado para levar Sá Carneiro de volta para Lisboa após o comício e permitir cumprir a agenda de primeiro-ministro na manhã do dia seguinte. E não havia avião da TAP para fazer esse regresso após o comício.

    Quem insistiu na ideia do avião da TAP como uma mudança de última hora, ampliando as dúvidas em relação a um acidente e não a um atentado, foi o então director-interino do semanário Expresso, Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República.      

    Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    A morte ocorreu numa altura em que Sá Carneiro andava a ameaçar fazer um ajuste de contas com os traidores no seu partido, andava a extremar a luta presidencial contra o general Ramalho Eanes e colocava em perigo a estabilidade democrática de Portugal, recusando um futuro bloco central com o PS de Mário Soares.

    No campo internacional também coincidiu com o negócio de tráfico de armas para o Irão e que levara à derrota, um mês antes, do presidente norte-americano, Jimmy Carter, perante Ronald Reagan e George Bush. As ligações à CIA ainda estão por esclarecer, mas estão lá, pois Bush tinha sido chefe da CIA e o chefe da sua campanha presidencial, e principal mentor do negócio de tráfico de armas ilegal para o Irão no sentido de atrasar a libertação dos reféns norte-americanos em Teerão, William Casey, foi depois nomeado chefe da CIA. Na altura da morte de Sá Carneiro, o número dois da CIA era o ex-embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Frank Carlucci, uma pessoa que não tivera boas relações pessoais com o primeiro-ministro durante a sua permanência no nosso País.

    De resto, bom jantar em família!

  • Habitação e urbanismo: um mundo de ideologias e certezas fáceis

    Habitação e urbanismo: um mundo de ideologias e certezas fáceis


    Há um novo tipo de alquimia académica que prospera à sombra dos números e dos microfones: transformar correlações frouxas em verdades absolutas. A imprensa, ávida de narrativas morais e de culpados prontos a usar, trata-as como dogmas científicos. O caso mais recente vem do Público, que proclamou ontem, com ar de epifania sociológica, que “as regiões com maior aumento da construção são onde os preços das casas mais sobem”. A frase soa bem, dá manchete, indigna o leitor e conforta o preconceito. Mas é estatisticamente falsa, logicamente invertida e intelectualmente preguiçosa.

    Os investigadores citados — quase todos de um certo círculo universitário urbano-progressista, entre Lisboa e Porto, em áreas onde a Estatística é pouco assídua — erguem-se como sacerdotes do anti-mercado. Falam em “subsídios à especulação”, em “unidades imobiliárias como instrumentos económicos”, como se fosse uma descoberta de laboratório que o imobiliário é… um activo.

    several cranes above the buildings

    Estranha surpresa: o capital investe onde há rendimento. Não há conspiração global; há procura. Mas, para esta geração de cientistas sociais, tudo o que não cabe na cartilha da redistribuição coerciva é, por definição, perverso. E o Estado, que deveria ser o regulador do mercado, intervindo no planeamento e na construção de forma activa — porque tem capacidade de influenciar preços —, é “convidado” a interferir coercivamente na propriedade privada e em actividades económicas legítimas.

    O problema básico é que, sob o verniz da denúncia, não há método. Nenhum. O artigo que lhes dá palco confunde, de forma absurda, associação com causalidade, ignora variáveis elementares — juros, rendimentos, migração, turismo, custo dos materiais, crédito — e cita séries temporais sem qualquer controlo de contexto.

    Provavelmente isto assustará os leitores comuns, mas tem de ser, para desmontar falácias: pegando nos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) — que não foram, como deveriam ter sido, cruzados com outras variáveis e séries mais longas —, observa-se que a correlação entre aumento de construção e valorização de preços é moderada (r≈0,55). Ou seja, há correlação positiva, mas não causalidade. Quando se aplicam modelos simples de regressão linear aos dados (Y = β₀ + β₁X), o coeficiente β₁ estimado situa-se apenas em torno de 0,25 — isto é, um aumento de 100% na construção associa-se, em média, a apenas 25 pontos percentuais de subida de preços. E o r²≈0,30 mostra que apenas 30% da variação dos preços pode ser explicada pela variação da construção.

    Notícia do Público.

    Mas, talvez induzido pela “narrativa” dos investigadores, em vez de o reconhecer, o Público prefere reinventar a Economia: diz que, quanto mais casas se constroem, mais as casas sobem. É como afirmar que os hospitais provocam epidemias porque as camas ficam cheias quando há doentes.

    A análise regional, aliás, desmente por completo a tese propagada. De acordo com os próprios dados do INE, a Área Metropolitana do Porto registou o maior aumento de construção no período 2019-2024 (+273,7%) e uma subida expressiva dos preços (+79,2%). Contudo, a Região Autónoma da Madeira, com crescimento de construção inferior (+213,9%), apresentou o maior aumento de preço (+97,3%). Em contraste, a Península de Setúbal teve apenas um acréscimo de 69% em novos fogos, mas foi a segunda maior valorização do país (+85%). Já o Algarve, com crescimento de construção moderado (+93,4%), viu os preços subir 62,3%, próximo da média nacional.

    E, no extremo oposto, a Beira Baixa, com crescimento quase nulo da construção (+0,5%), registou também a menor variação de preços (+1,75%). Ou seja, aparentemente, vai tudo no mesmo sentido, mas esse “mesmo sentido” é apenas uma aparência superficial.

    Na realidade, a construção e os preços movem-se em simultâneo porque respondem à mesma força: o crescimento da procura e das expectativas de valorização. Quando há mais compradores, crédito e investimento, constroem-se naturalmente mais casas — não o inverso. Assim, o que o Público apresenta como causalidade é, na verdade, um reflexo do ciclo económico e demográfico, e não uma lei do mercado imobiliário.

    Dados do INE usados pelo Público para concluir que as “regiões com maior aumento da construção são onde os preços das casas mais sobem”.

    Porém, há um erro ainda mais profundo: a variação da construção não é uma variável independente, porque depende directamente da procura habitacional e de fenómenos demográficos e económicos locais. Constrói-se mais onde há crescimento populacional, investimento, crédito e emprego; e constrói-se menos onde há despovoamento e ausência de dinamismo económico. A construção é, portanto, endógena — responde ao mercado, não o determina. Ignorar esta endogeneidade é o mesmo que culpar o termómetro pela febre.

    Por isso, o restante — os 70% que escapam à regressão — resulta de factores estruturais: turismo, rendimento disponível, atracção de investimento, políticas fiscais, fluxos migratórios e confiança económica. A estatística revela aquilo que o discurso ignora: a valorização imobiliária não decorre da oferta, mas da procura. As regiões com maior dinamismo económico e demográfico são aquelas que simultaneamente constroem mais e valorizam mais, não porque o cimento inflacione o preço, mas porque o mercado responde à procura. É um reflexo clássico: quando a expectativa de valorização é positiva, constrói-se mais; quando é negativa, a construção retrai-se.

    Tomemos outro exemplo. O Oeste, com forte crescimento populacional e turismo interno, aumentou a construção em 113% e os preços em 70%. Já o Baixo Alentejo, onde a procura é débil, teve apenas 10% de novos fogos e valorização de 28%. Esta simples comparação destrói a tese do “quanto mais se constrói, mais sobe”. A realidade é a oposta: constrói-se mais onde os preços já estão a subir — e os preços sobem onde há procura e rendimento, não betoneiras.

    white painted concrete building

    A notícia do Público e a narrativa dos especialistas contactados tratam-se, portanto, de uma infeliz inversão causal clássica — o erro que qualquer estudante de Estatística aprende a evitar. Mas, na academia mediática portuguesa, a lógica é facultativa: não importa demonstrar — basta narrar. Assim, quando a evidência concreta desmente a ideologia, torce-se a evidência. Os investigadores convocados pelo Público têm em comum uma obsessão moral: o capitalismo como mal absoluto, a habitação como campo de luta, o investidor como inimigo de classe. Falta-lhes o desconforto da dúvida e o exercício da refutação. Sobram-lhes certezas e epítetos.

    A imprensa, por sua vez, mostra-se uma cúmplice voluntária: já não se questionam os pressupostos, apenas se amplificam os ecos. Esta cumplicidade académica-jornalística constitui uma das formas mais perniciosas de agenda setting: transformar a opinião militante em “facto verificado” e a hipótese especulativa em “evidência empírica”. O jornalismo abdica da crítica para se tornar extensão do discurso universitário dominante — aquele que confunde urbanismo com engenharia social. Quando os media reproduzem sem escrutínio a tese de que “aumentar a oferta não resolve o problema da habitação”, estão a fazer política, não ciência.

    Há, porém, um dado inescapável: onde há mais crescimento populacional e económico, há simultaneamente mais construção e mais valorização. A correlação observada é o reflexo da procura, não da oferta. As regiões que atraem investimento e emprego — Porto, Lisboa, Madeira — são também as que têm preços mais altos. O fenómeno é o mesmo que leva o preço do trigo a subir quando há boas colheitas: se a procura cresce mais depressa do que a produção, o preço sobe. E não há decreto ideológico que o contrarie.

    houses near sea

    É nesta recusa da complexidade que o urbanismo académico se transforma em militância. Em vez de compreender as dinâmicas sociais e económicas, reduz tudo a moral política: há “especuladores”, “fundos”, “nómadas digitais”, “casas vazias”, “alojamento turístico”. Bodes expiatórios convenientes, que desviam a atenção do essencial: rendimentos estagnados, políticas fiscais erráticas e ausência de mobilidade laboral. O problema da habitação não está nas gruas; está na Economia e num país cada vez mais litoralizado, que não pode continuar a crescer apenas em torno da Grande Lisboa e do Grande Porto. Mas é mais fácil culpar o investidor do que discutir o Estado.

    Nota-se cada vez mais uma estética do simplismo que domina a ciência social portuguesa: gráficos sem análise, conceitos inflacionados e uma fé quase teológica no Estado redentor. E há uma imprensa que, incapaz de escrutinar, cede ao conforto da unanimidade. O resultado é a colonização ideológica do espaço público — uma paródia de empirismo que legitima medidas contraproducentes, como a proibição de alojamentos turísticos ou a demonização da propriedade privada.

    A ciência serve para descrever o mundo, não para o moralizar. A Economia serve para compreender o comportamento humano, não para o disciplinar. Quando investigadores abandonam o método para agradar à tribo, deixam de ser cientistas e tornam-se propagandistas. E quando jornalistas abdicam da dúvida para vender indignação, deixam de informar e passam a catequizar.

    a row of houses by the water

    A verdade é que o preço das casas sobe porque Portugal cresceu em procura, investimento e exposição internacional. Subiu porque a impressão desmesurada de massa monetária pelo Banco Central Europeu causou inflação e canalizou dinheiro para o tijolo, porque a confiança no euro e no crédito aumentou, e porque o Estado é lento a disponibilizar solo e a simplificar licenciamentos.

    Seria sensato devolver o rigor à análise e o cepticismo ao jornalismo. O problema da habitação não se resolverá com indignações impressas nem com teses que confundem ideologia com evidência. E talvez fosse hora de os urbanistas descerem dos seminários e aprenderem a ler um gráfico antes de o usarem como bandeira. Até porque o debate público precisa de ciência, não de sermões — e de jornalistas que saibam distinguir entre um dado e uma doutrina.

  • É verdade que o Polígrafo sabe fazer verificação científica? Falso

    É verdade que o Polígrafo sabe fazer verificação científica? Falso


    Há muito que o Polígrafo deixou de ser um órgão de “verificação de factos” para se tornar um curioso laboratório de legitimação de financiadores. O projecto, que nasceu sob o pretexto da “verificação da verdade”, é hoje uma caricatura daquilo que pretendia denunciar: consolida-se como um veículo de desinformação institucionalizada, moldado aos patrocínios que lhe asseguram os lucros.

    Se o maná da pandemia lhe trouxe os milhões — sim, já ultrapassou um milhão — do Facebook e, também, agora do TikTok, o Polígrafo virou-se para uma estratégia sui generis e despudorada: em poucos meses abriu três linhas de facturação explícitas — futebol (financiada pela Betclic), finanças (financiada pela Ordem dos Contabilistas Certificados) e cancro (financiada pela Fundação Champalimaud, desde Agosto). Não se conhecem montantes envolvidos nem condições.

    O Polígrafo dá a mão a quem lhe dá dinheiro para fazer fact checking.

    Se calhar houve mais parcerias que me passaram despercebidas — ou que o seu fundador, Fernando Esteves, se esqueceu de nos revelar. Não se conhecem valores, contratos nem condições editoriais. Conhece-se apenas o resultado: uma deriva editorial que substitui o espírito crítico pelo conformismo rentável.

    Nada disto surpreende. O Polígrafo é um projecto torto, nascido do conceito de que a desinformação vem de fora — sobretudo das redes sociais —, quando, na verdade, radica na perda de credibilidade da imprensa e na sua incapacidade de convencer os leitores a usar informação fidedigna e produzir análises rigorosas sem enviesamentos. E fazer secções editoriais a pedido — ou seja, criar secções se houver patrocinador, como sucede num programa televisivo de domingo com o João Baião — é cavar ainda mais a sepultura da moribunda credibilidade jornalística.

    E isto com a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) a fingir que nada vê. A ERC, aliás, tem sido cúmplice silenciosa desta perversão: permite, sem pestanejar, que se pratique um “jornalismo a pedido” — não de cidadãos, mas de quem paga. A verificação de factos tornou-se, assim, um serviço de consultoria disfarçado de jornalismo.

    Qual a razão para o Polígrafo se dedicar ao futebol agora com afinco? Porque uma empresa de apostas de Malta, a Betclic, lhe começou a pagar para escrever especificamente sobre futebol – e não sobre outros temas quaisquer.

    O caso mais revelador desta promiscuidade é a secção Vital — o portal do cancro, financiada pela Fundação Champalimaud —, que tanto surge em site autónomo, com textos não assinados, como no próprio Polígrafo, assinados por jornalistas. Só isso já choca, porque, obviamente, o Polígrafo analisa questões relacionadas com o cancro porque há uma entidade que trabalha nessa área que lhe paga. Se um dia houver uma congregação que lhe mande fazer fact-checking sobre enchidos, aparecerão textos, tal como sucede no futebol e nas finanças.

    Enfim, sempre se poderá defender que o tema das doenças oncológicas — onde subsistem muitos mitos e desinformação — é bastante relevante e que, enfim, até justifica que a imprensa possa contribuir para melhorar a informação.

    Porém, o Polígrafo, mais uma vez — e com a chancela da Fundação Champalimaud e a pena de jornalistas inexperientes —, aventura-se por terrenos científicos com a ligeireza de quem nunca abriu um artigo numa revista científica, pretendendo combater a desinformação em saúde com um amontoado de simplificações, erros conceptuais e juízos dogmáticos que ofendem a inteligência de quem conhece minimamente o método científico.

    Escrever sobre cancros: o espaço alargou-se no Polígrafo por uma só razão: a Fundação Champallimaud paga.

    Tomemos o exemplo recente de um artigo sobre a vitamina D, que o Polígrafo classificou como “FALSO”. Segundo a peça, um “alegado médico e escritor de livros de auto-ajuda” teria dito, numa entrevista, que a vitamina D funcionava como uma “vacina para o cancro”. O Polígrafo decidiu pegar na frase — isolada, sem citar o nome do autor nem o contexto — e analisá-la literalmente. Ora, esse é o primeiro erro científico: confundir linguagem metafórica com proposição factual. Quando alguém diz que a vitamina D é “como uma vacina”, a comparação não é imunológica, é simbólica — remete para o potencial preventivo ou terapêutico, não para um mecanismo biológico idêntico ao das vacinas contra bactérias ou vírus.

    O segundo erro é mais grave: o Polígrafo ignora a complexidade epistemológica da ciência biomédica e submete o raciocínio ao mesmo esquema binário com que decide se um político mentiu sobre o preço do gasóleo. Em ciência, a dicotomia “verdadeiro/falso” é um disparate. A investigação opera sobre probabilidades, evidências parciais, correlações, hipóteses e margens de erro. Nenhum investigador sério, nem na Fundação Champalimaud, nem em Harvard, classificaria, por regra, um enunciado científico com um carimbo de “FALSO” — porque o conhecimento científico é, por definição, provisório e refutável.

    Curiosamente, no caso em apreço, o próprio Polígrafo, ao tentar justificar o seu veredicto, cita estudos que desmontam a sua própria sentença. Refere o ensaio clínico VITAL, publicado no New England Journal of Medicine em 2019, que concluiu que a suplementação de vitamina D não reduziu significativamente a incidência de cancro, mas revelou uma tendência favorável para menor mortalidade em quem já estava diagnosticado. Em português corrente: a vitamina D não previne o aparecimento da doença, mas pode ajudar quem já a tem. Acrescenta ainda uma meta-análise que confirmou o mesmo padrão: ausência de efeito preventivo, mas sinal positivo na sobrevivência.

    Analise-se a qualidade da análise do Polígrafo em fact checking de ciência feita por uma jornalista ‘junior’ formada em Comunicação Social.

    Ou seja, a própria evidência que o Polígrafo cita demonstra que o enunciado não é “falso” — é, na melhor das hipóteses, não comprovado em termos preventivos e parcialmente corroborado em termos de prognóstico. O jornalismo científico, se o fosse, deveria dizer isto. Mas o Polígrafo prefere a sentença categórica. É mais vistosa. E, sobretudo, mais conveniente para um patrocinador que, ironicamente, é uma fundação ligada à investigação oncológica e que dificilmente apreciaria um artigo a sugerir que a vitamina D possa ter efeitos benéficos que a sua própria instituição ainda não estudou.

    Esta ironia é amarga: um projecto financiado pela Fundação Champalimaud escreve artigos de fact-checking que impõem certezas onde a ciência admite dúvidas. Por isso, é o contrário da investigação científica: é a dogmatização do provável.

    Em ciência, não se trabalha com selos de “verdadeiro” ou “falso”. Trabalha-se com níveis de evidência: plausível, não comprovado, consistente, em revisão, refutado. Quando um estudo sugere associação, outro contesta e um terceiro encontra efeito apenas num subgrupo, o papel do comunicador científico é explicar essa incerteza, não abafar a discussão. A missão do jornalista na área da ciência não é decretar sentenças, é iluminar zonas de dúvida.

    O Polígrafo, porém, transforma o conhecimento em moral, a nuance em pecado e o método científico em catecismo. Usa a retórica da ciência para impor uma autoridade dogmática — e fá-lo em nome da luta contra a “desinformação”. Eis um paradoxo digno de figurar num manual de epistemologia: o verificador que desinforma ao simplificar.

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    Secções do Polígrafo crescem em função do patrocínio. Os temas editoriais em função de critérios financeiros: a antítese do jornalismo.

    A culpa, contudo, não é apenas do Polígrafo: é de um ecossistema mediático e regulatório que permite esta farsa. A ERC, que devia garantir a independência editorial, assiste calada enquanto órgãos de comunicação social se financiam por rubricas temáticas pagas por entidades com interesse directo na narrativa. Até porque secções patrocinadas estão a invadir as redacções e a infeccionar o jornalismo. Já não surpreende se houver laboratórios farmacêuticos a pagar aos jornais para decidir o que é “falso” ou “verdadeiro” em farmacologia. A independência morre, o jornalismo prostitui-se e a verdade torna-se um produto com recibo verde.

    Este caso da vitamina D é apenas um exemplo. Amanhã será outro. O Polígrafo, e outros, já abriram a porta. No fundo, aquilo que este episódio revela é um fenómeno mais vasto: a transformação da verificação de factos num mercado de opiniões sancionadas. A verdade já não é investigada; é subcontratada. O Polígrafo é o sintoma perfeito de uma era em que o jornalismo prefere agradar a quem paga — e está intimamente ligado aos temas tratados — do que enfrentar a complexidade do real. Até porque nunca se assumem quais os valores envolvidos.

    O verdadeiro jornalista, como o verdadeiro cientista, sabe que a dúvida é a forma mais elevada de honestidade. O Polígrafo, infelizmente, parece ter optado pela certeza remunerada.

  • Vá lá, Dino d’Santiago, tu és capaz: processa lá um jornalista por fazer jornalismo

    Vá lá, Dino d’Santiago, tu és capaz: processa lá um jornalista por fazer jornalismo


    O primeiro dever de um jornalista é o da verdade, e o segundo é o da coragem. Entre ambos não pode existir hesitação. O jornalismo não serve para confortar consciências nem para proteger reputações, mas para escrutinar o poder e a influência — sejam de ordem política, económica, social ou cultural.

    Dito isto, toda a actividade nobre deve ser reconhecida, mas nenhuma, por mais virtuosa que se proclame, pode ser transformada em reduto imune ao olhar público. A missão do jornalista é, de facto, desconfortável: quando cumpre o seu dever, inevitavelmente fere susceptibilidades. Porém, se o medo das consequências orientar a sua investigação, então já não se pratica jornalismo — pratica-se reverência.

    Não coloco em causa o mérito de causas sociais cívicas – fui dirigente nacional da Quercus nos anos 90 – nem o valor de quem as promove; o que coloco em causa é a ideia de que a nobreza de um propósito justifica o silêncio sobre a origem e a aplicação dos dinheiros públicos. O Estado não deve ter beneficiários especiais. Quando a visibilidade mediática se torna porta de acesso privilegiado a fundos públicos, o dever de escrutínio torna-se ainda mais imperativo. As boas intenções não substituem a prestação de contas.

    O PÁGINA UM publicou, em dois artigos ao longo desta semana (aqui e aqui), uma investigação documentada sobre os financiamentos públicos recebidos pelo músico Dino d’Santiago — quer através da sua empresa unipessoal, a Batuku Roots, quer através da associação que fundou e preside, a Mundu Nôbu. É uma história que não se resume a música ou a filantropia, mas que envolve quase 1,6 milhões de euros de dinheiros públicos.

    A associação, criada há menos de dois anos, garantiu já perto de 800 mil euros em apoios e contratos, incluindo concertos a preço hiperinflacionado. E, apesar de se apresentar como entidade de intervenção social, não divulga os seus órgãos sociais, não revela o número de associados, não promove adesões e não apresenta relatórios e contas aprovados. Aparenta ser um clube de Dino d’Santiago e Liliana Valpaços sob a capa de associação para se livrar do estatuto de empresa, menos escrutinável.

    Sublinhe-se: em democracia, ninguém, por muito admirado que seja, está acima do escrutínio. Não é o talento musical, a cor da pele, a fé política ou o empenho comunitário que conferem imunidade à fiscalização pública. Quando um cidadão, como Dino d’Santiago, gere dinheiros do Estado, a opacidade é um insulto a todos os contribuintes. É precisamente em nome da igualdade e da justiça que o jornalismo não pode distinguir entre “bons” e “maus” destinatários de fundos.

    Reconheço — e é preciso dizê-lo sem hipocrisia — que investigações como esta podem gerar reacções indesejáveis, e pessoalmente não aprecio absolutamente nada (e até abomino) algumas reacções que li nas redes sociais sobre os artigos do PÁGINA UM. Há quem procure distorcer a crítica legítima em ataque pessoal, ou até em insinuação racial.

    Mas o jornalista que se retrai, por receio das interpretações do seu trabalho, trai o próprio sentido da profissão. Um jornalista não é juiz de intenções nem profeta de reacções; é apenas alguém que procura e expõe a verdade factual. Se dessa verdade emergem desconfortos, e reacções inflamadas, que se trate então de os resolver com transparência — não com vitimizações ou ameaças ao mensageiro.

    Aquilo que é verdadeiramente se mostra intolerável é transformar o mérito artístico ou o activismo social em arma contra a liberdade de imprensa. Quando um protagonista público, como fez Dino d’Santiago, responde a perguntas legítimas de um jornal com ameaças de processos judiciais e acusações de difamação, demonstra precisamente o contrário do que proclama: falta de abertura e ausência de confiança na força dos seus próprios argumentos. A transparência não teme perguntas; teme-as quem tem algo a esconder.

    Não ignoro que existam associações de base voluntária, frágeis na sua gestão e sustentadas por orçamentos diminutos. Essas merecem compreensão e até auxílio técnico. Mas não é esse o caso da Mundu Nôbu: em menos de dois anos, obteve somas avultadas de várias entidades públicas e estabeleceu mais de uma dezena de parcerias privadas. Uma estrutura com tal envergadura deve cumprir escrupulosamente as obrigações legais e morais de prestação de contas – até para dar o exemplo aos jovens que auxilia. Se o não faz, a legítima suspeita instala-se.

    Dino d’Santiago, cidadão português nascido em democracia, com plenos direitos e também (presumo) deveres, deve compreender que viver de apoios públicos implica responsabilidade pública. Nenhuma biografia, por mais inspiradora, suspende as regras da República. As causas sociais não são licença para o sigilo, e a popularidade não é escudo contra o dever de transparência. É esse o princípio elementar de uma sociedade decente — e é esse o princípio que o PÁGINA UM defenderá até ao fim.

    Deixo, pois, um repto claro: se Dino d’Santiago se julga injustiçado e difamado, que concretize a ameaça e me processe. Terá então oportunidade de nos explicar, em tribunal, como foram geridos os fundos públicos que recebeu. Do meu lado, não espere simpatias. Aliás, porque também sou cidadão, e não aprecio ameaças desta natureza (que andam a aumentar) pedirei à Inspecção-Geral das Finanças e ao Tribunal de Contas uma averiguação rigorosa sobre o destino das verbas públicas entradas na associação de Dino d’Santiago.

    A transparência, devia ele saber, não é ofensa; é um dever. E o jornalismo não é instrumento de perseguição; é um serviço público. Quem verdadeiramente acredita na sua integridade não teme a luz da verdade. Que se acendam, pois, todos os holofotes: não apenas para a música de Dino d’Santiago, mas para a sua postura.

  • Salvar a revista Visão? Não, obrigado! – e muito menos obrigado

    Salvar a revista Visão? Não, obrigado! – e muito menos obrigado


    Há um limite para tudo — até para a mistificação. O apelo na rede social X de Pedro Coelho — um reconhecido jornalista da SIC e com especiais responsabilidades na formação de futuros jornalistas (é professor da Universidade Nova de Lisboa – a que o Estado e os credores públicos “criem condições” para salvar a revista Visão, é um desses momentos em que o absurdo ultrapassa a fronteira do aceitável.

    Lamenta ele que “não alertámos a tempo para a crise da Visão e da TIN [Trust in News]” – abusando da primeira pessoa do plural –, mas anuncia que para “salvar” um título jornalístico há por aí “um grupo de jornalistas corajosos” que “precisam de nós” — mas o que realmente propõe é que se varra para debaixo do tapete uma gestão ruinosa que custou, no mínimo, 15 milhões de euros ao erário público. Em suma, propõe um perdão moral e financeiro a quem conduziu a TIN ao colapso, e uma indemnização indireta à irresponsabilidade. É o mais torpe apelo que um jornalista pode fazer.

    Quando um profissional da comunicação, pertencente a um grupo mediático (Impresa) que se libertou em 2018, através de esquemas com o Novo Banco, de um ‘cancro financeiro’ – transmitindo-o a Luís Delgado que investiu 10 mil euros para sacar cerca de 350 mil euros em salários para si logo nos dois primeiros anos –, pede que o Estado e os contribuintes reparem os desmandos privados, abdica do seu papel mais elementar: o de fiscal do poder e guardião da ética.

    A Visão (e as outras revistas) não caem por um acaso, um azar, ou pela conjectura, ou pela desinformação. Caíram porque a TIN foi gerida com leviandade, sem escrutínio interno, e com uma conivência quase eclesiástica entre jornalistas que se julgavam imunes às leis da economia e da decência. Enquanto os jornalistas da Visão recebiam salários, somavam-se dívidas ao Estado e à Segurança Social, acumulavam-se calotes a fornecedores e mascarava-se tudo mentindo e omitindo à ERC e fazendo contabilidade criativa.

    E a qualidade jornalística decaía, reflectindo-se na perda de leitores: em 2017, a revista Visão ainda chegou a vender quase 61 mil exemplares por semana e tinha seis mil assinaturas digitais. No último trimestre de 2023 — última vez que houve auditoria da APCT —, a Visão já só vendia 20.047 exemplares em banca por semana e tinha apenas 3.169 assinaturas digitais. Hoje, não havendo sequer números oficiais, apontam-se para menos de 10 mil exemplares.

    Post de Pedro Coelho a apelar para que os “credores públicos” criem condições para salvar uma empresa que ainda nem sequer apresentou contas no ano passado e terá uma dívida ao Estado de mais de 15 milhões de euros e um passivo superior a 30 milhões de euros, tudo sob a gestão de uma empresa criada com um capital social de 10 mil euros.

    Perante isto, dizer agora que há um grupo de “jornalistas corajosos” prontos a “assumirem o barco” é de uma ironia cruel. Onde estavam esses heróis quando o casco começou a meter água, ainda no tempo da Impresa? Onde estavam quando a TIN acumulava dívidas e escondia balanços? O PÁGINA UM alertou, documentou e publicou uma extensa investigação, a partir de Julho de 2023 (p. ex., aqui, aqui e aqui), aquilo que todos os outros não queriam sequer ver. E fomos ignorados ou mesmo insultados – aliás, a postura corporativista da imprensa é um dos piores males do nosso jornalismo.

    Chamaram até “fantasiosas” às notícias do PÁGINA UM que, linha por linha, antecipavam a derrocada inevitável. A própria então directora e publisher da Visão durante anos, Mafalda Anjos, escreveu em carta formal ao PÃGINA UM que não se pronunciava sobre “artigos fantasiosos que versam as contas da TIN”. Mas a sua maior preocupação nesse e-mail estava no facto de usaremos fotografias dela que constavam das suas redes sociais. Hoje, a mesma Mafalda Anjos, desmentida pelos factos, tenta reescrever a história nas redes sociais, como se o descalabro da TIN fosse um relâmpago vindo do nada.

    Não é, pois, de coragem que se trata quando se quer “salvar” a Visão – e o mesmo sucede com o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias –, mas de oportunismo. Há uma diferença abissal entre quem luta para criar um projecto sustentável e quem pede indulgência pública para manter um título. Se os jornalistas da Visão acreditam que existe mercado para o seu trabalho, façam o que qualquer profissional decente faz: criem uma nova revista, registada na ERC, com outro título, outro modelo e contas limpas. Tão simples como isto.

    O PÁGINA UM publicou a primeira notícia sobre a situação financeira da Trust in News em 24 de Julho de 2023, há mais de 26 meses. Mafalda Anjos, sorridente ao lado de António Costa, apelidaria então de “fantasiosas” as notícias sobre esta matéria.

    Aliás, a TIN tinha um capital social de apenas 10 mil euros, não é muito: é o mesmo valor do PÁGINA UM. Não precisam de milagres nem de perdões fiscais — precisam de ética, investimento privado e responsabilidade. Uma Empresa na Hora basta – e podem começar a nova revista na próxima semana com essa estrutura e o conhecimento desse “grupo de jornalistas corajosos”. O resto é vitimização.

    Bem sei que esta súbita onda de solidariedade não é inocente. É uma tentativa de limpeza simbólica, de apagar os rastos de uma gestão calamitosa que muitos preferiram ignorar enquanto o dinheiro público e privado era esbanjado. Luís Delgado não cavou o buraco sozinho: contou com o silêncio cúmplice de quem, dentro das redacções, fingia que a crise não existia. Contou com a inércia da ERC, que tudo permitiu, e com a cegueira de uma classe jornalística que só reage quando sente o frio do abismo.

    A insolvência da TIN – e por arrasto o fim de muitos títulos – é um acto de justiça económica e moral. Não significa o fim do jornalismo, nem a morte da revista Visão enquanto conceito — apenas o encerramento de um ciclo de impunidade. O jornalismo que merece ser salvo é aquele que se sustenta na verdade, não o que se alimenta de subsídios e de nostalgia. Se o Estado se põe agora a “salvar” empresas privadas falidas só porque são do sector da imprensa, estará, além de minar a independência necessária em democracia, a consagrar o princípio de que a irresponsabilidade é um direito adquirido. E isso seria o golpe final na credibilidade do sector.

    Mafalda Anjos escreveu em 26 de Julho de 2023 ao PÁGINA UM, de forma voluntária, dizendo que não se pronunciava sobre “artigos fantasiosos que versam contas da TIN”. Apontava depois o erro de não se publisher desde finais de 2022 e de não ter responsabilidades de gestão financeira na Visão. Convém referir que a Lei da Imprensa concede o direito de um director ser informado da situação financeira em detalhe do órgão de comunicação social que dirige.

    Não querendo ser moralista, tenho mesmo de defender que está na hora de moralizar o campo mediático. Não desejo o desemprego de ninguém, mas também não aceito que se confunda solidariedade com complacência. A regeneração do jornalismo português passa por enterrar os ‘cadáveres corporativos’ que há demasiado tempo poluem a profissão. É preciso criar novos projectos, independentes e transparentes, que não se escondam atrás de marcas antigas. O cemitério da imprensa está cheio de títulos ilustres — e nenhum ressuscitou pela vontade piedosa do Estado. A Visão é apenas um nome. O que deve importar é a lucidez, a honestidade e a coragem de enfrentar a realidade.

    A morte da Visão — enquanto símbolo de um modelo falido — é um acto de higiene estrutural. Que sirva de exemplo. O bom jornalismo não se faz de esmolas do Estado, nem de piedade dos contribuintes. Faz-se de verdade e de carácter. Faz-se até os leitores decidirem – e tem sido essa a máxima do PÁGINA UM: somos aquilo que os leitores querem que sejamos. E se hoje ainda fazemos um jornalismo de nicho, porque ainda escasseia um número suficiente de apoiantes, a solução mais cordata não parece ser endividarmo-nos até ao tutano, aguardando pela salvação do Estado.

    P.S. Num comentário na rede social X, Mafalda Anjos continua a viver na sua bolha e acusa-me de “teorias da conspiração” e que escrevo aquilo que escrevo porque “tenho de fazer pela vida”. Mafalda Anjos pensa que ainda vive nos seus gloriosos tempos da pandemia, onde tiradas e rótulo serviam como argumento. Ao contrário de Mafalda Anjos, eu não fui director da Visão e não fugi do ‘barco’ quando estava a afundar e ainda tentei sacar 54 mil euros de indemnização (que acabou por não ser pago, porque o karma é tramado e Luís Delgado deu-lhe também um calote).

    Mafalda Anjos; quando uma jornalista tenta reescrever a História (neste caso, o contexto do termo fantasiosos; e da situação grave da TIN em 2023 que “já estavam documentadas”, usando ainda argumentos primários dos tempos da pandemia (teorias das conspiração e ‘tens de fazer pela vida’, que ela bem sou usar), só tem futuro no Jornalismo por empenhos e conhecimentos pessoais. Mas a sua manutenção na classe agrava a seriedade e credibilidade do jornalismo.

    E mais: ao contrário da Mafalda Anjos, eu não tenho uma agenda recheada de contactos públicos e privados para, depois do descalabro na Visão, encontrar uma boia de salvação profissional na CNN Portugal (cuja informação é maioritariamente opinião de bitates) e na sempre generosa RTP/RDP. No dia em que a qualidade e a seriedade fossem critérios no jornalismo lusitano, Mafalda Anjos teria de encontrar refúgio apenas numa empresa de marketing e comunicação empresarial a vender marcas e narrativas – nisso, admito, ela tem um imenso jeito e uma esbelta cara de pau.

  • O Nobel da Paz, a família política de María Corina e o anti-trumpismo primário

    O Nobel da Paz, a família política de María Corina e o anti-trumpismo primário


    Há fenómenos mediáticos que revelam menos sobre o assunto em si e mais sobre quem os comenta. A atribuição do Prémio Nobel da Paz a María Corina Machado foi, em Portugal, um desses casos: em vez de se analisar o que significa distinguir uma opositora que, independentemente do contexto político, desafia um regime autoritário e clientelar, preferiu-se brincar aos espelhos ideológicos. Como se viu no Expresso, com David Dinis a traçar um enviesamento narrativo de contornos propagandísticos, o reflexo de Trump na Sala Oval parece ter sido mais importante do que o espelho partido da Venezuela.

    As manchetes e colunas que por cá se escreveram, entre a satisfação e a ironia, pareciam celebrar menos o reconhecimento de uma mulher corajosa e mais a “derrota simbólica” do presidente norte-americano — esse homem de ego oceânico, que até já anunciou sonhar com o Nobel da Paz tanto como uma miss qualquer ambiciona a faixa de Miss Universo.

    María Corina Machado

    Ainda mais porque, ou me engano muito, ele acabará por recebê-lo num dos próximos anos, excepto se houver um qualquer percalço ou fatalidade. Não por mérito moral, mas por inevitabilidade histórica: Trump é o sintoma de uma América que ainda se crê o centro do mundo – e é-o do ponto de vista militar e estratégico –, e é provável que, um dia, para saciar essa mesma crença, o Comité de Oslo ceda e lhe estenda a medalha — talvez não pela guerra, mas por algum acordo improvável, seja no Médio Oriente, seja num tratado de desanuviamento algures entre Jerusalém e o Cáucaso, ainda que ele confunda a Arménia com a Albânia, como sucedeu recentemente.

    O mundo não acabará por isso. Já o Nobel sobreviveu a Kissinger — arquitecto da duplicidade vietnamita — e a Obama — laureado antes mesmo de decidir quais as guerras que iria iniciar. Por que não Trump? Se a paz já serviu para premiar generais e estrategas, não há escândalo que um vendedor de ilusões o conquiste por conveniência e vaidade. Antes isso do que guerras…

    Mas o que, nesse momento, mais me espanta não é o destino provável de Trump; é a leitura enviesada que a imprensa portuguesa faz do presente. O prémio a María Corina Machado foi descrito como a personificação da “esperança de um futuro diferente, onde os direitos fundamentais dos cidadãos são protegidos e as suas vozes são ouvidas”, em contraponto ao que, por exemplo, David Dinis tem a ousadia de comparar: as supostas autocracias de Maduro e Trump — o que, convenhamos, se mostra ridículo mesmo para um opositor arreigado do trumpismo.

    Donald Trump

    No meio disto é curioso notar o malabarismo (ou cegueira) dos comentadores sobre a postura de María Corina Machado, até do ponto de vista ideológico. Com efeito, ao invés de ser uma adversária de Trump, a nova laureada da Paz é uma indefectível apoiante do presidente norte-americano. Chamou-o de “visionário” e “corajoso” pela sua política face a Maduro — e não haja dúvidas de que vê numa Administração republicana um aliado mais natural do que teria numa Administração democrata.

    A ignorância e o enviesamento na leitura da premiação acabam por ser caricatos, porque idolatraram quem simboliza o pragmatismo trumpista: uma mulher que defende privatizações “massivas” — incluindo a da PDVSA, a petrolífera estatal venezuelana — e que chegou a admitir a presença de forças militares estrangeiras para derrubar o regime. Na verdade, na Venezuela, María Corina é vista como uma liberal radical — e em certa medida, mostra essa postura. Na esquerda latino-americana é tida como de “extrema-direita”; no Brasil, uma “amiga da extrema-direita bolsonarista”.

    Em concreto — e aí não há como negar —, a nova Prémio Nobel da Paz tem uma família ideológica: é uma das subscritoras da Carta de Madrid, manifesto lançado em 2020 pela fundação Disenso, ligada ao partido espanhol VOX, e que congregou uma constelação de figuras da direita liberal e conservadora mundial — e que muita imprensa cataloga de extrema-direita: de Giorgia Meloni a Eduardo Bolsonaro, de Santiago Abascal a José Antonio Kast, de Javier Milei e a dezenas de dirigentes de direita da oposição venezuelana. O documento, redigido em tom de cruzada, denuncia o “avanço do comunismo” e o “sequestro da região por regimes totalitários” patrocinados por Cuba, pelo Foro de São Paulo e pelo Grupo de Puebla, defendendo a propriedade privada, o Estado de direito e a liberdade de expressão como baluartes civilizacionais.

    person driving car during daytime

    Contextualmente, a adesão de Machado a essa plataforma — que não foi isolada, pois conta com mais de trinta opositores venezuelanos — insere-se num movimento transnacional de resistência conservadora ao populismo de esquerda latino-americano, mas também serve, ironicamente, de espelho ao próprio discurso do Nobel, que, sob o pretexto da defesa da democracia, reedita uma batalha ideológica simétrica, em que cada campo acusa o outro de autoritarismo enquanto instrumentaliza a linguagem da liberdade. Não surpreende, assim, que, em Portugal, o Chega tenha saudado María Corina Machado, sublinhando tratar-se de “um triunfo da liberdade contra o socialismo”.

    De qualquer modo, a cartografia de rótulos — incluindo o anti-trumpismo primário, que consegue fazer esquecer tudo o resto — revela um problema maior: o debate político global transformou-se numa disputa de caricaturas. Já não se discutem ideias, apenas se escolhem lados. A imprensa — e a portuguesa em particular — tornou-se um eco de trincheira: o que interessa é saber se o vencedor do Nobel “ajuda” ou “derrota” Trump, não se a Venezuela poderá um dia voltar a respirar democracia.

    Pessoalmente, não tenho idolatrias nem certezas morais sobre María Corina Machado. Não a vejo como uma Madre Teresa de Calcutá — até porque a política, ao contrário da santidade, exige manobras e compromissos —, mas reconheço nela uma mulher que, com todos os defeitos e excessos, enfrenta um regime corrupto e violento que destruiu o seu país. A sua ideologia é discutível; a sua coragem actual, inegável — e, por agora, pragmaticamente, isso é o mais relevante.

    María Corina Machado foi uma das signatárias da Carta de Madrid, promovida pelo Vox (Espanha).

    Em todo o caso, mostra-se perturbante ver como se cola ou descola rótulos em função das circunstâncias ou conveniências, endeusando ou diabolizando não em função de acções, mas de utilidades momentâneas. Num mundo polarizado, a lucidez é cada vez mais rara. E hoje há um fascínio mórbido por reduzir pessoas a emblemas e causas a slogans. O verdadeiro debate político — o que deveria discutir a liberdade, a justiça e o equilíbrio entre soberania e direitos — foi substituído por um jogo de espelhos morais: o inimigo do meu inimigo é meu herói, até segunda ordem.

    Para mim, María Corina Machado é uma mulher de direita sem disfarces – e isso pode não me agradar –, mas também é o rosto da resistência a um regime que persegue, censura e mata. E se há um mérito no Nobel que recebeu, é o de lembrar que a coragem política ainda existe — mesmo quando vem embrulhada em ideias que não partilhamos. Qualquer outra extrapolação, nesta fase, é mero exibicionismo ideológico. Por isso, o Prémio Nobel da Paz parece-me mais relevante pelo que pode representar para o futuro da Venezuela, mas nada tem de punição contra Trump – pelo contrário.

  • ‘Deixai vir a mim as criancinhas’, diz Filipe Froes, o zelota das farmacêuticas

    ‘Deixai vir a mim as criancinhas’, diz Filipe Froes, o zelota das farmacêuticas


    Há uma espécie de ironia quase bíblica na crescente preocupação de certos doutores com a saúde das crianças, mas agora sempre associado a fármacos. Ainda ontem, confinavam-nas por decreto, fechavam-lhes escolas, isolavam-nas dos avós e impunham-lhes máscaras que jamais tiveram base científica sólida.

    Hoje, os mesmos cruzados da “proteção total” — que transformaram o medo em catecismo e a obediência em virtude — apresentam-se como novos apóstolos da vacinação infantil universal contra a gripe, anunciando com o medo da morte. Isto num país com uma taxa de mortalidade infantil que nem chega aos três óbitos por mil nascimentos. Há 50 anos era quase 10 vezes superior (cerca de 20 em mil); há século, quase 100 vezes superior (cerca de 250 em mil). Em vez de se celebrar o progresso, os arautos da salvação compulsiva impõem-se reciclando o pânico.

    Durante a pandemia, bastou-lhes uma curva estatística ou um modelo informático às três pancadas para decretar a suspensão da infância. O contacto humano passou a ser visto como contágio, o abraço como ameaça, a escola como foco pestilento. O resultado foi uma geração sujeita a isolamento, atraso pedagógico, distúrbios emocionais e uma perigosa crença de que a vida se gere por decreto e com a bênção das farmacêuticas.

    white ceramic mug on white table beside black eyeglasses

    Até agora, nenhum desses zeladores da saúde pública pediu desculpa pelo exagero. Ao invés, regressam ao púlpito — se é que alguma vez saíram — com redobrado fervor, revestidos de uma nova missão redentora: vacinar em massa as crianças: no ano passado contra o vírus sincicial respiratório, que não mata crianças em Portugal, e agora contra a gripe.

    O expoente destes zeladores é o pneumologista Filipe Froes, teólatra-mor da farmacologia moderna, que se apresenta com todos os epítetos menos com o de ‘avençado’ da indústria farmacêutica. Durante a pandemia da covid-19 distinguiu-se pela promoção incondicional à doutrina do medo, mesmo entre as crianças, e agora surge, na imprensa, com um inenarrável artigo de opinião no vetusto Diário de Notícias, a dramatizar a mortalidade infantil por gripe, citando números absolutos sem contexto e sem explicar que a letalidade na idade pediátrica é, felizmente, residual.

    É verdade que o próprio Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos refere que, na época gripal de 2024-2025, morreram 280 pessoas em idade pediátrica (até aos 17 anos) com uma idade mediana de 7 anos, num universo de 43 milhões de infecções e 560 mil hospitalizações — e é curioso que, quando lhe interessa, Froes não se importa de citar uma instituição tutelada por Robert Kennedy Jr.

    Filipe Froes, um dos médicos portugueses com mais ligações à indústria farmacêutica, mantém-se como consultor da DGS e com intenso palco mediático.

    Mas convinha ser sério — virtude pouco atreita a Filipe Froes —, assumindo que a vida tem a si associada um risco que jamais será de zero. Essa mortalidade absoluta de 280 crianças e adolescentes está integrada numa população global de 72,8 milhões de pessoas, o que significa que estamos a falar de uma taxa de mortalidade pediátrica de 3,8 por milhão, e em quase 90% dos casos sem vacinação completa. A estatística impressiona no absoluto, mas perde dramatismo quando colocada em proporção: 0,00038% das crianças e jovens norte-americanos morreram de gripe.

    Enquadremos isto melhor para denunciar a falácia de Froes. Um estudo detalhado sobre as causas de mortes em 2016 em idade pediátrica nos Estados Unidos mostra que a maioria dos óbitos não foi por doenças, e muito menos infecciosas. Vejamos os números: 4.074 mortes por acidentes de viação (20% do total); 3.143 mortes por ferimentos de armas de fogo (15% do total), sendo que 1.865 foram homicídios e 1.102 suicídios; 1.430 mortes por sufocação (7% do total); 995 mortes por afogamento (5% do total) e 982 mortes por overdose ou intoxicação por drogas (5% do total). As neoplasias malignas causaram 1.853 mortes (9% do total), enquanto as doenças cardíacas e respiratórias crónicas responderam, em conjunto, por 873 mortes (4,3% do total), sendo que 274 óbitos foram causados por doença respiratória crónica, onde se insere a gripe.

    Assim, perante 20.360 mortes pediátricas totais, é, no mínimo, demagógico — ou mesmo populista — elevar as doenças respiratórias, e em particular a gripe, à condição de prioridade de saúde pública em idade pediátrica. Se há verdadeiros flagelos que merecem essa designação, eles residem na mortalidade evitável: acidentes de viação, armas de fogo, suicídios, afogamentos e drogas, e não na gripe. Basta observar os dados dos Estados Unidos: a letalidade associada à gripe — 280 óbitos numa população de 72,8 milhões de menores — traduz-se numa probabilidade de morte 14 vezes inferior à de um acidente rodoviário e mais de 100 vezes menor do que por arma de fogo.

    shallow focus photography of two boys doing wacky faces

    Em Portugal, não temos o flagelo das armas de fogo, mas a gripe também está muito longe de ser o principal risco de vida em idade pediatria para causar este pânico semeado por Froes e seus correligionários. No seu artigo no Diário de Notícias, publicado hoje com o sugestivo título “Mas as crianças,Senhor, porque lhes dais tanta dor?!…“, refere um um estudo (sem referências) que, no período 2008-2018 e abrangendo crianças até aos cinco anos, estima 95 mortes em excesso associadas à gripe em dez épocas sazonais. Ou seja, cerca de nove mortes por época gripal num país com mais de 400 mil crianças nesse grupo etário.

    Mas convém ainda esclarecer mais uma falácia ‘froeseana’: essas “95 mortes em excesso” não representam 95 mortes por gripe, nem há qualquer prova de relação de causa-efeito. Trata-se de um cálculo estatístico que compara a mortalidade observada com a esperada, assumindo que parte da diferença possa estar associada à circulação do vírus. Ora, essa associação será ecológica e indirecta, não causal.

    Tudo isto não interessa para estes pregadores, que ainda por cima omitem o verdadeiro motivo pelo qual os números da gripe dispararam nos últimos anos: não foi a ausência de vacinação, mas o vazio imunológico deixado pelas políticas de confinamento.

    boys green crew-neck shirt

    Durante dois anos, as crianças foram privadas de contacto com vírus comuns — gripe, rinovírus, vírus sincicial respiratório —, criando uma geração imunologicamente “ingénua”. A supressão da circulação viral, longe de proteger, apenas adiou o inevitável: quando os vírus regressaram, encontraram organismos ‘sem treino’, e o resultado foi uma vaga mais intensa de infecções respiratórias, em especial nos mais novos.

    O próprio CDC reconhece esse fenómeno: o ressurgimento simultâneo das estirpes gripais A(H1N1)pdm09 e A(H3N2), após duas épocas quase estéreis, explica o número elevado de mortes pediátricas. Foi o preço da chamada ‘super-proteção pandémica0 promovida por Froes & Ca. — a ilusão de que a saúde se mantém isolando-se da vida.

    E aqui reside o cerne do problema contemporâneo: a crença supersticiosa de que os fármacos são superprotectores e inócuos, achando que a Medicina moderna pode transformar-se em Medicina Veterinária . A ciência — a verdadeira, não a patrocinada — diz exactamente o contrário. Nenhum estímulo farmacológico é neutro: cada intervenção no sistema imunitário tem um custo fisiológico, uma resposta inflamatória, uma reprogramação celular. Vacinar é uma ferramenta racional quando há risco concreto e benefício mensurável; mas fazê-lo em massa, como ritual anual e sem necessidade epidemiológica, é uma forma de medicalizar a infância e atrofiar o treino natural da imunidade.

    Um estudo recente publicado no Journal of Experimental Medicine, já este ano, mostra que a vacinação repetida contra a gripe pode atenuar a resposta imunitária subsequente, o chamado blunting effect. Outro, publicado no Frontiers in Immunology comprova que ainda em existem muitas incerteza sobre as verdadeiras interferências imunológicas em administrar as vacinas da gripe e da covid-19 em conjunto, algo que somente sucede por questões logísticas e não de saúde pública. Ou seja, a prudência está arredada da Medicina associada às farmacêuticas

    a young boy in a wheelchair holding a stuffed animal

    Nada disto significa que as vacinas sejam perigosas — pelo contrário, há vacinas seguras, mas que ganharam esse predicado pela precaução e pelo histórico. O problema é querer vestir-se o ‘hábito’ (chamar vacinas) e querer ser logo ‘monge’ (necessária, segura e eficaz).

    Infelizmente, as autoridades sanitárias parecem hoje reféns de uma nova teologia da prevenção farmacológica. O discurso médico foi sequestrado por uma cultura de submissão económica e simbólica à indústria, que vende tranquilidade em frascos e transforma cada época gripal numa oportunidade de mercado. Muitos dos seus porta-vozes, outrora profetas do confinamento, surgem agora como evangelistas da imunização total — com a mesma linguagem paternalista, as mesmas metáforas bélicas e o mesmo desprezo pela autonomia dos cidadãos.

    O problema não está em defender a vacinação — que é, em muitos contextos, uma conquista civilizacional, sobretudo em países com graves deficiências sanitárias, higiénicas e de cuidados de saúde primária e hospitalar —, mas em transformá-la numa panaceia dogmática.

    Filipe Froes: nunca revela as suas relações com a indústria farmacêutica: só este ano, até Setembro, conta oficialmente com 37.745 euros recebidos.

    O zelo excessivo com a saúde infantil pode degenerar em instrumentalização das crianças como pretexto para novos programas de despesa pública e contratos milionários de fornecimento de vacinas sazonais, que não correspondem a um risco real, sobretudo quando temos ainda mais de um milhão de pessoas sem médico de saúde.

    A pandemia da covid-19 mostrou como a retórica da urgência e da solidariedade pode servir de cortina para interesses económicos. O presente repete-se, agora com roupagem de ternura e discursos piedosos.

    Por isso, quando se lê um artigo como o de Filipe Froes — com invocações poéticas à dor das crianças — convém recordar que muitas dessas dores foram consequência directa das medidas que ele próprio incentivou e promoveu: confinamentos, máscaras obrigatórias, afastamento social. Foram os mesmos que defenderam o “fechar para proteger” que agora se apresentam como salvadores. A medicina deve proteger, não colonizar; a saúde pública deve informar, não moralizar.

    four boy playing ball on green grass

    As crianças precisam de liberdade, ar livre, imunidade construída em contacto com o mundo real. Não precisam de ser transformadas em escudos de campanhas políticas ou de marketing. O cuidado verdadeiro não se mede em doses administradas de fármacos, mas em equilíbrio, sensatez e humildade científica — virtudes raras entre os zelotas que confundem saúde com submissão.

    Em suma: vacinar pode ser prudente; vacinar massivamente, sem necessidade comprovada, é apenas a versão moderna do confinamento emocional que nos impuseram em nome da segurança. A diferença é que, desta vez, o confinamento é biológico, mascarado de compaixão. Que quem errou em 2020 tenha, pelo menos, a decência de não se reinventar em 2025 como profeta da imunização universal. Mas isso, no caso do doutor Filipe Froes, é pedir-lhe muito.

  • A Universidade de Braga e o taberneiro Monteiro

    A Universidade de Braga e o taberneiro Monteiro


    A universidade deveria ser um espaço de saber e decantação, onde o pensamento se eleva pela dúvida e o confronto de ideias se faz com argumentos, não com insultos. Mas a academia contemporânea, minada por egos frágeis e pelo culto da visibilidade digital, transformou-se num antro de maledicência — um mercado de vaidades onde se confunde opinião com autoridade e onde a inveja se disfarça de erudição. Já não se disputa a verdade; disputa-se a atenção. E o que deveria ser diálogo científico converte-se em guerrilha tribal, em que o ódio se exibe em nome da virtude.

    Nos últimos anos, as universidades multiplicaram equipas interdisciplinares na área da comunicação, reunindo sociólogos, filósofos, jornalistas e tecnólogos. Tal diversidade, em princípio, enriqueceria o pensamento. Mas implica, por isso mesmo, uma responsabilidade acrescida. Quem trabalha no campo da comunicação deve compreender que as palavras têm peso, que a reputação é um bem público e que o rigor não se desliga à porta do campus. Não se pode ser investigador meticuloso de dia e taberneiro digital à noite. A liberdade académica não é licença para difamar.

    Eis que surge o caso paradigmático do senhor João Lourenço Monteiro, licenciado e mestre em Biologia e doutorado em História e Filosofia das Ciências — um percurso respeitável, até se conhecer o uso que faz dele. Monteiro estudou a produção e circulação do conhecimento médico no Instituto de Medicina Tropical durante o Estado Novo, recorrendo, diz-se, a ferramentas de Humanidades Digitais. Integra o Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho, uma das principais unidades de investigação do país nesta área.

    E, talvez crente na sua própria infalibilidade, decidiu exercitar o insulto público, deixando no perfil da historiadora Irene Pimentel a seguinte proclamação:

    “O Página Um é uma plataforma de desinformação que surgiu há poucos anos para apoiar uma narrativa contra as medidas de contenção à COVID. Não é um jornal imparcial, portanto não leve a sério o que lá é escrito.”

    Comentário de João Monteiro que consta como investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho

    Não conheço — nem reconheço — mérito científico a João Monteiro, até porque isso nem é o mais relevante. Mas levo estas suas palavras a sério, não pelo seu conteúdo, que é miserável, mas pela sua origem: um investigador associado a uma universidade pública (Universidade de Braga) e a um centro dedicado precisamente ao estudo da comunicação (Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade) proclama publica e gratuitamente que um jornal independente é uma “plataforma de desinformação”.

    As suas afirmações não são um mero desabafo de rede social; são uma acção discursiva que fere o princípio da integridade académica, pois difundem falsidades em nome de uma autoridade institucional. Quando um académico abdica da dúvida e abraça o insulto, não apenas degrada a sua credibilidade: compromete a da instituição que o acolhe.

    Presumo — com generosidade académica — que o doutor Monteiro tenha aplicado um método, um quadro teórico, uma amostra e uma análise de conteúdo para concluir, com tão firme convicção, que o PÁGINA UM é “uma plataforma de desinformação”. Talvez, entre cafés e indignações digitais, tenha cruzado palavras-chave, medido enviesamentos ou estruturado um modelo conceptual digno da Nature Human Behaviour. Ou talvez não. Talvez — quem sabe — estas conclusões “científicas” do taberneiro Monteiro nada tenham a ver com ciência, mas antes com os ódios de estimação que o PÁGINA UM tem suscitado em certos círculos académicos.

    João Monteiro, á direita, investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho ‘decretou’ que o PÁGINA UM é uma “plataforma de desinformação“. Foto: DR

    Não será certamente o caso — Deus nos livre de tal coincidência — que esta súbita vocação inquisitorial derive do incómodo que o PÁGINA UMA tem causado a alguns nomes em destaque no próprio CECS, como a doutora Helena Sousa, actual presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, instituição que, curiosamente, continua a resistir com zelo quase bíblico às ordens judiciais que a obrigam a libertar documentos públicos requeridos por este jornal.

    Seria injusto suspeitar que a animosidade se alimenta do simples facto de o PÁGINA UM não ser um órgão domesticado — e, portanto, mais difícil de controlar pela cartilha institucional. Não, deve ser tudo fruto de uma sofisticada inferência empírica, construída com os instrumentos mais rigorosos da epistemologia minhota.

    Eis o drama da academia contemporânea: nela habitam muitos doutores do conhecimento e poucos senhores do carácter. A instrução multiplica-se, mas a verticalidade definha. O título de doutor já não é penhor de honra — é apenas ornamento de vaidade. E o que vemos, demasiadas vezes, é o triste espectáculo de investigadores que dominam teorias, citam autores e publicam papers, mas não distinguem verdade de intriga, nem probidade de conveniência. São letrados na superfície e miseráveis na substância: confundem inteligência com esperteza, e confundem autoridade com soberba.

    Que valor tem, afinal, o saber, quando o seu portador é incapaz de o exercer com decência? Que utilidade possui a ciência, quando se usa o prestígio universitário para lançar lama, e não luz? A mediocridade ética tem hoje estatuto de normalidade, e o insulto académico faz carreira nas redes sociais com a mesma leveza com que se troca um “like”. É o triunfo do investigador sem gravidade moral, do estudioso que conhece todas as teorias da comunicação, menos a da sua própria responsabilidade.

    E assim, entre publicações indexadas e financiamentos competitivos, floresce um novo tipo de intelectual: o erudito da calúnia, versado em bibliografia mas desprovido de vergonha. São eles os novos inquisidores do debate público, que medem a virtude pela conformidade ideológica e confundem a crítica com blasfémia. Talvez João Monteiro se veja nesse espelho — mas temo que não reconheça o reflexo. Afinal, a vaidade académica é uma lente deformante: quanto mais se olha, menos se vê.

  • A doutora Irene Pimentel e a tirania dos rótulos

    A doutora Irene Pimentel e a tirania dos rótulos


    Há muito que as sociedades se tornaram arenas onde o combate de ideias foi substituído pelo duelo de rótulos. Já não se busca refutar um argumento, mas extirpar o seu autor com o selo conveniente — “negacionista”, “populista”, “fascista”, “extremista”, “antidemocrático”. Em tempos de redes e reacções instantâneas, a razão perdeu o passo para o reflexo condicionado.

    A vitória, hoje, mede-se em “likes”, “retweets” e palmas digitais; o raciocínio cedeu o lugar à claque. É o triunfo da retórica preguiçosa sobre o debate informado, da vaidade performativa sobre a reflexão demorada. E este dogmatismo, que se disfarça de virtude moral, revela afinal uma patologia intelectual: o medo de pensar.

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    A erosão do diálogo não resulta de mera incivilidade: é o sintoma de um tempo em que a autoridade substituiu a razão. Vence não quem demonstra, mas quem ostenta — um título académico, um prémio intelectual, uma tribuna televisiva. Já não se trata de argumentar, mas de invocar estatuto. Ora, a autoridade sem razão é apenas arrogância legitimada; e o prestígio sem humildade converte-se em censura.

    Confesso que, vindo da esquerda — hoje órfão partidário, mas não de princípios —, aprendi mais pela leitura e pela experiência do que pelos catecismos de ocasião. De Marx a Orwell, de Chomsky a Popper, sempre me ficou a ideia de que a liberdade é o primeiro e o último baluarte da dignidade humana. E foi precisamente durante a pandemia — esse laboratório da servidão consentida — que percebi como é frágil a promessa constitucional de direitos invioláveis.

    Quando mais era necessário pensar, proibiu-se questionar; quando mais urgia duvidar, exigiu-se fé. Vi a Constituição convertida em papel decorativo e a liberdade de expressão reduzida à liberdade de concordar.

    Aprendi então que compreender o outro não é aderir às suas ideias, mas reconhecer-lhe o direito de as ter. E esse exercício de empatia é a antítese do cancelamento moral que hoje domina uma certa esquerda — a mesma que se julga detentora do monopólio da virtude, mas que pratica o linchamento simbólico com zelo inquisitorial.

    À medida que a direita populista cresce, em parte alimentada pelos erros da própria esquerda, esta responde com mais intolerância e menos autocrítica. O resultado é previsível: o eleitorado afasta-se, não por se ter tornado bárbaro, mas por se ter cansado da hipocrisia.

    A polémica recente envolvendo Irene Flunser Pimentel, historiadora premiada e respeitada, é um exemplo paradigmático. No auge da comoção pela morte de Charlie Kirk — um jovem conservador americano, católico e combativo no debate público —, Pimentel não resistiu ao impulso digital de o rotular como “simpatizante nazi”, “anti-democrático” e outros mimos. Não discutiu as suas ideias; decretou-lhe a infâmia. Fê-lo sem rigor, sem contexto, sem compaixão.

    Debate original e integral onde Charlie Kirk defende de os ‘Founding Fathers’ não defendiam a democracia pura e, nessa linha, a palavra Democracia não surge na Constituição dos Estados Unidos.

    E quando a jornalista Elisabete Tavares, no PÁGINA UM, ousou questionar-lhe a leviandade, a historiadora reagiu não com argumentos, mas com indignação. Acusou o nosso jornal de extrema-direita, reivindicou-se vítima e, claro, invocou a autoridade do The Guardian — porque o dogmático nunca erra: é o mundo que o desrespeita.

    E claro, na incandescência das redes sociais, lançou ela as suas Fúrias contra um projecto de jornalismo independente que não confunde isenção com ideologia, nem lucidez com dogmatismo. Fúrias dignas das tragédias áticas, desatadas contra quem ousa existir fora do seu templo moral. E com tantas palmas, a doutora Pimentel, na sua bolha, persistirá, persistirá nos rótulos até não precisar sequer de raciocinar e rebater.

    No universo maniqueísta da doutora Irene Pimentel, ela habita, por direito divino, o lado da luz — e todos os demais, por simples acto de desacato à sua opinião de ‘trazer por casa’, são empurrados para as trevas. Assim, num salto lógico digno de um delirium ad reductum — que já não convoca o inevitável Hitler, mas o omnipresente Trump —, quem ousa apontar-lhe a falta de objectividade ou beliscar-lhe a virtuosa infalibilidade é, ipso facto, lançado ao inferno dos proscritos: cúmplice do Estado Novo, sequaz da PIDE e, por extensão metafísica, aliado de todos os demónios disponíveis para o conveniente contorcionismo ideológico.

    Irene Flunser Pimentel. Foto: DR

    Ora, o problema não é apenas moral: é epistemológico. Um historiador que manipula uma citação trai o próprio ofício, que assenta na crítica das fontes e na integridade da narrativa. Se um académico, habituado a lidar com documentos, não distingue um facto de uma opinião, o que garante que a sua obra — sobre o Estado Novo ou sobre qualquer outro tema — não reproduz o mesmo viés? Que valor tem a autoridade quando a verdade é sacrificada à convicção?

    Já agora, convém salientar que duvidar dos métodos da doutora Pimentel não equivale a negar a existência do Estado Novo ou da sinistra PIDE. Mal estaríamos se a prova da malignidade do regime salazarista dependesse da sua exegese, como se a História só tivesse desvendado os seus horrores porque a doutora Pimentel, num rasgo iluminado, se dignou a investigá-los e a revelar ao mundo o que nenhum outro mortal teria ousado vislumbrar sem a sua intercessão académica.

    Até porque a questão que eu levanto (e a Elisabete já o fizera) transcende a pessoa: é o sintoma de um meio cultural que confunde virtude com militância. O historiador transforma-se em activista, o jornalista em cruzado, o académico em pregador. E, nesse processo, a verdade torna-se refém da ideologia. O resultado é uma sociedade que já não debate — apenas denuncia e confronta o outro com rótulos. Onde a dúvida é crime e o contraditório, heresia.

    Poder-se-á pensar que esta estratégia é eficaz: cala-se o adversário, preserva-se a bolha. Mas, a prazo, o custo reputacional é devastador. Quem vive de anátemas acaba por ser vítima deles. A falácia pode funcionar uma vez, duas talvez; mas a repetição expõe o artifício. Ninguém acredita eternamente em quem grita “lobo!” a cada sombra. O tempo, esse juiz silencioso, revela sempre a impostura.

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    A acrimónia da doutora Pimentel é um aviso exemplar aos que confundem a ligeireza da rede social com a gravidade de uma cátedra, a vaidade opinativa com o exercício do magistério e a mera opinião com sentença definitiva. Não é o PÁGINA UM que está em causa, nem sequer Charlie Kirk; são as Irenes Pimenteis desta vida: é o princípio elementar de que a dignidade do debate depende da honestidade intelectual. A crítica é legítima; a difamação, nunca. A História não se escreve com insultos.

    Por isso, e com a serenidade que a idade deveria inspirar, apelo à Dra. Pimentel: não desça ao rés-do-chão digital. Não comprometa a obra que construiu com o azedume daqueles quem confundem discordância com ataque. O historiador que semeia ódio colherá descrédito. E o académico que troca a fonte pela raiva acabará ele próprio a ser objecto de estudo — exemplo de como a vaidade e o dogma corrompem a ciência.

    O dogmatismo é o ópio dos intelectuais. E quando a inteligência se converte em fé, a liberdade morre sem ruído.

  • 1.610.490 leituras em Setembro: a independência paga-se, mas não se vende

    1.610.490 leituras em Setembro: a independência paga-se, mas não se vende


    Há quase quatro anos que o PÁGINA UM tem vindo a provar que o jornalismo português pode ser diferente — não apenas na forma como se faz, mas sobretudo no modo como se pensa. Desde o primeiro dia assumimos que o nosso compromisso não é com o poder nem com qualquer ideologia, mas com a verdade, a transparência e o escrutínio. E é por isso que, entre tantas incompreensões e desconfianças, fomos afirmando um caminho singular: o de um jornal que denuncia promiscuidades e confronta poderes, sem filtros nem favoritismos.

    Ao contrário de grande parte da imprensa tradicional, que ora se curva ao poder político, ora serve de caixa-de-ressonância ao económico, o PÁGINA UM recusou escolher trincheiras. Nunca mitigámos uma ideologia nem diabolizámos outra. Limitámo-nos — como é dever de um jornal livre — a aplicar o mesmo grau de rigor e exigência a todos. E é precisamente essa coerência, essa recusa em dobrar a espinha perante o peso dos interesses ou das modas, que explica as reacções hostis que ainda hoje recebemos.

    Basta olhar para o que o Google sugere quando alguém pesquisa o meu nome: “Chega”, “Bloco de Esquerda”, “partido”, “covid”, “Gustavo Carona”, “ERC”… as pessoas procuram rótulos, querem caixinhas. Mas o PÁGINA UM não cabe em nenhuma.

    Contra ventos e marés — e, muitas vezes, contra silêncios — temos trilhado o nosso caminho. Com uma redacção fixa de apenas dois jornalistas e alguns colaboradores, somos obrigados a acumular tudo: investigação, edição, resposta a e-mails, gestão de assinaturas e de apoios, coordenação logística e até tarefas administrativas. Não há secretariado, não há assessores, não há agências. Há apenas um jornalismo que se faz com convicção, tempo e sacrifício. E, por isso mesmo, reconhecemos que nem sempre conseguimos responder a todos os leitores como desejaríamos. Falhamos nos agradecimentos, por vezes demoramos nas respostas. Mas não é por desinteresse: é por falta de mãos.

    Nos últimos meses, o PÁGINA UM tem vivido uma das fases mais intensas desde a sua fundação. Reformulámos o nosso site, criámos uma nova plataforma de apoio financeiro, lançámos novos projectos editoriais e aprofundámos investigações que continuam a incomodar. Mesmo com o quase total silêncio da imprensa mainstream — que prefere ignorar o incómodo em vez de o reconhecer —, o nosso trabalho tem chegado a cada vez mais pessoas. Em Julho, atingimos 687.454 visualizações, superando o recorde anterior. Em Agosto, chegámos a 713.941. E, em Setembro, alcançámos um número impensável para um jornal independente e sem publicidade: 1.610.490 visualizações, quase mais 900 mil do que no mês anterior.

    Evolução das visualizações mensais do PÁGINA UM desde Dezembro de 2021 (fundação no dia 21). Fonte: Google Analytics.

    Tudo isto aconteceu apesar dos ataques. O mais recente, vindo do director do Diário de Notícias, Filipe Alves, é paradigmático: em vez de se ocupar da falência técnica da sua própria casa — a Global Notícias, atolada em dívidas de milhões ao Estado e há anos sem publicar contas —, optou por lançar artigos inqualificáveis contra o PÁGINA UM. São os sintomas do velho jornalismo de poder: quem vive à sombra dos subsídios não tolera quem vive da independência.

    Mesmo assim, crescemos. E, com o crescimento, aumentou também o número de leitores dispostos a apoiar este projecto: em Setembro recebemos 747 contributos individuais, com montantes muito diversificados. Um número expressivo, mas ainda aquém do necessário para garantir a sustentabilidade que ambicionamos. Continuamos fiéis ao princípio que nos fundou: acesso livre, sem publicidade, sem patrocínios, sem dívidas e sem empréstimos. Vivemos apenas com o apoio voluntário dos leitores — e é assim que queremos continuar.

    Estamos agora a atravessar uma fase de expansão e diversificação, estando a procurar novos colaboradores para conseguirmos dar resposta aos infindáveis temas e assuntos que gostaríamos de publicar. Por vezes, não fazemos mais por manifesta capacidade física e financeira – não é por falta de coragem ou por desinteresse.

    O Google informa sobre os temas que recentemente estsão associados nas pesquisas ao meu nome…

    Além da componente jornalística, lançámos uma área editorial própria. O primeiro fruto é o livro “Correio Mercantil de Brás Cubas”, um projecto literário pessoal que transporta a nossa irreverência para o campo das letras. Esta é mais uma daquelas tarefas que fizemos com a ‘prata da casa’, o que via incluir o seu envio para os quase 500 leitores que já o adquiriram nesta fase. E temos, obviamente, mais para enviar para quem desejar um exemplar… ou mais.

    Mas o crescimento é, inevitavelmente, lento. O comboio não pode parar — e, ao mesmo tempo que publicamos notícias diárias e mantemos as investigações em curso, tentamos abrir novas frentes sem comprometer a qualidade nem o ritmo a que habituámos os nossos leitores.

    Os próximos meses serão exigentes. Tenho em curso três processos judiciais — intentados por Gustavo Carona, pelo Almirante Gouveia e Melo e pela Ordem dos Médicos (em nome de três médicos) —, que representam não apenas um esforço financeiro acrescido, mas sobretudo uma batalha em defesa da liberdade de imprensa. Até Dezembro estão já marcadas seis audiências, que implicam dias de ausência e muitas horas de preparação. E muitos custos, felizmente ‘amenizados’ pelos nosso leitores, através do FUNDO JURÍDICO.

    Cada um desses processos é um lembrete do preço da independência — e, ao mesmo tempo, a prova viva de que vale a pena pagá-lo. E isto sem contar com os diversos processos de intimação que temos colocado nos tribunais administrativos (mais e duas dezenas). Tudo isto não seria possível sem a inestimável ajuda dos ‘nossos’ advogados, como destaque para o Miguel Santos Pereira, Bruno Santos Pereira e também o Rui Amores (que foi quem liderou a esmagadora maioria das nossas ‘batalhas’ nos tribunais pelo acesso à informação).

    O crescimento que já alcançámos consagra um princípio simples, mas fundamental: a independência paga-se, mas não se vende. Num país onde quase todos os jornais dependem do Estado ou de grandes grupos económicos, o PÁGINA UM é a excepção que confirma a regra — e que a desafia. Somos a demonstração de que é possível fazer jornalismo livre, rigoroso e incómodo sem depender de ninguém, apenas da confiança dos leitores.

    E é por isso que este editorial é, mais do que um balanço, um agradecimento. A todos os que acreditam que o jornalismo ainda pode ser um exercício de liberdade — e não de conveniência —, o nosso compromisso mantém-se inalterável: continuar a perguntar, continuar a investigar, continuar a publicar. Contra ventos, marés e silêncios.