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  • Publicidade política: critérios da ERC no caso ‘Obrigado Mãe’ ameaçam campanhas televisivas de inclusão e diversidade

    Publicidade política: critérios da ERC no caso ‘Obrigado Mãe’ ameaçam campanhas televisivas de inclusão e diversidade


    A decisão da Entidade Reguladora para a Comunicação Social de considerar que a publicidade televisiva paga por Miguel Milhão para divulgar o vídeo “Obrigado, mãe” tinha como objecto uma ideia política antiaborto pode vir a produzir consequências muito para além deste caso.

    Ao estabelecer que a mensagem ideológica dominante se sobrepõe à promoção comercial ou pessoal associada ao anúncio, o Conselho Regulador colocou sob o mesmo crivo numerosas campanhas através das quais grandes marcas têm procurado associar a sua imagem a causas sociais, desde a defesa do ambiente à igualdade de género, passando pela aceitação da homossexualidade e da transexualidade.

    Anúncios de Miguel Milhão remetiam para vídeo de uma música com mensagem pró-vida e anti-aborto, que tiveram mais de 300 mil visualizações. Foto: captura de ecrã.

    Na deliberação aprovada em 9 de Julho e agora divulgada, a ERC concluiu que os vinte segundos emitidos pela TVI, CNN Portugal, CMTV e News Now, entre 25 de Maio e 2 de Junho de 2025, constituíam publicidade cujo objecto era uma ideia de conteúdo político, proibida pelo Código da Publicidade. O regulador entendeu, após cerca de 9.500 queixas, ainda que o conteúdo não era facilmente identificável como publicidade televisiva e que as respectivas emissões eram susceptíveis de influir negativamente na formação da personalidade de crianças e adolescentes.

    O Conselho Regulador determinou, por isso, a abertura de processos de contra-ordenação contra a TVI – Televisão Independente, responsável pela TVI e pela CNN Portugal, e contra a Medialivre, proprietária da CMTV e da News Now. Estes processos dizem respeito à alegada falta de identificabilidade da publicidade e ao possível perigo para os menores, infracções graves susceptíveis de coimas entre 20 mil e 150 mil euros. Já a qualificação do anúncio como publicidade política, punível com coima entre 3.500 e 45 mil euros, foi remetida à Direcção-Geral do Consumidor, entidade competente para instruir essa vertente contra-ordenacional.

    A distinção é juridicamente importante: não foi a natureza política da mensagem que levou directamente a ERC a abrir os processos contra os dois operadores televisivos. Mas é precisamente essa parte da deliberação, mesmo ficando a eventual aplicação da coima nas mãos da Direcção-Geral do Consumidor, que pode transformar o caso “Obrigado, mãe” numa caixa de Pandora para a publicidade televisiva em Portugal.

    Miguel Milhão. Foto: D.R.

    Com efeito, o Conselho Regulador não se limitou a declarar que o aborto constitui uma matéria política. Criou um critério para avaliar comunicações híbridas, nas quais coexistem uma finalidade comercial ou promocional e uma mensagem ideológica. Segundo a ERC, o anúncio divulgava a imagem de Miguel Milhão, a sua personagem Guru Mike Billions, o podcast CDK, uma música e os respectivos canais nas plataformas digitais, mas essa dimensão comercial surgia como “acessória ou secundarizada” perante aquilo que o regulador considerou ser a mensagem dominante: uma ideia política antiaborto.

    A própria ERC reconheceu expressamente a natureza híbrida da comunicação. Na deliberação, a entidade presidida por Helena Sousa sustenta que o anúncio associava uma finalidade promocional indirecta, relativa à imagem, aos canais, aos conteúdos digitais e à actividade económica de Miguel Milhão, a uma “mensagem político-ideológica dominante”. A mistura entre comércio e ideologia não afastaria a aplicação das normas relativas à publicidade política; pelo contrário, justificaria um escrutínio mais exigente.

    “Se a qualificação jurídica depende de se apurar qual é a mensagem ideológica dominante de uma campanha comercial, então o mesmo crivo deverá ser aplicado às campanhas ditas progressistas, inclusivas ou institucionalmente bem acolhidas”, defende um jurista ouvido pelo PÁGINA UM, que pediu para não ser identificado. Segundo o mesmo especialista, “a interpretação da lei por um regulador não pode considerar política uma mensagem porque é antiaborto e convertê-la em mera sensibilização social quando promove, por exemplo, a liberdade sexual, a identidade de género ou outra causa com maior aceitação nos sectores políticos e culturais representados nos organismos reguladores”.

    Conselho Regulador da ERC. Foto: D.R.

    O exemplo mais evidente deste problema de coerência encontra-se na campanha de Natal da Vodafone de 2023, difundida em televisão e nos meios digitais com o lema “Por mais que se façam ouvir outras vozes, nunca é tarde para ouvires o teu coração”. Produzido pela Krypton Films, com criatividade da Wunderman Thompson e planeamento de meios da Dentsu-Carat, o anúncio apresentava uma mulher que, durante uma reunião familiar, recordava uma relação amorosa que mantivera na juventude com outra mulher e que fora interrompida pelo medo do preconceito. Inspirada pelo sobrinho, que surge acompanhado pelo namorado, a protagonista decide procurar a antiga companheira.

    A Vodafone não escondeu a finalidade social da campanha, que não promovia directamente tarifários, equipamentos ou características técnicas dos seus serviços. O telemóvel surgia como instrumento de contacto entre as personagens, mas o centro narrativo estava na relação amorosa interrompida pelo preconceito e na decisão tardia de a recuperar. A empresa descreveu a campanha como um convite à reflexão sobre a aceitação e o amor nas suas diversas formas, destinado a combater estigmas sociais e a encorajar uma vida vivida com liberdade e autenticidade.

    No final, surgia a mensagem: “Por mais que se façam ouvir outras vozes, nunca é tarde para ouvires o teu coração”. A directora de marca da Vodafone afirmou então que a campanha convidava os espectadores a revisitar a sua atitude perante o outro, apresentando a autenticidade, o respeito e a aceitação da diferença como valores associados à própria empresa.

    Campanha televisiva da Vodafone no Natal de 2023 também transmitia uma mensagem que poderia ser considerada política por ser matéria fracturante.

    Não se tratava, portanto, de descobrir clandestinamente uma dimensão ideológica num anúncio destinado apenas a vender pacotes de dados móveis. A componente valorativa foi expressamente assumida pela Vodafone. O objecto narrativo dominante não consistia em demonstrar a qualidade da rede, comparar preços ou anunciar uma promoção natalícia. Consistia em apresentar a aceitação da homossexualidade como um valor social positivo, criticar o preconceito que impedira uma relação entre duas mulheres e convidar os espectadores a alterar comportamentos e atitudes.

    Por ironia, Miguel Milhão, conhecido pelas suas posições conservadoras, criticou então a opção da Vodafone. Numa publicação feita no X em 17 de Dezembro de 2023, escreveu: “As pessoas dentro das empresas podem acreditar e defender o que bem entenderem. Não acho que as empresas devam ser usadas como estruturas de propaganda de mensagens seculares, não seculares, progressistas ou conservadoras. A Vodafone deveria vender telemóveis e não fazer propaganda de nenhum tipo.”

    Certo é que, tendo a campanha de Miguel Milhão sido assumida como instrumento de marketing pessoal, a deliberação da ERC abre um problema de coerência que não pode ser resolvido segundo simpatias ideológicas. Se uma comunicação paga, difundida em televisão, que associa a promoção de uma marca à aceitação da homossexualidade continua a ser considerada uma campanha comercial de responsabilidade social, por que razão uma comunicação igualmente paga, que associa a promoção de uma personalidade à defesa da continuação da gravidez, se transforma em publicidade política proibida?

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    Foto: Alicia Petresc.

    O paralelismo não significa que os dois anúncios sejam idênticos. Na campanha da Vodafone, a marca estava claramente identificada, o conteúdo dificilmente seria confundido com uma peça editorial e existia uma ligação perceptível entre a história narrada e os valores que a empresa pretendia associar à sua imagem. Já no anúncio “Obrigado, mãe”, a identidade do anunciante e o produto promovido surgiam de forma menos clara, através de referências, no último fotograma, a Guru Mike Billions, à música, ao podcast CDK, ao YouTube e ao Spotify.

    Essa diferença pode ser determinante quanto à obrigação de a publicidade ser facilmente reconhecível pelo telespectador, uma das matérias que motivaram os processos contra os operadores televisivos. Mas não resolve a questão da natureza política da mensagem, porque a própria ERC não entendeu que o anúncio deixasse de ter finalidade promocional. Considerou apenas que essa finalidade era secundária perante a ideia antiaborto.

    Na verdade, a contraposição entre uma mensagem sobre a interrupção voluntária da gravidez e outra sobre a liberdade sexual coloca-nos perante duas matérias igualmente fracturantes, ambas atravessadas por opções morais, sociais e políticas e ambas presentes no debate legislativo e partidário. Aceitar que uma empresa possa, através de publicidade paga, promover a normalização da homossexualidade como expressão de responsabilidade social, mas considerar proibida, por natureza, uma campanha que defenda a continuação da gravidez, revelaria menos uma distinção jurídica objectiva entre publicidade comercial e publicidade política do que uma hierarquia ideológica entre causas consideradas legítimas e causas tidas como inconvenientes.

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    Foto: Glenn Carstens-Peters

    “O problema deixa então de residir no carácter político da mensagem e passa a estar na orientação política que o regulador está disposto a tolerar”, salienta o jurista ouvido pelo PÁGINA UM.

    Esta questão torna-se ainda mais relevante porque o Conselho Regulador não exige que a publicidade promova expressamente uma alteração legislativa, apoie um partido, interfira numa eleição ou apresente uma candidatura. Na deliberação, basta que exista uma ideia política dominante e que o acesso pago à televisão conceda a agentes economicamente poderosos a possibilidade de ocupar de forma desproporcionada o debate público.

    Segundo a ERC, pessoas ou entidades com elevada capacidade financeira poderiam acumular espaços de publicidade televisiva, directa ou indirectamente, colocando em causa o pluralismo e o próprio debate democrático. O regulador defende que a televisão conserva uma influência particular sobre o público e que a publicidade paga pode permitir a determinados interesses alcançar uma visibilidade inacessível a organizações com menores recursos.

    Aplicado à campanha da Vodafone — ou a qualquer futura campanha comercial com uma forte mensagem social —, este argumento conduz a um resultado difícil de contornar. Uma multinacional de telecomunicações dispõe de capacidade financeira e publicitária muito superior à generalidade das associações cívicas que defendem concepções diferentes da família, da sexualidade ou da identidade. Se o perigo que justifica a proibição reside no poder económico para repetir uma ideia parcial através da televisão, a preocupação teria de incidir tanto sobre um empresário conservador como sobre uma grande empresa que adopte causas progressistas.

    Campanhas de inclusão dos imigrantes, nos critérios aplicados pela ERC, seriam consideradas ilegais. Foto: PAV

    Isto não significa que a campanha da Vodafone devesse ter sido proibida ou que os canais que a transmitiram devessem agora ser alvo de processos. Significa que a ERC criou um teste cuja aplicação neutra não pode depender da simpatia que determinada causa desperta nos membros do Conselho Regulador. Ou se considera que o activismo comercial das marcas permanece publicidade comercial, ainda que veicule valores e posições sociais, ou se aceita que uma mensagem ideológica dominante pode transformar essas campanhas em publicidade política proibida.

    Ao estabelecer que uma ideia sobre uma questão social controversa pode prevalecer sobre a finalidade comercial do anúncio, a ERC não definiu critérios objectivos suficientes para separar o chamado activismo de marca da publicidade política ilegal. Não esclareceu se essa distinção depende da existência de uma proposta legislativa em curso, de uma ligação do anunciante a um partido, da proximidade de eleições, da intenção explícita de influenciar uma decisão pública ou da percentagem do anúncio dedicada ao produto ou serviço comercializado.

    Também não fica claro se tudo dependerá da interpretação que os cinco membros do Conselho Regulador façam sobre a biografia, as intenções e a ideologia de quem paga o anúncio.

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    ERC defende que quem compra publicidade detém poderes passíveis de limitar o pluralismo. Foto: D.R.

    No caso de Miguel Milhão, a ERC desenvolveu uma extensa investigação muito para além dos vinte segundos transmitidos pelas televisões. Analisou a Prozis, a personagem Guru Mike Billions, o podcast CDK, o projecto V Império, a tentativa de criação do Partido Quinto Portugal, a ideologia libertária, declarações públicas e polémicas anteriores. O regulador chegou mesmo a admitir uma eventual fidelização dos clientes da Prozis “pela via da identificação ideológica” e possíveis ganhos decorrentes de uma “estratégia de penetração comercial transatlântica” baseada no activismo político.

    A singularidade deste inquérito biográfico e ideológico constitui um dos aspectos mais polémicos da deliberação. A identidade do anunciante e o contexto podem naturalmente ajudar a compreender uma mensagem, mas existe uma diferença entre contextualizar um anúncio e construir um perfil político do seu autor para demonstrar que aquilo que ele promove faz parte de uma agenda mais ampla.

    Em contraste com o detalhe da investigação sobre Miguel Milhão — que, para já, não quis comentar a deliberação —, a fundamentação sobre o alegado perigo para os menores mostra-se bastante mais especulativa. O anúncio televisivo apresentava uma mulher num ambiente hospitalar, momentos antes de uma interrupção voluntária da gravidez, terminando com a expressão “Obrigado, mãe”. Porém, para reforçar a intensidade da mensagem, a ERC recorreu à versão integral do videoclipe disponível no YouTube, que não foi transmitida pelos quatro canais.

    Nessa versão surgem imagens de um funcionário mascarado, formulários aparentemente carimbados com sangue e profissionais de saúde com as mãos ensanguentadas. A ERC entendeu que a referência às plataformas digitais, no final do anúncio, podia conduzir crianças e adolescentes até esse conteúdo e deveria, por isso, ser considerada um elemento agravante.

    Sem apresentar um parecer psicológico, pedopsiquiátrico ou qualquer estudo empírico, o Conselho Regulador concluiu também que a mensagem, por ser parcial e não permitir um contraponto dentro do espaço publicitário, poderia induzir o público mais jovem em erro sobre a legitimidade e as condições de acesso à interrupção voluntária da gravidez e introduzir uma forma de censura social sobre as mulheres que recorrem a esse procedimento.

    Este raciocínio pode regressar como um bumerangue contra a própria ERC, porque toda a publicidade de sensibilização é necessariamente parcial. Um anúncio contra a violência doméstica não apresenta a perspectiva do agressor; uma campanha ambiental não concede espaço aos defensores dos combustíveis fósseis; uma mensagem sobre igualdade racial não organiza um contraditório com racistas; uma campanha sobre liberdade sexual não inclui a posição daqueles que discordam da normalização social de determinadas relações.

    Exigir pluralismo interno a cada anúncio seria destruir a própria lógica da publicidade, que existe para persuadir e não para organizar seminários com posições equilibradas. O pluralismo pode e deve ser garantido no sistema mediático, na programação e no debate público, mas dificilmente poderá ser exigido dentro de uma comunicação comercial de vinte segundos.

    Também a jurisprudência europeia invocada pela ERC está longe de oferecer uma resposta inequívoca. No caso Animal Defenders International contra o Reino Unido, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos aceitou que uma proibição de publicidade política paga em televisão pudesse ser compatível com a liberdade de expressão, atendendo ao perigo de os interesses financeiramente mais fortes dominarem o debate público.

    Contudo, a decisão foi tomada por apenas nove votos contra oito. Além disso, incidiu sobre uma legislação britânica muito mais detalhada, aprovada após um longo processo parlamentar e acompanhada por mecanismos de acesso gratuito dos partidos aos tempos de antena. Quase metade dos juízes considerou que a proibição era excessivamente ampla e podia silenciar organizações pequenas e causas de interesse público.

    Para sustentar a sua tese de que a liberdade de expressão pode ser limitada quando aplicada á publicidade paga em televisão, a ERC recorre a uma decisão do Tribunal Europeu dos Direitos que teve nove votos a favor e oito votos contra, sendo que se aplicava á legislação britânica, muito distinta da portuguesa.

    Essa divisão deveria recomendar prudência, sobretudo quando se aplica em Portugal uma expressão legal tão aberta como “ideias de conteúdo político” a anúncios híbridos de empresas, artistas, empresários ou organizações sociais.

    A deliberação da ERC pode, assim, produzir um efeito que os próprios membros do Conselho Regulador talvez não tenham antecipado. As marcas que, nos últimos anos, trocaram a promoção directa dos seus produtos por narrativas emotivas sobre inclusão, diversidade, género, imigração, alterações climáticas, saúde, guerra ou direitos dos animais poderão ter de perguntar se a dimensão comercial continua a ser dominante ou se passaram, sem o saber, a comprar propaganda política proibida.

    A campanha da Vodafone de 2023 constitui o teste mais evidente. Foi difundida em televisão, procurava valorizar a imagem comercial de uma empresa e apresentava uma mensagem social dominante destinada a alterar atitudes sobre uma matéria profundamente politizada. Não se pode afirmar que seria necessariamente considerada ilícita, porque existem diferenças factuais relevantes. Pode afirmar-se, contudo, que o critério utilizado pelo Conselho Regulador no caso Miguel Milhão é suficientemente amplo para a colocar sob o mesmo crivo.

    Helena Sousa, presidente da ERC, ‘colecciona’ deliberações polémicas com implicações que transcendem os casos particulares que trata. Foto: D.R.

    E será nesse momento que se testará a neutralidade da ERC: saber se a proibição de publicidade política se aplica apenas quando a mensagem é conservadora, antiaborto e patrocinada por um empresário incómodo, ou se o mesmo rigor será usado quando uma multinacional promove uma visão progressista da sexualidade e da sociedade.

    A liberdade de expressão não exige que todas as ideias sejam simpáticas, modernas ou aprovadas pelos reguladores. Exige, acima de tudo, que a lei não mude de significado consoante a mensagem agrade ou desagrade. Uma entidade reguladora pode fiscalizar e sancionar publicidade política proibida; aquilo que não pode fazer, sem degradar a sua própria legitimidade, é transformar propaganda em sensibilização apenas porque prefere a causa que está a ser promovida.

  • Espectáculos cancelados: DECO quer que Governo acabe com abusos em festivais

    Espectáculos cancelados: DECO quer que Governo acabe com abusos em festivais


    O caso do cancelamento do concerto da mítica banda Megadeth no festival Evil Live, organizado pela empresa Prime Artists, colocou debaixo dos holofotes os abusos cometidos por promotores de festivais de música em Portugal. A Prime Artists recusa reembolsar o valor dos bilhetes aos espectadores lesados pelo cancelamento do concerto.

    Perante a onda de reclamações de espectadores lesados, a DECO pediu agora à ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, uma alteração à lei dos espectáculos para acabar com a interpretação abusiva que tem levado promotores como a Prime Artists a ficar com o dinheiro dos consumidores lesados pelo cancelamento de concertos.

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    Foto: D.R.

    Recorde-se que só a DECO recebeu meia centena de reclamações formais, devidamente documentadas, relativas a pedidos de reembolso pelo cancelamento do concerto da banda de heavy metal Megadeth. Segundo a associação de defesa do consumidor, os espectadores lesados têm direito legal ao reembolso do valor dos bilhetes, mas a Prime Artists remeteu as culpas para a banda e sinalizou que vai dar o “calote” aos espectadores que se sentem enganados.

    Num comunicado emitido esta segunda-feira, a DECO salientou que o caso da Prime Artists não é único e “nos últimos anos, têm-se multiplicado episódios de mudanças de recinto anunciadas em cima da hora, concertos interrompidos por alegados ‘problemas técnicos’ e até o desaparecimento temporário de festivais de grande dimensão”.

    A associação sublinhou que o regime dos espetáculos, em vigor desde 2014, “obriga o promotor de um espetácculo a devolver o preço do bilhete sempre que o evento não se realize na data, hora ou local marcados, haja substituição do programa ou de artistas principais, ou o espetáculo seja interrompido”. Contudo, na prática, “a aplicação da lei aos festivais modernos — com vários dias, palcos, artistas e outro tipo de atividades em simultâneo — tem gerado dúvidas de interpretação” que alguns promotores “têm aproveitado em prejuízo dos consumidores”.

    A ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, tem nas mãos o pedido da DECO para acabar com os abusos das promotoras de festivais que deixam consumidores lesados sempre que há concertos cancelados ou alterações de programação dos eventos. / Foto: D.R.

    No seu comunicado, a DECO recordou que “já tinha apresentado em 2019 um conjunto de propostas de alteração da lei, que na altura não foram aceites, mas o tempo continua a dar razão aos consumidores”. Agora quer que o Governo ponha um ponto final no desrespeito pelos direitos dos espectadores. “É preciso que a lei feche, de uma vez por todas, as portas que hoje permitem a alguns promotores escapar às suas obrigações”, referiu a associação no comunicado.

    Assim, a DECO propõe que seja definido de forma clara o conceito de “artista principal”, de modo a abranger todos os artistas identificados no cartaz, impedindo interpretações que esvaziem o direito ao reembolso. Também defende se seja imposto às plataformas de venda a divulgação do preço total do bilhete, com todos os custos obrigatórios incluídos. Pretende ainda que seja consagrada a responsabilidade solidária entre promotores, plataformas e agências perante o consumidor.

    A banda Megadeth cancelou o concerto previsto para o festival Evil Live. Muitos fãs tinham comprado bilhete para ver a banda na sua última “tour”. A Prime Artists ficou com o dinheiro e recusa reembolsar os espectadores lesados, fugindo à lei. / Foto: D.R.| Megadeth

    Segundo a DECO, a lei deve também passar a exigir aos promotores a subscrição de um seguro que garanta o reembolso dos bilhetes em caso de insolvência. Propõe ainda que seja alargado o regime de protecção a outros eventos pagos com forte adesão do público, como conferências e cimeiras.

    Por fim, a associação quer ver agravadas as coimas aplicáveis, associando o seu montante ao volume de negócios do promotor ou da plataforma.

    Mas enquanto o Governo não altera a lei, a associação “garante que os consumidores não ficarão sozinhos sempre que um festival ou espectáculo correr mal” e vai continuar a defender os espectadores e a fazer pressão para que os seus direitos sejam respeitados.

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    Foto: D.R.

    No caso do cancelamento do concerto dos Megatedh, a DECO continua a receber reclamações de espectadores que pretendem receber o reembolso do seu bilhete. Mas a defensora dos consumidores não se fica por aqui e a promotora Prime Artists parece estar mesmo em “maus lençóis”.

    A DECO acusou a empresa de incumprimento reiterado da lei e desrespeito pelos direitos dos consumidores pelo que pediu à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) uma acção de fiscalização urgente à promotora de festivais. Também fez uma denúncia à Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC) para que “efectue diligências” e impeça a promotora de lesar espectadores, prejudicando também a confiança no sector.

  • DECO pede intervenção urgente das autoridades contra organizadora do festival Evil Live

    DECO pede intervenção urgente das autoridades contra organizadora do festival Evil Live


    O cancelamento do concerto da mítica banda Megadeth gerou uma onda de revolta contra a promotora do festival Evil Live, a empresa Prime Artists. Os consumidores têm direito legal ao reembolso do valor dos bilhetes, mas a empresa remeteu as culpas para a banda e sinaliza que vai dar o “calote” aos espectadores que se sentem enganados.

    Contudo, segundo a associação de defesa do consumidor DECO, esta não é a primeira vez que a Prime Artists “dá música” aos consumidores. Ao longo dos anos, vários dos seus festivais deixaram um rasto de espectadores lesados devido ao cancelamento de concertos e outras alterações de programação. Por isso, a DECO pediu à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) uma acção de fiscalização urgente à promotora de festivais.

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    Não é a primeira vez que a Prime Artists “engana” espectadores na venda de bilhetes para festivais. Segundo a DECO, há anos que a empresa tem tido um comportamento de desrespeito para os consumidores e nunca faz os reembolsos devidos por lei. / Foto: D.R.

    O facto de a empresa nem sequer responder aos consumidores lesados nem aos pedidos de reunião da DECO é visto como um sinal de que a Prime Artists vai repetir o comportamento de não reembolsar os espectadores prejudicados. “A Prime Artists tem uma conduta que reiteradamente é lesiva dos direitos dos consumidores”, disse Ana Sofia Ferreira, coordenadora do departamento jurídico e económico da DECO, em declarações ao PÁGINA UM. “Fizemos uma denúncia à ASAE. Verificámos que já em outras situações houve problemas. Em todos os festivais desta promotora existiram problemas com cancelamentos e outras alterações que lesaram os consumidores”, salientou.

    Por considerar a situação grave, a DECO fez também uma denúncia à Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC) para que “efectue diligências” e impeça a promotora de lesar espectadores, prejudicando também a confiança no sector.

    Até ao momento, cerca de meia centena de espectadores apresentaram reclamações devidamente documentadas à DECO e pediram ajuda para obter o reembolso do valor do bilhete comprado para assistir ao concerto dos Megadeth, integrado no festival Evil Live. Mas o número de queixas que chegaram à associação de defesa do consumidor é muito superior, entre contactos telefónicos e e-mails.

    A banda Megadeth anunciou que iria fazer a sua última tour. O concerto no Evil Live atraiu fãs que procuravam ver a banda actuar uma última vez em Portugal. Levaram “banhada” e a Prime Artists não responde aos pedidos de reembolso. Num comunicado, atirou culpas para a banda. A DECO diz que a promotora é quem tem de pagar. / Foto: D.R. | Megadeth

    Num comunicado, a associação defesa do consumidor recordou que “independentemente das razões que possam ter levado ao cancelamento, a não realização do concerto dá direito ao reembolso do bilhete”. E salientou que “o promotor está obrigado a restituir o preço dos bilhetes quando: o espetáculo não se realize na data, hora ou local previstos; ocorra uma substituição do programa ou de artistas principais; haja uma interrupção do espetáculo”.

    No caso concreto, “sendo inclusivamente os Megadeth anunciados como um dos principais cabeças de cartaz do festival, para a DECO, a sua ausência dá lugar ao reembolso do bilhete, sobretudo porque a não realização do espetáculo não se deve a uma situação de força maior”.

    A associação disponibilizou um guia com os passos que os espectadores devem seguir para pedir o reembolso do valor dos bilhetes. Assim, o consumidor deve começar por “escrever uma carta, descrevendo detalhadamente os factos ocorridos e anexar uma cópia dos bilhetes adquiridos”, indicando “o nome do evento, local, data e horário”. A carta pode ser enviada por e-mail para a promotora ou por carta registada para a morada disponibilizada pelo promotor no seu website. “Em caso de recusa e necessidade de reclamação à IGAC, deve reencaminhar a carta redigida ao promotor apresentando a prova de recusa de reembolso”, avisa a DECO.

    Quem visitar o site do festival Evil Live encontra agora apenas um comunicado da promotora no qual “sacode a água do capote” pelo cancelamento da actuação da banda Megadeth. .

    Mas o problema, segundo a DECO, não se resume ao não reembolso pelo cancelamento do concerto dos Megadeth. Para a coordenadora da DECO, é urgente uma acção de fiscalização “à conduta da Prime Artists enquanto agente económico” que repetidamente lesa espectadores dos seus festivais, recusando efectuar os devidos reembolsos, como manda a lei. Alertou que, apesar de os festivais em causa mudarem de designação e de local, “têm sempre os mesmos actores”, ou seja, a mesma promotora.

    A Prime Artists foi criada em 2010 por Carlos Marreiros e especializou-se na organização de eventos de música de rock e heavy metal. Entre os eventos que organizou conta-se o Vagos Open Air, entre 2009 e 2015. Um diferendo com o município de Vagos levou à transferência do festival, que mudou a denominação para VOA – Heavy Rock Festival , para outros locais. Assim, nas edições seguintes, o VOA teve lugar na Quinta da Marialva, em Corroios, Estádio do Restelo e Altice Arena, em Lisboa.

    Perante o que classifica como uma “conduta reiterada de desrespeito” pelos espectadores, a DECO defende a importância da actuação do regulador do sector. “A IGAC deve proteger o próprio sector para que os espectadores sejam salvaguardados destas situações e não exista desconfiança sobre os promotores”, alertou a responsável da DECO.

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    Os festivais da Prime Artists mudam de nome, mas, segundo a DECO, os problemas repetem-se, dando transmitindo uma ideia de impunidade que protege as receitas da promotora mas lesa espectadores.
    / Foto: D.R.

    “As autoridades devem assumir logo uma conduta de defesa dos consumidores que devem ser ressarcidos”, notou. Mas Ana Sofia Ferreira voltou a sublinhar que, “mais preocupante do que o não reembolso do valor dos bilhetes, que é grave, é o padrão reiterado da promotora”.

    Resta agora saber se é desta que a ASAE e a IGAC vão “partir a loiça” ou se vão “assobiar para o lado” e deixar os espectadores sem concerto e sem o dinheiro dos bilhetes.

  • Tocar (n)o belo

    Tocar (n)o belo

    Desde Ave Mundi Luminar, álbum do já longínquo ano de 1993, Rodrigo Leão tem-se afirmado de forma consistente como o mais completo músico da sua geração — e talvez mais do que músico, sobretudo compositor. Ao longo de três décadas construiu uma obra que escapa às categorias fáceis, cruzando escrita clássica contemporânea, formas populares depuradas, canção, minimalismo e uma certa melancolia portuguesa que nunca resvala para o folclórico nem para o decorativo.

    Em O Rapaz da Montanha, o seu mais recente álbum, essa maturidade surge assumida em pleno: curiosamente, o papel de pianista ou teclista — termos ambos legítimos, embora aqui quase secundários — cede protagonismo ao de verdadeiro mestre de orquestra, arquitecto sonoro atento às texturas, às respirações e às relações entre timbres. A sua própria voz surge apenas de forma discreta, como apoio, nunca como centro, num gesto coerente com uma ética musical que sempre privilegiou o colectivo.

    O percurso é conhecido, mas nunca banal. Começou como baixista nos Sétima Legião, nos anos 80 — facto que hoje pode soar estranho a quem associa o seu nome a universos mais camerísticos —, mas foi nos Madredeus, já como teclista e compositor, que se consagrou junto de um público alargado. Em 1994 decide avançar para aquilo que se convencionou chamar uma “carreira a solo”, expressão redutora para quem, na verdade, nunca deixou de trabalhar em diálogo constante com outros músicos, vozes e universos.

    Mais do que enumerar colaborações — exercício fastidioso, embora tentador — importa sublinhar um momento-charneira: Alma Mater, onde começa a explorar de forma mais explícita a combinação da sua escrita clássico-moderna com a forma canção e com instrumentações de raiz mais tradicional, contando com vozes como Lula Pena ou Adriana Calcanhotto, num disco e numa digressão que alargaram o seu campo expressivo.

    Seguiram-se encontros com Sónia Tavares e Nuno Gonçalves, dos The Gift, Rui Reininho, dos GNR — presente no álbum ao vivo Pasión —, o reconhecimento público com os prémios de Disco do Ano e Artista do Ano, a projecção internacional com Cinema, considerado pela Billboard um dos melhores discos de 2004, e colaborações tão diversas como Rosa Passos, Beth Gibbons ou Ryuichi Sakamoto. Vieram depois os olhares retrospectivos, as bandas sonoras, os projectos de carácter mais colectivo, sempre com uma ideia clara: nunca repetir fórmulas, mesmo quando estas foram amplamente bem-sucedidas. Podia continuar…

    O Rapaz da Montanha confirma esse princípio. De facto, ao contrário de alguns dos álbuns que mais aprecio no seu percurso, este é um disco — estranha denominação a que hoje se chega quase em exclusivo via Spotify — onde a percussão e as cordas ganham um peso estrutural inédito, onde o acordeão deixa de ser mero colorido para assumir função central, e onde cada peça parece pensada como parte de um organismo maior, coerente e respirável. Foi com esse universo que Rodrigo Leão se apresentou no Coliseu dos Recreios, num concerto cuja opção cénica revelou uma rara delicadeza artística e um profundo respeito pelos espectadores.

    O palco central circular, colocado abaixo da linha do público e rodeado a 360 graus por espectadores, configurou um verdadeiro anfiteatro reverso, invertendo a hierarquia tradicional entre intérprete e plateia. Os músicos surgiam submersos no público, não como ídolos elevados, mas como centro visível de uma comunidade provisória reunida em torno da escuta.

    Essa disposição teve efeitos imediatos e profundos: dissolveu-se a distância ritual entre quem toca e quem ouve; a música deixou de ser espectáculo frontal para se tornar experiência partilhada. O público transformou-se num corpo atento, cúmplice, e a escuta ganhou uma qualidade quase meditativa, favorecida pela ausência de um ponto de vista privilegiado.

    Tudo ali convidou à concentração: a iluminação contida e quente, sem excessos; a acústica homogénea; a clareza com que cada gesto instrumental se tornava visível e significativo. Num tempo dominado pela hipertrofia visual e pelo virtuosismo exibicionista, este concerto assumiu-se anti-espectacular — e, por isso mesmo, profundamente belo, porque dedicado à escuta.

    A cumplicidade entre os músicos foi um dos elementos mais marcantes da noite. A base instrumental — Viviena Tupikova no violino, Bruno Silva na viola de arco, Carlos Tony Gomes no violoncelo e nos arranjos de cordas, Celina da Piedade no acordeão e metalofone, João Eleutério nas guitarras e sintetizadores, Frederico Gracias na bateria e percussão — funcionou como um organismo coeso, respirando em uníssono.

    Nas vozes, Ana Vieira assumiu, como tem sido habitual, o centro com uma presença serena e segura, sem nunca procurar protagonismos excessivos. E houve ainda os convidados: os compagnons de route Gabriel Gomes e Luís Peixoto, bem como Francisco Palma — com um timbre que evoca o do pai, Jorge Palma, mas com identidade própria — e Sofia Leão, acrescentando uma dimensão familiar e enternecedora.

    O concerto não se confinou ao novo álbum. Houve espaço para revisitar peças de trabalhos anteriores de Rodrigo Leão e para regressar ao repertório dos Madredeus, com momentos de particular intensidade emocional: o belíssimo “A Ilha dos Açores” e também “Alfama”, neste caso reinventada na voz de Ana Vieira, acompanhada por Celina da Piedade, num registo mais festivo e luminoso, afastado da melancolia que Teresa Salgueiro lhes imprimiu no passado. Não se tratou de substituição nem de ruptura, mas de releitura respeitosa — prova de que estas canções possuem uma elasticidade rara e continuam vivas fora do seu contexto original.

    No final, ficou a sensação de ter assistido não apenas a um concerto, mas a um gesto artístico pleno, pensado ao detalhe e executado com uma rara ética da escuta. Tocar (n)o belo não foi apenas um título que me surgiu dar a esta crónica logo nos primeiros minutos do concerto; foi, de facto, a sua linha condutora. Tocar o belo sem o aprisionar, tocar no belo sem o exaurir — como quem sabe que a verdadeira beleza, tal como a música de Rodrigo Leão, vive nesse equilíbrio entre contenção, partilha e algo intangível que acomete os sentidos onde mais delicia.

    Nota final: 5 em 5

  • A pepita rara que Portugal nem sabe que tem

    A pepita rara que Portugal nem sabe que tem

    Há mundos que me tocam e que me fazem habitar galáxias distintas. Por exemplo, o da Literatura, que conheço bem, é habitado por seres que passam meses — quando não anos — a depurar um livro, para depois o ver vender por aí e recolher uns magros 10%, enquanto lhes pedem, com entusiasmada leveza, que se desloquem gratuitamente a feiras, festivais, clubes de leitura e demais rituais do sector. Aí, as editoras estão sempre ansiosas por uma crítica literária, ‘namorando’ os críticos, embora cada vez existam menos jornais que mantenham a secção cultural viva e com leitores.

    Depois há o jornalismo, esse terreno onde eu julgava já ter testado todos os labirintos e emboscadas possíveis. O PÁGINA UM foi-me habituando à adversidade e aos obstáculos: pedidos recusados, silêncios administrativos, hostilidades várias.

    Daí que, ironia suprema, quando decidi criar no jornal uma secção de crítica musical — um pequeno oásis para me oxigenar das lides mais agrestes da investigação — pensei que seria mais reconfortante e aprazível do que a Literatura e muito mais calmo do que o meu jornalismo ‘tradicional’. Enganei-me: nunca imaginei que encontraria aqui as maiores e mais absurdas resistências.

    Desde Março, salvo erro, passei por Dardust, Aurora, Imagine Dragons, Nos Alive (onde falei sobretudo dos Muse), Shawn Mendes, Tamino, Taxi… Com maior ou menor desconfiança dos promotores, a coisa fez-se e fez-se bem. Mas, pelo meio, tive dois episódios tão caricatos quanto épicos, ambos a render deliberações da ERC — um que ainda assim permitiu o acesso (Iron Maiden) e outro (Leprous) que terminou em recusa acompanhada de um crime de desobediência qualificada por parte do promotor. E houve agora um terceiro episódio, mas esse fica para outros carnavais.

    Chegado ao concerto de Noiserv, esta epopeia entre mares revoltosos e ventos procelosos repetiu-se. Agência pouco interessada, promotor reticente, Centro Cultural de Belém (CCB) como co-organizador e intermediário de boa vontade, mas igualmente apanhado no novelo da ignorância sobre as acreditações ao abrigo do Estatuto do Jornalista.

    Parecia que eu pedia a última pepita de uma mina algures na cordilheira dos Andes. Depois de muita diplomacia, a acreditação lá surgiu — in extremis — permitindo-me chegar ao CCB com a agilidade possível para recuperar minutos perdidos entre conversas, portas fechadas e depois reabertas e bilheteiras.

    Entrei já na segunda ou terceira música. O Grande Auditório, repleto a uns saudáveis 90%, era a melhor demonstração de que a relutância na acreditação era mero capricho ou, perdoem-me a franqueza, uma estupidez absoluta. Porque Noiserv é, de facto, uma pepita — mas não dessas que se regateiam. É a pepita de uma mina única, incrivelmente polida desde há vinte anos por um músico que Portugal ainda não percebeu que tem na mão. Um diamante discreto, mas cintilante.

    Confesso: foi a primeira vez que vi Noiserv ao vivo. Comecei a ouvi-lo em 2015, por força do Spotify, no rescaldo de Everything Should Be Perfect If No One’s There. Andei meses, por vezes em ‘loop’, a ouvir ‘Bullets on Parade’, ‘Don’t Say Hi If You Don’t Have Time for a Nice Goodbye’ e ‘Mr. Carousel’. E confesso outra coisa — e que Noiserv me perdoe: só tarde percebi que era português. Quase toda a discografia que então conhecia era em inglês, e eu, distraído, associei-lhe uma geografia longínqua, algures entre a Islândia e a Dinamarca. Mea culpa. A ignorância, ao menos, só a mim envergonha.

    Vê-lo ao vivo, porém, é outra experiência: a construção paciente das canções, camada sobre camada, num artesanato sonoro que se faz de loops sucessivos, mãos que saltam de teclados para guitarras, de pedais para a percussão e para pequenos instrumentos quase escondidos.

    Em Noiserv há uma espécie de delicadeza obstinada, um perfeccionismo matemático que não pesa — ele faz, desfaz, repete três acordes iniciais quantas vezes forem necessárias para a peça assentar exactamente no lugar certo. E fá-lo com serenidade, sem o drama dos génios atormentados.

    A voz — importa dizê-lo — é singular: um timbre suave, quase diáfano, mas com aquela textura aparentemente frágil que parece nascer entre o peito e a garganta, como se cada palavra fosse mais respirada do que pronunciada. É uma voz que não quer dominar a canção; quer habitar dentro dela.

    E depois há as peças que dispensariam voz — verdadeiras paisagens cinematográficas, onde a melodia sugere viagens, memórias, silêncios, nevoeiros, a infância a voltar por instantes. Se Noiserv tivesse duas versões de si próprio — uma vocal, outra puramente instrumental — ambas fariam sentido. São universos complementares.

    A empatia com o público fez o resto. Histórias pequenas, contadas como quem está numa roda de amigos: a dos pés que, em criança, cresceram mais depressa do que o corpo (e que lhe frustraram a ambição de ser basquetebolista); ou a facilidade desarmante com que brincou com a própria música, com os improvisos, com os acasos. Quem vai a um espectáculo de Noiserv não vê um músico: vê uma alma.

    E a noite teria sido perfeita — não fosse o público. No final, depois de uma despedida emocionada, Noiserv deixou uma versão absolutamente imaculada de One Hundred Is Much More Than Ten Times Ten, do seu mais recente álbum, 7305, que conta com a participação de outros músicos e cantores, entre os quais Suma, que ali fizera um dueto em A Fearless Part Between a Kid and His Own Thoughts. Melhor do que no disco, mais intensa, mais pura. Uma obra-prima em qualquer latitude.

    E, no entanto, no fim, algo falhou. Não sei — e nem quero saber — se havia indicação prévia para não haver encore. Mas a verdade é que, depois daquela pérola final, instalou-se no auditório um embaraço difícil de descrever: grande parte do público não saía… mas também não aplaudia com força suficiente para provocar um regresso ao palco. Eu próprio, confesso (quarta confissão da noite), tentei ajudar os mais entusiastas. Um jornalista não deve influenciar plateias, mas estas coisas acontecem.

    Nada resultou. Faltou entusiasmo, sobraram palmas tímidas. Uma cena quase pateta, indigna do que tínhamos acabado de ouvir. Se por acaso Noiserv vier a ler estas linhas, aqui deixo o que talvez o público não soube dizer: por mim, faria dez encores. E teria sido pouco.

    Nota final: 5 em 5

  • Um concerto onde só a voz esteve presente

    Um concerto onde só a voz esteve presente

    Comecei a seguir Mazgani, um cantautor luso-iraniano nascido em 1974 e radicado em Portugal desde criança, por causa de uma publicação que dirigiu aos fãs. Dizia qualquer coisa como: “Meus amigos, quero dizer-vos que agora tenho um piano cá em casa.” 

    Fiquei imediatamente seduzida pela forma como falava — não pelas palavras, mas pelo sorriso de criança que lhe escapava do rosto, como quem vê finalmente cumprido um desejo antigo.

    Ao lê-lo, lembrei-me do meu próprio piano, quando decorava de fresco a sala da minha casa de infância. Recordei as vezes em que passava à porta apenas para o espreitar, e dos dias em que esperava impacientemente pelas 9 da manhã para desatar a tocar e assim abrasar inocentemente os ouvidos da vizinhança com os meus repetidos estudos… 

    A vida de um aprendiz de piano envolve duas forças irresistivelmente opostas: um garrido  entusiasmo que se solta dos dedos do estudioso e muito desespero por parte de quem não tem como se esquivar das agruras da escuta.

    Mazgani tinha hoje encontro marcado com o público no Teatro-Cine de Torres Vedras, pelas 21h30m. E um minuto depois dessa hora entrou na sala, sentou-se, agarrou-se à guitarra e pediu que apagassem as luzes.

    Desatou a tocar. Nem boa noite, nem um gesto de aproximação. Um gelo que se instalou ali, inteiro. Ele não trouxe mantas de afecto para nos aconchegar. Nós não sabíamos como dizer-lhe que queríamos que estivesse ali. 

    Um desencontro humano, estranho, quase injustificável, em que cada um  se abeirava de um mesmo precipício e caía para o seu lado sem haver lugar ao toque.

    Ao fim de duas músicas, alguém gritou. Mazgani respondeu no mesmo tom. Uma troca animalesca de sons. Ele perguntou se mais ninguém queria uivar. “A propósito, a próxima música chama-se ‘A dog at your door’ — um cão que uiva pela separação.”

    Ok. Ali estava, finalmente, um sinal de humanidade, alguma dor…

    Agradeceu depois o jogo de luzes — “muito elegante”, disse — e voltou a desafiar-nos: Ninguém uivava? Ninguém dançava? Garantia que se alimentava do nosso calor.

    Mas eu via nele uma urgência em despachar a noite desde o primeiro minuto. Um músico de estúdio, talvez. Ou talvez os músicos — os artistas em geral — já não se sintam obrigados a interagir com o público. O mundo mudou tanto em matéria de afectos que até o palco parece, por vezes, um território neutro. 

    Mas se não nos tocamos, como é que nos encontramos, mesmo partilhando o mesmo espaço?

    Mazgani obrigou-me a experimentar um exercício novo: fechei os olhos e deixei de pensar nele como presença física. Era como se só a voz dele tivesse comparecido ao nosso encontro — e, curiosamente, foi aí que tudo fez sentido.

    A voz de Mazgani é um instrumento feroz. Sussurra como se os lábios pudessem arrepiar a pele junto aos nossos ouvidos; os seus gritos enchem-se de tonalidades graves e agudas que nos varrem por dentro. A sua voz move-se, cresce, dilata-se, estremece-nos. 

    No fim agradeceu e disse que fomos “muito amáveis”. 

    Mas eu, cheiinha do espectáculo que consegui resgatar dos escombros de um encontro catastrófico, já não me deixei tocar pela ironia.

    Nota final: 4 em 5

  • O pop-rock dos anos 80 envelhece bem (como nós)

    O pop-rock dos anos 80 envelhece bem (como nós)

    Há datas que não precisam de ser redondas para justificar uma celebração — basta que a memória colectiva dê sinal de vida. E no Coliseu dos Recreios, numa noite que começou às 22 horas como se Lisboa inteira ainda vivesse nos anos 80, os Táxi relembraram-nos os tempos em que o país ainda mal sabia o que era uma guitarra eléctrica, mas em que eles ousaram meter o pé no acelerador num veículo de pop adolescente, refrões de bolso e melodias que sobrevivem melhor ao tempo do que muitos blocos de apartamentos da Expo’98.

    ‘Páginas Amarelas’ abriu a noite, e não foi inocente: embora muitos jovens nem imaginem o que era isso, continua a ser uma metáfora actual e perfeita sobre a obsolescência, a irrelevância e aquele charme das coisas que já ninguém usa mas ninguém esquece. Seguiu-se ‘Cairo’ — a música-título do segundo álbum, que inovou em 1982 com uma capa de metal redondo —, numa versão mais madura, menos pop do que a original — e muito melhor.

    Apesar de apenas João Grande (vocais) e Rui Taborda (baixo) se manterem da formação original — ou talvez por isso —, os Táxi entram na meia-idade (depois de longos períodos de baixa actividade) com muita dignidade.

    João Grande, aos seus impressionantes 72 anos — impressionantes não pela aritmética, mas pela energia teimosamente juvenil —, tem a noção de já não estar nos anos 80 do século passado, mas soube adaptar a maturidade da sua voz à evolução musical dos tempos (e dos gostos) e aos novos integrantes, muito mais novos. No trio de ‘jovens’ destaca-se Sérgio Loura, um guitarrista de mãos cheias, bem secundado pelo outro guitarrista, Nelson Funky, e pelo baterista Hugo Drums.

    Os arranjos actuais dos Táxi são mais densos, mais trabalhados, como se as canções tivessem deixado a rebeldia dos 20 para assumirem a elegância dos 50. ‘A Queda dos Anjos’ mostrou isso: continuamos todos a ‘ir à Roxete’, mesmo sem lembrar exactamente porquê — mas a nostalgia funciona assim, basta o refrão.

    Ao longo de mais de duas horas de celebração — foi para isso, e por isso, que se encheu o Coliseu dos Recreios com 90% de pessoas da minha geração ou mais velhos —, houve também momentos de ternura sonora — ‘Sozinho’, esse slow do início dos anos 90 que fazia pares improvisarem namoros em discotecas e garagens — e momentos de arrojo eléctrico, como ‘Fio da Navalha’, que ao vivo continua a ser uma faca sem tampa.

    Houve momentos mais ternurentos, como o da participação do Coro Juvenil Regina Coeli, no tema ‘Não sei sei sei’, E, um pouco mais, surgiu uma versão especial do ‘Meu Manequim’, com a batida pesada em dueto com Daniela Jesus (uma boa combinação), que mostrou que o álbum de estreia ainda tem músculo suficiente para aguentar qualquer palco contemporâneo.

    Entre músicas, percebeu-se a maturidade de uma banda que não tenta reviver o passado: apresenta-o como se fosse presente. E o trio de metais foi disso um aprazível exemplo. O público — uma mistura sobretudo de cinquentões, sessentões e alguns jovens teimosos que descobriram que os pais até ouviam ‘coisas com piada’ — correspondeu com entusiasmo.

    O Coliseu vibrou, cantou, saltou, e em certos momentos pareceu um regresso aos tempos em que as guitarras eram mais baratas do que os computadores e formar uma banda era um projecto tão legítimo como estudar engenharia. Só nos temas mais intimistas, apenas com guitarras acústicas, houve algum desfasamento da voz de João Grande — não sei se por falta de versatilidade da sua voz ou por questões técnicas. Não sendo dispensável, essa parte não acrescentou muito à festa.

    Mas, como sempre, também aqui houve rituais sagrados, mal guardados. E os Táxi respeitaram-nos todos, excepto um: deixaram o maior sucesso para o encore. O público teve de esperar, suportar a ansiedade colectiva… para finalmente ouvir ‘Vida de Cão’. Muito bem recebida, claro — mas todos sabiam que ainda faltava a verdadeira estrela da noite.

    Só depois, já no momento em que o Coliseu parecia pronto para explodir com a desfeita (que seria impossível), veio ‘Chiclete’. E aí não houve nostalgia possível: foi pura celebração, catarse pop-rock, coro de milhares, prova viva de que há canções que não envelhecem porque nunca pertenceram verdadeiramente ao tempo.

    E quando já se esperava o fim — porque é belo encerrar com o clássico dos clássicos — eis que João Grande, teimoso como só os bons veteranos sabem ser, decide dar um segundo encore. Aos 72 anos, já depois de o meu telemóvel ter pifado a bateria. E ainda se predispôs, no fim, a dois dedos de conversa e fotografias.

    Não fiquei para essa sessão extra, mas não fiquei imune à energia de João Grande. E assim, como sou coerente, vi-me forçado, com prazer, a ser justo: se há uns meses, aos Imagine Dragons, tirei 0,5 pontos por não darem encore, então os Táxi, que deram dois, merecem mais 0,5 pontos do que aquilo que lhes iria atribuir.

    Nota final: 4,5 em 5

  • Um concerto (que não se viu) e dois crimes (que se viram)

    Um concerto (que não se viu) e dois crimes (que se viram)

    Há concertos que se assistem com os olhos e outros que se escutam apenas com o espírito — sobretudo quando o promotor decide que a lei é um incómodo. No caso do concerto dos Leprous, ontem em Lisboa, o espírito teve de bastar. A empresa Free Music, promotora do evento, achou preferível cometer dois crimes — obstrução à liberdade de imprensa e desobediência a entidade reguladora — a permitir que um jornalista fizesse o seu trabalho.

    A promotora preferiu o arbítrio à transparência, a força à razão. E, paradoxalmente, acabou por oferecer à crítica o mais curioso dos desafios: escrever sobre um concerto que não se viu, mas que se sente, porque os Leprous são, em si mesmos, uma experiência sensorial que transcende a mera presença física.

    Fundados em 2001 na Noruega, os Leprous são uma das bandas mais desafiantes e sublimes do metal progressivo contemporâneo — e, atrevo-me a dizer, um dos grupos mais sofisticados de toda a música moderna, independentemente de géneros.

    A voz etérea e quase sobrenatural de Einar Solberg — que atravessa o barítono e o tenor lírico, com domínio absoluto dos falsetes e uma expressividade rara no metal progressivo, sobressaindo mesmo entre as batidas mais pesadas — e o virtuosismo desconcertante e inesgotável do baterista Baard Kolstad formam o núcleo de uma alquimia sonora que conjuga técnica, emoção e risco artístico em doses raras. Acompanhados por mais três guitarristas virtuosos (Tor Oddmund Suhrke, Robin Ognedal e Simen Daniel Børven), os Leprous são um daqueles casos em que a palavra “progressivo” deixa de ser etiqueta de prateleira e se torna programa estético.

    Os Leprous vivem, porém, num território próprio: demasiado intensos para o mainstream, demasiado melódicos para o underground, demasiado humanos para o metal puro. Até fazem covers dos seus ‘patrícios’ de outra geração, os a-ha, com uma sonoridade desarmante. Talvez por isso permaneçam uma das bandas mais subestimadas da actualidade. Não lhes falta talento, nem catálogo, nem presença — falta-lhes, sim, a estrutura de promoção que o seu valor mereceria.

    Leprous no Hellfest Open Air Festival, em Clisson, perto de Nantes, em Junho passado.

    Embora façam tournées por esse mundo fora — esta, que se prolongará pela Europa até Fevereiro de 2026, sucedeu a outra pelas Américas, incluindo o Brasil —, actuam geralmente em salas pequenas, como se ainda não se tivesse reparado na dimensão da sua arte. E talvez a culpa resida em promotores de segunda divisão, como esta Free Music, que nem os sabe divulgar nem respeita quem os deseja destacar.

    Mas falemos de música — a única justiça que importa. A minha relação com os Leprous começou tarde, em 2020, durante a pandemia, quando, perdido nas ondas do Spotify, tropecei no extraordinário ‘Live at Rockefeller Music Hall’, de 2016. Foi amor auditivo à primeira nota. Gravado em Oslo, o disco é uma aula de intensidade controlada: os arranjos intricados, a tensão emocional e a voz arrebatadora de Solberg transformam-no num dos mais notáveis registos ao vivo da última década.

    O tema ‘Slave’ é, para mim, um dos momentos definidores da música moderna — uma mistura de dor, redenção e catarse que ouvi em loop durante meses (e ainda agora oiço), como se cada repetição acrescentasse uma camada de sentido. De forma profética, ‘Slave’ espelhou para mim o confinamento interior dos tempos pandémicos, quando cada quarto se tornou cela e espelho dos próprios demónios. A repetição de “Make your move / End it all” traduz o desespero de uma humanidade paralisada entre o medo e o desejo de libertação.

    Regressemos ao álbum ‘Live At Rockefeller Music Hall’, descrito no próprio texto promocional da editora Inside Out Music com propriedade: “marks the first live release by groundbreaking Norwegian modern progressive metal group Leprous… this release proves the public acclaim to be well deserved.” E assim é. A gravação, misturada por David Castillo e masterizada por Tony Lindgren, capta a essência de uma banda que, em palco, se revela mais orgânica, mais tensa, mais viva do que em estúdio. E foi assim que este concerto me puxou para outros álbuns dos Leprous, numa sequência inevitável de descobertas.

    E eis que chegamos ao presente, ‘Melodies of Atonement’, um original do ano passado, e ao novo ‘An Evening of Atonement’, já deste ano, um registo ao vivo no Poppodium 013, na cidade holandesa de Tilburg, uma das salas mais respeitadas da Europa, onde a banda celebrou uma espécie de reconciliação com o passado: 21 faixas que percorrem toda a carreira, desde o inaugural ‘Tall Poppy Syndrome’ até ao recente ‘Melodies of Atonement’. Falta-lhe — e é uma grande e imperdoável falha — ‘The Last Milestone’, um epílogo do álbum ‘Malina’ (2017), que nada tem de metal progressivo, mas que é, talvez por isso mesmo, de uma beleza emotiva que, além de tudo, demonstra a voz sobreatural e sobredotada (e o seu controlo absoluto) de Einar Solberg.

    Lendo as críticas aos concertos recentes dos noruegueses, sei bem o que perdi, se Einar Solberg e os seus companheiros tiverem tido uma noite normal. Os jornalistas que assistiram às datas europeias descrevem-no como um espectáculo de contrastes, onde ‘The Price’, ‘Nighttime Disguise’ e ‘Slave’ alternam com as confissões melódicas de ‘Alleviate’, ‘Below’ e ‘Castaway Angels’; a vulnerabilidade de ‘I Hear the Sirens’ e ‘Distant Bells’ convive com a fúria de ‘Like a Sunken Ship’ e ‘Forced Entry’. Uma performance de cinco músicos no limite das suas capacidades — sem orquestrações nem adornos —, em que a emoção se impõe à produção. “A chave de um bom álbum ao vivo”, escreveu um crítico britânico, “é captar o poder do desempenho, e ‘An Evening of Atonement’ faz isso na perfeição.”

    E é precisamente isso que eu esperaria ter visto em Lisboa: uma demonstração de técnica e entrega, uma comunhão sonora entre o cerebral e o visceral. Imagino Kolstad a incendiar o palco, como faz sempre, com aquela precisão que transforma a bateria num instrumento melódico, e Solberg a elevar-se sobre a multidão, quase como um pregador laico da melancolia. Imagino a alternância entre o recato e o delírio, a pulsação matemática e o arrebatamento emocional. Imagino — porque o promotor decidiu que a imaginação seria a única forma legítima de assistir ao concerto. E preferiu também ter de gastar tempo e dinheiro a responder por dois processos-crime.

    Quanto a mim, aguardarei o regresso dos Leprous, que, em apenas cinco anos, actuaram pelo menos três vezes em Portugal. E quando voltarem, que tragam boa energia e arranjem outro promotor.

    Porque se assim for, será sinal de que estão, enfim, a ascender ao patamar que há muito merecem: o dos músicos sérios com reconhecimento devido — porque trabalham com quem respeita o público, a imprensa e a música. E não com empresas de saldo, como a Free Music, que contam tostões e mesmo sobrevivem (mal, e com prejuízos em 2024) à custa de uma mediocridade que nem o eco de bandas magníficas consegue disfarçar.

    Nota final: 5 em 5 (para os Leprous); 0 em 5 (para a Free Music)

    N.D. O incidente ocorrido no concerto dos Leprous em Lisboa não é apenas um episódio lamentável de má gestão cultural: é um caso com contornos penais claros.

    De acordo com o artigo 19.º da Lei de Imprensa (Lei n.º 2/99, de 13 de Janeiro), comete o crime de obstrução à liberdade de imprensa quem impedir, perturbar ou condicionar o exercício legítimo da actividade jornalística. A infracção é punível com pena de prisão até um ano ou multa até 120 dias, podendo ainda implicar responsabilidade civil por danos causados ao jornalista e ao órgão de comunicação social.

    Paralelamente, o artigo 348.º do Código Penal define o crime de desobediência para quem recuse cumprir uma ordem legítima emanada de autoridade pública, neste caso uma deliberação vinnculativa e de efeitos imediatos da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. É uma infracção autónoma, punível com prisão até um ano ou multa até 120 dias, agravada quando a ordem desobedecida tem sanção expressa.

    Acresce que o promotor impediu o trabalho de um jornalista devidamente identificado e não aceitou a deliberação mesmo na presença de dois agentes da PSP (Ricardo Tinoco, n.º 159029, e Miguel Marques, n.º 159426), que tiveram acesso à deliberação da ERC, o que constitui flagrante delito presenciado por autoridade policial. Esta ocorrência será também participada ao Ministério Público.

    Podem muitos considerar que esta é uma obstaculização menor do acesso à informação. Não é assim – é um caso grave, porque consubstancia uma prática ilegal. Hoje num concerto, amanhã num teatro, depois num congresso partidário, a seguir no Conselho de Ministros, e por aí fora.

    Obviamente, em novo espectáculo promovido pela Free Music, o PÁGINA UM solicitará uma acreditação que, se não concedida em tempo útil, levará a nova participação à ERC e a novas queixas-crime no Ministério Público se o acesso não for novamente permitido.

  • A esplendorosa melodia da globalização

    A esplendorosa melodia da globalização

    O caos do quotidiano é, por vezes, a mais refinada forma de poesia. Vivemos num tempo em que a pressa se tornou vício, e o movimento incessante substituiu o silêncio interior. As horas atropelam-se umas às outras, como se o dia fosse um palco em que o protagonista, aflito, corresse de cena em cena sem nunca dominar o guião.

    Dei por mim, em menos de quarenta e oito horas, a acumular no pulso direito duas pulseiras de contextos tão díspares quanto simbólicos: a primeira, no Hospital de São José, em Lisboa, após uma queda estúpida que me fez suspeitar de um osso partido no braço esquerdo (está tudo bem, felizmente); a segunda, já na noite seguinte, no LAV, onde Tamino – um belga de raízes egípcias – transformou o espaço num templo sonoro. Entre ambas, uma viagem relâmpago ao Porto para testemunhar como arguido, de pé, durante horas num julgamento kafkiano, só mitigada por um almoço de leitão à Bairrada e um jantar de pernil.

    E foi já quase no final do concerto, enquanto ecoava “Indigo Night” e depois “Habibi”, que me apercebi da ironia sublime desses dois selos de passagem — um hospitalar, outro musical — e de como a vida, mesmo no seu torvelinho, é bela, se soubermos escutá-la com atenção.

    Essa sucessão de episódios, quase cinematográfica, condensa bem a condição humana contemporânea: entre o prosaico e o sublime, entre a burocracia e o arrebatamento, entre a queda e o voo. Cada pulseira, como cada momento, é uma marca de pertença — ora ao corpo que dói, ora à alma que se eleva. Há quem veja nisto uma simples coincidência; eu vi um lembrete discreto da vida a dizer-me que o tempo, quando se vive intensamente, cabe inteiro em dois dias.

    Foi precisamente essa intensidade, de uma beleza por vezes inquietante, que Tamino trouxe ao palco do Lisboa ao Vivo (LAV). Com a sala completamente esgotada – eu tive a fortuna de ficar nos varandins –, o músico apresentou-se sem alinhamento fixo, preferindo deixar-se conduzir pela emoção do instante. “Tonight I’m trying something slightly different”, avisou ele, e foi essa imprevisibilidade que fez do concerto uma experiência quase ritual. O público, entregue, seguiu-o numa travessia pelas melodias do Crescente Fértil, onde as fronteiras entre Ocidente e Oriente se desvanecem em acordes de oud e sussurros de guitarra.

    Tamino é um daqueles raros artistas que parecem emergir de um tempo fora do tempo. A sua altura, a sua postura e sobretudo sua voz, situada entre o tenor e o barítono, carregam uma ressonância antiga, como se contivesse séculos de melancolia. A herança egípcia e a formação europeia encontram-se num ponto de equilíbrio que não é apenas geográfico, mas espiritual – a globalização no seu melhor.

    Dizem que se identificam semelhanças com Jeff Buckley ou Nick Drake, mas parece-me redutor e injusto: Tamino não é eco de ninguém – é antes um viajante entre mundos, um poeta da incerteza, um alquimista que transforma silêncio em som e dor em beleza.

    A viagem começou com “Every Dawn’s a Mountain”, tema que dá título ao seu álbum mais recente, lançado este ano. As primeiras notas soaram como um convite à introspecção. Seguiram-se “Raven” e “Sanpaku”, onde o oud — esse instrumento de alma árabe — traçou arabescos sonoros que evocaram o Cairo, o deserto e o murmúrio dos minaretes. Tamino alternou incessantemente entre guitarras clássicas e eléctricas, cruzando geografias e emoções. Em “Willow”, aproximou-se do folk europeu; em “A Drop of Blood”, revelou-se como um trovador místico dos tempos modernos.

    A meio do concerto, sozinho em palco, ofereceu “My Dearest Friend and Enemy”, num registo quase confessional, seguido de “w.o.t.h.”. Quando regressou a “Tummy” e “Sanctuary”, já com a sua banda (bem sincronizada), o público sentiu o concerto ascender a um plano mais luminoso, onde a emoção se tornava partilhada.

    Mas o clímax chegou, inevitavelmente, com “Indigo Night”. Este tema, um dos mais amados do seu repertório, transformou o LAV num santuário de contemplação. As luzes azuladas, o violoncelo em surdina e o timbre envolvente de Tamino criaram uma atmosfera quase litúrgica. Já no encore, surgiu “Habibi” – melancólica história de amor a um ente (físico ou espiritual), com o seu refrão em falsete que ecoou pela sala como um cântico de devoção. Era a consagração do instante, o triunfo da vulnerabilidade sobre o ruído do mundo – por mim, ficava por aqui e tudo o mais poder ser medíocre que já estavam asseguradas as 5 estrelas.

    Entre as sombras e os clarões, Tamino provou que ainda há espaço, na música contemporânea, para a beleza que não precisa de artifício. A sua arte é feita de despojamento, de entrega e de uma honestidade que desarma. Por isso mesmo, exige do público um grau de concentração e silêncio raros — o mesmo silêncio que faltou a alguns, incapazes de compreender que há concertos que são quase orações.

    Ao sair, voltei a olhar para o meu pulso e para a pulseira que restava. Já não era sinal de hospital nem de espectáculo: era um lembrete de que, entre o corpo que cai e a alma que canta, há uma vida que pulsa, desordenada e magnífica.

    E talvez seja esse o maior ensinamento de Tamino: que a beleza não é ausência de dor, mas a sua sublimação. Que viver é, afinal, andar entre quedas e concertos, entre ferimentos e melodias — e que cada um desses instantes, mesmo os mais caóticos, é uma nota indispensável da sinfonia maior que chamamos existência.

    Nota final: 5 em 5.

    Fotografias: Gonçalo Silva / Last Tour

  • Um (bom) concerto entre telemóveis e gritos

    Um (bom) concerto entre telemóveis e gritos

    Perceba-se: um tipo anda já a meio dos cinquenta, com ares de respeitabilidade — pouca, é certo, porque o cabelo comprido não ajuda — e com o peso da idade a cair-lhe nos joelhos e nas pálpebras, e de repente dá por si a enfiar-se no Meo Arena para ver Shawn Mendes. Sim, Shawn Mendes, um rapaz com metade da minha idade, de apelido português, mas canadiano de nascença, que canta baladas capazes de fazer suspirar uma geração que poderia ser filha (ou, pior ainda, neta) deste escriba.

    É a vida a passar e a passear-se. Os de hoje têm Shawn Mendes como nós tivemos George Michael na fase dos Wham! — pré-metafísica de Jesus to a Child — ou até Rick Astley, com aquele pop asseado que parecia saído de uma lavandaria britânica. E se quisermos rebobinar a cassete para os anos 90, o paralelo mais directo será talvez Robbie Williams na transição dos Take That para a carreira a solo — ainda sem o sarcasmo autodestrutivo — ou o Bryan Adams de (Everything I Do) I Do It for You, que fez suspirar meio planeta. Há até uma pontinha de Glenn Medeiros, também ele de raízes lusitanas, para quem se lembra de ouvir Nothing’s Gonna Change My Love for You nas rádios de 1987.

    João Padinha / Everything is New

    Aliás, o sucesso de Shawn Mendes em solo português não deixa de ter graça: há aqui uma espécie de herança lusófona que faz lembrar Nelly Furtado nos anos 2000, esse orgulho luso-canadiano que conquistou os tops mundiais like a bird.

    Cheguei ao concerto quase às cegas: conhecia três ou quatro músicas, mas confesso que não saberia entoar o refrão de nenhuma. E aterrei, sem ver as actuações da belga Lubiana e da portuguesa Maro, num mar de adolescentes e jovens adultos, talvez 95% mulheres — os outros 5%, presumo, seriam namorados resignados — e esperei para ver o que dali saía.

    Antes de Shawn Mendes aparecer, depois da entrada dos músicos, concebi um título possível da crónica: Um concerto de telemóveis e (de) gritos. Os telemóveis formaram uma maré luminosa constante — grava-se tudo, mesmo que se veja pouco — e os gritos surgiam em modo sirene, sobretudo cada vez que o rapaz sorria, dizia “Lisboa” ou pegava na guitarra. Confesso: para quem está ali apenas para escrever uma crónica sociológica, quase como um extraterrestre, há encanto nisto. Mas também fica a sensação de que estamos num karaoke gigante: as fãs cantam tão alto que às vezes quase não se percebe se o homem canta mesmo bem ao vivo. Suspeitei logo no início que sim, mas só nas baladas mais intimistas consegui confirmar.

    João Padinha / Everything is New

    O concerto abriu com um foguetório e There’s Nothing Holding Me Back, e Mendes tomou conta do palco com uma naturalidade desarmante: calças largas, colete negro, um sorriso de fazer corar as adolescentes. O som esteve sempre coeso, a banda entusiasmada, e o alinhamento trouxe alguns temas que já conhecia: Wonder, Treat You Better, Monster, Lost in Japan em modo disco, e, inevitavelmente, Señorita, com as fãs a cantar de forma ensurdecedora.

    E pelo meio, uma ligação genuína ao público. Mendes falou da família, disse sentir-se “em casa”, embora sem dizer uma frase em português, vestiu a camisola 21 em homenagem a Diogo Jota — uma espécie de ritual de ligação a Portugal — e até deixou cair umas palavras sobre Gaza, apelando ao fim do ódio e à escolha do amor. Foi o momento político da noite, relevante para uma plateia que talvez não siga de perto o que se passa no Médio Oriente.

    Entre as músicas novas e as “velhas glórias” — não são assim tantas, que o rapaz tem apenas 27 anos —, Shawn Mendes equilibrou intimismo e espectáculo, emoção e energia. O cenário foi minimalista, sem grandes parafernálias, mas eficaz: uso ponderado dos ecrãs, fogo-de-artifício na medida certa, nada de Las Vegas, mas o suficiente para dar aquele sabor de noite grande.

    Foto: Pedro Almeida Vieira

    Na recta final, a sequência If I Can’t Have You, Why Why Why e In My Blood levou o público ao delírio, culminando com confettis, bandeiras de Portugal e a deliciosa ironia de sair ao som de Uma Casa Portuguesa. Há programadores de setlist que merecem um abraço só por estas ideias.

    Saí do Meo Arena surpreendido: não porque sobrevivi sem perda auditiva permanente, mas porque percebi que Shawn Mendes tem mais estofo do que a simples máquina de hits pop faria supor. Tem carisma, voz, uma ligação genuína aos fãs e uma presença de palco que não se aprende nos reality shows. Tem, acima de tudo, uma coisa rara no mundo do mainstream: autenticidade. E, por entre telemóveis erguidos e gritos esganiçados, é isso que um bom concerto deve mostrar.

    Nota final: 4 em 5.