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  • Corfu: ‘Temos de os travar antes que destruam a nossa ilha’

    Corfu: ‘Temos de os travar antes que destruam a nossa ilha’

    A 10 de Novembro, quando no Brasil se assistia ao início da COP30, as autoridades gregas anunciaram a intenção de arrancar com a extracção de petróleo e gás natural no Mediterrâneo. O projecto seria concretizado com um forte apoio dos Estados Unidos. A maior empresa petrolífera norte-americana, ExxonMobil, juntamente com a  empresa britânica Energean e a grega HelleniQ Energy, já tinham garantido os direitos para explorar e extrair gás natural (e possivelmente petróleo) no Mar Jónico – a noroeste da ilha de Corfu.

    De acordo com as estimativas de Atenas, as primeiras plataformas de teste poderão estar operacionais até ao final do ano em curso – ou, no máximo, na primeira metade de 2027. Se o projecto de teste/prospecção for bem-sucedido, a perfuração comercial perto de Corfu poderá começar em 2030. Segundo estimativas não oficiais, a chamada área do Bloco 2 poderá conter cerca de 200 mil milhões de metros cúbicos de gás natural.

    Os trabalhadores do turismo na aldeia de Paleokastritsa, no noroeste de Corfu, temem que a perfuração de petróleo e gás possa destruir os seus negócios e as suas vidas. /Foto: Boštjan Videmšek

    Após mais de quatro décadas, a Grécia optou por abrir o seu mar à indústria global do petróleo e gás. A perfuração experimental a noroeste de Corfu marcará a primeira empreitada do país desde 1981, quando foi concluída a plataforma perto da aldeia costeira de Katakolo.

    Um regresso à era dos combustíveis fósseis

    Desde o início da invasão russa em larga escala da Ucrânia há quatro anos, a indústria do petróleo e gás tem registado lucros recorde. O “Império Fóssil” tinha, de facto, contra-atacado. Apesar dos seus ambiciosos objectivos de redução de gases com efeito de estufa, a União Europeia apoiou o projecto de perfuração perto de Corfu. A razão citada foi a “independência energética da Rússia”.

    Poucas semanas antes da Grécia e dos Estados Unidos assinarem os contratos, Bruxelas decidiu deixar completamente de importar petróleo e gás natural russos até ao final de 2027. Apesar das sanções, tanto o petróleo como o gás continuaram a fluir de forma constante para a Europa durante a agressão russa à Ucrânia. Por outro lado, o mercado europeu foi inundado com gás natural liquefeito dos Estados Unidos, obtido em grande parte através do fracking.

    Irão, em breve, grandes petroleiros navegar ao largo da costa de Corfu? /Foto: Boštjan Videmšek

    Em breve, ficará claro se a Grécia também poderá ser persuadida a aprovar a extracção de combustíveis fósseis na área geopoliticamente extremamente sensível a sudoeste da ilha de Creta.

    Trata-se de uma parte do Mar da Líbia seleccionada pela Turquia (juntamente com as autoridades transitórias em Trípoli) em 2019 como a sua própria “zona de interesse”. Foi a resposta turca à construção pretendida do chamado gasoduto EastMed, que deveria ligar o Egipto, Israel, Palestina, Líbano, República de Chipre e Grécia.

    Os dois países que mais se destacam na facilitação desta ligação são os Estados Unidos e a França. Se o acordo for concluído, o papel principal na extracção do gás natural perto de Creta será desempenhado pela gigante norte-americana Chevron. As autoridades gregas também emitiram recentemente licenças para novos locais de perfuração a sul da península do Peloponeso.

    Foto: Energean

    Em Outubro de 2025, a Casa Branca – com o apoio da Grécia e de Chipre, os únicos dois membros da União Europeia (UE) que votaram contra – conseguiu travar a tentativa da Organização das Nações Unidas (ONU) de impor um imposto global sobre o carbono ao transporte marítimo.

    Um novo monopólio

    “Não existe uma transição energética, existe apenas uma adição de energia”, disse o milionário secretário do Interior norte-americano, Doug Burgum, em Novembro passado, em Atenas, aquando da assinatura do contrato entre a empresa ExxonMobil e os seus parceiros gregos.

    “A América está de volta e perfura no Mar Jónico”, acrescentou a embaixadora dos Estados Unidos na Grécia, Kimberly Guilfoyle. O ministro grego do Ambiente e Energia, Stavros Papastavrou, classificou o acordo como “histórico”.

    Fonte: WWF Grécia

    Nos últimos anos, a Grécia tem estado muito activa na tentativa de acelerar a sua transição para fontes de energia renovável. No entanto, em 2025, as autoridades gregas assinaram um acordo abrangente sobre importações de gás natural, no valor de 700 milhões de metros cúbicos de gás importado por ano durante as próximas duas décadas. Todo o acordo feito pela Comissão Europeia e pelos Estados Unidos relativo às importações de gás natural para a UE vale 680 mil milhões de euros.

    Na sequência da recente mudança de rumo, a Grécia tem também vindo a fortalecer a sua infraestrutura logística, bem como o seu papel na indústria global do petróleo e gás. Os navios-tanque de gás natural liquefeito (GNL) norte-americanos começarão em breve a atracar no terminal de GNL de Revithoussa, nomeado em homenagem ao ilhéu de Revithoussa, a oeste de Atenas. A partir daí, o gás também poderá chegar à Ucrânia, que tem uma grande necessidade de energia, através do chamado “Corredor Vertical do Gás”, que liga a Grécia, a Bulgária, a Roménia e a Moldávia.

    De acordo com estimativas da Reuters e da  consultora Energy Aspects, os Estados Unidos irão fornecer cerca de 70% de todas as importações europeias de gás natural durante o período de 2026 – 2029. No ano passado, o número foi de 58%, com a UE a importar 85% de todo o seu gás natural consumido. Em 1990, a UE importava apenas 50%.

    Foto: Energean

    Analistas preveem que a proibição total de importação de gás da Rússia em 2028 só aumentará a já impressionante percentagem de gás natural importado. De acordo com dados do Institute for Energy Economics and Financial Analysis , a UE pagou aproximadamente 225 mil milhões de euros pelo gás liquefeito importado nos últimos três anos – incluindo 100 mil milhões de euros pelo gás dos Estados Unidos. O país cobra aos seus compradores da UE mais do que qualquer outro fornecedor estrangeiro.

    No ano passado, a UE e os Estados Unidos assinaram um acordo comercial que obriga a UE a comprar 250 mil milhões de dólares em produtos energéticos (maioritariamente gás) por ano. Para cumprir as suas obrigações, a UE é obrigada a obter 70% das suas importações de energia dos Estados Unidos.

    A equação é bastante clara. A UE decidiu substituir a Rússia pelos Estados Unidos como principal fornecedor de gás. Está a ser criado um novo monopólio, acabando com todas as perspectivas de independência energética e autossuficiência europeias.

    Corfu. /Foto: Boštjan Videmšek

    Os advogados da área do ambiente e os ambientalistas gregos alertam que as recentes concessões de petróleo e gás certamente vão pôr em risco a biodiversidade da Fossa Helénica. Esta, tal como os locais de perfuração previstos, estende-se desde a parte noroeste do Mar Jónico até à costa sudoeste de Creta. A área é habitada por muitas espécies animais em perigo, como cachalotes, golfinhos, focas-monge mediterrânicas e tartarugas marinhas.

    É pelo menos ligeiramente irónico que o Ministério do Ambiente e Energia da Grécia tenha declarado recentemente a sua intenção de transformar uma parte da já protegida área marinha num parque nacional marinho, embora uma parte do local designada para perfuração já esteja incluída na Rede Natura 2000.

    Há alguns meses, os advogados ambientalistas apelaram à Comissão Europeia para parar “a perfuração ilegal num meio ambiente sensível“. No entanto, até agora, Bruxelas não conseguiu apresentar uma resposta concreta.

    Cachalote. / Foto: D.R.

    “Os ecossistemas que funcionam são um dos nossos principais aliados na luta pelo clima”, afirmou Francesco Maletto, advogado do  ClientEarth. “A sua importância não pode ser subestimada e proteger a natureza deve ser uma prioridade absoluta. Mas o que estamos a ver aqui são baleias, golfinhos, tartarugas e uma ecologia vital do fundo marinho a serem sacrificados em nome dos combustíveis fósseis”.

    “A falta de transparência é extremamente problemática”, disse-me Anna Vafeiadou, responsável de área jurídica da organização não-governamental (ONG)WWF (World Wide Fund for Nature) na Grécia. “As estruturas oficiais continuam a dificultar muito o acesso a informações supostamente públicas. Há enormes atrasos na resposta aos nossos pedidos – se é que recebemos alguma resposta. Pouco foi publicado oficialmente, e praticamente nada a tempo. Neste momento, está claro que a não comunicação com as organizações ambientalistas, as comunidades locais e os media faz parte de uma estratégia. Por vezes, parecia que estávamos a lidar com uma missão secreta”.

    Sentei-me com Vafeiadou e os seus colegas na  sede da WWF Grécia, no centro de Atenas. Enquanto observávamos uma projecção dos mapas mais recentes dos potenciais locais de extracção, a equipa da ONG foi firme: “Como o Mediterrâneo Oriental está rapidamente a tornar-se uma ‘zona de inferno climático’, não há absolutamente espaço para novos petróleo e gás”.

    Anna Vafeiadou, advogada da WWF Grécia. /Foto: Boštjan Videmšek

    Vafeiadou apontou, horrorizada, a discrepância entre os objectivos climáticos muito rigorosos das autoridades gregas e a sua recente decisão de começar a extrair petróleo e gás. Como muitos colegas, estava convencida de que os projectos de petróleo e gás violavam a legislação ambientalista grega, enquanto as atividades prejudiciais planeadas na Rede Natura 2000 violavam a legislação da UE.

    “Antes de aprovarem os investimentos, as autoridades gregas não conseguiram controlar totalmente o perigo para o ambiente”, salientou Vafeiadou. “Especialmente, para os ecossistemas marinhos e as áreas protegidas. Na nossa opinião, houve uma conivência sistémica para minimizar os riscos”.

    Perguntei  à responsável da área jurídica da WWF na Grécia se o processo podia ser revertido. Os novos projectos de petróleo e gás ainda podem ser travados?

    Foto: The Blue Panda / Tethys Research Insitute

    “Temos várias ferramentas disponíveis”, respondeu. “O acesso à informação ambiental é muito importante para podermos seguir o processo. Mas, como já mencionei, esse acesso tem sido muito lento ultimamente. O próximo mecanismo é a participação em consultas públicas antes do início das sondagens de teste. Só podemos esperar que o debate aconteça. O nosso último recurso é o ramo legislativo – tanto a nível interno como a nível da UE. Temos a sorte de ter tanto a legislação ambientalista grega como a estratégia nacional de energia do nosso lado. É nisso que confiamos – assim como na resposta das comunidades locais e de todo o público grego”.

    Lucros para alguns (poucos)

    “A Grécia tem, pelo menos, de examinar se as suas reservas de gás natural estão a ser utilizadas”, comentou o primeiro-ministro grego conservador, Kyriakos Mitsotakis, após a assinatura do acordo com a ExxonMobil. Falando ao canal nacional de televisão ERT, Mitsotakis salientou que os acordos mais recentes melhoraram significativamente o estatuto geopolítico do país, bem como a sua perspectiva energética. Acrescentou que a Grécia está a fazer a transição de ser um ponto terminal da rede energética para se tornar num importante centro para o transporte de gás natural para o norte da Europa.

    Esta interpretação fez a maioria dos meus entrevistados gregos abanar a cabeça em exasperação. O ponto mais frequentemente levantado foi o potencial excepcional da Grécia para obter energia de fontes renováveis como o sol e o vento.

    Foto: Joan Gonzalvo

    “A Grécia tem tudo o que precisa e pode ser um modelo para um verdadeiro futuro de energia verde: energia solar abundante, fortes recursos eólicos e potencial renovável descentralizado. No entanto, os novos desenvolvimentos nos campos de gás no Mar Jónico ameaçam travar décadas de dependência dos combustíveis fósseis”, sublinhou, o Dr. Alexis Katechakis da  Universidade Ludwig Maximilian, em Munique, através de um e-mail.

    Como um dos críticos mais veementes da recente reviravolta grega na energia, o Dr. Katechakis foi claro: “a questão não é se a Grécia consegue fazer a transição para a energia limpa. É se a liderança escolherá lucros de extracção a curto prazo em vez da sobrevivência a longo prazo”.

    Nas últimas décadas, a Grécia importou a maior parte do seu gás natural da Rússia, Argélia e, no período mais recente, também do Azerbaijão. Desde 1981, o país optou por evitar grandes projectos de prospecção e exploração que pudessem gerar conflitos com os países vizinhos e com os ambientalistas. No entanto, recentemente, esta abordagem parece ter sido radicalmente alterada. A Grécia está agora a rebaptizar-se como um novo centro energético a operar sob o patrocínio dos Estados Unidos.

    A Grécia está a tornar-se rapidamente o principal subcontratado dos Estados Unidos na região.
    /Foto: Boštjan Videmšek

    O WWF Grécia e outros ambientalistas gregos têm vindo a alertar que os novos projectos de petróleo e gás podem prender a Grécia à dependência dos combustíveis fósseis durante décadas.

    “Num momento em que a crise climática se está a tornar, segundo evidências científicas indiscutíveis, um estado de emergência permanente — o nosso país escolhe seguir na direção oposta, virando costas ao futuro”, indicou o WWF, numa resposta oficial.

    Acrescentou que “em vez de se libertar dos combustíveis fósseis, que acarretam elevados custos ambientais, económicos e sociais, caminha para décadas de dependência, risco ambiental e regressão económica”. “Levantamentos sísmicos, perfurações e plataformas de extracção causam poluição extensiva, poluição sonora constante, resíduos e fugas operacionais, deixando para trás ecossistemas permanentemente danificados. Isto tem um custo permanente, que as comunidades locais serão obrigadas a suportar”.

    Corfu está quase totalmente dependente do turismo, e os habitantes temem que o projeto de petróleo e gás possa levar ao seu colapso. /Foto: Boštjan Videmšek

    A filial grega da  organização WWF acredita que é muito provável que o foco no petróleo e gás dificulte o desenvolvimento de métodos mais sustentáveis de produção de energia. Pelo que foi revelado ao público, as novas perfurações no Mar Jónico certamente irão prejudicar a pesca local, reduzir o apelo turístico da região e ocupar vastas áreas marinhas, transformando recursos naturais públicos em projectos empresariais.

    Como Anna Vafeiadou salientou, o esquema está a ser promovido num ambiente de segredo e falta de responsabilidade.

    Na perspectiva de Vafeiadou, as promessas do governo grego de energia barata são totalmente enganosas. O facto é que ninguém sabe se as supostas reservas de combustíveis fósseis existem sequer. Por outro lado, os contratos assinados estipulam que a propriedade total de qualquer energia extraída pertencerá às empresas.

    Porto de pesca de Agios Stefanos noroeste de Corfu. /Foto: Boštjan Videmšek

    “Os preços serão, portanto, determinados pelos mercados, não pelo interesse público”, segundo o WWF Grécia. “O resultado é familiar: lucros para poucos e dificuldades para muitos. No fim, a sociedade acabará por pagar toda a poluição, a instabilidade e as contas de energia mais elevadas”.

    Falta de consciência

    Quando dei um passeio pelas ruas da cidade de Corfu para verificar a opinião dos habitantes sobre as mudanças iminentes, fiquei surpreendido. Apenas um em cada 10 pessoas que abordei tinha uma compreensão muito aproximada do que estava a acontecer.

    Quando mencionei a falta de conhecimento local a Giorgios Stelios – um engenheiro químico que lidera a Associação de Proteção Ambiental de Corfu – mostrou-se desiludido, mas não especialmente surpreendido. A sua resposta imediata foi afirmar que os ambientalistas ainda têm muito trabalho a fazer em Corfu.

    Corfu. /Foto: Boštjan Videmšek

    “Há anos, a ilha assistiu a uma intervenção bem sucedida contra a construção do parque eólico offshore”, recordou Stelios. “Foi gasta muita energia activista no processo. Como sabem, o nosso país também passou por uma grave crise económica, que teve um impacto profundo na população grega. Por isso, não me surpreende que a resposta à perfuração prevista perto da nossa ilha tenha sido até agora tão fraca”.

    “Todas as desilusões e derrotas roubaram ao povo grande parte da sua vontade de continuar a activação política”, afirmou Stelios sem rodeios. “Por isso, enraizou-se uma passividade perigosa. A solidariedade, que foi tão forte durante os anos mais difíceis da crise financeira, só se encontra agora maioritariamente a nível local”.

    No entanto, Stelios e os seus colegas ambientalistas não estão dispostos a desistir. “Precisamos de alertar as pessoas sobre o que está prestes a acontecer. Não temos muito tempo. Organizações bem intencionadas devem unir-se e começar a formar novas alianças – e não só em Corfu. O nosso ambiente enfrenta uma ameaça séria. Existem numerosas espécies animais em perigo nas áreas de perfuração propostas. Além disso, o Mar Jónico é muito profundo, e parte da perfuração terá lugar a um quilómetro abaixo da superfície. Os terramotos são comuns na região, e mesmo os levantamentos sísmicos iniciais revelaram-se muito perturbadores para os ecossistemas locais”.

    Arillas, no noroeste de Corfu, onde em breve começará a extracção de gás natural.
    /Foto: Boštjan Videmšek

    Stelios também salientou dois factos: o primeiro é que praticamente toda a economia de Corfu depende do turismo; o segundo é a ilha sofreria um grande impacto com qualquer possível derrame relacionado com a perfuração.

    “Numa suposta era de transição verde, com as consequências das alterações climáticas cada vez mais evidentes, a decisão das nossas autoridades de construir novas instalações de extracção de petróleo e gás é completamente ilógica, perigosa e simplesmente errada”, alertou Stelios. “É uma decisão puramente política. Neste momento, é evidente que as actuais autoridades gregas são apenas subordinadas dos Estados Unidos. No entanto, os media apoiam as suas decisões. E como o partido governante Nova Democracia não tem oposição real, pode fazer praticamente o que quiser sem grandes reações políticas”.

    “Temos de organizar, e rápido.

    “O nosso interesse é garantir que quaisquer actividades no Mar Jónico ocorram com um nível de cuidado ambiental proporcional ao valor ecológico e cultural desta região”, disse-me o Dr. Simon Karythis, diretor-executivo da  organização Fundação do Ambiente Jónico.

    A Grécia quer se tornar o centro energético do Mediterrâneo Oriental. /Foto: Boštjan Videmšek

    “O trabalho da nossa fundação baseia-se na protecção e renovação dos ecossistemas naturais, bem como das comunidades locais, das ilhas Jónicas”, explicou o Dr. Karythis. Salientou que o Arquipélago Jónico alberga várias espécies animais conhecidas por serem altamente sensíveis ao simples ruído subaquático, quanto mais a levantamentos sísmicos e ao aumento do tráfego naval. Os cientistas acreditam que as rotas migratórias de várias espécies podem ser gravemente afetadas.

    “Quem é que iria querer destruir algo tão bonito e único?”, apontou Sophia Michalopoulou – uma educadora local, terapeuta e líder do grupo das Sereias de Corfu –, no topo de um penhasco acima da aldeia costeira de Arillas, no extremo noroeste de Corfu.

    “Quando soube que tinha sido assinado um contrato entre o governo grego e uma companhia petrolífera norte-americana em Novembro passado, fiquei chocada“, afirmou. “Fiquei chocada, mas não surpreendida. Já esgotámos os nossos recursos inúmeras vezes antes. E voltaremos a fazê-lo. Fui invadida por uma sensação de impotência, mas decidi fazer algo.

    Sophia Michalopoulou, activista do ambiente de Arillas. /Foto: Boštjan Videmšek

    Um vento frio de Inverno soprava. O mar estava agitado e escuro – como o mar alto no norte. Gotas de chuva voavam em todas as direcções. Lá em baixo, um par de surfistas ainda recuperava o fôlego em condições extremamente difíceis. Michalopoulou apontou tristemente para o horizonte. Primeiro em direcção às três pequenas ilhas que formam um ecossistema marinho extremamente sensível, e depois mais a noroeste, para a área onde se esperava que os navios da ExxonMobil começassem a perfuração de teste nos próximos meses, talvez até semanas.

    A nossa fonte da indústria dos combustíveis fósseis – um insider familiarizado tanto com o conteúdo dos contratos como com os resultados dos levantamentos sísmicos iniciais – tinha dado a entender que os resultados dos levantamentos não eram particularmente entusiasmantes para a indústria petrolífera. Oficiosamente, na área do Bloco 2, que é a mais próxima de Corfu, havia “apenas 15% a 18% de probabilidade de uma quantidade suficiente de petróleo e/ou gás natural ser extraída comercialmente.

    No entanto, em Novembro, o contrato foi assinado na mesma. E agora uma vasta máquina transnacional já se preparava para a perfuração.

    Noroeste de Corfu. /Foto: Boštjan Videmšek

    “Isto pode ser extremamente prejudicial para todos nós – especialmente para as gerações futuras”, exclamou Sophia Michalopoulou. “Temos de fazer o nosso melhor para fazer ouvir as nossas vozes. Temos de nos organizar, e rápido!

    Michalopoulou tem estado há muito activa na protecção ambiental a nível local. Conquistou muita simpatia na ilha ao chegar a um acordo com a comunidade local da aldeia de Arillas para limpar redes de pesca desactivadas que se acumulam em redor da ilha mais próxima, Gravia. O projecto foi financiado pela Fundação Jónica para o Ambiente.

    “As coisas estão a evoluir muito devagar, e não temos tempo”, avisou, enquanto o vento uivava à nossa volta. “As alterações climáticas estão a desenrolar-se a um ritmo cada vez mais acelerado. As condições meteorológicas aqui já mudaram drasticamente. A erosão está a corroer a costa. Quase não restam peixes. E toda a nova perfuração de petróleo e gás certamente vai piorar muito a situação. Ecossistemas inteiros estão em risco aqui . E isto apesar da protecção oficial dada pela Portaria do Parque Marinho e pelas disposições Natura 2000”.

    Corfu. /Foto: Boštjan Videmšek

    Apesar do tempo horrível, os visitantes de um café aberto mais acima da aldeia Arillas podiam desfrutar de uma manhã de Sábado muito animada. “Esta é a nossa rede social”, disse, a sorrir, Dimitris Kourkoulos, que gere o seu próprio bar de praia e uma associação de empresários locais.

    Há alguns anos, Kourkoulos participou na luta contra a instalação de turbinas eólicas a apenas alguns quilómetros das praias mais populares da ilha. Agora preparava-se para o confronto com as gigantes de petróleo e gás.

    “Não nos opusemos às turbinas eólicas porque produziam energia renovável – fizemo-lo porque ninguém nos consultou sobre o projecto”, recordou. “Conseguimos recolher 4.000 assinaturas. Imprimimo-las e entregámo-las em Atenas, onde as distribuímos aos deputados e ministros. O projecto foi devidamente interrompido – provavelmente também devido ao colapso financeiro”.

    Dimitris Kourkoulos, um empresário de Arillas, a noroeste de Corfu, onde em breve começará a extracção de gás natural próximo à costa, teme um desastre ambiental.. /Foto: Boštjan Videmšek

    Kourkoulos foi rápido a chamar a minha atenção para a quase total dependência económica dos habitantes locais do turismo.

    “Depois dos ecossistemas, somos os próximos na linha como os mais vulneráveis a mudanças tão profundas”, disse. “Pensas que pessoas de todo o mundo vão continuar a vir aqui para ver plataformas de perfuração e petroleiros gigantes? Mais uma vez, ninguém achou necessário consultar-nos sobre nada. O que nos deixa zangados. Decisões que podem ter consequências fatais para a nossa comunidade estão a ser tomadas longe, com os decisores aparentemente a perderem todo o contacto com a realidade. Mas sem o nosso consentimento, não haverá perfuração de petróleo e gás por aqui! Sexo sem consentimento é violação, não é? Parece que gastámos grande parte da nossa energia na prevenção do parque eólico. Mas não tenho dúvidas de que nos conseguiremos organizar novamente a tempo.”

    Dimitris Kourkoulos também criticou a pouca atenção que os media gregos têm dado aos contratos norte-americanos de combustíveis fósseis. Os acordos têm tido pouca cobertura mediática e a maioria dos artigos e noticiários apenas se limitam a repetir as posições governamentais. Até meados de Janeiro deste ano, nenhuma equipa de jornalistas da Grécia tinha ainda visitado Arillas para cobrir o tema. O mesmo se aplica à encantadora aldeia de Paleochora, no sudoeste de Creta, que enfrentaria as mesmas dificuldades se a perfuração começasse a sério.

    /Foto: Boštjan Videmšek

    Para muitos dos locais, Atenas parece estar situada noutro país – ou até noutro continente. “Os políticos e os meios de comunicação social apenas falam da importância geoestratégica dos acordos propostos. Mas isto é muito manipulador”, disse Kourkoulos, furioso.

    Lamentou também o facto de estar a ter cada vez mais dificuldade em chamar a atenção dos locais para discutir os riscos potenciais. “As pessoas aqui estão exaustas do nosso estado de crise permanente. Parece-me pelo menos um pouco irónico que os estrangeiros que aqui vivem se tenham tornado mais activos do que a população nativa. A maioria dos nossos amigos estrangeiros aqui não partilha os nossos problemas e frustrações intermináveis, por isso conseguiram despertar e responder primeiro. Teremos de nos juntar a eles. Embora o projecto de perfuração precise de anos para ser devidamente lançado, o tempo está a tornar-se curto. Porque, uma vez tudo decidido, a luta vai tornar-se infinitamente mais difícil.”

  • O genocídio esquecido do povo rohingya

    O genocídio esquecido do povo rohingya


    A 22 de agosto de 2024, o exército governamental de Myanmar bombardeou a aldeia de Mundu, perto da fronteira com o Bangladesh. Depois de brincar no recreio da escola local, Mohammed Shahaib, de 13 anos, e as suas duas irmãs correram para se abrigarem em casa. No entanto, uma das bombas caiu nas imediações, matando uma das irmãs de Mohammed e ferindo a outra. Pedaços de estilhaços alojaram-se na coxa direita do rapaz.

    O seu pai, Zacharia, conseguiu levá-lo a ele e à irmã ao médico local, que tratou os ferimentos, salvando assim duas vidas pequenas. Zacharia pegou então em Mohammed ao colo e conduziu a família na fuga para o Bangladesh.

    Mohammed, de 13 anos — que foi ferido num ataque aéreo da junta militar — durante a sua reabilitação. / Foto: Boštjan Videmšek

    Demoraram 17 dias infernais a romper os campos de batalha do sudoeste de Myanmar, onde o genocídio negligenciado do povo rohingya continua a acontecer até hoje. Quando a família chegou ao rio Naf, atravessou-o de barco.

    “Estou sempre assustado à noite, tão assustado “, relatou Mohammed enquanto esperava pela sessão de fisioterapia do dia nas  instalações da organização humanitária Handicap International. Zacharia, que acompanha sempre o filho durante as sessões terapêuticas, explicou que o sono de Mohammed era marcado por gritos e convulsões.

    Nos meus sonhos, às vezes vejo a minha irmã e os nossos vizinhos a serem mortos “, disse o rapaz baixinho. Tendo enfrentado o terror absoluto, agora sofria claramente de perturbação de stress pós-traumático. “Mas já me sinto muito melhor“, acrescentou rapidamente, sem querer parecer ingrato. “Os exercícios aqui ajudaram muito. E também posso ir à escola, o que é muito importante“.

    Um enorme sorriso abriu-se no rosto do corajoso rapaz ferido.

    Foto: Boštjan Videmšek

    Tendo sido privados do estatuto de refugiados pelas autoridades do Bangladesh e privados de todos os direitos de cidadão pela junta militar de Myanmar já em 1982, os membros da minoria muçulmana perseguida vivem num total limbo, mesmo no exílio.

    Os refugiados mais recentes estão ainda pior do que os que chegaram ao Bangladesh em (ou até) 2017, durante as muitas vagas de limpeza étnica desencadeadas pela junta de Myanmar. Os recém-chegados entraram directamente no maior complexo de campos de refugiados do mundo, onde não existem dignidade, privacidade, higiene ou oportunidades. Ainda pior: os campos funcionam como uma prisão ao ar livre e enfrentam actualmente uma ameaça de epidemia de fome.

    Ao mesmo tempo, os 1,2 milhões de refugiados exaustos estão cada vez mais expostos às consequências devastadoras das alterações climáticas. O Bangladesh, um país em grave crise política e de segurança, está situado na linha da frente da calamidade global.

    O complexo de campos de refugiados na fronteira entre o Bangladesh e Myanmar é o maior do mundo.
    / Foto: Boštjan Videmšek

    Durante a época das monções, os acampamentos são assaltados por ciclones, aguaceiros intensos e ventos capazes de destruir estruturas do acampamento como se fossem feitas de esferovite. Durante as frequentes secas, os incêndios representam a maior ameaça — sobretudo devido à sobrelotação, ao acender de fogueiras ao ar livre e à existência de cozinhas em espaços fechados. Grandes partes do enorme complexo do acampamento já foram reduzidas a cinzas.

    A Soma de Todos os Medos

    É muito difícil.. Mal conseguimos sobreviver“, afirmou Zacharia. “Encontrámos abrigo com a minha irmã numa pequena cabana. Não há comida suficiente. Não nos é permitido trabalhar nem sair do campo. Não podemos voltar para casa. Perdemos tudo.”

    Em Myanmar, Zacharia trabalhava como sapateiro. Tentou tirar proveito das suas competências no campo de refugiados, mas depressa percebeu que a privação e o desespero eram a ordem do dia. Os campos são permeados por um sentimento de total desespero.

    “Por isso é que a vontade de viver do meu rapaz é tão maravilhosa”. Zacharia animou-se de imediato ao lançar o olhar para o seu jovem filho.

    Tendo concluído os primeiros cinco anos do ensino primário em Myanmar, Mohammed frequenta agora o primeiro ano do centro educativo no complexo de campos de refugiados de Kutupalong, localizado na província mais pobre do Bangladesh, Cox’s Bazar, na fronteira com Myanmar — não existem escolas oficiais nos campos de refugiados.

    Foto: Boštjan Videmšek

    No último ano e meio, cerca de 200.000 novos refugiados de Myanmar afluíram para o complexo de campos de refugiados de Kutupalong. O estado de Rakhine, em Myanmar, está a ser consumido por uma guerra indescritivelmente brutal, praticamente não noticiada pelos meios de comunicação social. O genocídio perpetrado contra a minoria étnica muçulmana rohingya em Rakhine continua sem abrandar.

    Se a maioria dos rohingya foi expulsa das suas casas em 2017 pela junta militar de Myanmar com o apoio de monges budistas e da vencedora do Prémio Nobel da Paz de 1991 , Aung San Suu Kyi, a perseguição está agora a ser feita pelo Exército de Arakan. A referida formação de milícias rebeldes formou uma coligação com várias outras organizações do género, com o objetivo de derrubar a ditadura militar de Myanmar.

    O Exército de Arakan controla actualmente quase toda a extensão do estado de Rakhine e toda a extensão da sua fronteira com o Bangladesh. Pouco mais de quatro anos após a tomada militar, a junta apoiada pela China e pela Rússia controla apenas 21% do território de Myanmar, segundo uma investigação da BBC. No total, 42% de Myanmar está agora sob controlo de várias milícias étnicas.

    O Novo Capítulo de uma Grande Tragédia

    “Durante vários dias, as forças governamentais bombardearam a nossa aldeia. Quando os soldados entraram na aldeia, fomos expulsos. O meu marido foi morto. Tínhamos de fugir”, contou Fatema, de 25 anos, na sua pequena cabana construída de bambu e coberta com um telhado feito de estanho e plástico.

    Fatema, de 25 anos, cujo marido foi morto por soldados de Myanmar, fugiu recentemente para o Bangladesh com os seus três filhos. / Foto: Boštjan Videmšek

    Ela e os seus três filhos pequenos fugiram para o Bangladesh, passando por várias aldeias rohingya que tinham sido queimadas até ao chão. A viagem até à fronteira demorou cinco dias. Tiveram a sorte de atravessar em segurança o rio Naf, cheio de obstáculos, com a ajuda de um barco de contrabandistas.

    Quando Fatema e os seus filhos chegaram às imediações dos campos de refugiados, estavam famintos e completamente exaustos. Não conheciam uma única alma no Bangladesh.

    “Algumas pessoas simpáticas vieram cá e convidaram-nos a ficar com eles num dos acampamentos. Serei sempre grata a eles“, disse Fatima na sua cabana, onde 12 pessoas partilhavam actualmente menos de oito metros quadrados de espaço habitável.

    Dentro da habitação, o ambiente era sufocante, quente e saturado de humidade. A cabana é feita de bambu porque as autoridades do Bangladesh desaprovavam a construção de qualquer tipo de ‘infraestrutura permanente’. Embora ainda tivéssemos bastante tempo antes do meio-dia, o sol já tinha sobreaquecido o telhado de lata e plástico. Pequenos filetes de suor escorriam pelos nossos rostos enquanto conversávamos.

    “A vida aqui é extremamente, extremamente difícil“, relatou Fatema. “Estamos com fome e recebemos cada vez menos comida. Nos primeiros quatro meses que passei no campo, não recebi qualquer ajuda.”

    As condições de vida no campo são horríveis. / Foto: Boštjan Videmšek

    Os seus pensamentos voltaram então para a sua vida anterior: “Costumava ser boa. A nossa família pôde trabalhar a terra, tínhamos a nossa casa e o nosso campo. Quero voltar.”

    Ao lado de Fatema, um homem exausto dormia nu no chão, encolhido, de forma protectora, sobre uma criança adormecida. Em frente à entrada da cabana, uma procissão humana interminável passava pela via estreita e lamacenta. Era maioritariamente formado por crianças, dezenas delas nuas. Ao todo, 87% dos residentes dos campos eram mulheres e crianças. Dois terços de todos os que aqui estavam reunidos atrás do arame farpado e das torres de sentinela tinham menos de 18 anos.

    Intercaladas entre a interminável procissão de crianças estavam várias mulheres. Praticamente todos usavam burcas, enquanto muitas também traziam chapéus de chuva para se protegerem do sol. Multidões de galinhas perseguiam-se umas às outras à volta dos pés das crianças. Os canais de esgoto estavam invadidos por galinhas que se alimentavam de lixos e dejectos humanos. Cães meio em coma, cobertos de crostas, estavam deitados ao sol. O cheiro a fezes era avassalador.

    Alguns dos telhados estavam realmente equipados com painéis solares, sendo a eletricidade usada principalmente para iluminação e refrigeração. Várias cabanas tinham sido transformadas em pequenas lojas, embora o comércio fosse oficialmente proibido. Tal como o dinheiro… É por isso que organizações humanitárias internacionais começaram a permitir que os refugiados paguem através de vouchers digitais.

    Foto: Boštjan Videmšek

    A verdadeira dimensão do complexo do acampamento só podiam ser vislumbradas do topo das colinas próximas. Uma margem do rio Naf era dominada pelas encostas verdes de Myanmar, a outra por fileiras e fileiras de habitações precárias que se estendiam até ao horizonte. Foi a melhor representação visual possível da linha da frente de uma guerra civil cada vez mais sórdida.

    Oito Anos de Desespero

    Tal como a grande maioria dos habitantes do campo, a família Noor fugiu para o Bangladesh em 2017, quando a junta governante iniciou um extenso programa de limpeza étnica da minoria muçulmana. Este período marcou também o início da organização militar rohingya, culminando na formação do Exército de Salvação Rohingya de Arakan. Depois de os guerrilheiros atacarem alguns postos governamentais, desencadeou-se uma onda genocida de vingança.

    Centenas de milhares foram forçados a fugir para salvar as suas vidas. Milhares pereceram durante a fuga, a maioria devido ao naufrágio de barcos fretados pelos contrabandistas. Milhares desapareceram sem deixar rasto. Alguns entraram no mercado de trabalho ilegal, outros na escravatura sexual. Mais de 800.000 dos refugiados foram finalmente instalados nos campos próximos da fronteira. Devido ao excessivo abate de árvores, a floresta húmida local foi gradualmente transformada num deserto.

    O rio Naf, que forma a fronteira entre o Bangladesh e Myanmar, já ceifou inúmeras vidas. Do lado birmanês da fronteira, uma guerra completamente esquecida está em curso. / Foto: Boštjan Videmšek

    Oito anos depois, a multidão interminável de pessoas desesperadas mas incrivelmente resilientes ainda estava ali. Entretanto, as condições em Myanmar só se deterioraram ainda mais. O mesmo se pode dizer do país anfitrião, o Bangladesh.

    Em Myanmar, tínhamos a nossa casa e o nosso pedaço de terra. Aqui não temos nada”, disse a senhora Noor, uma mãe visivelmente exausta de cinco filhos. Dois dos seus filhos, Kaias, de 14 anos, e Salam, de 27, sofriam de paralisia cerebral.

    Dificilmente se poderiam imaginar condições de vida mais duras para suportar tamanha aflição impiedosa. No entanto, durante a nossa visita, a pequena, quente e arrumada cabana da família Noor estava impregnada de um ambiente animado.

    A mãe, que preferiu permanecer anónima, contou como, em 2017, trabalhadores humanitários ajudaram a família a encontrar um telhado improvisado sobre as suas cabeças. Dada a condição de Kaias e Salam, era uma questão de vida ou morte.

    “Os nossos vizinhos estavam sempre lá para nos ajudar. As pessoas ajudam-se umas às outras por aqui. Há um sentimento de solidariedade”.

    A família Noor, suportando uma provação indescritível com dignidade. / Foto: Boštjan Videmšek

    Depois de ter sido brutalmente espancado por soldados de Myanmar, o marido ainda tem dificuldades em andar. A solidariedade pode ainda persistir entre muitos dos habitantes do campo, mas também há grande receio de raptos e roubos. À noite, o complexo é governado por gangues criminosos.

    Somos tão pobres que não temos nada para roubar”, disse a senhora Noor com ironia. “Não temos mesmo nada. Acima de tudo, precisamos de um pequeno painel solar para, por vezes, ter luz à noite… E para alimentar o ventilador para o calor durante o dia.

    Quando, no início deste ano, o complexo foi visitado pelo Secretário-Geral da ONU, António Guterres, este descreveu os campos como “um lembrete claro do fracasso colectivo do mundo em encontrar soluções”. Há anos, Guterres descreveu os rohingya como “um dos, senão o povo mais discriminado do mundo”.

    Cortes Devastadores

    Pouco depois de tomar posse, Donald Trump descontinuou grande parte dos programas internacionais de ajuda humanitária e de desenvolvimento norte-americanos. A organização que mais foi afectada foi a USAID, que costumava ser a primeira a estar presente em vários locais de crise pelo mundo. Mas os Estados Unidos não foram o único país a reduzir significativamente a sua contribuição para o património humanitário internacional. Entre outros, a Grã-Bretanha e a Alemanha seguiram o exemplo.

    Foto: Boštjan Videmšek

    Para fornecer alguma assistência aos refugiados no Bangladesh, foram necessários 934,5 milhões de dólares este ano (cerca de 793,4 milhões de euros). No entanto, segundo dados da ONU, apenas 38% do valor estava garantido até meados de Outubro. Vale a pena mencionar que o orçamento para ajudar os refugiados rohingya já era modesto mesmo antes dos grandes cortes no sistema humanitário internacional, que muitos afirmam estar à beira do colapso.

    Em 2025, a União Europeia alocou 32,3 milhões de euros para ajuda humanitária ao Bangladesh. Um ano antes disso, a quantia foi de 54 milhões.

    Dado que o destino horrível dos rohingya reside no fundo da escala global de prioridades geopolíticas, as consequências do esvaziamento drástico dos orçamentos humanitários são devastadoras. Organizações humanitárias internacionais chave foram forçadas a reduzir o nível de ajuda para “operações de salvamento de vidas”. O que aparentemente não inclui a educação — um desenvolvimento particularmente angustiante para os rohingya, com os seus já elevados níveis de analfabetismo.

    Nos últimos meses, 55% dos centros educativos dos campos foram encerrados devido a cortes orçamentais. Dezenas de milhares de crianças foram empurradas para as ruas extremamente perigosas — mas falarei disso mais à frente no texto.

    Os acampamentos estão cheios de crianças. Há crianças, crianças e mais crianças por toda parte. / Foto: Boštjan Videmšek

    A comunidade humanitária, quase falida, foi também forçada a reduzir as rações alimentares. Até este Verão, todas as famílias refugiadas recebiam um subsídio alimentar mensal de 12 dólares. O sistema era pelo menos moderadamente funcional, mesmo que fosse, na melhor das hipóteses, altamente precário. Em Setembro, os subsídios foram primeiro reduzidos para seis (cinco euros) e depois aumentados para nove dólares (cerca de 7,6 euros).

    Para as várias centenas de milhares de pessoas que formavam a classe mais vulnerável dos campos, foi um golpe devastador. As consequências foram tão graves quanto previsíveis. Há agora uma fome crescente nos campos, especialmente entre bebés e crianças pequenas — uma versão real dos Jogos da Fome.

    Também foram impostas quotas rigorosas de água potável nos campos, bem como no sabão. A higiene pessoal tornava-se cada vez mais difícil de manter nestas condições de pesadelo, trazendo enormes riscos para a saúde de todo o complexo e além. Os trabalhadores humanitários com quem falei continuavam a mencionar possíveis surtos de cólera. A mortalidade infantil nos campos também aumentava, assim como o vício em opiáceos, sendo os opiáceos baratos e facilmente acessíveis sem receita médica.

    Pensei que ele estava a comer o suficiente, mas não estava.

    “Neste momento, há 14.500 crianças gravemente desnutridas nos campos — como consequência directa dos cortes orçamentais”, disse Owen White Nkhoma, especialista em nutrição da UNICEF. “Cuidar deles é o nosso foco. Estamos num momento crítico. Os orçamentos de ajuda estão vazios. Todo o sistema humanitário foi afectado. Precisamos de dinheiro para continuar os nossos programas aqui. Caso contrário, receio que as rações alimentares sejam ainda mais reduzidas.

    Owen White Nkohma, especialista em nutrição da Unicef, apela ao mundo para que forneça assistência imediata aos rohingya. / Foto: Boštjan Videmšek

    O testemunho de Nkhoma ofereceu mais provas de que os cortes recentes, no caso de Kaias e Salam, era uma questão de vida ou morte.

    “Estamos a lidar com o colapso do sistema humanitário global”, afirmou. “E os rohingya têm uma situação especialmente grave, pois dependem inteiramente da ajuda humanitária. Uma geração inteira de crianças está em grave perigo. Já estamos a detectar uma queda significativa na imunidade. As crianças aqui estão a passar por um abrandamento no seu desenvolvimento. Por exemplo, aprendem a andar e a falar mais tarde do que antes. O processo começa no útero. Estamos a enfrentar um ciclo vicioso e danos irreversíveis. Por razões puramente políticas, estamos à beira de um precipício.

    No total, o complexo Kutupalong alberga 33 campos (mais um na ilha próxima). Na clínica de nutrição da UNICEF localizada no campo número 15, uma multidão de mães de burca e os seus filhos desnutridos aguardava pelos seus exames. O objetivo era que os trabalhadores humanitários avaliassem os níveis de desnutrição de cada criança individualmente e respondessem de acordo com a escassa variedade de opções disponíveis.

    As crianças pareciam muito desconfortáveis enquanto se mediam a espessura dos seus bíceps e a gordura nos braços superiores. O mais frágil entre eles começou a chorar.

    Jita Bibi, de 35 anos e mãe de quatro filhos, sentava-se exausta debaixo de alguns desenhos infantis pendurados na parede, enquanto grandes ventiladores traziam alívio ao calor e à humidade insuportáveis. De vez em quando, a eletricidade cortava-se e encontrávamo-nos na escuridão total, perfurados apenas pelos sons das crianças.

    Jita Bibi, de 35 anos, é mãe de quatro filhos. Estavam todos gravemente desnutridos devido aos cortes na ajuda humanitária, mas o auxílio de emergência salvou-os, para já. / Foto: Boštjan Videmšek

    Um rapaz de dois anos chamado Mohammed descansava silenciosamente no colo de Jita. Até muito recentemente, o rapaz estava gravemente desnutrido, ao mesmo tempo que sofria da síndrome de Down. Nos últimos dias, foi resgatado à beira da morte com a ajuda de um “pacote nutricional terapêutico”.

    “A condição de Mohammed melhorou muito”, relatou Jita baixinho, enquanto fazia carinho ao rapaz. “Pensei que ele estava a comer o suficiente, mas não estava. E depois as rações foram ainda mais reduzidas. Todos estávamos a morrer de fome.

    Jita também contou que esteve doente durante a gravidez, o que resultou em complicações durante o trabalho de parto. No campo, a família dependia inteiramente de outros, já que as deficiências do marido impediam-no de arranjar trabalho. O orçamento mensal de alimentos é gasto nos primeiros 10 dias. Para os outros 20, passam fome.

    Não admira, então, que os exames na clínica de nutrição tenham determinado que os outros três filhos de Jita também estavam gravemente desnutridos. Também eles foram ajudados a reerguer-se pelo programa de ajuda urgente da UNICEF.

    Queremos voltar para casa“. Jita sorriu com saudade. “Mas neste momento, não é seguro. Aqui, sou assombrada por memórias.

    Quando fiz algumas perguntas sobre as condições de segurança nos campos, ela ficou paralisada. Depois, como praticamente toda a gente com quem falei, ela mencionou os raptos. Os perpetradores vieram sobretudo para os rapazes adolescentes. Além da fome, os raptos motivados por resgates são vistos como a principal ameaça enfrentada pelas famílias que vivem nos campos.

    No total, vivem no complexo de campos de refugiados 1,2 milhões de pessoas. / Foto: Boštjan Videmšek

    Jita também tinha medo de incêndios e terramotos. A sua cabana ficava debaixo de uma colina e parecia frágil o suficiente para ser levada por uma forte chuvada. Tal acontecimento não seria nada anormal para uma estação das chuvas passada no complexo do acampamento Kutupalong.

    Aproveitando-se do desespero

    Por mais desagradáveis que sejam os outros candidatos, os raptos lideram a pirâmide local dos medos. As condições de segurança nos campos são atrozes e pioram de semana para semana, especialmente à noite. O roubo e a violência sexual são generalizados. Depois de oito anos a viver em total desespero, sem qualquer alívio à vista, isto era de esperar.

    Os raptos seguem o padrão clássico, com os agressores a contactarem a família da vítima e a exigir um resgate elevado. Os familiares têm pouca escolha senão endividar-se para pagar. E o único sítio onde normalmente conseguem obter crédito é junto dos grupos criminosos envolvidos nos raptos.

    Segundo as nossas fontes, várias centenas de famílias contraíram assim dívidas para durar muitas gerações. Vários raptados não foram devolvidos mesmo depois de o resgate ter sido pago. Alguns dos habitantes do campo — maioritariamente mulheres — também estão a ser raptados para a escravatura sexual.

    A situação piora a cada dia. Dezenas de habitantes foram reportados como desaparecidos. Vários cadáveres foram encontrados pela polícia do Bangladesh nas imediações dos campos com arame farpado. Nas últimas semanas, o número de raptos aumentou drasticamente após os cortes na ajuda humanitária terem forçado muitos pais e irmãos das famílias a procurar fontes de sobrevivência fora do campo. Uma vez no exterior, os rohingya são presas fáceis para os contrabandistas e os traficantes de seres humanos.

    Devido aos cortes na ajuda humanitária, 55% das “escolas” nos campos foram fechadas. Crianças vítimas de sequestros acabaram nas ruas. / Foto: Boštjan Videmšek

    Decidimos visitar um grupo de rapazes adolescentes que tinham começado recentemente a frequentar um curso de formação profissional, mas que agora ficaram à sua sorte.

    Primeiro contaram-nos as suas esperanças e sonhos:

    Quero ser médico, para poder ajudar as pessoas.”

    “Vou construir o meu próprio avião e tornar-me piloto. Então poderei voar para longe daqui.”

    “Quero ser engenheiro. Toda a gente precisa deles.”

    “Quero ir para o estrangeiro. Para qualquer lado.”

    “Só quero continuar a minha educação. Aqui, só tinham escola primária.”

    Quero ir para casa e viver em segurança e com dignidade. Quero ajudar a reconstruir a nossa aldeia, que foi queimada.”

    Mas, pouco depois, a conversa dos rapazes acabou por se voltar para a brutalidade do ambiente. Tudo o que conseguiam falar era sobre os raptos e a necessidade de espaços seguros — ou, na verdade, de qualquer tipo de espaço.

    Não nos atrevemos a andar muito por aí”, disse um dos rapazes. “Podes ser raptado a qualquer momento. Mas o exterior do acampamento é ainda mais perigoso. No entanto, temos de sair para trabalhar para sobreviver — mesmo que seja oficialmente proibido. Muitas pessoas que conheço foram raptadas ou roubadas. O meu irmão foi um deles. Exigiram 5.000 dólares (4.240 euros). A minha família pediu o dinheiro emprestado e pagou o resgate. O meu irmão voltou ao fim de três meses”.

    Foto: Boštjan Videmšek

    Esta primeira história pareceu quebrar uma barragem mental. Seguiram-se muitas outras, com os rapazes a lutar para se ultrapassarem com horrores.

    Falaram-nos da fome crescente; um deles descreveu-a como “a força por detrás da instabilidade do campo”. Também relataram o que ouviram sobre as drogas e armas serem contrabandeadas para fora de Myanmar. Informaram-nos que muitas pessoas não denunciaram os raptos à polícia por receio de vingança — e com razão.

    Os polícias armados do Bangladesh mantêm presença nos campos, juntamente com vários agentes secretos … Mas a investigação sobre disputas internas dos rohingya não parece ser uma prioridade.

    Vale a pena mencionar que os gangues criminosos dos campos têm, frequentemente, ligações a várias milícias de Myanmar. Estas milícias encontram presas fáceis nos novos recrutas, no meio do desespero absoluto que permeia os acampamentos. No geral, a situação em Kutupalong é altamente explosiva. Os campos de refugiados há muito que se tornaram assentamentos permanentes com infraestruturas impermanentes. O contexto é altamente reminiscente das calamidades enfrentadas pela parte nordeste da República Democrática do Congo desde meados dos anos noventa.

    Bom para resistência

    “Os cortes afectaram gravemente a Educação”, disse Amd Rasho, especialista em educação do Conselho Norueguês de Refugiados, a organização que gere 15 dos centros educativos do complexo. “Decidiu-se que a Educação não pertence à categoria de salvar vidas. Não foi a decisão certa. Para os rohingya, a educação é de vital importância. Mas 170.000 crianças têm agora de viver sem a ter — 90 % de todos os jovens entre os 15 e os 22 anos não têm escolaridade. É um desenvolvimento horrível, mesmo que as escolas aqui não tenham validade oficial .”

    Foto: Boštjan Videmšek

    Conversar com Rasho, um curdo sírio, foi uma lufada de ar fresco: detesta rodeios e o jargão humanitário que transforma pessoas em “beneficiárias”, preferindo comunicar em números e acrónimos.

    Os cortes tornaram os jovens aqui ainda mais vulneráveis — ainda mais expostos a casamentos arranjados e trabalho infantil“, afirmou. “Numa comunidade existencialmente ameaçada como esta, a sobrevivência sobrepõe-se a tudo o resto.”

    Rasho também mencionou a drástica escassez de professores nos campos — especialmente professoras. As razões são em parte culturais. A comunidade rohingya, tradicionalmente conservadora, tornou-se ainda mais conservadora no exílio, e o papel das mulheres foi significativamente enfraquecido.

    O acesso a alimentos e água potável está a tornar-se cada vez mais limitado. / Foto: Boštjan Videmšek

    Demos um passeio pelos centros educativos e encontrámos a maioria deserta. No entanto, um deles ainda soava com sons de exuberância juvenil.

    Ao entrar, encontrámos uma sala de aula coloridamente decorada, frequentada por rapazes de camisa branca e um professor contagiantemente enérgico. Os rapazes revezavam-se a ler em voz alta. Entre os alunos mais entusiastas estava Mohammed S., de 15 anos, que mais tarde nos disse que queria tornar-se médico.

    Também disse que a escola local era um lugar seguro para ele e para as outras crianças que tinham a sorte de a frequentar. Quando, juntamente com um colega britânico, Gordon, lhe perguntámos se às vezes tinha fome durante o tempo escolar, ele respondeu orgulhosamente que adorava tanto a escola que isso o fazia esquecer a fome.

    E depois da aula?” Desta vez, Mohammed não respondeu. Mas o enorme sorriso que lhe adornava as faces extinguiu-se num instante.

    “Quando as aulas acabam, sinto-me muito desconfortável“, confessou. “Tenho medo de estar lá fora. A escola é segura.

    Em frente à entrada da escola, os pais já aguardavam para o levar.

    Aulas decorrem num dos centros educativos que ainda estão em funcionamento. / Foto: Boštjan Videmšek

    Num dos campos de futebol arenosos locais, um grupo de bombeiros voluntários aperfeiçoava as suas habilidades enquanto um grupo de adolescentes jogava futebol. Um dos rapazes observava a acção sentado na junção entre o poste da baliza e a barra. Um rapaz um pouco mais velho fez um remate poderoso e cuidadosamente direccionado, a cerca de 20 metros, e acertou com a bola directamente na cabeça do seu colega alto.

    O rapaz caiu como se tivesse sido atingido por um tiro de uma espingarda e ficou imóvel no chão.

    Juntamente com vários colegas, corri para o ajudar. Felizmente, a sombra para onde os outros jovens o transportaram rapidamente lhe fez muito bem. Depois de algumas respirações profundas e um ataque de arrepios, voltou a pôr-se de pé.

    O quê?” O rapaz que o derrubou respondeu ao meu olhar acusador. “É bom para ganhar resistência“.

    Adenda

    Já depois da realização desta reportagem, começaram, no passado dia 12 de Janeiro, as audiências públicas no Tribunal Internacional de Justiça, num caso histórico movido pela Gâmbia contra Myanmar, por violações da Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio relacionadas com a actuação dos militares contra a minoria rohingya. Curiosamente, a data coincide com a entrada em vigor da Convenção, que ocorreu no dia 12 de Janeiro de 1951, há precisamente 75 anos.

  • Gronelândia: a corrida às ricas terras frias

    Gronelândia: a corrida às ricas terras frias


    Durante as últimas horas do Verão árctico, o nosso pequeno e altamente manobrável barco serpenteou silenciosamente à volta de pedaços de gelo de vários tamanhos a brilhar ao sol. “A maioria destes blocos tem entre 10.000 e 15.000 anos. Os mais antigos perduram durante 250.000 anos”, disse o capitão gronelandês Pierre, de 26 anos, nome que recebeu em homenagem ao seu avô francês.

    Os inuítes, que representam cerca de 90% da população da Gronelândia, conhecem 80 termos diferentes para gelo. E, de facto, cada iceberg e cada pedaço flutuante de gelo pareciam completamente diferentes. Quanto mais nos aproximávamos dos montes de gelo brilhante flutuantes, mais vivos pareciam. A constante libertação de bolhas de gelo produzia ruídos rítmicos, fazendo parecer que o gelo respirava.

    As alterações climáticas estão a destruir um modo de vida tradicional na Gronelândia.
    / Foto: Boštjan Videmšek

    “Isto é beleza suprema!” — pensei eu, enquanto absorvia o magnífico ambiente acompanhado pelo ruído branco.

    E ainda assim…

    Na última Primavera, a parte ocidental da Gronelândia assistiu à ruptura da segunda maior massa de gelo dos últimos 50 anos. Nestas águas selvagens do Árctico, o nosso barco avançava desviando-se entre os destroços da grande massa — as suas “crianças” despedaçadas, fruto das alterações climáticas.

    “É verdade que vejo este esplendor indescritível todos os dias”, comentou o capitão Pierre enquanto nos aproximávamos da capital gronelandesa, Nuuk. “Mas, honestamente, não posso dizer que isso me faça feliz. Porque não? Porque eu sei o que o derretimento do gelo significa”.

    Foto: Boštjan Videmšek

    A 27 de agosto, a Dinamarca convocou o encarregado de negócios  norte-americano e exigiu respostas sobre um caso altamente delicado de alegada interferência dos EUA na política dinamarquesa e gronelandesa.

    Pelo menos quatro cidadãos norte-americanos — o serviço público dinamarquês de radiotelevisão relatou que todos tinham ligações próximas ao presidente Donald Trump — terão, alegadamente, passado semanas em Nuuk a recolher informações potencialmente prejudiciais sobre a Dinamarca. Também se afirmava que estavam a formar uma lista de líderes locais que poderiam ser recrutados para a causa da tomada norte-americana da Gronelândia. As suas supostas actividades foram descobertas pelo Serviço de Segurança e Inteligência dinamarquês.

    Se for verdade, as minhas fontes dinamarquesas e gronelandesas veem este tipo de envolvimento como uma missão de reconhecimento, com o objetivo adicional de alargar a ruptura entre a Dinamarca e a Gronelândia.

    Após a notícia ter vindo à tona, o ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês, Lars Løkke Rasmussen, afirmou que qualquer forma de interferência nos assuntos internos do reino era completamente inaceitável. Aaja Chemnitz, membro do parlamento dinamarquês, disse aos jornalistas: “tais tentativas de infiltração na sociedade gronelandesa são inaceitáveis. Cabe aos habitantes da Gronelândia decidir que tipo de futuro querem”.

    Nuuk, capital da Gronelândia. / Foto: Boštjan Videmšek

    Tal como o resto do Árctico, a Gronelândia está situada no centro do conflito global pelos recursos naturais e pelo controlo geopolítico.

    O rumor de que os homens de Trump andavam a circular pela Gronelândia começara já na Primavera. Em Maio, o público dinamarquês ficou indignado ao saber dos planos da Casa Branca relativos ao “Pacto de Livre Associação com a Gronelândia”. Com o novo governo, o acesso estratégico americano à ilha gelada seria grandemente reforçado — em troca da abolição dos vistos e ajuda na defesa da Gronelândia. Os Estados Unidos já fizeram acordos semelhantes com vários países do Pacífico.

    O Presidente Trump também decidiu realocar os soldados americanos situados na base militar da Gronelândia do comando europeu dos Estados Unidos para o comando norte-americano do país.

    Isto não era mera “retórica agressiva”, mas um apelo claro para uma mudança tectónica.

    Segundo Jeppe Strandsbjerg, professor da Universidade da Gronelândia e especialista em segurança no Árctico, as palavras proferidas e as acções tomadas pelo presidente norte-americano foram vistas como uma forma de pressão e até chantagem. Esta é a visão predominante tanto na Gronelândia como na Dinamarca.

    Vale a pena mencionar que a pressão norte-americana tem vindo a aumentar desde 2021, quando os Estados Unidos decidiram que queriam melhorar significativamente a sua infraestrutura de segurança e informação na maior ilha do mundo. Todas as tentativas de tornar isto realidade foram, até agora, recebidas com forte oposição do governo da Gronelândia.

    “O ataque russo à Ucrânia mudou muitas coisas”, relatou o professor Strandsbjerg. “Hoje em dia, muitos mais soldados dinamarqueses podem ser vistos na Gronelândia. E há muito mais exercícios militares. As mudanças são, na verdade, bastante dramáticas e cada vez mais dramáticas a cada mês”.

    Strandsbjerg está convencido de que a tensão política criada pelas declarações de Trump e pelas eleições parlamentares locais já se acalmou em grande parte. Pelo menos temporariamente. “Ninguém aqui quer qualquer tipo de escalada”, sublinhou. Todos queremos paz no Árctico”.

    Também destacou um programa de proteção civil iniciado na Gronelândia nos últimos meses. Entre outras coisas, o programa permite que os jovens locais aprendam competências militares. O projeto revelou-se muito popular. Tão popular que Strandsbjerg acredita que pode ser um passo importante para garantir um maior nível de autonomia.

    Jeppe Strandsbjerg / Foto: Boštjan Videmšek

    Apesar das ambições conquistadoras da Casa Branca, a última Primavera viu a Dinamarca assinar um acordo de cooperação militar com os Estados Unidos — que, ironicamente, envolve o envio de um maior número de soldados americanos para a Gronelândia. Os Estados Unidos sempre viram a ilha como um escudo contra mísseis nucleares russos.

    “A Gronelândia não é assim tão difícil de defender. Há relativamente poucos pontos a defender, e claro que temos um plano para isso. A NATO [sigla inglesa para Organização do Tratado do Atlântico Norte] tem um plano”, afirmou Soren Anderson, Comandante do Comando Conjunto do Árctico Dinamarquês. “Estamos a cooperar com os Estados Unidos, como sempre fizemos”.

    Uma viragem para a União Europeia?

    As reações iniciais ao anúncio de Trump foram mistas e, por vezes, até confusas. Por um lado, a capital da Gronelândia, Nuuk, assistiu a protestos contra o novo colonialismo americano, mas também houve apoio aberto à tomada de poder.

    Segundo Jeppe Strandsbjerg, a Gronelândia tem visto recentemente uma maior vontade de cooperar com a Dinamarca e a União Europeia — mas também com os Estados Unidos e o Canadá, que estão geograficamente mais próximos da Gronelândia. Strandsbjerg acredita que o referido aumento foi causado pelo desejo de que a Gronelândia fosse reconhecida como parceira igualitária.

    “Ao longo da história, a Gronelândia tem-se inclinado estrategicamente mais para os Estados Unidos”, explicou. “E os Estados Unidos, por sua vez, viam a Gronelândia como parte da sua defesa desde os anos 50. Após o fim da Guerra Fria, as coisas acalmaram por um tempo. O foco americano estava noutros assuntos — Afeganistão, Médio Oriente … E agora a situação mudou novamente”.

    Strandsbjerg recordou também a grande vaga de desconforto que varreu a Gronelândia após a anexação russa da Crimeia e a declaração de Vladimir Putin de que o Árctico representava uma prioridade geopolítica russa. A China revelou também um apetite crescente pela expansão para a região ártica. Após 2019, o ambiente geopolítico e de segurança local sofreu uma mudança bastante dramática. Também é preciso considerar as consequências do aumento e multiplicação das alterações climáticas de todas as outras ameaças e problemas.

    O facto é que a Gronelândia está situada no coração das alterações climáticas — ou, se preferir, no seu epicentro.

    Foto: Boštjan Videmšek

    No início de 2025, a Dinamarca investiu mais de 2.000 milhões de euros no reforço das suas capacidades defensivas no Árctico — incluindo novos navios militares, drones de longo alcance e cobertura adicional de satélites. França também fez uma proposta para estacionar os seus próprios soldados na Gronelândia. A União Europeia (UE) parece ter ideias semelhantes.

    “Mas não se deve esquecer que, após o referendo de 1985, a Gronelândia foi a primeira a sair do que ainda era então a Comunidade Europeia. Foi o Grexit original”, alertou o professor Strandsbjerg. “Mas, brincadeiras à parte, a UE é muito importante para a Gronelândia. Tanto economicamente como, por exemplo, em termos educativos. A cooperação com a UE está a decorrer discretamente. A América do Norte pode estar geograficamente mais próxima, mas os últimos seis meses viram uma nova abertura nas relações da Gronelândia com a Europa … E até um certo calor. A UE abriu recentemente um escritório em Nuuk. O diálogo está a tornar-se mais forte. Embora, claro, seja claro que a UE tem os seus próprios interesses aqui – muitos deles relacionados com minerais críticos e afins”, disse Jeppe Strandsbjerg.

    Em Maio de 2025, a ministra dos Negócios Estrangeiros da Gronelândia, Vivian Motzfeldt, afirmou que a Gronelândia desejava reforçar os seus laços com a União Europeia. Especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento da indústria local de minerais críticos.

    Então, o que significa tudo isto para a Dinamarca?

    “Bem, a Dinamarca parece ter ficado um pouco sóbria nos últimos meses”, explicou Strandsbjerg. “Donald Trump parece ter, na verdade, aproximado a Gronelândia e a Dinamarca. O que, claro, não significa que devamos simplesmente esquecer todos os nossos problemas existentes. Uma parte dos media dinamarqueses ainda retrata a Gronelândia de forma muito insultuosa. O que provavelmente tem a ver com alguns sectores ainda não estarem preparados para enfrentar o passado colonial”.

    Propostas Indecentes

    Donald Trump não foi o primeiro presidente norte-americano a desejar a compra da Gronelândia. Em 1946, Harry S. Truman ofereceu à Dinamarca uma quantia correspondente aos actuais 1.000 milhões de dólares. Mas a proposta caiu em ouvidos moucos.

    Jeppe Strandsbjerg não tem receio de que a Gronelândia possa sucumbir a qualquer forma de “proposta indecente” vinda do estrangeiro — seja da América do Norte, Europa, Rússia ou China. Embora pareça que uma nova fase de colonização dos recursos naturais e da localização geopolítica da Gronelândia está nos planos, com pelo menos parte dela já em andamento.

    “A sociedade gronelandesa é suficientemente cuidadosa”, afirmou Strandsbjerg. “Os nossos políticos não têm dificuldades em tomar decisões difíceis. Especialmente quando tentam proteger o que é considerado essencial, ou seja, a riqueza natural da Gronelândia e o nosso modo de vida. Lembrem-se da decisão do nosso parlamento de proibir a mineração de urânio! A segunda lei aprovada pelo parlamento da Gronelândia, depois de termos obtido autonomia em 2009, tinha a ver com a proteção dos recursos naturais e com o que as empresas estrangeiras nos tinham de pagar para os utilizar”.

    Foto: Boštjan Videmšek

    Todos os partidos políticos da Gronelândia são a favor da independência total da Dinamarca.

    “Acima de tudo, devemos discutir que tipo de independência a Gronelândia realmente quer”, resumiu o professor Strandsbjerg. “Na minha opinião, devíamos falar de estatuto de Estado — mas não necessariamente no sentido de 100% de soberania. A relação deve ser país para país, mas com cooperação e parceria adicionais. A Gronelândia deveria certamente poder decidir sobre as suas questões constitucionais. No entanto, uma mera declaração de independência não significaria assim tanto. Primeiro precisamos de romper com a relação hierárquica com a Dinamarca. A Gronelândia ainda recebe muito dinheiro da Dinamarca. Existem também muitos laços estreitos entre a ilha e o continente. Cerca de 20.000 gronelandeses vivem na Dinamarca. Acima de tudo, o que é necessário é muito, muito diálogo aberto”.

    Uma explosão turística

    O dia 28 de novembro de 2024o marcou a abertura de um novo aeroporto internacional em Nuuk. A ligação da Gronelândia ao mundo — tanto com a América do Norte como com a Dinamarca — foi assim significativamente melhorada.

    “Estávamos prontos para a inauguração do aeroporto. Tínhamos muito em jogo no projecto”, disse-me Casper Frank Møller, presidente-executivo e cofundador da  agência turística Raw Arctic.

    Sentei-me com ele no seu escritório nos arredores da capital da Gronelândia, com uma vista impressionante das montanhas e do mar Árctico.

    “No início, a retórica de Trump fez-nos temer que as pessoas não quisessem visitar a Gronelândia. Mas as nossas preocupações rapidamente se revelaram falsas. Aparentemente, a Gronelândia tornou-se mais atraente do que nunca! O turismo aqui teve um grande impulso. Estamos agora no final de um Verão bastante louco. No ano passado, quando começámos a operar, a empresa Raw Arctic empregava apenas três pessoas. Agora somos 21. Os lucros seguiram uma curva semelhante. Estamos a trabalhar sem parar.  O que estamos a ver é nada menos do que uma explosão turística”.

    Em 2024, a Gronelândia foi visitada por cerca de 150.000 turistas e esperava-se que o número duplicasse em 2025. No entanto, no final de Agosto, o turismo local foi interrompido quando, devido a medidas de segurança insuficientes, a Dinamarca decidiu proibir temporariamente todos os voos internacionais de e para o aeroporto de Nuuk.

    A proibição foi imposta no dia em que o escândalo de espionagem rebentou. As minhas fontes locais continuam convencidas de que as duas histórias estavam fortemente relacionadas.

    Casper Frank Møller / Foto: Boštjan Videmšek

    A  agência Raw Arctic é especializada em visitas guiadas — a maioria delas aos arredores de Nuuk, onde se localiza o segundo grande sistema de fiordes do mundo. A variedade de actividades oferecidas vai desde caiaque e pesca até observar o derretimento dos glaciares e viajar em trenós puxados por cães. A equipa de Møller aposta na autenticidade, em apresentar aos visitantes o modo de vida gronelandês. O princípio da qualidade acima da quantidade implica que a empresa aceite apenas um número limitado de clientes.

    “Não somos movidos pela ganância”, assegurou-me o empresário de 28 anos. “Um velho provérbio gronelandês diz que não precisas de dinheiro para sobreviver, precisas de conhecimento. Precisas de lore. Temos bastante. A maioria dos gronelandeses tem. Estamos entre os últimos caçadores-recolectores. Não compramos carne e peixe nas lojas. Fornecemos nós próprios. Se não cultivássemos as nossas competências tradicionais, a natureza aqui acabaria connosco num instante. Por isso, a nossa orientação é ser o mais sustentável possível. Se pudesse, baniria imediatamente todos os navios de cruzeiro. Uma pequena cidade é invadida por 4.000 pessoas, e depois só gastam oito euros em média”.

    Embora os laços familiares de Casper Frank Møller se estendam tanto à Gronelândia como à Dinamarca, a Gronelândia continua a ser a sua terra natal … Um lugar onde cresceu e onde pretende ficar.

    “Só posso sonhar com uma mudança de paradigma”, disse. “Só posso esperar que o turismo sustentável um dia substitua a pesca como principal fonte de rendimento. A pesca está a causar enormes danos ao ambiente, mas também é o foco de grande parte da identidade gronelandesa. Somos cerca de 59.000 a viver aqui numa extensão de terra com pouco mais de um terço dos Estados Unidos. Temos a sorte de habitar uma das últimas áreas intocadas do mundo — ou, melhor, apenas ligeiramente tocadas. Mas também estamos a experienciar a linha da frente das alterações climáticas, e isso só vai piorar. É por isso que precisamos de nos unir e viver da forma mais sustentável possível. O nosso princípio orientador deve ser a solidariedade. No entanto, isto não parece fazer parte do zeitgeist. O modo de vida americano — o caminho que agora nos está a ser imposto — é o mais distante do que realmente precisamos. Tenho a certeza de que vamos ser suficientemente maduros para o rejeitar. Não seremos subornados. Está na nossa natureza explorar o nosso ambiente e apresentá-lo aos outros. Os gronelandeses são guias naturais por … Bem, por natureza! Por aqui, se não tiveres o teu próprio barco, trenó, cães e conhecimentos de caça, estás acabado”.

    A Gronelândia é uma nova atracção turística no Árctico. / Foto: Boštjan Videmšek

    Há alguns meses, Møller, que também lecciona economia na Universidade de Nuuk, indicou aos seus alunos que elaborassem os seus próprios planos de negócios. Todos os 20 alunos apresentaram-lhe um plano baseado na pesca.

    “Mal consigo descrever o meu horror”, recordou. “Quer dizer, estes eram todos os futuros empresários e políticos da Gronelândia! Por isso, demorei o meu tempo a explicar em detalhe o quão destrutiva a pesca em massa era para os oceanos, para ecossistemas inteiros. Deitei todos os planos deles para o lixo e instrui-os a fazer novos planos sustentáveis. E conseguiram. Alguns deles até tiveram ideias bastante interessantes. Foi a coisa mais importante que fiz na minha vida”.

    Um prólogo para o futuro

    Na perspectiva de Møller, o pior cenário possível seria a tomada de controlo da Gronelândia pelas enormes multinacionais de minérios. Opõe-se veementemente à exploração de novas minas e dos recursos naturais da ilha. “Quando falamos de desenvolvimento económico, primeiro temos de determinar o seu preço. Somos muito poucos e não somos exactamente versados em indústria pesada — o que são duas razões adicionais pelas quais a Gronelândia deveria ser fechada aos exploradores”.

    Mas não estaria ele preocupado com a possibilidade de o boom turístico poder transformar a Gronelândia noutra Islândia — que viveu uma verdadeira epidemia de turismo na última década? “Não”, respondeu. “Só meio a brincar, gosto de dizer que estamos protegidos do turismo de massas pela nossa infraestrutura bastante má”.

    Møller é muito cuidadoso em ajustar os seus planos às consequências crescentes das alterações climáticas. “Na última Primavera, o maior pedaço de gelo dos últimos 50 anos — e o segundo maior de sempre — partiu-se a menos de sete quilómetros de onde estamos. Os estalidos eram tão altos que ainda reverberam na minha cabeça. O mar estava cheio de gelo flutuante, e é assim que permanece. Foi bastante assustador. Vários assentamentos ficaram isolados do mundo. Vejo o evento como um prólogo para o futuro. Temos de nos preparar para qualquer eventualidade. Consigo sentir as estações fundirem-se umas nas outras, e consigo ver as mudanças aceleradas tanto na flora como na fauna. Uma grande mudança para pior é inevitável”.

    Foto: Boštjan Videmšek

    De acordo com os dados mais recentes da NASA, a temperatura média do mar em redor da Gronelândia já subiu dois graus Celsius na última década. Desde 1979, a quantidade de gelo marinho no Árctico foi reduzida para metade. O mesmo período viu o derretimento de dois terços do gelo de Verão com um peso combinado de 14 mil milhões de toneladas.

    Se todos os glaciares da Gronelândia derretessem, os níveis globais dos oceanos subiriam três metros. O derretimento de todo o gelo do Árctico faria com que os oceanos subissem sete metros. A comunidade científica está convencida de que todo o Árctico desaparecerá até ao final do século actual. Um quarto da área ártica está coberto de permafrost [solo congelado que retém gases de efeito estufa], que agora está a derreter tão rapidamente que provavelmente devíamos começar a reconsiderar o termo.

    Tudo o que foi dito acima parece uma declaração global de guerra.

    Vale também a pena mencionar que as alterações climáticas abriram recentemente duas novas rotas comerciais do Árctico — a chamada Passagem do Noroeste e a Rota do Mar Transpolar. Entre 2013 e 2023, o volume de tráfego naval mercante no Árctico aumentou 37%.

    Sob o rápido derretimento do gelo da Gronelândia encontram-se até 39 dos 50 minerais considerados “críticos” pelos Estados Unidos e parte da União Europeia. De acordo com dados do Serviço Geológico  dos Estados Unidos, a Gronelândia detém reservas de petróleo e gás no valor de cerca de 18 mil milhões de dólares (cerca de 15.450 milhões de euros). Por agora, as empresas de combustíveis fósseis decidiram que a perfuração seria demasiado cara. Qualquer empreendimento deste tipo teria também de enfrentar forte oposição das autoridades gronelandesas. No entanto, tudo isto pode mudar a qualquer momento.

    Consulado dos Estados Unidos na Gronelândia. / Foto: Boštjan Videmšek

    “Donald Trump está a jogar um jogo previsível”, disse Møller. “Tudo o que lhe interessa é o lucro. Não devemos cair na armadilha dele. Não devemos responder à agressão com agressão. Por isso, devemos fazer tudo ao nosso alcance para aliviar as tensões. Muito poucas pessoas aqui querem juntar-se aos Estados Unidos. A independência continua a ser o nosso objetivo principal. Mas realmente não devemos negligenciar a dimensão orçamental. Todos os anos, a Dinamarca fornece-nos cerca de 900 milhões de euros — mais de 40% do nosso orçamento total. Estes fundos tornam possível um estado social bastante extenso. Onde vamos arranjar o dinheiro se ficarmos por nossa conta? Precisamos de planear a longo prazo”.

    Segundo Møller, os gronelandeses valorizam a independência cultural acima de tudo. “Mas um grande problema é que a nossa sociedade está cada vez mais dividida. Também tem de perceber que muitas pessoas aqui têm ligações próximas com a Dinamarca. O desejo mais firme de independência reside em pequenos povoados costeiros localizados longe de Nuuk. Lá, a vida é incomparavelmente mais difícil. E os subsídios sociais concedidos pelo Estado são muito menores”.

    Um povo excepcionalmente igualitário

    Há algum tempo, Robert Christian Thomsen, professor na Universidade de Aalborg, escreveu que a Gronelândia estava a caminho de se tornar o primeiro país inuíte a conquistar a independência total. A sua opinião era de que a Dinamarca estava a passar por um processo de descolonização total. “No entanto, a tentativa norte-americana de comprar a Gronelândia não é uma nova forma de colonialismo?” — perguntei.

    “Bem, essa parece ser a questão para a Gronelândia”, afirmou. “Há um ano, a maioria dos gronelandeses e todos os partidos políticos defendiam a independência, sentindo que deveria ser alcançada o mais rapidamente possível, custe o que custar. No entanto, o aumento do interesse norte-americano alertou inadvertidamente muitos gronelandeses para os perigos da independência imediata. Antes, o colonialismo era entendido exclusivamente em termos das relações entre a Gronelândia e a Dinamarca. Agora isso já não é assim”.

    O professor dinamarquês e investigador sociocultural do Árctico acrescentou: “a possibilidade real de a Gronelândia cair sob o domínio norte-americano mudou muitos corações e mentes”. “De repente, muitos já não têm pressa. As sondagens mostram que preferimos ficar com o diabo que conhecemos. Mesmo percebendo que a colonização dinamarquesa não era benéfica para a Gronelândia. Se alguma coisa, era o contrário”.

    Foto: Boštjan Videmšek

    Numa sondagem recente, 85% dos gronelandeses afirmaram não querer fazer parte da esfera de influência norte-americana. Por outro lado, 84% eram a favor da independência imediata da Dinamarca. Todos os gronelandeses com quem falei desejavam ver a sua bandeira vermelha e branca a esvoaçar ao vento em frente ao edifício da ONU (Organização das Nações Unidas) em Nova Iorque.

    “Sim, a Gronelândia foi colonizada”, afirmou o professor Thomsen. “Sim, a Dinamarca é um país colonial. Mas a Gronelândia foi colonizada dentro de um modelo sociopolítico que rima parcialmente com os valores gronelandeses. Os gronelandeses são um povo excepcionalmente igualitário. Pela primeira vez, as últimas eleições parlamentares em Março viram o triunfo de um partido social-liberal sobre os socialistas e os social-democratas. O sector público da ilha é enorme, com as autoridades autónomas a dominar praticamente toda a economia. Em comparação, o sector privado é bastante pequeno. A propriedade pública é um conceito altamente respeitado. O Estado Social local baseia-se nos mesmos princípios que os da Dinamarca. A Gronelândia está praticamente fora de sintonia com a doutrina neoliberal norte-americana”.

    Na sua perspectiva, o caminho para a independência será difícil e, por isso, terá de ser gradual. “Os gronelandeses conseguem ver como os Estados Unidos tratam os inuítes, o quão mal estão lá. Portanto, como já dissemos, preferem o diabo que conhecem. Nem mesmo o partido de extrema-direita da Gronelândia é a favor da tomada de poder norte-americana”.

    A Lei de Autogoverno da Gronelândia, aprovada em 2009, concedeu à população indígena inuíte a máxima capacidade de autodeterminação. Em teoria, poderiam declarar a independência amanhã. A partir de 2009, o parlamento gronelandês passou a ser totalmente responsável pelos impostos, Saúde, pesca, Educação, agricultura, políticas de habitação e — isto poderá revelar-se crucial — pelos recursos naturais. A defesa e a política externa continuam a ser prerrogativa da Dinamarca.

    Para qualquer tipo real de independência, a Gronelândia precisa de aumentar as suas capacidades económicas. A Lei de Autogoverno determina que a Gronelândia só pode assumir as áreas actualmente geridas pela Dinamarca quando a Gronelândia conseguir prover plenamente o seu funcionamento. Uma vez alcançada a independência económica, o seu equivalente político não ficará muito atrás. Os gronelandeses são esmagadoramente a favor da independência. No entanto, as sondagens mostram que só até ao ponto em que o actual Estado Social e as condições de vida não estejam em risco”, alertou Robert Christian Thomsen.

    Também salientou que Donald Trump anunciou pela primeira vez a intenção de comprar a Gronelândia durante o seu primeiro mandato. “Naquela altura, os gronelandeses só riam. Já não estão a rir”.

    Segundo Thomsen, esta é parte da razão pela qual, aos olhos dinamarqueses, a União Europeia tem crescido recentemente em popularidade. “Inadvertidamente, Trump aproximou a Dinamarca e Bruxelas muito mais do que antes. Ele é a principal razão pela qual a UE voltou a ser “grande” em Copenhaga”.

    Foto: Boštjan Videmšek

    O funcionamento do sector público local, que representa metade do Produto Interno Bruto (PIB) da ilha, depende em grande parte das transferências financeiras da Dinamarca. O orçamento anual da Gronelândia totaliza 14 mil milhões de coroas dinamarquesas, ou pouco menos de dois mil milhões de euros. Do total, 5,6 mil milhões de coroas são um contributo da Dinamarca.

    A maior parte do orçamento restante é assegurado pela pesca, que representa 95% de todas as exportações da Gronelândia. A economia da ilha depende existencialmente da combinação altamente perigosa dos preços no mercado global, por um lado, e das consequências das alterações climáticas, por outro.

    “Até que a Gronelândia consiga expandir a sua produção económica e fortalecer o sector privado, será muito vulnerável”, frisou Thomsen. “E com a vulnerabilidade económica, o seu estatuto político continuará igualmente vulnerável”.

    Robert Christian Thomsen tem ensinado estudos do Árctico na Dinamarca nos últimos 13 anos. Mas só nos últimos meses conseguiu detectar algum interesse sincero na Gronelândia por parte dos media dinamarqueses e da sociedade dinamarquesa. O mesmo se pode dizer do Árctico.

    Foto: Boštjan Videmšek

    “Aqui, a Gronelândia raramente era sequer um tema de debate público”, apontou. “Na verdade, não sabemos muito sobre isso. Um grande problema é que, na escola, as crianças dinamarquesas praticamente não ouvem nada sobre a Gronelândia. Eu próprio só aprendi algo sobre a Gronelândia na universidade. Espero que isto esteja prestes a mudar para melhor. Há alguns dias, o meu filho mais novo disse-me que a sua turma passaria os próximos dois dias a aprender sobre a Gronelândia. Apesar do grande atraso, ainda assim, é um avanço revolucionário”.

    Como a maioria das pessoas com quem falei, Thomsen acredita que a relação da Dinamarca com a Gronelândia baseava-se em grande parte na ignorância. “Os dinamarqueses simplesmente não se importam com a Gronelândia. Eles veem-na como uma terra exótica de gelo e ursos polares. O que realmente é, e quem são os gronelandeses, interessa a quase ninguém”.

    No entanto, a realidade pode ser ainda pior. Há muito que Thomsen observa que o povo da Dinamarca se via como “os melhores colonizadores da História”. Pelo menos partes da sociedade dinamarquesa defendem que os gronelandeses deveriam realmente estar gratos.

    “O facto de o domínio colonial dinamarquês ter sido racista, degradante e profundamente hierárquico foi reprimido, se não negado abertamente”, afirmou o professor Thomsen. “No entanto, esqueletos coloniais continuam a sair dos armários dinamarqueses”.

    Um teste de paternidade racista

    A 11 de agosto, Ivana Nikoline Brønlund, membro da selecção nacional de andebol da Gronelândia, deu à luz a filha Aviaja-Luuna no hospital Hvidovre, perto de Copenhaga. Uma hora após o parto, as autoridades dinamarquesas retiraram o recém-nascido aos pais porque a mãe não realizou uma verificação de “competência parental”.

    Durante vários anos, o teste profundamente racista foi imposto aos pais de origem gronelandesa. No início de 2025, o teste foi proibido por lei. A proibição entrou em vigor em Maio, mas Ivana Nikoline foi testada em Abril. A menina recém-nascida foi arrancada das mãos da mãe com a intenção de ser encaminhada para uma família de acolhimento. “Trauma parental” foi citado como a razão.

    Ivana Nikoline podia ver a filha dia sim, dia não. O seu destino seria decidido numa audiência judicial a 16 de Setembro. Não há dúvida de que as acções das autoridades locais foram ilegais. Protestos irromperam em Nuuk, trazendo muitas memórias dolorosas à tona.

    “Fiquei chocada porque a proibição já estava em vigor há quatro meses. Isto é revoltante, completamente inaceitável”, disse-me Najannguaq Hegelund, três dias depois de a notícia ter vindo à tona.

    Hegelund — que é fluente em dinamarquês — especializou-se na representação legal de pais cujos filhos foram levados pelas autoridades dinamarquesas devido ao teste de competência. Passou muito tempo a combater o racismo sistémico e as atitudes coloniais dinamarquesas que ela própria experienciou enquanto estudava na Dinamarca.

    Na sua opinião, a perspectiva dinamarquesa sobre a população inuíte não evoluiu muito com o passar do tempo. Mesmo entre os círculos altamente instruídos, a perspectiva ainda se baseia largamente em estereótipos e clichés baseados no alcoolismo e no atraso geral.

    A dolorosa experiência pessoal de Hegelund incutiu-lhe uma fervorosa determinação para dedicar a sua vida à luta pelos direitos humanos. Há três anos, regressou da Dinamarca, onde nunca se sentiu em casa. Nos últimos sete anos, representou várias dezenas de famílias gronelandesas despojadas dos seus filhos.

    Muitos na Gronelândia foram lembrados do caso de 1951, quando as autoridades dinamarquesas transportaram 22 crianças inuítes para a Dinamarca para as transformar em “cidadãos civilizados”. Os pais tinham dado consentimento, mas foram manipulados para o fazer, dado que não lhes foi apresentada toda a informação. As crianças deslocadas deveriam eventualmente regressar à Gronelândia e — como cidadãos esclarecidos, cultos e civilizados — ajudar a transformá-la numa sociedade moderna. Seguiram-se décadas de adopções forçadas e contracepção forçada.

    Najannguaq Hegelund/ Foto: Boštjan Videmšek

    “Comecei a voluntariar-me porque estava interessada em saber porque levavam as crianças. O que estava por detrás disso? Costumava acreditar que os pais tinham de ter feito algo verdadeiramente horrível para que isso acontecesse. Algo como abuso, violência ou negligência. Mas quanto mais pesquisava, mais claro ficava que não era esse o caso. Por isso, decidi ajudar os pais nas suas batalhas legais”, relatou Hegelund num dia árctico banhado de sol, num café no centro de Nuuk.

    Não demorou muito até perceber que a retirada de crianças aos pais era de natureza sistémica.

    “Tudo se baseava num mal-entendido cultural, por assim dizer”, explicou a mãe de três filhos. “As autoridades dinamarquesas recusaram-se a compreender que os gronelandeses têm a sua própria abordagem aos cuidados infantis. Tal como temos o nosso próprio modo de vida. Tentaram impor a sua própria fórmula de estrutura, ordem e disciplina. Na Dinamarca, tudo está altamente organizado. Na Gronelândia, isso seria impossível. O nosso clima cruel há muito nos obrigou a aprender a viver dia após dia. Estamos habituados a adaptar-nos sempre às circunstâncias. Não gostamos de planear demasiado para o futuro. Quando o tempo está ameno, simplesmente aproveitamos o dia”.

    Hegelund também relatou que os testes de inteligência impostos aos pais gronelandeses eram culturalmente tendenciosos. “Na verdade, eram completamente inadequados, dado que se baseavam em tudo o que era dinamarquês e ignoravam tudo o que era gronelandês”.

    No entanto, Najannguaq Hegelund está convencida de que as relações entre a Dinamarca e a Gronelândia melhoraram nos últimos anos. Os gronelandeses tornaram-se mais confiantes em si próprios e nos seus direitos, por isso começaram a pressionar mais a Dinamarca.

    “O que exigimos de Copenhaga é igualdade, especialmente no que diz respeito às oportunidades de emprego e ao funcionamento do sistema público de saúde. Este último ainda está significativamente atrás do que é considerado a norma na Dinamarca. A educação é fundamental. A Gronelândia não tem professores suficientes, por isso as aulas do ensino secundário são maioritariamente ministradas em dinamarquês. Como consequência, muitas crianças gronelandesas abandonam a escola, o que é simplesmente inaceitável. Tudo isto está intimamente ligado à nossa elevada taxa de suicídio, especialmente entre os jovens homens”.

    A Gronelândia sofre da maior taxa de suicídio do planeta.

    Reprodução colonial

    Segundo Hegelund, um gronelandês que não é fluente em dinamarquês é visto como estúpido na Dinamarca. E este triste estado de coisas não está a melhorar.

    “Os gronelandeses estão cansados de tudo o que falámos,« concluiu Hegelund. “A nossa língua é a única língua dos povos do Árctico, e uma das poucas línguas nativas sobreviventes. É falada fluentemente por 80% dos gronelandeses. É muito importante para nós termos conseguido manter a nossa cultura e o nosso modo de vida apesar de todos os obstáculos colocados no nosso caminho. A sempre nacionalista Dinamarca deveria respeitar isso, não deveria?”

    A narrativa amplamente aceite na Dinamarca ainda mantém que a colonização da Gronelândia foi suave — não violenta e até benéfica para os nativos. Hegelund arrepia-se só de pensar. “A violência não é apenas física; ela manifesta-se de muitas formas diferentes, como a violência psicológica. Violência é violência.”

    Um indicador importante do poder duradouro da colonização é o facto de vários dinamarqueses ainda ocuparem cargos elevados tanto no governo da Gronelândia como em empresas-chave públicas.

    A longo prazo, Hegelund apoia a independência da Gronelândia, embora esteja cada vez mais preocupada com os crescentes apetites geopolíticos e as consequências das alterações climáticas. Na sua perspectiva, estes últimos já tiveram um impacto significativo, pois têm destruído rapidamente o modo de vida tradicional dos caçadores-colectores inuítes.

    Foto: Boštjan Videmšek

    No início da noite, enquanto avançávamos por entre os blocos desprendidos de glaciares da Gronelândia, o tempo mudou subitamente.

    Nuvens escuras envolveram-nos, e um vento feroz começou a soprar vindo do Leste. O grito das gaivotas acima de nós parecia intensificar-se. O mar do Árctico tornou-se também escuro e ameaçador, produzindo rapidamente uma série de ondas suficientemente fortes para abanar o barco. O balançar de todos os fragmentos de gelo à nossa volta era um espectáculo digno de se ver.

  • O fim da amizade: tensões crescentes no Árctico

    O fim da amizade: tensões crescentes no Árctico

    Perto de Kirkenes, cidade norueguesa localizada no Círculo Polar Árctico, encontra-se uma das poucas fronteiras russas abertas com o Espaço Schengen.

    Kirkenes, uma cidade na costa do Mar de Barents, encontra-se no centro da luta geopolítica pelo controlo do Árctico. Ambos os lados da fronteira estão agora fortemente militarizados e repletos de actividades dos serviços de informação e segurança.

    Kirkenes. / Foto: Boštjan Videmšek

    Para a Rússia, esta área reveste-se de uma importância estratégica fundamental. A vizinha Península de Kola abriga não apenas a Frota do Norte da Rússia, mas também a mais recente geração de submarinos nucleares e cerca de mil ogivas nucleares.

    Perto da fronteira fica a base aérea de Olenya, onde o exército ucraniano lançou recentemente um ataque bem sucedido com drones, destruindo vários bombardeiros estratégicos russos. A região é excepcionalmente rica em petróleo e gás natural, mas também é fortemente afectada pelas alterações climáticas. O derretimento acelerado do gelo já começou a afetar as rotas comerciais internacionais.

    Kirkenes é um dos pontos geopolíticos e de segurança “quentes” do mundo.

    Fronteira Noruega-Rússia. / Foto: Boštjan Videmšek

    Após o fim da Guerra Fria, a cidade norueguesa dedicou grandes esforços para se reinventar como uma ponte entre o Oriente e o Ocidente. No entanto, a agressão russa à Ucrânia, em Fevereiro de 2022, juntamente com as subsequentes sanções económicas, pôs um fim abrupto a essa ambição.

    Apesar do declínio dramático das relações entre a Europa e a Rússia, uma pequena parte da população Kirkenes manteve-se favorável em relação à Rússia … Predominantemente por razões económicas. Antes da guerra na Ucrânia, os negócios estavam a crescer na cidade fronteiriça. Além disso, o legado histórico da União Soviética na região era demasiado forte para ser totalmente apagado pelos desenvolvimentos recentes.

    Cerca de 600 cidadãos russos residem actualmente em Kirkenes e, na sua maioria, estão contra as políticas de Vladimir Putin. Vários — jornalistas, activistas, membros do movimento LGBT — fugiram para cá para evitar o recrutamento ou a perseguição por parte do regime russo. Quando os militares russos declararam a primeira grande onda de mobilização forçada, várias dezenas de russos escaparam para Kirkenes. Outra parcela menor da população russa da cidade apoia activamente o regime de Moscovo.

    Kirkenes, uma capital espiã do Norte. / Foto: Boštjan Videmšek

    Antes da guerra, sucessivos governos noruegueses atribuíram somas avultadas para o reforço da cooperação transfronteiriça com a Rússia na zona do Mar de Barents. Há 17 anos, ambos os lados da fronteira chegaram mesmo a ponderar construir uma “cidade gémea”, o que aumentaria os laços de Kirkenes com a cidade mineira russa de Nikel, no distrito de Pechegensky, e talvez até ajudasse a criar uma “área transnacional”.

    Tais eram os sentimentos na época.

    Assim, em Julho de 2008, Kirkenes acolheu uma reunião entre o ministro dos Negócios Estrangeiros norueguês, Jonas Gahr Støre, atual primeiro-ministro da Noruega, e Sergey Lavrov, que ainda desempenha as funções de ministro dos Negócios Estrangeiros russo. O projeto foi interrompido na fase puramente teórica. No entanto, a relação global manteve-se estreita. A equipa de hóquei Kirkenes passou alguns anos a competir numa liga regional russa. E, todos os anos, membros de ambos os grupos de patrulhas de fronteira reuniam-se para um amistoso jogo de futebol.

    Dito isto, várias das pessoas que entrevistei em Kirkenes alertaram para o facto de que partes da cooperação cultural foram ocasionalmente utilizadas indevidamente para fins de política externa. Ou, para ser mais direto, como ferramentas de propaganda direccionada.

    Foto: Boštjan Videmšek

    Legado soviético

    “Sinto-me enlutado e também traído por antigos amigos”, confessou um médico reformado, Harald Sunde, ao lado de um monumento aos soldados soviéticos mortos, no centro de Kirkenes.

    Além da sua longa e ilustre carreira médica, Sunde também é autor de dois livros sobre guerrilheiros noruegueses durante a Segunda Guerra Mundial. Quando Sergey Lavrov visitou Kirkenes pela última vez, em 2019, Sunde ofereceu-lhe um exemplar de um dos seus livros. Os dois cumprimentaram-se com um aperto de mão. Logo depois, o norueguês recebeu uma comenda especial do Ministério da Defesa russo.

    No dia 1 de Março de 2022, uma semana após a “operação especial” na Ucrânia, Sunde fez uma visita ao consulado russo para a devolver.

    “A invasão foi um enorme choque”, recordou, enquanto fitava a estátua da Segunda Guerra Mundial, erguida em 1952. “Até ao último minuto, esperava que Vladimir Putin não cumprisse as suas ameaças. O ataque russo à Ucrânia destruiu toda a confiança. E eu não acho que vai voltar tão cedo. Após três décadas a tentar construir uma comunidade amigável, temos agora um regime hostil do outro lado da fronteira. Os danos causados pelo rompimento dos laços são incalculáveis.”

    Harald Sunde, médico e guia histórico de Kirkenes. / Foto: Boštjan Videmšek

    Durante a Segunda Guerra Mundial, Kirkenes e os seus arredores viram alguns dos combates mais ferozes no Árctico.

    O exército alemão ocupou Kirkenes em Junho de 1940, mantendo a cidade ocupada durante mais de quatro anos. No auge da ocupação, cerca de 30.000 soldados alemães estavam em Kirkenes ou arredores, usando a cidade como um ponto de observação para ataques a Murmansk. Kirkenes esteve perto de ser destruída por aviões soviéticos que lutavam contra as forças nazis, apenas para ser libertada pelo Exército Vermelho em Outubro de 1944.

    Durante a Guerra Fria, o monumento aos soldados russos mortos em Kirkenes serviu como um forte elo nas relações locais Noruega-Rússia. Em ambos os lados da fronteira, o período foi suficientemente apreciado para ser apelidado de “a paz no Árctico”.

    Sempre que visitava o monumento, encontrava-se estacionado junto a ele um carro pintado com as cores da bandeira ucraniana, ostentando slogans como “Parem Putin!” e “Parem a guerra!”. O carro pertencia a um cidadão russo.

    Um carro com slogan anti-Putin está estacionado diariamente junto ao monumento dos soldados soviéticos. / Foto: Boštjan Videmšek

    O centro de Kirkenes também ostenta uma estátua de bronze do falecido Thorvald Stoltenberg, pai do antigo ministro da Defesa norueguês e mais tarde secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg. Stoltenberg foi uma figura-chave na ligação entre os países do Árctico após o colapso da União Soviética. Fundou o Secretariado do Mar de Barents e liderou numerosos projetos destinados a estabelecer laços com a Rússia.

    “Ele agora deve estar a virar-se no seu túmulo”, comentou Harald Sunde quando chegámos a esta segunda estátua.

    O aficcionado por História, de 67 anos, também exerce funções na Câmara Municipal como representante do Partido Socialista. Ele acompanhou-me até a placa comemorativa colocada pela comunidade local perto da entrada do consulado russo, após a morte do líder da oposição russa, Alexei Navalny.

    Homenagem a Alex Navalny em frente ao consulado russo, em Kirkenes. / Foto: Boštjan Videmšek

    Enquanto caminhávamos pela rua da memória da cidade, repleta de lembranças nostálgicas, Sunde continuava a elencar as lojas e empresas forçadas a fechar devido às sanções. As ruas eram maioritariamente frequentadas por cidadãos idosos… O que não surpreendeu, dado que os jovens têm fugido da zona. A população total está visivelmente a diminuir. Neste dia de primavera chocantemente quente, alguns turistas estavam por ali, enquanto as gaivotas, voando baixo, gritavam histericamente, protegendo os seus descendentes. Bandeiras ucranianas podiam ser vistas em cada passo que dávamos.

    As placas de sinalização de trânsito em Kirkenes estão escritas em três línguas diferentes: em norueguês, russo e sami. Desde 24 de Fevereiro de 2022, os políticos locais mantiveram um debate fervoroso sobre se as inscrições russas deveriam ser removidas. Recolheram-se assinaturas, iniciou-se uma petição… No entanto, o processo de remoção das inscrições não conseguiu reunir apoio suficiente.

    “Antes da invasão, Kirkenes era um importante centro comercial para os russos de classe média que viviam em cidades perto da fronteira. Posteriormente, muitos negócios fecharam, muitos deles permanentemente. Eu esperava que as autoridades de Oslo ajudassem mais, dada a gravidade da crise”, relatou Sunde.

    Fizemos uma breve paragem no abrigo subterrâneo onde os habitantes da cidade se esconderam durante os três anos de pesados bombardeamentos soviéticos na época da ocupação nazi. Pelo olhar que trocámos, ficou claro que ambos sentíamos que tudo o que é relacionado com a guerra deveria pertencer apenas a um museu.

    Fronteira Noruega-Rússia. / Foto: Boštjan Videmšek

    O colapso da confiança

    O facto de Kirkenes estar a voltar-se contra as políticas agressivas russas foi destacado durante a Conferência de Kirkenes, do ano passado. No seu discurso inicial, o presidente da Câmara Municipal de Sør-Varanger, Magnus Mæland, lamentou que, devido à invasão, as relações com a Rússia se tinham agravado nas gerações vindouras.

    “Independentemente do resultado da guerra, a nossa confiança na Rússia sofreu um golpe substancial”, disse Mæland aos delegados, na reunião. “Kirkenes visa fornecer um porto seguro para aqueles que querem democracia e liberdade”.

    Jonas Gahr Støre, primeiro-ministro norueguês, foi ainda mais directo. Na sua opinião, a situação na região era a mais grave desde a Segunda Guerra Mundial. “Temos de estar preparados para que a guerra acabe por chegar à Noruega, embora não haja uma ameaça imediata”, alertou Store, na Conferência de Kirkenes, em Maio.

    Abrigo da Segunda Guerra Mundial, em Kirkenes. / Foto: Boštjan Videmšek

    No dia de Junho, o edil Magnus Mæland decorou a fachada do prédio da autarquia de Kirkenes com uma grande bandeira arco-íris, usada na Noruega para homenagear a “marcha do orgulho LGBT” durante um mês inteiro. A menos de 100 metros de distância, no consulado russo, está pendurada a bandeira tricolor russa. Este é provavelmente o único lugar do mundo onde as duas bandeiras se encontraram tão próximas.

    “Quando estávamos a hastear a bandeira arco-íris, comecei a reflectir sobre como estávamos a viver na fronteira entre um regime totalitário e uma sociedade democrática aberta”, disse-me o autarca conservador, de 41 anos, no seu espaçoso gabinete no centro de Kirkenes. Mæland tornou-se presidente da autarquia durante o Outono de 2023, um ano e meio após a invasão russa da Ucrânia. Desde então, ele não trocou uma palavra com o cônsul-geral russo de Kirkenes, Nikolay Konyigin. As relações oficiais foram completamente cortadas.

    “Logo após a invasão, o cônsul-geral começou a espalhar as formas mais extremas de propaganda russa. Como como a Rússia estava realmente a lutar contra nazis. Como todos no Ocidente se tornaram nazis. Como esta foi a continuação da Segunda Guerra Mundial”, disse Mæland.

    Kirkenes (centro). / Foto: Boštjan Videmšek

    Na sua opinião, a invasão foi um enorme choque para toda a região, e especialmente para Kirkenes. No entanto, também acredita que os seus eleitores foram rápidos a aceitar a nova realidade, uma vez que as relações entre as duas comunidades fronteiriças já começaram a deteriorar-se após a anexação russa da Crimeia, em 2014.

    “O regime de Putin manipulou-nos como tolos”, afirmou Mæland. “A Europa revelou-se incrivelmente ingénua. Por aqui, vimos 31 anos de estreita colaboração com a Rússia. Somos uma cidade fronteiriça. Estamos interligados com os nossos vizinhos. Muitas das pessoas aqui ficaram tremendamente magoadas. Agora, toda a confiança extinguiu-se. O meu receio é que não renasça, pelo menos durante várias gerações.”

    “Kirkenes é um hotspot geopolítico. É verdade que partilhamos com a Rússia uma fronteira muito mais curta do que a Finlândia ou a Suécia. No entanto, a nossa fronteira está localizada junto ao mar de Barents e à Península de Kola, onde a Rússia tem enormes capacidades nucleares. Toda a área é uma fortaleza russa”, adiantou o autarca.

    Fronteira russa. / Foto: Boštjan Videmšek

    Mæland explicou que Kirkenes fica a 15 minutos da fronteira russa e a apenas 30 minutos de carro do vale de Pechenga, onde está colocada a 200ª Brigada de Fuzileiros Motorizados Separados do exército russo – uma unidade que sofreu pesadas baixas na Ucrânia. “Mais duas horas de condução e você chega a Severomorsk, a sede da Frota do Norte Russa, também composta por submarinos com armas nucleares estratégicas. E então, a apenas 30 quilómetros dali, há a base aérea de Olenya, onde há poucos dias vários bombardeiros de última geração foram destruídos por drones ucranianos”.

    Perguntei a Magnus Mæland se ele se sentia seguro, dado o que ele acabou de me dizer. “Sim”, respondeu ele. “Os nossos serviços de inteligência e segurança sabem exactamente o que está a acontecer. O mesmo vale para a polícia. O exército norueguês é extremamente competente. Estamos no controlo. Ao mesmo tempo, somos os olhos e os ouvidos da NATO. Somos importantes para a União Europeia e para os Estados Unidos. As armas nucleares do outro lado da fronteira nunca foram apontadas à Noruega. E não estão agora, tenho a certeza disso.”

    Mæland está bem ciente de que o Árctico se tornou o novo campo de batalha para as superpotências. As razões são muitas: as alterações climáticas permitem novas rotas comerciais, os abundantes recursos naturais do Árctico (petróleo, gás natural, metais e minerais raros, peixe) e as fontes de energia renovável…

    Magnus Mæland, presidente da Câmara Municipal de Kirkenes. / Foto: Boštjan Videmšek

    O presidente da Câmara de Kirkenes considera que tudo isto constitui uma boa razão para a Europa começar a construir uma nova base industrial. Na sua opinião, este seria o passo fundamental para a autossuficiência. Ao mesmo tempo, denuncia qualquer forma de dependência de regimes totalitários. Ele defende evitar rigorosamente o tipo de “ingenuidade globalizante” que tornou a Alemanha e vários outros países europeus quase totalmente dependentes do gás natural russo.

    “A solução para tudo o que falamos está aqui, no alto do norte”, concluiu o jovem político norueguês. “Embora seja verdade que estamos a enfrentar as consequências mais dramáticas das alterações climáticas, o nosso canto do mundo será, no futuro, muito mais habitável do que outras partes do globo”.

    Pesca pela Segurança

    Kirkenes e dois outros portos menores do Árctico norueguês são os únicos portos onde navios de carga russos ainda estão autorizados a atracar. A maioria deles são barcos de pesca. No entanto, o Serviço de Segurança norueguês permanece vigilante. Vários navios de pesca que atracaram em Kirkenes nos últimos três anos e meio tinham a bordo equipamento moderno dos serviços de informações. Por exemplo, o  barco de processamento de peixe Arka-33, que atracou na cidade durante várias semanas, em 2023.

    Estaleiro de Kirkenes. / Foto: Boštjan Videmšek

    Ben Taub, jornalista da revista The New Yorker, habilmente utilizou fontes do serviço de informação para provar que o Arka-33 estava a recolher informações. A embarcação pertencia a duas empresas russas com laços estreitos com empresas de segurança privadas e de um deputado russo que foi alvo de sanções internacionais.

    No final de 2023, até oito barcos de pesca russos altamente modernos, tripulados por 600 marinheiros, estavam atracados no porto de Kirkenes. Nenhum deles estava presente durante o período da minha visita, embora um (registado em Murmansk) estivesse a ser reparado no estaleiro local. Na sua maioria, os marinheiros russos que atracam em Kirkenes têm passaportes manuscritos — de modo a não serem rastreáveis. Os serviços secretos noruegueses estão convencidos de que pelo menos alguns dos marinheiros são membros da Frota do Norte russa.

    Nos últimos anos, todo o território norueguês do Árctico foi regularmente exposto a ataques dos serviços secretos de segurança russos. A maioria deles era de natureza eletrónica. O que se pode vislumbrar aqui é o núcleo de uma guerra híbrida que grassa em ambas as direções. O Serviço de Segurança da Polícia Norueguesa está a emitir alertas regulares sobre a possibilidade de sabotagem de ferrovias e oleodutos russos. Também se registaram numerosos casos de interferência de GPS.

    A Rússia tem vindo a expandir as suas actividades de inteligência de segurança — ou, em inglês claro, espionagem — em todo o território do Mar de Barents, desde 2014. Isto é especialmente verdade para a Frota do Norte russa. Mas isso não é nada de excepcional nestas partes. É apenas a continuação da norma adoptada durante a guerra fria.

    Rio fronteiriço. / Foto: Boštjan Videmšek

    Desde o início da guerra, o tráfego total no porto de Kirkenes caiu 30%. O principal motivo? A Noruega já não permite que navios russos fiquem fundeados nos seus portos para reparação e manutenção.

    Isso teve um impacto significativo na situação económica da cidade fronteiriça, onde grande parte da infraestrutura de serviços voltada para unidades navais russas foi construída após a Segunda Guerra Mundial. A referida infraestrutura era o principal empregador numa cidade extremamente remota, com todos os seus bares, restaurantes, oficinas mecânicas, hotéis e lojas.

    Ao longo dos últimos meses, tem-se falado cada vez mais de uma possível reabertura da mina.

    A verdadeira divisão

    Bjarge Schwenke Fors é o chefe do Instituto de Barents de Kirkenes, uma organização de investigação local que opera sob a égide da Universidade do Árctico da Noruega em Tromsø.

    Schwenke Fors está convencido de que a deterioração das relações transfronteiriças causou estragos económicos na região.

    Bjarge Schwenke Fors, diretor do Instituto de Barents. / Foto: Boštjan Videmšek

    Schwenke Fors relatou que, na sua opinião, o afecto da população local pela Rússia era, em grande parte, mítico. E apontou para os resultados de um recente estudo do Instituto Norueguês de Pesquisa Urbana e Regional, afirmando que apenas uma parte da comunidade russa de Kirkenes apoiou as autoridades de Moscovo.

    “A verdadeira divisão não está entre aqueles que apoiam ou se opõem ao regime do Kremlin”, esclareceu Schwenke Fors. “É entre aqueles que estão a tentar pôr fim aos investimentos locais na zona do Mar de Barents, bem como qualquer investimento adicional nas relações com os russos … E aqueles que desejam que os investimentos continuem.”

    Encontrei-me com o investigador norueguês na sede do Instituto de Barents. “O meu receio é que não consigamos regressar ao estado pré-invasão tão cedo”, advertiu Schwenke Fors. “Vai demorar várias gerações. O certo é que as relações aqui entraram numa nova época. A recuperação será certamente difícil. De várias formas, as duas comunidades permanecem estreitamente ligadas. Kirkenes é o lar de muitos russos, que são uma parte importante da comunidade. Assim como durante a Guerra Fria, quando a relação era propensa a muita oscilação. Mas, naquela altura, as coisas pelo menos costumavam ser bastante previsíveis. Hoje em dia, há apenas uma incerteza completa …”

    Caminho para a fronteira russa. / Foto: Boštjan Videmšek

    Schwenke Fors acredita que, após o fim da guerra na Ucrânia, as relações entre as duas comunidades terão de ser reconstruídas quase do zero. Principalmente devido a um sentimento de hostilidade cada vez maior.

    A resposta local à abundante propaganda russa era bastante previsível. A suspeita e a russofobia começaram a penetrar até mesmo nos cidadãos de mente mais aberta do lado norueguês da fronteira. Nas palavras de Schwenke Fors, o projecto de criar uma identidade comum na região do Mar de Barents estava morto.

    A identidade do Mar de Barents

    Kirkenes fica na segunda maior e menos povoada província da Noruega, Finnmark. A cidade foi fundada no início do século XIX. Durante muito tempo, foi propriedade de uma empresa mineira privada que a utilizava para extrair minério de ferro. No auge da produção, a mina empregava 1500 trabalhadores. No entanto, durante os anos 80, a falta de encomendas e de opções alternativas de emprego provocou um grave declínio demográfico.

    Foto: Boštjan Videmšek

    A situação mudou após o colapso da União Soviética. Durante alguns anos, os moradores de Kirkenes e Nikel foram autorizados a viajar até 30 quilómetros de distância nos seus respectivos países vizinhos, com apenas um passe de fronteira.

    O estatuto de isenção de impostos de Kirkenes significou que numerosos navios russos começaram a atracar no porto da cidade, trazendo um fluxo constante de comerciantes. Os noruegueses abriram uma cantina pública na cidade russa vizinha de Nikel.

    Durante a primeira metade dos anos 90, observou-se um intenso tráfego nos dois sentidos, entre Kirkenes e Murmansk. Os cidadãos russos frequentavam o lado norueguês da fronteira porque podiam comprar muitas coisas actualmente indisponíveis na sua terra natal. Os noruegueses, por outro lado, gostavam de visitar o lado russo em busca de festas baratas movidas a álcool.

    Durante os primeiros anos após o colapso da União Soviética, o lado russo da fronteira foi marcado por um grande caos. Estava em curso uma privatização de vale-tudo. Sindicatos criminosos assumiram o controle de Murmansk e de muitas cidades menores. A poluição industrial vivia o seu apogeu, em grande parte causada pelo mau manuseamento dos resíduos nucleares.

    Posto fronteiriço terrestre Noruega-Rússia. / Foto: Boštjan Videmšek

    Perto do final dos anos 80, a Península de Kola abrigava aproximadamente 20% de todos os reactores nucleares do mundo. O combustível nuclear em desuso continuou a derramar-se no Mar de Barents. Os resíduos nucleares que aguardavam armazenamento podiam ser vistos em frente a estaleiros navais e instalações industriais falidas.

    Havia algo como a “Identidade de Barents”, ou era um mito — perguntei a Olga Povoroznyuk, antropóloga social da Universidade de Viena e membro  do Instituto Austríaco de Investigação Polar com experiência de investigação a longo prazo na Sibéria e no Árctico.

    “Em 1993, os países do Mar de Barents – Rússia, Noruega, Suécia e Finlândia — criaram uma nova Região Euro-Árctica do Mar de Barents (o BEAR), uma região constituída pelas partes setentrionais da Finlândia, Noruega e Suécia, e a parte noroeste da Federação Russa, e onde vivem cerca de seis milhões de pessoas. A Declaração de Kirkenes, assinada nesse ano, lançou as bases para a cooperação. Esta importante iniciativa contribuiu muito para melhorar as relações internacionais e forneceu uma base para o desenvolvimento de uma identidade comum.”

    Olga Povoroznyuk tem investigado o projeto InfraNorth, com foco na infraestrutura de transporte e sustentabilidade, e actualmente é co-líder do projeto ARCA sobre espaços verdes urbanos e adaptação climática no Árctico. Em Kirkenes, ela e seus colegas da InfraNorth têm se concentrado nos impactos locais do desenvolvimento de infraestrutura e nas visões do projecto de expansão do porto marítimo.

    Mar Árctico. / Foto: Boštjan Videmšek

    “No início do século, quando estava a terminar o meu doutoramento, a ideia de uma identidade comum de Barents recebeu muita atenção nos círculos académicos e políticos”, disse Olga Povoroznyuk, recordando uma época em que as relações regionais atingiram um pico em termos de proximidade.

    E acrescentou: “a identidade regional partilhada foi tema de debates públicos e de imaginários futuros, apesar de o BEAR nunca se ter tornado uma região totalmente integrada do ponto de vista geopolítico”.

    Segundo Povoroznyuk, as relações na região têm vindo a deteriorar-se, pelo menos, desde a crise da Crimeia em 2014. “O ano de 2022 tornou-se um ponto de viragem histórico, impactando enormemente a identidade regional. Onde antes havia uma cooperação estreita, agora só há muita desconfiança e frustração. As vidas de muitos residentes em Kirkenes e Sør-Varanger sofreram mudanças dramáticas com o declínio da mobilidade, do comércio e das trocas comerciais entre a Rússia e a Noruega. O desejo de forjar laços transformou-se num sentimento de perda e incerteza futura”.

    Fronteira russa. / Foto: Boštjan Videmšek

    Antes dos seus actuais projetos de investigação, Povoroznyuk passou alguns anos a investigar os tópicos de indigeneidade, identidade, desenvolvimento industrial e mudanças climáticas na Sibéria e outras zonas do Árctico. “As pessoas aqui, em Kirkenes, estão preocupadas”, disse. “Sentem que estão longe de estar suficientemente protegidas de uma potencial nova ameaça. Ao mesmo tempo, a população ainda é capaz de tirar partido de inúmeras memórias da coexistência pacífica da guerra fria. A situação emocional é, portanto, bastante ambivalente. A população de Kirkenes vê a possibilidade de a cidade ser transformada numa base militar como ‘o cenário apocalíptico’. Ninguém quer ver isso acontecer. Da mesma forma, ninguém quer que a situação escale ainda mais.”

    De alguma forma, as suas palavras foram ecoadas por literalmente todos os meus interlocutores em Kirkenes e arredores.

    Exposição Setentrional

    O The Barents Observer é um jornal local que cobre todo o Árctico. Publicando o trabalho de colaboradores noruegueses e russos, o jornal online está disponível em ambas as línguas. O papel pode ser de natureza local, mas a qualidade de seus artigos está bem à altura dos padrões globais. Muitos dos que acompanham activamente a situação no extremo norte consideram-no um ponto de referência fundamental.

    O seu compromisso com a verdade e a objectividade transformou o jornal num alvo constante de ataques e sanções da Rússia. No início do ano, as autoridades russas declararam a publicação como indesejada, enquanto a colaboração com o jornal foi transformada num acto criminoso com uma pena de prisão de seis anos — incluindo republicar o seu conteúdo online.

    “Uma parte significativa dos materiais publicados tem uma orientação claramente anti-russa. É de salientar que estão a ser elaborados por cidadãos da Federação Russa que deixaram o país e estão incluídos no registo de agentes estrangeiros ou na lista de terroristas e extremistas”, refere um boletim público emitido pela Procuradoria-Geral da Federação Russa, a 7 de fevereiro. As autoridades russas também alegaram que os artigos do The Barents Observer visavam fomentar protestos nas partes do norte da Rússia, bem como aplaudir novas sanções contra a Federação Russa.

    Caminho para a Rússia. / Foto: Boštjan Videmšek

    Os jornalistas do jornal não ficaram, de modo algum, surpreendidos com a decisão do Kremlin. O jornal divulgou imediatamente uma declaração de compromisso firme com sua missão jornalística — principalmente o jornalismo de investigação publicado tanto em norueguês como em russo.

    “O que aconteceu mostra que o regime repressivo russo estava ciente de que éramos bons no nosso trabalho. O jornalismo não é crime. Tentar impedir a liberdade de imprensa e sufocar a liberdade de expressão do público — agora, isso é um crime! Vladimir Putin construiu o seu domínio com base no medo. Por isso, continuaremos a demonstrar que não temos medo dele”, disseram-me Thomas Nilsen, editor e — juntamente com os jornalistas — coproprietário do The Barents Observer, na modesta sede do jornal.

    Em Fevereiro deste ano, o The Barents Observer ganhou uma ação no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem contra a autoridade de comunicação russa, que impediu os repórteres do jornal de entrar em território russo.

    Nilsen acredita que uma cortina de ferro foi implementada ao longo da fronteira entre a Noruega e a Rússia. As pessoas estão cada vez mais assustadas. “Depois de a Rússia ter iniciado a sua guerra ilegal e brutal em solo europeu, percebemos que a ferramenta mais potente à nossa disposição era o jornalismo. Decidimos intensificar os nossos esforços.”

    Vale a pena mencionar que Nilsen foi proibido de entrar em território russo dois anos antes de todos os outros repórteres do jornal.

    A equipa doThe Barents Observer é composta por quatro jornalistas russos, que fugiram para Kirkenes da censura e perseguição, em 2022. Os quatro jornalistas são regularmente alvo de assédio por parte dos serviços de informação russos, mas continuam fiéis à sua profissão. Considerando que forças mal-intencionadas acompanham cada um de seus passos, não se podem dar ao lixo do menor deslize no padrão do seu trabalho.

    “Toda a zona do Árctico está a tornar-se num importante tópico mundial. Aqui, em Kirkenes, onde as consequências da ruptura dos laços com a Rússia não são tão graves como alguns afirmam, todos os temas-chave da nossa situação estão presentes. A geopolítica, as alterações climáticas, a proximidade da guerra… O que aconteceu há poucos dias na base aérea de Olenya, do outro lado da fronteira, foi um aviso claro de quão perto está a guerra. Percebo muito bem que a nossa carga de trabalho de reportagem só tende a aumentar”, resumiu Thomas Nilsen sobre a situação, falando comigo entre fotografias de Mikhail Gorbachev e caricaturas emolduradas que retratam a perseguição russa a jornalistas, mesmo ao lado de uma sala memorial a Boris Nemtsov.

    Campo de Kirkenes. / Foto: Boštjan Videmšek

    Um barril de pólvora geopolítico

    No contexto da segurança nuclear, a praticamente desconhecida cidade norueguesa de Kirkenes situa-se numa das áreas mais sensíveis do mundo, em termos geoestratégicos — pelo menos tão sensível como, por exemplo, Caxemira.

    Há mais de duas décadas que Vladimir Putin vê o Árctico como um importante campo de batalha geopolítico. A pressão russa sobre a região intensificava-se a cada ano. O mesmo se pode dizer da crescente pressão da NATO sobre a Noruega.

    Desde 2005, a Rússia começou a reabrir mais de 50 antigas bases militares soviéticas na Península de Kola. De acordo com os meus interlocutores, pelo menos mil ogivas nucleares — o segundo maior arsenal nuclear da Rússia — estão agora localizadas num raio de 200 quilómetros. A Península de Kola acolhe também zonas de lançamento de ‘rockets‘ hipersónicos e a maior frota de navios quebra-gelo do mundo. Um dos quebra-gelo é alimentado por um reactor nuclear.

    Ainda assim, mesmo com tamanha abundância de recursos, o recurso estratégico mais importante da Rússia na região do Mar de Barents são os seus submarinos nucleares supermodernos. Um único submarino pode transportar 16 ‘rockets‘ balísticos com ogivas nucleares, que podem ser disparados das profundezas do mar. Estes submarinos constituem a base da segurança estratégica russa e continuam a ser a prioridade absoluta de Moscovo. O mapa da Península de Kola parece, assim, um mapa da segurança geoestratégica russa.

    Foto: Boštjan Videmšek

    Aliás, em 30 de Outubro de 1961, o exército soviético desencadeou a maior detonação de uma arma nuclear da História. A explosão foi 3.000 vezes mais poderosa do que a de Hiroshima. A detonação ocorreu na ilha de Novaya Zemlya, no Mar de Barents. Soldados noruegueses no norte do país puderam observar o céu brilhante, mesmo estando a 1.000 quilómetros de distância da explosão.

    Rápida militarização

    A fronteira terrestre entre a Noruega e a Rússia mede 195,7 quilómetros de comprimento, a fronteira marítima 23,2 quilómetros. A única estação de travessia terrestre está localizada em Storskog, a cerca de 10 quilómetros de Kirkenes. A fronteira foi demarcada em 1826 e permaneceu praticamente inalterada até ao presente.

    O posto fronteiriço de Storskog ganhou destaque entre 2015 e 2016, quando foi usado por vários milhares de refugiados e requerentes de asilo do lado russo para entrar na Noruega. Só nos últimos três meses de 2015, mais de 5.000 pessoas atravessaram a fronteira.

    A maioria delas eram cidadãos sírios. Chegaram à Noruega de bicicleta e até de cadeiras de rodas, uma vez que era proibido atravessar a fronteira a pé. Os agentes dos serviços secretos noruegueses identificaram várias pessoas contratadas como agentes pelo Serviço Federal de Segurança da Federação Russa. Esta foi uma das razões pelas quais a fronteira foi fechada para refugiados, enquanto a Rússia foi colocada na lista de países seguros para refugiados. Veículos particulares com placas russas foram impedidos de entrar na Noruega em Maio de 2024.

    Durante o tempo da minha visita, a travessia foi usada do lado russo por um par de autocarros que transportavam turistas chineses. As infraestruturas em torno da estação de travessia estão a deteriorar-se rapidamente.

    Posto fronteiriço terrestre Noruega-Rússia. / Foto: Boštjan Videmšek

    O lado russo fortemente militarizado da fronteira é controlado pelo serviço de fronteira do Estado, enquanto o lado norueguês, cada vez mais militarizado, é patrulhado pela guarnição da região de Sør-Varanger.

    Toda a zona fronteiriça está repleta de estruturas de serviços de informação e segurança — a mais imponente é um trio de enormes cúpulas de radar localizadas na vila piscatória de Vardø e controladas pelo exército norueguês. Nos últimos anos, este exército tem usado a zona para treinar membros de unidades especiais ucranianas.

    Nikel é o primeiro maior assentamento do lado russo, marcado por uma série de chaminés altas. Não há muito tempo, quando a central ainda estava operacional, o ar e a água de ambos os lados da fronteira estavam fortemente poluídos.

    Perto de Nikel, encontra-se o famoso buraco de mais de 12 quilómetros de profundidade — o buraco mais profundo conhecido no mundo. Foi criado por engenheiros soviéticos nos anos 70, com o objectivo de perfurar o seu caminho até ao núcleo da Terra.

    Falharam.

    Foto: Boštjan Videmšek

    A Guerra Híbrida

    “O Árctico está a testemunhar as consequências da agressão à Ucrânia. A Rússia está a promover activamente uma narrativa de militarização do Árctico pela NATO e há vários anos que tem vindo a reforçar as suas posições militares no Árctico, abrindo novos postos avançados e actualizando os antigos”, disse-me Kari Aga Myklebost, professora de História russa na Universidade do Árctico da Noruega, numa conversa telefónica.

    Adiantou que a Rússia aumentou os seus esforços para criar uma imagem hostil do Ocidente a partir de 2022. Ao hastear bandeiras soviéticas e ao organizar aproximações de desfiles militares nos colonatos russos no arquipélago norueguês de Svalbard, no Mar de Barents, a Rússia está a tentar forçar a Noruega a reagir.

    “A incidência da actividade simbólica russa aumentou acentuadamente após o ataque em grande escala à Ucrânia. A Rússia intensificou as comemorações públicas de 9 de Maio como o Dia da Vitória, colocando uma ênfase adicional no seu legado da Segunda Guerra Mundial, ao mesmo tempo em que glorificou a actual guerra na Ucrânia. Este é o actual modo de operações híbridas da Rússia em Svalbard: a Rússia está estrategicamente a aproveitar a liberdade de expressão norueguesa e o uso de símbolos. O objectivo é provocar uma reação através da promoção de símbolos revanchistas, já que uma reacção mais incisiva abriria espaço para acusar a Noruega de discriminação contra a população russa. A partir de 2022, temos assistido a muitos desses casos em Svalbard”, explicou a professora Myklebost.

    Na sua opinião, a Noruega desempenha um papel bastante importante nos planos a longo prazo da Rússia. “Sendo um pequeno país que faz fronteira com a Península de Kola, estrategicamente importante, e com o adjacente Mar de Barents, a Noruega é, com razão, muito cautelosa. O equilíbrio de poder é extremamente assimétrico e estas regiões são de elevada importância militar e estratégica para a Rússia. A Noruega está bem ciente de que a Rússia poderia potencialmente começar a aumentar a pressão sobre o arquipélago de Svalbard.”

    Foto: Boštjan Videmšek

    Após a queda da União Soviética, as autoridades norueguesas investiram muito no estabelecimento de relações com a Rússia através da fronteira no norte. Especialmente em Kirkenes e arredores. “Depois de 2022, a construção de relações foi interrompida. Em Kirkenes, as relações com a Rússia tornaram-se um tema bastante sensível.”

    As comemorações da guerra, como o Dia da Vitória Russa, que costumava ser celebrado conjuntamente pela Noruega e pela Rússia em Kirkenes, tornaram-se controversas. De acordo com Myklebost, Moscovo — através de suas contínuas comemorações de guerra — mantém uma narrativa de unidade transfronteiriça na luta contra o nazismo alemão, bem como o neonazismo na Ucrânia hoje. “E isto é feito apesar do facto de muitos residentes de Kirkenes terem expressado muito claramente a sua desaprovação das comemorações russas, que tentam estabelecer uma ligação com a guerra na Ucrânia. O consulado russo simplesmente continua com suas provocações.”

    Como uma das principais autoridades em geopolítica do Árctico, Myklebost está convencido de que Kirkenes, em si, não tem um valor estratégico muito alto para a Noruega, mesmo que seja importante para a NATO como um todo, devido à proximidade com a Rússia. Já para a Rússia, o caso não poderia ser mais diferente. “Tanto Svalbard como o Mar de Barents são de extrema importância para a Rússia. Em caso de conflito entre a Rússia e a NATO, a Rússia necessitaria de controlar a parte oriental da província de Finnmark, bem como o Mar de Barents, para garantir as suas capacidades estratégicas na Península de Kola e o livre acesso da sua frota setentrional ao Mar Atlântico. Isto envolveria também o controlo de Kirkenes, Svalbard e da parte ocidental do Mar de Barents. Os principais objectivos seriam assegurar as capacidades nucleares da Península de Kola e conceder livre navegação à Frota do Norte russa.”

    O factor chinês

    Há umas semanas, o director do porto de Kirkenes, Terje Jørgensen, afirmou que queria construir um novo terminal portuário, destinado a conectar a América do Norte, Europa e Ásia. O novo terminal iria servir, principalmente, navios de carga chineses, concedendo à China precisamente o que mais deseja. Ou seja, seria um passo importante na criação da chamada Rota da Seda Polar. Embora também tenha de se salientar que o cliché do ‘norte de Singapura’ faz parte do debate público em Kirkenes há tanto tempo que já está um pouco gasto.

    “O facto é que o porto de Kirkenes precisa de investimentos e actividade. É por isso que o director expressou a sua abertura à colaboração económica com a China. A minha sensação pessoal é que o Governo norueguês não o permitirá, por razões de segurança”, argumentou Kari Aga Myklebost. A professora destacou os estreitos laços estratégicos da Rússia com a China, tendo os dois países realizado exercícios militares conjuntos no Árctico.

    Kari Aga Myklebost. / Foto: D.R.

    “A Noruega receia que a potencial infraestrutura portuária chinesa em Kirkenes possa ser utilizada para fins duplos. Ou para vários fins, em desacordo com os interesses nacionais noruegueses”, concluiu Myklebost.

    Os serviços secretos noruegueses estão cada vez mais preocupados com as mudanças recentes na Casa Branca, bem como com os norte-americanos que se aproximam da Rússia enquanto estão “de olho” na aquisição da Gronelândia. O norte da Noruega foi apanhado no meio de uma convulsão geopolítica.

    “A Noruega está a adaptar-se à evolução das circunstâncias. Por um lado, temos uma Rússia muito determinada e, por outro, a administração norte-americana extremamente imprevisível. Neste contexto, o Governo norueguês anunciou, em Maio, que tenciona suavizar as restrições impostas aos seus aliados há 70 anos, relativamente às actividades nas zonas fronteiriças com a Rússia. Esta é uma grande mudança, uma vez que as restrições foram em parte destinadas a enviar uma mensagem à Rússia,” disse Kari Aga Myklebost.

    Tal como a Finlândia e a Suécia, a Noruega tem vindo a reforçar as suas capacidades defensivas nacionais com o objectivo de conter a Rússia. “Esta é a realidade. Por enquanto, simplesmente não estamos em posição de planear as nossas futuras relações com a Rússia. A situação é demasiado imprevisível.”

    O Derretimento do Norte

    Outro factor-chave que contribui para as tensões crescentes no Árctico são as alterações climáticas.

    Nas últimas quatro décadas, cada década, em média, viu o derretimento de 13% do gelo de Verão. E a tendência só aumenta. A este ritmo, o Árctico poderá ficar livre de gelo até 2040 — uma previsão que se assemelha a uma declaração de guerra global. Ao mesmo tempo, o derretimento do gelo já está a abrir novas rotas comerciais. Alguns deles atravessam o Mar de Barents. Muito em breve, a Rota do Mar do Norte estará aberta durante todo o ano.

    Todos os países do Árctico, excepto a Rússia, são membros da NATO. À aliança militar euro-atlântica juntaram-se recentemente os vizinhos há muito neutros da Noruega, a Suécia e a Finlândia. A Rússia, que controla mais de dois terços do Árctico por si só, estendendo-se por 5.600 quilómetros de comprimento, foi expulsa pelo Conselho do Árctico em 2022. Todos os contactos científicos foram igualmente cortados, causando danos incalculáveis à nossa compreensão comum das mudanças que varrem a região do Árctico.

    white ice on water during daytime
    Foto: D.R.

    Antes do ataque russo à Ucrânia, as autoridades norueguesas planeavam transformar o porto de Kirkenes numa importante base logística que ligava a Europa à Sibéria ocidental. De suma importância, seria um terminal de petróleo e gás ligado à cidade finlandesa vizinha de Rovaniemi e, a partir daí, ao sistema ferroviário finlandês. Mas a invasão russa não foi o único factor que pôs fim ao ambicioso projecto. A Noruega também tinha expectativas excessivas em relação aos seus projectos de perfuração de gás terrestre no Mar de Barents.

    A Noruega, que se apresenta actualmente como um dos países mais verdes do mundo, continua a procurar intensamente novas jazidas de petróleo e gás terrestre. Estima-se que o Árctico contenha cerca de 30% das reservas mundiais de gás terrestre.

    De acordo com analistas petrolíferos, o Mar de Barents detém dois terços das reservas norueguesas de petróleo e gás terrestre. Em 2022, quando o sistema energético europeu entrou em pânico na sequência do ataque à Ucrânia, a Noruega abriu 93 novos locais de perfuração. Destes, 71 deles estavam localizados no ecossistema extremamente sensível do Mar de Barents. No período de 2022, o petróleo e o gás terrestre representaram 73% de todas as exportações norueguesas.

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    Foto: D.R.

    De acordo com dados do Departamento da Plataforma Continental, em Dezembro de 2023, a Noruega quebrou um recorde de seis anos em relação à quantidade de gás terrestre extraído num só mês (379 milhões de metros cúbicos). No final do ano passado, a Noruega exportava, em média, 1,85 milhões de barris de petróleo por dia para a União Europeia.

    Os combustíveis fósseis continuam a ser uma das principais forças motrizes da guerra.

  • Vidas arrancadas

    Vidas arrancadas

    A guerra na Ucrânia parece não ter fim à vista. As condições ao longo da frente oriental são abismais. A cada dia que passa, fazem lembrar cada vez mais os horrores da Primeira Guerra Mundial. A máquina imperial russa lavra tudo o que está no seu caminho.

     A Ucrânia, eterna prisioneira da geografia, luta para continuar a resistir. Para a Ucrânia, trata-se de uma luta pela sobrevivência. Para a Rússia, não é nada disso. O conflito ucraniano parece ter-se tornado mais uma guerra eterna que alimenta a indústria da morte, em rápida expansão.

    Dado que a guerra só pode ser descrita de forma credível pelos seus sobreviventes, falei com alguns soldados feridos nos hospitais militares ucranianos.

    Cemitério militar em Uzhhorod. (Foto: Boštjan Videmšek)

    “Eu e dois outros combatentes fomos numa missão de reconhecimento do campo de batalha em Donetsk. De repente, ouvimos o som de drones e procurámos refúgio num edifício em ruínas nas proximidades. Mas os três drones russos conseguiram detectar-nos”, relatou Andry Romanyak, de 55 anos, natural de Lviv.

    Recordou que dois deles lançaram bombas sobre o local onde se encontravam e o terceiro embateu contra o edifício, fazendo explodir a sua carga. “A última coisa de que me lembro antes de desmaiar foi de uma cadeia de explosões absolutamente angustiantes. Quando acordei, o meu primeiro impulso foi procurar os meus dois companheiros. Encontrei-os esquartejados a poucos metros do sítio onde estava”.

    “Eu sangrava dos pés e da parte inferior das pernas. Os estilhaços também me tinham atingido as costas. Tudo o que eu queria era sobreviver e voltar para a minha família, por isso consegui arrastar-me para fora dos escombros”, contou-me Romanyak, deitado no quarto do hospital da cidade de Uzhhorod.

    Pai de dois filhos e avô de dois netos, Romanyak foi ferido a 13 de Novembro de 2024. Tinha sido mobilizado seis meses antes. Tal como a toda a sua equipa, o serviço de mobilização tinha vindo buscá-lo ao estaleiro onde trabalhava como encarregado.

    Dois anos antes, tinha sido declarado apto a 60% para o serviço militar. O que, pelo menos em teoria, significava que tinha sido declarado inapto para o serviço na linha da frente.

    No entanto, dada a crescente falta de pessoal causada pela forte pressão russa, especialmente na parte oriental da Ucrânia, Romanyak foi mobilizado e imediatamente transformado em condutor de veículos blindados da linha da frente.

    Andry Romanyak (Foto: Boštjan Videmšek)

    O seu ferimento ocorreu após quatro meses de combates incessantes; quatro meses a fugir incessantemente à morte.

    “Estava um frio terrível”, diz Romanyak, recordando a sua luta frenética para se colocar em segurança após o  ataque do drone. “Felizmente, eu tinha juízo suficiente para saber a direcção de onde tínhamos vindo. Decidi regressar à minha unidade. Esperava que me encontrassem”.

    Todo o equipamento de comunicação tinha sido destruído no ataque e era claro para Romanyak que a evacuação era impossível. “Eu sabia, de facto, que eles não podiam salvar-me. Por isso, peguei numa arma e comecei a rastejar em direção ao sol. Só conseguia pensar na minha família”.

    Romanyak só conseguia mover-se de uma forma lenta e agonizante. A hipotermia crescente tornou-o alheio aos seus ferimentos. De vez em quando ouvia soldados russos a falarem. Ele está convencido de que em várias ocasiões chegou a estar a menos de dez metros deles. Quando se escondeu nos arbustos, uma patrulha russa inteira passou por ele.

    Durante a sua fuga não dormiu nem um minuto.

    Enquanto rastejava tentava encontrar lonas militares para se cobrir e descansar, já que, por todo o lado, o barulho da artilharia pesada aumentava a urgência da sua situação era insuportável.

    “Estava aterrorizado, mas que alternativa tinha”, referiu Romanyak com uma expressão mortalmente séria no seu rosto branco quase fluorescente.

    “Rastejei por entre um mar de soldados russos”, lembrou, explicando que esta parte do campo de batalha era altamente caótica. “Libertávamos alguns metros de território, e depois os russos recuperavam-no; recuperavam tudo. Estávamos sempre a andar para trás e para a frente”.

    Após três dias de uma miséria indescritível, Romanyak viu finalmente um grupo de soldados ucranianos. “Gritei “Slava Ukraini” e esperei não me ter enganado”.

    “Felizmente, eram de facto ucranianos. Limparam-me as feridas, puseram-me ligaduras e levaram-me para o hospital de campanha mais próximo. Ao contrário dos meus dois camaradas que morreram no ataque, eu tive uma sorte incrível”, lembrou.

    Devido aos seus ferimentos, os médicos do hospital militar decidiram amputar todos os dedos de ambos os pés. Quando falei com ele, Andry Romanyak ainda estava feliz por ter sobrevivido… Mas também temia não voltar a andar, o que o tornaria incapaz de cuidar da sua família.

    O seu prognóstico era, no entanto, bom.

    Assim que me despedi dele, foi-lhe marcada a sua primeira hora de exercícios de reabilitação.

    “O meu plano é simples”, confidenciou. “Quero voltar a pôr-me de pé e esquecer o que me aconteceu. Espero que isso me ajude a começar a dormir melhor”.

     “As condições lá são terríveis”

    Juriy Pakanich, cirurgião militar de 55 anos, pegou no seu telemóvel para me mostrar fotografias das complexas intervenções cirúrgicas e das feridas inimaginavelmente horríveis com que se deparou durante os seus mais de dois anos de serviço nos hospitais militares espalhados pelos campos de batalha ucranianos.

    Cemitério militar em Uzhhorod. (Foto: Boštjan Videmšek)

    As imagens eram tão abomináveis que tive de me esforçar muito para não desviar os olhos.

    “Habituamo-nos a isto”, explica Pakanich. “Caso contrário, não conseguimos fazer o nosso trabalho”.

    Enquanto cirurgião civil, o seu principal objetivo era salvar vidas, como cirurgião militar, a sua  tarefa é remendar as pessoas para que possam regressar aos combates.

    “Em determinadas alturas, tivemos tantas baixas que o nosso trabalho aqui assumiu aspectos quase industriais”, disse. “Uma vez tive de operar durante 12 horas sem pausa. Quando terminei, saí da sala de operações, apenas para constatar que a fila lá fora era maior do que quando comecei. Por isso, não tive outra hipótese senão voltar à sala de operações”.

    Durante os dois anos na frente, Pakanich operou vários milhares de soldados. A natureza da sua actividade obriga-o a decidir quem mais precisa de cirurgia – o que, na linha da frente, muitas vezes significa decidir quem vive e quem morre.

    Nas piores alturas, chegavam a ser trazidos diariamente 250 feridos para os hospitais militares onde o Dr. Pakanich trabalhava.

    Só deixou a linha da frente quando adoeceu com um grave surto de hepatite B. Uma parte dos seus pulmões teve de ser removida devido à infecção.

    Passou várias semanas num hospital e apesar de ter recuperado parcialmente, o seu estado de saúde impediu-o de regressar à frente de combate. O Dr. Pakanich ainda não se tinha conformado com esse facto.

    “Regressei à cirurgia civil”, explicou, “mas os meus pensamentos estão sempre com os nossos soldados na frente. Quero muito ajudá-los. As condições lá são horríveis”.

    Explicou que a Rússia continua a enviar novos soldados para a guerra e eles têm cada vez mais armas, enquanto o exército ucraniano está a resistir o melhor que pode.

    “Não conseguiríamos resistir sem a ajuda dos Estados Unidos e da Europa. O problema é que não recebemos nem de perto nem de longe a ajuda suficiente, mas simplesmente não nos podemos render e assim desonrar aqueles que já caíram pela nossa liberdade”, disse.

    O Dr. Pakanich é capitão no exército ucraniano e pai de três filhos. “Sou um homem muito diferente agora, do que era quando a guerra começou”, disse.

    “Todos nós aqui mudámos. Pessoalmente, tudo o que posso sonhar é com paz, descanso e boa saúde”.

    “Parecia não haver maneira de parar a hemorragia”

    Antes de se voluntariar para o exército, Ruslan Telegaj, de 35 anos, natural de Sarni, no noroeste da Ucrânia, trabalhava como guarda prisional.

    Praticamente sem descanso, lutou em todos os principais campos de batalha da guerra ucraniana: Kharkiv, Kherson, Zaporíjia… bem como nos campos de morte da interminável linha de frente do Donbass, que faziam lembrar os horrores da Primeira Guerra Mundial.

    Ruslan Telegaj (Foto: Boštjan Videmšek)

    “Estávamos numa missão de reconhecimento na fronteira entre Dnipropetrovsk e Donetsk. Seis de nós tinham-se amontoado num pequeno camião militar e quando ouvi o som de um drone, não tive tempo de reagir. Houve uma explosão selvagem e ficou tudo branco”, recordou Ruslan do seu quarto de hospital mobilado de forma ascética.

    Ao relatar os acontecimentos daquele fatídico dia 5 de Agosto de 2024, o seu tom podia ser descrito como ligeiramente dissociado.

    “Logo após a primeira explosão, tentei pôr-me de pé e avisar os meus companheiros para se abrigarem”, continuou, explicando que  a primeira vaga de drones ‘kamikaze‘ é normalmente seguida por uma segunda. “É uma táctica russa clássica”.

    “Tentei levantar-me, mas caí de novo no chão. A minha perna direita tinha sido rebentada e  três dos meus companheiros estavam mortos”.

    Ruslan arrastou-se  em busca de abrigo que encontrou na vala mais próxima. E, como esperado, a segunda onda abateu-se.

    “A minha hemorragia intensa alertou-me para o facto de também ter uma ferida enorme nas costas. Não tinha forças para me ajudar a mim próprio, quanto mais aos meus companheiros. Parecia não haver maneira de parar a hemorragia e a minha visão estava a girar, mas eu mantive-me consciente durante todo o tempo. Também estava com muita sede, por isso comecei a pedir ajuda”.

    Como as equipas de salvamento são elas próprias frequentemente alvo de ataques russos, a ajuda demorou cerca de uma hora a chegar aos sobreviventes. Ruslan desmaiou na ambulância, mas os médicos do hospital de campanha conseguiram estabilizar o seu estado. No hospital militar de Dnipro, a sua perna direita foi amputada abaixo do joelho.

    Não há fim à vista para a guerra (Foto: Boštjan Videmšek)

    “Estou a melhorar a cada dia que passa”, afirmou. “Também estou a começar a adaptar-me à minha nova situação. Com a ajuda de próteses, posso agora andar. E tudo o que consigo pensar é como estou prestes a regressar a casa depois de três longos anos”.

    Ao proferir estas palavras, Ruslan emocionou-se visivelmente. Como alguém que se descreve como tendo sido “criado nas ruas”, a sua mulher e o seu filho de três anos são sagrados para ele.

    No entanto, ainda não lhe é permitido juntar-se a eles – não por causa do seu estado de saúde, mas devido ao facto de, tal como centenas de centenas de outros doentes, ainda estar preso num limbo burocrático que o leva à eventualidade de ter alta do serviço.

    Passa os dias no hospital a fazer flexões intermináveis.

    “Não quero voltar para a frente de batalha. Já perdi muito. Quero viver como um ser humano normal. Quero estar com a minha família e ajudar a Ucrânia de outra forma. Se puder andar, aceito qualquer trabalho disponível”, disse com firmeza Ruslan Telegaj acerca das suas prioridades actuais.

    “O que nós, soldados, passamos não se vê na televisão”

    “23 de abril de 2024. Três de nós estávamos a fazer reconhecimento para a brigada mecanizada 116 quando ouvimos o som de um drone. Tentámos dispersar, mas mesmo assim fomos atingidos em cheio. A explosão deu-se perto de mim e fui projetado para o ar”, contou Andry Tarasov, da província de Mykolaiv, descrevendo telegraficamente o dia em que perdeu a perna direita.

    Andry Tarasov (Foto: Boštjan Videmšek)

    Quase perdeu a vida também. A unidade de resgate não conseguiu chegar ao local porque havia fortes combates por todo o lado. Andry, que tinha perdido uma quantidade crítica de sangue, foi colocado numa maca por um par de camaradas e levado para um local seguro, através de três quilómetros de fogo inimigo constante.

    Muitos dos soldados feridos chegam aos hospitais em muito mau estado. As enormes quantidades de antibióticos que lhes são administradas durante as primeiras fases do tratamento no terreno contribuíram para o desenvolvimento generalizado da resistência aos antibióticos, disse-me Oleg Holub, diretor do hospital municipal de Uzhhorod.

    Por esta razão, frequentemente as feridas dos soldados curam-se de forma muito mais lenta.  E, em muitos casos, toda a recuperação é posta em causa.

    “A guerra é assim”, diz Andry, com um ar sombrio, o olhar apontado para o chão. “Muito daquilo por que nós, soldados, passamos, não se vê na televisão”.

    A sua opinião sobre a guerra é certamente uma opinião qualificada. Andry lutou nos piores campos de batalha da frente oriental. É um veterano de teatros de batalha como Avdiivka, Kupiansk e vários outros. Já em 2017 – durante a chamada guerra tranquila com a Rússia – lutou pela infantaria da Marinha ucraniana contra formações paramilitares pró-russas em Mariupol.

    Ao todo, já passou nove meses em vários hospitais. No hospital militar de Lviv, foi-lhe colocada uma prótese à qual se está a habituar lentamente. Está desejoso de continuar no exército.

    Uzhoorod (Foto: Boštjan Videmšek)

    Depois de ter alta do hospital de Uzhhorod, gostaria de se tornar instrutor. Já tinha recebido ofertas das forças especiais e gostaria muito de transmitir os seus conhecimentos aos soldados mais jovens, que estão a entrar na frente cada vez menos preparados.

    No entanto, a situação com o exército agressor é inversa, uma vez que o lado russo é constantemente reforçado com tropas bem treinadas e quantidades de armamento praticamente ilimitadas.

    “Hoje estou zangado. Amanhã estou em paz. Depois, volto a ficar zangado. O meu humor é regido por fortes oscilações. Só sei que não seria capaz de viver sem trabalhar. Neste momento, a minha saúde é o mais importante, mas os meus pensamentos estão sempre com os meus colegas soldados na frente de batalha”, disse.

    Conta que antes da guerra, trabalhava no estaleiro de Chornomorsk, onde limpava os reservatórios dos navios. “Era um trabalho muito duro”.

    “Toda a minha vida trabalhei muito”, contou o homem com um rosto cinzento-escuro e profundamente cansado.

    Quando lhe perguntei se sofria de stress pós-traumático, Andry Tarasov apenas conseguiu esboçar um sorriso cínico.

    “Putin está a agir como um canibal”

    O Dr. Yuriy Fatula, chefe do departamento de cirurgia do hospital municipal de Uzhhorod, informou-me que três em cada 10 soldados feridos que tratavam no hospital sofriam de stress pós-traumático.

    De acordo com o Dr. Fatula, o hospital opera em média 10 soldados por dia, a maioria das quais são amputações. “Esta é uma guerra horrível. Faz-me lembrar a Primeira Guerra Mundial: uma longa frente fixa, trincheiras, artilharia pesada, baixas impensáveis. Vladimir Putin está a agir como um canibal”, afirmou o cirurgião, enquanto caminhávamos pelo cemitério militar de Uzhhorod, onde 150 rapazes e homens da cidade, perto da fronteira com a Eslováquia, estão enterrados.

    Dr. Yuriy Fatula (Foto: Boštjan Videmšek)

    Debaixo de um tímido sol de inverno, dois jovens cavavam buracos pouco profundos no meio de um tumulto de bandeiras ucranianas e coroas comemorativas. Os caixões de madeira já estavam preparados. Três ou quatro soldados são enterrados aqui todas as semanas – aqui e em todo o país, em todas as aldeias ucranianas.

    Pouco mais de um quilómetro separa o cemitério de Uzhhorod das fronteiras externas da União Europeia. Os europeus fariam bem em lembrar-se de que toda esta carnificina está a acontecer literalmente a um tiro de distância.

    “Sabe, o número real de baixas é significativamente mais elevado do que o citado pelo presidente Zelensky em Dezembro. Mencionou 45.000 – que, na verdade, é o número de soldados mortos directamente no campo de batalha. Mas o mesmo número de soldados terá morrido nos hospitais, durante o transporte, no cativeiro russo ou mais tarde em casa”, referiu o Dr. Fatula.

    O médico assumiu com orgulho as suas funções de chefe da cirurgia do hospital de Uzhhorod. Considera os seus esforços como um pequeno contributo para a liberdade ucraniana – embora essa liberdade pareça cada vez mais distante.

    “As pessoas estão tão cansadas”, disse-me enquanto nos conduzida de regresso ao hospital. “A guerra arrancou-as das suas vidas. É tão difícil para nós sentirmos qualquer tipo de felicidade ou alegria. Toda a gente aqui conhecia alguém que foi morto. Todas as famílias foram afectadas”. “É uma coisa horrível quando já não se pode planear o futuro – nem sequer o futuro dos nossos netos. A guerra faz com que o próprio tempo corra de forma diferente. Todos nós aqui estamos a envelhecer a um ritmo sem precedentes”, afirmou o Dr. Fatula.

    Lembrou que quando a guerra começou, “ficámos todos chocados”, realçando que cada vítima era uma tragédia colossal. “Mas ao fim de três anos, a guerra tornou-se o nosso estado por defeito. O nosso novo normal, se quisermos”. “Habituámo-nos às perdas constantes”, disse. “Mas continuamos a sofrer a toda a hora. E estou mesmo a falar a sério; a toda a hora.”

  • ‘A única maneira de sairmos daqui é pela força’

    ‘A única maneira de sairmos daqui é pela força’

    Em Abril de 2023, Ida Asp recebeu uma carta da Inspeção de Mineração de Estocolmo, informando que a  empresa Bergslagen Metals AS recebeu uma “licença exclusiva” para iniciar pesquisas de mineração na ‘área número 2’ de Viken, no município de Berg.

    A área designada estende-se por quase todos os arredores da casa de campo de Asp, construída no século XVIII e que foi renovada recentemente, bem como por toda a sua propriedade na vila de Oviken, onde os xistos de alúmen localizados logo abaixo da superfície do solo são ricos em metais e minerais.

    Asp trabalha na função pública, onde supervisiona a entrada de fundos europeus na Suécia. Como vice-presidente do conselho municipal de Berg, também é activa na política local. Asp e o marido receberam uma proposta de compra da sua casa e do terreno circundante “a um preço de mercado”. A Lei Mineral Sueca, que foi escrita no século XIX, afirma que qualquer pessoa pode solicitar uma licença de mineração em qualquer lugar sob a superfície, precisando apenas escolher um metal ou mineral com uma sólida possibilidade de ser encontrado no local designado. Isto pode potencialmente significar que os proprietários de terras suecos nem sequer são os proprietários das suas próprias caves.

    Grande parte da costa do Lago Storsjön pode ficar exposta à mineração intensiva.
    / Foto: Boštjan Videmšek

    Várias centenas de habitantes da idílica região de Jamtland receberam o mesmo tipo de carta – entre eles proprietários de terras, agricultores, silvicultores, proprietários de retiros de fim de semana. No momento da minha chegada, a região tinha sido abençoada com um degelo maravilhoso. No entanto, muitos dos moradores estavam a ser consumidos pela ansiedade. Alguns até temiam ser realocados em massa para um “novo Oviken” construído às pressas em outro lugar… Muito parecido com o que sucedeu aos habitantes da histórica cidade mineira de Kiruna.

    De acordo com os  dados do Serviço Geológico sueco, a Suécia – especialmente as suas planícies centrais – detém a maior reserva de minério de urânio do mundo. O país também é rico em vários outros metais e minerais como potássio, cobre, níquel e vanádio.

    Há muito tempo que as empresas de mineração globais estão cientes dos potenciais ganhos inesperados no país. Em Maio de 2018, o parlamento sueco aprovou uma emenda à legislação ambiental, que instituiu uma proibição nacional da mineração e pesquisa de minério de urânio. A moratória entrou em vigor a 1 de Agosto de 2018.

    Ida Asp, uma das líderes dos protestos contra a mineração de urânio na região de Jamtland. / Foto: Boštjan Videmšek

    Uma pesquisa encomendada pelo Ministério do Clima e Empresas, em Fevereiro do ano passado, determinou uma mudança de regras e definiu os termos para a extracção de urânio. O relatório sobre a discussão pública do referido inquérito tem de estar concluído até 20 de Março deste ano. O levantamento da moratória será então discutido no Parlamento sueco. As alterações legislativas têm de ser adoptadas até 1 de Janeiro de 2026, o mais tardar.

    De acordo com várias fontes, há poucas dúvidas de que as autoridades suecas irão descartar a moratória até ao final do ano. No início do levantamento, o Ministério do Clima e Empresas afirmou que o objetivo era “remover uma proibição que não é necessária”. Acrescentou ainda que a extracção de urânio deve ser regulada pelos mesmos regulamentos ambientais que dizem respeito aos outros metais e minerais.

    Ainda antes da publicação das conclusões do inquérito, o secretário de Estado do Ministro do Clima e do Ambiente, Daniel Westlén, previa que a moratória seria levantada. “A proibição da mineração de urânio será removida”, anunciou Westlén no Outono passado. “Será possível extrair urânio na Suécia. Não há razão para uma proibição”.

    Lago Storsjön / Foto: Boštjan Videmšek

    “Para que a União Europeia se torne o primeiro continente neutro em termos climáticos, é necessário garantir o acesso a metais e minerais sustentáveis”, declarou, no Verão passado, Romina Pourmokhtari, Ministra do Clima e do Ambiente.

    A chegada das empresas mineiras

    A inevitabilidade do fim da moratória foi recebida com grande entusiasmo pelos proponentes locais de um renascimento nuclear… Tal como a intenção das autoridades de construir dois novos reactores nucleares até 2035 e 10 até 2045, ao mesmo tempo que visa descarbonizar totalmente a electricidade da Suécia em nome da transição verde.

    Nos próximos 30 anos, prevê-se que a actual procura bastante elevada de electricidade na Suécia duplique para cerca de 300 TW/h … Principalmente devido à descarbonização da colossal indústria siderúrgica sueca.                                                         

    Até agora, a Suécia precisava de cerca de 1.500 toneladas de urânio por ano para manter seus seis reactores nucleares a funcionar. Nas próximas décadas, estima-se que esse número aumente para entre 3.000 e 4.000 toneladas. De acordo com dados da Associação Nuclear Mundial (ANM), o mundo consome 67.000 toneladas de urânio por ano, enquanto o uso anual da União Europeia é de 12.500 toneladas.

    Lago Storsjön / Foto: Boštjan Videmšek

    Segundo a ANM, estão actualmente a ser construídos 65 reatores nucleares em 16 países, enquanto outros 90 reactores estão em fase de planeamento. A China está, mais uma vez, a liderar… Contudo, também vale a pena mencionar que, nas últimas duas décadas, mais de uma centena de centrais nucleares foram encerradas em todo o mundo.

    A ANM prevê um aumento de 33% no uso de urânio na próxima década, correlacionando-se com um crescimento estimado de 27% nas capacidades dos reactores nucleares. Os peritos acreditam que novas tecnologias, como os “reactores rápidos”, poderiam aumentar consideravelmente a eficiência da utilização de combustível nuclear. Em teoria, isso deveria significar que o planeta detém urânio suficiente para quase 2000 anos. Outro factor a acrescentar é a opção de reciclagem do combustível nuclear – considerado que o processo ainda é actualmente demasiado dispendioso.

    A Suécia é, naturalmente, membro da organização Euratom, que fornece urânio aos seus membros, ao mesmo tempo que tem em conta um certo grau de diversificação da cadeia de abastecimento. Há vários anos que a Suécia importa a totalidade do seu aprovisionamento de combustível nuclear. Actualmente, o país não dispõe de meios para o enriquecimento de urânio, embora isso também esteja previsto mudar.

    Os dados mais recentes disponíveis da Euratom referem-se a 2022, ou seja, antes de uma série de perturbações geopolíticas importantes e dos seus impactos nas cadeias globais de abastecimento de urânio.

    Oviken, o centro dos futuros projectos de mineração de urânio. / Foto: Boštjan Videmšek

    De acordo com esses dados, a União Europeia importou a maior parte do seu urânio do Cazaquistão (26,2%), Níger (25,38%), Canadá (21,99%) e Rússia (16,89%). Na sequência da agressão russa à Ucrânia e do golpe militar no Níger em Julho de 2023, quando a junta local expulsou os franceses e entregou o controlo das minas de urânio à Rússia, muita coisa mudou no mercado global de urânio.

    Diversas empresas internacionais de mineração já demonstraram um grande interesse na extracção de urânio sueco. A mais proactiva até agora tem sido a empresa canadiana District Metals , à qual foram recentemente concedidos os direitos de investigação e extracção de urânio relativos a toda a região de Viken quando a moratória for levantada.

    Outra empresa digna de menção é a australiana Aura Energy, destinada a extrair minério de urânio ao longo do rio Häggån, onde potássio, zinco, molibdénio e vanádio também serão extraídos. Em 2019,  a Aura Energy processou o governo sueco por danos por causa da moratória.

    Oviken / Foto: Boštjan Videmšek

    “O objectivo declarado do governo sueco está bem alinhado com a capacidade de extrair urânio doméstico, reduzindo a dependência externa e fortalecendo o fornecimento de energia nacional e europeu”, afirmou Andrew Grove, que até recentemente actuou como diretor-geral da empresa. E acrescentou: “evidentemente, é essencial que o urânio seja extraído de uma forma que não ameace o ambiente local nem o abastecimento de água, e estou certo de que conseguiremos demonstrá-lo no âmbito do processo de licenciamento sueco”.

    Em nome da transição verde

    Não, inferno não! Não vou permitir que escavem debaixo da minha casa!” Ida Asp declarou, sentada à enorme mesa de madeira na sua encantadora residência escandinava, onde pretende viver uma vida de autossuficiência. Ao lado de sua casa vermelha, há um canil com 10 cães husky siberianos. Várias ovelhas balem atrás de uma vedação, acompanhadas por um cavalo islandês. Um par de cães e uma série de gatos comandam a casa.

    “Assim que recebi a carta, comecei a fazer chamadas. As pessoas ficaram furiosas. A primeira vez que organizei uma reunião, uma centena de pessoas apareceu. Mesmo muitos daqueles que realmente não se incomodam com o meio ambiente estavam a opor-se veementemente ao projeto de mineração. Quase toda a comunidade local se manifestou contra,” disse Asp, descrevendo os estágios iniciais da revolta local.

    Um dia antes da minha chegada, Ida Asp comemorou seu aniversário. De antemão, ela havia instruído os seus amigos e parentes de que os presentes mais desejados seriam livros de sobrevivência. “Sabe, livros sobre como fazer doce de morango em caso de catástrofe nuclear, ha-ha!”, disse. “Estou a preparar-me para o futuro. Já não compro a maioria das ilusões prevalecentes. Nós estragamos tudo. A humanidade não é capaz de uma reviravolta suficientemente forte. Só nos são oferecidas soluções de ‘mais-mais-mais’ , quando claramente a única resposta é ‘menos-menos’.”

    Asp relatou que, a partir do momento em que as cartas começaram a chegar, uma nuvem tóxica de ansiedade desceu sobre toda a comunidade local. De repente, era impossível planear o futuro.

    Ida Asp. / Foto: Boštjan Videmšek

    Logo após a chegada das primeiras cartas, o líder da empresa australiana Aura Energy fez uma visita a Oviken. Foi marcada uma reunião com a comunidade local, com a presença de mais de 300 pessoas.

    “O seu diretor-geral estava completamente despreparado!, recordou Asp, com traços de indignação ainda fumegantes no seu tom. “Muitas das nossas perguntas básicas simplesmente encontraram um espaço em branco! Mesmo as pessoas que vieram à reunião na esperança de que os projetos de mineração pudessem trazer algum bem para a região ficaram com a impressão de que algo obscuro estava a acontecer. E foi por isso que também eles se voltaram contra as autoridades de Estocolmo e as empresas mineiras estrangeiras. Todos nós estávamos com a impressão de que estávamos prestes a ser enganados. É preciso entender que o chamado preço de mercado da nossa terra é ridiculamente baixo. O meu marido e eu calculámos que a venda só iria gerar metade do nosso investimento no restauro da casa. O que, mais uma vez, é ridículo! É inédito! Então, não importa o que aconteça, estamos prontos para ficar. A única maneira de sairmos daqui é pela força.”

    Asp também sublinhou que as tendências recentes na política sueca a fizeram considerar retirar-se completamente da vida política. Especialmente porque as autoridades de Estocolmo estão atualmente a preparar um veto às decisões das comunidades locais… O que Ida Asp vê como um ataque ao que só recentemente costumava ser a sede mundial da democracia e das políticas ambientais progressistas.

    “Se isto pode acontecer na Suécia, então só se pode imaginar o que se está a passar no resto do mundo”, afirmou.

    Asp candidatou-se, recentemente, ao cargo de diretora de uma escola primária local.

    O número dos que protestavam contra o projecto de mineração aumentou rapidamente. A sua causa foi muito reforçada quando a Naturskyddsforeningen, a organização não-governamental da Sociedade Sueca para a Conservação da Natureza, se juntou à luta, trazendo o apoio dos seus 200.000 membros.

    Foto: Boštjan Videmšek

    “Soubemos imediatamente que algo estava muito errado. Tivemos de reagir”, disseram-me Katja Kristoffersson, directora de comunicação da filial local da Naturskyddsforeningen em Östersund.

    “Conseguimos obter um pedido apresentado por uma das empresas estrangeiras para ter a autorização para extrair urânio por estas partes”, explicou. “Então, sabemos o que está errado, sabemos onde estão os problemas. Acreditamos que ainda podemos parar o projecto, que realmente tem pouca ou nenhuma conexão com a transição verde. Trata-se de uma forma grosseira de induzir o público em erro no interesse de empresas estrangeiras”.

    Kristoffersson foi atraída para a causa conservacionista através de seu amor por fotografar alimentos biológicos. Trabalha em turnos diários de quatro horas na Naturskyddsforeningen. A outra metade do seu tempo de trabalho é gasta a moldar cerâmica.

    “Temos muitas ideias de como reagir”, disse-me… “Estamos a preparar um relatório com base na posição do próprio governo em 2020, quando as autoridades afirmaram claramente que essa forma de mineração era inaceitável. O cerne da nossa campanha é a ameaça que a mineração traria ao meio ambiente. Sobretudo à água. Os projectos de mineração que estão planeados estão localizados nas imediações do lago Storsjön, o quinto maior lago da Suécia, que fornece água para 60.000 pessoas. Também estão em risco as florestas e as terras agrícolas excepcionalmente férteis – somos 85% autossuficientes quando se trata de alimentos aqui. Mas tememos que tudo esteja prestes a ser envenenado – a água, as florestas, o solo, a nossa comida, tudo! Em muitos lugares onde o urânio era extraído de xistos, como seria aqui, foi precisamente isso que aconteceu”.

    Um dos que se juntou à batalha para acabar com a mineração de urânio na região de Jamtland foi o Dr. Urban Tirén. O antigo director do departamento de pediatria do hospital de Östersund, que agora trabalha como consultor sénior, também recebeu uma das cartas infames.

    Foto: Boštjan Videmšek

    “A minha motivação para parar o projeto é simples”, disse Tirén. “Como médico, quando as crianças adoecem com cancro ou outras doenças graves, faço sempre tudo o que está ao meu alcance para as ajudar. Nunca vou desistir. E a mineração no xisto de alúmen é como o cancro. Apenas se espalha causando grandes danos. A mineração em xisto de alúmen não foi comprovadamente segura para o meio ambiente em nenhum lugar do mundo.”

    Como entusiasta da natureza, gosta de passar o máximo de tempo possível ao ar livre, de preferência na companhia dos netos. Como entusiasta de fotografia, Tirén está intimamente familiarizado com as florestas, prados, lagos e rios locais. E receia que os projectos mineiros pendentes possam prejudicar irremediavelmente a fauna local, as águas do lago Storsjön e a produção agrícola na região de Jamtland, no centro da Suécia, com o seu solo muito fértil.

    Na sua opinião, uma única licença de mineração poderia desencadear um efeito dominó. Toda a região poderia ser transformada num local de escavação generalizado. A quietude do Inverno seria substituída por poeira e ruído, e a qualidade de vida semelhante à ‘Northern Exposure‘, aqui, desapareceria para sempre.

    “Na minha juventude, passei muito tempo a trabalhar como médico em África – na República Centro-Africana, por exemplo. E lembro-me muito bem da extensão da devastação que as empresas mineiras deixaram no seu rastro”, continuou Urban Tirén.

    Dr. Urban Tirén, pediatra. / Foto: Boštjan Videmšek

    Tirén teme que o enfraquecimento da legislação ambiental possa, em última análise, transformar a Suécia numa espécie de Amazónia escandinava. A população local vê os projectos de mineração como a continuação da colonização interna. Na Suécia, esse processo atingiu seu auge no século XIX e na primeira metade do século XX, com a mineração a desempenhar um papel altamente proeminente.

    Turbulência geopolítica

    Os recentes acontecimentos na Suécia têm de ser entendidos no contexto dos recentes acontecimentos em Bruxelas. Em Dezembro de 2023, o Parlamento Europeu aprovou a Lei Europeia das Matérias-Primas Críticas, dedicada a garantir um fornecimento seguro e sustentável desses materiais. Em Agosto passado, a Suécia assinou um enorme acordo nuclear com os Estados Unidos – a chamada parceria estratégica que obriga ao desenvolvimento conjunto de “pequenos reactores modulares” e visa melhorar as actuais práticas de gestão dos resíduos nucleares.

    De acordo com as nossas fontes, as exigências dos reactores nucleares americanos poderiam muito bem ser uma grande força motriz por detrás dos projectos mineiros na Suécia. No passado, os Estados Unidos tornaram-se fortemente dependentes da Rússia para urânio enriquecido. As sanções mudaram isso, pelo menos em parte.

    Segundo  dados da Agência Internacional de Energia (AIE), a procura global anual por metais e minerais críticos deve aumentar em 7,5 milhões de toneladas até 2040, saltando para um total de 28 milhões de toneladas. Em caso de atingir emissões neutras, a AIE estima a procura em 43 milhões de toneladas.

    Ao longo da última década, a União Europeia importou da China a maior parte dos seus metais e minerais críticos. O país detém um grande controlo sobre as cadeias de abastecimento globais – especialmente quando se trata de lítio, o componente-chave da bateria de iões de lítio. A UE colocou-se, assim, numa posição marcadamente subordinada, pondo assim em risco, pelo menos indiretamente, alguns dos seus ambiciosos objectivos de sustentabilidade.

    Um interesse crescente pela mineração de tudo o que existe sob o sol também foi demonstrado na Gronelândia, onde o gelo derretido esconde enormes quantidades de riquezas naturais, incluindo urânio. Na situação actual, a extração de urânio não é permitida na Gronelândia. Mas nada ainda é definitivo. As autoridades locais têm cada vez mais dificuldade em afastar pretendentes cada vez mais agressivos. Com a China de um lado e os Estados Unidos do outro, a frente ártica está agora firmemente implantada.

    ‘Northern Exposure’ / Foto: Boštjan Videmšek

    Até 2018, a participação maioritária na Rossing, a maior mina de urânio da Namíbia, era detida pela empresa australiana Rio Tinto. Agora, 69% dela pertence à empresa estatal chinesa China National Uranium Corporation. Curiosamente, 15% da mina é propriedade do Irão – e tem sido desde 1976.

    De acordo com  dados da Associação Nuclear Mundial, a Rússia tem à sua disposição 39 das capacidades mundiais para o enriquecimento de urânio (principalmente através da empresa Rosatom no Ural).

    “A Rosatom é um actor-chave no negócio de combustível nuclear e vende bens e serviços para a Europa e os Estados Unidos”, segundo James Action, do Carnegie Energy Institute. “Ironicamente, o processo de desmame dos combustíveis fósseis russos deixou a Europa particularmente dependente das exportações nucleares russas”.

    Rosatomácea é também um factor importante na agressão russa à Ucrânia. Um ex-director da empresa, Sergey Kyrienko, foi um dos que planeou a operação especial, enquanto a Rosatomácea continua a servir como um grande fornecedor do exército russo.

    Nos últimos três anos, o negócio do urânio voltou a prosperar. Os preços do urânio nas bolsas mundiais duplicaram. Para citar apenas um exemplo: o valor de uma mina de urânio localizada na Bacia de Athabasca, no Canadá, foi estimado em 4 mil milhões de dólares, apesar do facto de que só entrará em operação em 2028, quando o Canadá poderá ultrapassar o Cazaquistão como o principal fornecedor de urânio do mundo.

    Ajustados pela inflação, os preços do urânio atingiram o seu nível mais alto durante a Guerra Fria. Após o seu fim, quando uma parte do arsenal de armas nucleares foi desmantelada, os mercados globais foram atingidos por uma profusão de urânio enriquecido. Isso reduziu muito o preço, às vezes em até 90%.

    Área onde será feita a mineração no futuro. / Foto: Boštjan Videmšek

    Um facto importante, mas muitas vezes negligenciado, é que, após o colapso da União Soviética, os Estados Unidos começaram a importar grandes quantidades de urânio enriquecido da Rússia e de várias outras ex-repúblicas soviéticas. Isto foi possível através do ‘Programa Megatons para Megawatts’, adoptado em 1993. As antigas ogivas nucleares russas foram, assim, utilizadas para alimentar os reactores nucleares dos EUA, pelo menos, até 2013. E 500 toneladas de urânio enriquecido foram transferidas no âmbito do programa, 500 toneladas que costumavam compor 20.000 ogivas. Até 2009, os Estados Unidos pagaram à Rússia cerca de nove mil milhões de dólares pelo referido urânio.

    A empresa de mineração canadiana District Metals entrou na Suécia em 2020, durante a primeira onda da pandemia. Até 2022, o mercado mundial de urânio permaneceu bastante estático. No início, a empresa não investiu muito. Na maior parte dos casos, contentou-se em simplesmente perder tempo.

    Na sequência da agressão russa à Ucrânia, a situação geopolítica e económica alterou-se. Dada a dependência europeia do gás russo e a consequente corrida por alternativas, a energia nuclear estava prestes a experimentar um renascimento.

    A District Metals começou a explorar novas opções para a mineração na Escandinávia. “Quando vimos a situação na Suécia, começámos a procurar áreas onde o minério de urânio pudesse ser encontrado”, relatou o presidente-executivo da empresa, Garreth Ainsworth, geólogo e um dos operadores mais reconhecidos do sector.

    Área onde irá ser feita a mineração no futuro. / Foto: Boštjan Videmšek
    Garret Ainsworth, CEO da Distric Metals. / Foto: District Metals

    Entre outros projectos, a District Metals solicitou uma licença de exploração e mineração na área de Viken, onde a prospecção inicial mostrou que estavam disponíveis grandes quantidades de urânio.

    “A autorização foi barata, por conta da moratória. Pagámos 10.000 dólares por uma ‘licença mineral’, ganhando 68% dos depósitos Viken. Mais tarde, também comprámos os 32% restantes”, explicou Ainsworth. E está firmemente convencido de que o Governo sueco levantará a moratória sobre a extracção de urânio até ao final do corrente ano.

    “Estamos certamente preparados para o levantamento da moratória”, declarou. “Quando isso acontecer, é certo que as coisas correrão bem, tendo em conta o legislador sueco. O processo é bastante rápido. Na Suécia, pode obter uma autorização em seis semanas. No Canadá, o mesmo processo leva pelo menos dois anos.”

    A inevitabilidade do fim da moratória torna-se ainda mais clara quando se tem em conta um relatório publicado em Dezembro do ano passado pelo Ministério do Clima e das Empresas sueco. O relatório recomendava o fim da moratória até ao final do ano. As empresas globais de mineração, como a District Metals, estão a preparar-se intensamente.

    “O relatório representa um quadro legislativo para o levantamento do tema. Não se trata apenas de extrair o urânio, mas também de processá-lo e enriquecê-lo”, explicou Garreth Ainsworth. Ao longo de nossa conversa, o CEO da District Metals elogiou muito a tradição e a infraestrutura de mineração da Suécia.

    “A Suécia é um dos principais Estados mineiros da Europa”, disse, entusiasmado. “E não só em relação ao urânio, mas também ao minério de ferro, cobre, zinco, chumbo, prata, ouro… É um prazer trabalhar aqui. Os suecos gostam de investir em projectos no seu próprio país.”

    Ainsworth previu que, após o levantamento da moratória, a Suécia irá rapidamente construir cadeias de abastecimento – desde a mineração ao processamento e enriquecimento até à produção de combustíveis nucleares… Todo o caminho até ao utilizador final, ou seja, os reactores nucleares do mundo. Na sua visão, os resíduos também seriam reciclados de forma cada vez mais eficiente.

    “Em tempos instáveis, isso é crucial. Está caótico lá fora. Tenho a certeza de que está ciente de que o Níger, por exemplo, que abasteceu o mercado europeu com 25% de seu minério de urânio, agora é controlado pelos russos. O CEO da Kazatompromcompany do Cazaquistão declarou publicamente que agora é muito mais difícil para enviar urânio para o Ocidente, dada toda a pressão da China e da Rússia”, acrescentou Ainsworth.

    Uma decisão estritamente política

    “Esta não é uma transição verde, é cinzenta. Estão a tentar convencer-nos de que parte do meio ambiente precisa ser sacrificada para salvar o meio ambiente. Mas as soluções que estão a oferecer são falsas e perigosas. Parecem sempre encontrar novas desculpas para explorar os recursos naturais. Alguns até querem começar a fazê-lo no espaço, e tudo em nome da transição verde”, atirou o activista da Greenpeace Carl Schlyter, que representou o Partido Verde sueco no Parlamento Europeu, entre 2004 e 2014.

    Perguntei se existe a possibilidade de as empresas não atingirem seus objetivos. A sua primeira resposta foi uma careta.

    “Não se trata apenas da moratória”, explicou. “Logo após o Natal – quando todos já estavam de férias – o nosso governo propôs a eliminação do direito de veto das comunidades locais. Os referidos direitos poderiam certamente frustrar os seus planos. Mas isso não significa que o governo terá sucesso. Muitos dos autarcas opõem-se ao levantamento da moratória, uma vez que se apercebem dos danos que podem ser causados ao ambiente”.

    Carl Schlyter, da Greenpeace na Suécia. / Foto: Greenpeace

    Schlyter acredita que as razões por detrás do fim da moratória são estritamente políticas. “Na Suécia, a questão nuclear é uma questão de prestígio político. É preciso perceber que, durante a última campanha eleitoral, os partidos do governo enfatizaram fortemente o reforço das capacidades nucleares do nosso país”.

    Em 2022, as condições nos mercados de energia eram muito diferentes do que são hoje. Soluções rápidas estavam na ordem do dia. “Quando a Rússia atacou a Ucrânia, os preços do gás terrestre dispararam”, lembrou Schlyter. “E o preço da electricidade também disparou, principalmente devido ao alto preço do gás. Na Suécia, estávamos habituados a preços de electricidade excepcionalmente baixos – o segundo mais baixo de toda a União Europeia. E obtivemo-lo principalmente a partir de fontes renováveis e nucleares, apesar de termos encerrado vários reactores nucleares. Mas quando as coisas mudaram, a nossa indústria dependente de energia não carbónica sofreu um choque. Pelo menos durante um curto período de tempo, foi desprovida da sua competitividade”.

    A expansão das capacidades nucleares da Suécia foi a principal promessa de campanha e uma das primeiras promessas feitas pelo novo governo de direita… Uma postura que Schlyter vê como um estudo de caso no dogmatismo à prova de factos.

    “Venderam-nos a ideia de que a crise energética será resolvida com a construção de 10 novos reactores nucleares. Mas isso é totalmente absurdo”. O representante sueco da Greenpeace foi claro. “Na Europa Ocidental, a construção de um desses reatores demora, em média, 19 anos e custa cerca de 20 mil milhões de dólares. Ao mesmo tempo, é preciso perceber que os preços da electricidade baixaram nos últimos dois anos. O que significa que 2024 não viu um único mês em que o preço foi superior ao preço máximo garantido que está em vigor há 40 anos! No entanto, o governo ainda pretende destinar 35 mil milhões de euros em subvenções para a construção dos reactores, bem como 55 mil milhões de empréstimos baratos. Não se trata de economia, trata-se de pura política. As próximas eleições terão lugar em 2026, e a coligação no poder quer desesperadamente começar a construir algo antes disso para se poder gabar de cumprir as suas promessas”.

    Schlyter está quase divertido com o governo neoliberal estar a adoptar uma abordagem de ditadura comunista para a construção de novos reactores nucleares.

    Área onde será feita a mineração no futuro. / Foto: Boštjan Videmšek

    “Em todo o mundo, o negócio do urânio é controlado por Estados e governos”, explicou. “Actualmente, existe apenas uma empresa privada que se dedica ao enriquecimento de urânio. Situa-se nos EUA e não está muito bem. Os governos do mundo ditam os preços e controlam o mercado. Mesmo os franceses estão agora a enriquecer menos urânio – a sua procura não é assim tão elevada. Até agora, tem havido muito pouco investimento. O nosso governo afirma que os recentes desenvolvimentos geopolíticos estão a aumentar a procura de urânio e que a tendência só irá aumentar no futuro. Ao mesmo tempo, as estimativas oficiais do custo dos novos reactores são demasiado baixas para metade. O governo também prometeu que não faremos negócios com a Rússia. Mas, mais cedo ou mais tarde, haverá paz com a Rússia, certo? E então os nossos novos e brilhantes reactores poderiam facilmente ir à falência, uma vez que estariam a produzir quantidades totalmente supérfluas de combustível de urânio”.

    De acordo com Schlyter, o projecto proposto foi mal pensado desde o início. “Temos zero instalações de enriquecimento de urânio. Não temos fábricas de processamento de minério. Podemos abrir uma centena de novas minas de urânio, mas pouca coisa mudará – a Suécia continuará a ser incapaz de produzir o seu próprio combustível nuclear”.

    A sua principal preocupação prende-se com a forma como quantidades cada vez maiores de fundos públicos são afectadas à energia nuclear, enquanto as fontes renováveis são subnutridas. Pouco antes do Ano Novo, por exemplo, as autoridades suecas suspenderam a construção de 13 novas turbinas eólicas no Mar Báltico.

    “No que diz respeito às energias renováveis, costumávamos ser um dos países mais bem-sucedidos do mundo”, lamentou Schlyter. “Mas quando o governo se empenhou na opção nuclear, criou-se um certo vazio – que pode durar os próximos 20 anos”.

    Foto: Boštjan Videmšek

    Carl Schylter acredita que a história da mineração – tanto na Suécia como em outros lugares – mostra claramente a inevitabilidade da poluição da água potável.

    “Na Suécia, onde há urânio, geralmente também há água de alta qualidade”, alertou. “A legislação europeia proíbe a redução da qualidade da água. Este poderia ser o elemento protector. Em tempos de crise climática, a água é um recurso natural fundamental”.

    Como muitos dos habitantes de Oviken, o activista da Greenpeace vê os planos de mineração pendentes como uma forma de colonialismo: “Não é a primeira vez na História que a Suécia pretende colonizar as terras dos seus povos indígenas. Uma parte da elite dominante acredita que a resistência das comunidades locais pode ser quebrada com uma abordagem colonial. Mas as comunidades locais estão longe de estar desamparadas. As pessoas aqui estão conectadas. Trabalham em conjunto. Também têm os seus próprios deputados. O colonialismo é mais facilmente combatido através de uma comunidade local empoderada”.

    Uma nova forma de colonialismo

    Åsa Gustafsson é proprietária de uma quinta perto de Oviken, uma herdade com 65 vacas e vitelos. Ela é a quarta geração de sua família a trabalhar os cerca de 150 hectares de solo excepcionalmente fértil. A sua propriedade está localizada ao lado do lago Storsjön, que fornece água para Östersund, o famoso ‘resort‘ de desportos de Inverno. A fazenda de Gustafsson é totalmente dependente da água do lago.

    Åsa Gustafsson, proprietária de uma quinta. / Foto: Boštjan Videmšek

    “Os primeiros representantes das empresas mineiras começaram a vir para cá com maquinaria de perfuração já há trinta anos”, contou o agricultor sueco. “Mesmo assim, procuravam urânio – entre outras coisas. Fizeram muitas perfurações, incluindo algumas no nosso terreno. Mas depois ficámos em paz até Abril de 2023, quando recebemos a carta”.

    Estando junto de um dos estábulos arrumados, a voz de Gustafsson teve que lidar com uma cacofonia de ‘múús’. “O que mais me assusta é a situação da água”, disse. “Todos os locais de mineração estão localizados um pouco acima do lago, então a poluição estará descendo. E todos os rios, ribeiros e águas subterrâneas fluem para esse lago, bem como sobre as terras agrícolas locais. Mais cedo ou mais tarde, algum tipo de contaminação está garantido. Não recebemos garantias nem das empresas mineiras nem do Estado. Então, certamente não vou assinar nada. Vou ficar aqui”.

    A transição verde foi usurpada e privatizada pelo ‘lobby‘ nuclear, para que as riquezas locais pudessem ser entregues à corporação internacional de mineração. É esta a opinião de Bertil Sivertsson, que dirige a associação de agricultores local. É também membro dos democratas-cristãos – um partido da coligação governamental que parece ser a favor do levantamento da moratória a nível nacional e que se lhe opõe a nível local.

    Bertil Sivertsson, líder de agricultores locais. / Foto: Boštjan Videmšek

    “Em Estocolmo, parecem acreditar que ninguém vive em Jamtland”, disse”, disse Sivertsson. “Aparentemente, não existimos. É assim que é apresentado às corporações estrangeiras de mineração. Mas a realidade é que a nossa é uma zona com uma história e tradição excepcionalmente ricas… Embora tudo isso possa acabar em breve. Se conseguirem lançar a primeira mina, a caixa de Pandora estará aberta e um efeito dominó será inevitável”.

    “Isso mesmo”, exclamou Åsa Gustafsson. “O que temos aqui é um conflito crescente entre a produção de alimentos e metais e minerais raros… Ou, se preferir, uma guerra entre sobrevivência e lucro. Estamos atualmente a salvar o planeta destruindo-o. A agricultura respeitadora do ambiente e dos animais deve fazer parte da transição verde, e não algo que deva ser casualmente posto de lado por causa dela. Todos sabemos que, aqui, ninguém quer ouvir. Mas vamos continuar a gritar, mesmo assim. Vamos mostrar-lhes que existimos! Espero que os nossos protestos possam realmente fazer uma mudança. Todos os agricultores aqui estão do mesmo lado. Embora deva dizer que a ameaça sempre presente de poluição ou deslocalização torna terrivelmente difícil fazer planos mínimos para o futuro”.

  • Pandemia: Stanford reuniu peritos de excelência que estiveram do outro lado da ‘Narrativa’

    Pandemia: Stanford reuniu peritos de excelência que estiveram do outro lado da ‘Narrativa’

    A ‘nata’ dos peritos que defenderam uma estratégia racional e ponderada de resposta à covid-19 esteve reunida numa conferência na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Trata-se de especialistas de topo que, durante a pandemia, ficaram do outro lado da ‘narrativa’ seguida pela generalidade dos governos e que significou a imposição de medidas radicais, como as que foram implementadas em Portugal, com resultados desastrosos ao nível da mortalidade e da economia. John Ioannidis, o epidemiologista mais conceituado do mundo, foi um dos marcou presença no evento, tal como Anders Tegnell, responsável pelas políticas covid-19 na Suécia, e Jay Bhattacharya e Sunetra Gupta, co-autores da Declaração de Great Barrington, que defendeu uma estratégia proporcional e moderada de resposta à pandemia. Tegnell falou sobre a forma como geriu a pandemia na Suécia e a importância de, em crises, haver um “diálogo inteligente com a população”. Disse ainda que muitos países seguiram as medidas extremas adoptadas pela China por acharem que seria a “solução mais fácil” a usar por pouco tempo, o que “nunca foi verdade”. Mas a apresentação de Ioannidis também se destacou no evento.


    Ao contrário do que transpareceu nos media mainstream, durante a pandemia de covid-19 não houve unanimidade nem consenso na comunidade científica relativamente à melhor estratégia para se lidar com a crise sanitária. Houve uma acentuada divergência de opiniões, com vários peritos de excelência, e até Prémios Nobel, a defender que as autoridades deveriam implementar medidas proporcionais e moderadas para lidar com o vírus, as quais tinham ainda outros benefícios: não prejudicavam os mais pobres e vulneráveis e respeitavam os direitos humanos e civis.

    Vários dos especialistas de topo de nível global que defenderam políticas racionais e moderadas, baseadas na evidência, estiveram reunidos no dia 4 de Outubro numa conferência na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos com o título ‘Políticas da Pandemia: Planear o Futuro, Avaliar o Passado‘ (‘Pandemic Policy: Planning the Future, Assessing the Past’).

    Entre esses peritos estão nomes como John Ioannidis, o epidemiologista mais conceituado a nível mundial, médico e professor em Stanford, e Anders Tegnell, reputado epidemiologista que liderou a resposta da Suécia à covid-19 com resultados muito mais favoráveis do que países como Portugal, que impôs medidas extremas e que violaram a Constituição da República, bem como direitos humanos e civis. Estiveram também presentes peritos como os professores de Stanford e Oxford, Jay Bhattacharya e Sunetra Gupta, co-autores da Declaração de Great Barrington, que conta com quase um milhão de assinaturas, incluindo de especialistas em saúde pública, e que defendeu uma gestão da pandemia ponderada e mais focada nos grupos de risco.

    Anders Tegnell, reputado epidemiologista sueco, liderou a resposta da Suécia à pandemia de covid-19 com um grande sucesso. O país, ao contrário de outros, como Portugal, regista os melhores níveis de excesso de mortalidade. A Suécia recusou aplicar, em geral, confinamentos e o uso generalizado de máscara facial. Foto: D.R.

    O evento, composto por quatro painéis de debate, procurou analisar se as universidades acolheram o debate aberto e livre sobre as possíveis respostas à pandemia. Na abertura do evento, Bhattacharya defendeu que “em pandemias, o público depende de os especialistas partilharem a sua visão de forma aberta e sem medo ou favor e falarem o que pensam abertamente sobre as suas avaliações, em termos científicos e de políticas”.

    Tegnell foi um dos convidados que integrou o primeiro painel sobre o tema “Decisões baseadas na evidência numa pandemia“. Ali, foram debatidas medidas como confinamento forçado da população, fecho de escolas prolongado, distanciamento social, obrigatoriedade do uso de máscara facial e imposição de vacinas. Trata-se de medidas sem precedentes, tanto na sua “extensão como no seu impacto global”.

    Tegnell destacou a importância de, numa pandemia, se adoptarem, logo no início, medidas que sejam possíveis de manter, porque se trata de um tipo de crise que vai levar tempo a resolver e não haverá uma solução logo no imediato. “É necessário, logo no início, pensar em medidas que vai ser possível manter. E fechar as pessoas não é algo que se possa conseguir manter”, disse no painel. “Mas tentar ter um diálogo inteligente com a população sobre como podemos manter distância, como podemos reunir com menos pessoas do que o habitual, isso consegue-se fazer”, salientou.

    O epidemiologista defendeu que deve haver boa comunicação e transparência para haver confiança. Disse que “tem de se ser muito claro com as pessoas sobre o que se está a tentar alcançar e não como se vai alcançar, porque todos são diferentes e algumas pessoas precisam ir para o trabalho” e deslocar-se, mas podem decidir como fazê-lo de forma a minimizar contactos. “Penso que conseguimos isso, que as pessoas percebessem o que estávamos a tentar alcançar: queremos ter menos contactos”. Tegnell defendeu que, nesse contexto, as autoridades não precisam de parar com medidas que começaram porque as medidas se mantêm ao longo da pandemia. Destacou que uma crise como a da covid-19 é um caminho a percorrer para um objectivo e convém manter as medidas ao longo do tempo em vez de andar de medida em medida. “É ter um diálogo inteligente com a população, compreender as suas necessidades comparando com as nossas necessidades para abrandar o contágio”, disse.

    Estocolmo, Suécia, 2020 (Foto: PAV)

    O epidemiologista comentou que “o exemplo da China [que aplicou medidas extremas, fechando a população] levou muitas pessoas a pensar que era a solução mais fácil e sempre queremos uma solução mais fácil, mesmo em problemas complexos e, por isso, é que muitos países seguiram o exemplo [da China]”. Contudo, “houve também uma ideia bastante estranha na pandemia de que se pode parar isto e não levará muito tempo, e que se pode aplicar medidas muito duras porque só se tem de viver com elas durante um período de tempo curto, mas claro que isto nunca foi verdade”.

    Destacou que se provou “ser muito mais difícil parar com uma medida que já se implementou” porque para se manter a confiança da população, não se pode estar a mudar de medidas constantemente. “Era muito difícil dizer hoje que ‘isto é uma doença mortífera e têm de ficar em casa e fazer nada e umas semanas depois dizer que está tudo OK”, disse.

    “Descobrimos também que, na nossa sociedade, a confiança é incrivelmente importante” e que “é mais fácil dizer que vivemos num mundo onde a confiança se está a deteriorar, o que penso ser terrível porque vai ter efeitos na saúde pública mas não só”. Tegnell elogiou o evento e a iniciativa da conferência e considerou que “há uma boa possibilidade, com este tipo de encontros, de ter diálogos abertos e reconstruir a confiança, não apenas confiança na academia e na população, como a confiança entre a academia e os funcionários públicos e os políticos, porque penso que, em certa medida, isso estava em falta, por isso é que em muitos lugares os políticos tomaram conta de tudo”.

    Deixou ainda um alerta: “temos de compreender que uma pandemia não é um problema de comunicação de doença, não é um problema de saúde, é um problema da sociedade. Então, temos mesmo de envolver toda a sociedade”. Por outro lado, destacou a importância de, numa pandemia, se proteger os mais pobres. “Mesmo numa sociedade com um nível de igualdade razoável, como a Suécia, podíamos ver que isto estava a prejudicar as pessoas com um estatuto socio-económico mais baixo e muito mais do que o resto da população, por isso temos de ser capazes de os proteger muito melhor antes que surja uma próxima pandemia”, avisou.

    Defendeu ainda que, no futuro, terão de se usar melhor os dados existentes. “Não sou um académico, sou um funcionário público, mas penso que não usámos realmente muito bem os dados que estavam disponíveis e precisamos usar melhor os dados”, disse.

    Anders Tegnell (à direita) participou no primeiro painel que debateu o tema “Decisões baseadas na evidência numa pandemia”. Foto: Rod Searcey/Department of Health Policy, Stanford University

    O segundo painel debateu o tema “Desinformação, censura e liberdade académica“, onde foi levantada a questão: “será que limitar a liberdade de expressão durante uma crise sanitária protege o público ao reduzir desinformação prejudicial ou será que põe em risco o silenciamento de dissidentes válidos e promovendo uma visão única e aprovada?”

    O terceiro painel debruçou-se sobre o tema “Gestão da pandemia de uma perspectiva global“, colocando na mesa de debate a pergunta: “como é que os interesses dos mais pobres podem ser melhor representados em decisões adoptadas por países ocidentais numa próxima pandemia?”

    Por fim, o quarto painel discutiu “As origens da covid-19 e a regulação da Virologia“. Isto num contexto de investigações que trouxeram à luz do dia que os Estados Unidos contribuíram com financiamento público para pesquisas perigosas envolvendo modificação de coronavírus no laboratório em Wuhan, na China, de onde se suspeita que poderá ter saído o SARS-CoV-2. O painel propunha que, “se a pandemia começou a partir de um comércio de vida selvagem inadequadamente regulamentado ou zoonoses, reformas para reduzir a probabilidade de contato humano com espécies selvagens são vitais”. Contudo, “se a pandemia começou devido a experiências laboratoriais perigosas e protocolos inadequados para evitar fugas, então uma regulamentação mais rigorosa desse tipo de experimentação é necessária”.

    O epidemiologista mais conceituado do mundo, John Ioannidis (à esquerda) e o co-autor da Declaração de Great Barrington Jay Battacharya (à direita), foram dois dos especialistas de topo a nível mundial que marcaram presença na conferência da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Ambos são professores em Stanford. Foto: Rod Searcey/Department of Health Policy, Stanford University

    O evento foi encerrado com uma apresentação de John Ioannidis, que mencionou a crise de excesso de mortalidade que afectou diversos países, incluindo Portugal, desde 2020. O reputado epidemiologista destacou, pouco depois do início da sua palestra, que recusou e não pediu financiamento para o seu trabalho de investigação sobre a covid-19. “Recebi um prémio honorário de 100.000 dólares, mas pedi que o dinheiro fosse destinado a duas organizações filantrópicas para crianças carenciadas, pois pessoalmente sinto que decepcionámos as crianças. Decepcionámos os pobres, as crianças pobres, o nosso futuro e a melhor parte do que é o ser humano”, afirmou.

    Depois, concordou com uma das conclusões dos trabalhos de que a pandemia “foi um desastre para alguns países, mas quase não houve excesso de mortes em outros e, para a grande maioria dos países do mundo, não temos uma ideia exacta do que aconteceu porque nem sequer temos bons sistemas de registo de óbitos para contar sequer quantas pessoas morrem, muito menos do que é que elas morrem”.

    Destacou que, “basicamente, em 34 países com dados de melhor qualidade sobre registo de óbitos, vimos que metade (17) não teve mortes em excesso comparadas aos anos imediatamente anteriores à pandemia, enquanto a outra metade enfrentou realmente um desastre” [Portugal está na metade com os piores dados]. Neste cenário, “os piores foram os Estados Unidos e a Bulgária”. Frisou que, “entre aqueles com menos de 65 anos, os Estados Unidos tiveram números muito piores do que qualquer outro país”. Quanto aos “melhores, foram a Suécia e a Nova Zelândia”, que são “dois países que tiveram abordagens muito diferentes sobre a forma de lidar com a crise”. Aproveitou para elogiar o estratega da resposta sueca: “fico feliz em ter Anders Tegnell connosco hoje. É a primeira vez que nos encontramos pessoalmente, e ele é, sem dúvida, uma lenda”, afirmou.

    Foto: Rod Searcey/Department of Health Policy, Stanford University

    Ioannidis apontou que, na sua opinião, o denominador comum “é que a covid-19 foi um desastre em países com alta desigualdade e em crise antes da pandemia”. Ou seja, “países sem recursos, com pobreza, onde uma grande parcela da população era marginalizada, sofreram mais”. “Esses países já estavam em crise e, infelizmente, continuarão em crise após a pandemia, o que me preocupa para o futuro”, afirmou.

    O especialista, que é médico, formado em Medicina Interna e Doenças Infecciosas, disse que os médicos “são os heróis desconhecidos que enfrentaram uma crise dupla” na covid-19.

    Observou que “a covid-19 mobilizou massivamente cientistas, académicos, especialistas em políticas e muito mais; influenciadores, redes sociais, jornalistas, políticos, decisores políticos, as grandes tecnológicas [Big Tech]”. Para Ioannidis, “ouvimos muitas dessas partes interessadas que interferiram no processo da Ciência”.

    Sobre os trabalhos de investigação publicados na pandemia, lamentou a sua fraca qualidade. Segundo Ioannidis, quase dois milhões de cientistas publicaram cerca de 720 mil artigos científicos, resultando em mais de 10 milhões de citações no Scopus. Na sua maioria, os artigos mais citados em 2020 e 2021 eram sobre covid-19. “Sabemos que na literatura científica, o artigo médio é horrível, mas os artigos sobre covid-19 foram mais horríveis do que horríveis e digo isso com total respeito por todo o trabalho incrível que aconteceu durante a pandemia”.

    Pensando no futuro, defendeu uma “Ciência útil”, para resolver problemas reais existentes. Defendeu também maior acesso a dados e informação por parte da comunidade científica. E defendeu que deve haver uma maior transparência, a divulgação de todo o tipo de declaração de interesses de cientistas e investigadores, quem os financia e até as suas posições políticas e outros conflitos de interesse.

    John Ioannidis. Foto: Rod Searcey/Department of Health Policy, Stanford University

    Em Portugal, existe o exemplo de Filipe Froes, um dos mais requisitados ‘especialistas’ pela imprensa e que nunca é apresentado como um consultor que presta serviços a farmacêuticas, designadamente participando em eventos para os quais é pago. Nunca são assim dadas a conhecer ao público as suas ligações e potenciais conflitos de interesse sempre que promove fármacos ou influencia políticas de saúde pública com impacto forte na vida da população.

    Na conclusão da sua apresentação, Ioannidis disse que “temos de pensar positivamente sobre o futuro”. “Não quero pensar que o nosso futuro será uma espiral de morte de decisões erradas”. Sinalizou que isso aconteceria “se permitíssemos o autoritarismo, e infelizmente há autoritarismo à nossa volta; se permitirmos desigualdades, e infelizmente há desigualdades à nossa volta; se permitimos que as pessoas que são marginalizadas sejam mais marginalizadas, e infelizmente isso está a acontecer enquanto falamos, pode não ser tão óbvio nesta sala, mas está a acontecer lá fora, na nossa comunidade; se permitirmos que os pobres se tornem mais pobres; se permitimos que os oprimidos se tornem mais oprimidos; se permitimos que o silêncio se torne mais silencioso; se permitimos que a humanidade desapareça”.

    Pode ver AQUI o vídeo da apresentação de John Ioannidis. Se preferir, pode ler AQUI a transcrição (com tradução para português) do discurso completo que John Ioannidis proferiu na conferência.

    Pode assistir AQUI aos vídeos da conferência.


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  • Um ano de horror em Gaza: o cemitério da civilização

    Um ano de horror em Gaza: o cemitério da civilização


    Em 16 de Setembro, o Ministério da Saúde palestiniano publicou um documento de 649 páginas com uma lista de todas as mortes causadas pela punição colectiva israelita de Gaza pelo massacre do Hamas em 7 de Outubro.

    A lista inclui mais de 34 mil das 41 mil vítimas de Gaza. As restantes vítimas ainda não foram identificadas. A lista não inclui as 10 mil pessoas (no mínimo) presas sob os escombros nem todas as vítimas indirectas da agressão israelita. O prazo abrangido pelo documento estende-se até 31 de Agosto. Desde então, pelo menos mais mil habitantes de Gaza foram mortos.

    Ao lado dos nomes das vítimas também estão listados o sexo, número de documento pessoal e idade. Nas primeiras 14 páginas do documento, o número na faixa ‘Idade’ é 0 Zero. São 14 páginas com o nome de crianças mortas antes de completarem o seu primeiro aniversário.

    Foto: D.R.

    No passado dia 9 de Setembro, outro ano escolar deveria ter começado em Gaza. Depois de um ano de horror indescritível, cerca de 640 mil crianças deveriam estar voltando às salas de aula. Cerca de 45 mil teriam ingressado no primeiro ciclo.

    É claro que isso não aconteceu.

    Enquanto 700 equipas das Nações Unidas (ONU) vacinavam em massa as crianças palestinianas contra a poliomielite, cujo ressurgimento em Gaza marca uma forma de eclipse social, as bombas e mísseis israelitas continuavam a chover. No dia em que as aulas deveriam ter começado, o exército israelita invadiu a escola do campo de refugiados de Nuseirat, que funcionava no âmbito do programa Agência das Nações Unidas de Assistência e Obras para a Palestina (UNRWA). Doze mil pessoas que tinham sido expulsas das suas casas encontraram refúgio lá. Vinte e cinco foram mortas no ataque; seis eram funcionários da ONU. Em pouco menos de um ano, 250 trabalhadores humanitários e 170 jornalistas foram assassinados no enclave palestiniano – mais do que em qualquer guerra até agora.

    Este ataque ao que deveria ter sido uma zona segura custou a uma mãe palestiniana todos os seus seis filhos.

    Cerca de 40% das vítimas do massacre israelita em Gaza eram crianças. Outras 20.000 crianças ficaram órfãs ou separadas dos pais. Um ano de destruição indescritível que certamente se estenderá pelas gerações vindouras.

    Foto: D.R.

    Neste momento, nenhum lugar em Gaza é seguro. De acordo com dados da ONU, 93% dos habitantes foram deslocados internamente – a maioria deles várias vezes, alguns deles até 10 vezes. Mais de 80% de Gaza foi devastada. O enclave palestiniano foi praticamente demolido, portanto, tornou-se inabitável durante anos.

    Mais de um milhão de pessoas – um pouco menos de metade da população de uma das áreas mais densamente povoadas do mundo – está a tentar sobreviver nas condições brutais no campo de Al Mawasi, na costa do Mediterrâneo. A maioria deles fugiu para lá depois que o exército israelita lançou uma ofensiva terrestre em Rafah, onde 1,3 milhão de pessoas procuraram refúgio após os primeiros meses da invasão de Israel.

    Em Al Mawasi, os refugiados exaustos, doentes e profundamente traumatizados quase não têm água, alimentos e medicamentos à sua disposição. As condições nos outros abrigos temporários entre as ruínas pós-apocalípticas são praticamente as mesmas. Apenas alguns hospitais em Gaza conseguiram continuar a funcionar. Inúmeras instalações médicas foram saqueadas; centenas de trabalhadores médicos assassinados. Durante semanas a fio, as forças israelitas sitiaram vários hospitais, incluindo o maior deles – Al Shifa.

    A situação dos residentes de Gaza agravou-se ainda mais em Maio, durante a ofensiva terrestre em Rafah, quando o exército israelita assumiu o controlo do lado palestiniano da passagem da fronteira egípcia – e pouco depois também do chamado Corredor de Filadélfia.

    Isto provocou a paralisação quase total da ajuda humanitária, cujo afluxo já tinha sido severamente dificultado pelos bloqueios israelitas. É agora claro que Israel optou por recrutar a fome em massa como mais uma arma no seu arsenal. Neste momento, mais de 70% da população de Gaza está a passar fome, totalmente dependente da ajuda externa que quase nunca chega. Isto é especialmente verdadeiro no caso do isolamento a norte de Gaza, que foi transformado num gueto faminto onde as forças israelitas atacaram comboios humanitários em diversas ocasiões.

    Já há dois meses, a reputada revista médica britânica The Lancet estimou o número total de vítimas directas e indirectas da agressão israelita em 186.000. Ou 8% de toda a população de Gaza.

    Guerras Eternas

    Pode-se perguntar: como pode ser tudo isso?

    As estruturas internacionais não estão a funcionar. As Nações Unidas foram há muito reduzidas a um fóssil vivo que presidiu a um número cada vez maior de genocídios (Ruanda, Srebrenica, Darfur, Gaza, …). O domínio geral dos membros permanentes do Conselho de Segurança, em combinação com os seus direitos de veto, representam o obstáculo final a qualquer tipo de intervenção competente. Especialmente agora, em tempos de perturbação bipolar global, cujas guerras frias estão agora a fundir-se numa guerra bastante quente.

    As decisões do Tribunal Penal Internacional (ICC) e do Tribunal Internacional de Justiça (CIJ) em Haia perderam há muito tempo quase toda a relevância. O mesmo se aplica ao direito humanitário internacional, às principais convenções internacionais e ao próprio conceito de direitos humanos, que agora parecem meros ecos de uma época passada que talvez nunca tenha realmente existido. Os tempos tornam-se mais distópicos a cada hora – e mais divididos, racistas e estratificados. Todos os contratos sociais há muito existentes estão a desmoronar-se diante dos nossos olhos. É praticamente o mesmo em todo o mundo, e certamente no Ocidente agora quase impossivelmente narcisista.

    Esta é parte da razão pela qual vivemos numa época de guerra eterna.

    Nem uma única guerra iniciada depois do 11 de Setembro de 2001 terminou realmente. No Afeganistão, em Agosto de 2021 assistiu-se ao regresso dos Taliban ao poder, após 20 anos de ocupação norte-americana. Sim, muitos dos combates podem ter acalmado, mas a guerra contra a população afegã está longe de terminar. A invasão do Iraque pela “coligação” em Março de 2003 – seguida de uma ocupação e de uma guerra civil selvagem – enviou ondas de choque por toda a região. Os ecos da guerra no Iraque tiveram um impacto terrível na guerra sem fim na Síria e nos horrores em curso no Iémen, que a chamada comunidade internacional há muito varria para debaixo do tapete.

    A guerra que eclodiu no Sudão, em Abril passado é uma das guerras mais horríveis do nosso tempo. Segundo dados da ONU, também provocou a maior crise humanitária da história… E não há fim à vista. Tal como aconteceu com os conflitos na Líbia e na República Democrática do Congo. Este último conflito dura desde 1997. Os seus primeiros seis anos custaram seis milhões de vidas.

    E depois há a guerra na Ucrânia, que traz todas as características de mais uma guerra eterna. Ao lado dos massacres diários em Gaza, é o melhor testemunho da total irresponsabilidade da comunidade internacional, que é cada vez mais liderada por psicopatas e até por assassinos em massa.                         

    a yellow car is parked on the side of the road
    Foto: D.R.

    Poucos dias depois das atrocidades do Hamas no sul de Israel, o secretário-geral da ONU, António Guterres, comentou que os ataques do Hamas “não aconteceram no vácuo“. Foi a descrição mais branda possível de 75 anos de racismo sistematizado, roubo de terras, deslocalizações forçadas, apartheid, humilhação colectiva e violência perpetrada por Israel.

    A manhã de 7 de Outubro trouxe a constatação de que o status quo se foi para sempre. E que uma resposta selvagem de Israel era inevitável. Também era certo que a comunidade internacional não conseguiria encontrar uma resposta. Parafraseando o secretário-geral: o que aconteceu depois dos ataques do Hamas também não aconteceu no vácuo.

    Tudo o que foi dito acima foi perfeitamente compreendido pelos líderes do Hamas, que optaram por ceder à sua própria impotência política e ao estado completamente depravado da política interna palestiniana para levar a sua própria nação à beira da ruína total. Após a sua tomada violenta do poder no Verão de 2007, o Hamas governou o enclave palestiniano com mão de ferro. E também, de mãos dadas com os seus co-progenitores, a elite política israelita.

    Foi a receita perfeita para um desastre total e implacável.            

    Foto: D.R.

    Durante o ano de massacres em massa em Gaza, as autoridades israelitas de extrema-direita lideradas pelo eterno primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não conseguiram alcançar um único dos seus objectivos oficiais. Cerca de 100 reféns israelitas ainda permanecem em Gaza, embora não esteja claro quantos ainda estão vivos e quantos foram mortos pelos seus captores ou pelas bombas e mísseis israelitas.

    Esta é a principal razão por trás dos protestos em massa que ocorrem nas ruas de Tel Aviv e de outras cidades israelitas todos os fins de semana. Em 14 de Setembro, por exemplo, mais de um milhão de israelitas protestaram e exigiram a libertação imediata dos reféns. Não pela força militar, que já se revelou insuficiente, mas através da negociação de um cessar-fogo com o Hamas.

    Depois de um ano de selvageria desenfreada, o exército israelita não conseguiu derrotar o Hamas, nem no sentido militar nem no sentido político. Apesar de ter sofrido enormes baixas, a posição do Hamas na região foi significativamente reforçada. Acima de tudo, nas ruas do mundo árabe, onde ainda existe um mínimo de solidariedade para com os palestinianos… Ao contrário das elites políticas árabes corruptas, que ficaram suficientemente felizes em trair Gaza pelo que parece ser uma última vez.

    Tendo em conta o facto de o Hamas ser indiscutivelmente uma organização terrorista e de as autoridades palestinianas (AP) serem meros subcontratantes da ocupação israelita, os palestinianos não têm ninguém que os represente.

    Israel como uma ameaça a si mesmo

    Apesar de toda a carnificina, Israel ainda está inundada com enormes quantidades de armas.

    Segundo os últimos dados da Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), a grande maioria das armas importadas por Israel entre 2019 e 2023 veio dos Estados Unidos (65,6%); 29,7% vieram da Alemanha, 4,7% de Itália. Há dois meses, Washington autorizou uma venda adicional de armas a Israel no valor de 20 mil milhões de dólares.

    De acordo com dados do SIPRI, as vendas combinadas de armas europeias a Israel no ano passado totalizaram 326,5 milhões de euros – 10 vezes mais do que em 2022. Por outro lado, o Ministério da Defesa de Israel admite livremente que Israel exportou 13 mil milhões de dólares em armas em 2023. O seu acordo de armas mais lucrativo foi com a Alemanha, que pagou a Israel 3,5 mil milhões de dólares pelas suas armas. Interceptador de mísseis antibalísticos Arrow 3 sistema.

    No Médio Oriente, tal como em qualquer outro lugar, enriquecer com a guerra é normalmente uma via de dois sentidos.

    Foto: D.R.

    Um ano de violência em Gaza e cada vez mais ao longo da Cisjordânia ocupada também enfraqueceu significativamente o próprio Israel. As suas perspectivas de segurança, sociais, económicas e políticas diminuíram enormemente. Muitos investimentos internacionais foram retirados. Em todos os 76 anos da sua história, Israel nunca esteve tão dividido internamente e insultado globalmente.

    Vale a pena afirmar que Netanyahu e os seus parceiros de coligação de extrema-direita, messiânicos e semelhantes aos Taliban começaram a conduzir o Estado judeu para o seu actual caminho totalitário ainda antes de 7 de Outubro. A sede de poder do primeiro-ministro de Israel nunca foi tão evidente quando tentou aprovar uma forma judicial que colocaria o Supremo Tribunal – o tradicionalmente mais independente e progressista entre as instituições israelitas – inteiramente sob o seu controlo.

    Atenção: a motivação de Netanyahu era mais pessoal do que política. Ainda há um julgamento em andamento sobre suas supostas práticas corruptas.

    Ao longo dos últimos anos, os extremistas governantes liderados por Netanyahu levaram a cabo uma espécie de revolução (anti)cultural em Israel. No entanto, apesar disso, e do facto de as autoridades israelitas terem sido totalmente culpadas pelo fiasco de segurança de 7 de Outubro, o controlo do poder do primeiro-ministro parece mais firme do que era há um ano. Não importa que nenhum dos seus principais objectivos políticos declarados tenha sido alcançado. E não importa que, ao espalhar o conflito ao Líbano, à Síria, ao Irão e ao Iémen, o primeiro-ministro expôs o Estado judeu a um grave risco existencial.

    Em 13 de Setembro, o jornal israelita Maariv publicou uma sondagem segundo a qual Netanyahu e o seu partido ainda ganhariam o maior número de assentos no parlamento. A mesma sondagem também evidenciou que a popularidade pessoal do primeiro-ministro aumentou desde o início da guerra. O público israelita parece considerá-lo o homem mais adequado para o cargo.

    Foto: D.R.

    Mais uma vez: como pode estar a acontecer tudo isto?

    Toda a oposição política genuína no país foi extinta. O que resta é liderado por oportunistas desavergonhados como Beni Gantz, que a Casa Branca há muito escolheu como sucessor de Netanyahu.

    O que hoje em dia passa por oposição é, portanto, cúmplice da orgia contínua de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Palavras semelhantes poderiam ser usadas para descrever uma grande parte dos actuais manifestantes antigovernamentais. O terrível sofrimento dos palestinianos não é algo com que se sintam obrigados a preocupar-se, dado que os seus protestos são sobretudo alimentados por preocupações etnocêntricas.

    Em abril passado, o historiador Amos Goldberg, professor associado da Universidade Hebraica de Jerusalém, publicou um artigo muito significativo na revista israelita Sicha Mekommit.  Intitulado, ‘Sim, isso é genocídio‘, o artigo classificava em alto e bom som as acções israelitas em Gaza como genocídio – e depois justificava meticulosamente a afirmação.

    É claro que tal posição exige enorme coragem no Israel de hoje. Os riscos estão longe de ser negligenciáveis.

    Prevalece na sociedade israelita uma atmosfera radical de desumanização dos palestinianos de um nível tal de que não me consigo lembrar nos meus 58 anos de vida aqui.” Goldberg declarou recentemente numa entrevista.

    Goldberg também relatou que a princípio hesitou muito em usar a palavra genocídio e tentou fazer tudo o que pôde para se convencer do contrário. “Ninguém quer ver-se como parte de uma sociedade genocida. Mas havia uma intenção explícita, um padrão sistemático e um resultado genocida – então, cheguei à conclusão de que é exatamente assim que o genocídio se parece”, diz Goldberg.

    Uma vez que você chega a essa conclusão, você não pode ficar em silêncio“, disse o historiador israelita de forma clara.

    Portanto, cabe aos corajosos historiadores locais continuarem dizendo a verdade. Mas quem fornecerá os dados para futuros bravos historiadores? Os jornalistas estrangeiros continuam impedidos de entrar em Gaza e os jornalistas nacionais estão a ser mortos propositadamente pelo exército israelita.


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  • “Culpado de fazer jornalismo”: Conselho da Europa diz que Assange foi um preso político

    “Culpado de fazer jornalismo”: Conselho da Europa diz que Assange foi um preso político

    A Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa considerou que Julian Assange, jornalista e fundador da WikiLeaks, foi um preso político no Reino Unido. Após uma audiência a Assange, esta semana, a instituição apelou aos Estados Unidos para que alterem a Lei de Espionagem e pediu ao país para que não a volte a usar contra jornalistas. A audiência, que teve lugar em Estrasburgo, marcou a primeira declaração pública de viva voz por parte do jornalista australiano. Na sua declaração numa sessão plenária do Conselho da Europa, Assange declarou que apenas está em liberdade porque aceitou dar-se como “culpado de fazer jornalismo”.


    A Assembleia Parlamentar do Conselho da Europeu (APCE) considerou que Julian Assange, jornalista e fundador da WikiLeaks, foi um preso político quando esteve detido no Reino Unido, na sequência de uma acusação dos Estados Unidos.

    A instituição condenou o encarceramento de Assange e pediu aos Estados Unidos para alterarem a Lei de Espionagem de 2017 e também apelou que não a mesma não seja de novo usada contra jornalistas.

    O jornalista e fundador da WikiLeaks esteve ontem presente numa sessão plenária do Conselho Europeu, junto com a sua mulher, Stella Assange, e o editor-chefe da WikiLeaks, Kristinn Hrafnsson. Na sua declaração proferida perante a audiência, Julian Assange afirmou: “estou livre hoje, após anos de encarceramento, porque porque me declarei culpado de fazer jornalismo”.

    Stella e Julian Assange na sessão plenária da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa. Foto: D.R./Wikileaks

    O Conselho da Europa, com sede em Estrasburgo, França, foi criado em 1949 e é uma instituição que actua na defesa dos direitos humanos, da democracia e do Estado de Direito no continente europeu. A Assembleia reúne membros de 46 nações que integram o Conselho Europeu e já antes tinha condenado a detenção de Assange e tinha alertado para o grave precedente que a sua prisão criou.

    A APCE aprovou uma resolução sobre “A detenção e condenação de Julian Assange e os seus efeitos arrepiantes nos direitos humanos” com 88 votos a favor, 13 contra e 20 abstenções.

    Na resolução, a Assembleia Parlamentar mostrou uma profunda preocupação em relação “ao tratamento duro e desproporcional” que Assange enfrentou e considerou que criou “um efeito perigoso e arrepiante” que ameaça a protecção de jornalistas e denunciantes em todo o Mundo.

    Julian Assange à saída do tribunal em Saipã, nas Ilhas Marianas do Norte (território dos Estados Unidos), já como um homem livre. (Fonte: D.R.)

    Assange foi finalmente libertado, no passado mês de Junho, depois de ter aceitado um acordo com a Justiça norte-americana. Para sair em liberdade, o jornalista declarou ser culpado do crime de conspiração para fazer espionagem por publicar provas de crimes de guerra e abusos de direitos humanos por parte dos Estados Unidos e irregularidades cometidas pelos Estados Unidos em todo o Mundo.

    Foi o fim de 14 anos de perseguição, que incluíram o encarceramento de Assange em condições duras numa prisão de alta segurança no Reino Unido. Assange regressou entretanto ao seu país Natal, a Austrália, onde reside actualmente com a mulher e os dois filhos do casal.

    Numa entrevista ao PÁGINA UM, em Março deste ano, Stella Assange afirmou que já tinha alertado que o caso do seu marido era apenas um dos sinais alarmantes da crescente tendência de se querer eliminar a liberdade de imprensa e censurar.

    De resto, na Europa tem vindo a ser implementada legislação, como a nova directiva para os media e a directiva sobre serviços digitais, que tem merecido críticas por abrir a porta ao amordaçar de jornalistas e agrilhoar da liberdade de expressão. [Sobre este temas pode ler mais AQUI AQUI].

    Além disso, recentemente a Comissão Europeia tentou que fosse aprovada legislação para eliminar a privacidade e a encriptação de mensagens, ferramentas essenciais para o jornalismo e protecção de denunciantes.

    Nota: Pode ler AQUI o testemunho completo de Julian Assange perante a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa.


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  • Sinais de corrupção atingem um terço dos gastos públicos do Reino Unido durante a pandemia

    Sinais de corrupção atingem um terço dos gastos públicos do Reino Unido durante a pandemia

    Uma organização anti-corrupção, a Transparency International UK, detectou 135 contratos públicos adjudicados durante a pandemia de covid-19 que levantam fortes suspeitas de terem envolvido práticas corrupção. No total, estes contratos envolveram um montante de 18,2 mil milhões de euros, cerca de um terço de toda a despesa pública efectuada na pandemia pelo país. Agora, aquela organização apela às autoridades britânicas para investigarem os contratos suspeitos. Não foi só no Reino Unido que a gestão da pandemia escancarou a porta para a corrupção. Em Portugal, houve o chamado ‘cartel dos testes’, envolvendo os maiores laboratórios do país, mas também floresceu a falta de transparência, como no caso dos contratos das vacinas assinados pela Direcção-Geral da Saúde, que permanecem envoltos em opacidade. Um processo de intimação do PÁGINA UM, apresentado em Dezembro de 2022, ainda não tem desfecho previsto, devido a sucessivas procrastinações e mentiras do Ministério da Saúde.


    A Transparency International UK, uma organização britânica anti-corrupção, analisou 5.000 contratos públicos adjudicados no Reino Unido durante a pandemia da covid-19 em busca de sinais de potencial corrupção. A análise aos contratos públicos detectou a existência de problemas significativos em contratos no valor de 15,3 mil milhões de libras (ou 18,2 mil milhões de euros), o que corresponde a um terço dos gastos globais. Segundo a análise da mesma organização, foram identificados 135 contratos com sinais de alto risco de poderem envolver práticas de corrupção.

    Testes, material de protecção médica e máscaras geraram estão entre os bens que originaram contratos nebulosos no Reino Unido. Um total de 28 contratos, no valor de 4,1 mil milhões de libras (4,9 mil milhões de euros), foram adjudicados a empresas com conhecidas ligações políticas. Outros 51 contratos, no montante de 4,0 mil milhões de libras (4,75 mil milhões de euros), foram adjudicados através de uma via VIP para empresas recomendadas por membros do parlamento e pares, uma prática que o Supremo Tribunal considerou ser ilegal.

    Para a Transparency International UK, a suspensão das regras normais de prevenção da corrupção no Reino Unido, careceu de fundamentação, na maior parte dos casos, tendo a medida acabado por trazer prejuízo aos contribuintes. Segundo aquela organização, quase dois terços dos contratos de valores mais elevados para fornecer bens como máscaras e equipamento de protecção médica durante a pandemia, num total de 30,7 mil milhões de libras (36,5 mil milhões de euros), foram adjudicados por ajuste directo.

    Um grupo de oito contratos, num valor global de 500 milhões de libras (593,8 milhões de euros) foram entregues a empresas que não tinham mais de 100 dias de existência, que é um dos sinais de alarme na prevenção da corrupção.

    A Transparency International UK, uma organização que tem tido um papel forte e activo na investigação à gestão da pandemia naquela país, apelou às autoridades para que investiguem os contratos identificados como apresentando um risco muito elevado de corrupção.

    Em Portugal, foi notícia, recentemente, a aplicação de coimas ao chamado ‘cartel dos testes‘ que envolveu os grandes laboratórios de análises clínicas do país. Mas, além da corrupção, a gestão da pandemia trouxe falta de transparência em diversos contratos públicos. O PÁGINA UM, por exemplo, aguarda ainda o desfecho da intimação colocada no Tribunal Administrativo de Lisboa contra a Direccção-Geral da Saúde para o acesso aos contratos da compra das vacinas para a covid-19, bem como da correspondência com as farmacêuticas e as guias de remessa. A acção foi colocada em 31 de Dezembro de 2021, ou seja, há quase 21 meses.

    O Ministério da Saúde tem tentado aproveitar o secretismo dos acordos prévios assinados entre a Comissão von der Leyen e as farmacêuticas para convencer a juíza deste exasperante e longo processo, Telma Nogueira, a considerar os tribunais administrativos portugueses incompetentes para analisar o pedido. A suceder significaria que qualquer acto administrativo que decorresse de Bruxelas podia estar vedado aos cidadãos portugueses se houvesse qualquer cláusula secreta determinada por ‘eurocratas’ não-eleitos, independentemente da sua cidadania.

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    Depois de o Tribunal Geral da União Europeia ter considerado abusivas as cláusulas de confidencialidade, a juíza Telma Nogueira instou o Ministério da Saúde, antes de concluir a sentença, a fornecer-lhe os contratos assinados pelo Estado português, bem como a correspondência. E deu um prazo de 15 dias. Esta semana, no limite deste prazo, a directora-geral da Saúde, Rita Sá Machado, pediu uma prorrogação de de mais 40 dias. A juíza concordou, o que, em princípio, fará com que um processo de intimação, considerado urgente, vá demorar, na primeira instância, aproximadamente dois anos.

    Além deste negócio da compra das vacinas, merece também destaque em Portugal uma aquisição sem contrato no valor de 20 milhões de euros do antiviral Paxlovid, da farmacêutica Pfizer, usando uma norma legal já revogada. De entre os casos obscuros de aquisição de testes e diversos materiais de protecção individual, estão situações qm que as empresas não detinham sequer qualificações nem histórico no sector.

    Houve também entidades públicas que esconderam compras por ajuste directo e sem documentos de suporte conhecidos, aproveitando um regime especial de contratação pública que dispensava a redução a escrito. O caso mais gritante detectado ao longho dos anos pelo PÁGINA UM passou-se no Hospital de Braga, presidido por João Porfírio Oliveira, que escondeu 1.354 ajustes directos de 47 milhões de euros relacionados com a pandemia por mais de dois anos. Em muitos nem se sabe o que se comprou. O PÁGINA UM ainda aguarda que o Tribunal de Contas se pronuncie sobre esta matéria.


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