Dei por mim hoje, Dia da Liberdade, a recordar uma espécie em vias de extinção — embora, como todas as espécies resilientes, vá resistindo às mudanças de habitat: o jogador denso, pegajoso, de marcação homem-a-homem, desses que não distinguem entre bola e tornozelo e que fizeram da arte de impedir o jogo uma profissão estética.
Antes do VAR, tinham maior pujança. Não criavam, não inventavam, não encantavam — mas estavam sempre lá, colados ao talento alheio como uma sombra inconveniente, muitas vezes com recurso a expedientes que fariam corar um regulamento inteiro.

Vieram-me à memória alguns episódios que dispensam grandes apresentações. Claudio Gentile, por exemplo, no Mundial de 1982, decidiu que Diego Maradona não jogaria — e cumpriu. Não por mérito técnico, mas por saturação física: faltas sucessivas, contactos permanentes, uma perseguição pessoal que transformou o génio argentino num figurante.
Noutro registo, mais brutal, Andoni Goikoetxea resolveu a questão com uma entrada que partiu o tornozelo de Maradona, em Setembro de 1983, elevando a marcação cerrada a um patamar de pura violência. E poderíamos ainda falar de Gennaro Gattuso a perseguir Zinedine Zidane com uma devoção que roçava o fanatismo físico, ou das épicas marcações de Ashley Cole a Cristiano Ronaldo. Em comum, todos estes duelos têm um traço simples: quando a técnica não chegava, tentava-se impedir que existisse.
Recordei tudo isto — e não por nostalgia futebolística —, mas por me reconhecer, com algum humor e não menor ironia, numa versão contemporânea dessa marcação ao homem. Não num relvado, note-se, mas num espaço mais rarefeito, onde as faltas não deixam nódoas negras visíveis, mas se traduzem em insinuações, epítetos e uma certa obstinação em seguir cada movimento como se dele dependesse uma espécie de redenção moral.


Nos últimos tempos, um ex-residente de um suposto conselho deontológico de uma entidade sindical — personagem que não carece de nome próprio, mas tem um apelido proeminente (Barriga) para cumprir o seu papel — decidiu assumir essa função com zelo quase táctico.
Não cria jogo, não acrescenta substância, mas marca. Marca de perto, marca com insistência, marca com aquela convicção de quem acredita que a repetição substitui o argumento. E fá-lo, curiosamente, em nome de uma pureza que, se fosse levada a sério, obrigaria a um silêncio mais prudente.
Foi nesse contexto que, num acesso de retórica festiva — afinal, o calendário assim o exige —, me desafiou a escolher entre descer a Avenida da Liberdade, presumo que de cravo na mão, ou, alternativa aparentemente menos edificante, ir à bola. A pergunta, formulada com a subtileza de um carrinho por trás, pretendia talvez estabelecer uma fronteira moral: de um lado, os bons democratas de cravo em riste; do outro, os suspeitos, esses que ousam ter vida para além da coreografia simbólica.

Ora, não partilho dessa visão ornamental da democracia. Não me parece que a liberdade se meça pelo número de passos dados na Avenida da Liberdade, nem pela flor empunhada para a fotografia. Mede-se, isso sim, na capacidade de agir — e, no meu caso, de escrever — com independência, rigor e uma certa disposição para incomodar.
E foi isso que fiz, aliás, ao longo do dia: depois de concluir um editorial sobre a atitude, essa sim verdadeiramente lamentável, do ministro da Educação perante situações que exigiriam intervenção imediata — nomeadamente a utilização de escolas públicas como plataforma para negócios encapotados que atingem famílias —, achei que a melhor forma de honrar a liberdade seria, paradoxalmente, usá-la também para descomprimir.
E assim fui à bola.
Não desci, portanto, pela Avenida; subi para a Varanda da Luz — que, convenhamos, tem uma acústica mais interessante e menos previsível. Levei comigo essa leveza que o futebol, mesmo quando sofrido, ainda consegue oferecer.


E lá assisti a mais um daqueles jogos que fazem do Benfica uma experiência filosófica: um golo marcado cedo — logo aos dois minutos, que só ouvi, porque cheguei, mais uma vez, atrasado —, como manda a tradição; um empate do Moreirense a reacender as dúvidas existenciais; um 2–1 meio fortuito, como se o destino também jogasse; e, claro, aquela tremedeira final que transforma minutos em eternidades.
Até que, já perto do fim, dois golos de Ivanovic vieram restituir alguma ordem ao mundo — ou, pelo menos, à tabela classificativa. E o Benfica está com quatro pontos de avanço sobre o Sporting, depois da vitória (à qual assisti ao vivo, para horror do sr. Barriga) na semana passada, em Alvalade, apesar dos dois jogos a mais no momento em que escrevo.
Não sei se este acto de liberdade (ou libertinagem) me tornou menos democrata. Suspeito que não. Sei apenas que, entre a solenidade imposta e a liberdade vivida, continuo a preferir a segunda — mesmo que isso implique, de vez em quando, escapar à marcação cerrada e encontrar espaço, nem que seja na bancada.

No fundo, talvez seja essa a melhor resposta aos “cães de caça” deste e de outros campos: não disputar o jogo deles, não entrar na lógica da falta sistemática, mas manter a bola em movimento. Porque, como o futebol nos ensina tantas vezes, há sempre um momento — um só, às vezes — em que a técnica, a inteligência ou simplesmente a persistência conseguem libertar-se da pressão.
E é aí que o jogo (da vida), finalmente, acontece. Não é, sr. Barriga?













































