Etiqueta: Da Varanda da Luz

  • Moreirense 4.1 (dedicado ao sr. Barriga)

    Moreirense 4.1 (dedicado ao sr. Barriga)

    Dei por mim hoje, Dia da Liberdade, a recordar uma espécie em vias de extinção — embora, como todas as espécies resilientes, vá resistindo às mudanças de habitat: o jogador denso, pegajoso, de marcação homem-a-homem, desses que não distinguem entre bola e tornozelo e que fizeram da arte de impedir o jogo uma profissão estética.

    Antes do VAR, tinham maior pujança. Não criavam, não inventavam, não encantavam — mas estavam sempre lá, colados ao talento alheio como uma sombra inconveniente, muitas vezes com recurso a expedientes que fariam corar um regulamento inteiro.

    Vieram-me à memória alguns episódios que dispensam grandes apresentações. Claudio Gentile, por exemplo, no Mundial de 1982, decidiu que Diego Maradona não jogaria — e cumpriu. Não por mérito técnico, mas por saturação física: faltas sucessivas, contactos permanentes, uma perseguição pessoal que transformou o génio argentino num figurante.

    Noutro registo, mais brutal, Andoni Goikoetxea resolveu a questão com uma entrada que partiu o tornozelo de Maradona, em Setembro de 1983, elevando a marcação cerrada a um patamar de pura violência. E poderíamos ainda falar de Gennaro Gattuso a perseguir Zinedine Zidane com uma devoção que roçava o fanatismo físico, ou das épicas marcações de Ashley Cole a Cristiano Ronaldo. Em comum, todos estes duelos têm um traço simples: quando a técnica não chegava, tentava-se impedir que existisse.

    Recordei tudo isto — e não por nostalgia futebolística —, mas por me reconhecer, com algum humor e não menor ironia, numa versão contemporânea dessa marcação ao homem. Não num relvado, note-se, mas num espaço mais rarefeito, onde as faltas não deixam nódoas negras visíveis, mas se traduzem em insinuações, epítetos e uma certa obstinação em seguir cada movimento como se dele dependesse uma espécie de redenção moral.

    Nos últimos tempos, um ex-residente de um suposto conselho deontológico de uma entidade sindical — personagem que não carece de nome próprio, mas tem um apelido proeminente (Barriga) para cumprir o seu papel — decidiu assumir essa função com zelo quase táctico.

    Não cria jogo, não acrescenta substância, mas marca. Marca de perto, marca com insistência, marca com aquela convicção de quem acredita que a repetição substitui o argumento. E fá-lo, curiosamente, em nome de uma pureza que, se fosse levada a sério, obrigaria a um silêncio mais prudente.

    Foi nesse contexto que, num acesso de retórica festiva — afinal, o calendário assim o exige —, me desafiou a escolher entre descer a Avenida da Liberdade, presumo que de cravo na mão, ou, alternativa aparentemente menos edificante, ir à bola. A pergunta, formulada com a subtileza de um carrinho por trás, pretendia talvez estabelecer uma fronteira moral: de um lado, os bons democratas de cravo em riste; do outro, os suspeitos, esses que ousam ter vida para além da coreografia simbólica.

    Ora, não partilho dessa visão ornamental da democracia. Não me parece que a liberdade se meça pelo número de passos dados na Avenida da Liberdade, nem pela flor empunhada para a fotografia. Mede-se, isso sim, na capacidade de agir — e, no meu caso, de escrever — com independência, rigor e uma certa disposição para incomodar.

    E foi isso que fiz, aliás, ao longo do dia: depois de concluir um editorial sobre a atitude, essa sim verdadeiramente lamentável, do ministro da Educação perante situações que exigiriam intervenção imediata — nomeadamente a utilização de escolas públicas como plataforma para negócios encapotados que atingem famílias —, achei que a melhor forma de honrar a liberdade seria, paradoxalmente, usá-la também para descomprimir.

    E assim fui à bola.

    Não desci, portanto, pela Avenida; subi para a Varanda da Luz — que, convenhamos, tem uma acústica mais interessante e menos previsível. Levei comigo essa leveza que o futebol, mesmo quando sofrido, ainda consegue oferecer.

    E lá assisti a mais um daqueles jogos que fazem do Benfica uma experiência filosófica: um golo marcado cedo — logo aos dois minutos, que só ouvi, porque cheguei, mais uma vez, atrasado —, como manda a tradição; um empate do Moreirense a reacender as dúvidas existenciais; um 2–1 meio fortuito, como se o destino também jogasse; e, claro, aquela tremedeira final que transforma minutos em eternidades.

    Até que, já perto do fim, dois golos de Ivanovic vieram restituir alguma ordem ao mundo — ou, pelo menos, à tabela classificativa. E o Benfica está com quatro pontos de avanço sobre o Sporting, depois da vitória (à qual assisti ao vivo, para horror do sr. Barriga) na semana passada, em Alvalade, apesar dos dois jogos a mais no momento em que escrevo.

    Não sei se este acto de liberdade (ou libertinagem) me tornou menos democrata. Suspeito que não. Sei apenas que, entre a solenidade imposta e a liberdade vivida, continuo a preferir a segunda — mesmo que isso implique, de vez em quando, escapar à marcação cerrada e encontrar espaço, nem que seja na bancada.

    No fundo, talvez seja essa a melhor resposta aos “cães de caça” deste e de outros campos: não disputar o jogo deles, não entrar na lógica da falta sistemática, mas manter a bola em movimento. Porque, como o futebol nos ensina tantas vezes, há sempre um momento — um só, às vezes — em que a técnica, a inteligência ou simplesmente a persistência conseguem libertar-se da pressão.

    E é aí que o jogo (da vida), finalmente, acontece. Não é, sr. Barriga?

  • Guimarães 3.0

    Guimarães 3.0

    O entusiasmo é um sentimento suspeito. Não digo isto com a leviandade de quem já desistiu de se entusiasmar — que isso seria apenas cansaço com pretensões filosóficas. Digo sim com a desconfiança metódica de quem, ao longo de três anos de crónicas benfiquistas, começou a notar em si uma circunstância que, não sendo ainda publicável em revista científica, já merece, pelo menos, uma nota de rodapé: sempre que acredito, o Benfica desilude; sempre que escrevo com esperança, o campeonato foge; sempre que me comprometo, o destino corrige-me com um empate.

    E é aqui que eu acho que o entusiasmo revela uma natureza estranha: não é apenas uma emoção; é uma aposta. Uma espécie de contrato íntimo entre aquilo que desejamos e aquilo que esperamos que o mundo nos devolva. Ora, como qualquer contrato, tem cláusulas implícitas — e uma delas, no meu caso, parece ser a de que o Benfica não tem qualquer obrigação de cumprir o que eu sinto.

    Comecei estas crónicas no rescaldo de um momento perigoso: o derradeiro jogo do título de 2022-2023. Digo perigoso porque o entusiasmo, quando confirmado pela realidade, cria uma ilusão de continuidade. Achamos que aquilo que aconteceu uma vez tem vocação para se repetir. E isto é o clássico erro do adepto, mas também o erro do cronista, que confunde narrativa com tendência, e tendência com destino.

    No primeiro ano de crónicas, estava convencido de que íamos ser campeões. Não fomos. No segundo, ajustei as expectativas — esse gesto típico de maturidade que consiste em baixar a fasquia sem nunca admitir que se está a desistir —, e quase se conseguiu. Até fui ver o Benfica ao Porto espetar quatro aos dragões e até corri até ao Estoril. Não fomos, porque jogámos a medo contra o Sporting na Luz e perdemos aí o campeonato.

    Neste terceiro ano de crónicas, há muito que já não há propriamente expectativa; há uma espécie de vigilância resignada, um acompanhamento quase clínico, como quem observa um doente que não piora, mas também não melhora.

    Aqui entra uma hipótese — ainda não testada, mas cada vez mais plausível — de que eu próprio me tornei um factor de instabilidade, uma espécie de variável maldita no sistema benfiquista. E nem escrevo assim com verdadeira convicção, embora não esteja em tom de brincadeira. Constato somente uma recorrência demasiado persistente para ser ignorada. Três anos, três épocas de crónicas, três falhanços — e eu sempre presente, sempre a escrever, sempre a cumprir este compromisso que, ironicamente, parece ter efeitos colaterais.

    O entusiasmo, portanto, tornou-se um luxo perigoso. Não porque o Benfica jogue agora demasiado mal — não joga, pelo menos de forma consistente, e neste campeonato até ainda está invicto —, mas porque já não há surpresa suficiente para o justificar.

    Este Benfica é uma equipa curiosa: raramente perde, mas frequentemente não ganha. Move-se nesse território ambíguo onde a derrota é evitada, mas a vitória não é garantida. É um Benfica de probabilidades: a única dúvida relevante é se o jogo termina em vitória ou empate, sendo que o empate tem vindo a ganhar um peso estatístico que começa a ser desconfortável.

    O jogo com o Vitória de Guimarães foi, nesse sentido, um caso de vitória. E até exemplar. Correu-me tudo bem. Um jogo que começou às seis da tarde — o que, em si mesmo, já introduz uma dimensão quase doméstica ao futebol — e terminou às oito, sem sobressaltos dignos de memória duradoura. Não se deslumbrou, mas também não comprometeu. Houve esforço, houve organização, houve até momentos de competência — ganhou-se por três a zero, sem espinha. Porém, faltou aquilo que, em teoria, justificaria o entusiasmo: a sensação de inevitabilidade da vitória.

    E, no entanto, foi um jogo útil. Não tanto pelo que aconteceu dentro de campo, mas pelo que permitiu fora dele. Pela segunda vez, consegui fazer aquilo que começa a tornar-se um ritual paralelo: ver o Benfica e, logo a seguir, assistir a um espectáculo. Desta vez, foram os Trovante. Há duas semanas, foram os The Divine Comedy.

    Talvez seja esse o novo papel do futebol na minha vida: não tanto o centro do entusiasmo, mas um elemento de uma sequência mais ampla de experiências. Um pretexto, quase. O jogo começa às seis, acaba às oito e abre espaço para outra coisa — música, teatro ou simplesmente a sensação de que o tempo foi bem utilizado.

    Desta sorte, transporto-me de volta ao ponto inicial: o entusiasmo é estranho porque exige exclusividade. Quer ser absoluto, quer dominar a experiência, quer convencer-nos de que aquilo — o jogo, o resultado, o clube — é o mais importante naquele momento. Mas a realidade, como sempre, está a moldar-me. Nestes dois últimos jogos, o ponto alto do dia não foi o jogo: foi o que se seguiu.

    Em todo o caso, continuarei na Varanda da Luz — e a chegar atrasado. Continuarei a escrever estas crónicas. Continuarei, de certa forma, a acreditar — mas já não no sentido inflamado do termo. Na verdade, até ao final da época teremos um Benfica sem euforia e um cronista sem ilusões — ambos ainda em campo, ainda em jogo, ainda à espera, não se sabe bem de quê. Talvez da próxima época.

  • O leonotauro

    O leonotauro

    Como hoje se sabe, o pobre e precipitado Darwin foi pioneiro a sacrificar a sociedade no tortuoso e especulativo labirinto da evidência científica.

    O Homem não vem do macaco. 

    A verdade que faltava revelar aos povos surpreenderá a todos por poder ter permanecido oculta até ao minuto 119 do Sporting – Bodø/Glimt — quando, afinal, era óbvia.

    O Homem vai para o leão.

    Por mais cuidadoso e persistente que tenha sido Caetano Veloso a incluir “O Índio” e o “Leãozinho” nos seus concertos em Lisboa, só nesse espectacular e faustoso momento a Ciência triunfou sobre o negacionismo.

    — Um filhote de leão / Um raio em Alvalade / Arrastando o meu olhar como um íman.

    Assim cantou o defesa esquerdo de ocasião, fardado de amarelo encharcado, ao ver Morten Hjulmand passar por ele. Com as pernas já bambas e os olhos trocados, mais não pôde do que deitar as manápulas à cintura de um homem casado, ainda a habituar-se a aquecer biberões de madrugada para saciar o primeiro filho.

    For helvede, for satan, den er vundet!

    O pai leão caiu tranquilo e infalível como o Bruce Lee. Sentou-se sobre os calcanhares, qual karateka no final do combate. Começou aí a metamorfose. Com as patas dianteiras, aquele leonotauro pregou no relvado uma tareia de três segundos, registada por todos os sismógrafos do Porto a Portimão.

    Alerta amarelo: o presidente Moedas tem de enfiar o pescoço numa gravata verde e o corpo no casaquinho impermeável da Protecção Civil!

    Naquela eternidade — com entrada directa para a História da Humanidade, à frente do primeiro passo na lua do Neil Armstrong — cresceu a Morten Hjulmand uma juba, que eu vi. O defesa fugiu apavorado.

    Há por aí um leitor valente que alguma vez tenha enfrentado um leão alavancado nas patas traseiras?

    Sua majestade apontou os dois ceptros às estrelas. Com o júbilo tresloucado do minotauro, rugiu por três vezes — como Cristo ao Diabo — a primeira palavra em português do dicionário de um capitão.

     — Vamos! Vamos! Vamos!

    Um rapazinho destemido, chamado Rafael Nel, baixou as orelhas, cerrou os dentes, fez mira ao ângulo superior esquerdo, puxou a culatra atrás e obedeceu.

  • Porto 2.2

    Porto 2.2

    Ir a um jogo de futebol não é como estar numa guerra, mas esta adepta do Futebol Clube do Porto — uma leiga futebolística, importa fazer a ressalva — sentiu-se um pouco em território inimigo para assistir ao clássico deste domingo no Estádio da Luz. Ainda mais por ter ido ali pela primeira vez na vida, como infiltrada no meio de um mar ‘hostil’ de gente de vermelho, negro e branco.

    Estando em óbvia minoria, mostra-se prudente que uma portista se abstenha de evidenciar as suas cores futebolísticas — e sobretudo pronunciar o nome de outro clube que não o da casa, como quase fiz no elevador. Todo o cuidado é pouco quando se arrisca acicatar as hostes — ou as hostilidades —, cujos níveis de adrenalina estão nos píncaros, entre cânticos, ‘gritos de guerra’ e pirotecnia, mesmo antes de soar o apito do árbitro.

    Mesmo no conforto (quase protegido) da Varanda da Luz, depressa percebi que me encontrava ladeada por profissionais que, sem qualquer dúvida, torciam pelos encarnados: à minha direita, claro, o excelso director do PÁGINA UM, Pedro Almeida Vieira; e à minha esquerda, dois cavalheiros que pareciam sofrer tanto com o clássico como qualquer outro benfiquista naquele estádio.

    Um deles, bem mais contido, tratava-se de Nuno Luz, jornalista desportivo da SIC. O outro, que não consegui identificar, não se coibia de expressar a emoção: fervoroso, exaltava-se com alguns lances e ia lançando injúrias ao guarda-redes do Benfica.

    Antes do arranque da partida, houve um momento solene, ainda assim insuficiente para conter os ânimos: a homenagem a António Lobo Antunes, benfiquista assumido, que nos deixou no passado dia 5 de Março. Foi um minuto de silêncio que nem sequer foi respeitado. No dia anterior, o hino do Benfica tocara nas suas cerimónias fúnebres à saída do Mosteiro do Jerónimos, cumprindo-se assim aquela que era uma vontade do escritor.

    Esta minha ida à Luz teve também uma ironia amarga: José Mourinho é um dos responsáveis pelo meu “portismo”, tendo marcado a minha infância (nasci em 1996) quando liderou o FC Porto em tempos de glória, no início dos anos 2000.

    Dessa altura, ficaram-me sobretudo as memórias do meu pai a celebrar em euforia os golos do Porto, berrando a plenos pulmões a ponto de me deixar em sobressalto. Ficar-me-ão sempre gravadas na memória algumas das ‘estrelas’ daquele plantel. Jorge Costa. Maniche e sobretudo um dos meus eternos favoritos: o único e inigualável Vítor Baía.

    Hoje, sou incapaz de identificar um único jogador das ‘nossas’ equipas dos últimos anos. Mas, entretanto apurei que o responsável pelo remate que nos valeu o segundo golo deste domingo é um jovem polaco de apenas 17 anos, Oskar Pietuszewski. E fez história, tornando-se no jogador do FC Porto mais jovem de sempre a marcar ao Benfica, batendo dois recordes registados nos longínquos anos de 1933 e 1962. Grande Oskar.

    Mas, voltando ao Mourinho: cheguei a assistir ao meu primeiro jogo no Estádio do Dragão quando ainda treinava os dragões. Embora não guarde muitas recordações da experiência, o que se atribui à tenra idade. Depois, regressei na adolescência, aos 17 anos. A mesma idade do Oskar(!).

    Agora, a pisar novamente um estádio de futebol depois de um hiato de mais de uma década, eis que o meu ‘reencontro’ com Mourinho se dá na Luz — mas com o nosso antigo treinador a liderar a equipa adversária. Alguém que, durante anos, e num período tão marcante, era um “dos nossos”, surge agora a lutar pela nossa derrota. Enfim, uma reviravolta que aviva a nostalgia por tempos que jamais se irão repetir.

    Pelo menos, a sensação de estranheza foi compensada pelo facto de os dragões ocuparem o primeiro lugar — mesmo sem o saudoso “Special One”, que este domingo mostrou mais uma vez ter sangue na guelra, acabando expulso no final do jogo, depois de um aceso bate-boca entre elementos das duas equipas.

    Sem qualificações nem conhecimentos que me permitam analisar o jogo do ponto de vista técnico — e sem qualquer pretensão de o fazer —, o meu resumo deste clássico é simples e esgota-se em poucas palavras: muitas ‘caneladas’, jogadores constantemente atirados ao chão, muito ruído e fumarada (das tochas), interrupções frequentes e protestos contra o árbitro.

    E também um simpático farnel do qual, porém, só aproveitei a água. E duas maçãs, uma delas trocada com o director do PÁGINA UM por uma sandes e um chocolate.

    Quanto ao resultado, não se prestou a grandes alegrias nem a grandes tristezas. Depois de uma primeira parte em que alcançámos uma vantagem confortável, foi com alguma frustração que vi esse cenário alterar-se aos 69 minutos, até que os encarnados conseguissem por fim o empate. E a possibilidade de derrota só parecia ganhar força à medida que os segundos avançavam. Felizmente, não saí de lá com esse amargo de boca.

    E, quiçá, talvez também tenha tido a sorte de ser poupada a abandonar um Estádio da Luz dominado pela fúria de uma derrota benfiquista. Enfrentar a multidão à saída do recinto é intenso — e mais vale uma multidão resignada com um empate do que irada por perder dentro da sua própria ‘casa’.

    De resto, é claro que mais poderia ser dito da experiência de uma portista no campo do ‘arqui-inimigo’. Contudo, da mesma forma que me mantive discreta no território da equipa rival, o mesmo recato é aconselhável no PÁGINA UM, pelo que me escuso a tecer mais comentários sobre o clássico. É que a distância do digital pode parecer uma garantia de segurança para troçar do Benfica — mas eu prefiro não arriscar.

  • Real Madrid 0.1

    Real Madrid 0.1


    O Pedro, através do PÁGINA UM, desafiou-me a ir assistir ao Benfica-Real Madrid, na bancada da imprensa do Estádio da Luz.

    Sei bem o que esteve por detrás deste convite profissional: teve pena de mim, pois como sou boavisteiro, vivo agora na condição existencial de órfão de clube. Ser do Boavista equivale quase à história do indocumentado que vivia num aeroporto de Nova Iorque e inspirou o filme de Spielberg protagonizado pelo Tom Hanks.

    Agora, vejo futebol como quem vê documentários da National Geographic: com curiosidade e sem envolvimento tribal. Mas, depois, há excepções. Um português, por muito que respeite Espanha, nunca é neutro contra castelhanos. E foi com esse espírito que lá fui à ‘Catedral’, como um verdadeiro patriota, a torcer pelo Sport Lisboa e Benfica contra o sempre aristocrático Real Madrid Club de Fútbol.

    Infelizmente, falhei o jogo anterior — aquele já com aura mítica, em que o guarda-redes benfiquista, Anatoliy Trubin, descobriu que também sabia marcar golos e, mais importante ainda, como os celebrar. Há t-shirts com a sua foto a dizer “eu estava lá”, como quem diz “vi o 25 de Abril”. Eu não estava nos dois eventos, mas, se do primeiro não tenho memória, do último sei que o vi num restaurante na Avenida de Paris.

    Não fui agora à espera de heroísmos. E, de facto, não os houve. Foi um jogo Real Madrid clássico: calculista, frio, curto e eficaz. Marcaram quando era suposto marcar. Geriram quando era suposto gerir. Futebol de quem já tem muitas noites destas nas pernas. Se a eliminatória não ficou fechada ali mesmo, muito se deve outra vez a Trubin, que decidiu adiar Madrid.

    Curiosamente, o golo do Real entrou na mesma baliza onde Trubin tinha marcado da outra vez — porque o futebol adora estas ironias discretas. E na outra baliza, o único elemento físico que chegou a entrar foi o corpo de Thibaut Courtois, que mergulhou tanto que acabou literalmente dentro da baliza.

    Agora, o momento pelo qual este jogo será recordado é pelo episódio que transformou o jogo em debate sociológico. A acusação de insulto racista a Vinícius Júnior parou o jogo, activou protocolos, congelou o ambiente — e depois libertou uma onda de apupos quando o público sentiu que a coisa tinha passado do futebol para o teatro.

    Não vou ser moralista. Não consigo. O futebol é um desporto viril, de nervos, de palavras duras, de provocações que não passam nos manuais de boas maneiras.

    Racismo é outra coisa — mais profunda, mais violenta, mais estrutural — e não se resolve com dez minutos de pausa nem com debates de bancada. Ali, ontem, houve também jogo psicológico, exageros, aproveitamentos e aquela zona cinzenta onde o futebol moderno gosta de jogar.

    Depois, para os sociólogos de bancada, não posso deixar de achar piada quando vejo um brasileiro, de origem africana, a jogar num clube espanhol, a queixar-se a um francês porque um argentino, de origem italiana, a jogar num clube português, tenha feito uma comparação entre a sua atitude provocatória e a de um animal que existe em abundância nas paragens geográficas da sua nobre origem ancestral.

    Ainda por cima, há uma ironia histórica que importa sempre lembrar: mesmo à frente da porta 18 do Estádio Luz, está a estátua de Eusébio da Silva Ferreira — um homem negro, moçambicano, símbolo máximo do clube, herói de vitórias europeias e da Selecção Nacional. Património nacional do futebol, com honras de Panteão.

    O racismo real nunca teve casa ali.

    Saí do estádio com a sensação de que vi um Real Madrid competente frente a um Benfica que, como um gato de sete vidas, ainda se mantém na corrida graças ao seu guarda-redes, permitindo manter a eliminatória em aberto. Como bom patriota, espero que, para a semana, em Madrid, o Benfica ganhe.

    Não digo isto apenas pelo gosto do futebol, mas porque irritar espanhóis continua a ser uma tradição respeitável que até inclui mais amor e respeito por Espanha, o seu povo e tradições, do que qualquer manifestação de racismo cultural com alegada superioridade moral.

  • Real Milagre 4.2

    Real Milagre 4.2


    Sou do Benfica desde que me conheço. Nasci no final dos gloriosos anos 60, quando o clube ainda vivia da memória quente de cinco finais europeias em dez anos e de duas taças conquistadas. Nunca vi Eusébio jogar, nem Coluna, nem outras Águias míticas que povoam a iconografia da eternidade benfiquista.

    A minha infância foi outra, mais modesta e, talvez por isso, mais resistente. Cresci com Bento na baliza, Nené a rasgar defesas, Humberto Coelho a impor respeito, depois Carlos Manuel e Diamantino, Shéu o desafortunado Veloso e tantos outros que ainda me deram esperança nos anos 80, quando já andava pela Universidade, em Évora, a aprender que a vida raramente cumpre o que promete.

    Não sei se chorei nas derrotas das finais de 1988 e 1990, contra PSV e Milan. Sei que doeram. Depois veio o deserto dos anos 90, uma travessia longa e ingrata, algum rejuvenescimento nas últimas décadas, mas na Europa tudo parece definitivamente fora de alcance. Não acredito já que, na minha vida, veja o Benfica campeão europeu. Vivo bem com isso. Há amores que sobrevivem à renúncia. Olho para o Benfica como para aquele amante que nunca conseguimos deixar, mesmo quando há muito deixou de nos animar.

    Desde que comecei a escrevinhar esta crónica da Varanda da Luz — já lá vão três temporadas, curiosamente depois de uma crónica avulsa escrita na última vitória no campeonato de 2022/2023 — tenho somado desilusões. Ainda assim, continuo a apreciar esta tarefa de escrita, talvez por ser a forma mais elegante de suportar a frustração.

    Desta Varanda da Luz, cada vez mais íngreme, por vezes um verdadeiro calvário, já vi de tudo: sandes indescritíveis (embora tenham melhorado), golos esquisitos, jogadas exasperantes, jogos empolgantes e outros desesperantes — estes rimam melhor com a história recente.

    Cruzei-me com a águia Vitória, ou a Glória, ou ambas, e parece até que há uma terceira. Vi de tudo. Mas confesso que nesta época já me tinha frustrado tanto — quatro empates na Luz para o campeonato e duas derrotas caseiras na Liga dos Campeões, frente ao Qarabag e ao Bayer Leverkusen — que comecei a arrastar-me para o Estádio mais por dever do que por entusiasmo. Até a vitória por 4–0 contra o Estrela da Amadora, na passada semana, me soube a pouco; tão insípida que, pela primeira vez, salvo erro, assisti a um jogo sem escrever uma linha. Apeteceu-me meter férias na crónica.

    Ainda assim, com chuva irritante, lá me predispus a subir a Colina Sagrada, sem saber bem se iria assistir a mais um desastre do Benfica ou a um Real Madrid que já viu melhores dias. Caminhei para o meu poiso da Varanda da Luz — para uma zona mais lateral, como habitualmente sucede em noites europeias, recordando jogos contra o Barcelona de má memória. Atrasado, como já é epicamente reconhecido, subia a escadaria quando o relógio marcava o minuto 30. Nesse exacto instante, Mbappé fazia o primeiro golo do Real Madrid.

    Molhado, resignado, subi para o meu posto. Meti a sandes à boca — esta não era má de todo, tinha mesmo carne — e preparei-me para deglutir uma derrota anunciada. Mas não. O Benfica empatou logo a seguir por Schjelderup. Depois, um penálti caído do céu antes do intervalo: golo do incontornável PAVlidis. Chegámos ao descanso com um improvável 2–1.

    Sentiu-se na bancada que a honra do convento — ou da Catedral — ainda podia ser salva, mesmo sem grande esperança em milagres de passagem para a fase seguinte. Com três vitórias — as únicas, a seguir às de Ajax e Nápoles — só uma conjugação quase absurda de resultados permitiria seguir em frente.

    Poucos minutos após o recomeço, o 3–1. Logo a seguir, o Real reduz. Lembrei-me imediatamente daquele jogo com o Barcelona: a ilusão de uma noite gloriosa que acaba sempre em naufrágio. Enganei-me. O Benfica segurou a bola, jogava sem receios do adversário, enquanto eu fazia contas no telemóvel, à espera que a Juventus marcasse ao Mónaco e que o Atlético de Madrid, pelo menos, empatasse com os noruegueses cujo nome nunca sei pronunciar – Bodo, ou qualquer coisa do género. Nada. O tempo passava. O minuto 90 aproximava-se – e chegou. Os outros jogos iam fechando, um a um. Até o Sporting ajudava, vencendo o Athletic Bilbao, mas de pouco valia.

    Pela táctica, parecia que o Benfica se contentava com o resultado. Entrou António Silva para reforçar a defesa. Mas então foram expulsos dois jogadores do Real por acumulação de amarelos. E ouviu-se, difuso, mas insistente, um murmúrio que cresceu: “só mais um”. Talvez, nesse instante, alguém no banco de Mourinho se tenha apercebido de que bastava afinal só mais um golo para que o impossível se tornasse real. Mas os descontos eram apenas cinco em minutos.

    E então, faz-se cinema:  Aursnes é travado no lado direito do ataque, já no último terço. Mourinho manda Trubin subir, como ponta-de-lança em desespero, à moda antiga, daqueles que, falhada a investida, condena a equipa num contra-ataque fatal do adversário. O argumento era outro. Livre. Centro de Aursnes. A bola sobe, sobrevoa a área e… golo. Trubin! Cabeça de guarda-redes.

    Desde essa noite, tenho revisto em looping a cabeçada de Trubin – e até já meti uma cunha para ver se, passados alguns meses, ficando o ucraniano em paz, lhe saco uns rabiscos para valorizar a minha acreditação, aqui bem guardada. E que jamais venderei – aviso já. Um dia, acredito, quando se perguntar onde se estava a 28 de Janeiro de 2026, haverá cerca de 60 mil pessoas que dirão, com orgulho simples e inabalável: no Estádio da Luz. Eu fui um deles. Um dos que assistiu a um milagre.

    E sim, digo-o sem pudor nem heresia: este milagre vale, para mim, mais do que um campeonato europeu, porque esse, quando chega para adeptos de certas equipas, já vem anunciado. Ora, uma vitória como esta, com esta passagem, não. Caiu do céu, por intervenção divina – e nem foi com a mão de um génio argentino: foi com a cabeça de um ucraniano improvável.

  • Estoril 3.1

    Estoril 3.1


    Há coincidências que o futebol trata de transformar em metáforas. No dia em que uma assembleia geral extraordinária aprovava o chamado Benfica District, eu assisti a mais um jogo a partir da Varanda da Luz, esse promontório existencial onde se vê futebol, mas também se encontra oportunidade para reflectir sobre urbanismo, finanças criativas e a influência crescente do VAR na vida espiritual do benfiquista. Tudo ao mesmo tempo, como convém a um clube moderno.

    O jogo, esse, começou sofrível, como já começa a ser hábito. E sofrível não apenas no sentido épico do sofrimento redentor — isso seria suportável —, mas naquele outro, mais burocrático, em que se sofre porque nada parece fluir. O Benfica entrou sem controlo, permitiu iniciativa ao adversário, passou largos minutos a correr atrás da bola e a dar a sensação de que o jogo estava sempre prestes a escapar-lhe. A pressão inicial do outro lado foi suficiente para inquietar a Luz e para instalar, cedo demais, aquele desconforto típico de quem percebe que a noite vai ser longa.

    Porém, houve VAR — claro que houve VAR —, houve interrupções, houve aquela liturgia contemporânea de esperar pela decisão como quem aguarda uma sentença administrativa. E foi precisamente numa dessas interrupções que surgiu o penalti, depois de um lance inicialmente mandado seguir e revisto à lupa por uma cotovelada no Otamendi. Veio Pavlidis e marcou, como manda o figurino, com a naturalidade de quem já começa a parecer menos um avançado e mais um instrumento regulamentar. Se isto continuar assim, ainda lhe colocam um apito ao pescoço. Ou um despertador para o lembrar do minuto em que se deve dirigir à marca dos 11 metros.

    O golo não trouxe tranquilidade. Pelo contrário: trouxe a ilusão dela. O Benfica melhorou ligeiramente, teve momentos de posse, criou alguma ordem, e a fechar a primeira parte um remate de belo efeito do Pavlidis para facturar o segundo. Mesmo quando ampliou a vantagem, continuou a pairar no ar a sensação de que bastava um descuido para tudo se complicar. E complicou-se. O adversário reduziu ainda antes do intervalo, o estádio encolheu-se — e não foi do frio. A segunda parte surgiu e com ela o estado natural do Benfica: o da ansiedade permanente, com a equipa a gerir mais o resultado do que o futebol.

    E viu-se o que não se gosta de ver numa equipa com o historial do Benfica: pragmatismo defensivo caseiro perante uma equipa de meio de tabela, aceitando perder controlo em troca de segurança relativa e lá se foi sobrevivendo entre ameaças ocasionais, bolas paradas mal defendidas e aquela constante expectativa de que algo podia correr mal. Só perto do fim, numa transição rápida e já com o adversário esticado, o terceiro golo apareceu, consumando-se um hat trick do Pavlidis e fechando-se o jogo sem nunca verdadeiramente o pacificar. Foi uma vitória, sim. Mas daquelas que se explicam mais pelo resultado do que pela exibição.

    Mas o que verdadeiramente me inquietou não foi o jogo, nem o VAR, nem o penálti do costume. Foi perceber que nesse mesmo dia, em assembleia geral extraordinária do Benfica, se anunciava mais um capítulo ordinário de uma história muito portuguesa: a do betão que avança sempre com a promessa de que desta vez é diferente. Desta vez é planeado. Desta vez é viável. Desta vez é sustentável.

    Garantiu o presidente Rui Costa que o Benfica District vai revolucionar o espaço envolvente ao Estádio da Luz, que será um destino nacional e internacional, que haverá pavilhões, hotéis, zonas comerciais, cultura, entretenimento e, imagino eu, talvez até um bocadinho de futebol. O investimento será de centenas de milhões (nunca se sabe ao certo) e a conclusão aponta para 2029 ou 2030, conforme a velocidade a que a Câmara Municipal decidir colaborar. Como se sabe, quando as contas apertam, há sempre mais uns metros quadrados para licenciar.

    Se a memória não me falha — e não me falha assim tanto, estava eu no Expresso no final dos anos 90 —, já no passado os direitos de construção em redor do Estádio da Luz foram generosos, para usar um eufemismo simpático. Tão generosos que a autarquia chegou a contabilizar o próprio relvado como espaço verde. Um jardim, portanto. Um jardim com marcações, balizas e bancadas à volta. Lisboa tem destas inovações botânicas e paisagísticas.

    E agora, mais betão. Sempre mais betão. Um clube que vive acima das suas possibilidades, como tantos outros, e que depois se apresenta, com ar compungido, a pedir compreensão institucional. Nada de novo, portanto. Apenas mais moderno, mais district, mais anglo-saxónico, porque chamar bairro parece coisa pobre e antiga. Benfica District soa a PowerPoint, a branding, a alguém que acredita sinceramente que mudar o nome muda a substância.

    Porém, aquilo que verdadeiramente me preocupa, confesso, é a reconfiguração do estádio, que passará dos actuais 65 mil lugares para 80 mil. E isto através do rebaixamento do relvado. E eu, que já me encontro bem no topo, demasiado no topo nesta Varanda da Luz, começo a fazer contas à vida.

    Se o relvado desce e eu fico onde estou, ficarei mais alto, mesmo se ao mesmo nível das águas do mar, mais distante, mais próximo do céu — ou do inferno. A visão do jogo — e a minha já viu melhores dias (e piores, porque, entretanto, a minha miopia teve correcção cirúrgica) — tornar-se-á um exercício de fé.

    Mas, bem vistas as coisas, talvez não seja assim tão mau. Se o Benfica continuar a jogar como tem jogado, poupa-me o detalhe. Vejo menos, sofro menos. Há vantagens em tudo.

    Enfim, neste jogo, saí da Varanda da Luz com a sensação de que vi um jogo mas vislumbrei também um plano urbanístico, a um penalti e a uma maquete; a um VAR e a um District. Talvez seja esse o novo futebol: menos jogo jogado, mais jogo aprovado, um relvado a descer e o betão a subir.

  • Famalicão 1.0

    Famalicão 1.0


    Na antevéspera da Consoada, quando o país já entrou naquele estado intermédio entre a gula anunciada e a culpa adiada, o Benfica resolveu lembrar-me — ou lembrar-nos — que o Natal, tal como o futebol, não obedece a calendários litúrgicos rígidos. O Natal é quando um homem quer, dizia-se antigamente; e, pelos vistos, também quando um clube precisa.

    Esta segunda-feira foi dia de vitória. Não exuberante, ainda menos redentora, mas suficiente para afastar fantasmas que já começavam a pedir quarto cativo na Luz, com direito a pequeno-almoço incluído e estadia prolongada.

    Esta partida contra o Famalicão teve o que os jogos têm tido nesta época: frio nas bancadas, ansiedade nas pernas e um público que já observa o relvado como quem olha para um presépio ainda por montar — José inclinado demais, o boi fora do lugar e o Menino ainda por chegar. O Benfica continua sem deslumbrar, mas também não se deixou deslizar, desta vez, para aquele pântano emocional que tem sido a sucessão recente de empates caseiros. Desta vez, não houve novo empate. E isso, convenhamos, já é motivo de aleluia — não daqueles cantados em coro celestial, mas dos murmurados com prudência, como quem agradece sem fazer promessas.

    E mais ainda o penálti sobre Otamendi. Um braço levantado como quem invoca o céu, um VAR atento — milagre dos tempos modernos — e aquela pausa solene em que o estádio inteiro prende a respiração como num conclave à espera de fumo branco. Não houve dúvida teológica nem exegese prolongada: assinalou-se o penálti, Pavlidis marcou o golo da praxe, e o Benfica passou para a frente, mantendo-se fiel àquele mandamento simples e raramente cumprido esta época: não sofrerás depois de marcar. Nada de epifanias, nada de escândalos — quase um milagre natalício, precisamente pela sua anormalidade.

    Mas talvez mais importante do que o golo marcado foi o outro golo não sofrido. Não houve, como já sucedeu demasiadas vezes esta época, aquele golo nos descontos da equipa adversária, aquela espécie de castigo bíblico que tem caído sobre a Luz como praga tardia: depois das rãs, depois dos gafanhotos, depois das águas tornadas sangue, eis o golo forasteiro aos 93 minutos. Desta vez, não. O apito final chegou inteiro, sem trombetas apocalípticas nem ranger de dentes. Salvou-se a noite. Salvou-se a semana. Salvou-se, para já, a sanidade colectiva.

    Não há duas sem três — mas, por agora, não houve quatro, apesar de já terem existido três empates caseiros esta época nos descontos: Santa Clara, Rio Ave e Casa Pia. Na matemática do futebol, como na teologia, há números que contam mais pelo que evitam do que pelo que alcançam.

    Não foi, desta vez, um quarto desaire. E isso confirma, ainda que timidamente, que afinal pode haver três sem quatro. Um pequeno dogma menor, não inscrito nos Evangelhos, mas aceite pela fé benfiquista, que nesta fase já se contenta com menos milagres e mais estabilidade.

    Enfim, foi “só” um jogo mais sofrido do que inspirado, mais pensado do que sentido. Houve fases em que a bola circulou com a solenidade de um sermão dominical — longo, monótono, mas necessário — e outras em que parecia pedir socorro, como Jonas no ventre da baleia. Mas houve também algo que tem faltado: controlo. Não domínio absoluto, não futebol champagne, mas controlo suficiente para não deixar que o jogo descambasse para aquele território caótico onde tudo é possível — sobretudo o pior.

    Nesta época natalícia, o futebol ensina-nos, em todo o caso, uma lição curiosa: nem sempre é preciso um banquete para haver celebração. Às vezes basta não faltar o essencial. Santo Tomás diria que o bem é aquilo que convém à natureza da coisa — e, neste momento, convém ao Benfica ganhar jogos, mesmo que seja sem estrelas no presépio e sem anjos a cantar. A estética fica para depois. A sobrevivência vem primeiro. Primeiro, o pão. E depois, se houver tempo, os peixes.

    No fim, já no túnel de acesso ao Colombo, os adeptos saíram com aquele cântico do SLB, conscientes de que não tinham recebido ouro, incenso nem mirra, mas aliviados por não terem ficado com um par meias — ou seja, mais um empate embalado em papel de embrulho. Houve alívio. Houve conversa. Houve aquela sensação típica de Dezembro: “para já, chega”. E talvez seja isso o mais honesto que se pode pedir ao Benfica nesta fase do ano: menos apocalipse, mais Advento; menos promessas grandiosas, mais pequenos sinais de que, afinal, ainda pode haver redenção.

  • Sporting 1.1

    Sporting 1.1


    Regressei ao derby contra o Sporting como deve regressar um benfiquista dos tempos modernos: sem grande fé, sem grande expectativa e com aquela teimosia quase antropológica de quem acredita que, um dia, talvez veja um jogo inteiro do início ao fim. Na época passada perdi meia parte do jogo — e a paciência com o Metropolitano, que decidiu tirar uma folga nesse dia, obrigando-me a ir de Uber. Nada mais humilhante para um cidadão que ainda acredita nos transportes públicos do que chegar à Luz dentro de um Toyota híbrido.

    Este ano, como manda a tradição, voltei a não ver o início. Mas, justiça seja feita, não por culpa da engenharia soviética do Metropolitano de Lisboa. Não — desta vez a responsabilidade foi inteiramente do Benfica, que decidiu encerrar a Porta 30, o acesso habitual dos jornalistas. Talvez para testar a nossa resiliência física, talvez para demonstrar que a orientação espacial também deveria contar na estatística.

    Eu e mais uns quantos jornalistas lá fomos, como peregrinos enganados, conduzidos até à Porta 11-D, uma entrada que, sinceramente, ficaria melhor num parque temático ou num túnel de fuga de um parque eólico. A partir daí seguiu-se a travessia épica pelos subterrâneos da Luz: corredores intermináveis, rampas, portas que só abrem com códigos e — deixemos esta parte ficcionada, porque o parque é como todos os parques subterrâneos do mundo —, para terminar, negociações diplomáticas com um segurança que tinha, naquele momento, mais poder do que o Pedro Gonçalves no lance do golo aos 12 minutos. Que, claro, também não vi.

    A verdade é que perdi mais de meia parte da primeira parte. Não vi o golo do Sporting, essa oferta generosa da defesa benfiquista. Não vi o empate embrulhado de Sudakov, que — dizem — terá empurrado a bola quase por acidente, mas não há acidentes estatísticos: a bola entrou, logo vale. Mas vi, isso sim, algo que a esmagadora maioria dos 65.247 espectadores não viram: os subterrâneos da Luz. E devo confessar algo que nunca pensei formular publicamente: são deslumbrantes.

    Porque, ao contrário do que se passa à superfície — onde o Benfica insiste em alternar entre jogos sofríveis e empates que oferecem vantagem ao Porto —, nas catacumbas chega-se à conclusão de que Portugal é afinal um país eficientíssimo, um país rico. Riquíssimo! Uma potência que só não aparece nos relatórios da OCDE porque, aparentemente, eles nunca foram ao piso -3 do Estádio da Luz. Ali, onde o PIB tem forma de berlina alemã, percebe-se verdadeiramente a distribuição do rendimento: desigual, sim, mas muito fotogénica.

    Enquanto atravessava o parque subterrâneo — esse Olimpo automóvel onde a cilindrada é argumento moral — dei por mim a reconsiderar décadas de análise económica. Não há crise em Portugal. Não há austeridade. Não há salários estagnados. Tudo isso é ficção literária. A realidade estava ali, luzidia: BMWs e Mercedes como quem colecciona cromos, Teslas a brotar como orquídeas de estufa, e até um punhado de Range Rovers, Porsches, Ferraris e Maseratis estacionados com a displicência de quem encosta um Fiat Punto em Santo Amaro. No meio da opulência, encontrei um Smart, encolhido, constrangido, quase a pedir desculpa por existir. O dono, creio eu, deve ser alvo de intervenção psicológica urgente.

    Quando finalmente cheguei ao elevador de serviço — após vencer portas, rampas e um segurança que exigiu mais explicações do que um juiz de instrução — e mordisquei o meu farnel, o jogo ia embalado para o intervalo. Sentei-me e percebi que o futebol português continua a oferecer aquilo que melhor domina: imprevisibilidade organizativa, golos que perco sistematicamente e uma sensação de déjà vu que Freud teria prazer em facturar.

    Na segunda parte, observando um jogo de caca, percebi algo extraordinário: o desfile automóvel tinha sido infinitamente mais emocionante do que o próprio derby. O Benfica dominou mas não convenceu; o Sporting respirou mas não existiu; e Prestianni tratou de acrescentar irritação à noite sendo expulso ao minuto 90, para que os descontos acabassem em sofrimento. Resumindo: um empate tão útil para o Benfica e para o Sporting quanto um saco de moedas de chocolate numa reunião do FMI.

    No fim, embora continue sem perceber a decisão de encerrar a Porta 30, reconheço que, ao cabo e ao resto, ofereceram-me material para reportagem. Fosse outro jogo menos relevante, teria ficado ali, no piso -3, a fazer um levantamento sistemático deste fenómeno sociológico: um país pobre ao ar livre e riquíssimo no subsolo.

    Se na próxima vez me obrigarem a repetir a romaria pelos corredores subterrâneos, farei então o inventário exaustivo daquela fauna mecânica. Quem sabe se não encontrarei um Koenigsegg tímido atrás de um pilar, à espera pacientemente do próximo derby — e de nós, peregrinos ludibriados da Porta 30.

  • Casa Pia 2.2

    Casa Pia 2.2


    Com o Benfica não se faz farinha — porque a farinha, ao menos, quando se amassa, dá pão. O Benfica, por estes dias, dá apenas azia.

    Mas comecemos pela parte mais divertida da epopeia encarnada: o Guinness Book of Records, essa Bíblia dos exageros humanos, recusou sancionar o recorde da primeira volta das eleições para a presidência do Benfica. Razão? Havia 86.297 sócios votantes, o que superaria um sufrágio do Barcelona, mas — pasme-se — não houve eleito.

    Porém, como o povo benfiquista é resiliente, e talvez também algo supersticioso, as águias juntaram-se em bando ainda mais cerrado e, na segunda volta, este sábado, lá bateram o recorde — sem penugem nem hesitação — e tiraram as peneiras aos blaugranas:93.891 sócios a exercer o seu voto. Um mar humano. Ou melhor: um bando de águias em romaria cívica.

    Poderia ter sido 93.892, se este vosso cronista tivesse ido cumprir o seu “dever” cívico. Contudo, abstive-me — não por desinteresse, que o Benfica é coisa séria, mas por prudência moral. Já bastam as bocas ocasionais de que, por escrever nesta modesta varanda, não abordo os muitos temas sensíveis da bola. E agora, se aparecesse de boletim em punho, diriam logo que tentei influenciar as eleições em favor de um candidato — especialmente depois de ter escrito, na última semana, que a holding familiar de Rui Costa é um inferno.

    Assim sendo, preferi não dar azo a rumores. E, convenhamos, a abstenção no desporto também tem a sua poesia: é o direito de quem ama, mas não quer ser cúmplice.

    De qualquer modo, a democracia benfiquista continua a ser um hino à complexidade: eu, com 25 anos de sócio, teria direito a 50 votos — e isto, sim, é uma verdadeira democracia, daquelas em que uns valem por cinquenta e outros por um. No fundo, é o Benfica a antecipar o futuro da política portuguesa. Mas pronto, também não se perdeu muito: Rui Costa venceu Noronha Lopes com larga vantagem, e o único voto que o Guinness perdeu foi o meu.

    Depois deste feito monumental, esperava-se que o Benfica serenasse os nervos e, liberto das tensões eleitorais, mostrasse em campo a mesma força que mostrou nas urnas.

    Afinal, quem é capaz de mobilizar quase cem mil pessoas devia ter potência para mobilizar onze jogadores. Mas não: a equipa, qual símbolo da nação, continua a jogar como quem espera que alguém faça por si o trabalho. Contra o Casa Pia — sim, o Casa Pia, e não o Real Madrid — esperava-se uma exibição tranquila, um banho de bola, um resultado folgado. No ano passado foi 3-0.

    Afinal, o que se viu neste domingo foi mais uma sinfonia de passes inúteis: trocam bolas, recuam, lateralizam, atrasam, contemporizam… Fintar, cruzar com precisão ou rematar à baliza já é pedir um esforço quase revolucionário.

    O primeiro golo até apareceu cedo, por Sudakov, num remate de belo efeito aos 17 minutos — daqueles que enganam o público e fazem sonhar os adeptos com um milagre.

    Foi sol de pouca dura. O Benfica, fiel à sua nova doutrina táctica do tédio, retomou o carrossel de passes para o lado, como se o futebol fosse um concurso de quem adormece o adversário primeiro. Ao intervalo, a plateia já bocejava. Ou, pelo menos, eu. Salvou-se a sandes — que tinha alguma carne de verdade — e a pêra do farnel, que estava rijinha, como deve ser.

    No regresso ao relvado, o destino fez o favor de nos recordar que o Benfica moderno tem um pacto secreto com o infortúnio. O inevitável penálti a favor ainda surgiu — é quase uma cláusula contratual de cada jogo — e Pavlidis não falhou.

    Mas quando se esperava alguma serenidade, eis que António Silva, que parece ter sido abençoado com o dom de complicar o simples, decide oferecer um momento de suspense. Fez das dele, com um penálti discutível — é certo —, mas penálti. Trubin, que anda a jogar o papel de santo padroeiro dos desgraçados, ainda defendeu o castigo. Só que, no Benfica, até as defesas se tornam tragédias: Tomás Araújo, num gesto de solidariedade suicida, resolveu limpar a área, evitando uma recarga, com um pontapé que acabou, certeiro, dentro da própria baliza.

    Foi um autogolo tão sincero que até pareceu ensaiado. O público não sabia se devia rir, chorar ou pedir uma auditoria às leis da física.

    A partir daí, o destino fez o resto: houve um golo (bem) anulado a Leandro Barreiro, para dar um toque de injustiça, e, como manda a tradição desta época, houve golo do adversário nos descontos — porque, no Benfica, o relógio é sempre inimigo.

    Mais um empate caseiro — o terceiro concedido esta época na Luz, depois de Santa Clara e Rio Ave —, mais uma exibição de sonolência, mais uma prova de que esta equipa é previsível até na mediocridade.

    O Benfica transformou-se numa espécie de dramaturgia grega: conhecemos o início, o meio e o fim — e o coro já canta o lamento antes da tragédia acontecer.

    Rui Costa, reeleito com pompa e circunstância, bem podia aproveitar o embalo das urnas e tentar governar também o relvado, porque José Mourinho parece mais preocupado em garantir posse de bola do que golos — e, convenhamos, os adeptos não pagam bilhete para ver passes horizontais.

    Há, todavia, uma beleza estranha nesta desgraça. O Benfica mostra-se o espelho perfeito de Portugal: tem talento, tem história, tem paixão e até recorde no Guinness — mas tropeça sempre nos próprios pés.

    De qualquer forma, eis-me aqui a revelar aquilo que sou: a Da Varanda da Luz mantém-se fiel à sua tradição — crítica, sim, mas com amor. Até ao próximo desaire.