Etiqueta: Da Varanda da Luz

  • Estoril 3.1

    Estoril 3.1


    Há coincidências que o futebol trata de transformar em metáforas. No dia em que uma assembleia geral extraordinária aprovava o chamado Benfica District, eu assisti a mais um jogo a partir da Varanda da Luz, esse promontório existencial onde se vê futebol, mas também se encontra oportunidade para reflectir sobre urbanismo, finanças criativas e a influência crescente do VAR na vida espiritual do benfiquista. Tudo ao mesmo tempo, como convém a um clube moderno.

    O jogo, esse, começou sofrível, como já começa a ser hábito. E sofrível não apenas no sentido épico do sofrimento redentor — isso seria suportável —, mas naquele outro, mais burocrático, em que se sofre porque nada parece fluir. O Benfica entrou sem controlo, permitiu iniciativa ao adversário, passou largos minutos a correr atrás da bola e a dar a sensação de que o jogo estava sempre prestes a escapar-lhe. A pressão inicial do outro lado foi suficiente para inquietar a Luz e para instalar, cedo demais, aquele desconforto típico de quem percebe que a noite vai ser longa.

    Porém, houve VAR — claro que houve VAR —, houve interrupções, houve aquela liturgia contemporânea de esperar pela decisão como quem aguarda uma sentença administrativa. E foi precisamente numa dessas interrupções que surgiu o penalti, depois de um lance inicialmente mandado seguir e revisto à lupa por uma cotovelada no Otamendi. Veio Pavlidis e marcou, como manda o figurino, com a naturalidade de quem já começa a parecer menos um avançado e mais um instrumento regulamentar. Se isto continuar assim, ainda lhe colocam um apito ao pescoço. Ou um despertador para o lembrar do minuto em que se deve dirigir à marca dos 11 metros.

    O golo não trouxe tranquilidade. Pelo contrário: trouxe a ilusão dela. O Benfica melhorou ligeiramente, teve momentos de posse, criou alguma ordem, e a fechar a primeira parte um remate de belo efeito do Pavlidis para facturar o segundo. Mesmo quando ampliou a vantagem, continuou a pairar no ar a sensação de que bastava um descuido para tudo se complicar. E complicou-se. O adversário reduziu ainda antes do intervalo, o estádio encolheu-se — e não foi do frio. A segunda parte surgiu e com ela o estado natural do Benfica: o da ansiedade permanente, com a equipa a gerir mais o resultado do que o futebol.

    E viu-se o que não se gosta de ver numa equipa com o historial do Benfica: pragmatismo defensivo caseiro perante uma equipa de meio de tabela, aceitando perder controlo em troca de segurança relativa e lá se foi sobrevivendo entre ameaças ocasionais, bolas paradas mal defendidas e aquela constante expectativa de que algo podia correr mal. Só perto do fim, numa transição rápida e já com o adversário esticado, o terceiro golo apareceu, consumando-se um hat trick do Pavlidis e fechando-se o jogo sem nunca verdadeiramente o pacificar. Foi uma vitória, sim. Mas daquelas que se explicam mais pelo resultado do que pela exibição.

    Mas o que verdadeiramente me inquietou não foi o jogo, nem o VAR, nem o penálti do costume. Foi perceber que nesse mesmo dia, em assembleia geral extraordinária do Benfica, se anunciava mais um capítulo ordinário de uma história muito portuguesa: a do betão que avança sempre com a promessa de que desta vez é diferente. Desta vez é planeado. Desta vez é viável. Desta vez é sustentável.

    Garantiu o presidente Rui Costa que o Benfica District vai revolucionar o espaço envolvente ao Estádio da Luz, que será um destino nacional e internacional, que haverá pavilhões, hotéis, zonas comerciais, cultura, entretenimento e, imagino eu, talvez até um bocadinho de futebol. O investimento será de centenas de milhões (nunca se sabe ao certo) e a conclusão aponta para 2029 ou 2030, conforme a velocidade a que a Câmara Municipal decidir colaborar. Como se sabe, quando as contas apertam, há sempre mais uns metros quadrados para licenciar.

    Se a memória não me falha — e não me falha assim tanto, estava eu no Expresso no final dos anos 90 —, já no passado os direitos de construção em redor do Estádio da Luz foram generosos, para usar um eufemismo simpático. Tão generosos que a autarquia chegou a contabilizar o próprio relvado como espaço verde. Um jardim, portanto. Um jardim com marcações, balizas e bancadas à volta. Lisboa tem destas inovações botânicas e paisagísticas.

    E agora, mais betão. Sempre mais betão. Um clube que vive acima das suas possibilidades, como tantos outros, e que depois se apresenta, com ar compungido, a pedir compreensão institucional. Nada de novo, portanto. Apenas mais moderno, mais district, mais anglo-saxónico, porque chamar bairro parece coisa pobre e antiga. Benfica District soa a PowerPoint, a branding, a alguém que acredita sinceramente que mudar o nome muda a substância.

    Porém, aquilo que verdadeiramente me preocupa, confesso, é a reconfiguração do estádio, que passará dos actuais 65 mil lugares para 80 mil. E isto através do rebaixamento do relvado. E eu, que já me encontro bem no topo, demasiado no topo nesta Varanda da Luz, começo a fazer contas à vida.

    Se o relvado desce e eu fico onde estou, ficarei mais alto, mesmo se ao mesmo nível das águas do mar, mais distante, mais próximo do céu — ou do inferno. A visão do jogo — e a minha já viu melhores dias (e piores, porque, entretanto, a minha miopia teve correcção cirúrgica) — tornar-se-á um exercício de fé.

    Mas, bem vistas as coisas, talvez não seja assim tão mau. Se o Benfica continuar a jogar como tem jogado, poupa-me o detalhe. Vejo menos, sofro menos. Há vantagens em tudo.

    Enfim, neste jogo, saí da Varanda da Luz com a sensação de que vi um jogo mas vislumbrei também um plano urbanístico, a um penalti e a uma maquete; a um VAR e a um District. Talvez seja esse o novo futebol: menos jogo jogado, mais jogo aprovado, um relvado a descer e o betão a subir.

  • Famalicão 1.0

    Famalicão 1.0


    Na antevéspera da Consoada, quando o país já entrou naquele estado intermédio entre a gula anunciada e a culpa adiada, o Benfica resolveu lembrar-me — ou lembrar-nos — que o Natal, tal como o futebol, não obedece a calendários litúrgicos rígidos. O Natal é quando um homem quer, dizia-se antigamente; e, pelos vistos, também quando um clube precisa.

    Esta segunda-feira foi dia de vitória. Não exuberante, ainda menos redentora, mas suficiente para afastar fantasmas que já começavam a pedir quarto cativo na Luz, com direito a pequeno-almoço incluído e estadia prolongada.

    Esta partida contra o Famalicão teve o que os jogos têm tido nesta época: frio nas bancadas, ansiedade nas pernas e um público que já observa o relvado como quem olha para um presépio ainda por montar — José inclinado demais, o boi fora do lugar e o Menino ainda por chegar. O Benfica continua sem deslumbrar, mas também não se deixou deslizar, desta vez, para aquele pântano emocional que tem sido a sucessão recente de empates caseiros. Desta vez, não houve novo empate. E isso, convenhamos, já é motivo de aleluia — não daqueles cantados em coro celestial, mas dos murmurados com prudência, como quem agradece sem fazer promessas.

    E mais ainda o penálti sobre Otamendi. Um braço levantado como quem invoca o céu, um VAR atento — milagre dos tempos modernos — e aquela pausa solene em que o estádio inteiro prende a respiração como num conclave à espera de fumo branco. Não houve dúvida teológica nem exegese prolongada: assinalou-se o penálti, Pavlidis marcou o golo da praxe, e o Benfica passou para a frente, mantendo-se fiel àquele mandamento simples e raramente cumprido esta época: não sofrerás depois de marcar. Nada de epifanias, nada de escândalos — quase um milagre natalício, precisamente pela sua anormalidade.

    Mas talvez mais importante do que o golo marcado foi o outro golo não sofrido. Não houve, como já sucedeu demasiadas vezes esta época, aquele golo nos descontos da equipa adversária, aquela espécie de castigo bíblico que tem caído sobre a Luz como praga tardia: depois das rãs, depois dos gafanhotos, depois das águas tornadas sangue, eis o golo forasteiro aos 93 minutos. Desta vez, não. O apito final chegou inteiro, sem trombetas apocalípticas nem ranger de dentes. Salvou-se a noite. Salvou-se a semana. Salvou-se, para já, a sanidade colectiva.

    Não há duas sem três — mas, por agora, não houve quatro, apesar de já terem existido três empates caseiros esta época nos descontos: Santa Clara, Rio Ave e Casa Pia. Na matemática do futebol, como na teologia, há números que contam mais pelo que evitam do que pelo que alcançam.

    Não foi, desta vez, um quarto desaire. E isso confirma, ainda que timidamente, que afinal pode haver três sem quatro. Um pequeno dogma menor, não inscrito nos Evangelhos, mas aceite pela fé benfiquista, que nesta fase já se contenta com menos milagres e mais estabilidade.

    Enfim, foi “só” um jogo mais sofrido do que inspirado, mais pensado do que sentido. Houve fases em que a bola circulou com a solenidade de um sermão dominical — longo, monótono, mas necessário — e outras em que parecia pedir socorro, como Jonas no ventre da baleia. Mas houve também algo que tem faltado: controlo. Não domínio absoluto, não futebol champagne, mas controlo suficiente para não deixar que o jogo descambasse para aquele território caótico onde tudo é possível — sobretudo o pior.

    Nesta época natalícia, o futebol ensina-nos, em todo o caso, uma lição curiosa: nem sempre é preciso um banquete para haver celebração. Às vezes basta não faltar o essencial. Santo Tomás diria que o bem é aquilo que convém à natureza da coisa — e, neste momento, convém ao Benfica ganhar jogos, mesmo que seja sem estrelas no presépio e sem anjos a cantar. A estética fica para depois. A sobrevivência vem primeiro. Primeiro, o pão. E depois, se houver tempo, os peixes.

    No fim, já no túnel de acesso ao Colombo, os adeptos saíram com aquele cântico do SLB, conscientes de que não tinham recebido ouro, incenso nem mirra, mas aliviados por não terem ficado com um par meias — ou seja, mais um empate embalado em papel de embrulho. Houve alívio. Houve conversa. Houve aquela sensação típica de Dezembro: “para já, chega”. E talvez seja isso o mais honesto que se pode pedir ao Benfica nesta fase do ano: menos apocalipse, mais Advento; menos promessas grandiosas, mais pequenos sinais de que, afinal, ainda pode haver redenção.

  • Sporting 1.1

    Sporting 1.1


    Regressei ao derby contra o Sporting como deve regressar um benfiquista dos tempos modernos: sem grande fé, sem grande expectativa e com aquela teimosia quase antropológica de quem acredita que, um dia, talvez veja um jogo inteiro do início ao fim. Na época passada perdi meia parte do jogo — e a paciência com o Metropolitano, que decidiu tirar uma folga nesse dia, obrigando-me a ir de Uber. Nada mais humilhante para um cidadão que ainda acredita nos transportes públicos do que chegar à Luz dentro de um Toyota híbrido.

    Este ano, como manda a tradição, voltei a não ver o início. Mas, justiça seja feita, não por culpa da engenharia soviética do Metropolitano de Lisboa. Não — desta vez a responsabilidade foi inteiramente do Benfica, que decidiu encerrar a Porta 30, o acesso habitual dos jornalistas. Talvez para testar a nossa resiliência física, talvez para demonstrar que a orientação espacial também deveria contar na estatística.

    Eu e mais uns quantos jornalistas lá fomos, como peregrinos enganados, conduzidos até à Porta 11-D, uma entrada que, sinceramente, ficaria melhor num parque temático ou num túnel de fuga de um parque eólico. A partir daí seguiu-se a travessia épica pelos subterrâneos da Luz: corredores intermináveis, rampas, portas que só abrem com códigos e — deixemos esta parte ficcionada, porque o parque é como todos os parques subterrâneos do mundo —, para terminar, negociações diplomáticas com um segurança que tinha, naquele momento, mais poder do que o Pedro Gonçalves no lance do golo aos 12 minutos. Que, claro, também não vi.

    A verdade é que perdi mais de meia parte da primeira parte. Não vi o golo do Sporting, essa oferta generosa da defesa benfiquista. Não vi o empate embrulhado de Sudakov, que — dizem — terá empurrado a bola quase por acidente, mas não há acidentes estatísticos: a bola entrou, logo vale. Mas vi, isso sim, algo que a esmagadora maioria dos 65.247 espectadores não viram: os subterrâneos da Luz. E devo confessar algo que nunca pensei formular publicamente: são deslumbrantes.

    Porque, ao contrário do que se passa à superfície — onde o Benfica insiste em alternar entre jogos sofríveis e empates que oferecem vantagem ao Porto —, nas catacumbas chega-se à conclusão de que Portugal é afinal um país eficientíssimo, um país rico. Riquíssimo! Uma potência que só não aparece nos relatórios da OCDE porque, aparentemente, eles nunca foram ao piso -3 do Estádio da Luz. Ali, onde o PIB tem forma de berlina alemã, percebe-se verdadeiramente a distribuição do rendimento: desigual, sim, mas muito fotogénica.

    Enquanto atravessava o parque subterrâneo — esse Olimpo automóvel onde a cilindrada é argumento moral — dei por mim a reconsiderar décadas de análise económica. Não há crise em Portugal. Não há austeridade. Não há salários estagnados. Tudo isso é ficção literária. A realidade estava ali, luzidia: BMWs e Mercedes como quem colecciona cromos, Teslas a brotar como orquídeas de estufa, e até um punhado de Range Rovers, Porsches, Ferraris e Maseratis estacionados com a displicência de quem encosta um Fiat Punto em Santo Amaro. No meio da opulência, encontrei um Smart, encolhido, constrangido, quase a pedir desculpa por existir. O dono, creio eu, deve ser alvo de intervenção psicológica urgente.

    Quando finalmente cheguei ao elevador de serviço — após vencer portas, rampas e um segurança que exigiu mais explicações do que um juiz de instrução — e mordisquei o meu farnel, o jogo ia embalado para o intervalo. Sentei-me e percebi que o futebol português continua a oferecer aquilo que melhor domina: imprevisibilidade organizativa, golos que perco sistematicamente e uma sensação de déjà vu que Freud teria prazer em facturar.

    Na segunda parte, observando um jogo de caca, percebi algo extraordinário: o desfile automóvel tinha sido infinitamente mais emocionante do que o próprio derby. O Benfica dominou mas não convenceu; o Sporting respirou mas não existiu; e Prestianni tratou de acrescentar irritação à noite sendo expulso ao minuto 90, para que os descontos acabassem em sofrimento. Resumindo: um empate tão útil para o Benfica e para o Sporting quanto um saco de moedas de chocolate numa reunião do FMI.

    No fim, embora continue sem perceber a decisão de encerrar a Porta 30, reconheço que, ao cabo e ao resto, ofereceram-me material para reportagem. Fosse outro jogo menos relevante, teria ficado ali, no piso -3, a fazer um levantamento sistemático deste fenómeno sociológico: um país pobre ao ar livre e riquíssimo no subsolo.

    Se na próxima vez me obrigarem a repetir a romaria pelos corredores subterrâneos, farei então o inventário exaustivo daquela fauna mecânica. Quem sabe se não encontrarei um Koenigsegg tímido atrás de um pilar, à espera pacientemente do próximo derby — e de nós, peregrinos ludibriados da Porta 30.

  • Casa Pia 2.2

    Casa Pia 2.2


    Com o Benfica não se faz farinha — porque a farinha, ao menos, quando se amassa, dá pão. O Benfica, por estes dias, dá apenas azia.

    Mas comecemos pela parte mais divertida da epopeia encarnada: o Guinness Book of Records, essa Bíblia dos exageros humanos, recusou sancionar o recorde da primeira volta das eleições para a presidência do Benfica. Razão? Havia 86.297 sócios votantes, o que superaria um sufrágio do Barcelona, mas — pasme-se — não houve eleito.

    Porém, como o povo benfiquista é resiliente, e talvez também algo supersticioso, as águias juntaram-se em bando ainda mais cerrado e, na segunda volta, este sábado, lá bateram o recorde — sem penugem nem hesitação — e tiraram as peneiras aos blaugranas:93.891 sócios a exercer o seu voto. Um mar humano. Ou melhor: um bando de águias em romaria cívica.

    Poderia ter sido 93.892, se este vosso cronista tivesse ido cumprir o seu “dever” cívico. Contudo, abstive-me — não por desinteresse, que o Benfica é coisa séria, mas por prudência moral. Já bastam as bocas ocasionais de que, por escrever nesta modesta varanda, não abordo os muitos temas sensíveis da bola. E agora, se aparecesse de boletim em punho, diriam logo que tentei influenciar as eleições em favor de um candidato — especialmente depois de ter escrito, na última semana, que a holding familiar de Rui Costa é um inferno.

    Assim sendo, preferi não dar azo a rumores. E, convenhamos, a abstenção no desporto também tem a sua poesia: é o direito de quem ama, mas não quer ser cúmplice.

    De qualquer modo, a democracia benfiquista continua a ser um hino à complexidade: eu, com 25 anos de sócio, teria direito a 50 votos — e isto, sim, é uma verdadeira democracia, daquelas em que uns valem por cinquenta e outros por um. No fundo, é o Benfica a antecipar o futuro da política portuguesa. Mas pronto, também não se perdeu muito: Rui Costa venceu Noronha Lopes com larga vantagem, e o único voto que o Guinness perdeu foi o meu.

    Depois deste feito monumental, esperava-se que o Benfica serenasse os nervos e, liberto das tensões eleitorais, mostrasse em campo a mesma força que mostrou nas urnas.

    Afinal, quem é capaz de mobilizar quase cem mil pessoas devia ter potência para mobilizar onze jogadores. Mas não: a equipa, qual símbolo da nação, continua a jogar como quem espera que alguém faça por si o trabalho. Contra o Casa Pia — sim, o Casa Pia, e não o Real Madrid — esperava-se uma exibição tranquila, um banho de bola, um resultado folgado. No ano passado foi 3-0.

    Afinal, o que se viu neste domingo foi mais uma sinfonia de passes inúteis: trocam bolas, recuam, lateralizam, atrasam, contemporizam… Fintar, cruzar com precisão ou rematar à baliza já é pedir um esforço quase revolucionário.

    O primeiro golo até apareceu cedo, por Sudakov, num remate de belo efeito aos 17 minutos — daqueles que enganam o público e fazem sonhar os adeptos com um milagre.

    Foi sol de pouca dura. O Benfica, fiel à sua nova doutrina táctica do tédio, retomou o carrossel de passes para o lado, como se o futebol fosse um concurso de quem adormece o adversário primeiro. Ao intervalo, a plateia já bocejava. Ou, pelo menos, eu. Salvou-se a sandes — que tinha alguma carne de verdade — e a pêra do farnel, que estava rijinha, como deve ser.

    No regresso ao relvado, o destino fez o favor de nos recordar que o Benfica moderno tem um pacto secreto com o infortúnio. O inevitável penálti a favor ainda surgiu — é quase uma cláusula contratual de cada jogo — e Pavlidis não falhou.

    Mas quando se esperava alguma serenidade, eis que António Silva, que parece ter sido abençoado com o dom de complicar o simples, decide oferecer um momento de suspense. Fez das dele, com um penálti discutível — é certo —, mas penálti. Trubin, que anda a jogar o papel de santo padroeiro dos desgraçados, ainda defendeu o castigo. Só que, no Benfica, até as defesas se tornam tragédias: Tomás Araújo, num gesto de solidariedade suicida, resolveu limpar a área, evitando uma recarga, com um pontapé que acabou, certeiro, dentro da própria baliza.

    Foi um autogolo tão sincero que até pareceu ensaiado. O público não sabia se devia rir, chorar ou pedir uma auditoria às leis da física.

    A partir daí, o destino fez o resto: houve um golo (bem) anulado a Leandro Barreiro, para dar um toque de injustiça, e, como manda a tradição desta época, houve golo do adversário nos descontos — porque, no Benfica, o relógio é sempre inimigo.

    Mais um empate caseiro — o terceiro concedido esta época na Luz, depois de Santa Clara e Rio Ave —, mais uma exibição de sonolência, mais uma prova de que esta equipa é previsível até na mediocridade.

    O Benfica transformou-se numa espécie de dramaturgia grega: conhecemos o início, o meio e o fim — e o coro já canta o lamento antes da tragédia acontecer.

    Rui Costa, reeleito com pompa e circunstância, bem podia aproveitar o embalo das urnas e tentar governar também o relvado, porque José Mourinho parece mais preocupado em garantir posse de bola do que golos — e, convenhamos, os adeptos não pagam bilhete para ver passes horizontais.

    Há, todavia, uma beleza estranha nesta desgraça. O Benfica mostra-se o espelho perfeito de Portugal: tem talento, tem história, tem paixão e até recorde no Guinness — mas tropeça sempre nos próprios pés.

    De qualquer forma, eis-me aqui a revelar aquilo que sou: a Da Varanda da Luz mantém-se fiel à sua tradição — crítica, sim, mas com amor. Até ao próximo desaire.

  • Arouca 5.0

    Arouca 5.0


    Há quem diga que a vida é feita de grandes eventos. Que a História avança em sobressaltos, de batalha em revolução, de tratado em catástrofe. Os manuais de filosofia, porém, já nos ensinaram — e com razão — que o essencial raramente se veste de pompa. Assim se explica que, entre guerras no Médio Oriente e na Ucrânia, crises políticas e abalos financeiros, o evento deste fim-de-semana de maior relevância — para a pátria lusa e suas diásporas — seja, sem margem para dúvida metafísica, as eleições do Sport Lisboa e Benfica.

    Rezam as crónicas, e confirmam as estatísticas (que, como Deus, às vezes também jogam pelo Benfica), que se bateu o recorde de votos, e logo mundial, eleições num clube de, ou com, futebol. Acreditemos, porque isto é uma crónica – e não uma notícia. Estaremos assim um feito democrático digno da Ágora ateniense, se a Ágora tivesse ecrãs gigantes, cerveja sem álcool e a habitual romaria de camisolas vermelhas. Ou não tanto, porque aqui a democracia mede-se pela antiguidade: se eu tivesse votado – o que não fiz por preguiça de ir para a quilométrica fila indiana –, teria valido 50 votos, uma vez que este ano perfiz 25 anos de sócio.

    Dir-me-ão que exagero na Ágora ateniense. E eu responderei com a serenidade dos cronistas que observam o mundo do alto da varanda — e da Luz. Quando 83 mil almas atravessam a cidade para sufragar um presidente de clube, é porque a política morreu e a paixão tomou o poder. A polis, no seu estado puro, já não se reúne em parlamento, mas em estádio.

    Em todo o caso, para os adeptos benfiquistas, o evento do dia acabou por ser a inesperada conjugação dos astros: um jogo descansado, com ritmo, uma mão-cheia de gotos e um hat-trick de Pavlidi. A multidão vibrou, os telemóveis filmaram, as redes sociais inflamaram-se. Não foi ainda o 15 a zero sempre pedido pelo Ricardo Araújo Pereira, mas há muito não se viam, tantos golos desta varanda. No fundo, foi a versão moderna do milagre das rosas: o público pediu um golo, e vieram cinco. Não há mística maior.

    Para o árbitro Hélder Carvalho, a relevância do evento foi outra: a existência do VAR, que teve o condão de o livrar do odioso de não marcar dois penáltis em menos de um quarto de hora (aos 5 e aos 18 minutos de jogo) tão claros como a luz que dá nome ao estádio. A tecnologia, que noutros campos ameaça a humanidade, aqui redimiu os seus pecados. O árbitro viu-se absolvido pela máquina. Santo VAR, rogai por vós!

    Já para o meu amigo Lourenço Cazarré, escritor do Rio Grande do Sul, vivente em Brasília e observador da alma humana, a tarde foi de deslumbramento etnográfico. Vindo do Brasil, onde o futebol é religião politeísta, encontrou no Estádio da Luz uma liturgia diferente: menos samba, mais coreografia; menos improviso, mais espetáculo.

    Disse-me ele — ou estarei já a inventar — que o futebol português é o único teatro em que o público paga para sofrer, e agradece quando sofre menos. Lá o levei, pois, entre bifanas, coiratos e cervejas – esta parte é mentira – , a ver a águia Vitória, majestosa, sobrevoar o estádio. E o homem, habituado a pássaros tropicais, emocionou-se: “Isto é civilização, Pedro. Um país que ensina uma águia a cumprir o hino é um país que ainda acredita em símbolos.”

    Enfim, também aqui estou a ficcionar – mas ficaria sempre bem ele ter dito isso. Na verdade, ele viu o jogo na bancada central, um pouco mais abaixo Da Varanda da Luz, para onde levei o seu premiado livro ‘Breve memória de Simeão Boa Morte e Outros Contos Poéticos’, com o qual venceu justamente o Prémio Imprensa Nacional Ferreira de Castro.

    Para mim, confesso, o evento foi especial por simplicidade. Não sou dado a epifanias, mas há momentos em que um cronista, cansado de descrer, reencontra a simplicidade do espanto. Ora, para este jogo, cheguei cedo — anormalmente cedo, que é como quem diz sem o habitual atraso filosófico — e consegui assistir àquilo que há muito me escapava: o voo completo da Vitória. Um círculo perfeito sobre o estádio, o bater lento das asas, o mergulho gracioso até ao emblema. Nenhum drone, por mais caro, conseguiria tamanha elegância.

    Depois veio o espectáculo de luzes — porque até os deuses modernos precisam de LEDs —, e finalmente, pasme-se, vi todos os golos. Nenhum à distância, nenhum repetido em ecrã. Todos ali, em carne, relva e suor. Acontecimento raro, e portanto memorável – basta confirmar nas minhas múltiplas crónicas mais recentes.

    Mas a relevância dos eventos, aprendi, não se mede pela sua magnitude exterior. Mede-se pela coincidência feliz entre o tempo, o olhar e a alma. Um jogo de futebol pode ser banal para quem apenas lê o resultado – e este foi –, mas para quem o viveu, pode ser a pequena eternidade de um sábado à noite. Enquanto a multidão gritava, eu pensei no filósofo Heraclito: “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio.” Pois também ninguém vê duas vezes o mesmo jogo, ainda mais um 5-0 — nem mesmo quando o adversário é o Arouca.

    E contudo, há em tudo isto uma moral discreta, que se impõe ao cronista com a força da evidência: a vida é uma sucessão de eventos de que só percebemos a importância quando já passaram. Assim como a águia que voa e volta ao seu posto, também nós giramos em torno dos nossos rituais, convencidos de que controlamos o tempo, quando apenas o acompanhamos.

    Enfim, a relevância de um evento não está na sua escala, mas no seu significado. Para uns, um jogo; para outros, uma eleição; para mim, a certeza de que, por uma vez, nada falhou — nem o VAR, nem a águia, nem o relógio. Vi tudo os golos de uma vitória – e isso basta-me.

    E, se querem que vos diga, talvez seja essa a suprema ironia da vida moderna: precisamos de um estádio cheio para perceber que o que realmente importa é chegar a horas. Chegar a tempo de ver a águia voar, o primeiro golo entrar, e o amigo Cazarré satisfeito. Tudo o resto — as eleições, os recordes, os comunicados — são apenas VARs existenciais: correcções tardias de decisões já tomadas.

    Moral da história: a relevância de um evento não depende do mundo o reconhecer, mas de nós o termos vivido antes que passasse o prolongamento. E, já agora, se puder ser com cinco golos e sem penáltis por marcar, tanto melhor.

    Ou, de forma mais prosaica, talvez seja essa a verdadeira lição deste Da Varanda da Luz, onde cada vez se fala menos de futebol: que a felicidade raramente se programa, apenas acontece — no instante exacto em que o cronista levanta o olhar e percebe que, por uma vez, o mundo inteiro está em ordem: a bola entra, a águia pousa, o estádio vibra, e a crónica escreve-se (quase) sozinha.

  • Gil Vicente 2.1

    Gil Vicente 2.1


    Há quem me acuse, e com razão, de sofrer de um problema crónico de pontualidade. Admito-o sem resistência, embora com um pequeno pedido de contexto: eu, que tantas vezes chego tarde, nunca falho uma promessa. Se digo que vou, vou. E é aí que nasce o meu outro problema — o da assiduidade. Porque, sendo pontualmente atrasado, sou assiduamente presente. E, assim, como uma pescadinha de rabo na boca, lá vou eu: presente mas atrasado, assíduo mas em cima do apito. Só que, ultimamente, nem isso. A minha pontualidade, já de si vacilante, entrou em colapso existencial.

    A verdade é que, nesta época, o atraso ganhou corpo, fôlego e até uma certa dimensão metafísica. Tenho chegado tão tarde que já nunca assisto ao ritual aéreo da Glória — ou da Vitória, ou da Luz, já me baralho entre as águias — nem tão-pouco me cruzo com uma delas no elevador, como acontecia noutros tempos em que o atraso era ainda um luxo de minutos. Agora, é uma eternidade.

    Entre o excesso de trabalho, o excesso de jogos e a crónica pressa de quem quer fazer tudo e acaba por fazer quase nada a tempo, os meus atrasos tornaram-se sistemáticos. E esta época já são mais os golos do Benfica que perdi do que os que vi, sobretudo porque até tem havido golos iniciais, e depois minga tudo. Um número triste, quase estatístico.

    O caso mais doloroso foi, talvez, o jogo com o Qarabag. Um desastre desportivo – e para mim muito pior: não vi um único golo do Benfica. Quando finalmente subi as escadas e alcancei a bancada — aos 15 minutos —, já o marcador registava 2-0 a favor do Benfica. Depois, foi o que se viu — e eu vi. Um duplo (ou triplo) murro no estômago. Não há timing que resista a isto.

    Desde então, parece que o destino decidiu ensinar-me que, quanto mais corro para chegar a tempo, mais o tempo foge. Porque, desde essa partida, o que tenho visto é só desgraça, mesmo com o José Mourinho, mostrando que até eu arriscaria a não fazer pior.

    E assim sucedeu mais um atraso com o jogo do Gil Vicente – e mais uma desgraça, apesar da sorte de um resultado de 2-1 a favor do Benfica, muito lisonjeiro face ao desempenho. Tinha regressado do Porto na tarde anterior, exausto, depois de um julgamento tão bizarro que só a tragicomédia portuguesa o poderia engendrar. Ainda tive de passar por um concerto – menos mau, ou muitíssimo bom, para ser sincero.

    Esta sexta-feira, o corpo pedia repouso, a mente clamava por pausa, mas a agenda — essa entidade diabólica — já tinha decidido por mim. Enfim, os dias atropelam-se, as horas evaporam-se e o relógio parece conspirar. Há um momento, aliás, em que dou por mim a pensar — com um certo temor — que o trabalho mata. Mata o descanso, mata o tempo livre e, sobretudo, mata a capacidade de chegar antes do minuto quinze.

    Mas a pior parte nem foi essa. Ao chegar ao estádio, com mais de meia hora decorrida da primeira parte, e o resultado (sem eu o saber então) já feito (o Gil Vicente adiantou-se aos 11 minutos e o PAVlidis deu a reviravolta aos 18 e 26 minutos), soube que uma agência de comunicação — a JLMA — me boicotara uma cacha sobre a Impresa. Uma irritação monumental. O corpo cansado, a cabeça a latejar, o jogo correr e, ainda assim, havia notícia.

    Respirei fundo e decidi: havia matéria para se escrever — e nãopodia ficar para a amanhã. Afinal, a Impresa tinha de comunicar à CMVM as negociações com os italianos da MFE — os herdeiros de Berlusconi, antigo dono do AC Milan — por se tratar de informação privilegiada.

    Entre o som do público e o rumor de fundo das teclas, falei com a Elisabete e lá fomos redigindo o artigo, a meias — eu sentado na Varanda da Luz, com o portátil perto do famoso farnel do Benfica, metendo de vez em quando um olho no relvado, outro no ecrã, e um terceiro (imaginário) no relógio.

    E foram nesses instantes, no meio desta fusão absurda entre futebol jogado pessimamente, jornalismo e cansaço, que me veio à mente uma das frases mais sombrias da História da Humanidade: Arbeit macht frei — “O trabalho liberta.”

    A expressão, hoje impregnada de horror, nasceu num contexto muitíssimo menos macabro do que aquele que a imortalizou. Surgiu na Alemanha do século XIX, num tempo em que o trabalho começava a ser exaltado como instrumento de regeneração moral e de ascensão social.

    O lema foi popularizado pelo escritor Lorenz Diefenbach, num romance publicado em 1873, intitulado precisamente Arbeit macht frei: Erzählung von Lorenz Diefenbach. Nele, o autor apresentava o labor como antídoto contra o vício e a degradação, um caminho para a virtude — a ideia de que o esforço dignifica e redime. Adoptada por movimentos culturais e associações laborais, a expressão ganhou o estatuto de máxima edificante: uma versão germânica do “pelo trabalho se vence”.

    Foi, no entanto, essa mesma frase, esvaziada do seu sentido moral e apropriada pelo nazismo, que viria a adornar os portões de Auschwitz, Dachau e outros campos de concentração. Aí, transformou-se na mais cruel das ironias: aquilo que prometia dignidade passou a anunciar aniquilação. O trabalho já não libertava o espírito — esmagava o corpo; já não regenerava — exterminava. Tornou-se símbolo da perversão total da linguagem, prova de que até as palavras podem ser escravizadas.

    Essa metamorfose semântica — da virtude à infâmia — mostra como as palavras têm destino, e como um ideal moral pode ser capturado e deturpado por uma ideologia que faz da mentira o seu alicerce.

    Enfim, ali sentado na bancada, de portátil aberto e olhos divididos entre o relvado e a notícia sobre a Impresa, dei por mim — perante as contingências de mais um jogo deplorável, mesmo com Herr Mourinho nas redes — a cometer uma pequena heresia semântica: a paráfrase. Sim, arrisco dizê-lo — e que me perdoem os deuses da semântica e da História —, o trabalho liberta.

    Mas liberta-nos de quê? No meu caso, libertou-me de ver um jogo confrangedor. Libertou-me da angústia dos passes errados, dos cruzamentos para o nada, dos remates à figura e das expressões perdidas de quem já não sabe o que fazer à bola. Aliás, nem sequer vi em directo o jogo anulado ao Gil Vicente por seis centímetros – uma dimensão completamente obtusa como escrevi em tempos.

    Portanto, o trabalho libertou-me… de sofrer mais do que o necessário. Se não estivesse a escrever sobre a Impresa, teria sido tortura em directo. E assim, decidi que esta época vou passar a levar sempre um tema noticioso para a Varanda da Luz — um colete de salvação emocional. Se o Benfica tropeçar em campo, eu refugio-me no texto e poupo-me à agonia. Será a minha nova estratégia defensiva — mais eficaz do que qualquer lateral esquerdo improvisado.

    E se algum dia conseguir convencer os benfiquistas a seguir este método, trabalhando para se anestesiarem do que se passa no relvado, acredito que o PIB nacional vai subir em flecha, invertendo o mito de que a Economia portuguesa se expande quando o Benfica é campeão.

  • Rio Ave 1.1

    Rio Ave 1.1


    Há uma diferença subtil mas devastadora entre o desencanto e a desilusão. O desencanto é um abatimento da alma, uma espécie de resignação melancólica perante aquilo que já sabíamos, no íntimo, não poder ser muito diferente – é o fumo que se dissipa depois da chama, sem surpresa.

    A desilusão, pelo contrário, é mais cruel: exige que antes tenha havido uma ilusão, uma crença, uma esperança pintada com as cores da vitória, um engano a que nos entregámos de boa vontade. A desilusão é, pois, um duplo golpe: não só perdemos o que desejávamos, como ainda descobrimos que fomos ingénuos ao acreditar.

    No futebol, como na vida, raramente temos o luxo de escolher entre um e outro. Mas se pudesse escolher, preferiria o desencanto, porque é menos corrosivo: dói, mas não humilha. A desilusão, essa sim, traz consigo a vergonha íntima de termos acreditado demasiado cedo, de termos caído na armadilha do entusiasmo. E o Benfica, por estes dias, parece especializado em fabricar ilusões com validade curtíssima — como aquelas promoções de supermercado que enchem o saco por instantes e, quando chegamos a casa, percebemos que o que levámos não serve para a refeição que queríamos cozinhar.

    Foi mais ou menos isso o que se passou com a entrada de José Mourinho. À saída de Bruno Lage, a alma benfiquista respirou como quem larga um fardo. E ao ver chegar Mourinho, mesmo já sem a aura de ‘Special One’, ainda se acendeu a ilusão de que os pergaminhos de glórias passadas poderiam obrar uma reviravolta numa equipa de milhões. Acreditou-se — ou melhor, iludiu-se — que o nome por si só poderia impor disciplina, intensidade e génio, como se a simples presença fosse suficiente para pôr os jogadores a correr e a pensar como outrora.

    A vitória por 3-0 na Vila das Aves, contra o AVS, ainda que com mais eficácia do que futebol, funcionou como tónico ilusório. Afinal, as chicotadas psicológicas pareciam existir mesmo. Quem não se deixou embalar pela doce narrativa de que o problema estava resolvido, que o feitiço Mourinho começava a operar, que em breve voltaríamos a ver uma equipa competitiva? Pois bem: pura ilusão. E como toda a ilusão, cedo ou tarde, veio a fatura: a desilusão.

    Esta terça-feira esperava-se fogo, intensidade, soluções. Mas o que se viu foi cinza: novamente, uma equipa sem chama, repetindo erros, sem clareza de ideias. Os adeptos, mesmo na sua ingenuidade, foram mantendo-se iludidos. Eu incluído. “Ainda vem aí o raspanete ao intervalo”, pensei, como se Mourinho fosse capaz, em dez ou quinze minutos de palavras, de converter o chumbo em ouro.

    Nada disso. Mesma lógica, mesmo arrastamento, até que um golo fortuito pareceu cair do céu. Mas a suspeita do VAR, como um dedo que puxa a manta e revela a nudez da realidade, devolveu-nos à verdade.

    Quando Sudakov marcou aos 87 minutos, in extremis, já não se tratava de ilusão, mas de sobrevivência: uma réstia de esperança sustentada mais pelo hábito de acreditar do que pela convicção no que se via em campo.

    E eis que vieram os sete minutos de descontos, o momento em que se podia sonhar com o Benfica de outros tempos, o que sabia transformar a ansiedade em triunfo. Mas também aí o real se impôs: como contra o Santa Clara, um contra-ataque fatal e o empate do Rio Ave, uma equipa de tostões a arrancar aos milhões encarnados a prova irrefutável de que, afinal, não era desencanto o que se instalava, mas a desilusão em toda a sua crueza.

    Desencanto seria, enfim, nada esperar e, por isso, não sofrer nada. Desencanto seria ver o Benfica empatar e pensar: “Era previsível, é esta a nossa medida, já nem espero melhor.” Mas o que houve foi mais doloroso: houve um acreditar prévio, uma ilusão cultivada pela vitória anterior, pelo nome do treinador, pela aura ainda reluzente das memórias passadas. Houve um entregar-se ao engano. E por isso o golpe dói mais: não é apenas a perda de dois pontos, é a consciência de que fui cúmplice do autoengano.

    E aqui percebo claramente a diferença entre viver no desencanto e viver da desilusão. O desencanto é um estado quase filosófico, de aceitação amarga, mas serena.

    A desilusão é um lamento jocoso: rimo-nos da nossa ingenuidade, mas por dentro ficamos a sangrar. E o Benfica desta época não nos deixa viver no desencanto, o que seria até suportável — insiste em nos iludir primeiro, para depois nos desiludir com maior estrondo.

    A moral da história é que, no futebol como na vida, é preciso aprender a desconfiar das ilusões fáceis. Mourinho não é mais o ‘Special One’, e receio que não será em semanas que transformará uma equipa instável numa máquina de vencer. Talvez traga ordem, talvez traga resultados, mas não trará milagres. E cada vez que acreditarmos em milagres, pagaremos com a moeda da desilusão.

  • Santa Clara 1.1

    Santa Clara 1.1


    Cheguei atrasado mais uma vez, confesso. Não foi, como alguns poderiam suspeitar, por desleixo, mas antes por uma espécie de cálculo tácito: há jogos para os quais se vai com espírito de peregrinação, há jogos que exigem pontualidade de relógio suíço, há jogos em que se chega cedo para beber o ambiente, como se o estádio fosse templo e o aquecimento liturgia. E depois há estes jogos, os burocráticos, que mais parecem formulários do campeonato: é preciso preenchê-los, carimbar e entregar, mas sem alma.

    Este Benfica-Santa Clara, empurrado no calendário para uma sexta-feira pela avidez das competições europeias, tinha precisamente esse ar de expediente, de nota de rodapé. Entrei, portanto, tarde e resignado, sem a vertigem das noites grandes, convencido de que seriam noventa minutos mornos, um resultado previsível, apenas a decidir a margem da vitória.

    E o jogo, generoso na sua mediania, confirmou as expectativas. O Benfica rodava a bola como quem lava-loiça ao fim do jantar: movimentos repetidos, gestos mecânicos, nenhum prazer. O Santa Clara, obediente até à caricatura, defendia-se com disciplina açoriana, fechado como quem enfrenta um temporal no canal da ilha. Uns ossos de jogada aqui, uma tentativa ali, mas sem chama.

    Parecia um treino puxado, desses em que os músculos sofrem mais do que o coração vibra. Até que, no meio da pasmaceira, um gesto desastrado trouxe a primeira variação: o lateral esquerdo do Santa Clara, Paulo Victor, tão certinho na postura, acertou certeiro na cara de Tomás Araújo. Amarelo, revisão do VAR, cartão vermelho, onze contra dez.

    A monotonia parecia abrir-se para a lógica inevitável: mais de uma hora para transformar a superioridade numérica em golo. A Luz suspirou, convencida de que a vitória estava sendo inscrita nas estrelas, mas afinal estava apenas rabiscada no acaso.

    Mas o futebol, esse grande mestre de ironias, não se deixa domesticar por estatísticas nem por aritméticas simplórias. Chegou o intervalo e nada. E a segunda parte prolongou a mesma ladainha: passes falhados, cruzamentos sem nexo, remates desinspirados, circulação de bola digna de um colóquio sobre burocracia.

    O Santa Clara, em inferioridade, parecia até mais inteiro do que antes, como se o vermelho o tivesse purificado. Só num canto o destino se dignou aparecer: Otamendi, num rasgo de autoridade, cabeceou com violência; o guarda-redes defendeu para a frente; Pavlidis, carniceiro de área, empurrou para dentro. A Luz respirou, aliviada. A ordem natural parecia restaurada.

    Só que, como sempre, a ordem natural do Benfica é o caos. Vieram minutos de posse inócua, de ataques em piloto automático, de remates que não lembram a ninguém. A sensação era a de que o jogo caminhava para a vitória magra, daquelas que envergonham pouco sem inspiram ninguém.

    E foi então que se cumpriu a lição amarga. Noventa minutos no relógio, mais quatro de compensação, e muitos já a levantar-se para fugir ao trânsito e regressar às suas vidas. É nesse instante de confiança, nesse segundo de abandono, que o futebol escolhe cravar a sua punhalada.

    Numa bola para a frente, Otamendi, em vez de pontapear a bola para onde calhasse, decidiu ser artista: quis recuar de cabeça para Trubin, gesto de elegância que o destino tratou de ridicularizar. Falhou o cálculo, ofereceu o presente, e um avançado do Santa Clara, do qual não quero aqui perpetuar o nome – e com a frieza de quem sabe que é nos instantes roubados que se fazem as grandes memórias – empatou.

    Um a um. Silêncio. Um estádio gelado, reduzido a murmúrios. E depois a aumentar em assobios quando o árbitro deu o apito final. Um banho de água fria que nos lembra que a confiança, quando excessiva, é arrogância. O colapso da certeza é sempre repentino.

    Há quem insista que isto é apenas futebol. Mas basta estar na Luz, nesse instante, para perceber que não é. Quando estas fífias surgem não se sente apenas a perda de dois pontos – é um reencontro com a fragilidade, com a precariedade das coisas humanas. É a pedagogia cruel de certos jogos do Benfica que mostra que nada é inevitável, que o destino não se cumpre por decreto, que até a superioridade numérica é apenas uma ilusão.

    No fundo, um golo contra o Benfica nos momentos finais, aqui na Luz, nunca e apenas azar, mas também aselhice. . E, nestes momentos, resta-nos a amarga resignação.

    número três t

  • Tondela 3.0

    Tondela 3.0


    O número três tem uma carga simbólica difícil de ignorar. Não por ser o primeiro número que nos faz sentir a repetição, mas sim por prenunciar uma eventual permanência: depois do um que se arrisca, e do dois que confirma, chega o três que sela, consagra e promete duração. Há quem veja nele a perfeição — Pai, Filho e Espírito Santo; passado, presente e futuro; início, meio e fim. Mas também há quem perceba no três o perigo da rotina, o prenúncio de que uma ideia que começou fresca corre o risco de ficar viciada. E é nesse dilema que se encontra este Da Varanda da Luz, agora a entrar na sua terceira temporada.

    As más-línguas já disseram tudo e o contrário de tudo: que um jornalista que se apresenta como independente e rigoroso não deve entregar-se a crónicas futebolísticas, caseiras e subjectivas; que um fervoroso sócio do Benfica não pode sentar-se numa varanda e, de lá, fazer o papel de cronista; que isto é como confundir o relato íntimo de um jantar em família com o relatório de contas da EDP.

    Talvez tenham razão, talvez não. O certo é que a varanda, com as suas vistas imperfeitas e o coração a bater pelo vermelho, se tornou, para mim, lugar de reflexão e catarse, e já não é só minha: quem lê acompanha-me nesta liturgia quase quinzenal, entre nervos, vitórias suadas e derrotas que doem como punhais.

    Mas há um problema que este número três já carrega consigo, e não é pequeno: se há terceira temporada, tem desta vez que haver caneco. A matemática é cruel. O futebol vive da fome insaciável de conquistas. Um ano sem título para o Benfica é tropeço; dois anos sem título é drama; três anos sem título começa a ser vergonha. E assim, o número que devia trazer perfeição ameaça instalar o ridículo. Não porque esta crónica seja caseira e subjectiva — isso até pode ser um charme, uma espécie de antídoto contra a pompa vazia da crónica oficializada —, mas porque a sucessão de épocas sem festa no Marquês transforma qualquer escrita de um benfiquista numa ladainha de desculpas, revoltas e esperanças adiadas.

    O ridículo, afinal, não mora tanto na varanda, mas na equipa. E como separar o cronista do seu objecto? Se a terceira temporada chegar sem campeonato, quem escreve arrisca-se a ser cúmplice de um fado menor, cronista de um vazio, padre de uma missa sem fiéis. É a sina de quem mistura paixão e profissão, casa e ofício. Talvez o mais independente dos jornalistas seja aquele que, ao assumir a sua subjectividade, se entrega sem máscaras, sem as frases feitas da imparcialidade de fachada. Talvez haja mais rigor em declarar a parcialidade do que em escondê-la debaixo de um casaco de cinismo.

    Em todo o caso, esta não é a minha estreia esta época. Já aqui estive há duas semanas, a limpar o Nice — e foi uma beleza: daqueles jogos em que tudo parece fácil, em que a equipa acerta passes de olhos fechados e a superioridade se sente como uma evidência. Tive a sorte de ter o Tiago Franco a escrever à distância. Enfim, para começar, não foi mau: uma vitória limpa, fresca, sem nódoas, daquelas que fazem acreditar que o ano vai correr direito. Veremos, na próxima terça-feira, se vamos mesmo apear o Fenerbahçe do José Mourinho. Mas isso são contas para outro rosário, e a missa será rezada na devida altura.

    Como qualquer benfiquista que se preze, começamos sempre um campeonato com alguma aflição. Não como no ano passado ou há dois anos, em que entrámos sempre com o pé esquerdo, mas o jogo contra o Estrela da Amadora, na semana passada, não convenceu ninguém. Foi vitória, é certo, mas com exibição deslavada, sem nervo, como se a equipa tivesse decidido entrar em campo de pantufas.

    Contra o Tondela, temos meia equipa diferente do ano passado — e não sei ainda se é para melhor. Financeiramente, acredito, é bom para os empresários. Em todo o caso, o Ivanovic parece que vai fazer uma boa parelha com o Pavlidis; Richard Ríos trouxe intensidade, mas parece-me que terá dias; o novo Enzo (depois do Pérez e do Fernández) tem alma; e os laterais, Dedić (sobretudo este) e Rafael Obrador, acrescentam opções. Mas, ironicamente, continuo a achar que a melhor aquisição é um jogador que já cá estava: Aursnes, que a cada época me parece (ainda) melhor, mais completo, ainda mais polivalente, mostrando que até a extremo-direito joga excepcionalmente bem, como se fosse crescendo com o próprio peso da camisola.

    Enfim, mas devia estar a falar em concreto do jogo contra o Tondela. E aí, confesso, foi daqueles serões que mais parecem um chá morno ao fim do dia. Uma noite de sábado calma, sem sobressalto algum, a aguardar os golitos, uns bocejos a preencher o intervalo, e uma crónica escrita quase em piloto automático. Nada a apontar de grave, nada a exaltar de épico. Apenas o ofício de ganhar, que também faz falta, mas que não chega para incendiar a alma.

    E, nem de propósito, e para fechar a crónica como começou, o miúdo Prestianni — o único jogador do Benfica que está à minha altura, com os seus 1,66 metros — selou a vitória com o terceiro golo, já nos descontos. Bom presságio.

  • Uma pré-época agradável

    Uma pré-época agradável


    Longe vão os tempos em que uma pré-época me entusiasmava. A idade, as desilusões, os erros das administrações benfiquistas e os arranjos do futebol português já me ensinaram que, por norma, a qualidade dos reforços não define o sucesso de uma época — pelo menos dentro de portas. Ainda assim, devo assumir que esta pré-época me tem feito virar um pouco a cabeça e prestar alguma atenção.

    Desde logo, pela qualidade dos adversários nos jogos de aquecimento. Em vez dos habituais Étoile Carouge, Servette e uma equipa qualquer da segunda divisão austríaca, desta vez o manto sagrado foi até à Flórida para não perder com o Boca Juniors ou o Bayern de Munique; seguiu-se o Fenerbahçe de Mourinho, o poderoso Sporting com Fábio Veríssimo e o Nice, quarto classificado da liga francesa, vezes dois.

    Quatro vitórias seguidas sem que Trubin sujasse o fato ou Bruno Lage tentasse inventar a roda fizeram-me, de facto, parar com a lida do jardim para abrir algo fresco e olhar para a televisão.

    Há, desde logo, um evidente acerto nas contratações a que já não estava habituado. Em vez de Tengsted ou Jurásek, a direcção optou por comprar jogadores de futebol — o que, tratando-se de uma equipa profissional do referido desporto, é uma tremenda ajuda.

    Rapaziada que chega, entra em campo e joga sem entraves. Não precisam de tempo de adaptação, não são influenciados pelo clima, adeptos, tipo de bola ou altura da relva. Ou, como diria o meu avô, quem toca cavaquinho toca tudo o que tenha cordas.

    Não há nada melhor para o clássico “abre-olhos” do que um ano eleitoral. Na minha ilha também funciona assim. Por norma, vem um rapaz com uma sanfona tocar umas coisas nas festas mas, como em Outubro há autárquicas, este ano vem a Deslandes. Com o Rui Costa é igual: em vez de Meïtés ou aleijados do PSG, resolveu ir arranjar outro Enzo argentino. Não é possível falhar com Enzos argentinos.

    Ríos, Barrenechea e Dedić pegaram de estaca. Saíram na Portela com as botas calçadas e não precisaram de muito para mostrarem ao que vinham. Ivanovic, não sendo o prodígio que parece pensar ser, é uma excelente muleta para o sublime Pavlidis, e Bruno Lage, finalmente, resolveu voltar ao 4-4-2 de boa memória.

    Sem João Félix, que decidiu pendurar as botas, Lage vai tentar recriar a dupla Jonas/Félix com Pavlidis e Ivanovic, usando apenas um extremo, já que a outra ala estará entregue ao faz-tudo norueguês. A única forma de não se criticar Lage por armar um 4-4-2 sem dois extremos puros é todos perceberem que Fredrik Aursnes é o jogador mais importante do plantel e tem de jogar, nem que seja à baliza.

    Os jogos com o Nice não tiveram grande história e, ao olho mais treinado, poderá parecer que o Benfica disputou a eliminatória com uma equipa banal. Mas não. O Nice tem uma excelente equipa, talhada para o contra-ataque e com uma defesa robusta. O Benfica foi surpreendentemente superior e controlador para esta fase da temporada, e praticamente sem paragem para férias. Até os níveis físicos foram estranhamente bons.

    Segue-se o Fenerbahçe de Mourinho e a venda de Akturkoglu, na caminhada para a fase regular da Champions, o habitat natural de uma equipa como o Benfica (ou o Porto). Veremos o que Agosto trará e levará nas habituais corridas do mercado.

    Pessoalmente, ficaria satisfeito se evitassem disparates de última hora, como a venda de Pavlidis e, já agora, a compra de um extremo que não vá até à linha para passar a bola para trás.

    Ah, e outra nota importante: agora que comprar por 20 ou 30 milhões passou a ser ‘uma terça-feira de trabalho’ na Luz, espero que alguém esteja a fazer contas. Não queremos mais empréstimos obrigacionistas, vendas como a do João Neves e, muito menos, intervenções da UEFA quando estivermos com as calças na mão.

    Venha de lá o Estrela da Amadora para voltarmos à realidade e aos jogos com 45 minutos de tempo útil.

    Fotos de Pedro Almeida Vieira (preguiçosamente no estádio, depois de ter perdido quase meio jogo…)