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  • Como Soares e os militares escolheram Ramalho Eanes

    Como Soares e os militares escolheram Ramalho Eanes


    As primeiras eleições Presidenciais em democracia irão cumprir 50 anos em Junho do próximo ano, tendo resultado na eleição do general Ramalho Eanes como o primeiro Presidente da República após o 25 de Abril de 1974. Agora que estamos na iminência de voltar a ter um militar em Belém, convém lembrar como se deu a escolha de Eanes pelos militares e políticos de então.

    Para tal, servimo-nos de fontes públicas relacionadas com alguns dos principais protagonistas. Comecemos com o líder do PS, Mário Soares, que nas entrevistas a Maria João Avillez contou como tratou o assunto durante um almoço com Melo Antunes, Vítor Alves e Vasco Lourenço, no Hotel Rex, – que ainda hoje existe na Rua Castilho. É uma informação que podemos encontrar página 24 do livro “Democracia”, edição Círculo de Leitores, 1996.

    António Ramalho Eanes. / Foto: Presidência da República

    Os convivas do almoço falaram sobre a questão presidencial e, apesar do nome de Soares até ser uma opção, ainda assim o então líder socialista achava que “o País ainda não estava pacificado; as instituições eram débeis; o Partido Comunista – e os seus aliados, civis e militares – detinham ainda um poder forte”.

    Para Soares, não havia dúvidas: o Presidente da República tinha de ser um militar. Quem? Sobre isso, Soares não quis indicar um candidato específico, mas permitiu-se a mencionar aos militares os nomes que o PS estaria disposto a aceitar como os “possíveis”: Costa Brás, Firmino Miguel, Pires Veloso e Ramalho Eanes.

    Soares não diz – nem a jornalista perguntou (ou se perguntou, depois não o escreveu na entrevista) – em que dia terá sido esse encontro. Mas podemos sempre inferir que foi após as primeiras eleições gerais, a 25 de Abril de 1976, aquelas que o PS venceu, embora sem maioria absoluta. E o que nos permite pensar nisso? Por causa daquilo que Soares afirmou a Maria João Avillez quando justificou o primeiro nome, Costa Brás, que era então ministro da Administração Interna e “responsável pelo êxito logístico da realização das primeiras eleições livres”. Portanto, o nome de Costa Brás estava em alta na “bolsa” política após essas eleições.

    Soares disse sobre Firmino Miguel, ministro da Defesa no II Governo Constitucional, que era um militar “com o qual o PS se entendera sempre bem” e, quanto a Pires Veloso, Comandante da Região Militar do Norte, apoiava-o por ser “o nosso principal aliado no Norte, nas lutas contra a ameaça comunista”. Finalmente, Eanes, porque alcançara o seu estatuto público como o militar do 25 de Novembro de 1975 e era então Chefe de Estado-Maior do Exército.

    O que se seguiu após deste almoço pode ser depreendido ao lermos o livro-entrevista de Vasco Lourenço a Maria Manuela Cruzeiro – “Do Interior da Revolução”, Âncora Editora, 2009. Contou o actual presidente da Associação 25 de Abril, na página 483, que não tinha uma opinião positiva em relação a Pires Veloso: “Depois do 25 de Novembro, em que ele se inseriu perfeitamente no Grupo dos Nove, considero que se ligou a forças pouco democráticas, por mais que apregoassem o contrário, enveredando por procedimentos, no Norte do País, francamente reaccionários e anti-25 de Abril”, afirmou.

    É então, na sequência desta crítica a Pires Veloso, que, sem que Maria Manuela Cruzeiro tivesse necessidade de mencionar a entrevista de Maria João Avillez a Soares, Vasco Lourenço contou um “episódio interessante” sobre Pires Veloso. E que episódio era esse? Precisamente como se escolheu o militar que deveria ser candidato a Presidente da República em 1976.

    Conta Vasco Lourenço que, em data não mencionada, teve um encontro, no Forte de S. Julião da Barra, com mais oito membros do Conselho da Revolução, militares do Exército, mandatados para encontrar um candidato a Presidente da República, já que o então Presidente, Costa Gomes, não desejava continuar no cargo que lhe tinha sido entregue após a demissão de Spínola, no 28 de Setembro de 1974 – uma data quase esquecida, essa, a da “Maioria Silenciosa”.

    Relata Vasco Lourenço que, “após alguma discussão, onde não se vislumbrava uma solução”, Pires Veloso deu “um passo em frente” e disponibilizou-se para “se sacrificar”. Vasco Lourenço, que achava Pires Veloso “um homem de mão” do líder do então PPD, Sá Carneiro, sorriu e disse que não era necessário esse “sacrifício”. Votaram então, de braço no ar, em duas hipóteses: Costa Brás ou Ramalho Eanes. Este último, igualmente presente nesse encontro, foi escolhido com sete votos a favor e dois contra. Os votos contra tinham sido de Vasco Lourenço, que queria manter Eanes à frente do Exército, e o outro fora do próprio Eanes.

    Mas Pires Veloso tem uma outra memória de como decorreu a discussão que levou àquela votação. Contou ele na sua autobiografia “Vice-Rei do Norte – Memórias e Revelações”, Âncora, 2008, (pág. 431), que o seu nome na lista de preferência de Mário Soares até era o segundo, atrás de Firmino Miguel e antes de Costa Brás. Eanes era o último da lista. Recorda o Vice-Rei do Norte que foi chamado, com um dia de antecedência, para uma reunião em São Julião da Barra, só com conselheiros do Exército.

    “Quanto perguntei o motivo dessa reunião, foi-me dito que ia ser escolhido quem devia ser o próximo Presidente da República das Forças Armadas, tendo eu exclamado: ‘Que democracia é esta?’ Ninguém me informou de que esta reunião havia sido convocada para dar resposta à proposta do Partido Socialista”, escreveu na sua autobiografia.

    O então Presidente da República e a família no Jardim da Cascata, no Palácio de Belém (c. 1978). / Foto: Presidência da República

    De acordo ainda com as palavras de Pires Veloso, a reunião teve início “com o Melo Antunes a dizer que se tornava necessário escolher o Presidente da República e que, no seu entender, devia usar óculos escuros, ser magro, ter patilhas compridas, ser sério, gostar muito do camuflado”.

    O Vice-Rei do Norte não estava para meias palavras, interrompeu o conselheiro e atirou: “Ó Melo Antunes, diga que o Presidente da República tem de ser o Eanes!” Mas essa tirada não impediu Melo Antunes de prosseguir como se nada tivesse passado, “a bater sempre na mesma tecla, com ares de dominador”, descreveu na sua obra.

    Por volta do meio-dia, Pires Veloso disse que tinha de sair e a reunião foi interrompida. Conta que, à saída, Eanes o abordou dizendo que estavam todos “na mesma barca” e que “um de nós tem de se lixar”, ao que o conselheiro respondeu: “Lixe-se o senhor!”, e foi à sua vida, pois tinha de estar em Cascais às 13h00. A reunião retomou da parte da tarde, com Pires Veloso a recordar o momento como “uma farsa, onde o Melo Antunes ia ditar a sua sentença, não lhe prestei grande atenção, nem me preocupei minimamente com o resultado da votação”.

    Ernesto Melo Antunes, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, fotografado num evento oficial em 1975. Ramalho Eanes afirmou que o ideólogo do Movimento das Forças Armadas de 1974 é “pai da democracia”. / Foto: D.R. 

    Em jeito de conclusão sobre este momento decisivo na escolha do futuro chefe de Estado de Portugal, Pires Veloso ainda acrescentou na autobiografia que “eu também devo ter votado no Eanes, mas nessa altura ainda acreditava nele”, tendo ficado guardado na memória a capacidade de Melo Antunes em “dominar as pessoas, nas reuniões e assembleias”.

    Mas a história não acabou aqui. O que se seguiu é ainda mais revelador dos bastidores políticos na escolha do primeiro candidato vencedor à Presidência da República. Apesar de Vasco Lourenço não mencionar a data da reunião em S. Julião da Barra, o mais certo é esta ter acontecido na noite de terça-feira, 27 de Abril de 1976, pois o que se seguiu está publicado nos jornais da época, embora sem os detalhes que saíram das entrevistas separadas no tempo a Mário Soares e Vasco Lourenço.

    Ainda na voz de Vasco Lourenço, e segundo a sua versão depois da reunião em S. Julião da Barra, Pires Veloso “foi para Cascais, para uma estalagem de um familiar do Tomás Rosa onde estavam reunidos alguns dos militares da Força Aérea. Chegou e informou do que se passara. De imediato telefonaram a alguém do PPD, penso que ao Marcelo Rebelo de Sousa – linda peça! – que contactou o Sá Carneiro”. Pires Veloso, por sua vez, na autobiografia, nunca deu qualquer explicação do que fez nessa noite após a reunião.

    O major-general António Pires Veloso foi uma figura central no 25 de Novembro de 1975.
    / Foto: Arquivos RTP

    Explicou ainda Vasco Lourenço que o líder do PPD foi a correr, de manhã cedo, para a frente das instalações do Estado-Maior do Exército, a Santa Apolónia, onde abordou Eanes à entrada, dizendo-lhe que era o preferido do partido e queria fazer o convite oficial para ser o candidato do PPD a Belém. Assim, o líder do PPD ultrapassou o adversário político socialista, Mário Soares, colocando-se na liderança para a escolha do futuro Chefe de Estado.

    A Imprensa foi também avisada dessa decisão, sendo esta uma jogada política de antecipação que permitia a Sá Carneiro, que ficara em segundo lugar nas eleições realizadas dois dias antes, associar o seu nome, e do partido, ao candidato a Presidente da República que tinha mais hipóteses de ser o vencedor, já que contava com o apoio de uma parte importante dos militares do Conselho da Revolução e do PS.

    “Está mesmo a ver a minha cara, quando cerca das onze horas telefono ao Mário Soares a dar-lhe conhecimento da nossa decisão e ele, pouco satisfeito, me informa que a rádio já anunciara o convite do PPD ao Eanes!”, comentou Vasco Lourenço na entrevista a Maria Manuela Cruzeiro.

    Vasco Lourenço, Capitão de Abril e um dos rostos do Conselho da Revolução. / Foto: Arquivos RTP

    Voltemos a Mário Soares e à entrevista a Maria João Avillez: “Quando os militares me informaram que a preferência entre os quatro militares propostos recaíra no nome de Eanes, reunimos a direcção do PS, na Rua da Emenda, onde se combinou que Salgado Zenha e eu próprio nos encarregaríamos de fazer o convite formal do PS a Eanes, para que se candidatasse às eleições presidenciais”. Soares seria surpreendido com a notícia do apoio de Sá Carneiro, que surgiu “horas depois”, segundo se recordava. Para Soares, a fuga da informação teria ocorrido ainda nessa noite, via Jaime Gama, que teria encontrado “ocasionalmente” Ângelo Correia, a quem disse que Eanes foi o nome escolhido pelo PS.

    A jornalista Maria João Avillez, na entrevista a Soares, chamou a atenção para o facto de que a sua própria versão “não é essa”. Soares adiantou então que “noutra versão, que não posso afirmar como segura, terá sido Rui Vilar que deu a notícia a Marcelo Rebelo de Sousa”, sendo que Soares soube depois do apoio do PPD “pela imprensa da manhã”.

    Há um nome comum que se destaca nestas duas versões, baralhadas nas brumas da memória pelos avós da democracia Soares e Vasco Lourenço e que é Marcelo Rebelo de Sousa, o actual ocupante da cadeira de Belém.

    Marcelo Rebelo de Sousa aos 26 anos, deputado à Assembleia Constituinte. 1975 / Foto: Arquivo Fotográfico da Assembleia da República

    E onde estava Marcelo quando tudo isto aconteceu? Naquela altura não havia telemóveis para mandar mensagem SMS, não havia aplicações como WhatsApp ou Telegram para trocar mensagens privadas a altas horas da noite. Se alguém telefonou para Marcelo desde a taberna de Cascais, será que ligou para sua casa? Ou para a sede do PPD? Para um restaurante? Ou para o Expresso, a sede informal do PPD?

    Uma consulta on-line aos arquivos do jornal Diário de Lisboa permite verificar duas coisas que confirmam factos cruzados nesta história de bastidores: numa pequena informação na primeira página da edição de quarta-feira, 28 de Abril (a publicação era vespertina, saliente-se, ou seja, um jornal colocado à venda depois do meio-dia, com as notícias frescas dessa manhã), podemos ler, debaixo do título “A candidatura de Ramalho Eanes”, que “o apoio do PPD foi confirmado esta manhã ao ‘DL’ depois de anunciado, na madrugada de hoje pela agência ANOP”.

    Manchete do Diário de Lisboa de 28 de Abril de 1976. / Foto: D.R.

    No interior da mesma edição do dia 28 de Abril, na página 5, temos a notícia, de que, “ontem à noite”, na SEDES – Sociedade de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social –, fundada em 1970 por Rui Vilar, tivera lugar um debate para análise dos resultados eleitorais “que contou com a participação de Marcelo Rebelo de Sousa (PPD) e Medeiros Ferreira (PS)”.

    Notícia no Diário de Lisboa de 28 de Abril de 1976. / Foto: D.R.

    E se mais dúvidas houvesse, eis que Marcelo Rebelo de Sousa, em entrevista a Vítor Matos para a biografia de Novembro de 2012, na Esfera dos Livros (pág. 314), confirmou que, depois da sessão na SEDES, perto da sede do Expresso, na Duque de Palmela, cruzou-se com Rui Vilar que lhe contou do fumo branco decisão em S. Julião da Barra. Marcelo ainda pensou ir comer uma sanduíche no restaurante Pabe antes de seguir para a reunião que estava a decorrer na sede do PPD, não longe dali, no cimo da Duque de Loulé. Mas, com ele, estava António Patrício Gouveia que insistiu para que fossem imediatamente informar Sá Carneiro.

    Na Duque de Loulé ainda se discutiam os nomes de outros possíveis candidatos a apoiar, com Pires Veloso e o primeiro-ministro, almirante Pinheiro de Azevedo, como hipóteses. Assim que Sá Carneiro percebe o valor da informação, rapidamente confirma com Pires Veloso através de um telefonema e informa o partido da decisão. Helena Roseta, qual pitonisa, avisa que “ainda se vão arrepender”. E assim aconteceu, o que levou depois Sá Caneiro a ter de apoiar Soares Carneiro em 1980.      

    Portanto, cruzando as memórias de Mário Soares com as de Vasco Lourenço e juntando ainda os factos jornalísticos públicos relativos a Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Vilar – este tinha sido eleito deputado do PS dias antes –, vemos que a história de bastidores mais aproximada da verdade dos factos coloca Mário Soares no almoço, no Hotel Rex, presumivelmente após as eleições de domingo, 25 de Abril de 1976, seguindo-se a reunião dos militares em S. Julião da Barra, na noite de terça-feira, 27, com a informação, ainda nessa noite, a resultar na conversa entre Rui Vilar e Marcelo Rebelo de Sousa e, daí, com Marcelo a ir até à sede do PPD, então na Duque de Loulé, onde estava Sá Carneiro numa reunião pós-eleitoral e, após ser informado, decidiu comunicar aos seus militantes – alguns chorosos – que o candidato do PPD já não seria Pires Veloso, mas tinha de anunciar o apoio do partido a Eanes, com a notícia a ser enviada para a ANOP, nessa mesma noite, a tempo de sair na rádio e nos jornais vespertinos de quarta-feira, 28, levando Soares a ser ultrapassado pelo timing político de Sá Carneiro.

    Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    Quem se mostrou bastante crítico desta manobra tácita de Sá Carneiro e achava que o apoio do PPD a Eanes era um “beijo de morte” ao candidato foi a embaixada dos EUA em Lisboa, onde estava Frank Carlucci, futuro director-adjunto da CIA. Num telegrama diplomático norte-americano, datado de 29 de Abril, podemos ler que a embaixada em Lisboa era da opinião de que “o apoio do PPD a Eanes vai prejudicar mais do que ajudar. Uma vez mais, o PPD reagiu de forma apressada e agressiva face a uma situação que percebeu ser ameaçadora”.

    Excerto de um telegrama diplomático norte-americano de 29 de Abril de 1976.

    E a embaixada liderada por Carlucci sabia bem do que falava, pois o anúncio de Sá Carneiro adiou a decisão do PS que, finalmente, acabaria por dar o seu apoio público a Eanes apenas a 10 de Maio, quatro dias antes do general ter feito o anúncio público a sua candidatura à Presidência da República.

    E, como no final dos filmes, aqui fica um resumo do que aconteceu aos principais protagonistas nos anos seguintes:

    Eanes foi eleito, a 27 de Junho de 1976, como o primeiro Presidente da República após o 25 de Abril, com o apoio do PS, PPD e CDS. Seria reeleito a 7 de Dezembro de 1980, mas sem o apoio do então líder do PPD/PSD e primeiro-ministro, Sá Carneiro, morto em Camarate três dias antes.

    O então Presidente da República, António Ramalho Eanes, dando posse ao VI Governo Constitucional, liderado por Francisco Sá Carneiro; a assinar, o ministro das Finanças, Aníbal Cavaco Silva, que viria a ser eleito Presidente da República em 2006. (3 de Janeiro de 1980) / Foto: D.R. / Presidência da República

    Mário Soares foi o primeiro Presidente da República civil após o 25 de Abril após ter vencido as eleições de 1986 contra o ex-líder do CDS, Freitas do Amaral, sendo reeleito em 1991. Perdeu uma terceira eleição em 2006 contra o ex-primeiro-ministro do PSD, e ex-ministro das Finanças do governo de Sá Carneiro, Cavaco Silva, que assim sucedeu ao ex-líder do PS, Jorge Sampaio, e foi reeleito em 2011.

    Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente da República em 2016 e reeleito em 2021.

    No início de 2026, 50 anos depois da eleição de Ramalho Eanes, Portugal está na iminência eleger um segundo militar como Presidente da República após o 25 de Novembro, caso não encontre soluções nas hipóteses civis.        

  • Como falar de Camarate à mesa de Natal

    Como falar de Camarate à mesa de Natal


    Já se passaram 45 anos e continua-se a discutir se Camarate foi atentado ou acidente. O assunto pode vir à tona durante o Natal em família, tanto mais que vamos ter eleições presidenciais, algo que também estava no plano político de 1980. Por isso, aqui ficam algumas dicas sobre como pode ser abordado o assunto de Camarate de modo a evitar estragar a harmonia sempre tão necessária nesta festa da família.

    Placa em memória das vítimas do atentado que tirou a vida ao então primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, instalada junto ao local onde se deu a tragédia, em Camarate. / Foto: D.R.

    1 – Diga que foi acidente

    Ainda há dias, numa entrevista na rádio da rua João Saraiva, o candidato a candidato à Presidência da República, — o “não sou maçon” — Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo, disse de forma muito enfática e sem espaço para dúvidas que Camarate foi “acidente”. Como não creio que o ex-militar tenha sido testemunha ocular do acidente, deduzo que estivesse apenas a produzir uma opinião pessoal.

    É bem mais seguro dizer que Camarate foi acidente do que atentado. O acidente encerra logo ali o assunto, pelo que podemos seguir em frente na vida, sem mais questões. Esta opinião é até aquela que mais agrada a jornalistas, pois não têm depois de fazer perguntas que podem ser incómodas. Agrada igualmente a juízes, investigadores judiciais e a outros ligados à área, que assim podem dar o assunto por encerrado e não se fala mais nisso. E agrada ainda a certos meios políticos, já que não abre caminhos para se ir mexer em assuntos delicados e que não interessam nada aos seus interesses.

    O recém-falecido ex-primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão, por exemplo, era adepto do acidente e, no caso dele, sabemos bem que também não podia ter sido testemunha ocular, pois há testemunhas de que estava no Porto, no aeroporto de Pedras Rubras, à espera da chegada de Francisco Sá Carneiro para o comício extra que iria ter lugar no Coliseu da Rua Passos Manuel.

    Foto: D.R.

    Por isso, se não quiser arranjar problemas na conversa da família, diga que Camarate foi um infeliz acidente, que o avião estava podre, os pilotos andavam cansados e, sobretudo, não havia maneira de saber se Sá Carneiro iria estar ou não naquele avião, mas que, à última da hora, Sá Carneiro mudou para o aparelho podre. Ah! E ainda havia o avião da TAP, para onde ele tinha reservas.

    Por isso, acidente. Sem sombra de dúvidas. É bem mais seguro e evita chatices.

    2 – Diga que ainda não está bem esclarecido

    Se é daqueles que, por uma questão intelectual, não pode ficar calado e não consegue dizer que foi acidente, pois parece que é uma posição simples e de alguém que está mal informado, é então obrigado a dizer que foi atentado. Sabe que o acidente nunca foi verdadeiramente explicado e, um avião, mesmo podre, não cai assim. Que a falha de um motor até pode ser compensada pelos pilotos — por muito cansados que estivessem.

    E como seguiu a polémica, leu os livros do Cid, sabe ainda que havia um segundo avião, aquele que Balsemão pediu ao dono da RAR, o empresário João Macedo e Silva, e em melhores condições. Também esteve atento às inúmeras comissões de inquérito, pelo que pode sempre dizer mal do exagerado número de comissões — foram 10, mas metade delas foram a continuação da outra, após terem sido interrompidas pelo fim das legislaturas até serem retomadas na seguinte. Esta é também uma maneira segura de mostrar que até se interessou pelo assunto e procurou informar-se melhor sobre o caso. Que não tem uma opinião ligeira.

    Foto: D.R.

    Pode sempre demostrar alguma superioridade perante aqueles que dizem ter sido acidente, dando a entender que até sabe mais sobre o assunto.  Mas, como não quer ser visto muito deslocado do resto da família e convém não ser desagradável em relação aos que estão sentados na confortável ideia do acidente, o melhor a fazer é dizer que, mesmo sendo atentado, ainda existe muita confusão. Embora pense que o atentado é algo plausível, ainda assim não sabe explicar muito bem como foi e, por isso, seria melhor haver mais uma comissão, mas o problema dessa confusão toda é precisamente por ter havido já muitas comissões, pelo que não faz sentido haver mais outra, mas lá que seria necessário, lá isso seria.

    Uma posição informada, segura e que não ofende ou coloca em perigo a convicção daqueles que vivem tranquilamente na segurança do acidente. 

    3 – Diga que foi atentado, mas o alvo era o Adelino

    Este já está um nível mais acima, mas ainda assim dentro daquele conforto que também não cria perigos e não provoca choques sociais. Está apenas ao alcance de um grupo de pessoas muito específicas. Ainda há dias ouvi, por exemplo, o antigo grão-mestre da maçonaria regular, José Manuel Anes, a justificar as acusações da sua filha nas redes sociais — onde ele era acusado de ter feito a bomba de Camarate —, a dizer que as palavras da filha não faziam qualquer sentido, pois ele investigou o caso e concluiu que houve uma bomba. E que até foi ameaçado de vida — por quem? Não disse.

    Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    Manuel Anes, que na altura dos factos era funcionário do laboratório científico da PJ desde 1978, é uma daquelas pessoas, que ao contrário do Henrique Melo, não pode dizer que foi acidente. Mas como também não pode parecer ter dúvidas quanto a ter sido um atentado, acrescentou à jornalista Tânia que o atentado foi contra Adelino Amaro da Costa e não contra Francisco Sá Carneiro. E a jornalista nem tugiu nem mugiu.

    Esta opinião foi aquela que Conceição Monteiro, a secretária de Sá Carneiro e principal testemunha do que se passou durante aquele dia, começou a propalar quando se viu perante as evidências de um atentado, confirmado depois por Manuel Anes. Disse a senhora que, como não havia tempo para preparar um atentado contra Sá Carneiro, o alvo seria o ministro da Defesa, Amaro da Costa.

    Como se a morte de um ministro fosse algo que se pudesse varrer depois para baixo do tapete e não merecesse uma investigação cabal. Mas, como o mais importante é retirar o nome de Sá Carneiro desta equação, para evitar uma investigação mais aprofundada, esta posição é aquela que deve ser usada por aqueles que não têm mesmo hipóteses de negar o atentado e que, tal como Anes, não podem discutir as conclusões oficiais das últimas comissões de inquérito e não podem parecer ter dúvidas.

    Adelino Amaro da Costa na tomada de posse como ministro da Defesa do Executivo liderado por Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    Dizer que foi para o Adelino é uma boa maneira de dizer que foi atentado, mas depois arrumar o assunto sem ter de dar muitas mais explicações.

    4 – Sobretudo, nunca diga estes factos:

    Sá Carneiro estava no avião que caiu em Camarate porque era o único táxi-aéreo disponível no País depois de, uma semana antes, a 26 de Novembro, os aviões da campanha presidencial de Soares Carneiro terem sido apreendidos pela Guarda Fiscal no aeródromo de Tires. Essa apreensão, levada a cabo por uma autoridade que dependia do ministro das Finanças, Cavaco Silva, tem de ser considerada como parte do plano e demonstra que, ao contrário do que dizia Conceição Monteiro, houve mesmo tempo para preparar um atentado contra o primeiro-ministro Sá Carneiro.

    Sá Carneiro nunca teria tido necessidade de ir ao Porto de avião se não lhe tivessem marcado um comício extra no Coliseu do Porto, facto de que foi informado a 1 de Dezembro, quando estava em Évora. De acordo com a agenda há muito feita, o comício onde ele deveria ter ido era o de Setúbal e não no Porto. O comício do Porto fora no dia anterior.

    Foto: D.R.

    Havia um segundo avião privado, mas Sá Carneiro nunca foi informado da existência desse aparelho. Esse era o avião privado da RAR que Balsemão garantiu que iria haver e que, depois, a sua prima, a secretária Conceição Monteiro, desmarcou após o encontro de Sá Carneiro e Amaro da Costa à hora do almoço.

    Sim, havia reservas no voo comercial da TAP, mas isso era apenas uma medida de último recurso caso o avião privado não fosse autorizado a descolar devido ao mau tempo. Também havia, dentro da mesma linha de pensamento, reservas para o comboio. Aliás, o avião privado foi solicitado para levar Sá Carneiro de volta para Lisboa após o comício e permitir cumprir a agenda de primeiro-ministro na manhã do dia seguinte. E não havia avião da TAP para fazer esse regresso após o comício.

    Quem insistiu na ideia do avião da TAP como uma mudança de última hora, ampliando as dúvidas em relação a um acidente e não a um atentado, foi o então director-interino do semanário Expresso, Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República.      

    Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    A morte ocorreu numa altura em que Sá Carneiro andava a ameaçar fazer um ajuste de contas com os traidores no seu partido, andava a extremar a luta presidencial contra o general Ramalho Eanes e colocava em perigo a estabilidade democrática de Portugal, recusando um futuro bloco central com o PS de Mário Soares.

    No campo internacional também coincidiu com o negócio de tráfico de armas para o Irão e que levara à derrota, um mês antes, do presidente norte-americano, Jimmy Carter, perante Ronald Reagan e George Bush. As ligações à CIA ainda estão por esclarecer, mas estão lá, pois Bush tinha sido chefe da CIA e o chefe da sua campanha presidencial, e principal mentor do negócio de tráfico de armas ilegal para o Irão no sentido de atrasar a libertação dos reféns norte-americanos em Teerão, William Casey, foi depois nomeado chefe da CIA. Na altura da morte de Sá Carneiro, o número dois da CIA era o ex-embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Frank Carlucci, uma pessoa que não tivera boas relações pessoais com o primeiro-ministro durante a sua permanência no nosso País.

    De resto, bom jantar em família!

  • Hoje, recordo o “Pontes”

    Hoje, recordo o “Pontes”


    Seja o 25 de Novembro ou o 25 de Abril, jornalistas estavam lá para cobrir os acontecimentos. Hoje, uma crónica que publicámos no PÁGINA UM inclui uma foto que aqui republico porque é especial, para mim.

    Na imagem, um grupo de jornalistas recolhe os comentários e respostas a perguntas do embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Frank Carlucci, na sua chegada à capital em Janeiro de 1975. Entre eles, a segurar num dos microfones, de gravador na mão, está um querido colega: Carlos Pontes, companheiro na Reuters.

    Frank Carlucci, na altura embaixador dos Estados Unidos em Portugal, na sua chegada ao aeroporto de Lisboa em meados de Janeiro de 1975.  Carlos Pontes é o jornalista que está quase de frente para o fotógrafo. / Foto: Embaixada dos Estados Unidos


    Imagino que, logo a seguir, desatou a correr para uma cabine telefónica, tirou as muitas moedas que carregava nos bolsos, e ligou para ditar a notícia, que seria depois difundida para todo o mundo. (Agora já sem os riscos da censura da PIDE que rasuravam os muitos takes que guardava do tempo da ditadura.)

    O Carlos estava lá. Estava em Santa Apolónia, aquando da chegada de Mário Soares, também. E era uma delícia ouvi-lo contar como se “apoderou” de uma cabine que havia na estação antes de outros jornalistas, os quais faziam fila para poderem também enviar as suas notícias para a redacção.

    Gostaria de poder ouvi-lo hoje a contar uma das suas histórias do 25 de Novembro … e a acabar por escutar outras tantas, de outros acontecimentos históricos do país, que ele testemunhou e noticiou.

    Sinto que, de algum modo, falou comigo hoje, na mesma, ao aparecer-me essa foto. Consigo imaginar alguns dos comentários que provavelmente faria sobre os tempos que vivemos. E recordo, em silêncio, algumas das muitas suas histórias que tive o privilégio de escutar.

    Foi bom “rever-te”, Carlos. Um abraço, daqui.

  • 25 de Novembro: E que tal uma nova Revolução?

    25 de Novembro: E que tal uma nova Revolução?


    Os nossos vizinhos espanhóis evocaram há dias os 50 anos do 20-N, que lhes corresponde ao dia 20 de Novembro, data da morte do ditador Francisco Franco. Esta forma abreviada, ao colocaram o número do dia seguido pela primeira letra do mês, é uma maneira assaz interessante que os habitantes do outro lado da fronteira desta nossa Península Ibérica têm para evocar os seus acontecimentos históricos recentes. Por cá, não é comum escrever 28-M, 25-A, 28-S, 11-M, 25-N, ou 4-D.

    Costuma-se dizer que Portugal e Espanha são dois países separados pela mesma História. E a expressão nunca esteve tão perto da verdade. Reconhecemos que temos um certo desconhecimento da História de cada um, muitas vezes partilhada em factos paralelos, mas frequentemente ignorada nas suas leituras comuns.

    Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República, e José Pedro Aguiar-Branco, presidente da Assembleia da República, na Sessão Solene Evocativa dos 50 anos do 25 de novembro de 1975 que decorreu hoje. /Foto: D.R.

    De vez em quando, procuro colmatar esse desconhecimento e, há dias, acabei de ler uma banda desenhada vinda de Espanha, “La Caja de Pandora”, de Angel de la Calle. É um romance gráfico, que recomendo a quem aprecia o género (e sugiro, a quem consegue ler em espanhol, como um bom exemplo para quem ainda não descobriu a força impactante desta forma de arte literária e gráfica). O autor faz um passeio introspectivo e semi-biográfico pelos anos da transição espanhola da ditadura para a democracia (1975-1978). Um período semelhante aos nossos primeiros anos pós 25-A.

    Em mensagem pessoal que enviei para Angel de la Calle, a agradecer a oportunidade, qualidade e importância da produção desta obra, mencionei uma frase que cito de memória, onde o próprio rei Juan Carlos terá dito ao seu amigo do Estoril, o nosso recém-falecido ex-primeiro-ministro, Pinto Balsemão: “Em Portugal, houve uma Revolução. Em Espanha, morreu um homem”. Se o rei nunca disse esta frase, não é essa a questão, pois digo-a eu na mesma por a achar verdadeira. Nela, resume-se uma diferença, mas não esconde o que se seguiu depois nos dois países até, pelo menos, 1985, ano em que Portugal e Espanha assinaram, no mesmo dia, a entrada na CEE. Portugal, de manhã. Espanha, depois do almoço.

    O Angel, na resposta à minha mensagem, disse-me que, em Portugal, tivemos mais sorte, pois a nossa revolução foi pacífica. E numa entrevista que deu a um canal de televisão espanhol, relatou que, em Portugal, no 25-A, só morreu uma pessoa e foi porque seria atropelada por um camião militar numa manobra de marcha-atrás. Quero acreditar que essa afirmação era uma alegoria, pois temos de incluir as vítimas dos tiros da PIDE e contar ainda com os anos bombistas que se seguiram e a Guerra Civil nos territórios ultramarinos portugueses que tiveram de ficar independentes.

    Sessão Solene Evocativa dos 50 anos do 25 de novembro de 1975. / Foto: D.R.

    A Espanha não fez uma descolonização em apenas um ano após o dia em que o carro militar fez marcha-atrás. Nem teve de integrar, em dias, meio milhão de retornados. Tivemos um PREC, que acabou no 25-N e, dez anos depois, lá entramos, Portugal e Espanha, na CEE. Após os sacrifícios que fizemos a nível económico, ao dar um sinal de unidade europeia, sem ditaduras, com a “Democracia”, foi dado um sinal a Moscovo que a Alemanha tinha de ser unida. E isso aconteceu quatro anos depois, em 1989, ao cair o muro. A própria URSS caiu em 1991 e foi criado o Euro, onde os países da Península Ibérica, apesar de não termos um sistema económico forte, ainda assim tivemos de entrar para dar mais um sinal de unidade europeia.

    Até que, juntamente com outros países do sul da Europa que ajudaram ao fortalecimento do centro da Europa – Irlanda, Itália e Grécia –, puseram-nos no clube dos PIIGS. Os porcos da Europa. Obrigadinho, Europa comunitária e solidária. De nada. Afinal, para quê queixar-nos se até temos uma representação do PCP no antigo Hotel Vitória – imóvel de interesse público, arquitectura de 1934, de Cassiano Branco –, situado na luxuosa Avenida da Liberdade, ao lado de lojas de luxo? Podemos sempre ir exorcizar os nossos sentimentos de Liberdade com desfiles de 25-A nessa avenida da alegada liberdade e depois ir fazer compras – os que podem, claro – nas lojas bem recheadas de produtos que a liberdade do mercado e das condições laborais permite existirem. 

    Agora que estamos a evocar os 50 anos do 25-N, aquela madrugada que muitos esperavam, o tal dia inicial, inteiro e limpo de 1975 (E então? Acaso, não são assim todos os dias para aqueles que gostam de os viver sem se cansar?), convém lembrar que nenhuma comemoração estaria completa sem a menção de dois nomes que muito contribuíram para o sucesso da estabilização da Democracia em Portugal: Frank Carlucci e Henry Kissinger.

    Frank Carlucci, na altura embaixador dos Estados Unidos em Portugal, na sua chegada ao aeroporto de Lisboa em meados de Janeiro de 1975.  A sua primeira conferência de imprensa foi em português, algo inédito para um diplomata norte-americano. / Foto: Embaixada dos Estados Unidos

    O primeiro até tem um azulejo com o seu nome – diz “Casa Carlucci” – na fachada da residência do embaixador dos Estados Unidos na Rua do Sacramento à Lapa. Era aí que costumava reunir-se com o líder do PS, Mário Soares, a conspirarem, na lavandaria do palacete – era onde havia menos hipóteses de serem escutados. Os serviços de Carlucci em prol da Democracia do 25-N foram depois recompensados com um emprego em Langley, nos Estados Unidos, como director-adjunto da CIA. A mesma CIA à qual ele sempre negou pertencer enquanto esteve em Lisboa – e é verdade que não perten…cia, mas depois de ter adquirido experiência no terreno, passou a pertencer.

    Quanto a Henry Kissinger, por sua vez, teve o mérito de confiar no julgamento de Carlucci, adiando a ideia de que Portugal estava perdido para uma Democracia previsível e obediente ao interesse norte-americano, e que até poderia funcionar como “vacina” ao ser a Cuba da Europa.

    Bem revelador da importância de Kissinger para o 25-N e o sistema de partidos que temos hoje em vigor, é a declaração de Melo Antunes, então ministro dos Negócios Estrangeiros, que num encontro com Frank Carlucci, duas semanas após o 25-N, quando o embaixador lhe perguntou o que teria acontecido se os comunistas tivessem vindo para a rua, Melo Antunes disse que havia uma coisa na sua mente: “A oferta da ajuda de Kissinger”. Isto data de 5 de Dezembro de 1975 e, para que não haja dúvidas, está aqui uma cópia certificada. Se não está ainda numa exposição sobre esta data, aqui fica a referência da mesma para que sejam incluídas nas comemorações oficiais: https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1969-76ve15p2/d169

    Henry Kissinger (ao centro), em Paris, em 28 de Setembro de 1970. / Foto: D.R.

    Daqui a dias teremos ainda os 45 anos do 4 de Dezembro, a data do assassinato de Sá Carneiro – sim, porque já se concluiu na Assembleia da República que a explicação mais lógica para a queda do avião teria sido devido à deflagração de um engenho explosivo a bordo. Mas, nestes 45 anos, iremos continuar a ouvir que foi acidente, pois isso é mais tranquilizador para as mentes que não querem investigar o móbil do atentado. Talvez daqui a cinco anos se saiba mais.

    E, finalmente, daqui a seis meses, vamos celebrar os 100 anos do 28 de Maio, outro momento em que os militares agiram com a intenção de salvar o país do caos e da ruína. Teremos, portanto, com a força da democracia, encarar uma data em que o chefe dos militares portugueses de há 100 anos, Gomes da Costa, dizia aos jornalistas de há 100 anos coisas como estas (Entrevista a Gomes da Costa, Diário de Lisboa, 3 de junho de 1926):

    “Fazer uma revolução nacional desta força e significação para nos instalarmos no Terreiro do Paço a fumar charutos tranquilamente também não pode ser”.

    Edição do Diário de Lisboa, 3 de junho de 1926.

    “A imprensa é útil, é uma força nacional. Tem liberdade para dizer o que pensa. Não abafaremos o pensamento de ninguém. Também acreditamos que ninguém desvirtuará as nossas intenções. Sou militar. Falo a linguagem da verdade. O país estava cansado dos políticos que nos arrastaram para a miséria que aí estava”.

    “Se é ditadura meter o país nos eixos, sim, ditadores somos. Mas nunca uma ditadura no conceito antigo, suprimindo liberdades, perseguindo e vexando. De porcarias estávamos nós fartos. Liberdade bem distribuída, justiça para todos, saneamento das finanças e dos serviços públicos – eis a nossa ditadura”.

    O general Gomes da Costa. / Foto: D.R.

    No livro de Angel de la Calle, numa conversa em Cuba, uma amiga sua pergunta-lhe: “Em Espanha, têm Rei?” Sim, há rei, responde o autor. “E Guardia Civil?” Sim, há Guardia Civil. E concluiu a amiga: “Então de que transição estás a falar”? Poderíamos fazer o mesmo exercício sobre Portugal: Em Portugal, existe um Presidente da República e um primeiro-ministro? Sim. E GNR? Sim. Então de que revolução estamos a falar?

    Os democratas de hoje, em Portugal e Espanha, sabem que, no tempo das ditaduras de Salazar e Franco, os Estados Unidos e União Europeia não tinham tanto poder sobre as decisões internas da “democracia orgânica” de cada nação ibérica. Se houve depois uma transição em ambos países, essa foi para entregar o poder de Lisboa e Madrid aos bons servos dos poderes de Washington e Bruxelas.

    Feliz dia!

  • Eu e Balsemão em cinco momentos

    Eu e Balsemão em cinco momentos


    Agora que já tudo foi dito e redito sobre a vida de Francisco Pinto Balsemão, o jornalista Frederico Duarte Carvalho deixa aqui o testemunho de cinco momentos-chave da sua vida profissional em que se cruzaram directa e indirectamente e que acabam por constituir um retrato de um País.   

    Momento nº 1

    Dia 6 de Outubro de 1992. Estava de passagem em Lisboa, vindo do Algarve, onde tinha ido assistir ao concerto da Samantha Fox na discoteca Kiss, como jornalista estagiário de “O Primeiro de Janeiro” – ao mesmo tempo que frequentava a Escola Superior de Jornalismo do Porto – e resolvi ir com o Rui Arala Chaves fazer a reportagem sobre o primeiro dia da SIC. Vi Balsemão pela primeira vez, mas não falei com ele. Testemunhei o início histórico do primeiro dia da televisão privada em Portugal e escrevi depois um texto para “O Primeiro de Janeiro”.

    Momento nº 2

    Pouco tempo depois do lançamento da SIC – não consigo precisar quando, Balsemão foi ao Porto fazer uma apresentação sobre o Expresso e fui ao hotel onde decorria a sessão. Tinha na minha mente duas perguntas para lhe fazer: “Pode um jornalista ser candidato a Presidente da República” e a outra era saber onde iria ser a delegação da SIC no Porto.

    Balsemão sorriu com a pergunta sobre o Presidente da República, pois considerou que era a pensar na hipótese de ser ele próprio o candidato, quando, na realidade, era eu a pensar na sempre eterna questão da isenção dos jornalistas. Quanto à localização da delegação, fiquei a saber que era no Edifício Capitólio, na Avenida da França, e que até nem era longe de minha casa. Mais tarde, fui perguntar ao delegado da SIC, José Manuel Lemos, se podia fazer um estágio.

    Fiquei um mês até que me mandaram embora. Foi o suficiente para aprender como funciona o jornalismo televisivo e ficar amigo do Mário Augusto e do Alberto Serra.

    Captura a partir de vídeo da SIC

    Momento nº 3

    Junho de 2010. Estou em Sitges, nos arredores de Barcelona, para assistir à reunião de Bilderberg. Pelo menos, até onde os jornalistas são autorizados a ir, fora do hotel e para lá do cordão policial. Balsemão convidou Paulo Rangel, então eurodeputado do PSD e o ministro das Finanças do governo socialista de José Sócrates, Fernando Teixeira do Santos. Será este último que, meses depois, em Abril de 2011, manda chamar a “Troika” à revelia do primeiro-ministro que, por sua vez, também fora um convidado de Balsemão para uma reunião de Bilderberg, em 2004, meses antes da sua ascensão ao cargo em S. Bento. 

    Momento nº 4

    Março de 2011. Vou entrevistar Francisco Pinto Balsemão no seu palacete na Lapa, na Rua Ribeiro Sanches, para o meu livro sobre Camarate. Recebe-me com simpatia e temos uma conversa agradável, apesar da delicadeza do tema. Confirma-me aquilo que já era conhecido: estava no Porto desde quarta-feira, dia 3 de Dezembro de 1980, véspera da tragédia.

    Coordenou com a direcção de campanha para que o empresário da RAR, João Macedo e Silva, emprestasse o avião Cessna da empresa e, no dia seguinte, levassem o primeiro-ministro Sá Carneiro de Lisboa ao Porto e, depois do comício extra no Coliseu, garantisse o regresso a Lisboa, de modo que o primeiro-ministro cumprisse a sua agenda oficial na sexta-feira. Estava no aeroporto à espera da chegada de Sá Carneiro quando soube da notícia da tragédia e arranjou um avião privado que o levou imediatamente para Lisboa. Sorriu quando disse que processou Augusto Cid pelas insinuações de que estava dentro de um plano para matar Sá Carneiro, nomeadamente quando o colaborador de “O Diabo” e autor de vários livros sobre Camarate contou que a sua mulher, Mercedes, teria desabafado num cabeleireiro que recebera um aviso do marido para não viajar com Sá Carneiro. “Fui até aos tarecos”, afirmou.

    No fim do encontro, aproveitei para lhe fazer uma pergunta sobre a sua participação nas reuniões do Grupo Bilderberg. Disse-lhe que já ganhara várias apostas sobre quem seria primeiro-ministro em Portugal, bastando-me olhar para a lista das pessoas que ele convidava anualmente. E acrescentei que até tinha estado em Sitges. Ele perguntou como é que as pessoas que iam assistir de fora aos encontros “tinham dinheiro para estarem ali”.

    Disse-lhe que, no meu caso, foi pago pelo meu próprio bolso. Lancei a provocação: “Se as reuniões não são assim nada de especial, então que tal levar-me a uma um dia para confirmar?”. Ele disse-me, com um sorriso de charme, que o meu estatuto profissional não o permitia. Três meses depois, para o encontro anual que decorreu na Suiça, Balsemão convidou António Nogueira Leite e… Clara Ferreira Alves, a ex-jornalista do Expresso e regular comentadora da SIC. Confesso que sorri e não levei a mal: confirmei que quem faz os estatutos não são as pessoas, mas sim o que Balsemão decidia sobre o que são os estatutos.

    Momento nº 5

    Noite de 22 de Outubro de 2025. Estou na fila para o velório de Balsemão. Atrás de mim está João Soares, que acabou de dar uma entrevista a José Manuel Mestre. Abordo o filho de Mário Soares e pergunto se se lembra da vez em que, antes das eleições europeias de 2004, fui a casa dele, junto ao Príncipe Real, para o entrevistar sobre uma possível candidatura à liderança do PS. E disse-lhe então, mal cheguei: “Então, o José Sócrates é que vai ser o próximo líder do PS!”.

    Perante o espanto de João Soares, expliquei que acabara de ler que Balsemão convidara Santana Lopes e José Sócrates para o encontro de Bilderberg, que iria ter lugar em Junho, em Itália. Mencionei ainda ao filho do antigo Presidente da República que acabara de publicar um livro, em Novembro de 2003 – “Eu Sei Que Você Sabe” –, onde explicava como é que as reuniões do Grupo Bilderberg eram bons indicadores para futuras escolhas políticas. “Isso é que ainda vamos ver!”, respondeu-me João Soares, cheio de confiança.

    Em Setembro, quando Sócrates venceu a corrida para a liderança do PS, telefonei ao João Soares para ouvir a sua opinião: “Frederico, acabei de sair da SIC onde encontrei Balsemão. Ele veio cumprimentar-me e dizer que tinha apreciado a forma como eu me tinha batido nas eleições. E eu, enquanto olhava para ele, só pensava: tenho de ler o livro do Frederico”. Lembrei isto ao antigo candidato e ele desabafou: “Já nem me lembrava”. A irmã, Isabel, não sei se ouviu toda a nossa conversa mas ouviu o meu desabafo: “O que Portugal não teria vivido se não tivesse sido o apoio de Balsemão a Sócrates”.

    Conclusão: Agradeço a Balsemão a sua vida e o esforço que fez em deixar o mundo melhor da forma que ele acreditava como deveria ser o mundo. Foi ao fazer exactamente o contrário daquilo que os seus seguidores sempre acharam que eu deveria fazer, pude conquistar um dos mais preciosos bens que podemos ter na Terra enquanto cá estamos: liberdade de pensamento. E isso, felizmente, ao contrário de alguns que conheço, Balsemão nunca me conseguiu tirar. Antes pelo contrário, pois se não tivesse sido ele, nunca teria tido motivos para lutar pela Liberdade. Por isso, só lhe posso dizer: Obrigado por me ter dado a conhecer o que é ser-se livre de verdade!        

  • Astérix já é um dos nossos

    Astérix já é um dos nossos


    Foi preciso esperar 66 anos desde a criação de Astérix e Obélix até que, finalmente, a dupla gaulesa apanhasse o barco do mercador fenício, no norte da Gália e, em vez de rumarem até ao Mediterrâneo, parassem numa cidade do Atlântico e que é ainda mais antiga do que Roma: Olissipo. 

    A aventura “Astérix na Lusitânia”, sabemos bem, não é a mesma que resultaria caso tivesse sido feita pelos criadores originais, Uderzo e Goscinny, mas podemos afirmar que a nova equipa, o argumentista Fabcaro e o desenhador Didier Conrad, fizeram um trabalho competente e que não envergonha o original. Reconheça-se ainda que não têm um trabalho fácil, pois, como explica Conrad: “Se tirarmos a opinião do editor, dos herdeiros, as expectativas dos leitores e as exigências do formato e da impressão, temos toda a liberdade de criar o que queremos”.

    Fabcaro (Fabrice Caro ) e Didier Conrad, autores de “Astérix na Lusitânia”. / Foto: D.R.

    O certo é que também não é preciso ser um génio da edição de livros para saber que um novo álbum de Astérix será sempre um sucesso de vendas. Pois, mais não seja, os leitores das aventuras originais irão sempre querer ter o último álbum na estante para não ficarem com a sensação de uma colecção incompleta. Enquanto isso acontecer um pouco por todo o mundo – são cerca de 5 milhões de exemplares no total, em cerca de 19 países –, então cada álbum será sempre um êxito garantido, independentemente da qualidade e das expectativas do mesmo.

    Este é o 41º álbum da coleção, mas apenas o sétimo feito a partir de 2013, altura em que Uderzo passou a responsabilidade do desenho para Didier Conrad. Os textos – que até 1977 eram de Goscinny – tiveram a assinatura de Jean-Yves Ferri nos cinco primeiros álbuns, mas, desde 2023, é Fabcaro quem os idealiza. E, depois de ter criado o álbum anterior a este, “O Lírio Branco”, podemos dizer que a aventura na Lusitânia é capaz de estar no topo das preferências desta nova fase, tanto mais não seja pelo facto de Portugal estar na moda.

    Os estereótipos estão lá todos, para o bem ou para o mal. Temos a referência a Amália, que até escolheu um dos fados “mais alegres” para dar as boas-vindas aos gauleses. Existe uma personagem que o editor quis que se chamasse “Saudade”, em vez do “Oxalá” do original francês. Há ainda paisagens, como as Azenhas do Mar. Falta, contudo, o trânsito em Olissipo – que já naquela altura seria tão movimentado quanto o da Lutécia. Depois, temos bacalhau, pastéis de nata, azulejos, galo de Barcelos, eléctrico XXVIII e ainda Ronaldo, que até aparece em dose dupla.

    Apresentação do livro “Astérix na Lusitânia”. Foto: D.R.

    “Desenhei uma criança que joga à bola com o número VII na camisa, mas o editor queixou-se que estava muito pequena e mal se via. Então desenhei-o, de forma mais visível, noutra situação”, explicou Didier Conrad ao Página Um. E quando perguntámos aos novos autores por que não recriaram um jogo de futebol onde Ronaldo, o primeiro futebolista multimilionário da história do desporto, pudesse ter mais destaque, um pouco à semelhança do jogo de rugby que Goscinny e Uderzo fizeram na aventura entre os Bretões, os autores explicaram que, no caso da viagem à Inglaterra, o rugby era um desporto mais típico dessas paragens, “enquanto a paixão do futebol é transversal a vários países e não apenas a Portugal”.

    Quanto à história em si, sabemos que Astérix só precisa de um pequeno pretexto para sair da aldeia – existe uma tradição em que as aventuras de Astérix alternam entre uma história dentro da aldeia e outra que é o chamado álbum de “viagem”, como é neste caso. Na realidade, uma aventura de Astérix na Lusitânia era algo que poderíamos esperar desde, pelo menos 1967, altura em que Goscinny fez, em “Astérix, Legionário”, uma menção à canção francesa dos anos 50, “As Lavadeiras de Portugal” (que chama “As Lavadeiras da Lusitânia”). Depois, em 1969, a dupla criativa original fez a aventura na Hispânia, criando, três anos mais tarde, um personagem lusitano na história “O Domínio dos Deuses”. O próprio Uderzo, que visitou Portugal em 1991, e falou nessa altura da possibilidade de haver uma aventura na Lusitânia, ainda criou mais um personagem lusitano no álbum “O Pesadelo de Obélix”, editado em 1996.  

    Fabcaro explicou como se lembrou do lusitano de “O Domínio dos Deuses” para dar início à aventura, onde ele chega à aldeia a pedir ajuda para libertar um amigo, produtor português do garum – o molho de peixe fermentado e que a Lusitânia era fornecedora para o Império Romano. E há um detalhe que, até ao momento, poucos terão ainda dado por ele: o rival desse português é um napolitano, Crésus Lupus (Burlus Lupus na versão portuguesa), que Conrad desenhou numa óbvia caricatura de Sílvio Berlusconi – o magnata da Imprensa e ex-primeiro-ministro de Itália.

    Foto: D.R.

    Fizemos notar ao argumentista a coincidência dessa personagem surgir neste álbum num momento em que o filho de Berlusconi, Pier Silvio Berlusconi, está interessado na compra do grupo Impresa, nas mãos da família Balsemão. Fabcaro garante que não foi de propósito, pois trata-se de um personagem que já surgira na aventura de 2017, “Astérix e a Transitálica”, precisamente como um rico produtor de garum. E, agora, fez todo o sentido trazê-lo para a aventura na Lusitânia.

    A propósito de outras caricaturas que surgem na aventura portuguesa, há uma que não tem qualquer relação com o País, mas que se trata de um centurião romano que caricatura o cómico inglês Ricky Gervais. Conrad confirmou ao Página Um ser um pedido especial do editor francês “que é um grande fá do comediante inglês”, acrescentando que, por outro lado, o governador romano na Lusitânia, Pluvalus (Interesseirus em português), não corresponde à caricatura de ninguém em real. Fabcaro sorri, pois na sua descrição estava uma pessoa semelhante a… Donald Trump. Acontece que Didier Conrad vive nos EUA, no Texas, é decidiu que não seria boa ideia. Esse tipo de censura é algo que também transparece na fala do pirata africano que, de repente, já diz os “r”.    

    Outra questão que levantou alguma estranheza entre os leitores portugueses é facto de os personagens portugueses estarem sempre a dizer “ó pá”. Isso surge de forma que, podemos mesmo considerar, ser exagerada. Não era preciso usar isso sempre em todas as falas dos lusitanos. Menos seria mais. Aliás, o editor português da ASA, Vítor Silva Mota, sentiu mesmo a necessidade de explicar essa opção perante a plateia que encheu uma das salas de cinema do UCI no El Corte Inglés onde decorreu uma apresentação pública. Disse ele que foi uma opção para brincar com o original onde os personagens lusitanos trocam a terminação francesa de palavras terminadas em “ion” por “ção”. Fabcaro disse mesmo ao Página Um que recebeu mensagens de amigos franceses com “félicitação” em vez de “félicitation”.

    Outro dos desafios da tradução tem a ver com uma referência ao nosso 25 de Abril. Na versão francesa, os autores colocam um prisioneiro a gritar “oyez, oyez”, como “ouçam, ouçam”. Um outro prisioneiro diz que se trata “de mais um jovem idealista que julga que se pode fazer a revolução com oyez”, sendo que esta última palavra soa a cravos em francês, os “oillets”. Na versão portuguesa o prisioneiro diz que “o povo jamais será vencido” e o companheiro explica que ele é o prisioneiro número MCMLXXIV (1974), e pede para que não lhe liguem, pois tem a cabeça cheia de ideias revolucionárias.

    Astérix e Obélix, num momento raro, mas não inédito, disfarçam-se de locais, pintando o cabelo de escuro, o que dá um efeito cómico também único a esta aventura, e ainda participam numa cimeira internacional a bordo da galera “Davos”, que Fabcaro explicou fazer sentido decorrer em Lisboa, pois é uma cidade que deu início à globalização. E essa é ainda uma referência que surge com uma personagem feminina lusitana chamada Gama, que tem um tasco chamado Vasco – que em francês é o Le Vase Clos –, onde há sempre belas descobertas.

    Outras descobertas deste álbum é a citação do poema de Voltaire sobre o terramoto de Lisboa, que surge a explicar a nostalgia portuguesa, com a tradução de Vasco Graça Moura: “Bem será tudo um dia, é essa a nossa esp’rança; Hoje tudo está bem, é essa a ilusão”. Também Fernando Pessoa é lembrado, embora apenas na versão portuguesa, quando um soldado romano diz que não é nada, mas tem em si todos os sonhos do mundo.

    Cada leitor teria feito uma aventura diferente, mas esta é a que agora temos. E, fatalmente como destino, vamos ter de gostar dela como está e para sempre.

    Frederico Duarte Carvalho, jornalista e escritor, colaborador regular do Página Um, assina este texto porque também é um especialista em banda desenhada tendo, inclusive, editado recentemente, nas edições Polvo, o livro “As Aventuras de Goscinny e Uderzo entre os Lusitanos”, onde explica a evolução das aventuras da dupla gaulesa até chegar à história na Lusitânia. Uma obra que conta com documentos inéditos do Institut René Goscinny, cedidos especialmente para esse trabalho.

  • Privacidade

    Privacidade

    Estou a fingir que a imagem não me importa. Como se fosse possível não investir nos meus olhos.

    Havia um encantamento nas passeatas de Nikon em punho. Alerta. Atenta. Amante de uma certa estética — ou de muitas horripilâncias.

    A imagem como um diálogo improvável que se tem com um certo universo. Um não ser preciso contracenar.

    Vieram depois defender mais os direitos das pessoas, proteger-lhes as imagens e as privacidades…

    Concerto dos Coldplay no Gillette Stadium, perto de Boston, nos Estados Unidos, no dia 17 de Julho de 2025. Foi neste concerto que se deu a polémica do casal filmado pela ‘kiss cam‘. / Foto: Coldplay | D.R.

    Não fotografarás!

    Não fotografarei…

    Não filmarás, também?

    Pode uma pessoa pagar um bilhete para se divertir publicamente e, pela captação e divulgação da sua imagem, ver a sua vida arruinada em segundos?

    Pode um jornalista brincar na rádio com o sucedido, dizendo que é pago para falar sobre escândalos, papagueando que nunca se deve fazer xixi fora do penico — porque a mentira tem perna curta?

    Posso eu pagar taxa de audiovisuais para ouvir isto?
    Pode a minha Nikon continuar sossegada num canto, por ser ela a malvada que capta e expõe a vida dos outros?

    Podem as pessoas ficar realmente humilhadas pelos condicionalismos sociais que lhes tiram a coragem de defender a sua liberdade de movimentos?

    Foto de um fã dos Coldplay tirada no agora famoso concerto ‘da kiss cam‘, no dia 17 de Julho. / Foto: Coldplay | D.R.

    E rimo-nos todos disto, moralizando e chacoteando?

    E falamos ainda da crise dos valores, do medo da supremacia das ideias de extrema-direita, sem sequer nos apercebermos de que são as pessoas comuns que dão força àquilo que dizem abominar?

    Que respeito é este pela privacidade, que se passeia em trajes de um carnaval demolidor — e que destrói, moralizando?

  • Estoril 3.0

    Estoril 3.0


    Aquele golo sofrido, no fim-de-semana passado, no último lance do jogo contra o AVS – que nem sei bem o que significa – doeu muito. Não tivesse o Trubin despachado tão mal aquele atraso, não houvesse falta, não tivesse a defesa do Benfica andado a ver navios…  Enfim, o prazer faz-se pagar caro, mas, de igual sorte, quanto mais tarde chega, mais saboroso parece ser. E estou confiante, depois de mais um percalço do Sporting, graças ao excelente treinador João Pereira (longa vida lhe desejava eu aos comandos dos lagartos, mas, infelizmente, como o peru, não sobreviveu à quadra), desta vez é que é: vamos mesmo chegar ao Natal em primeiro lugar. Presumo eu, que comeceu esta crónica pouco depois dos primeiros pontapés, ali em baixo.

    Nisto, depois de tudo o que se passou com o Roger Schmidt, prenunciar o Benfica em primeiro lugar é melhor do que aquela filhó que chega à mesa, dourada como o sol deste Inverno, estaladiça na borda e macia no centro, com um aroma subtil de aguardente a aquecer a alma.

    Não há melhor. Nem que fosse uma daquelas rabanadas que se desfazem na boca, banhada em calda de açúcar e canela, húmida e perfumada, como se trouxesse o abraço do Natal num pedaço.

    O Benfica em primeiro no Natal será melhor do que uma fatia generosa de bolo-rei, de brilhantes frutas cristalizadas, de crocantes nozes e amêndoas, daquele que liberta perfume a laranja e vinho do Porto, ou melhor, aquilo é mais do Douro, ou, vá lá, de Vila Nova de Gaia.

    (tudo calmo ali em baixo, já agora… e já agora, poderia o Benfica ofertar uma fatia de bolo-rei que este famigerado farnel merecia melhorias; se melhoraram o treinador, metendo o Lage, não sei a razão para manterem o lanche como está…)

    Enfim, continuemos nestas analogias. Acrescento eu que ver o Benfica no topo da clasificação será mais apetitoso do que qualquer tronco de Natal, mesmo se com aquela textura cremosa de chocolate, laivos de açúcar como neve fresca em decoração, a envolver as papilas num abraço de sabores.

    Nem qualquer sonho se iguala, que sonho já vivem agora os benfiquistas depois do pesadelo alemão – e mesmo que fosse um daqueles sonhos que parecem flutuar, leves como uma nuvem, por terem sido fritos até à perfeição, com a superfície caramelizada e polvilhada de açúcar.

    E metam também os pudins de ovos em calda de caramelo, ou as broas-de-mel em farinha de trigo ou as tartes de amêndoa de crosta dourada – tudo perde no confronto com o Benfica em gloriosa posição.

    (é goloooooooo; golooooooooooooo… já está. O nosso PAVlidis a dar-nos melhor música do que o Vangelis!)

    E digo mais agora, que o primeiro lugar me parece garantido: nem todo o ouro, nem todo o incenso, nem toda a mirra valem mais do que este momento. Exagero? Talvez. Acho que exagero mesmo. Quer dizer, pelo ouro de todo o Mundo eu até prescindia – que não sou doido –, mas só para que pudesse guardar uma pequena porção. Para quê? Ora, para alguns reforços cirúrgicos na ‘janela de Janeiro’, claro, que o assalto final à época não se faz com romantismos, mas com pragmatismo. E, além disso, temos a Champions, e eu não quero mais ver derrotas desta varanda.

    Em todo o caso, sendo certo que o ouro pode comprar jogadores, não compra o espírito. Não compra o grito da multidão, o abraço colectivo nos golos, nem o sabor desta vitória. Aquilo que desejo vincar é que o Benfica no topo, antes deste Natal, transcende qualquer presente material. É um presente que se sente, que nos percorre as veias e nos aquece melhor do que qualquer lareira da casa das nossas avós.

    O prazer de ver este nosso Glorioso no cume da tabela não é só estatística; é a chegada de triunfo que, como dizia Nietzsche, só se torna verdadeiramente glorioso depois de superados os obstáculos. E superámo-los: os percalços com o Roger Schmidt, o renascimento com Bruno Lage, e até os deslizes que pareciam comprometer o destino.

    (chega o intervalo, e o Benfica, na verdade, não deslumbra, mas mostra-se competente, mas tem de marcar mais golos para nos sossegar)

    Enquanto isto, filosofo mais, enquanto os guerreiros descansam, sobre esta reconfortante sensação que é o prazer, e que, desde tempos imemoriais, tem sido um tema central da Filosofia – e que me parece ter nesta Da Varanda da Luz o local ideal para uma competente dissertação.

    Sabemos que o prazer para os antigos gregos, mesmo sem saberem nada das artes da ludopédia, não era apenas uma questão de experiência, mas de equilíbrio e significado. Epicuro, frequentemente mal compreendido como hedonista, defendia que o verdadeiro prazer residia na ausência de dor, tanto no corpo quanto na alma. Para ele, a gratificação era maior quando obtida com moderação, ponderação e, sobretudo, depois de se ultrapassarem grandes dificuldades.

    (e recomeça o jogo; força Benfica!)

    Por outro lado, Aristóteles via o prazer como um complemento da virtude; era bom, mas nunca deveria ser o objectivo em si. Para ele, o esforço e a excelência eram a chave para uma vida bem vivida, e o prazer surgia como uma consequência natural desse caminho. Talvez devessem mesmo experenciar a dor de ter um treinador como o Roger Schmidt no início da temporada… – ou, para quem é do sportinguista, ver o João Pereira a desbaratar um início perfeito do Ruben Amorim, que, aliás, quis ir sofrer para Manchester.

    Passando agora dos antigos para os modernos. Sobre o prazer, podemos sempre recorrer ao útil Nietzsche, que desafiou o ideal da busca pelo conforto. A sua ideia de amor fati, ou o amor ao destino, sublinha que é no confronto com as adversidades que se encontra o verdadeiro sentido da existência. Não sei ainda bem se isto se aplica ao futebol. Aplica-se?

    (ai ai ai!, desgraça! Penalti contra o Benfica. Grande porcaria… espera… espera… o VAR ‘anulou’, ou melhor, o árbitro reverteu a decisão depois de ir ver o VAR. Alivio! Depois da dor pela antecipação de uma desfeita, foi como se viesse o prazer depois de uma dor percebida)

    Suspiro, aliviado. Tréguas para continuar a filosofar nesta Varanda da Luz. E respondo à pergunta. Claro que sim. Se o amor fati nos ensina a abraçar o destino, com todas as suas adversidades, então aplica-se, sim, ao futebol. E porquê? Porque o futebol, como a vida, não é uma sucessão de vitórias fáceis e momentos perfeitos; antes sim, é feito de frustrações, de reviravoltas, de lesões inesperadas, de golos sofridos no último minuto – como aquele contra o AVS, que ainda me dói só de lembrar. O amor fati é isso: aceitar que a dor faz parte do jogo da vida, e é precisamente essa dor que torna as vitórias mais doces.

    Quando pensamos na travessia inicial desta época, com Roger Schmidt a transformar-se numa fonte de frustração, ou quando olhamos para o Sporting – cujo início parecia prometer glórias, apenas para que o João Pereira desmoronasse tudo como um castelo de cartas –, percebemos que o futebol é um microcosmo da existência humana. É a luta contra as probabilidades, o confronto com a imperfeição, que dá significado ao jogo. Nietzsche diria, se vivesse agora, que, ao amar essas adversidades, ao encontrar beleza nas derrotas e nos momentos de dúvida, crescemos enquanto adeptos – e enquanto seres humanos.

    (goloooooooooo!!!! Benfica! Zeki Amdouni, acabadinho de entrar, e logo a marcar. Alívio. E o Natal está a 17 minutos de chegar, mais os descontos)

    E veja-se: se não fosse pelo sofrimento inicial, e até o sofrimento deste jogo, que houve, onde encontraria eu o sabor pleno do momento actual? O Benfica em primeiro lugar antes do Natal é um presente que só faz sentido porque passámos por altos e baixos. Se a vitória fosse certa, constante, garantida, perderia o seu valor. O futebol seria uma monotonia, sem emoção, sem intensidade. A glória de PAVlidis a marcar hoje, como se fosse o outro Vangelis a compor uma sinfonia em campo, mostra-se arrebatadora porque é fruto de esforço, de trabalho, e, sim, de dor superada… Acho que estou a exagerar, mas, enfim, quem não…

    Talvez seja isso que Nietzsche, mesmo antes do futebol ser inventado como o conhecemos, nos ensina: não há prazer genuíno sem luta, não há glória sem adversidade. Por isso, amar o destino, com as suas curvas e tropeços, constitui uma declaração de amor ao futebol em toda a sua imprevisibilidade. Por isso, sim, o amor fati aplica-se ao futebol – e talvez o futebol, no fundo, seja um dos maiores exercícios de amor fati na vida moderna. Afinal, que outra paixão nos leva a sofrer tanto e, ainda assim, a amar cada instante?

    No coração de cada adepto, sinto agora nestes benfiquistas, um pouco mais de 60 mil aqui no estádio, reside um ethos semelhante ao dos filósofos: o prazer supremo destas últimas semanas, e de hoje em particular, esteve inextricavelmente ligado à paciência, sobretudo com o alemão, ao esforço, à espera e, muitas vezes, à dor de suportar derrotas e empates. Não é o sabor mais ou menos fácil das vitórias sucessivas com o Bruno Lage que agora cativa; é o momento glorioso que chega após uma sequência de desafios superados.

    (e golooooooooooo… 3-0; novamente o suíço com o nome esquisito, que me parece que está a ficar melhor do que o Seferovic)

    Termino, como termina o jogo, em glória, afirmando que o Gloriosa, nesta temporada, será é o exemplo perfeito desta Filosofia da Ludopédia aplicada à vida. Qualquer adepto já saberia que as conquistas mais satisfatrórias são aquelas que surgem depois de períodos de frustração. E agora, basta seguir o caminho. Alvalade será o próximo bastião a quebrar: dizem-me que já sem o João Pereira… Agora, até podiam contratar o Pep Guardiola…


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  • Guimarães 1.0 (seguido de Bolonha 0.0)

    Guimarães 1.0 (seguido de Bolonha 0.0)


    A delícia do futebol é, na verdade, ser um reflexo da vida, e esta constatação vai muito além do cliché que se repete nas bancadas ou em mesas de café. É o teatro do improvável, a vida ou o futebol, uma peça onde o destino brinca com o esperado para introduzir o inesperado, transformando as certezas irrefutáveis em poeira no primeiro sopro de surpresa.

    Se a vida é uma luta constante entre a ordem e o caos em cima de uma bola chamada Terra, o futebol é a sua recriação mais fiel mas curta, em 90 minutos, de drama humano condensado em passes, golos, falhanços e, claro, nesta imprevisibilidade esperada que nos faz voltar, semana após semana, para ver como o capítulo seguinte será escrito.

    (e cheguei atrasado ao estádio, o que não é, certamente inesperado; salva-se que, no meio disto, esgotaram-se as doses de farnel, donde resultou que me desenrascaram apenas um pacotinho de batatas fritas, uma água e, vá lá, uma bifana verdadeira)

    Continuemos. Vejamos o exemplo do Glorioso e do seu arqui-adversário da Segunda Circular. Ainda há pouco mais de um mês, a Liga portuguesa arriscava ser um imerso marasmo. O Sporting de Amorim limpava tudo com uma surpreendente facilidade, cabazadas a eito, e o Benfica em estado de letargia tão desinspirada que já nem a mais fervorosa das águias acreditava numa reviravolta.

    Sob a direção de Roger Schmidt, nem um pingo de pressão, muito menos de criatividade, parecia ter perdido o fôlego, arrastando-se por uma sequência de exibições que fazia os adeptos suspirarem pela próxima época como a única salvação possível. Mas, como no futebol e na vida, as coisas nunca são tão simples nem tão lineares. E eis que assim se Schmidt, e o Sporting viu o seu treinador de sucesso rumar ao Manchester United – e num picar de olhos, a realidade altera-se. O Benfica feito carta fora do baralho, já está em posição de líder virtual, ‘bastando-lhe’ sair vitorioso deste Vitória e do jogo em atraso contra o Nacional, se os nevoeiros se escafederem em nova visita, que o ex-benfiquista João Pereira tratou de escavacar os lagartos depois da debandada de Ruben Amorim para a Velha Albion.

    (e gooooooooooloooooooooooo!!! Benfica… Aktürkoğlu, ao minuto 29, a desbloquear o nulo; isto estav a difícil, com as ofensivas muito afuniladas; venham mais agora, que já temos luz verde para a vitória)

    De facto, há algo profundamente filosófico neste jogo de incertezas. Heraclito dizia que “tudo flui”, que nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio. No futebol, é certo que nunca se joga duas vezes o mesmo jogo, mesmo quando o adversário é o mesmo e as equipas tenham as mesmas caras. O golo inesperado, o erro do árbitro (ou do VAR), o ressalto fortuito – tudo contribui para esta dança do imprevisível que transmuta o futebol num espelho tão claro da existência humana. E é nesse fluxo constante, nessa impossibilidade de prever o que vem a seguir, que encontramos o fascínio deste desporto.

    Mas não é só a filosofia que encontra eco no futebol. Também a História, com as suas vitórias e derrotas inesperadas, parece partilhar da mesma lógica. O futebol, nesta imprevisibilidade que tanto o define, reflecte o melhor e o pior da vida. A narrativa do Benfica encontra – exagero, claro! – paralelos históricos que mostram como os momentos de maior adversidade podem ser os precursores de vitórias inesperadas.

    (intervalo, e espero que o descanso dê mais alento ao Benfica, que me parece ago inquieto com este atrevido Guimarães)

    Enquanto o descanso dos guerreiros decorre, um pouco de História: lembremo-nos do desembarque de Dunquerque, durante a Segunda Guerra Mundial. Em Maio de 1940, as tropas britânicas e aliadas estavam cercadas pelas forças alemãs na costa francesa, e a situação era desesperante, e a derrota inevitável na apoarência. Mas, num acto de coragem e engenho, a Operação Dínamo mobilizou civis e militares para uma das mais extraordinárias evacuações da História. Mais de 300 mil soldados foram salvos, um feito que, embora não fosse uma vitória no sentido convencional, representou uma viragem moral e estratégica que mudou o curso da guerra. Foi um exemplo claro de como a resiliência, a esperança e a acção coletiva preparam aquilo que seria uma derrota iminente num triunfo inesperado.

    (e começa a segunda parte)

    Continuemos… e isto para, evitando mais exemplos bélicos, não introduzir aqui em detalhe a Batalha de Inglaterra, que se seguiu a Dunquerque. A Royal Air Force, em inferioridade numérica face à Luftwaffe, conseguiu defender os céus britânicos dos contra-ataques devastadores, demonstrando que a determinação e a coragem podem superar probabilidades aparentemente intransponíveis. O futebol, tal como a História, está, pois, repleto destes momentos em que o improvável se torna possível, em que as narrativas são subitamente invertidas, mudando o desespero em esperança e a fraqueza em força.

    Por isso, quando o Sporting decidiu apostar num treinador novato como João Pereira, muitos riram-se da ousadia ou da ingenuidade. E, no entanto, essa decisão, aparentemente inocente, foi o catalisador para que o Benfica encontrasse espaço para se reerguer. O futebol, como a vida, tem destas ironias deliciosas. Pequenos gestos, pequenos desvios, podem gerar mudanças monumentais. É a teoria do caos em acção: o bater de asas de uma borboleta em Manchester pode mesmo gerar um cataclismo em Lisboa.

    (ui… o Florentino a inventar, bola a ressaltar para o Guimarães, e nem sei como não foi golo nem sei, mesmo com repetição na televisão, se o corte do Otamendi, in extremis, pode ter sido feita sem as mãos; o VAR é soberano!)

    Mas o futebol nem é só isto que eu estava aqui a dizer. É também uma celebração do presente, uma pausa na lógica e na racionalidade do dia-a-dia para vivermos o agora em toda a sua intensidade. Quando estou no estádio, entre cânticos e gritos, embora eu seja bastante comedido na Varanda da Luz, ou os leitores e leitoras em frente à televisão a sofrer pelo golo que tarda em chegar, não há ontem nem amanhã. Há apenas aquele instante, aquele momento de esperança, de angústia ou de êxtase puro. É por isso que o futebol, mais do que um desporto, é uma experiência existencial. É, como diria Camus – não sei bem se disse, ouvi dizer –, o lugar onde “aprendemos que uma bola nunca vem para nós como esperamos”.

    E o Benfica, nesta temporada, mostra-nos como o futebol e a vida se entrelaçam. Não há finais garantidos, não há glória sem risco, não há narrativa que não possa ser reescrita. É a incerteza que dá sabor às vitórias e torna as derrotas suportáveis. Ser líder virtual não é ser campeão, e os próximos meses serão uma montanha-russa emocional onde tudo pode acontecer. Mas, para já, o Benfica é a prova viva de que, no futebol como na vida, nunca se deve subestimar o poder do improvável.

    E é isso que faz do futebol uma delícia. Porque, no final, o que nos prende ao jogo não é a previsibilidade, mas a promessa do inesperado. O golo que surge contra todas as probabilidades, o passe mágico que desarma a defesa, o falhanço que nos faz rir e chorar ao mesmo tempo. É no futebol que encontramos a essência da vida – essa mistura de caos e beleza, onde cada segundo é uma oportunidade de redenção. E, no fundo, é isso que nos mantém vivos. E a sonhar.

    (lá em baixo, o jogo anda vivo, mas eu gostava que estivesse morno, porque o Guimarães me parece mais próximo do empate do que o Benfica de marcar mais um)

    Não desejo cantar já vitória, mas a trajetória do Benfica nesta temporada ganhará, se vencermos, uma dimensão quase épica. Há poucos meses, os adeptos pareciam estar num estado de luto antecipado. Num piscar de olhos, a lógica foi subvertida, e o caos organizou-se em algo que parece agora uma caminhada rumo à glória. A liderança virtual não é ainda o título, mas é uma lembrança poderosa de que no futebol, tal como na vida, a única constante é a mudança.

    Mas continuemos a filosofar, enquanto ali o jogo caminha para o final, com alguns estrebuches do Vitória que me estão a pôr nervoso. O futebol é, por outro lado, também uma celebração do presente, algo que o distingue de quase todas as outras áreas da vida. Quando um golo é marcado no último minuto, nada mais importa. Não há passado nem futuro, apenas aquele momento puro de emoção. É por isso que este desporto, além de ser um reflexo da vida, é também uma lição sobre como viver. Na Varanda da Luz, ou em frente à televisão, os adeptos não pensam no amanhã; vivem o agora com uma intensidade que transcende o racional.

    (eu já só quero que isto acabe, porque não há crónica do que aquela que nasce com o rei na barriga, ou seja, com a vitória antecipada e, depois, redunda num desastre, e eu quero mesmo ir a Alvalade, com o Carlos, no dia 29, com o Benfica à frente do campeonato)

    Esta será a maior delícia do futebol: a sua capacidade de nos lembrar que a vida é feita de momentos. Momentos que, como o desembarque de Dunquerque ou a Batalha de Inglaterra, nos mostram que nem tudo está perdido, mesmo quando tudo parece estar contra nós. O Benfica, nesta temporada, é mais do que uma equipa de futebol; é um símbolo da resiliência e da força do improvável. Porque, no fundo, no futebol como na vida, nunca se deve subestimar o poder da surpresa – é nela que reside a verdadeira magia.

    E o jogo acabou e eu estou aliviado… Acho que quarta-feira só aqui venho, para assistir ao jogo contra o Bolonha, apenas para descontrair. Até porque ainda estou a lembrar-me daquela desgraça que foi contra o Feyenoord.


    E sobre o jogo contra o Bolonha, não há muito a dizer. Foi uma nulidade. Um nulo, de que pouco ou nada se deve dizer.


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  • Porto 4.1

    Porto 4.1


    Cheiinho de razão estava o espanhol Ortega y Gasset, que, apesar do nome, era um só: “Eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim”. De facto, também eu sou a interdependência entre mim e o ambiente que me rodeia. Por muito que me jugue capaz, eu, tal como os demais, sou moldado, condicionado e influenciado pelas circunstâncias em que vivo, ou seja, pelo contexto social, histórico, cultural e material em que me insiro. Isto, no geral; porque, no particular, sou mais moldado, condicionado e influenciado por pequenos acasos, pequenas circunstâncias, pequenos condicionalismos, pequenos nadas.

    Por exemplo, se por natureza tenho uma inclinação, que muito me prejudica, em andar a correr atrás do tempo – isto é, a lutar in extremis para não chegar atrasado –, hoje está cheguei bem cedo aqui à Varanda da Luz, mas por razões circunstanciais associadas, hélas, a um atraso. Quer dizer: na perspectiva do Benfica, cujos (simpáticos) serviços consideraram que eu me atrasara no envio no pedido de acreditação, e na troca de e-mails do dá ou não dá, e investido do Estatuto de Jornalista na mão, como um Camões de manuscrito de ‘Os Lusíadas’ na mão, decidi vir para os lados de Benfica para, se necessário fosse, tirar desforço. Não valeu a pena, porque, enfim, me enviaram, entretanto, mensagem electrónica confirmando a acreditação, donde se conclui que, por força de um (alegado) meu atraso, as circunstâncias precipitaram uma chegada antecipada. E mesmo assim dando tempo – ou seja, aproveitando o tempo, para não o perder noutra circunstância – de ir antes do jogo à Estrada de Benfica por mor de uma investigação em curso… sairá na próxima edição, assim espero.

    Por esta (afinal) feliz circunstância de chegar mais cedo (uma hora), garantido está que não vou perder, em princípio, qualquer golo, como amiúde sucede quando me agacho para meter a ficha do computador na tomada, já no decurso do jogo. Já perdi dois golos, pelo menos, à conta disso… Hoje, já está tudo a carregar bem carregado… Também estou com fé por ter entrado, desta vez, pela via do Colombo, e não pelo Alto dos Moinh. Pelo menos, a ‘paisagem’ foi diferente.

    (… e, entretanto, começou o jogo…)

    Por falar em dois golos: como é possível o Sporting de Braga ter estado a ganhar por dois golos a zero, e depois levantar quatro ‘secos’ do Sporting na segunda parte? Credo! Ainda bem que o Ruben Amorim vai para as terras de Manchester! E já vai tarde…

    E por falar em dois golos e no Sporting…

    (goloooooooo. Benficaaaaa: Alvaro Carreras, o espanhol, com um belo remate, antecedido de um passe de trivela, estranho pela posição, de Tomás Araújo; assim já can um!)

    Isto já está a animar. Mas continuemos…

    Estava eu a falar – ou, melhor dizendo, a escrever – sobre golos desperdiçados e sobre o Sporting, e isto é um déjà vu: há dias, enfim, fui até Alvalade, esperando ser presenteado com uma sandes de leitão de Negrais, enquanto assistia a uma cabazada fornecida aos lagartos por Bernardo Silva & Ca., para assim me rir na cara do Carlos Enes, mas tudo se esfumou por obra e graça de Santo Amorim’. Não, a sandes, que essa, afinal, nunca chegou. Aquilo que se esfumou foi a possibilidade de assistir in loco, a uma reviravolta épica sob a batuta de um benfiquista. E tudo porque não houve sandes de leitão, coisíssima nenhuma, nem uma bolachita de água e sal.

    Aliás, aqui me penitencio, desde já, por andar, há muito, a ironizar, com sarcasmo, em redor do famigerado farnel do futebol (FFF), ofertado pelo Benfica aos jornalistas, e que, de ordinário (no sentido, de ser vulgar ou comum), consiste numa sande de conteúdo interior (relativo ao panificado) nem sempre identificável, em uma singela peça de fruta (hoje foi maçã), de uns acepipes (hoje saiu batata frita em pacote pequenino) e garrafinha de água (de pH básico, próximo da lixívia).

    (chiça! Mas o Otamendi agora lembra-se que jogou no Porto, e faz mais uma fífia de tudo o tamanho; e sai um golo para os tripeiros)

    E chega o intervalo, e continuemos…

    Ora, aqui, com o FFF, não corro, digo já, o risco aqui no Estádio da Luz de ter de sair para comprar umas asas de frango a um qualquer McDonald’s, como sucedeu com o Carlos Enes. Resultado: perdemos dois golos, porque não deu para fazer todo o percurso antes do início da segunda parte. Hoje, não vou perder nenhum. Mas tenho esperança de que o resultado seja similar: 4-1, depois estar também 1-1 ao intervalo.

    (e recomeça o jogo)

     … E estou aqui a ver que não vamos repetir o feito do Amorim. Já passaram quase 10 minutos, e nada…

    (… e golooooooo. Angel Di Maria!!! Já está!!!)

    E eu hoje, estou como estive noutros jogos, com pouca vontade de escrever e com mais vontade para assistir… Vou ver se isto agora vai encarreirar…

    (… e encarreirou!!! Bastaram seis minutos, e já entrou mais um; nem sei se foi golo do Benfica ou auto-golo do Porto; pouco interessa: já está 3-1)

    Deixa-me ver se encontro no WhatsApp o especialista do PÁGINA UM também em comentário desportivo, sobretudo do Benfica, corrosivo quando correm mal: Tiago Franco…

    Estou já a meter-lhe uma cunha…

    … e está garantido um textinho, a ser metido aqui nesta crónica. Posso então meter o computador no saco… Ou não. Tenho de meter aqui o próximo golo do Benfica, para meter o treinador do Porto com o ‘melão’ do Pep Guiardiola em Alvalade…

    (e é penalty para o Benfica… Di Maria para marcar e… marca: 4-1. Caramba, espero ainda mais!)

    Mas não houve mais, embora pudesse haver. Uma noite perfeita, muito similar aos quatro ‘secos’ metidos ao Atlético de Madrid, não fosse a fífia do Otamendi.

    Concedamos, então, agora, o merecido espaço à análise do Tiago Franco, que percebe da poda muitíssimo mais do que eu, o que não seria difícil, uma vez que eu percebo zero… Por isso mesmo, disfarço com estas crónicas…

    Esta era a noite do primeiro grande teste a Bruno Lage. A Liga dos Campeões permite alguns fogachos aos clubes portuguese, que, na melhor das hipóteses, terminam nos quartos de final. Portanto, é no campeonato e, em especial, contra o maior rival deste século, que se vê o que se pode esperar desta equipa.

    Vítor Bruno deu uma ajuda a Bruno Lage, deixando Pêpê no banco, e apresentando um 11 onde o perigo se resumia a Samu e Galeno. O Benfica apareceu com o seu melhor 11 e dominou do princípio ao fim, ficando a dever a si próprio a possibilidade de uma goleada histórica. O golo de Samu surge de um erro de Otamendi, e depois de uma pausa de jogo forçada, num momento em que o Benfica carregava na área do Porto…

    Aqueles adeptos especiais, que lançam tochas, quando a sua equipa está por cima do jogo, deveriam ter direito a um subsídio do Governo para a compra de capacetes e esponja de parede.

    Falando em gente especial: sempre que vejo este miúdo Carreras a correr, driblar adversários, marcar golos e iniciar jogadas de ataque, lembro-me de tempos não muito distantes em que ele se sentava naquele banquinho, ali ao lado, a ver o Morato a chutar contra os adversários. Bruno Lage não é o meu treinador de eleição, mas é um treinador, algo que já não havia na Luz há dois anos. Tem um plano de jogo, estuda os adversários, mexe a partir do banco. Passou o teste, era este o teste.

    Vítor Bruno com um plantel fraco, tal como Sérgio Conceição, não mostra a mesma arte deste em meter aquela gente a espumar da boca mal avistam o Colombo. O Porto joga pouco, as soluções não abundam. O Benfica também não enche o olho, convenhamos, mas tem uma equipa consideravelmente melhor e, parece-me, mais competência no banco.

    Di Maria é, na realidade portuguesa, ainda um extraordinário jogador.  O trio de meio-campo é este, com Florentino na recuperação e Kökçü e Aursnes na saída. Não é preciso inventar, basta meter os 11 melhores. Foi o que Bruno Lage fez, mas com uma chamada de atenção a Otamendi: está a precisar de banco, e o Benfica está mesmo a pedir aqueles dois miúdos no centro da defesa.

    Uma nota final para dizer que, embora o Porto seja o tradicional rival neste século e portanto, a vitória é saborosa, a competição este ano será contra o Sporting. E esses, até ver, estão uns furos acima de Benfica e Porto. Rezemos pelo fim do efeito Ruben. Sem acento.

    E em Dezembro há mais.


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