As primeiras eleições Presidenciais em democracia irão cumprir 50 anos em Junho do próximo ano, tendo resultado na eleição do general Ramalho Eanes como o primeiro Presidente da República após o 25 de Abril de 1974. Agora que estamos na iminência de voltar a ter um militar em Belém, convém lembrar como se deu a escolha de Eanes pelos militares e políticos de então.
Para tal, servimo-nos de fontes públicas relacionadas com alguns dos principais protagonistas. Comecemos com o líder do PS, Mário Soares, que nas entrevistas a Maria João Avillez contou como tratou o assunto durante um almoço com Melo Antunes, Vítor Alves e Vasco Lourenço, no Hotel Rex, – que ainda hoje existe na Rua Castilho. É uma informação que podemos encontrar página 24 do livro “Democracia”, edição Círculo de Leitores, 1996.

Os convivas do almoço falaram sobre a questão presidencial e, apesar do nome de Soares até ser uma opção, ainda assim o então líder socialista achava que “o País ainda não estava pacificado; as instituições eram débeis; o Partido Comunista – e os seus aliados, civis e militares – detinham ainda um poder forte”.
Para Soares, não havia dúvidas: o Presidente da República tinha de ser um militar. Quem? Sobre isso, Soares não quis indicar um candidato específico, mas permitiu-se a mencionar aos militares os nomes que o PS estaria disposto a aceitar como os “possíveis”: Costa Brás, Firmino Miguel, Pires Veloso e Ramalho Eanes.
Soares não diz – nem a jornalista perguntou (ou se perguntou, depois não o escreveu na entrevista) – em que dia terá sido esse encontro. Mas podemos sempre inferir que foi após as primeiras eleições gerais, a 25 de Abril de 1976, aquelas que o PS venceu, embora sem maioria absoluta. E o que nos permite pensar nisso? Por causa daquilo que Soares afirmou a Maria João Avillez quando justificou o primeiro nome, Costa Brás, que era então ministro da Administração Interna e “responsável pelo êxito logístico da realização das primeiras eleições livres”. Portanto, o nome de Costa Brás estava em alta na “bolsa” política após essas eleições.
Soares disse sobre Firmino Miguel, ministro da Defesa no II Governo Constitucional, que era um militar “com o qual o PS se entendera sempre bem” e, quanto a Pires Veloso, Comandante da Região Militar do Norte, apoiava-o por ser “o nosso principal aliado no Norte, nas lutas contra a ameaça comunista”. Finalmente, Eanes, porque alcançara o seu estatuto público como o militar do 25 de Novembro de 1975 e era então Chefe de Estado-Maior do Exército.

O que se seguiu após deste almoço pode ser depreendido ao lermos o livro-entrevista de Vasco Lourenço a Maria Manuela Cruzeiro – “Do Interior da Revolução”, Âncora Editora, 2009. Contou o actual presidente da Associação 25 de Abril, na página 483, que não tinha uma opinião positiva em relação a Pires Veloso: “Depois do 25 de Novembro, em que ele se inseriu perfeitamente no Grupo dos Nove, considero que se ligou a forças pouco democráticas, por mais que apregoassem o contrário, enveredando por procedimentos, no Norte do País, francamente reaccionários e anti-25 de Abril”, afirmou.
É então, na sequência desta crítica a Pires Veloso, que, sem que Maria Manuela Cruzeiro tivesse necessidade de mencionar a entrevista de Maria João Avillez a Soares, Vasco Lourenço contou um “episódio interessante” sobre Pires Veloso. E que episódio era esse? Precisamente como se escolheu o militar que deveria ser candidato a Presidente da República em 1976.
Conta Vasco Lourenço que, em data não mencionada, teve um encontro, no Forte de S. Julião da Barra, com mais oito membros do Conselho da Revolução, militares do Exército, mandatados para encontrar um candidato a Presidente da República, já que o então Presidente, Costa Gomes, não desejava continuar no cargo que lhe tinha sido entregue após a demissão de Spínola, no 28 de Setembro de 1974 – uma data quase esquecida, essa, a da “Maioria Silenciosa”.

Relata Vasco Lourenço que, “após alguma discussão, onde não se vislumbrava uma solução”, Pires Veloso deu “um passo em frente” e disponibilizou-se para “se sacrificar”. Vasco Lourenço, que achava Pires Veloso “um homem de mão” do líder do então PPD, Sá Carneiro, sorriu e disse que não era necessário esse “sacrifício”. Votaram então, de braço no ar, em duas hipóteses: Costa Brás ou Ramalho Eanes. Este último, igualmente presente nesse encontro, foi escolhido com sete votos a favor e dois contra. Os votos contra tinham sido de Vasco Lourenço, que queria manter Eanes à frente do Exército, e o outro fora do próprio Eanes.
Mas Pires Veloso tem uma outra memória de como decorreu a discussão que levou àquela votação. Contou ele na sua autobiografia “Vice-Rei do Norte – Memórias e Revelações”, Âncora, 2008, (pág. 431), que o seu nome na lista de preferência de Mário Soares até era o segundo, atrás de Firmino Miguel e antes de Costa Brás. Eanes era o último da lista. Recorda o Vice-Rei do Norte que foi chamado, com um dia de antecedência, para uma reunião em São Julião da Barra, só com conselheiros do Exército.
“Quanto perguntei o motivo dessa reunião, foi-me dito que ia ser escolhido quem devia ser o próximo Presidente da República das Forças Armadas, tendo eu exclamado: ‘Que democracia é esta?’ Ninguém me informou de que esta reunião havia sido convocada para dar resposta à proposta do Partido Socialista”, escreveu na sua autobiografia.

De acordo ainda com as palavras de Pires Veloso, a reunião teve início “com o Melo Antunes a dizer que se tornava necessário escolher o Presidente da República e que, no seu entender, devia usar óculos escuros, ser magro, ter patilhas compridas, ser sério, gostar muito do camuflado”.
O Vice-Rei do Norte não estava para meias palavras, interrompeu o conselheiro e atirou: “Ó Melo Antunes, diga que o Presidente da República tem de ser o Eanes!” Mas essa tirada não impediu Melo Antunes de prosseguir como se nada tivesse passado, “a bater sempre na mesma tecla, com ares de dominador”, descreveu na sua obra.
Por volta do meio-dia, Pires Veloso disse que tinha de sair e a reunião foi interrompida. Conta que, à saída, Eanes o abordou dizendo que estavam todos “na mesma barca” e que “um de nós tem de se lixar”, ao que o conselheiro respondeu: “Lixe-se o senhor!”, e foi à sua vida, pois tinha de estar em Cascais às 13h00. A reunião retomou da parte da tarde, com Pires Veloso a recordar o momento como “uma farsa, onde o Melo Antunes ia ditar a sua sentença, não lhe prestei grande atenção, nem me preocupei minimamente com o resultado da votação”.

Em jeito de conclusão sobre este momento decisivo na escolha do futuro chefe de Estado de Portugal, Pires Veloso ainda acrescentou na autobiografia que “eu também devo ter votado no Eanes, mas nessa altura ainda acreditava nele”, tendo ficado guardado na memória a capacidade de Melo Antunes em “dominar as pessoas, nas reuniões e assembleias”.
Mas a história não acabou aqui. O que se seguiu é ainda mais revelador dos bastidores políticos na escolha do primeiro candidato vencedor à Presidência da República. Apesar de Vasco Lourenço não mencionar a data da reunião em S. Julião da Barra, o mais certo é esta ter acontecido na noite de terça-feira, 27 de Abril de 1976, pois o que se seguiu está publicado nos jornais da época, embora sem os detalhes que saíram das entrevistas separadas no tempo a Mário Soares e Vasco Lourenço.
Ainda na voz de Vasco Lourenço, e segundo a sua versão depois da reunião em S. Julião da Barra, Pires Veloso “foi para Cascais, para uma estalagem de um familiar do Tomás Rosa onde estavam reunidos alguns dos militares da Força Aérea. Chegou e informou do que se passara. De imediato telefonaram a alguém do PPD, penso que ao Marcelo Rebelo de Sousa – linda peça! – que contactou o Sá Carneiro”. Pires Veloso, por sua vez, na autobiografia, nunca deu qualquer explicação do que fez nessa noite após a reunião.

/ Foto: Arquivos RTP
Explicou ainda Vasco Lourenço que o líder do PPD foi a correr, de manhã cedo, para a frente das instalações do Estado-Maior do Exército, a Santa Apolónia, onde abordou Eanes à entrada, dizendo-lhe que era o preferido do partido e queria fazer o convite oficial para ser o candidato do PPD a Belém. Assim, o líder do PPD ultrapassou o adversário político socialista, Mário Soares, colocando-se na liderança para a escolha do futuro Chefe de Estado.
A Imprensa foi também avisada dessa decisão, sendo esta uma jogada política de antecipação que permitia a Sá Carneiro, que ficara em segundo lugar nas eleições realizadas dois dias antes, associar o seu nome, e do partido, ao candidato a Presidente da República que tinha mais hipóteses de ser o vencedor, já que contava com o apoio de uma parte importante dos militares do Conselho da Revolução e do PS.
“Está mesmo a ver a minha cara, quando cerca das onze horas telefono ao Mário Soares a dar-lhe conhecimento da nossa decisão e ele, pouco satisfeito, me informa que a rádio já anunciara o convite do PPD ao Eanes!”, comentou Vasco Lourenço na entrevista a Maria Manuela Cruzeiro.

Voltemos a Mário Soares e à entrevista a Maria João Avillez: “Quando os militares me informaram que a preferência entre os quatro militares propostos recaíra no nome de Eanes, reunimos a direcção do PS, na Rua da Emenda, onde se combinou que Salgado Zenha e eu próprio nos encarregaríamos de fazer o convite formal do PS a Eanes, para que se candidatasse às eleições presidenciais”. Soares seria surpreendido com a notícia do apoio de Sá Carneiro, que surgiu “horas depois”, segundo se recordava. Para Soares, a fuga da informação teria ocorrido ainda nessa noite, via Jaime Gama, que teria encontrado “ocasionalmente” Ângelo Correia, a quem disse que Eanes foi o nome escolhido pelo PS.
A jornalista Maria João Avillez, na entrevista a Soares, chamou a atenção para o facto de que a sua própria versão “não é essa”. Soares adiantou então que “noutra versão, que não posso afirmar como segura, terá sido Rui Vilar que deu a notícia a Marcelo Rebelo de Sousa”, sendo que Soares soube depois do apoio do PPD “pela imprensa da manhã”.
Há um nome comum que se destaca nestas duas versões, baralhadas nas brumas da memória pelos avós da democracia Soares e Vasco Lourenço e que é Marcelo Rebelo de Sousa, o actual ocupante da cadeira de Belém.

E onde estava Marcelo quando tudo isto aconteceu? Naquela altura não havia telemóveis para mandar mensagem SMS, não havia aplicações como WhatsApp ou Telegram para trocar mensagens privadas a altas horas da noite. Se alguém telefonou para Marcelo desde a taberna de Cascais, será que ligou para sua casa? Ou para a sede do PPD? Para um restaurante? Ou para o Expresso, a sede informal do PPD?
Uma consulta on-line aos arquivos do jornal Diário de Lisboa permite verificar duas coisas que confirmam factos cruzados nesta história de bastidores: numa pequena informação na primeira página da edição de quarta-feira, 28 de Abril (a publicação era vespertina, saliente-se, ou seja, um jornal colocado à venda depois do meio-dia, com as notícias frescas dessa manhã), podemos ler, debaixo do título “A candidatura de Ramalho Eanes”, que “o apoio do PPD foi confirmado esta manhã ao ‘DL’ depois de anunciado, na madrugada de hoje pela agência ANOP”.

No interior da mesma edição do dia 28 de Abril, na página 5, temos a notícia, de que, “ontem à noite”, na SEDES – Sociedade de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social –, fundada em 1970 por Rui Vilar, tivera lugar um debate para análise dos resultados eleitorais “que contou com a participação de Marcelo Rebelo de Sousa (PPD) e Medeiros Ferreira (PS)”.

E se mais dúvidas houvesse, eis que Marcelo Rebelo de Sousa, em entrevista a Vítor Matos para a biografia de Novembro de 2012, na Esfera dos Livros (pág. 314), confirmou que, depois da sessão na SEDES, perto da sede do Expresso, na Duque de Palmela, cruzou-se com Rui Vilar que lhe contou do fumo branco decisão em S. Julião da Barra. Marcelo ainda pensou ir comer uma sanduíche no restaurante Pabe antes de seguir para a reunião que estava a decorrer na sede do PPD, não longe dali, no cimo da Duque de Loulé. Mas, com ele, estava António Patrício Gouveia que insistiu para que fossem imediatamente informar Sá Carneiro.
Na Duque de Loulé ainda se discutiam os nomes de outros possíveis candidatos a apoiar, com Pires Veloso e o primeiro-ministro, almirante Pinheiro de Azevedo, como hipóteses. Assim que Sá Carneiro percebe o valor da informação, rapidamente confirma com Pires Veloso através de um telefonema e informa o partido da decisão. Helena Roseta, qual pitonisa, avisa que “ainda se vão arrepender”. E assim aconteceu, o que levou depois Sá Caneiro a ter de apoiar Soares Carneiro em 1980.
Portanto, cruzando as memórias de Mário Soares com as de Vasco Lourenço e juntando ainda os factos jornalísticos públicos relativos a Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Vilar – este tinha sido eleito deputado do PS dias antes –, vemos que a história de bastidores mais aproximada da verdade dos factos coloca Mário Soares no almoço, no Hotel Rex, presumivelmente após as eleições de domingo, 25 de Abril de 1976, seguindo-se a reunião dos militares em S. Julião da Barra, na noite de terça-feira, 27, com a informação, ainda nessa noite, a resultar na conversa entre Rui Vilar e Marcelo Rebelo de Sousa e, daí, com Marcelo a ir até à sede do PPD, então na Duque de Loulé, onde estava Sá Carneiro numa reunião pós-eleitoral e, após ser informado, decidiu comunicar aos seus militantes – alguns chorosos – que o candidato do PPD já não seria Pires Veloso, mas tinha de anunciar o apoio do partido a Eanes, com a notícia a ser enviada para a ANOP, nessa mesma noite, a tempo de sair na rádio e nos jornais vespertinos de quarta-feira, 28, levando Soares a ser ultrapassado pelo timing político de Sá Carneiro.

Quem se mostrou bastante crítico desta manobra tácita de Sá Carneiro e achava que o apoio do PPD a Eanes era um “beijo de morte” ao candidato foi a embaixada dos EUA em Lisboa, onde estava Frank Carlucci, futuro director-adjunto da CIA. Num telegrama diplomático norte-americano, datado de 29 de Abril, podemos ler que a embaixada em Lisboa era da opinião de que “o apoio do PPD a Eanes vai prejudicar mais do que ajudar. Uma vez mais, o PPD reagiu de forma apressada e agressiva face a uma situação que percebeu ser ameaçadora”.

E a embaixada liderada por Carlucci sabia bem do que falava, pois o anúncio de Sá Carneiro adiou a decisão do PS que, finalmente, acabaria por dar o seu apoio público a Eanes apenas a 10 de Maio, quatro dias antes do general ter feito o anúncio público a sua candidatura à Presidência da República.
E, como no final dos filmes, aqui fica um resumo do que aconteceu aos principais protagonistas nos anos seguintes:
Eanes foi eleito, a 27 de Junho de 1976, como o primeiro Presidente da República após o 25 de Abril, com o apoio do PS, PPD e CDS. Seria reeleito a 7 de Dezembro de 1980, mas sem o apoio do então líder do PPD/PSD e primeiro-ministro, Sá Carneiro, morto em Camarate três dias antes.

Mário Soares foi o primeiro Presidente da República civil após o 25 de Abril após ter vencido as eleições de 1986 contra o ex-líder do CDS, Freitas do Amaral, sendo reeleito em 1991. Perdeu uma terceira eleição em 2006 contra o ex-primeiro-ministro do PSD, e ex-ministro das Finanças do governo de Sá Carneiro, Cavaco Silva, que assim sucedeu ao ex-líder do PS, Jorge Sampaio, e foi reeleito em 2011.
Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente da República em 2016 e reeleito em 2021.
No início de 2026, 50 anos depois da eleição de Ramalho Eanes, Portugal está na iminência eleger um segundo militar como Presidente da República após o 25 de Novembro, caso não encontre soluções nas hipóteses civis.






























































