Categoria: Sociedade

  • Exportações de bivalves em risco, mas ministro da Agricultura diz ainda estar “a recolher” informação

    Exportações de bivalves em risco, mas ministro da Agricultura diz ainda estar “a recolher” informação


    Portugal arrisca uma suspensão preventiva da exportação de bivalves para o mercado europeu caso se confirme que o sistema de recolha de amostras sanitárias apresenta falhas estruturais ou conflitos de interesse, como aparenta ser o caso do sistema de monitorização do estuário do Tejo. A legislação comunitária prevê medidas de emergência sempre que existam dúvidas sobre a fiabilidade dos controlos sanitários realizados pelos Estados-Membros, podendo a Comissão Europeia impor restrições temporárias à comercialização de produtos de origem animal.

    Este risco ganha particular relevância se se mantiverem os esclarecimentos dúbios do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), que esta noite procurou afastar responsabilidades. Em comunicado, o instituto liderado por José Guerreiro afirma que “não possui competências em matéria de fiscalização da actividade de pesca ou de apanha, nem sobre os circuitos de comercialização de bivalves, matérias que são da responsabilidade das autoridades de fiscalização, regulação e policiais competentes”.

    José Manuel Fernandes, ministro da Agricultura e Mar. Foto: D.R.

    O IPMA não explica, contudo, como pode existir fiscalização efectiva quando o próprio sistema de monitorização sanitária apresenta fragilidades que permitiram a um empresário ludibriar os controlos ao ponto de entregar amostras de bivalves que nem sequer terão sido recolhidas no Tejo — e muito menos no local indicado.

    Acresce que, para aumentar a insegurança generalizada num sistema de monitorização que acompanha 27 moluscos marinhos, dos quais 23 espécies de bivalves, o próprio Ministério da Agricultura mostra pouco interesse em apurar responsabilidades num caso que poderá estar por detrás de mais de 400 intoxicações alimentares em cinco países europeus, como revelou ontem o Jornal de Notícias.

    Durante todo o dia, o PÁGINA UM colocou um conjunto de perguntas ao ministro José Manuel Fernandes, incluindo se o Ministério da Agricultura — que tutela o IPMA — tinha conhecimento dos ajustes directos (um dos quais de legalidade duvidosa) envolvendo uma das quatro empresas de Jaime Oliveira, que recebeu cerca de 70 mil euros em dois anos para efectuar colheitas no Tejo, apesar de ser parte interessada no sector e de estar acusado de falsificar amostras.

    Amêijoa-japonesa: será a ponta do iceberg do descontrolo da monitorização?

    “O Ministério da Agricultura e Mar não tinha conhecimento dos contratos mencionados, uma vez que o IPMA detém competências para conduzir esta tipologia de procedimentos pré-contratuais e para celebrar os respectivos contratos”, afirmou ao PÁGINA UM, esta noite, fonte do gabinete de José Manuel Fernandes.

    A mesma fonte acrescenta que “de acordo com o IPMA, o recurso ao amostrador em causa [Tagus Plus] remonta já ao anterior mandato do conselho directivo deste Instituto”, circunstância que, contudo, não surge registada no Portal Base. O gabinete do ministro acrescenta ainda que “perante a comunicação do Ministério Público, o contrato terá sido suspenso”, informação que também não consta daquele portal público de contratação.

    Embora a apanha de amêijoa-japonesa no rio Tejo esteja interdita desde 21 de Janeiro, por despacho do director-geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos, a própria fundamentação da decisão acaba por revelar o descontrolo existente no terreno, referindo a existência, em zonas não classificadas, de “capturas em zonas contaminadas por metais pesados”.

    José Guerreiro, actual presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Foto: D.R.

    Essa fraca capacidade de controlo da apanha de bivalves, mesmo em zonas contaminadas — que o próprio despacho acaba por reconhecer — pode ainda agravar a posição portuguesa perante as autoridades europeias e alimentar a desconfiança no consumo interno.

    E ainda mais quando o ministro da Agricultura nem sequer comenta se mantém confiança política em José Guerreiro que celebrou três ajustes directos com a Tagus Plus alegadamente sem sequer estranhar que se tratava de uma empresa unipessoal do secto dos bivalves detida por um empresário com mais outras três empresas similares. Diz apenas que “perante as questões apresentadas, o Ministério da Agricultura e Mar, em função da informação que está a recolher, actuará em conformidade”. Não adianta, porém, que tipo de informação está a ser recolhida.

    O enquadramento jurídico europeu sobre esta matéria sensível de saúde pública encontra-se sobretudo no Regulamento (UE) 2017/625, que exige que os sistemas nacionais de controlo alimentar garantam independência, imparcialidade e ausência de conflitos de interesses nas actividades que sustentam decisões sanitárias.

    No caso específico dos moluscos bivalves — considerados alimentos de risco elevado por acumularem bactérias e toxinas — o Regulamento (UE) 2019/627 determina ainda que a classificação sanitária das zonas de produção depende de amostragens representativas e de um sistema de monitorização fiável.

    Se as autoridades europeias concluírem que os dados utilizados para autorizar a apanha ou comercialização não são credíveis, a Comissão pode ordenar auditorias técnicas através da Direcção-Geral da Saúde e Segurança Alimentar (DG SANTE) e exigir medidas correctivas imediatas. Em cenários mais graves, a legislação permite suspender a produção ou restringir temporariamente a colocação no mercado de bivalves provenientes das zonas afectadas até que o sistema de controlo seja considerado seguro.

    clear drinking glass on brown wooden table

    Situações semelhantes já ocorreram no passado. Em Itália, por exemplo, várias zonas de produção da região da Campânia foram sujeitas a restrições e controlos reforçados após auditorias europeias terem detectado falhas na monitorização sanitária de moluscos.

    Fora da União Europeia, a Comissão Europeia chegou mesmo a suspender, há cerca de duas décadas, a importação de moluscos provenientes da China devido à falta de garantias sanitárias e a impor restrições temporárias a bivalves do Chile em episódios associados à presença de biotoxinas marinhas. Estes precedentes demonstram que Bruxelas pode intervir quando considera que a fiabilidade do sistema de controlo está em causa.

  • Escândalo das amêijoas contaminadas: Pescador que ‘enganou’ o IPMA afinal é um empresário com quatro empresas de bivalves

    Escândalo das amêijoas contaminadas: Pescador que ‘enganou’ o IPMA afinal é um empresário com quatro empresas de bivalves


    O presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), José Guerreiro, assinou três contratos por ajuste directo com o empresário Jaime Oliveira, através da empresa Tagus Plus, actualmente acusado pelo Ministério Público de falsificação de documentos relacionados com a recolha de amostras de moluscos bivalves no estuário do Tejo. O caso está na origem de um escândalo de intoxicação alimentar associado ao consumo de amêijoas em diversos países europeus.

    Os contratos, celebrados entre 2023 e 2025 com a empresa Tagus Plus Unipessoal, levantam várias questões quanto ao modo como foram adjudicados e executados. E não apenas por terem sido realizados por ajuste directo, mas sobretudo porque os serviços contratados — destinados à detecção de contaminações susceptíveis de levar à suspensão da apanha de bivalves — foram atribuídos a um empresário com interesses directos no sector.

    De acordo com a investigação do PÁGINA UM, Jaime Oliveira tem não uma, mas quatro empresas nesta área de actividade, todas ligadas à exploração e comércio de bivalves no estuário do Tejo. E está ligado ao sector da produção, apanha e comércio de moluscos, crustáceo e pescado há vários anos..

    O caso surge num contexto mais amplo de investigação judicial sobre a circulação de amêijoa contaminada proveniente do estuário do Tejo. Segundo o Ministério Público, foram contabilizados 348 internamentos hospitalares em Portugal, Alemanha, Suécia, Irlanda e Grécia associados ao consumo de amêijoa contaminada com bactérias Salmonella e E. coli. Em vários casos, tratava-se de amêijoa que nem sequer estaria apta para ser transformada em farinhas ou conservas para animais, mas que acabou por entrar no mercado de consumo humano, alegadamente falseada como amêijoa proveniente do estuário do Sado.

    Segundo notícia deste domingo do Jornal de Notícias, a investigação do Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa apurou que Jaime Oliveira, através da Tagus Plus — empresa unipessoal criada em 2017 — foi contratada pelo IPMA para recolher amostras de amêijoa no Tejo. No entanto, o empresário entregaria exemplares com origens diversas e níveis de contaminação dentro dos limites legais. Essas amostras eram utilizadas pelo instituto para definir se a apanha de amêijoa poderia ou não ser autorizada em determinadas zonas.

    José Guerreiro, actual presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), foi secretário de Estado do Ambiente

    Ao mesmo tempo, o empresário mantinha actividade de exportação de amêijoa para Espanha e estaria já envolvido em esquemas alegadamente ilegais. Em Outubro do ano passado, as autoridades espanholas apreenderam 140 quilos de amêijoa com guia emitida pela empresa Sal Quantum, uma das quatro empresas controladas por Jaime Oliveira, que tem residência conhecida em Sacavém, embora algumas das suas empresas tenham sede em Paço de Arcos.

    A escolha de Jaime Oliveira — e sobretudo de uma empresa pertencente ao próprio sector dos bivalves — permanece um mistério ainda não esclarecido. Todas as suas empresas desenvolvem actividades ligadas ao comércio de pescado e, em alguns casos, à depuração de moluscos bivalves. O PÁGINA UM ainda não conseguiu contactar José Guerreiro nem obter qualquer comentário do Ministério da Agricultura, que tutela o IPMA.

    Sabe-se, contudo, que a decisão foi assumida pelo próprio presidente do IPMA, que lidera o instituto desde 2023 e foi anteriormente secretário de Estado do Ambiente num governo de António Guterres, entre 1997 e 1999.

    A apanha de amêijoa-japonesa está actualmente interdita no estuário do Tejo. Fonte: IPMA.

    De acordo com a investigação do PÁGINA UM, o primeiro contrato para recolha de amostras de bivalves foi assinado a 9 de Outubro de 2023 e teve uma duração muito curta: apenas 75 dias, até ao final desse ano. O ajuste directo teve um valor de 12.750 euros. Apesar de o prazo de execução se estender até ao final do ano, o IPMA declarou já em 30 de Novembro de 2023 que o contrato tinha sido integralmente cumprido.

    O segundo contrato apresenta contornos ainda mais invulgares. Foi formalmente assinado apenas a 20 de Dezembro de 2024, com um valor contratual de 27.020 euros e um prazo de execução de apenas 11 dias. Foi precisamente esta duração inferior a 20 dias que permitiu que o contrato nem sequer tivesse de ser reduzido a escrito.

    Considerando os valores envolvidos, o prazo extremamente curto e o facto de não existir qualquer outro contrato ao longo de 2024, existem suspeitas de que se possa tratar de um contrato simulado. Em todo o caso, apesar de ter sido adjudicado por 27.020 euros, o contrato acabou por ser considerado integralmente executado apenas em 7 de Agosto de 2025, tendo sido pago o montante de 23.120 euros.

    golden gate bridge san francisco california

    O terceiro contrato, por sua vez, foi assinado em 10 de Janeiro de 2025, novamente por ajuste directo, no valor de 33.720 euros. Este acordo prolongou-se até 31 de Dezembro do ano passado e foi igualmente assinado pelo presidente do IPMA.

    Além da Tagus Plus, empresa que recebeu os contratos do IPMA, Jaime Oliveira é actualmente proprietário de outras três sociedades do mesmo sector: Tejo Mais, fundada em 2014 e sediada no Posto de Vendagem de Paço de Arcos, gerido pela Docapesca; Tejo Acima, criada em 2022; e Sal Quantum, criada em 2023 com sede na residência de Jaime Oliveira, em Sacavém.

    De acordo com a análise do PÁGINA UM, todas as quatro empresas apresentam uma característica que levanta suspeitas. Apesar de estarem todas sob o controlo de Jaime Oliveira, têm praticamente o mesmo objecto social, que inclui a depuração de bivalves, moluscos e crustáceos, bem como o comércio a retalho e por grosso, importação e exportação de pescado, moluscos e crustáceos, vivos e congelados.

    A Sal Quantum, porém, tem uma actividade comercial difícil de avaliar, uma vez que Jaime Oliveira não apresentou ainda as contas relativas aos exercícios de 2023 e 2024, estando apenas em curso o prazo para a entrega das contas de 2025.

    Apanha de bivalves no Tejo está proibida desde Janeiro. Contrato de recolha com a Tagus Plus terminou em Dezembro passado. Foto: D.R.

    Já a empresa Tejo Acima apresenta resultados financeiros invulgarmente elevados para uma estrutura aparentemente reduzida. Nas contas de 2024 registou vendas de cerca de 192 mil euros e um resultado líquido de 166.612 euros. A empresa não apresenta qualquer gasto com pessoal, indicando assim não ter trabalhadores, e declara apenas cerca de 23 mil euros em custos de mercadorias e 1.437 euros em fornecimentos e serviços externos. Com um capital social inicial de 1.000 euros, acumulou entretanto 374 mil euros em capitais próprios resultantes da acumulação de lucros.

    A Tejo Mais — que detém pequenas participações na Tejo Acima e na Sal Quantum, mantendo Jaime Oliveira o restante capital — apresenta um perfil distinto. Também sem trabalhadores, em 2024 registou um volume de negócios de apenas 1.395 euros e um resultado líquido negativo de 2.138 euros.

    Porém, no balanço desta empresa surge um elemento que suscita dúvidas fiscais relevantes: estão declarados cerca de 492 mil euros em créditos sobre sócios, o que contabilisticamente significa que a sociedade emprestou dinheiro ao seu próprio proprietário. Este tipo de operação pode funcionar como mecanismo de retirada de liquidez da empresa sem distribuição formal de dividendos, podendo ser uma ‘fuga ao fisco’ caso o montante não seja reembolsado ou não respeite condições normais de mercado.

    O IPMA é, actualmente, tutelado pelo Ministério da Agricultura, apesar de ter também a componente da Meteorologia e Clima.

    Quanto à Tagus Plus, empresa directamente contratada pelo IPMA, registou em 2024 vendas de cerca de 75 mil euros e um resultado líquido positivo de 29.879 euros, apresentando actualmente capitais próprios próximos de 43 mil euros.

    O percurso empresarial de Jaime Oliveira inclui ainda ligações anteriores a outras sociedades do sector dos moluscos e crustáceos. Foi sócio da empresa Azáfama Salgada, entretanto dissolvida em 2020, que tinha sede em Setúbal, e esteve também ligado à empresa Mariscos Oliveira & Trindade, sediada em Sesimbra, da qual vendeu a sua participação ao sócio em 2017.

    Leia a sequência desta notícia aqui.

  • Comida de rico, comida de pobre: Estado reduziu apoios financeiros aos colégios dos Salesianos em 37%

    Comida de rico, comida de pobre: Estado reduziu apoios financeiros aos colégios dos Salesianos em 37%


    Comida para os ricos e comida para os pobres — foi esta a realidade tornada hoje pública na escola dos Salesianos de Manique, através de uma notícia da Agência Lusa que revela que, na cantina daquele colégio privado do concelho de Cascais, são servidas refeições diferentes consoante os alunos frequentem o regime privado ou o regime financiado pelo Estado. A situação tem alimentado entre os estudantes relatos de discriminação e de nutrição diferenciada.

    Citada pela Lusa, uma fonte da Fundação Salesianos — que gere diversos estabelecimentos de ensino com quase oito mil alunos — confirmou a situação, atribuindo responsabilidades ao Estado pela insuficiência de apoios. O responsável da instituição explicou que “o Estado não nos permite vender as refeições do privado ao regime público”, sendo que essa limitação resulta do valor unitário bastante reduzido pago pelo Estado pelas refeições dos alunos abrangidos pelos contratos de associação ou por regimes equiparados.

    Segundo a mesma notícia, o Estado paga 1,46 euros por cada refeição, um valor que, de acordo com a instituição, não permite assegurar refeições equivalentes às servidas aos alunos do regime privado.

    De acordo com uma análise do PÁGINA UM às contas da Fundação Salesianos entre 2014 e 2024, os apoios do Governo e de entidades públicas — sobretudo do Ministério da Educação e da Segurança Social — atingiram um total de cerca de 71,6 milhões de euros, o que corresponde a uma média anual de 6,5 milhões de euros, embora com uma tendência claramente decrescente. Essa evolução tem contribuído para agravar a situação financeira da fundação, que apresenta prejuízos consecutivos desde 2020.

    Em 2014, os apoios do Estado ainda atingiam cerca de 10,4 milhões de euros, sendo esse o último ano em que ultrapassaram a fasquia dos 10 milhões. Mesmo assim, nos dois anos seguintes (2015 e 2016), o valor manteve-se ainda próximo desse nível, situando-se em 9,8 milhões de euros.

    A partir daí, contudo, iniciou-se uma trajectória descendente mais acentuada: em 2019 os apoios já tinham recuado para 5,9 milhões de euros, menos de 60% do montante registado cinco anos antes.

    Nos anos seguintes verificaram-se apenas ligeiras oscilações. Em 2020 e 2021, os subsídios subiram temporariamente para cerca de 6,2 milhões de euros, mas voltaram depois a diminuir. Em 2024, último exercício com contas disponíveis, os apoios públicos à fundação ficaram em 5,3 milhões de euros, confirmando uma redução estrutural no financiamento estatal às escolas geridas pela instituição salesiana.

    Comparando o quinquénio 2014-2018, com apoio médio anual de 9,2 milhões de euros, e o quinquénio 2020-2024, com 5,8 milhões de euros. a redução do apoio do Estado baixou, por ano 3,4 milhões de euros. Ou seja, menos 37%.

    Foto: D.R.

    A pressão financeira sobre a fundação não resulta apenas da redução dos apoios públicos. Apesar de as receitas totais da instituição terem aumentado nos últimos anos, os resultados líquidos têm sido negativos desde 2020, num ciclo de prejuízos consecutivos que já soma cinco exercícios.

    As contas analisadas pelo PÁGINA UM indicam que em 2020 a Fundação Salesianos registou um prejuízo de 707 mil euros, valor que aumentaria no ano seguinte para mais de 1,05 milhões de euros. Em 2022, o resultado negativo agravou-se para cerca de 1,6 milhões de euros.

    A situação atingiu o ponto mais crítico em 2023, quando a instituição apresentou um prejuízo de 3,23 milhões de euros, o valor mais elevado da série recente. Em 2024, embora o resultado negativo tenha diminuído, a fundação voltou a fechar o exercício com perdas de quase 1,2 milhões de euros. Somados os cinco anos entre 2020 e 2024, os prejuízos acumulados atingem cerca de 7,7 milhões de euros.

    A evolução das contas sugere que a fundação — apesar de praticar propinas que podem rondar 800 euros por mês — tem enfrentado uma pressão crescente entre o aumento dos custos operacionais, particularmente associados à gestão de estabelecimentos de ensino e infra-estruturas educativas, e a redução progressiva dos apoios públicos.

    A Fundação Salesianos gere actualmente uma rede de colégios e escolas com presença em várias regiões do país, combinando alunos que frequentam o ensino em regime privado com outros integrados em respostas financiadas pelo Estado, designadamente através de contratos de associação ou de mecanismos destinados a suprir insuficiências da rede pública de ensino.

  • Para doer e durar: Governo gasta 1,7 milhões de euros em cassetetes

    Para doer e durar: Governo gasta 1,7 milhões de euros em cassetetes


    As forças de segurança vão ter ‘cassetetes’ extensíveis, de alta resistência, novos e a brilhar. Mais precisamente, a GNR e a PSP vão receber 16.580 mil bastões no total. A compra já está feita pela secretaria-geral do Ministério da Administração Interna.

    No total, os contribuintes vão gastar 1.692.448,2 euros para armar agentes daquelas duas forças policiais do país. Ou seja, cada bastão custa ao erário público 102 euros (com IVA), mas têm garantia durante três anos.

    Foto: D.R.

    A compra foi efectuada na sequência de um concurso público lançado no âmbito do Programação de Infraestruturas e Equipamentos das Forças e Serviços de Segurança para os anos de 2025 e 2026. Contudo, o concurso público sofreu vários prolongamentos, para corrigir erros e omissões no caderno de encargos, acabando por se estender até 2026.

    A empresa vencedora – Antero Lopes Lda – é do mesmo armador que tem fornecido as forças policiais com bastões nos últimos anos.

    A compra foi dividida em dois lotes – um para cada força policial – e incluem o fornecimento de bastões extensíveis e de portas bastão.

    Os contratos foram adjudicados no passado dia 9 de Março. O contrato relativo ao fornecimento de bastões à Polícia de Segurança Pública, no montante de 846.224 euros (com IVA), abrange a aquisição de 8.290 bastões extensíveis. O contrato relativo ao fornecimento de bastões à Guarda Nacional Republicana, no mesmo valor, também prevê a entrega de 8.290 bastões extensíveis.

    Lego police officer holding a baton against dark background
    Foto: D.R.

    Em termos de requisitos ténicos, os bastões encomendados são de alta resistência, preparados para resistir em situações de carga extrema, fadiga e impacto. Assim, “cada secção do bastão deve ser fabricada em aço de liga 4140”, a superfície de contacto “deve apresentar uma dureza ≥ 49 na Escala Rockwell C”. Têm ainda de “ter uma tensão de rutura igual ou superior a 238,000 PSI e uma tensão de cedência igual ou superior a 215,000 PSI”, segundo a descrição constante no caderno de encargos do procedimento.

    Em termos de comprimento, quando abertos, devem medir de 50 a 52 centímetros. O peso máximo admitido é de 450 a 550 gramas.

    No caso dos bastões da PSP, na tampa do bastão deve ter colocado, em alto-relevo, a estrela patenteada daquela força policial.

    Foto: D.R.

    Já em Dezembro de 2023, o Governo comprou bastões à Antero Lopes, também através de concurso público. Na altura, foram gastos 1.323.942 euros (com IVA) na compras de bastões para a PSP e a GNR.

    Em anos anteriores, surgem também compras no Portal Base, mas de valores inferiores, designadamente um contrato, no montante de 214.020 euros (com IVA), adjudicado em Novembro de 2021 à Antero Lopes, e dois contratos, no valor global de 203.466 euros (com IVA), também adjudicados à mesma empresa. No total, desde 2018, preparar as forças policiais para, se necessário, poder “dar bastonadas”, já custou 3,4 milhões de euros aos contribuintes.

  • Autarquia da Amadora cria ‘Linha Bufo’ incentivando delação com  fotos e vídeos

    Autarquia da Amadora cria ‘Linha Bufo’ incentivando delação com fotos e vídeos


    A Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD), presidida por Paula Meira Lourenço, não mostrou, durante quatro dias, qualquer intenção de comentar as alegadas ilegalidades do novo sistema de de denúncias criada pela Câmara Municipal da Amadora, uma espécie de “Linha Bufo” que incentiva os munícipes a enviarem fotografias e vídeos de alegadas infracções relacionadas com deposição de entulho e resíduos no espaço público.

    O silêncio do regulador surge depois de o PÁGINA UM ter questionado a CNPD desde segunda-feira. A única reacção a um conjunto de questões sobre a legalidade deste mecanismo que solicita aos cidadãos dados pessoais sensíveis e imagens potencialmente identificáveis de terceiros — incluindo matrículas de veículos — surgiu na terça-feira passada, solicitando que fosse preenchido um formulário de contacto.

    Black and white close-up of a vintage camera held by a woman, capturing nostalgia.
    Município da Amadora promove criação de ‘Linha Bufo’, onde os cidadãos são incentivados a denunciar deposição de entulhos e lixo na via pública com o envio de fotos dos infractores e dos veículos, considerando-os “elementos de prova”. Foto: D.R.

    Contactados os serviços da CNPD, após essa estranha reacção ao pedido de esclarecimentos, ficou prometida uma respostas, mas, aparentemente, a presidente da CNPD, que teve tempo de estar na Assembleia da República na posse de António José Seguro, não terá ainda tido oportunidade de se debruçar sobre uma questão essencial das suas funções.

    A “Linha Bufo” – como poderá ser informalmente baptizada, embora em termos formais se chame ‘Missão: Cidade Limpa’ –, lançada na semana passada pelo município liderado pelo socialista Vítor Ferreira, inclui um formulário online onde o denunciante tem de preencher o seu nome completo, endereço de e-mail, número de identificação fiscal e número de telemóvel, descrevendo a alegada infracção e anexando aquilo que o próprio município designa como “Elementos de Prova”.

    Entre esses elementos de prova incluem-se fotografias ou vídeos do alegado infractor, sendo mesmo sugerido que os denunciantes indiquem dia, hora e local da ocorrência, bem como imagens “onde conste a matrícula do veículo do infractor”. Tecnologias à parte, a única diferença entre esta “Linha Bufo” e modelos de antanho, como aqueles que vigoravam no século XVIII em Portugal, é que o denunciador não recebe qualquer ‘comissão’ pela delação: a autarquia da Amadora apenas promete que, com base nessas denúncias, poderá actuar administrativamente e aplicar, a seu favor, coimas que variam entre 500 euros e cerca de 7.482 euros.

    O socialista Vítor Ferreira criou uma ‘Linha Bufo’ onde apela a denúncias usando fotografias e vídeos , como “elementos de prova”, que identifiquem os infractores.

    Contactada pelo PÁGINA UM, a Câmara Municipal da Amadora defende a iniciativa como um instrumento de participação cívica destinado a combater um problema que considera crescente na cidade. Segundo fonte oficial da autarquia, “a campanha lançada visa apelar à participação cidadã e cívica no combate a um flagelo que assola a cidade”, sustentando que o nível de deposição de entulhos, monos e outros detritos no espaço público se tornou “incomportável”.

    E diz ainda que, apesar do reforço da fiscalização municipal e do trabalho das juntas de freguesia, o fenómeno tem sido “absolutamente impossível de debelar”, sustentando que, no âmbito do envio de fotografias ou vídeos, a captação de imagens na via pública “só merece reserva quando estejam em causa a vida privada ou a dignidade dos visados, o que não é manifestamente o caso”.

    Contudo, juristas contactados pelo PÁGINA UM garantem que a criação desta “Linha Bufo” e dos mecanismos a si alicerçados levanta diversas questões jurídicas e tecnológicas, sobretudo num contexto em que a recolha e tratamento de dados pessoais e imagens de terceiros se tornou um dos temas centrais da regulação digital. Desde logo, a exigência de identificação completa do denunciante — incluindo número de identificação fiscal — levanta dúvidas quanto à proporcionalidade da recolha de dados, um princípio fundamental do regime europeu de protecção de dados.

    Câmara da Amadora considera fotos e vídeos de denúncias como “Elementos de Prova” para accionar processos de contra-ordenação. Foto: D.R.

    Mas as implicações não se ficam por aí. O incentivo explícito para que os cidadãos fotografem ou filmem alegados infractores — e que essas imagens incluam matrículas de veículos — pode abrir a porta a situações de vigilância informal entre vizinhos, criando um ambiente de denúncia permanente que lembra sistemas de delação social historicamente controversos.

    Mais problemático ainda é o facto de tais imagens poderem ser facilmente manipuladas. Num contexto em que ferramentas de inteligência artificial generativa permitem alterar fotografias, inserir elementos inexistentes ou modificar matrículas com poucos segundos de trabalho, a utilização de imagens enviadas por terceiros como base de processos contra-ordenacionais levanta sérias dúvidas quanto à fiabilidade probatória.

    Além disso, a Administração Pública não pode, em regra, basear decisões sancionatórias exclusivamente em denúncias de terceiros, sobretudo quando estas não são confirmadas por um agente público ou por mecanismos formais de fiscalização. Com efeito, as denúncias podem desencadear uma averiguação administrativa, mas a prova da infracção — especialmente quando envolve aplicação de coimas — deve resultar de um acto de verificação efectuado por autoridade competente, garantindo assim a autenticidade dos factos e a possibilidade de contraditório.

    Os serviços da Comissão Nacional de Proteção de Dados, liderada por Paula Meira Lourenço, tiveram tempo para ‘testemunhar’ a presença da sua presidente na Assembleia da República na tomada de posse do Presidente da República, mas não houve ainda tempo para comentar a instituição da ‘Linha Bufo’ da Câmara Municipal da Amadora. Foto: CNPD.

    Caso contrário, abrir-se-ia espaço para situações potencialmente abusivas: denúncias motivadas por conflitos pessoais, interpretações erradas de situações legais ou até manipulação deliberada de imagens. Neste contexto, o silêncio da Comissão Nacional de Protecção de Dados torna-se particularmente relevante.

    Enquanto autoridade independente responsável por fiscalizar o cumprimento das regras de tratamento de dados pessoais, a CNPD tem precisamente como missão avaliar se mecanismos administrativos deste tipo respeitam princípios fundamentais como a proporcionalidade, a minimização de dados e a finalidade legítima do tratamento.

  • 21 milhões: Força Aérea volta a escolher empresa polémica para o combate aos incêndios rurais

    21 milhões: Força Aérea volta a escolher empresa polémica para o combate aos incêndios rurais


    Já é conhecida a empresa que venceu dois lotes do concurso público abertos pela Força Aérea de aluguer de aviões e helicópteros de combate aos incêndios rurais para o próximo triénio. Os dois contratos, num valor global superior a 21 milhões de euros, foram adjudicados à empresa CCB-Serviços Aéreos, envolvida em polémicas tanto em Espanha como em Portugal.

    Embora seja uma empresa portuguesa, o capital é detido por um dos envolvidos no escândalo espanhol conhecido como ‘Cartel del Fuego’, Ángel Martinez Ridao, que controla a SAETA e a Martínez Ridao Aviación.

    Foto: D.R.

    Em Portugal, a sociedade e a Martinez Ridao Aviacion voltaram a ser notícia no ano passado por o Ministério Público ter iniciado uma investigação a partir de uma denúncia da Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC), devido a uma alegada falsificação de documentos, designadamente seguros de aviões de combate aos fogos.

    Os dois contratos, efectuados no âmbito do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais (DECIR), foram assinados no passado dia 29 de Dezembro, mas só foram publicados no Portal Base na última sexta-feira, dia 6 de Março. A CCB foi a escolhida num grupo de cinco concorrentes que incluiam ainda a Helicloud, a Heliportugal, a Helibravo Aviação e a Shamrock.

    O contrato de valor mais elevado adjudicado à CCB, no montante de 14.439.708 euros, é relativo ao fornecimento de quatro aviões anfíbios médios (AVBM) no período entre 1 de Junho e 15 de Outubro dos anos de 2026, 2027 e 2028. Este contrato corresponde ao lote 3 do concurso público de três lotes lançado pela Força Aérea.

    Foto: D.R.

    O contrato de menor valor, no montante de 6.695.726,4 euros, relativo ao lote 2 do concurso, abrange o aluguer de dois AVBM no períodos entre 15 de Maio e 30 de Setembro do próximo triénio.

    Resta agora saber que empresa ficou com o lote 1 do mesmo concurso – que envolve uma despesa global de 36 milhões de euros – referente ao fornecimento de cinco helicópteros ligeiros para o combate aos fogos.

    Em todo o caso tem sido frequente a contratação de empresas envolvidas directa ou indirectamente em casos de cartel ou suspeitas de alegadas irregularidades, tanto neste sector como em outros. Já no ano passado, a Força Aérea fez contratos de 59 milhões com uma empresa condenada no ‘Cartel del Fuego’: a Agro-Montiar, cuja ‘holding’ (Avialsa, hoje Titan) foi condenada em Fevereiro de 2025 no mega-processo judicial envolvendo corrupção, prevaricação, peculato e falsificação.

    Na indústria de aluguer de meios aéreos de combate aos incêndios rurais, as verbas envolvidas e a procura garantida, de ano para ano, tornam o mercado muito apetecível.

    Foto: D.R.

    Talvez por isso haja também casos de corrupção no sector. Em Maio do ano passado, o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), coadjuvado pela Unidade Nacional de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária, levou a cabo 12 buscas não domiciliárias e 16 buscas domiciliárias na região de Lisboa, Castelo Branco, Porto, Algarve e Alentejo. Dois dos alvos das buscas foram o Gabinete Coordenador de Missão no Âmbito dos Incêndios Rurais do Estado Maior da Força Aérea e a Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC).

    Nesta operação, foram constituídas arguidas sete pessoas singulares e cinco pessoas coletivas.

    Em causa estava a actuação de empresas sediadas em Portugal que, “desde o ano de 2022, se suspeita terem tido acesso a informação privilegiada junto de decisores públicos e de apresentarem propostas concertadas, com vista a obterem ganho patrimonial ilegítimo em concursos públicos, no âmbito do DECIR no triénio 2023-2026 e na gestão de meios de combate a incêndio, após adjudicações”.

    white smoke coming from a gray clouds
    Foto: D.R.

    Para este ano, está previsto novo negócio de milhões com os fogos. Na semana passada, o Governo anunciou um “reforço” dos meios no âmbito do DECIR para 2026 e vai abranger a mobilização de 81 meios aéreos, mais dois do que no ano anterior. Segundo o Executivo, o orçamento no DECIR cresceu de 38 milhões de euros em 2016, para entre 65 e 75 milhões de euros nos últimos anos.  

    No “bolo” total de aluguer de meios aéreos para o combate aos incêndios rurais, desde 2021, a CCB-Serviços Aéreos já facturou 49.141.012,16 euros em seis contratos públicos – todos feitos com a Força Aérea.

  • Tribunal Constitucional contrata empresa de assessoria financeira com sede em restaurante de Brejos da Moita

    Tribunal Constitucional contrata empresa de assessoria financeira com sede em restaurante de Brejos da Moita


    O Tribunal Constitucional contratou como assessor financeiro da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) uma empresa unipessoal com capital social de 100 euros, criada na véspera da publicação do concurso a anunciar a abertura da vaga.

    A Refinada & Conceptual – Contabilidade e Consultoria Unipessoal tem sede num restaurante na Moita. A sócia única da empresa vai ganhar quase 3.300 euros por mês para analisar e auditar os financiamentos dos partidos políticos. Quando concorreu à vaga, Sara Sousa Moreira, de 27 anos, era membro da Ordem dos Contabilistas há apenas cinco meses e ainda está a tirar o curso de revisor oficial de contas.

    Tribunal Constitucional. / Foto: D.R.

    A contratação da empresa foi formalizada no passado dia 21 de Janeiro, mas só agora o PÁGINA UM teve acesso a toda a documentação do procedimento, designadamente o curriculum vitae da sócia gerente da Refinada & Conceptual.

    O contrato foi adjudicado na sequência de um concurso público lançado no dia 14 de Novembro de 2025. A empresa escolhida para preencher a vaga de assessor financeiro da ECFP foi constituída no dia anterior, a 13 de Novembro.

    A sociedade tem ainda a particularidade de ter a sua sede num restaurante – Vitorino -, situado em Brejos da Moita, no distrito de Setúbal.

    A sede da empresa contratada para fazer a análise e auditoria aos financiamentos políticos tem sede no restaurante Vitorino, em Brejos da Moita, que tem entre as suas especialidades o cozido à portuguesa.
    / Foto: D.R.

    De acordo com o curriculum vitae consultado pelo PÁGINA UM presencialmente no Tribunal Constitucional, a sócia única e gerente da Refinada & Conceptual, Sara Sousa Moreira, tem 27 anos, é licenciada em gestão pela Universidade Autónoma de Lisboa, tendo concluído a licenciatura em 2021. Em 2022 e 2023 frequentou o primeiro ano do mestrado em auditoria no Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa (ISCAL).

    Na altura em que concorreu à vaga no Tribunal Constitucional, Sara Sousa Moreira era membro da Ordem dos Contabilistas há apenas cinco meses e não dispunha de certificação como revisor oficial de contas. Coincidentemente, a vaga que foi preencher no TC não requeria essa certificação, apesar de estar em causa a prestação de serviços de auditoria e análise de contas e financiamentos.

    No seu CV, consta que Sara Sousa Moreira trabalha desde 2021 na empresa Diz & Associados que ganhou já dois ajustes directos junto do TC, em Novembro de 2024 e Julho de 2025, precisamente para prestar serviços de assessoria financeira na ECFP, incluindo serviços de um ROC e de um licenciado em auditoria, contabilidade ou gestão.

    A sociedade unipessoal de Sara Sousa Moreira foi constituída no dia 13 de Novembro de 2025, um dia antes de ser publicado o anúncio do concurso público lançado pelo TC e cujo um dos lotes acabou por ganhar após exclusão do único concorrente, que até já tinha prestado serviços de assessoria financeira ao TC.

    A diferença é que nos a Diz & Associados recebeu 19.800 euros em cada um dos contratos ganhos por ajuste directo junto do TC. Sara Sousa Moreira vai ganhar 39.384 euros – quase 3.300 euros por mês.

    Esta contratação surgiu no seguimento de um concurso público que visou contratar, para a ECFP, um assessor jurídico júnior, um assessor jurídico sénior e um assessor financeiro. O valor global da despesa ascende a 104.261 euros. O assessor jurídico sénior vai ganhar 28.877 euros para trabalhar 20 horas semanais. O assessor financeiro vai receber 39.384 euros por 35 horas por semana..

    Neste concurso, o TC adjudicou contratos a dois dos seus “avençados frequentes”. Como o PÁGINA UM noticiou, no âmbito desse concurso, o TC contratou, pela quarta vez, o filho do procurador-geral adjunto do Ministério Público (MP) que coordena a actividade do MP no TC.

    No mesmo concurso público que atribuiu um contrato à Refinada & Conceptual, João Possante, filho (à esquerda), obteve a sua quarta avença anual junto do Tribunal Constitucional. João Possante, pai, é procurador-geral adjunto e coordenador da actividade do Ministério Público no Tribunal Constitucional. / Fotos: D.R.

    João Possante vai ganhar, durante um ano, a verba de 36 mil euros, quase o dobro do que auferia no TC no ano passado, para prestar serviços de “assessoria jurídica e financeira para a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP)”.

    O lugar de assessor jurídico sénior foi preenchido por Marta Rasteiro Jacques Pena Afonso. Trata-se de uma “avençada” do TC que tem vindo a fazer contratos por ajuste directo e consulta prévia desde 2022. Também desta vez esta “avençada frequente” do TC foi contratada por concurso público.

    É frequente entidades públicas lançarem concursos e acabarem por contratar, de novo, os seus “avençados frequentes”, para contornar os limites à contratação por ajuste directo, intercalando assim os procedimentos entre ajuste directo, consulta prévia e concurso.

    Tribunal Constitucional. / D.R.

    No caso de Sara Sousa Moreira, apesar de não ter anteriores contratos com entidades públicas, a empresa na qual trabalha desde 2021 já foi contemplada com dois ajustes directos pelo TC.

    Em resposta a questões do PÁGINA UM, o TC justificou que apenas duas entidades apresentaram proposta ao ‘Lote 3’ do concurso, relativo aos serviços de assessor financeiro: António Pedro da Fonseca Andrade de Miranda Garcia; e Refinada & Conceptual  – Contabilidade e Consultoria, Unipessoal.

    Ainda segundo o TC, “a proposta do concorrente António Pedro da Fonseca Andrade de Miranda Garcia foi excluída […] por apresentar termos ou condições que violam aspectos da execução do contrato a celebrar não submetidos à concorrência – habilitação académica mínima exigida”. Contudo, António Pedro Garcia já tinha sido contratado pelo TC, em Outubro de 2024, para prestar “serviços de assessor financeira” na ECFP a troco de 24.500 euros.

    A sociedade Diz & Associados onde Sara Sousa Moreira trabalha desde 2021 tem sido contratada por ajuste directo pelo TC para prestar serviços de assessoria financeira na ECFP, incluindo serviços de ROC, que não foram exigidos no contrato agora entregue à Refinada & Conceptual. / Foto: D.R.

    O PÁGINA UM enviou questões a Sara Sousa Moreira. Entre as questões colocadas, procurámos saber: quando e como é que Sara Sousa Moreira teve conhecimento da abertura da vaga de assessor financeiro no TC; e também o que a levou a constituir a sua empresa um dia antes da publicação do anúncio pelo TC. Também questionámos o facto de a empresa ter sede num restaurante na Moita e quisemos saber se a empresa tem outros clientes, além do TC. Até ao momento, não obtivemos qualquer resposta.

    Com esta contratação fica patente que, no caso do escrutínio feito às contas dos partidos e financiamentos políticos, o tipo de “escrutinadores” contratados pelo TC é anormalmente jovem e circunscrito.

  • Palacete de Pinto Balsemão foi vendido a empresário colombiano

    Palacete de Pinto Balsemão foi vendido a empresário colombiano


    O palacete da Rua Ribeiro Sanches, na Lapa, em Lisboa, onde cresceu e viveu a infância Francisco Pinto Balsemão, antigo primeiro-ministro e dono da SIC e do Expresso, foi vendido apenas cerca de quatro meses antes da sua morte. De acordo com investigação do PÁGINA UM, o imóvel foi adquirido em 24 de Junho de 2025 por Eduardo Trujillo Uribe, cidadão colombiano com interesses empresariais no México.

    O comprador, que terá actividade empresarial na indústria do tabaco, sobretudo na cidade de Guadalajara, sendo casado com a mexicana Adriana Maria Soto Solano. Não foi possível apurar o valor da transacção, embora a escritura tenha sido depositada no Registo Predial de Guimarães. No entanto, sabe-se que o palacete chegou a estar colocado no mercado imobiliário em 2021 por quase 10 milhões de euros. E foi mesmo sede da Impresa – dona da SIC e do Expresso – até Junho de 2023.

    Palacete da Lapa foi também sede da Impresa até 2023

    Construído no início do século XX, o imóvel era uma das residências mais conhecidas daquela zona histórica da capital. De acordo com a descrição predial possui uma área total de 2.335 metros quadrados (m2), dos quais 357 m2 de área coberta e 1.978 m2 de área descoberta.

    O palacete está dividido em quatro pisos e 29 divisões, com cerca de 1.450 m2 de área interior, dois jardins e garagem. A propriedade beneficia ainda de uma vista ampla sobre o rio Tejo e sobre a zona de Casal de Lisboa.

    No piso de cave existem cinco quartos, uma cozinha e duas salas de estar. No piso térreo encontram-se a sala de jantar, uma sala de estar, um escritório e um salão de festas. Nos pisos superiores, primeiro e segundo, várias divisões foram adaptadas nos últimos anos para utilização empresarial. As últimas obras significativas de adaptação e conservação do edifício remontam ao final do século XX.

    Imóvel esteve à venda por 9,95 milhões de euros, mas desconhece-se o valor da venda ao empresário colombiano

    Francisco Pinto Balsemão herdou formalmente o palacete a 11 de Janeiro de 1969. Foi nesta casa que viveu até casar pela primeira vez, aos 27 anos. Nas suas memórias, o antigo primeiro-ministro descreveu a infância passada na casa da Lapa como uma existência “dourada e excessivamente protegida”, recordando que “viveu quase enclausurado os primeiros dez anos da sua vida”.

    Segundo relatou, a família ocupava os dois pisos inferiores da casa, rodeados por um amplo jardim e uma horta que davam trabalho permanente a um jardineiro. A propriedade tinha ainda um galinheiro com galinhas, patos e coelhos, além de perus, produzindo frutas e legumes suficientes para abastecer a casa.

    Num trabalho publicado na revista Sábado após a morte de Francisco Pinto Balsemão, referia-se que o antigo primeiro-ministro já teria vendido o palacete em Setembro, por não constar na sua última declaração de rendimentos, mas essa informação é contrariada pelo registo predial consultado pelo PÁGINA UM.

    Registo da venda foi depositada no Registo Predial de Guimarães

    No levantamento feito pela Sábado em Outubro do ano passado, o património deixado por Francisco Pinto Balsemão aos herdeiros incluía sobretudo activos financeiros. Entre os principais valores constavam aplicações financeiras no valor aproximado de 19,6 milhões de euros, uma carteira de títulos avaliada em cerca de 12 milhões de euros e contas a prazo de aproximadamente 872 mil euros. O antigo primeiro-ministro detinha, além de outros bens, ainda uma residência na Quinta da Marinha, avaliada em cerca de 722 mil euros.

    Sobre o comprador do palacete, Eduardo Trujillo Uribe, existem poucas informações públicas disponíveis. Em alguns registos empresariais surge associado à empresa Tabacolmex, com actividade em Guadalajara, a terceira maior cidade mexicana com cerca de 1,5 milhões de habitantes. Apesar dessas referências, não foi possível ao PÁGINA UM confirmar com detalhe a dimensão ou natureza da actividade desta empresa.

    Em todo o caso, a morada indicada pelo empresário colombiano situa-se em Colinas de San Javier, um dos bairros mais exclusivos da área metropolitana de Guadalajara. Trata-se de uma zona residencial de elevado poder aquisitivo, caracterizada por grandes moradias, ruas arborizadas e forte presença de segurança privada, sendo frequentemente apontada como uma das áreas mais valorizadas e prestigiadas da cidade.

    Zona residencial em Colinas de San Javier, um dos bairros mais exclusivos da área metropolitana de Guadalajara, no México, onde vive o novo dono do palacete Balsemão, no bairro lisboeta da Lapa

    Este bairro fica próximo de importantes zonas financeiras e comerciais, como Puerta de Hierro e Andares, e junto ao parque urbano Bosque Los Colomos. A área é habitualmente associada a empresários, executivos e figuras públicas, com propriedades de grande dimensão que refletem o estatuto socioeconómico dos residentes.

    A venda do palacete da Rua Ribeiro Sanches representa uma das transacções imobiliárias mais relevantes associadas a uma residência ligada à história pessoal de uma das figuras centrais da política portuguesa da segunda metade do século XX e início do século XXI.

  • 474 mil euros de ‘mão-beijada’: vogal da AIMA foi membro da direcção-executiva da Fundação Aga Khan

    474 mil euros de ‘mão-beijada’: vogal da AIMA foi membro da direcção-executiva da Fundação Aga Khan


    Uma vogal da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), Vera Egreja Barracho, teve ligações profissionais com a Fundação Aga Khan Portugal até Setembro do ano passado, entidade que agora recebeu desta instituição pública um “apoio financeiro” de quase 474 mil euros para formação de mediadores.

    Nomeada para a AIMA em Outubro do ano passado pelo próprio primeiro-ministro, Vera Egreja Barracho assumiu desde 2015 diversas funções e cargos de relevo naquela fundação ismaelita como conselheira e membro da direção-executiva e responsável de parcerias institucionais.

    Foto: D.R.

    Além disso, e enquanto mantinha ligações com a Fundação Aga Khan, Vera Barracho, licenciada em Relações Internacionais, esteve como adjunta do secretário de Estado adjunto da Presidência, Rui Armindo Freitas, entre Abril de 2024 e Junho de 2025. A AIMA é tutelada pelo ministro da Presidência, Leitão Amaro.

    Na altura da nomeação como adjunta, a agora vogal da AIMA indicava que, depois de um percurso em instituições internacionais, regressara a Portugal para “integrar a direção da Fundação Aga Khan Portugal”, acrescentando que tinha “exercido funções de assessoria estratégica, representação regional e relações internacionais na Estrutura de Missão Portugal Inovação, desde 2020 até à data”. Aquando da nomeação para a AIMA, a sua nota biográfica indica ter sido “membro da direcção-executiva” da fundação ismaelita.

    Como o PÁGINA UM noticiou ontem, a Fundação Aga Khan foi uma das duas organizações escolhidas pela AIMA, sem concurso, para receber “apoio financeiro” para formar “mediadores linguísticos e culturais”, no âmbito de um programa que visa melhorar integração de imigrantes nas escolas públicas. Assim, a Fundação Aga Khan Portugal vai receber 474.433 euros enquanto a Fundação Gonçalo da Silveira, fundada por jesuítas, que vai receber 547.669 euros. No caso da Fundação Aga Khan Portugal, está previsto que receba da AIMA 160.365 euros este ano e 157.034 euros tanto em 2027 como em 2028, de acordo com o protocolo assinado.

    Em Novembro passado, a AIMA promoveu uma conferência que decorreu no Centro Ismaili, em Lisboa, onde também esteve presente Vera Egreja Barracho, vogal do conselho directivo da AIMA e ex-membro da direcção executiva da Fundação Aga Khan. / Foto: D.R.

    Os contratos com as duas organizações – feitos num modelo de “protocolo de colaboração” – foram adjudicados sem concurso e sem justificação documental conhecida, no passado dia 10 de Fevereiro, através do procedimento ‘contratação excluída II’, com a fundamentação de que se trata de contratos cujo objecto principal consiste “na atribuição […] de subsídios ou de subvenções de qualquer natureza”. Nos ‘protocolos’ assinados, além da AIMA, surge ainda como adjudicante a Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE).

    Nos protocolos, a AIMA aponta que os apoios financeiros foram feitos na sequência do despacho n.º 656/2025, de 15 de janeiro, que “autorizou as escolas a contratar mediadores linguísticos e culturais, no âmbito do plano de recuperação e de melhoria da aprendizagem ‘Aprender Mais Agora’, para as ajudar a construir respostas adequadas para alunos migrantes recém-chegados com origem em países onde o português não é a língua oficial”.

    Esta não é a primeira vez que a Fundação Aga Khan Portugal ganha contratos junto de entidades públicas. No entanto, segundo o Portal Base, o mais elevado tinha sido no valor de 56.252 euros, num contrato assinado em 2023. Em todo o caso, a fundação ismaelita tem sido uma entidade com fortes financiamentos públicos.

    Mesmo sendo apresentada como uma instituição filantrópica e de apoio social, a Fundação Aga Khan recebeu mais de 7,1 milhões de euros de financiamentos públicos por outras vias apenas entre 2022 e 2024, de acordo com dados compilados pelo PÁGINA UM.

    As entidades que mais recursos canalizaram para a fundação neste período foram a Câmara Municipal de Lisboa, com 1,8 milhões de euros atribuídos a diferentes programas municipais, o Instituto da Segurança Social, através de protocolos de cooperação, com quase 1,5 milhões e as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), no âmbito dos Contratos Locais de Desenvolvimento Social 4G, com 1,2 milhões de euros. Também a Câmara Municipal de Sintra surge entre os principais financiadores públicos, com 876 mil euros destinados a iniciativas de desenvolvimento local e envelhecimento activo.

    Num e-mail com respostas a questões colocadas ontem pelo PÁGINA UM, sobre a escolha das duas fundações, sem concurso, a AIMA apenas informou que, no âmbito do objectivo pretendido, “foram identificadas entidades parceiras com base na sua experiência comprovada na área, na capacidade técnica e operacional demonstrada e na aptidão para intervir em escala adequada às necessidades identificadas”.

    A AIMA reuniu representantes da Comissão Europeia, organizações internacionais e nacionais e especialistas, no Centro Ismaili, em Novembro passado. / Foto: D.R.

    Adiantou que “foi igualmente considerado o historial de participação em iniciativas semelhantes, designadamente no âmbito da Rede de Escolas para a Educação Intercultural (REEI) e do programa Escolas Transformadoras”.

    O PÁGINA UM também colocou questões ao ministro Leitão Amaro, tentando perceber, entre outros detalhes, se considerava ético que a AIMA tivesse financiado sem concurso público uma entidade com ligações fortes a uma das vogais desta instituição. Não obteve resposta.

  • APEL acusa editoras independentes de práticas pouco éticas na Feira do Livro de Lisboa

    APEL acusa editoras independentes de práticas pouco éticas na Feira do Livro de Lisboa


    A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) rejeitou hoje as acusações de falta de transparência e de alegado favorecimento de grandes grupos editoriais na atribuição de espaços na Feira do Livro de Lisboa, cuja edição deste ano se inicia no dia 27 de Maio no Parque Eduardo VII.

    E diz, sem concretizar casos específicos, que há situações em que os pedidos de participação não são aceites por terem existido indícios de práticas incompatíveis com o regulamento do certame. Entre essas situações incluem-se casos em que houve conhecimento de pagamentos exigidos a autores para que as suas obras sejam incluídas nos pavilhões ou para participarem em sessões públicas de apresentação, autógrafos ou eventos semelhantes.

    A APEL afirma também que podem ser recusadas participações de entidades que tenham demonstrado condutas incompatíveis com as regras do evento, designadamente violações reiteradas das normas relativas à ocupação de espaços comuns, incumprimentos sucessivos de prazos de pagamento ou propostas cuja oferta seja centrada predominantemente em produtos que não livros.

    A reação da associação – que agrega 255 editores e livreiros, mas é dominada pelos maiores grupos editoriais – surge após terem sido divulgadas críticas de editoras independentes e de uma distribuidora que afirmam ter sido excluídas da edição de 2026.

    Liderado por Pedro Cipriano, as editoras independentes acusam a organização da Feira do Livro de Lisboa de opacidade no processo de atribuição de pavilhões e de favorecer as chancelas de maior dimensão. As críticas foram amplamente divulgadas depois de uma petição contra a exclusão de cerca de 40 editoras ter reunido mais de duas mil assinaturas em 24 horas. E dizem que, entre outros impactes, a ” exclusão silencia o projeto IndieSpec (financiado pela UE/Europa Criativa) e a única editora em Portugal a publicar autores ucranianos na língua original.”

    Em resposta a essas acusações, e após o envio de questões do PÁGINA UM, a APEL garante que o processo de organização da Feira do Livro de Lisboa obedece a critérios transparentes e previamente definidos, sublinhando que o Regulamento da Feira é disponibilizado a todos os interessados, não sendo dada preferência a qualquer editora.

    Nem tudo são sorrisos no mundo dos livros. Foto: D.R.

    A APEL recorda ainda que a Feira do Livro de Lisboa atingiu, em 2024, a sua capacidade máxima de crescimento, tendo sido instalados 350 pavilhões no Parque Eduardo VII, salientando ainda que a dimensão física do espaço, bem como a necessidade de garantir condições de segurança e conforto para visitantes, participantes e trabalhadores, impõe limites ao número de participantes que podem ser integrados em cada edição.

    Nesse contexto, acrescenta a organização do evento, quando o número de pedidos excede a capacidade disponível, é feita uma distribuição dos pavilhões com base num conjunto de critérios quantitativos e qualitativos que têm vindo a ser aperfeiçoados ao longo dos anos.

    Entre esses critérios incluem-se os dados de mercado disponíveis, o número de referências de livros activas, o grau de dinamização cultural promovido pelas entidades ao longo do ano, a diversidade e dimensão dos catálogos apresentados e a predominância do livro na oferta exposta durante a feira, com particular atenção à edição em língua portuguesa e a obras publicadas em Portugal.

    Feira do Livro de Lisboa realiza-se nas alas pedestres do Parque Eduardo VII. Foto: FDC.

    A organização refere igualmente que são considerados factores como o grau de consolidação dos projectos editoriais e o histórico de participação em edições anteriores, incluindo o cumprimento das regras estabelecidas no regulamento e nas normas de funcionamento da feira.

    Segundo a associação, este modelo procura assegurar simultaneamente proporcionalidade e equidade na distribuição dos espaços, garantindo a pluralidade editorial, a diversidade da oferta cultural e a sustentabilidade do evento.

    A APEL sublinha também que, desde 2014 — ano em que o modelo organizativo da feira foi revisto —, o peso proporcional dos participantes de maior dimensão não aumentou, contrariando assim as acusações de favorecimento aos grandes grupos editoriais.

    Feira do Livro de Lisboa vai ter a sua 96.ª edição a partir de Maio.

    Saliente-se que o presidente da APEL é Miguel Pauseiro, representante da Bertrand Editora (Grupo Porto Editora), sendo que na direcção estão representadas apenas editoras e livreiros de grande dimensão, designadamente Leya, Editorial Presença, Penguin Random House, Edições Almedina, El Corte Inglés e Guerra & Paz.

    Relativamente à organização geral da feira, a APEL sublinha que o espaço tem sido alvo de melhorias ao longo dos últimos anos, designadamente com o aumento das zonas de descanso e de sombra, numa resposta ao crescimento significativo do número de visitantes.

    De acordo com a associação, o número de visitantes da Feira do Livro de Lisboa mais do que duplicou na última década, obrigando à adaptação das infra-estruturas do evento, incluindo mais instalações sanitárias e a duplicação da dimensão do auditório.

    APEL garante que área de restauração não aumentou desde 2014. Foto: FDC.

    Refutando as críticas de que a Feira do Livro de Lisboa se tem transformado num ‘centro comercial de comes-e-bebes’, a APEL garante ainda que a presença de áreas de restauração não tem hoje maior expressão do que a que existia em 2014 — quando o número de visitantes era cerca de metade do actual —, ao passo que os espaços dedicados à programação cultural praticamente duplicaram.

    Por fim, perante as críticas tornadas públicas, a associação lamenta que sejam divulgadas informações que, na sua perspectiva, colocam em causa a integridade do processo de organização da Feira do Livro de Lisboa. Em todo o caso, nas respostas ficam por esclarecer, em concreto, a exclusão das editoras independentes e da distribuidora DNL Convergência.