Cada época gosta de anunciar o fim de qualquer coisa: o fim da pintura quando surgiu a fotografia; o fim do teatro quando nasceu o cinema; o fim da rádio com a televisão; o fim do livro com a internet; e o fim do jornal com as redes sociais. Na cultura também há a tendência neurótica para decretar funerais prematuros, talvez porque a arte, vivendo da sensibilidade, também vive da ansiedade. Ainda assim, convém reconhecer quando uma ameaça não é apenas mais uma mudança de ferramenta, mas uma alteração de escala civilizacional. A inteligência artificial poderá ser isso.
Vários quadrantes temem que a inteligência artificial destruirá a arte. Essa proclamação sempre me pareceu ingénua quanto a euforia oposta dos tecnófilos. Na verdade, vejo-a como um estimulante desafio inédito para artistas, escritores, argumentistas, músicos e actores: pela primeira vez, uma ferramenta não se limita a ampliar a capacidade técnica do criador; entra no próprio território da criação, imita-o, replica-o, acelera-o e, em certos domínios, produz resultados que, aos olhos menos atentos, se confundem com obra humana.

Atenção: essa diferença importa. A inteligência artificial não é inteligência humana, tal como outras tecnologias e instrumentos jamais substituíram o artifício humano – ajudaram-no a evoluir.
Senão vejamos. A máquina de escrever não escrevia. O pincel não pintava. A câmara não escolhia enquadramentos por consciência estética. O sintetizador não compunha por intenção dramática. Mesmo as tecnologias que revolucionaram a criação continuaram dependentes de uma centelha humana que lhes desse forma, propósito e direcção. A inteligência artificial rompe, de forma parcial, essa lógica, porque oferece algo que as anteriores não ofereciam: uma simulação plausível da criatividade.
O ponto interessante, porém, talvez não esteja no medo, mas na exigência a partir de agora.
Os escritores do século XVIII trabalhavam com meios infinitamente mais pobres do que os de hoje. Sem processadores de texto, sem bases de dados instantâneas, sem bibliotecas digitais, sem motores de pesquisa, sem revisores ortográficos, sem acesso imediato à história acumulada da Humanidade num rectângulo luminoso pousado sobre a secretária. Ainda assim, produziram obras fundamentais.

Um romancista contemporâneo herda tudo isso e muito mais. Herda Cervantes, Sterne, Balzac, Eça, Dostoievski, Borges, Nabokov e tantos outros. Herda tradição, técnica, crítica literária, modelos narrativos, recursos estilísticos e instrumentos tecnológicos. O seu ponto de partida é incomparavelmente mais vantajoso. Mas essa herança não lhe simplificou a tarefa; agravou-a. Se o pioneiro inventa, cabe ao herdeiro ter de justificar a herança. Não sei o que será mais desafiante.
Alexander Graham Bell não teve de competir com dois séculos de telecomunicações. Edison não precisou de demonstrar que a lâmpada eléctrica fazia algo conceptualmente superior à engenharia posterior. O primeiro construtor abre caminho. O seguinte enfrenta um padrão crescente de complexidade. O engenheiro contemporâneo não impressiona por conseguir reproduzir um telefone rudimentar, porque sabe que se espera dele um salto colossal seguinte.
Com a arte se passará o mesmo. Se uma inteligência artificial consegue produzir, em segundos, um conto competente, uma imagem tecnicamente sólida, uma melodia funcional ou um guião aceitável, então o artista humano perde o conforto da mera competência técnica. O banal será automatizado, o previsível será produzido em massa e o correcto deixará de bastar.

Então, e o que sobra?
Sobra aquilo que sempre distinguiu a verdadeira criação da mera manufactura: risco, ruptura, voz, estranheza, falibilidade e experiência humana. Ninguém deseja realmente uma Hollywood povoada por fantasmas digitais de Humphrey Bogart ou James Dean a repetir eternas versões recicladas de si mesmos. O fascínio inicial existirá, claro. A curiosidade mórbida faz parte da condição humana. Mas ninguém quererá viver num mausoléu interactivo.
O mesmo vale para actores contemporâneos. Não é a capacidade técnica de replicar Tom Hanks aos 30 anos ou Meryl Streep em múltiplas décadas que fará nascer grande arte. O público continuará a procurar aquilo que não pode ser artificializado: a presença de alguém que interpreta o mundo a partir de uma consciência irrepetível.
Por isso é que a arte sempre foi mais do que execução – foi sobretudo interpretação. Nesse sentido, a questão central não deve ser colocada em termos simplistas de proteccionismo corporativo, como se estivéssemos apenas perante sindicatos preocupados com salários ou estúdios aflitos com direitos de imagem.

Esse problema existe e merece resposta séria. Um actor não deve ser digitalmente expropriado, um escritor não deve servir de matéria-prima involuntária para sistemas treinados sobre trabalho protegido e um compositor não deve descobrir que a sua linguagem foi absorvida por uma máquina que agora a reproduz sem autoria nem compensação. O direito tem de acompanhar esta transformação.
Porém, a questão cultural é ainda maior.
Talvez estejamos a entrar numa era em que o valor da arte humana aumentará porque a produção artificial se tornará abundante. Quando tudo pode ser gerado, o raro deixa de ser a forma e passa a ser a autenticidade. Uma carta manuscrita tornou-se mais preciosa depois do correio electrónico. Um disco em vinil ganhou aura num mundo de streaming infinito. Um actor de palco continuará a comover porque está ali, vulnerável, sujeito ao erro, à respiração e ao acaso. O excesso tecnológico produz, por reacção, fome de Humanidade.
O grande artista do século XXI talvez não seja aquele que competir com a máquina na eficiência, mas aquele que consiga produzir aquilo que a máquina apenas imita. Ora, isto implica mudança estética. Talvez romances com menos fórmulas, cinema menos dependente de perfeição sintética, interpretações mais cruas, linguagem mais pessoal e, hélas, imperfeições mais valiosas.

Nessa linha, se a inteligência artificial tem capacidade para dominar pela repetição sofisticada, a arte humana vencerá não com nostalgia, mas pela exigência.
Note-se que cada revolução tecnológica empurrou os criadores para outro patamar. E a inteligência artificial apenas se prepara para nos empurrar para o núcleo essencial da criação: aquilo que não nasce do cálculo probabilístico, mas da consciência, da memória, da contradição e da experiência vivida.
Na verdade, a inteligência artificial não decretará a morte da arte. Ironicamente, apenas a obrigará a tornar-se melhor e mais única.






