Categoria: Cultura

  • A religião dos desertos, os deuses de areia

    A religião dos desertos, os deuses de areia


    O mesmo também se diga do ferreiro sentado à bigorna com a atenção fixada nos trabalhos sobre o ferro. O vapor de fogo consome-lhe as carnes, e no calor do forno debate-se longamente. O ruído do martelo ressoa sem cessar a seus ouvidos e seus olhos estão fixos no modelo a reproduzir; ele empenha seu coração em aperfeiçoar seus trabalhos e suas vigílias se passam em retocá-los até a perfeição.

    Eclesiático 38, 28

    ***

    1. Adulta, meditando sobre suas defesas

    As grandes construções metálicas formam uma barreira quase intransponível. À volta, o grande deserto ocre. Estou cercada. Aos poucos, eles apertam o sítio, mas aguardo em profundo silêncio. Vou apedrejá-los, caso se aproximem. Mas não creio que desejem entrar na cidadela. Preferem o cerco.

    Por entre as tenebrosas figuras de ferro, ergui montes de pedras. Serão usadas como munição quando eles chegarem, gritando, montados nos seus pequenos cavalos. Montes de pedra que lembram piras crematórias.

    As construções metálicas são, na verdade, espantalhos. No começo, eram homens comuns. Depois, diante do cerco brutal e do ataque iminente, se tornaram guerreiros. Levei vinte anos para construí-los e só ontem descobri que são, na verdade, espantalhos, espantahunos.

    De repente, me veio a iluminação: eu já sabia, antevia, previa – desde quando era menina de joelhos ossudos e vi um ser humano aprisionado dentro de uma árvore – o ataque dos hunos e dos tártaros, dos godos e dos visigodos. Por isso, inconscientemente, construí os espantalhos de ferro.

    Não há mais retorno aos dias despreocupados e luminosos do passado. Agora, vigio constantemente e trabalho de maneira febril. Nos curtos intervalos de descanso, recolho pedras pontudas que reuno em grandes pilhas, às quais dou a forma de piras crematórias. Novas reservas de munição. Se vierem à cidadela, alguns deles terão a morte que mereciam os pecadores da Bíblia: lapidação.

    Nada foi planejado. Essa é talvez a minha melhor defesa: não construí essas figuras contra eles. Nem sequer as ergui pensando em me defender. Apenas trabalhei nelas, dia após dia, incansável. Simplesmente, eu as fui fazendo, sem plano nem meta. Colocava um elemento aqui e outro ali, obedecendo a uma secreta ordem interior. Por isso, hoje eu digo: há muitos anos, desde o início, eu já intuía que eles estavam se reunindo no deserto, por trás das dunas, formando o mais poderoso exército de todos os tempos. Nunca os vi, embora sejam numerosos e atrevidos, e nunca os escutei, mesmo sendo barulhentos, mas sei que estão lá. Reunindo forças, como eles gostam de dizer, ameaçadores.

    Se pudesse, eu não falaria sobre eles. Se o faço agora é porque é indispensável. Não posso calar, meu silêncio os fortaleceria ainda mais. Se soubesse escrever, se fosse poetisa, ergueria também barreiras de palavras. Disseram-me que eles temem mais as palavras do que os ferros ou as pedras. Disseram-me ainda, as esvoaçantes figuras noturnas, que, se um poeta dispusesse as palavras certas, por entre as construções metálicas e os montes de pedra, eles não entrariam jamais na cidadela. Mas onde achar um poeta?

    2. Menina, vê um homem preso dentro de uma árvore

    Falemos do meu pai. Era um homem baixo, de largos ombros, grandes mãos e dedos fortes. Eu era fascinada por aquelas mãos que se moviam sem cessar, moldando e retocando as palavras que não lhe paravam de sair da boca voraz. Quando caminhávamos – e todos os dias, no final da tarde, fazíamos a volta no quarteirão -, eu tinha de me esforçar para permanecer ao lado dele, que avançava com rápidas passadas marciais. Papai tinha pressa, sempre, mesmo nos meses de verão, quando a noite demorava muito para chegar. Enquanto caminhava, a sua grande mandíbula azulada mastigava as palavras – lambendo-as, chupando-as e, por fim, cuspindo-as. Tais palavras não caíam ao chão, nem eram levadas pelo vento, porque logo suas grandes mãos, espalmadas no ar úmido, as agarravam, uma a uma, a fim de torcê-las, sacudi-las ou alisá-las, de modo que pudessem, ao fim, serem estendidas diante dos meus olhos fascinados. Hombres. Guerreros. Espantapájaros.

    Também havia uma mãe, mas era menos visível. Estava nas dobras sombrias da casa, pelos desvãos, rezando, varrendo, limpando e costurando. Em silêncio. Nunca suas mãos me chamaram a atenção. Creio que eram pequenas, de dedos curtos e gordos. Quase não falava, sua voz era inaudível. Lembro que sempre tinha de pedir a ela que repetisse suas frases curtas. Eram palavras secas, incolores, sopradas sem gosto.

    Um dia, quando passávamos diante da igreja, vi o homem dentro da árvore. Alto, magro e tristonho, estava preso no tronco. Tinha um guarda-chuva enfiado no braço esquerdo, que trazia dobrado junto ao corpo. Muito pálido, usava um chapéu coco preto. Pensei em interromper a caminhada, mas meu pai estava tão entusiasmado com as palavras que lhe brotavam da boca que me calei. Tinha razão o pai de estar empolgado naquele dia: as palavras já lhe saiam da boca envolvidas em grandes bolhas de sabão e subiam no ar perfumado. Hombres. Guerreros. Espantapájaros.

    Mais do que as iridescentes bolhas recheadas de palavras, com que papai tentava me enfeitiçar, impressionou-me o ar triste do homem preso no caule da árvore. Não, ele não me dirigiu a palavra, apenas acompanhou, com o olhar mais desalentado deste mundo, a minha passagem diante da igreja. No dia seguinte, bem cedo, peguei uma velha machadinha enferrujada – de fio cego e tosco cabo de madeira – e fui libertar aquele pobre homem.

    3. Há prisioneiros dentro de todas as coisas

    Os verdadeiros seres estão presos dentro de alguma coisa. No princípio, você só percebe os maiores mananciais de vida. Nas montanhas há milhares de pessoas e bichos. Nas florestas há toda uma humanidade. Na água, não, não há ninguém. Mais tarde, você os vê também nas latas, nas garrafas e nas tábuas velhas. Uma infinidade de gente aprisionada. Cabe a você libertá-la. Também na argila não há ninguém. Você até consegue criar uns corpos. Mas eles não têm vida. O que falta nas obras de argila? O sopro.

    4. Aquilo que se convencionou chamar amor

    Chega um momento em que você acha que os seres humanos têm um só órgão: as mãos. Então, você está pronta para amar. Primeiro, você vai a uma festa de colegas da universidade. Depois, bebe um cálice de vinho e percebe que são impenetráveis as conversas que cruzam a sala. Em seguida, você descobre, num canto, um rapaz de mãos ossudas. Por fim, você está num quarto com aquele mesmo rapaz. Ele não vê ninguém preso em lugar nenhum. As palavras embolam-se na língua dele. A língua dele é vermelha. Os seres humanos não entram no cio. Não exalam nenhum odor particular, como os animais. Quero dizer, os seres humanos masculinos cheiram a creme de barbear, loção pós-barba e mais um tanto de suor azedo. Quando está deitada sob um homem desengonçado, você lamenta que ele não possa ver tudo o que está aprisionado nos objetos que cercam a cama.

    5. O crítico, seus conceitos sólidos e suas palavras líquidas

    Com sua arte peculiaríssima, ela persegue um novo paradigma. É como se buscasse atingir a maior profundidade possível num mergulho vertiginoso que a levará ao fundo do abismo da criatividade. Segundo o programa da última exposição – realizada há dez anos – “seus grandes guerreiros retorcidos, agônicos, são como vigilantes de um país de sonho, ameaçado pela banalidade do cotidiano”. Desde então, suas obsessões se cristalizaram. Ela continua a produzir as mesmas figuras, que não podem mais ser chamadas de “guerreiros”. Pelo acúmulo incessante de materiais, perderam a postura marcial, belicosa. Tornaram-se ridículos. Serão soldados que têm cravadas no próprio corpo tantas espadas quanto as que empunham? De certos ângulos, lembram ignotos animais pré-históricos, espinhentos.

    Guerreiros, homens, animais, monstros?

    Escolha a definição que lhe parecer melhor. Servem todas.

    Se há algo de que não se pode chamá-la é de incoerente. Ao longo de uma carreira que chega agora aos quarenta anos não fez jamais nenhuma concessão. De início, extraía da madeira os seus famosos “homens aprisionados”. Foi uma fase que se estendeu por muitos anos e que acabou quando – segundo escreveu um crítico que hoje está mergulhado no ostracismo – ela já estava “na antecâmara da perfeição”. Depois de uma breve incursão insatisfatória, que não passou de três anos, pela argila, ela chegou, por fim, aos metais. De lá para cá, construiu figuras cada vez maiores, mais ásperas, mais desesperadas, mais acuadas. Hoje, quem visita a chácara pela qual ela dispersa seus trabalhos fica impressionado com o ar entre assustado e cômico das estátuas.

    A rotina da artista é massacrante. De manhã à noite, ela manipula, escolhe, serra, corta, ajusta e solda. Com o auxílio de um pequeno guindaste, vai acrescentando às figuras os elementos que recolhe pelos ferros-velhos da cidade. Constrói pelo acúmulo. Num determinado dia, ela sente que o trabalho está pronto. Então, com a ajuda de um trator, desloca a figura para um “posto de vigia”, num dos cantos de sua chácara, onde ficará “à espera dos hunos”, como ela costuma dizer.

    6. Os laços com o mundo lá fora – o médico e o dentista.

    O médico existe para me mandar fazer exames e para, depois, percorrer com a ponta da caneta a interminável lista de números. O bom colesterol está mal. O mau colesterol está ótimo. Não há sinal de câncer. Pelo menos, à vista. O hemograma, como um todo, está normalíssimo. Não quer saber de câncer, corte a carne vermelha! E beba muita água, tanta quanto puder suportar. Dez copos por dia, tudo bem! O coração, nunca se sabe. Pode explodir de uma hora para o outro. Uma vez, eu estava aqui mesmo, nesta sala, lendo o eletrocardiograma de um cidadão. Um homem forte e sadio, de cinquenta anos. Tudo bem com o exame, eu disse. Ele se foi, feliz. No semáforo, aí na esquina, morreu. Infarto fulminante. Portanto, cuide-se!

    O dentista existe para cuidar das minhas gengivas. A boa gengiva é tudo. Você deve tomar o bactericida, sim, mesmo que ele lhe escureça os dentes. Em uma semana, uma bactéria vagabunda dá cabo de um dente sadio. Tudo é o estresse. Você deveria descansar nos finais de semana. No sábado e no domingo, sim. Vá caminhar pela cidade. E não venha me dizer que isso é coisa de burguês! Só Deus sabe o quanto eu peno com as suas gengivas. Tudo é o ph da saliva. Você vive tensa. É a pressão do trabalho, eu sei. Mas comigo não tem essa. De manhã cedo, antes de entrar aqui, alongamento! À tardinha, alongamento! Alongamento é tudo.

    7. À véspera do ataque

    São cada vez mais numerosos. Hunos, tártaros e mongóis. Godos, visigodos e ostrogodos. Reúnem-se no deserto que existe além da estrada. A religião do deserto, os deuses de areia. Estão armados até os dentes. Os alanos e os celtas. Os germanos e os gauleses. Estavam todos dentro do meu livro de História. São estupradores, todos eles. Passam as criancinhas nas espadas. Os bárbaros. O sacerdote deles é um aparelho de televisão. Cantam canções licenciosas no areal. Talvez ataquem esta noite. Antes, porém, eles se deitarão com as meninas que dançaram, lúbricas, ao redor da fogueira vermelha. Mas eu tenho meus espantahunos e todos os montes de pedras. Me faltam apenas as palavras cortantes dos poetas.

    8. Um apelo radiofônico à consciência da comunidade

    É preciso que alguém reaja. Um juiz, o prefeito. Está certo, é propriedade dela, as terras são dela. Mas acontece que as figuras podem ser vistas da estrada. Gigantescos bonecos de ferro em poses eróticas, retorcidos pela lascívia. Obscenos. Alguém tem que dar um basta. Uma senhora já idosa, como pode? Deve bem ter mais de sessenta anos. Não fica bem! É reconhecida nacionalmente? Sim, é. O seu nome projeta nossa cidade no panorama artístico nacional? Projeta, sim. Mas, e daí? Isso lhe permite agredir a sociedade? Será que a curto ou médio prazo, esse reconhecimento artístico que ela tem não reverterá contra a nossa cidade? Passa muita gente na estrada, pessoas que estão viajando à capital. Olham aquilo e… A televisão nem filma mais. Há quatro, cinco anos, ainda vinham equipes de tevê da capital para filmar as figuras. Mas, aos poucos, os objetos foram ganhando aquela conotação… sexual, para dizer o menos. Sim, uma estranha conotação sexual. Ela alega que são espadas. Sim, mas pergunto eu, por que espadas pelo corpo todo? Onde já se viu isso? É arte? Pode ser arte, tudo bem. Mas arte é uma coisa e decência é outra, bem diferente. Quero deixar bem claro: ninguém quer censurar ninguém. O que a comunidade quer é decência. Discrição. Que ela construa abrigos em torno das figuras! Pelo menos, das mais descaradas. O certo é o seguinte: alguém, uma autoridade, tem que tomar uma providência!

    9. O exército inimigo cerra fileiras

    Godos, jornalistas, visigodos, banqueiros, germanos, policiais, hunos, assassinos, tártaros, empresários, mongóis, psiquiatras, núbios, políticos, cartagineses. Homens comuns e bárbaros, todos misturados, além das dunas, sobre as areias escaldantes, com alto-falantes e pistolas, prontos para o ataque.

    10. Diálogo ao nascer do dia, no passado remoto

    – O que a senhoritazinha quer aqui, tão cedo, com esta machadinha? Cortar a árvore?

    – Não. Soltar o homenzinho magro.

    – Homenzinho?

    –  É. O que está dentro da árvore.

    – ?

     – Ele está preso aqui, ó, de chapéu e guarda-chuva. Está vendo?

    – Sim, sei, estou vendo… Mas a machadinha não está bem afiada. Sua mamãe viu quando você saiu de casa?

    – Não viu, não. Ela está dormindo.

    – Então, dê a machadinha aqui para o guarda. Vou mandar afiar. Mais tarde, quando a árvore estiver dormindo, eu tiro o homenzinho daí de dentro.

    – O senhor promete que depois dá ele para mim?

    – Dou, claro! Agora pegue a mão do guarda. Isso. Me leve até sua casa.

    11. Reconhecendo a vitória dos hunos

    Faltam-me as palavras. Se as tivesse, poderia espalhá-las por todo o terreno. Como minas explosivas. Não, não adianta. Eles saberiam passar entre elas.

    Não terei tempo de chegar às pilhas de pedras pontiagudas.

    Meus espantalhos não os assustam.

    Hoje, os inimigos estão particularmente felizes.

    11. O horror, antevisto de uma cadeira de dentista

    A saúde da gengiva é tudo. Não confunda periodontista, que é meu caso, com periodista. Periodista é jornalista, em espanhol. Sim, lembro que seu pai era uruguaio. As pequenas coisas são essenciais. As mãos, por exemplo. Elas são tudo, para um dentista. Tive uma colega de faculdade que abandonou o curso no último ano, um mês antes da formatura. Artrite nas mãos. Há quem diga que é coisa psicológica. Eu repito: para mim, as mãos são tudo. Por isso, nunca joguei vôlei. E eu sou louco por vôlei. Imagine se eu levo uma bolada num dedo? Posso ficar inválido para a minha profissão.

    Imagine se você, um certo dia, é enfiada numa camisa-de-força. Imagine só! Suas mãos presas, amarradas, nas costas, um braço por cima do outro. Você, uma escultora! Eu lhe pergunto: há horror maior?

    Lourenço Cazarré é escritor

  • Tocar (n)o belo

    Tocar (n)o belo

    Desde Ave Mundi Luminar, álbum do já longínquo ano de 1993, Rodrigo Leão tem-se afirmado de forma consistente como o mais completo músico da sua geração — e talvez mais do que músico, sobretudo compositor. Ao longo de três décadas construiu uma obra que escapa às categorias fáceis, cruzando escrita clássica contemporânea, formas populares depuradas, canção, minimalismo e uma certa melancolia portuguesa que nunca resvala para o folclórico nem para o decorativo.

    Em O Rapaz da Montanha, o seu mais recente álbum, essa maturidade surge assumida em pleno: curiosamente, o papel de pianista ou teclista — termos ambos legítimos, embora aqui quase secundários — cede protagonismo ao de verdadeiro mestre de orquestra, arquitecto sonoro atento às texturas, às respirações e às relações entre timbres. A sua própria voz surge apenas de forma discreta, como apoio, nunca como centro, num gesto coerente com uma ética musical que sempre privilegiou o colectivo.

    O percurso é conhecido, mas nunca banal. Começou como baixista nos Sétima Legião, nos anos 80 — facto que hoje pode soar estranho a quem associa o seu nome a universos mais camerísticos —, mas foi nos Madredeus, já como teclista e compositor, que se consagrou junto de um público alargado. Em 1994 decide avançar para aquilo que se convencionou chamar uma “carreira a solo”, expressão redutora para quem, na verdade, nunca deixou de trabalhar em diálogo constante com outros músicos, vozes e universos.

    Mais do que enumerar colaborações — exercício fastidioso, embora tentador — importa sublinhar um momento-charneira: Alma Mater, onde começa a explorar de forma mais explícita a combinação da sua escrita clássico-moderna com a forma canção e com instrumentações de raiz mais tradicional, contando com vozes como Lula Pena ou Adriana Calcanhotto, num disco e numa digressão que alargaram o seu campo expressivo.

    Seguiram-se encontros com Sónia Tavares e Nuno Gonçalves, dos The Gift, Rui Reininho, dos GNR — presente no álbum ao vivo Pasión —, o reconhecimento público com os prémios de Disco do Ano e Artista do Ano, a projecção internacional com Cinema, considerado pela Billboard um dos melhores discos de 2004, e colaborações tão diversas como Rosa Passos, Beth Gibbons ou Ryuichi Sakamoto. Vieram depois os olhares retrospectivos, as bandas sonoras, os projectos de carácter mais colectivo, sempre com uma ideia clara: nunca repetir fórmulas, mesmo quando estas foram amplamente bem-sucedidas. Podia continuar…

    O Rapaz da Montanha confirma esse princípio. De facto, ao contrário de alguns dos álbuns que mais aprecio no seu percurso, este é um disco — estranha denominação a que hoje se chega quase em exclusivo via Spotify — onde a percussão e as cordas ganham um peso estrutural inédito, onde o acordeão deixa de ser mero colorido para assumir função central, e onde cada peça parece pensada como parte de um organismo maior, coerente e respirável. Foi com esse universo que Rodrigo Leão se apresentou no Coliseu dos Recreios, num concerto cuja opção cénica revelou uma rara delicadeza artística e um profundo respeito pelos espectadores.

    O palco central circular, colocado abaixo da linha do público e rodeado a 360 graus por espectadores, configurou um verdadeiro anfiteatro reverso, invertendo a hierarquia tradicional entre intérprete e plateia. Os músicos surgiam submersos no público, não como ídolos elevados, mas como centro visível de uma comunidade provisória reunida em torno da escuta.

    Essa disposição teve efeitos imediatos e profundos: dissolveu-se a distância ritual entre quem toca e quem ouve; a música deixou de ser espectáculo frontal para se tornar experiência partilhada. O público transformou-se num corpo atento, cúmplice, e a escuta ganhou uma qualidade quase meditativa, favorecida pela ausência de um ponto de vista privilegiado.

    Tudo ali convidou à concentração: a iluminação contida e quente, sem excessos; a acústica homogénea; a clareza com que cada gesto instrumental se tornava visível e significativo. Num tempo dominado pela hipertrofia visual e pelo virtuosismo exibicionista, este concerto assumiu-se anti-espectacular — e, por isso mesmo, profundamente belo, porque dedicado à escuta.

    A cumplicidade entre os músicos foi um dos elementos mais marcantes da noite. A base instrumental — Viviena Tupikova no violino, Bruno Silva na viola de arco, Carlos Tony Gomes no violoncelo e nos arranjos de cordas, Celina da Piedade no acordeão e metalofone, João Eleutério nas guitarras e sintetizadores, Frederico Gracias na bateria e percussão — funcionou como um organismo coeso, respirando em uníssono.

    Nas vozes, Ana Vieira assumiu, como tem sido habitual, o centro com uma presença serena e segura, sem nunca procurar protagonismos excessivos. E houve ainda os convidados: os compagnons de route Gabriel Gomes e Luís Peixoto, bem como Francisco Palma — com um timbre que evoca o do pai, Jorge Palma, mas com identidade própria — e Sofia Leão, acrescentando uma dimensão familiar e enternecedora.

    O concerto não se confinou ao novo álbum. Houve espaço para revisitar peças de trabalhos anteriores de Rodrigo Leão e para regressar ao repertório dos Madredeus, com momentos de particular intensidade emocional: o belíssimo “A Ilha dos Açores” e também “Alfama”, neste caso reinventada na voz de Ana Vieira, acompanhada por Celina da Piedade, num registo mais festivo e luminoso, afastado da melancolia que Teresa Salgueiro lhes imprimiu no passado. Não se tratou de substituição nem de ruptura, mas de releitura respeitosa — prova de que estas canções possuem uma elasticidade rara e continuam vivas fora do seu contexto original.

    No final, ficou a sensação de ter assistido não apenas a um concerto, mas a um gesto artístico pleno, pensado ao detalhe e executado com uma rara ética da escuta. Tocar (n)o belo não foi apenas um título que me surgiu dar a esta crónica logo nos primeiros minutos do concerto; foi, de facto, a sua linha condutora. Tocar o belo sem o aprisionar, tocar no belo sem o exaurir — como quem sabe que a verdadeira beleza, tal como a música de Rodrigo Leão, vive nesse equilíbrio entre contenção, partilha e algo intangível que acomete os sentidos onde mais delicia.

    Nota final: 5 em 5

  • Portátil: um improviso que sabe onde cair

    Portátil: um improviso que sabe onde cair

    Tenho uma confissão a fazer, que não é defeito moral, mas inclinação estética: detesto eventos culturais à tarde. Em espaço aberto ou fechado, cinema, teatro, música, conferências, recitais ou quaisquer outras manifestações respeitáveis do engenho humano que insistam em ocorrer sob luz solar. A cultura, para mim, pede noite. As manhãs são um atentado — uma perversão higienista que só pode ter sido inventada por quem confunde disciplina com virtude. A tarde, essa zona morta do dia, é um compromisso melancólico entre o que já não é trabalho e o que ainda não chegou a ser pensamento.

    A noite, pelo contrário, é o habitat natural da inteligência. O corpo chega cansado, os sentidos despertam por contraste e a mente, finalmente liberta da tirania da utilidade, torna-se permeável ao artifício, à ironia, ao risco e à suspensão da descrença. A noite favorece o teatro; a tarde favorece o torpor. Esta distinção não é capricho pessoal: aproxima-se perigosamente de uma teoria estética.

    Ainda assim — por dever logístico (e jornalístico), ‘civilidade contratual’ e um certo estoicismo cultural — aceitei assistir à sessão de matinée de Portátil, dos Porta dos Fundos, promovida pela H2N. Logo nessa mesma tarde, aliás, passada em reclusão a preparar a contestação à providência cautelar da Prime Artists, exercício pouco compatível com leveza espiritual. Fiz bem em ceder. Para matar o tempo e alguma da indisposição caprichosa, percorri de bicicleta a zona ribeirinha antes do espectáculo e fui recompensado com um desses pores-do-sol que só o Inverno sabe produzir: nuvens densas, cores indecisas, uma luz oblíqua e melancólica que parece sempre pedir desculpa por existir. Os deuses — que também têm sentido de humor — completaram a encenação com um detalhe decisivo: o bilhete não podia ser melhor, primeira fila. Tudo indicava que a tarde, excepcionalmente, poderia redimir-se.

    Esta sessão de matinée — a única das três sessões previstas —, integrada num festival com programação até ao próximo dia 18, inscreve-se num filão que os actores ligados ao Porta dos Fundos têm vindo a explorar com insistência crescente: a improvisação estruturada a partir de histórias “reais”, escolhidas em palco, com a promessa implícita de espontaneidade, risco e revelação. É um modelo reconhecível, testado e comercialmente eficaz, que surge aqui como herdeiro directo — mas claramente menor — do Porta dos Fundos original, que teve o seu auge até 2019, esse sim um objecto mais ousado, mais concentrado e, paradoxalmente, mais livre. A promessa da improvisação mantém-se intacta no discurso, mas é cada vez mais mediada por um dispositivo que protege o risco e amortece a vertigem.

    Não há como negar o talento criativo de Fábio Porchat: o domínio do tempo cómico, a rapidez de associação, a capacidade de transformar um detalhe banal numa situação dramatizável continuam intactos. Gregório Duvivier acompanha com inteligência e versatilidade, enquanto João Vicente de Castro e Gustavo Miranda asseguram eficácia cénica e ritmo. Ainda assim, o conjunto nunca atinge, neste espectáculo, a densidade nem a surpresa do projecto fundador. Aquilo que se apresenta é, em larga medida, um sucedâneo comercial: competente, bem oleado, previsível nos seus mecanismos e excessivamente confortável na sua fórmula.

    Fabio Porchat, João Vicente de Castro e Gregório.

    A história escolhida — uma entre três ‘vidas’ contadas por mulheres propostas ao público — é a de Joana, engenheira e consultora imobiliária, e forneceu matéria-prima suficiente para um jogo cénico com linhas cómicas: os pais que se terão conhecido quando a mãe, ainda casada com o anterior marido, Sebastião, entrou numa agência de viagens; a separação ao fim de cinco anos, motivada pelo vício do jogo do pai José; e, no presente, uma relação amorosa marcada por falhas de comunicação, tropeções emocionais e uma caricatura do namorado que, a existir fora do palco, dificilmente sobreviveria incólume à exposição pública ali feita. A dúvida sobre a veracidade integral da narrativa é, no fundo, irrelevante: no teatro improvisado, a verdade interessa menos do que a sua eficácia dramatúrgica.

    O espectáculo acerta quando explora a ambiguidade entre confissão e encenação, entre o relato íntimo e o dispositivo cénico. Há momentos de humor eficaz e alguns rasgos verdadeiramente interessantes de improviso — sobretudo quando os actores se libertam do trilho mais óbvio e arriscam uma deriva menos segura, brincando com as reacções uns dos outros. Aí percebe-se por que razão este grupo conquistou um público fiel: há inteligência, ritmo, cultura pop bem digerida e um faro afinado para o ridículo das relações contemporâneas.

    Mas há também longos momentos de fadiga narrativa. A improvisação historicizada exige uma atenção constante que nem sempre é recompensada. O espectador percebe cedo demais os limites do jogo, antecipa os movimentos e adivinha os clímax. O risco passa a ser mínimo e a demasiada fluidez aparenta mesmo ser uma execução de uma partitura invisível, demasiado conhecida por quem a toca e por quem a escuta.

    Gustavo Miranda, Fábio Porchat, Joana (‘musa’ do teatro de improviso), João Vicente de Castro, Gregório Duvivier e Andrés Giraldo (acompanhamento musical e sonoplastia).

    Há algo de enfadonho na forma como a história de Joana é trabalhada, que se deve também ao improviso, uma vez que não admite interrupções nem bloopers: os conflitos são reconhecíveis, as caricaturas eficazes, mas o conjunto nunca se arrisca verdadeiramente a desmontar o material humano. O namoro disfuncional de Joana surgiu como alvo fácil; a história dos pais, com o seu potencial de ambiguidade moral, resolve-se num tom leve, quase anedótico. Tudo é rapidamente convertido em matéria risível mas nem sempre bem conseguido — o que é, ao mesmo tempo, a força e a fraqueza do formato.

    Comparado com o Porta dos Fundos original, este espectáculo parece mais preocupado em confirmar expectativas do que em as perturbar. Onde antes havia tensão entre humor, desconforto e exposição, há agora fluidez, eficácia e uma certa preguiça criativa disfarçada de espontaneidade. Não se trata de incompetência — muitíssimo longe disso —, mas de uma opção clara por um registo mais comercial, mais seguro, menos exigente para quem cria e para quem assiste.

    É certo que o espectáculo funciona. O público ri, reconhece-se, sente-se acompanhado por intérpretes experientes que sabem exactamente quando acelerar, quando prolongar uma situação e quando recolher o riso. Mas essa segurança excessiva é também parte da limitação do objecto. A improvisação, quando demasiado protegida pelo dispositivo, perde a vertigem que a tornaria memorável e transforma-se num exercício de virtuosismo controlado, mais próximo de um produto bem calibrado do que de um verdadeiro acontecimento teatral.

    No fim, até porque continuo a ser um fã do Porta dos Fundos, fica uma crítica que é também um reconhecimento: Fabio Porchat, Gregório Duvivier e João Vicente de Castro – aos quais se acrescentam actuais e antigos membros como Antonio Tabet, Clarice Falcão, Júlia Rabello. Letícia Lima, Rafael Infante e Rafael Portugal, entre outros – foram, são e serão extraordinários no sketch curto sem limites e dogmas, no humor de alta rotação, na sátira rápida e incisiva e na capacidade de condensar em poucos minutos uma ideia cómica que outros não conseguem estruturar em meia hora. Também no cinema, quando o formato impõe limites e obriga a escolhas, o colectivo tem mostrado saber conter o seu próprio excesso e transformar talento disperso em objectos coesos, muitas vezes mais interessantes do que a crítica lhes quis reconhecer.

    Por isso, este tipo de espectáculo de improviso, como o Portátil, é interessante, sim, mas é sobretudo um derivado, episódico e, aqui e ali, estafado. Funciona como variação lateral de um corpo de trabalho muito mais sólido do que aqui se vê. Diverte, não compromete, não falha — mas também raramente surpreende. É um sucedâneo competente, mas fica aquém daquilo que o Porta dos Fundos já demonstrou saber fazer quando o riso não é apenas imediato, mas pensado, escrito e depurado. E precisamente por esse percurso consistente, nos sketches e no cinema, a exigência aqui se torna maior e a comparação inevitável. A avaliação deste Portátil é, portanto, inflacionada, com o aviso de que este 4 está a anos-luz do 5 que muitos dos seus trabalhos de estúdio justamente alcançam.

    Nota final: 4 em 5

  • A conferência dada não se olha ao dente

    A conferência dada não se olha ao dente

    Passou à porta do hotel. Do — não de um hotel — porque era o mesmo diante do qual passava diariamente a caminho de casa. Naquele dia, porém, algo lhe prendeu o olhar: um enorme cartaz anunciava que ali decorria a X Conferência Internacional de Paremiologia. Logo abaixo, em letras menores: Bem-vindo seja quem vier por bem.

    Paremiologia. A palavra intrigou-a. Soava a doença rara. Só podia ser. E, pelo nome, parecia coisa séria. Fatal, possivelmente. Decidiu aceitar o convite e ir descobrir do que se tratava.

    Uma rececionista afável perguntou se vinha para a conferência.

    — Vim, sim. Sabe que o seguro morreu de velho — confirmou.

    — É esse o espírito da coisa. No primeiro andar, à esquerda. Vá atrás do doutor que candeia que vai à frente alumia duas vezes — respondeu a rececionista, apontando.

    Seguir o doutor? Confirmavam-se os receios. Era moléstia. Queriam lá ver que vinha aí pandemia.

    À entrada do salão, uma senhora acolhia os participantes. Vendo a sala quase vazia, mas com alguns lugares marcados, perguntou onde se podia sentar.

    Quem adiante chega, adiante se avia.

    Depreendeu desta resposta que poderia sentar-se onde bem entendesse. E nem tentou obter mais esclarecimentos, antecipando um inevitável para bom entendedor, meia palavra basta.

    Cansada da ausência de respostas diretas — e a sentir que a paciência lhe começava a faltar — sentou-se. Abriu a mala e procurou o telemóvel, resolvida a perceber o que era afinal a paremiologia: causas, sintomas, tratamentos. Queria saber tudo, mas o telemóvel estava descarregado.

    Levantou-se à procura de uma tomada. Aproximou-se de outra senhora e pediu-lhe ajuda.

    — Devia ter poupado a bateria… no poupar é que está o ganho. Ora, deixe-me lá ver. Eu sei que há uma por aqui … e já sabe que quem procura sempre encontra.

    A gargalhada e a piscadela cúmplice foram a gota de água.

    Abandonou a sala. Compreendeu que a paremiologia grassava sem piedade. Estavam todos irremediavelmente infetados.

    À saída, a rececionista perguntou:

    — Já vai?

    — Isto não é para mim. – respondeu.

    — Ah, está bem. Pois, isto é cada cabeça, sua sentença enão se pode agradar a gregos e a ...

    Cobriu rapidamente a boca e o nariz com a écharpe. Apressou-se em direção à luz do dia. Já no exterior, baixou o lenço, esperou alguns segundos e respirou fundo. Resistira à tentação de terminar a frase. Estava a salvo!

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve

  • Ali Jackson: a cena jazzística lisboeta recebe um dos melhores do Mundo

    Ali Jackson: a cena jazzística lisboeta recebe um dos melhores do Mundo


    A cena jazzística lisboeta vive, discretamente, uma época de ouro. Podemos comprová-lo visitando, numa noite ao acaso, estabelecimentos fora dos circuitos noctívagos mais caudalosos como o Távola Jazz Club, a Sala Anexa, a Fábrica Braço de Prata ou o Café Dias.

    Por lá, encontraremos, em palco ou na plateia, uma comunidade de jovens músicos que se formou nas melhores escolas de Portugal e do estrangeiro e sobretudo no convívio e na tradição oral desta música que, vinda dos Estados Unidos, é, ainda hoje, a língua franca dos que querem fazer dançar mas também emocionar, procurando o equilíbrio entre a proeza artística e o entretenimento do espírito.

    Távola Jazz Club

    Se o proverbial desdém português pela prata da casa impedir alguém de reconhecer esta época dourada (mesmo perante talentos estrondosos como os de Romeu Tristão, Hugo Lobo ou Ricardo Toscano) podemos apresentar, como pergaminho adicional, a quantidade e qualidade de nomes internacionais que, nessas mesmas casas, a eles se juntam com cada vez maior frequência. Aaron Parks, Jordi Rossi, Greg Hutchinson ou Emmet Cohen, são músicos de topo do jazz mundial que pudemos ouvir, a horas mais ou menos recomendáveis, em diálogo musical familiar com os de cá, só no último ano.

    É neste contexto que o baterista norte-americano Ali Jackson se propõe a uma residência artística entre nós durante este mês de Dezembro.

    A sua biografia confunde-se com a história do jazz e música popular das últimas décadas e nela constam participações com Aretha Franklin, Eric Clapton, Norah Jones, Tony Bennett, Willie Nelson e George Benson. Há 15 anos que se senta com autoridade e naturalidade na bateria da Jazz at Lincoln Center Orchestra, liderada por Wynton Marsalis.

    Ali Jackson

    Chega de pergaminhos.

    No pequeno (grandioso) palco do Távola, no número 16 da Rua Coronel Bento Roma, no bairro de Alvalade (a 5 minutos a pé da estação de metro de Roma), serão cinco noites e quatro programas contrastantes, sempre às 22 horas (sendo conveniente chegar antes pelo número limitado de lugares):

    Dia 11 – Três Mestres da Bateria: Max Roach, Art Blakey e Elvin Jones

    Dia 12 – Soulful Songs: Uma mistura única de originais, clássicos e Blues

    Dia 13 – Afro Latin Vibes com Victor Zamora e Osvaldo Pegudo

    Dias 26 e 27: O melhor da música da década de 90 de Kenny Kirkland, Mulgrew Miller, Kenny Garret e mais.

    Jackson vem porque sabe que há músicos e ouvintes que querem aprender, partilhar e celebrar o melhor da música.  

    Lisboa recebê-lo-á com entusiasmo, várias horas de ensaio e orgulho nos que se aventuram a fazer e apoiar música fora das redes sociais, dos circuitos subsídio-dependentes e dos modernismos vazios. Vale a pena testemunhar. E degustar.

  • O homem todo vestido de preto

    O homem todo vestido de preto


    O sol morria no horizonte, vermelho, mas o calor permanecia sobre a cidade, sufocando-a, úmido e pegajoso. Janelas e portas escancaradas mostravam gente suarenta e apática no interior das casas. Só as crianças não sentiam a quentura: corriam pelas calçadas incendiadas, empurrando-se, gritando.

    Vínhamos num carro velho, tão lento e preguiçoso quanto os homens que se arrastavam de volta à casa depois de um dia de trabalho. Éramos rapazes e mirávamos sem interesse a inquieta garotada de bochechas vermelhas e os velhos de pijama, já nas cadeiras de balanço, à espera da frescura da noite. Mas naquele lusco-fusco havia também mulheres debruçadas nas janelas.

    Esmagados pelo calor que entrava em jatos de vapor pelas janelas abertas do automóvel, vínhamos taciturnos, calados. Desembarcamos diante do ginásio de esportes. A rua era uma fornalha.

    Entramos. Lá dentro, por uns minutos nos detivemos junto à tela de proteção da quadra observando os caras que jogavam. Camisetas molhadas, coladas no corpo, cabelos empapados, rostos avermelhados, esbaforidos usavam mais de astúcia que de vigor.

    Fomos para o vestiário. Não senti alívio nenhum quando me livrei das roupas; o calor apalpou-me as pernas e o peito enquanto eu vestia o calção e a camiseta preta.

    – Eu é que não queria estar na tua pele, com este calor danado – disse-me o Boca. – Vestir uma camiseta grossa!

    – Todo mundo vai suar muito mesmo – retruquei. – Tanto faz.

    – Mas, em compensação, o goleiro fica parado – palpitou o Magro.

    – Parado não quer dizer descansando – acrescentei. – No golo, o ruim é o suor da testa entrando ardido no olho da gente.

    – Vocês conhecem o time deles? – perguntou o Turco.

    – Ouvi falar que jogam mais ou menos – respondeu o Boca. – Mas parece que sentam o sarrafo!

    – Quem te mandou acertar jogo contra o time de um matadouro? – intrometeu-se o Magro, encarando o Boca.

    – Matadouro? Como é que eu ia saber que eram de um matadouro? Só sei que é uma alemoada. Devem ser duros de cintura! Vai ser barbada.

    – Pra teu controle, é um matadouro de porcos – disse o Magro. – Clandestino, ainda por cima.

    Até as palavras soam mais quentes aqui no vestiário, pensei.

    Preguiçosamente, lentos, vestíamos o uniforme. Ninguém ali parecia disposto a fazer os exercícios de aquecimento.

    – O pior pra nós é o goleiro deles – disse o Boca.

    – O goleiro deles? – me interessei. – Quem é?

    – É um alemão meio velhusco. Um tal de Batata.

    – Batata?

    – É isso aí. Conheces?

    – Não vai dar pra nós – eu disse. – É melhor a gente ir pra casa. Não temos a mínima chance de ganhar.

    Todos me olharam, interrogativos.

    Resolvi não dizer mais nada. Não expliquei a eles que conhecia o Batata desde quando eu tinha nove, dez anos.

    Eu ainda usava calças curtas, quando meu pai começou a me levar para assistir às partidas do campeonato de futebol de salão, nas noites de sábado. Eu já era fascinado pelos goleiros. E ele, Batata, era o mais elegante de todos os arqueiros da cidade. Todo vestido de preto, magro e alto, uma risca perfeita cortando o cabelo claro ao meio. Batata, solitário como todos os goleiros, passava o tempo todo vigiando com seus olhos azuis semicerrados o movimento dos jogadores. Para mim, ele era o maior de todos, invencível.

    Sim, naquela noite infernal, jogamos contra os caras do matadouro. Foi uma partida comum, como essas tantas outras que nas noites de calor ou de frio entretêm os jovens das pequenas e médias cidades.

    Estou falando de futebol de salão e não desse negócio modorrento e sem graça que é o futebol de campo, esse jogo em que vinte marmanjos se arrastam por um gramado. Não, estou falando do futebol que é disputado numa quadra de cimento liso ou de taco por caras que correm feito loucos. Que trombam e caem. Caem a todo momento porque o campo é pequeno e a velocidade deles é tremenda. Mas que levantam no mesmo instante porque os segundos são preciosos. O desgaste físico é tanto que os tempos são de apenas vinte minutos. E aquela bola, que parece coisa de menino, tão pequena, é terrível porque machuca bastante. Um dia me contaram o caso de um cara que morreu com um rim dilacerado quando levou uma bolada. O pobre estava formando uma barreira.

    Ganha o time que erra menos. O sujeito não pode chegar um milésimo de segundo atrasado. Todo erro é fatal. É jogo que exige paciência, malícia. É jogo de estratégia, de espera. Para ganhar, é preciso acertar nas vezes em que o adversário erra. É como na vida, o sujeito só se alevanta quando o outro falseia a passada. É jogo bruto.

    As grandes jogadas são imperceptíveis. Dribles de centímetros, que só os muito habilidosos conseguem dar. O giro fulminante, o corta-luz. E os chutes? Ninguém chuta de lado de pé, bola colocada, essa frescura. É sempre de bico, chute seco. A bola zune, assobia no ar parado dos ginásios cobertos. A magia do futebol de salão está na vertigem do raciocínio dos jogadores.

    O nosso time era muito superior. Jogávamos juntos desde o nosso tempo de ginasianos. Estávamos entrosados de um jeito tal que nem precisávamos erguer o rosto para saber onde andava o companheiro – bastava jogar a bola no espaço vazio que ele chegava a tempo.

    Acima de tudo, éramos amigos, camaradas, parceiros de bailes e de namoricos, colegas de universidade, companheiros de noitadas. Então, se por acaso um perdia a bola, todos voltavam, juntos, para ajudar na defesa, e imediatamente preparar um contra-ataque.

    Jogamos muito bem naquela noite sufocante, jogamos bem pra burro.

    Mas não vencemos.

    O que eu quero dizer é que não pudemos explodir no grito de golo e bater nas palmas das mãos dos outros, dar socos no ar ou recolocar a bola no meio da quadra.

    Isso tudo por causa daquele goleiro, o goleiro do time do matadouro de porcos, talvez já beirando os cinquenta anos, aquele que todos chamavam Batata.

    Porque ele parecia ter uma dezena de mãos como a deusa hindu e seu corpo seco era movido por uma eletricidade de animal. Quando chutavam cruzado, ele se abria no ar, pernas e braços, um xis perfeito, e assim guarnecia toda a meta, porque sempre havia uma perna ou um braço para mudar a trajetória da bola, viesse ela de onde viesse. E quando chutavam bolas baixas, rasteiras, ele, que era um sujeito alto para goleiro de futebol de salão, vinha pegá-la com a mão, porque os pés são traiçoeiros, não nos obedecem. As mãos, sim. Elas fazem o que a gente quer.

    Era espantoso como aquele sujeito de cabelos já cinzentos apanhava, em mergulhos sinuosos, a bola com a mão. E logo se erguia e lançava a bola com força, sempre certeira, até o pé do atacante. Eram lançamentos perfeitos, quase que meio golo, como a gente dizia na época. Mas, naquele jogo, eles acabaram dando em nada porque aquele time do matadouro era muito do vagabundo e ninguém ali conseguia aparar a bola jogada pelo Batata, tirar-lhe o efeito, dominá-la.

    Quando terminou a partida, sai correndo da minha trave, comovido, atravessei a quadra e abracei o alemão velhusco pelos joelhos. Levantei-o do chão. Ele ficou um tanto surpreendido, porque já não tinha mais fãs há muito tempos. Quando o recoloquei no chão, ele passou a mão pelos meus cabelos e disse:

    – Valeu, guri!

    Depois, me fui correndo ao vestiário.

    Rapidamente, me botei debaixo do chuveiro.

    Enquanto tiravam o uniforme, vagarosos, meus companheiros discutiam. Por que não ganhamos? Onde falhamos?

    Quando saí do chuveiro, resolvi falar:

    – Vamos parar com este papo besta. O Batata jogou sozinho. Ainda é o maior goleiro da cidade. Sempre adivinha onde o sujeito vai botar a bola. As mãos dele têm imãs. A gente só ganharia se alguém tivesse trazido um revólver pra dar um tiro na cabeça daquele alemão filho da puta.

    Calaram-se.

    Enquanto me vestia, senti vontade de chorar mais uma vez, mas me controlei porque não tinha mais a água do chuveiro para mascarar.

    Fiquei apenas lembrando de tantos anos antes quando eu era apenas um piá de calças curtas e, mãozinha dentro da mão áspera de meu pai, escalava penosamente os altos degraus das arquibancadas do ginásio do Cruzeiro nas noites de sábado.

    Naquela época, Batata não tinha os olhos raiados e o pescoço avermelhado dos bêbados. Não! Era o mais elegante e vaidoso dos goleiros da cidade – sempre impecavelmente vestido todo de preto: tênis, meias, calção, camiseta e luvas.

    Foi por causa de uma mulher que se desgraçou. Mulher safada. Neste mundo cheio de mulheres ele só queria aquela, a vagabunda, a sem-vergonha que o enganava. Então deu em beber. Naquele tempo trabalhava num banco, e ganhava uma boa grana extra jogando. Tinha um carro e andava bem vestido. Mas ela queria luxos que um emprego decente não podia propiciar. Aí, um dia, ele roubou. Por causa dela. Pouca coisa, parece. O caso foi abafado, mas ele acabou sendo despedido. Por algum tempo ainda conseguiu outros empregos, sempre um pior que o anterior. Ainda gozou de impunidade por algum tempo por ser o melhor goleiro de futebol de salão da cidade. Mas depois aprontou tantas vigarices que um dia acabou dando com os costados na cadeia.

    Na época em que tive a suprema honra de enfrentá-lo, ele só jogava em times fuleiros. Jogava por qualquer coisa, um prato de sopa, uma carteira de cigarros, duas cervejas. Desde então, tenho disputado mil partidas. Esqueço todas, nem conto os golos. Mas aquele zero a zero eu não esqueço. Ainda me lembro da leveza dele quando o levantei, guardo o espanto dos olhos avermelhados que me fitaram, sinto o peso da mão dele, enluvada, na minha cabeça, e a voz rouca que me disse:

    – Valeu, guri!

    Lourenço Cazarré é escritor

    (*) (*) Do livro Ilhados.

  • A pepita rara que Portugal nem sabe que tem

    A pepita rara que Portugal nem sabe que tem

    Há mundos que me tocam e que me fazem habitar galáxias distintas. Por exemplo, o da Literatura, que conheço bem, é habitado por seres que passam meses — quando não anos — a depurar um livro, para depois o ver vender por aí e recolher uns magros 10%, enquanto lhes pedem, com entusiasmada leveza, que se desloquem gratuitamente a feiras, festivais, clubes de leitura e demais rituais do sector. Aí, as editoras estão sempre ansiosas por uma crítica literária, ‘namorando’ os críticos, embora cada vez existam menos jornais que mantenham a secção cultural viva e com leitores.

    Depois há o jornalismo, esse terreno onde eu julgava já ter testado todos os labirintos e emboscadas possíveis. O PÁGINA UM foi-me habituando à adversidade e aos obstáculos: pedidos recusados, silêncios administrativos, hostilidades várias.

    Daí que, ironia suprema, quando decidi criar no jornal uma secção de crítica musical — um pequeno oásis para me oxigenar das lides mais agrestes da investigação — pensei que seria mais reconfortante e aprazível do que a Literatura e muito mais calmo do que o meu jornalismo ‘tradicional’. Enganei-me: nunca imaginei que encontraria aqui as maiores e mais absurdas resistências.

    Desde Março, salvo erro, passei por Dardust, Aurora, Imagine Dragons, Nos Alive (onde falei sobretudo dos Muse), Shawn Mendes, Tamino, Taxi… Com maior ou menor desconfiança dos promotores, a coisa fez-se e fez-se bem. Mas, pelo meio, tive dois episódios tão caricatos quanto épicos, ambos a render deliberações da ERC — um que ainda assim permitiu o acesso (Iron Maiden) e outro (Leprous) que terminou em recusa acompanhada de um crime de desobediência qualificada por parte do promotor. E houve agora um terceiro episódio, mas esse fica para outros carnavais.

    Chegado ao concerto de Noiserv, esta epopeia entre mares revoltosos e ventos procelosos repetiu-se. Agência pouco interessada, promotor reticente, Centro Cultural de Belém (CCB) como co-organizador e intermediário de boa vontade, mas igualmente apanhado no novelo da ignorância sobre as acreditações ao abrigo do Estatuto do Jornalista.

    Parecia que eu pedia a última pepita de uma mina algures na cordilheira dos Andes. Depois de muita diplomacia, a acreditação lá surgiu — in extremis — permitindo-me chegar ao CCB com a agilidade possível para recuperar minutos perdidos entre conversas, portas fechadas e depois reabertas e bilheteiras.

    Entrei já na segunda ou terceira música. O Grande Auditório, repleto a uns saudáveis 90%, era a melhor demonstração de que a relutância na acreditação era mero capricho ou, perdoem-me a franqueza, uma estupidez absoluta. Porque Noiserv é, de facto, uma pepita — mas não dessas que se regateiam. É a pepita de uma mina única, incrivelmente polida desde há vinte anos por um músico que Portugal ainda não percebeu que tem na mão. Um diamante discreto, mas cintilante.

    Confesso: foi a primeira vez que vi Noiserv ao vivo. Comecei a ouvi-lo em 2015, por força do Spotify, no rescaldo de Everything Should Be Perfect If No One’s There. Andei meses, por vezes em ‘loop’, a ouvir ‘Bullets on Parade’, ‘Don’t Say Hi If You Don’t Have Time for a Nice Goodbye’ e ‘Mr. Carousel’. E confesso outra coisa — e que Noiserv me perdoe: só tarde percebi que era português. Quase toda a discografia que então conhecia era em inglês, e eu, distraído, associei-lhe uma geografia longínqua, algures entre a Islândia e a Dinamarca. Mea culpa. A ignorância, ao menos, só a mim envergonha.

    Vê-lo ao vivo, porém, é outra experiência: a construção paciente das canções, camada sobre camada, num artesanato sonoro que se faz de loops sucessivos, mãos que saltam de teclados para guitarras, de pedais para a percussão e para pequenos instrumentos quase escondidos.

    Em Noiserv há uma espécie de delicadeza obstinada, um perfeccionismo matemático que não pesa — ele faz, desfaz, repete três acordes iniciais quantas vezes forem necessárias para a peça assentar exactamente no lugar certo. E fá-lo com serenidade, sem o drama dos génios atormentados.

    A voz — importa dizê-lo — é singular: um timbre suave, quase diáfano, mas com aquela textura aparentemente frágil que parece nascer entre o peito e a garganta, como se cada palavra fosse mais respirada do que pronunciada. É uma voz que não quer dominar a canção; quer habitar dentro dela.

    E depois há as peças que dispensariam voz — verdadeiras paisagens cinematográficas, onde a melodia sugere viagens, memórias, silêncios, nevoeiros, a infância a voltar por instantes. Se Noiserv tivesse duas versões de si próprio — uma vocal, outra puramente instrumental — ambas fariam sentido. São universos complementares.

    A empatia com o público fez o resto. Histórias pequenas, contadas como quem está numa roda de amigos: a dos pés que, em criança, cresceram mais depressa do que o corpo (e que lhe frustraram a ambição de ser basquetebolista); ou a facilidade desarmante com que brincou com a própria música, com os improvisos, com os acasos. Quem vai a um espectáculo de Noiserv não vê um músico: vê uma alma.

    E a noite teria sido perfeita — não fosse o público. No final, depois de uma despedida emocionada, Noiserv deixou uma versão absolutamente imaculada de One Hundred Is Much More Than Ten Times Ten, do seu mais recente álbum, 7305, que conta com a participação de outros músicos e cantores, entre os quais Suma, que ali fizera um dueto em A Fearless Part Between a Kid and His Own Thoughts. Melhor do que no disco, mais intensa, mais pura. Uma obra-prima em qualquer latitude.

    E, no entanto, no fim, algo falhou. Não sei — e nem quero saber — se havia indicação prévia para não haver encore. Mas a verdade é que, depois daquela pérola final, instalou-se no auditório um embaraço difícil de descrever: grande parte do público não saía… mas também não aplaudia com força suficiente para provocar um regresso ao palco. Eu próprio, confesso (quarta confissão da noite), tentei ajudar os mais entusiastas. Um jornalista não deve influenciar plateias, mas estas coisas acontecem.

    Nada resultou. Faltou entusiasmo, sobraram palmas tímidas. Uma cena quase pateta, indigna do que tínhamos acabado de ouvir. Se por acaso Noiserv vier a ler estas linhas, aqui deixo o que talvez o público não soube dizer: por mim, faria dez encores. E teria sido pouco.

    Nota final: 5 em 5

  • Um concerto onde só a voz esteve presente

    Um concerto onde só a voz esteve presente

    Comecei a seguir Mazgani, um cantautor luso-iraniano nascido em 1974 e radicado em Portugal desde criança, por causa de uma publicação que dirigiu aos fãs. Dizia qualquer coisa como: “Meus amigos, quero dizer-vos que agora tenho um piano cá em casa.” 

    Fiquei imediatamente seduzida pela forma como falava — não pelas palavras, mas pelo sorriso de criança que lhe escapava do rosto, como quem vê finalmente cumprido um desejo antigo.

    Ao lê-lo, lembrei-me do meu próprio piano, quando decorava de fresco a sala da minha casa de infância. Recordei as vezes em que passava à porta apenas para o espreitar, e dos dias em que esperava impacientemente pelas 9 da manhã para desatar a tocar e assim abrasar inocentemente os ouvidos da vizinhança com os meus repetidos estudos… 

    A vida de um aprendiz de piano envolve duas forças irresistivelmente opostas: um garrido  entusiasmo que se solta dos dedos do estudioso e muito desespero por parte de quem não tem como se esquivar das agruras da escuta.

    Mazgani tinha hoje encontro marcado com o público no Teatro-Cine de Torres Vedras, pelas 21h30m. E um minuto depois dessa hora entrou na sala, sentou-se, agarrou-se à guitarra e pediu que apagassem as luzes.

    Desatou a tocar. Nem boa noite, nem um gesto de aproximação. Um gelo que se instalou ali, inteiro. Ele não trouxe mantas de afecto para nos aconchegar. Nós não sabíamos como dizer-lhe que queríamos que estivesse ali. 

    Um desencontro humano, estranho, quase injustificável, em que cada um  se abeirava de um mesmo precipício e caía para o seu lado sem haver lugar ao toque.

    Ao fim de duas músicas, alguém gritou. Mazgani respondeu no mesmo tom. Uma troca animalesca de sons. Ele perguntou se mais ninguém queria uivar. “A propósito, a próxima música chama-se ‘A dog at your door’ — um cão que uiva pela separação.”

    Ok. Ali estava, finalmente, um sinal de humanidade, alguma dor…

    Agradeceu depois o jogo de luzes — “muito elegante”, disse — e voltou a desafiar-nos: Ninguém uivava? Ninguém dançava? Garantia que se alimentava do nosso calor.

    Mas eu via nele uma urgência em despachar a noite desde o primeiro minuto. Um músico de estúdio, talvez. Ou talvez os músicos — os artistas em geral — já não se sintam obrigados a interagir com o público. O mundo mudou tanto em matéria de afectos que até o palco parece, por vezes, um território neutro. 

    Mas se não nos tocamos, como é que nos encontramos, mesmo partilhando o mesmo espaço?

    Mazgani obrigou-me a experimentar um exercício novo: fechei os olhos e deixei de pensar nele como presença física. Era como se só a voz dele tivesse comparecido ao nosso encontro — e, curiosamente, foi aí que tudo fez sentido.

    A voz de Mazgani é um instrumento feroz. Sussurra como se os lábios pudessem arrepiar a pele junto aos nossos ouvidos; os seus gritos enchem-se de tonalidades graves e agudas que nos varrem por dentro. A sua voz move-se, cresce, dilata-se, estremece-nos. 

    No fim agradeceu e disse que fomos “muito amáveis”. 

    Mas eu, cheiinha do espectáculo que consegui resgatar dos escombros de um encontro catastrófico, já não me deixei tocar pela ironia.

    Nota final: 4 em 5

  • O pop-rock dos anos 80 envelhece bem (como nós)

    O pop-rock dos anos 80 envelhece bem (como nós)

    Há datas que não precisam de ser redondas para justificar uma celebração — basta que a memória colectiva dê sinal de vida. E no Coliseu dos Recreios, numa noite que começou às 22 horas como se Lisboa inteira ainda vivesse nos anos 80, os Táxi relembraram-nos os tempos em que o país ainda mal sabia o que era uma guitarra eléctrica, mas em que eles ousaram meter o pé no acelerador num veículo de pop adolescente, refrões de bolso e melodias que sobrevivem melhor ao tempo do que muitos blocos de apartamentos da Expo’98.

    ‘Páginas Amarelas’ abriu a noite, e não foi inocente: embora muitos jovens nem imaginem o que era isso, continua a ser uma metáfora actual e perfeita sobre a obsolescência, a irrelevância e aquele charme das coisas que já ninguém usa mas ninguém esquece. Seguiu-se ‘Cairo’ — a música-título do segundo álbum, que inovou em 1982 com uma capa de metal redondo —, numa versão mais madura, menos pop do que a original — e muito melhor.

    Apesar de apenas João Grande (vocais) e Rui Taborda (baixo) se manterem da formação original — ou talvez por isso —, os Táxi entram na meia-idade (depois de longos períodos de baixa actividade) com muita dignidade.

    João Grande, aos seus impressionantes 72 anos — impressionantes não pela aritmética, mas pela energia teimosamente juvenil —, tem a noção de já não estar nos anos 80 do século passado, mas soube adaptar a maturidade da sua voz à evolução musical dos tempos (e dos gostos) e aos novos integrantes, muito mais novos. No trio de ‘jovens’ destaca-se Sérgio Loura, um guitarrista de mãos cheias, bem secundado pelo outro guitarrista, Nelson Funky, e pelo baterista Hugo Drums.

    Os arranjos actuais dos Táxi são mais densos, mais trabalhados, como se as canções tivessem deixado a rebeldia dos 20 para assumirem a elegância dos 50. ‘A Queda dos Anjos’ mostrou isso: continuamos todos a ‘ir à Roxete’, mesmo sem lembrar exactamente porquê — mas a nostalgia funciona assim, basta o refrão.

    Ao longo de mais de duas horas de celebração — foi para isso, e por isso, que se encheu o Coliseu dos Recreios com 90% de pessoas da minha geração ou mais velhos —, houve também momentos de ternura sonora — ‘Sozinho’, esse slow do início dos anos 90 que fazia pares improvisarem namoros em discotecas e garagens — e momentos de arrojo eléctrico, como ‘Fio da Navalha’, que ao vivo continua a ser uma faca sem tampa.

    Houve momentos mais ternurentos, como o da participação do Coro Juvenil Regina Coeli, no tema ‘Não sei sei sei’, E, um pouco mais, surgiu uma versão especial do ‘Meu Manequim’, com a batida pesada em dueto com Daniela Jesus (uma boa combinação), que mostrou que o álbum de estreia ainda tem músculo suficiente para aguentar qualquer palco contemporâneo.

    Entre músicas, percebeu-se a maturidade de uma banda que não tenta reviver o passado: apresenta-o como se fosse presente. E o trio de metais foi disso um aprazível exemplo. O público — uma mistura sobretudo de cinquentões, sessentões e alguns jovens teimosos que descobriram que os pais até ouviam ‘coisas com piada’ — correspondeu com entusiasmo.

    O Coliseu vibrou, cantou, saltou, e em certos momentos pareceu um regresso aos tempos em que as guitarras eram mais baratas do que os computadores e formar uma banda era um projecto tão legítimo como estudar engenharia. Só nos temas mais intimistas, apenas com guitarras acústicas, houve algum desfasamento da voz de João Grande — não sei se por falta de versatilidade da sua voz ou por questões técnicas. Não sendo dispensável, essa parte não acrescentou muito à festa.

    Mas, como sempre, também aqui houve rituais sagrados, mal guardados. E os Táxi respeitaram-nos todos, excepto um: deixaram o maior sucesso para o encore. O público teve de esperar, suportar a ansiedade colectiva… para finalmente ouvir ‘Vida de Cão’. Muito bem recebida, claro — mas todos sabiam que ainda faltava a verdadeira estrela da noite.

    Só depois, já no momento em que o Coliseu parecia pronto para explodir com a desfeita (que seria impossível), veio ‘Chiclete’. E aí não houve nostalgia possível: foi pura celebração, catarse pop-rock, coro de milhares, prova viva de que há canções que não envelhecem porque nunca pertenceram verdadeiramente ao tempo.

    E quando já se esperava o fim — porque é belo encerrar com o clássico dos clássicos — eis que João Grande, teimoso como só os bons veteranos sabem ser, decide dar um segundo encore. Aos 72 anos, já depois de o meu telemóvel ter pifado a bateria. E ainda se predispôs, no fim, a dois dedos de conversa e fotografias.

    Não fiquei para essa sessão extra, mas não fiquei imune à energia de João Grande. E assim, como sou coerente, vi-me forçado, com prazer, a ser justo: se há uns meses, aos Imagine Dragons, tirei 0,5 pontos por não darem encore, então os Táxi, que deram dois, merecem mais 0,5 pontos do que aquilo que lhes iria atribuir.

    Nota final: 4,5 em 5

  • O Brasil, desculpem, não é mais o país do futebol

    O Brasil, desculpem, não é mais o país do futebol


    Mesmo inexperto em coisas de futebol (assisti a três jogos nos últimos 11 anos) e morador de uma cidade que não têm tradição no esporte bretão (Brasília), resolvi meter a minha colher nesse assunto milionário para dizer que – atenção! cuidado! – o Brasil não é mais o país do futebol. Mas de imediato, antes de ser acusado de lesa-pátria, faço uma ressalva: os países do futebol, hoje, são muitíssimos.

    Vejamos. O Brasil foi mesmo o país do futebol até o final dos anos 1970, ou mais exatamente até a tragédia da Copa de 1982. A nossa última grande geração foi aquela de Zico, Falcão, Cerezo, Júnior, Sócrates, Paulo César Caju, Edinho e Careca. Mas ainda ganhamos três bolas de ouro entre 2002 e 2007 (Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká). Depois, necas.

    2 boys playing soccer on water during daytime

    Há uns trinta ou quarenta anos, todas as grandes equipes de futebol da Europa, contavam com uns poucos jogadores de fora que, na sua maioria, eram brasileiros, argentinos e uruguaios. Em 1995, veio a lei Bosman que escancarou as porteiras para que os europeus contratassem tanto forasteiros quantos seus cofres pudessem aguentar.

    Essa lei mudou profundamente o panorama. Hoje, todos os grandes clubes europeus contam com verdadeiras legiões estrangeiras. Há uns que tem vários integrantes das seleções nacionais de muitas outras terras. E a maioria dos vindos de fora não é mais formada por argentinos, brasileiros e uruguaios, não.

    Basta ir à internet buscar os números.

    Vejamos como são formados os plantéis de quatro grandes times do Velho Continente.

    Boys playing soccer on a sunny beach

    PORTUGAL

    Comecemos pelo Benfica. A equipa encarnada de Lisboa conta com 13 jogadores nacionais. Já Áustria, Ucrânia, Argentina e Noruega contribuem com dois peladeiros. Aí vem a estrangeirada (cada país com um atleta): Bélgica, Brasil, Colômbia, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Grécia, Guiné, Inglaterra, Itália, Luxemburgo, Suíça, Tchecoslováquia e Turquia.

    ESPANHA

    Passemos agora ao vizinho, o Real Madrid. Sim, depois dos 14 jogadores espanhóis, os mais numerosos estrangeiros são os brasileiros, que somam quatro. Mas, opa, quatro é o mesmo número de franceses! Os ingleses entram com dois.

    Depois vêm (com um solitário): Alemanha, Argentina, Bélgica, Holanda, Bélgica e, ainda, quem diria, Áustria, Turquia e Ucrânia.

    Detalhe sórdido: No RM, o Brasil tem um jogador para cada 53 milhões de seus habitantes. O Uruguai tem um jogador para seus 3,5 milhões de habitantes.

    Esse número, o relativo, medido entre a população de um país e os seus craques de exportação, deveria ser examinado com mais cuidado. Porque é, de fato, mais certeiro, mais correto.

    soccer field

    INGLATERRRA

    Passemos ao badalado Manchester City, desconhecido antes da chegada por lá de Pep Guardiola. Conta com 16 britânicos. Os portugueses se apresentam com três representantes. Os brasileiros, claro, vêm num honroso terceiro lugar, com dois atletas. Aliás, o mesmo número de croatas, espanhóis, holandeses e noruegueses. Aparecem ainda Alemanha, Argélia, Argentina, Bélgica, Burkina, Egito França, Itália, Noruega, Serra Leoa, Suíça, Uzbequistão.

    Em 2018, um amigo meu, que foi assistir a um jogo do City, ficou em choque com o fato de haver um só jogador inglês naquele dia em campo.

    ALEMANHA

    Vamos encerrar com o time germânico que vence tudo há muito tempo por lá. De forte tendência nacionalista têm 24 jogadores pátrios. Com dois atletas entram Croácia, França e Reino Unido. E aparecem (com 1 representante): Áustria, Brasil, Canadá, Colômbia, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos da América, Israel, Japão, Luxemburgo, Senegal, Sérvia e Suécia.

    a large stadium filled with lots of people

    CROÁCIA

    Esses números mostram que, em nossos dias, a produção de talentos se estende por todo o Universo, sim. Mas eu destacaria o Leste da Europa: vide Croácia. E, para não perder a caminhada planetária, vou até o Norte da África, para dar uma olhadinha em Egito e Marrocos

    Há quem diga que o Brasil é ainda o maior exportador de jogadores. Provavelmente é mesmo, mas não por um mérito especial, ou determinação dos deuses do balão esférico, mas, sim, porque tem uma impressionante população de 212 milhões habitantes, superada apenas por China, Índia, Estados Unidos, Indonésia, Paquistão e Nigéria, países sem tradição nos gramados. E amantes de outros esportes, como a Índia, que prefere o movimentado e empolgante críquete, cujas partidas podem durar 5 dias.

    PAÍS TROPICAL

    Passemos agora à terra de Pelé. Amigos jornalistas conhecedores do tema me dizem que, atualmente, a maioria dos treinadores dos nossos grandes clubes não nasceu no país tropical, de Jorge Benjor, não. Entre eles, destacam-se os lusitanos (Abel Ferreira, 47 anos, já está entre os maiores da nossa história) e os argentinos.

    man playing soccer game on field

    Disseram-me também que as quatro divisões do nosso futebol reúnem cerca de 245 alienígenas.

    Só na Série A eles são 137, de 18 nacionalidades, sobressaindo-se argentinos (46), uruguaios (26), colombianos (15), paraguaios (12), equatorianos e até (céus!) venezuelanos (7). E as más línguas fazem questão de lembrar que dois dos chamados grandes do Brasil, Grêmio e Vasco, contam com 11 exóticos no seu quadro.

    Lourenço Cazarré é escritor

    (*) Com a cumplicidade dos jornalistas Cezar Motta, José Cruz, Luiz Lanzetta e Mário Medaglia.