Autor: Zuraida Guedes

  • Um concerto onde só a voz esteve presente

    Um concerto onde só a voz esteve presente

    Comecei a seguir Mazgani, um cantautor luso-iraniano nascido em 1974 e radicado em Portugal desde criança, por causa de uma publicação que dirigiu aos fãs. Dizia qualquer coisa como: “Meus amigos, quero dizer-vos que agora tenho um piano cá em casa.” 

    Fiquei imediatamente seduzida pela forma como falava — não pelas palavras, mas pelo sorriso de criança que lhe escapava do rosto, como quem vê finalmente cumprido um desejo antigo.

    Ao lê-lo, lembrei-me do meu próprio piano, quando decorava de fresco a sala da minha casa de infância. Recordei as vezes em que passava à porta apenas para o espreitar, e dos dias em que esperava impacientemente pelas 9 da manhã para desatar a tocar e assim abrasar inocentemente os ouvidos da vizinhança com os meus repetidos estudos… 

    A vida de um aprendiz de piano envolve duas forças irresistivelmente opostas: um garrido  entusiasmo que se solta dos dedos do estudioso e muito desespero por parte de quem não tem como se esquivar das agruras da escuta.

    Mazgani tinha hoje encontro marcado com o público no Teatro-Cine de Torres Vedras, pelas 21h30m. E um minuto depois dessa hora entrou na sala, sentou-se, agarrou-se à guitarra e pediu que apagassem as luzes.

    Desatou a tocar. Nem boa noite, nem um gesto de aproximação. Um gelo que se instalou ali, inteiro. Ele não trouxe mantas de afecto para nos aconchegar. Nós não sabíamos como dizer-lhe que queríamos que estivesse ali. 

    Um desencontro humano, estranho, quase injustificável, em que cada um  se abeirava de um mesmo precipício e caía para o seu lado sem haver lugar ao toque.

    Ao fim de duas músicas, alguém gritou. Mazgani respondeu no mesmo tom. Uma troca animalesca de sons. Ele perguntou se mais ninguém queria uivar. “A propósito, a próxima música chama-se ‘A dog at your door’ — um cão que uiva pela separação.”

    Ok. Ali estava, finalmente, um sinal de humanidade, alguma dor…

    Agradeceu depois o jogo de luzes — “muito elegante”, disse — e voltou a desafiar-nos: Ninguém uivava? Ninguém dançava? Garantia que se alimentava do nosso calor.

    Mas eu via nele uma urgência em despachar a noite desde o primeiro minuto. Um músico de estúdio, talvez. Ou talvez os músicos — os artistas em geral — já não se sintam obrigados a interagir com o público. O mundo mudou tanto em matéria de afectos que até o palco parece, por vezes, um território neutro. 

    Mas se não nos tocamos, como é que nos encontramos, mesmo partilhando o mesmo espaço?

    Mazgani obrigou-me a experimentar um exercício novo: fechei os olhos e deixei de pensar nele como presença física. Era como se só a voz dele tivesse comparecido ao nosso encontro — e, curiosamente, foi aí que tudo fez sentido.

    A voz de Mazgani é um instrumento feroz. Sussurra como se os lábios pudessem arrepiar a pele junto aos nossos ouvidos; os seus gritos enchem-se de tonalidades graves e agudas que nos varrem por dentro. A sua voz move-se, cresce, dilata-se, estremece-nos. 

    No fim agradeceu e disse que fomos “muito amáveis”. 

    Mas eu, cheiinha do espectáculo que consegui resgatar dos escombros de um encontro catastrófico, já não me deixei tocar pela ironia.

    Nota final: 4 em 5

  • Privacidade

    Privacidade

    Estou a fingir que a imagem não me importa. Como se fosse possível não investir nos meus olhos.

    Havia um encantamento nas passeatas de Nikon em punho. Alerta. Atenta. Amante de uma certa estética — ou de muitas horripilâncias.

    A imagem como um diálogo improvável que se tem com um certo universo. Um não ser preciso contracenar.

    Vieram depois defender mais os direitos das pessoas, proteger-lhes as imagens e as privacidades…

    Concerto dos Coldplay no Gillette Stadium, perto de Boston, nos Estados Unidos, no dia 17 de Julho de 2025. Foi neste concerto que se deu a polémica do casal filmado pela ‘kiss cam‘. / Foto: Coldplay | D.R.

    Não fotografarás!

    Não fotografarei…

    Não filmarás, também?

    Pode uma pessoa pagar um bilhete para se divertir publicamente e, pela captação e divulgação da sua imagem, ver a sua vida arruinada em segundos?

    Pode um jornalista brincar na rádio com o sucedido, dizendo que é pago para falar sobre escândalos, papagueando que nunca se deve fazer xixi fora do penico — porque a mentira tem perna curta?

    Posso eu pagar taxa de audiovisuais para ouvir isto?
    Pode a minha Nikon continuar sossegada num canto, por ser ela a malvada que capta e expõe a vida dos outros?

    Podem as pessoas ficar realmente humilhadas pelos condicionalismos sociais que lhes tiram a coragem de defender a sua liberdade de movimentos?

    Foto de um fã dos Coldplay tirada no agora famoso concerto ‘da kiss cam‘, no dia 17 de Julho. / Foto: Coldplay | D.R.

    E rimo-nos todos disto, moralizando e chacoteando?

    E falamos ainda da crise dos valores, do medo da supremacia das ideias de extrema-direita, sem sequer nos apercebermos de que são as pessoas comuns que dão força àquilo que dizem abominar?

    Que respeito é este pela privacidade, que se passeia em trajes de um carnaval demolidor — e que destrói, moralizando?