Autor: Tiago Salazar

  • Ondas de choque

    Ondas de choque


    MACACOS I A minha companheira chamou macaco ao padre (um branquelas) quando este lhe derramou a água benta na testa. Foi absolvida e entrou no reino dos cristãos. Há um macaco lá no Porto, à solta e tido por perigoso. Tão feroz que precisa de reabilitação atrás de grades, quando a sentença transitar em julgado. O Vinícius Jr. queixa-se de ter sido chamado de mono que é macaco em castelhano. É sempre a mesma ofensa. Nunca é preto do caralho, escarumba, barrote queimado ou troglodita.

    Numa coisa o mister Mou tem razão: o Jr. devia rever as formas de celebrar os seus golos. Assim mais para o festivo inócuo, de braços ao alto e a bailar um sambinha, e menos provocador. Eu se fosse ao Vini, no lugar de ir fazer queixinhas ao árbitro, teria passado o resto do jogo a fazer o gesto a pequeno Prestianni de que a piroca dele é pequena, ao contrário da língua comprida. No campo, no pitch, são raros os senhores que se comportam e resistem aos insultos e provocações, com controle das emoções. Parece a aldeia de Sete Rios.

    EXIBIÇÕES I Quem não tem mamas, caça com o rabo. Quem não tem shape, depreda com o guito. Quem não tem nada de nada, a não ser uma carreira política, ataca no Tinder.

    Quando mostro o meu shape estou a guzar o prato. Vá, venham lá dizer os correctores, os correctos, os pedantes, que guzar é com o. Gozar. Gozo, uma ilha do arquipélago de Malta, por sinal muito apetecível de tão pouco habitada.

    Gosto daqueles inquéritos de pé de página onde fazem perguntas telúricas. Se tivesse que escolher um só livro para ler até ao final dos seus dias de eterno náufrago num atol incógnito no mapa e no Google Maps, qual seria? A Bíblia? O Velho e o Mar? A Pérola? A Morte de Iván Ilitch? É pá. Porque não um dos meus, o Hei-de Amar-te Mais, onde fiz um striptease literário, no sentido contrário ao dos escritores que querem mostrar mas só escondem.

    Esconderijo, esconder, refundir, ocultar. Mostrar tudo é que não. Ainda há lugar a detenção por atentado ao pudor. E os portugueses são muito púdicos.

    RESCALDOS I Se um arrufozito incomoda muita gente, até quando andará à bolina nas cordilheiras do pensamento-sentimento um ódio estrutural? Um racismo imperialista.

    Os acordos de paz são o intervalo até às próximas guerras. Se uma coisita de lana caprina (torcer por um clube a quem se dá o suor, as lágrimas e verba das quotas, do calção e camisola do ídolo) dá azo a homicídios, o que não faz um homem tal bicho acossado torturar, estuprar e matar? Embora sejamos Todos entes humanos, só a espaços há mobilização solidária.

    A espaços de calamidade e catástrofe, quando é a Natureza a destruir. Aqui na terra sacudida pela borrasca os empreiteiros largaram as obras e foram acudir os vizinhos. A custo zero. É isto que nos aproxima. A política, a bola, a religião, tudo onde cheire a negócio ou maniqueísmo, só afasta e agasta. Um desperdício de energia e força vital.

    OS SENÃOS DA BELA I Tendemos a mostrar uma impressão lisonjeira a nosso respeito. É ou não é? De igual forma defendemos ideias, convicções, dogmas, credos, ideologias, crenças, achando com isso, demonstrado com mais ou menos encarniçamento ou benevolência, estarmos a ser coerentes, correctos e avisados.

    A liberdade é um espaço onde tudo isto é permitido, afinal a liberdade só termina no espaço do outro. A maior liberdade é a do espírito que não se aprisiona em nada mais do que praticar o bem, sem que tal conduta relativa (pois o meu bem pode não ser o vosso) perturbe ou invada o lugar de ninguém.

    Esta é a parte Bela. O senão, que requer consciência dos factos, é quando um punhado destes entes humanos que somos todos nós, quer aprisionar e impôr a sua Ordem. A sua ideia de Bem. Um bem que vem por mal.

    Todo e qualquer partido que se queira único é uma ameaça.

    Todo o que se acha omnipotente é um perigo ambulante.

    Não basta escrever, não basta ver (está à vista). Nestes casos é necessário identificar. Apresentar o ónus da prova. Sem esperar pelo Tribunal do Altíssimo. Nada de mentiras e imposturas. Sobretudo intelectuais.

    Esta conversa de pano para mangas é a História Universal da Infâmia.

    Cabe a cada um identificar os problemas e solucioná-los. Nada diz só respeito a cada um. Tudo esta ligado.

    PRIORIDADES I Acontece uma calamidade e quem vale? Os amigos. Axioma: os amigos são muito importantes. Dá-se um problema de saúde assim mais para o complexo e a quem recorremos? Aos médicos, enfermeiros e seus recursos humanos e paliativos. Axioma: os médicos e enfermeiros e seus conhecimentos e equipamentos são muito importantes. Sucede um desaire mais ou menos complicado e quem nos escuta? O amor da nossa vida. Axioma: o Amor é muito importante, a par da ternura.

    A escrita de uma Constituição, uma Declaração dos Direitos Humanos, um código penal, um livro honesto que seja, é uma base de Trabalho, como os Dez Mandamentos.

    Lá consta a Cooperação.

    SINAIS I Tal como a falta de respeito e empatia é um sinal de defeito de fabrico (ou educação ou outro elo qualquer onde tudo se joga, que é no cérebro), também a forma como um governante, partido ou instituição se apresenta ao serviço deve levar a uma reflexão aprofundada. Que andar no mundo é perigoso, que a vida é frágil e efémera, que o egoísmo prevalece, tudo isso são favas contadas. Há, porém, aspectos virtuosos, consciência altruísta de grupo, noção de que é possível, por mais sujeitos da impermanência, fazer perdurar um certo sentido de Humanidade. Querer a exclusão, a dor e a morte de alguém é um sinal de grave deformação mental e espiritual. Se há milhões que afinam por este diapasão – chamemos-lhe fascista -, outros tantos haverá que procuram a paz, a beleza, a Criação, o Amor e a prosperidade, a Felicidade digamos assim.

    O BEM COMUM I Volta e meia passa um cometa e deixa um rasto, uma cauda brilhante. Por exemplo, um Bob Marley, um Ali, um Gandhi, um Tesla… A mensagem ecoa, até vir outro, outra, outros, que a entendam e prossigam. A mensagem é sempre a mesma: mais Amor, mais Paz, mais Justiça. Todos eles e as suas obras são afins de um diapasão: dizer não à barbárie.

    Ter no Chega uma opção aos estragos socialistas e liberais de PSD, CDs e companhia lda, é um retrocesso. É mais grave: é levar a pensar que habita entre nós o desejo de espezinhar e magoar, que é o anti-cristo. Por favor, não me venham com a conversa do combate à corrupção quando tresandam a tudo o que é podre e promíscuo.
    Tenho amigos que tomo por cônscios dispostos a dar uma abébia ao católico Andrezito. Já é mais do que suficiente para saber ao que vem ao ver o método da metralha e dos irmãos metralha.

    Então em quem confiar a tessitura do fio da roca?

    Na consciência, meus senhores e senhoras, onde mais vos toque.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • Parece que és bruxo

    Parece que és bruxo


    SINAS I Entre a certeza divinatória do vindouro, que é como quem diz adivinhar o porvir, saber o que aí vem, de bom, mau ou assim-assim, e viver ao sabor das marés, qual preferis? Ides à bruxa, às cartomantes, tarólogas, médiuns e leitores de búzios e runas? Ou basta-vos a missa de domingo e o sinal da cruz? Tendes curiosidade por saber o que o futuro vos reserva? Se assim for, as ciganas já saberiam da vinda do seu carrasco Venturini, ao olharem as palmas das suas mãos engelhadas.

    Intuição e instinto são coisas distintas. Ambas podem salvar vidas mas o destino está escrito e de nada vale ouvir a sentença e encerrar-se sozinho e a sete chaves ou desaparecer, pois o que tem que ser tem muita força.

    O que foi não se repete, embora pareça.

    Eis um exemplo de um arcano maior

    O Diabo (XV)

    As paixões, materialismo, vícios, instintos e o lado sombra do ser humano, mas também a necessidade de confrontar as ilusões e a busca por poder pessoal, mostrando que os grilhões são, muitas vezes, auto impostos e podem ser rompidos pela força de vontade, significando desafios, tentações, mas também oportunidade de libertação através da autoconsciência e do poder de escolha.

    CAUSA E EFEITO I O mais provável é a reconstrução das zonas afectadas pelas borrascas ficar a cargo de mão-de-obra estrangeira, supervisionada e avençada pelo Estado e fundos europeus. Os portugueses de bem lá estarão, a colher os louros e a estalar o chicote. Toda e qualquer acção, mesmo a não acção, gera reacção. Para os beatos de outrora, o terramoto de 1755 foi o castigo divino face à promiscuidade, ao indecoro, à agiotagem e usura desses tempos. Desses? Acontece uma catástrofe e estamos à mercê do acaso. Do durante e do depois. A protecção civil e a conduta dos governantes é como a defesa pessoal: o melhor é ter um plano. Contar com os outros é como contar com o ovo no cu da galinha.

    DISCURSOS DAS TRETAS I Se eu vos disser que tenho um cancro no pâncreas nível IV e estou cheio de metástases, mas que preciso de uns trocos para realizar um último desejo que é ir dar uma volta ao Mundo (aí 500 mil euros chega, ou seja 100€ a cada um), aposto que papam o grupo, como papam todas as bodegas que por aí circulam. Vocês nem têm a certeza de que eu existo.

    Se vos disser que já publiquei 18 livros, a maioria disponível para aquisição numa livraria perto de si, que até gramava viver da escrita, e se cada um de vós arrecadar um ou dois exemplares, como não sou homem de grandes gastos até daria para me consolar (apesar de uns certos cretinos me acharem um burguês capitalista e anarco-liberal só porque fumo charutos e ando bem vestido, gozando com a minha esquerda caviar).

    Outra coisa: estou a morar na rua. E nem sequer tenho direito ao RSI. Alguém quer enviar umas lecas?

    P.S. os charutos são os meus amigos cubanos que me oferecem.

    INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL I Há tempos pediram-me uma crónica sobre IA. Respondi “iá, eu faço”. Não pedi à IA para a fazer, apesar de ter a certeza que se lhe pedisse a coisa passava como um texto do je. A marca de autor é o que nos distingue. Ler e dizer “isto é deste gajo ou então é de um copista exímio”. Só se distingue nos detalhes. Vamos lá ver: tudo o que é bom para o ócio e o desejo de ser inútil ou louvar a preguiça é de valor. É como ter uma governanta ou um mordomo, pau para toda a obra. O meu bisavô António Gomes, quando já estava assim para o velhote, tinha uma criada que lhe levava o penico, abria-lhe a carcela, fazia o serviço e até sacudia. Não era para todos. A IA dá jeito para sacudir a água do capote, os pingos e descansar os membros, incluindo o cérebro. Talvez melhore a qualidade do serviço.

    MULHERES I As mulheres maduras (nada tem a ver com a idade) não emasculam; aceitam a fragilidade masculina tanto como dançam com lobos; podem e devem ser loucas mas têm a humildade de reconhecer os seus (c)erros; não se fazem de vítimas de enredos onde prejudicam tanto como dão tiros nos pés. Em louvor das mulheres maduras faço o meu apelo a que nunca caiam de podres.

    PARAR I Parar, escutar, olhar (Ver), sentir e experienciar, comunicar (sem ir aos arames), não tomar a parte pelo todo, Ser (sério, sem ser enfadonho ou moralista). Isto aplica-se a tudo. A pressa é inimiga da perfeição.

    Posto isto, o post é sobre reflexos condicionados, a chamada reacção emocional.

    Estamos carecas de saber, eu estou, qual o móbil dos políticos: almejar o poder. O poder é como um reflexo de quem o exerce. Eu, por exemplo, exerço o mais possível o poder de me aposentar. Todos os dias ensaio o desejo de não fazer nada. Nada de que me arrependa.

    Que a, b ou z se reveja num ideário ou idiota, é lá com ele. Eu revejo-me no Jodorovsky e em todos os amigos da Liberdade que não cerceiem a minha.

    NO FUNDO, NO FUNDO I Por detrás do espelho, quem está? Quanto mais feroz, mais medo esconde a presa tomada por predador. Num todo frágil, de força bruta aparente, de gente movida a gasóleo de competição, pode bem estar uma criança aflita, magoada e carente. A lei do mais forte agremia exércitos liderados por Átilas, Neros, Adolfos e seus pupilos. Todos têm cu, todos têm medos.

    VER PARA CRER I Acho piada aos rezingões como o anão zangado. Também curto bué os monges budistas e aquele sorriso imaculado. Ou seja, gosto tanto de quem protesta e com razão diz bardamerda, porracaralhofodasse ou se vê um tratante lho diz desabridamente de cenho arreganhado “o cavalheiro tem a espinha fora do sítio”. Aprecio o carácter definido e não aquela roupagem insonsa de maria ou manel vai com as outras e outros, numa onda da moda. Acho graça particular a quem diz não li e não gostei. Tal como admiro o crítico que dá o corpo às balas e rejeita o produto. Já fiz prefácios para autores “menores” em quem vi o mais importante: uma verdade só sua. Houve e haverá bandidos (à luz da lei) muito bem intencionados. Perdoar a quem não sabe o que faz é de louvar. Quanto a dar a outra face, aí já é de reconsiderar.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • Ciclones de mudança

    Ciclones de mudança


    RAZÕES DE QUEIXA I Quando viajo, viajo ao encontro de realidades, busco factos, para além das evidências. Se possível, como fiz no Brasil, Rússia ou Zimbábue, entro no submundo (um dia conto). Vejo Portugal dividido e não vejo nada de novo, nem do que vivi e vivo, nem do que reza a História (que tem várias versões e tonalidades políticas).

    Antes de haver combates, combatentes e razões de queixa (por regra fruto da desigualdade social, que leva à justa luta de classes) já havia uma disputa pela posse desta terra e dos seus recursos. O problema não está, pois, na falta de riquezas, mas sim na sua repartição. O avarento é avarento porque acha que pode não chegar. Podemos ser avarentos nos afectos. Ou cobradores de amor. Volto à dicotomia.

    Os partidos existem porque há diferentes formas de ver. Por vezes, parecem farinha do mesmo saco, ou apenas ocupados de tomar as rédeas ao poder e satisfazer as suas necessidades. A própria palavra partido traz fractura. O que faz falta em qualquer Estado, Nação ou país, em qualquer lugar, é haver bases sólidas (Educação, Saúde, Habitação e Justiça para quem envereda por maus caminhos) e pensamento e acção flexível.

    Enquanto houver competição não haverá cooperação. Vale na sanha desportiva. Os cínicos vão dizer que é preciso haver o mal para se valorizar o bem. Depois, há um outro elemento: a ambição. Nada contra querer ser excelente, excepcional e bem haja aos génios, aos que se ocupam de um mundo melhor. Tal como bem haja a quem queira trabalhar. Depois ainda, parece-me óbvio que quem é mais dotado ganhe mais, e falo de remuneração. Sem distinção de sexos.

    Não somos todos iguais e quem é melhor, e faz por isso, merece o melhor. Meritocracia. Quanto aos subsídios, fazem parte das leis de mercado, e quem descontou cem não pode querer receber 1000. Agora, subvenções vitalícias, e a dobrar, quando se acumulam cargos, ou viver promiscuamente a vida política com um olho na burra e outro na comissão… é usar de retroactivos e exigir o reembolso, tal como faz o fisco por dívidas de um cêntimo.

    Isto de mudar e mudanças começa aqui dentro. Se tivesse andado a vida toda a culpar a, b ou x, sem escutar, ver e tentar perceber o porquê de negligências, maus tratos, abandonos e toda a espécie de traumas, não seria capaz de estar neste momento nas Bahamas a gozar a minha pré-reforma, fruto de ter começado a descontar cedo e ter feito uma fortuna no meu ofício de viver.

    MUDÁSTI I O sopro de mudança neste velho burgo dá pelo nome Chega e sibila das bochechas de um colérico AV. É uma velha táctica de propaganda, virar o povo contra as élites. Afinal, o povo é quem mais ordena e mete na urna, no chão raso da democracia. O povo não é sagrado e governar requer saber tecer como os aracnídeos. AV adopta em público um estilo carrosseiro, um misto de Cantinflas e rufia, mas em privado (juro, pois vi) é um amor de miúdo. Até sussurra ao ouvido das peixeiras que lhe ensinaram os vibratos.

    Quanto aos outros (partidos), tirando quem anda às cavalitas, montado e ao colo dos suspeitos do costume – os militantes, simpatizantes e beneficiados de um qualquer assento ou fundo -, são todos muito semelhantes: todos se desresponsabilizam das repetidas falhas no sistema que os amamenta.

    Portugal merecia melhor do que uma agremiação de imundos para contrariar a sujidade (o pântano estagnado) de quem atacam. Um partido sem partes gagas cujo grande líder fosse uma espécie de Mahatma, uma Alma Grande, e não um agressor, fractal, fracturante, que uma vez empossado tudo fará por atirar o povo ao rio ou pô-lo a marchar.

    O “sucesso” do Chega e seus apaniguados deve-se à promessa de asseio num país conspurcado. A ideia de povo no Chega é selectiva. Os cheganos perfilham o sangue puro lusitano. O resto é choldra. Será difícil achar um exemplar que seja descendente directo de Viriato ou dos tomates de Afonso I em qualquer província do reino. De brutos, fatelas e enfartados estão bem servidos. A acção directa é necessária quando estão em risco as liberdades essenciais, a começar pela de expressão.

    O Chega pratica-a e quer varrer o país de chupistas e opositores do bem. De malandros e indigentes. De cafres e maometanos ou de olhos em bico e instalar um núcleo de sicofantas para fazer a limpeza e o teste do algodão. Quer a morte ou a prisão perpétua de comunistas, ciganos e sefarditas. A castração está no seu programa de castrati. Tem elementos habilitados para executar o seu programa de selecção natural, basta ver onde foram recrutados e os seus cadastros. É um partido do ódio e do ressentimento. De mal amados, ressabiados e amantes rudimentares. O seu grande amor é a tomada do poder e o extermínio implacável. São inimigos da sociedade aberta e fiéis acólitos do grande capital.

    MUDANÇAS I Quando se analisa o pós e o antes 25 de Abril uma coisa é certa: pior não estamos. Pelo simples facto de haver uma certa liberdade. Os partidos que governam Portugal desde então sofrem do problema de todos os partidos: o vício de certos militantes dirigentes meterem a mão, cravarem a unha e fazerem a repartição irmamente.

    Há gente de valor em quase todos os quadrantes, da direita à esquerda, pese embora o facto de não bastar parecer, há que ser e agir em conformidade. A reacção do “povo” às falcatruas é o resultado de um misto de revolta e desejo secreto de estar em posição de fazer o mesmo. A minha questão pessoal com partidos, não só a agremiação Chega, é o que os move, à vista do que se vai vendo. Lendo é preciso beber da fonte segura. Usar o crivo e a peneira.

    P.S. Numa frente de batalha todos são crentes, não há ateus nem agnósticos.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • A vida como ela é (mas podia não ser)

    A vida como ela é (mas podia não ser)


    A VIDA COMO ELA I Para já, a vida é aqui e agora. O resto são memórias, ancestralidade, biografias avulsas com nascimento, crescimento e morte. A origem da Vida humana é somente um parágrafo no Universo. Há tanto, mas tanto mais, e incomensurável, que chega a ser absurdo pregar a supremacia.

    Se o Ventura ganhar, ganha porque votarão nele mais do que no Tozé. Para uns, como eu, o Ventura representa o mais bafiento, intruja, rasteiro e demagogo. O populismo na sua expressão abjecta e sectária. Ao posicionar-me contra estas figuras de pouco estilo, estou também eu, apesar de sincero, a ser um sectário. Na verdade, eu acho que todo aquele que me quer governar é meu inimigo. Entregar a alguém o comando da minha vida é incauto. A obediência à lei tem limites pois a lei tem excepções e não é necessariamente justa.

    Um tipo como eu devia morar numa terra de ninguém e não a reclamar. Tendo que me sujeitar ao que me foi dado (educação e saúde) retribuo na justa medida. Quanto à saúde evito recorrer ao SNS. Lá chegará o dia de justificação de pagar parte do lucro do meu trabalho desde os 18 anos. O povo queixa-se com razão das injustiças, de confiar em partidos e de ser enganado, mal tratado e esbulhado. O que o povo quer é trabalhar, digo eu, ser pago na justa medida, não morrer à espera de atendimento médico e ir à escola aprender a lutar pelos seus direitos. O dever de um povo é unir-se na luta pela satisfação do que é básico.

    Neste nosso sistema o presidente da república é sobretudo um representante e um mediador de conflitos. Se o Ventilador da ira vencer o conflito será aumentado. A Constituição desrespeitada e se lograr mudada a favor de um regime marcial. Se tal suceder, fora o que já sucede de ínvio, desigual e aldrabão, haverá molho. Além do líquido putrefacto vertido nas redes sociais.

    PRECONCEITOS I Este raciocínio vale para tudo e todos: se calçar os sapatos dos outros, lá se vão os preconceitos. Se lhes sentir os sentimentos, o que os apoquenta, o que sonham, e até poder dar-se o caso de desgostar das raivas e fúrias e velhacarias que lhes passam no espírito retorcido, por vezes resultando em maldades e crimes desgraçados ou em posts cínicos ou ressabiados, a tresandar de soberba, ego e mania da superioridade.

    Acontece que isto tanto se dá a quem milita no Chega como na extrema esquerda armada em santa. Gente boa e gente deplorável há em todos os hemisférios. Até ateus e cristãos podem ser uns queridos e uns fdp. O filme ‘A máquina de matar pessoas más’ tem piada para ver como o bem e mal sempre andam de mãos dadas. E o Diabo está nos detalhes. Depois pode ser que a balança penda mais para um lado, digamos risonho, mas ainda assim pode ser que o exercício da bondade seja uma farsa para ficar bem na fotografia. É como meter o bedelho na vida dos outros cheio de boas intenções, mas fechar-se em copas sobre a própria intimidade.

    Posto isto, lá porque o Seguro é da família xuxalista, não significa que não seja válido para um cargo que é de figura de Estado, de mediador, de vetar leis para depois serem aprovadas no Parlamento ou andar às turras para inglês ver com o Governo e dar bacalhaus nos bastidores. Respeitar a Constituição, isso sim, já é de valor. Mas vale para todos e não só o Presidente. O exemplo venha de cima. De Deus.

    NADA DE NOVO I O populismo da raça suprema sempre existiu. É um tribalismo atávico de cabo a rabo desta Terra perturbada e de mal paridos. Se me puser a gritar que os bons são os que pensam e agem como eu torno-me igual aos supremacistas. Felizmente nunca padeci de embirrações torcionárias.

    Tenho um quadro do Che, outro do Ali e outro do Zeca Afonso no meu quarto. Três figuras tudo menos consensuais, cujas vidas e obras de de certa forma perfilho. Tenho uma fotografia original de Camilo Cienfuegos e a frase chave de Jack La Motta tatuada nas costas entre as omoplatas dita diante de Sugar Ray “you never put me down”. São santos e senhas, digamos assim, mas não sou Eu.

    No meu mundo há lugar para todos, incluindo os radicais livres. Não significa que vá pegar em armas para abater os inimigos da minha fé. Embora um jornalista possa fazer tanto dano como empunhando uma Magnum. Não nutro simpatia por fachos e mentecaptos e rezo ao deus do esparguete que os leve e guarde num fogo ardente, apesar de um inimigo poder ser uma valiosa jazida de instrução. De igual forma não me calo diante de quem se quer apossar da minha liberdade, seja de que extremo for. Ou tentar corromper-me com nacionalismos pífios. Preocupa-me a violência gratuita e cabotina que é contrária à luta justa de um ringue, tal como a matança continuada dos inocentes. Ou fazer de estrangeiros bodes expiratórios e andar a esmifrá-los com soez hipocrisia.

    A boçalidade como discurso de Estado também me encanita. Os radicais são todos iguais nos seus propósitos de ego mania e tribalismo. A maior força de um ser humano é tornar-se ser humano e indivíduo. Aderir a quem é moderado e não pugna pela morte e ódio como narrativa de estilo. Há livros negros em todos os ismos.

    P.S. Radicalismo vem da injustiça, diferença é que hoje mostra-se com facilidade.

    ASPIRAÇÕES AO SER MAIS DO QUE AO TER I Entende-se que 51 anos de Democracia com partidos a girarem entre poleiros de chupistas levem ao discurso radical. Mas antigamente não era melhor. Estude-se não só o Estado Novo, mas todos os reinados. Aliás, nunca foi fácil e bom para todos. Em lado nenhum.

    A grande Revolução é o estado de consciência do que é o amor e a compaixão. E um bocadinho de humor, já agora.

    Duração humana é nada no tempo do Universo. Extinção de tudo é garantida. Daí o absurdo de tudo.
    Dar o melhor é o mínimo que se pede a cada um.

    QUAL É O ESPANTO? I A adesão ao populismo surge em momentos de alta tensão com o fosso entre ricos e pobres intransponível. São muito breves os períodos de paz e prosperidade. O líder populista apela ao ressentimento do povo para ser eleito.

    Por regra, quer implodir o Sistema mas recorre a todos os expedientes da Democracia para se alcandorar. Uma vez eleito põe em marcha o discurso de sangue. Usa as forças policiais e militares, igualmente ressentidas por conta de salários medíocres, e faz tudo por eliminar os inimigos da sua crença na raça suprema: a sua. Não se interroga sobre o seu ADN ou como harmonizar a igualdade e corrigir as debilidades sociais.

    A igualdade só existe no seio do seu partido e quem lhe faz frente é executado. Isto vale para qualquer ismo. Os ismos são perigosos. Promovem a barricada, belicista, boçal e acusatória. É-me difícil para não dizer inadmissível estar à mercê de qualquer Sistema onde o indivíduo que pensa e age pela sua cabeça seja acossado ou mesmo exterminado.

    Quando a Constituição de 1976 previu a proibição de partidos fascistas teve como princípio a interdição de novas ditaduras e imperialismos. Não há pais mais fascista do que os EUA. Seguir-lhe o exemplo é aceitar a servidão voluntária ao líder, ao cacique, ao tirano torcionário. É como idolatrar o Diabo.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • Voto Seguro

    Voto Seguro


    VOTO SEGURO I Como sabeis — se não sabeis, ficais a saber — faço parte da Comissão de Honra do candidato António José Seguro. Também suspeitais ser um comunista no sentido bíblico. Serei mais acrata, mas isso não vem agora ao caso. Então porquê não voto no candidato do partido?

    O voto presidencial é um voto num dirigente. Num indivíduo. Num estilo de intervenção. Nada contra o camarada Filipe, e não é um voto útil, o meu. Fiz questão de privar com António José Seguro antes de tomar esta decisão. E estive diante de um homem resolvido, sereno, blindado à bojarda, que me inspira confiança.

    António José Seguro. / Foto: D.R.

    Não seria de esperar outra coisa, num encontro de apoio, mas podia ter concluído estar ali um farsante, um socialista inquinado, um arrivista, um situacionista ou mesmo um pato-bravo disfarçado de ouvinte atento.

    Além de ter consideração pela sua postura ao arrepio do próprio partido onde assenta a sua ideologia, o homem faz vinho. Quem mete as mãos à obra na terra é sempre de considerar. Depois, não diz que lê só para ficar bem na fotografia. Até a mim me leu, vejam lá. Ou que é melómano e troca Bach por Baco.

    Por último, a amostra de quem pode ser eleito é de tal forma medonha que se não houvesse um Seguro antes preferia ir à cata de um putativo rei. Ganhe ou não ganhe, estou certo de que havemos de beber um copo ou dois e brindar à raça lusitana.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • Vícios

    Vícios


    DESMAMES I Tenho uma teoria baseada num largo espectro de viagens e sociabilizações mais ou menos forçadas de que todos padecemos de alguma doença ou vício. Pode ser crónica ou passageira, aguda ou grave e levar ao túmulo. Quando escrevo no meu bloco de notas “dia 1 começo o desmame de (não digo o quê)”, estou a decretar os meus vícios. Sei que um par deles me podem arrumar ou até arruinar, acabando os meus dias arrumado e seco como uma uva passa.

    Um desmame confessável é a dependência de um dispositivo onde ir buscar entretenimento. Um telefone esperto, cheio de aplicações úteis e inúteis. O desejo de ser inútil é mais forte e não cedo à utilidade. Por exemplo, a inteligência artificial, esse logro dos ociosos. Quem diz que não estou a mentir e tudo isto que aqui vai escrito não foi parido por um cérebro virtual à boa maneira do escrivão Tiago Salazar? Quero desmamar como quem desabrocha tirando da boca um caule viçoso e usá-lo como deve ser, isto é, em sede própria que é amar sem orifícios. Não alcançaram este rasgo boca Giano mas eu explico. Quero largar o vício de me enamorar perdidamente e só me perder para me encontrar a seguir, onde haja mamas grandes e vistosas, preenchidas de chicha como um belo bife da vazia. Quero desmamar-me de tudo o que me é nocivo e nefasto, de prosas chochas a cagalhões com asas e quem exorta o osso da pila e seja falho de tomates.

    Nem se trata de um sonho a sair do sono para a vida real. É tão-somente o querer absurdo de viver num prado quente, amaciado pela lhaneza dos dias felizes. E que não me cobrem IMI. O IVA não há como escapar, pois é de valor acrescentado querer-me assim tão despojado no calor da Felicitas. Há ainda um outro querer, mais prosaico e digno de constar de um livro de auto-ajuda: quero que todos os que mal me querem se fodam. Irei cuspir-lhes nos túmulos se não os vir antes numa artéria qualquer, à esquina do labirinto e me sair uma gosma de Minotauro directa às suas fuças imundas, às comissuras dos seus lábios infectos. Sim, é um vício danado este de dar piparotes como o faz com cintilante talento do além de Vera Cruz o meu defunto colega de trabalho D. Brás. Mas que diabo, não faz parte da comédia humana ter um pequeno vicio como atirar aos patos?

    DESCULPAS I Se formos a ver há sempre uma (tentativa de) justificação para certas e determinadas condutas. Para tal se inventou a legislação da legítima defesa.

    Por exemplo, o famigerado Casanova antes de andar de leito em leito e telhado e telhado foi um corno sofrido, vítima de um desgosto. Após a rejeição e o abandono passou a usar e deitar fora. Nada de compromissos. Tivesse feito terapia e muitas vítimas teriam sido poupadas. Incluindo o próprio.

    Andar à cata de falhas, faltas e falhados também não há de ser coisa boa. Dá jeito aos humoristas mas pouco acrescenta.

    NATAL I Todos os dias há um natal para acontecer. Um nascimento ou renascimento, uma outra forma de ver. O verbo Ver enforma amplitude. A grande questão (humana) é o perdão e a paz que isso traz. Entre os bichos é outra coisa. Quando os homens não saem dos bichos o território é muito importante. A sobrevivência, o instinto, o medo. Não o medo consciente de morrer, mas o que vem da ameaça. Ninguém deveria viver sob ameaça, de não ter comida, abrigo e um certo lugar de confiança e conforto. Estar na natureza (como estou neste dia) e ver o firmamento de pés bem assentes na terra a rever o filme da minha vida, amplifica o sentimento de que o melhor está sempre para vir. Quanto ao fim, há sempre uma hora marcada para nós todos. O apito final. Enquanto isso folguem-se as costas e sobretudo aprenda-se o mais possível, de tudo um bocadinho, de como fazem os bichinhos até ao acto constante do Amor.

    19710 I Daqui a pouco serão estes os dias passados no planeta Terra. Que aprendi de novo, de significativo entre a infância e o dia de hoje? A medir e avaliar o bom uso das palavras. A ter em consideração que moro entre gente cujas vidas são, tal como a minha, um constante tirocínio. Ou seja, a não esperar nada de ninguém. Aprendi cedo o que é a rejeição, o abandono, a negligência, a pancada, o tabefe, o soco, o sarcasmo, a ofensa e o grito. A espaços, conheci laivos de ternura, doçura materna da mãe avó, a importância de fazer bem o trabalho seja ele qual for. A não dizer tangas nem armar-me aos cucos e a viver com o amealhado sem saquear. Aprendi que a maldade, a ingratidão, a infâmia, andam a par com a bondade e a compaixão. Aprendi a estar mais calado do que a reagir a cada bojarda, a cada atoarda e a ler e a escutar o dito entrelinhas. Talvez por isso, no lugar de percorrer ruas e avenidas de amargura me limite a criar enredos mormente a partir de factos, de acções e constatações de que o pior da Terra são os humanos. Aprendi que o Amor é uma rua sossegada onde se passa raramente.

    O MODELO RONALDO I O dom para a chincha do menino Cristiano fez-se notar cedo e ala para Alvalade como poderia ter ido parar a outro clube qualquer. Foi lá que comeu, bebeu, dormiu, treinou, aprendeu e teve palco para se mostrar e começar a encher o pote. Agarrou todas as oportunidades e transcendeu-se a jogar à bola. A determinação é o seu forte. Chamem-lhe ego, narcisismo ou ganância e ambição desmedida. Se o dom do puto fução fosse outro, a pintar (como o Jordão) ou escrever romances, não se teria feito multimilionário, recordista de tudo e um par de botas. O modelo Ronaldo é válido no escanteio. Perseverar, comer frango, peru e bróculos, não beber, não fumar, não beber nada a não ser água ionizada, e contratar os melhores, da confecção aos dribles aos fiscos ou a abafar historietas de agasalho e alguidar.

    O problema actual dos Ronaldos é acharem-se mais papistas que o Papa. E não se contentarem com os seus feitos. Quererem sempre mais e mais (ocultando as suas falhas). Não se trata de conformismo de fim de carreira, mas de saber sair de cena e reinventarem-se noutras cenas. Já nem se fala de como redistribui o amealhado, porque isso é lá com ele. Quanto a ser partenaire de regimes autocráticos que fuzilam jornalistas e achincalham mulheres, o que seria de esperar de um rapaz que só aprendeu a jogar à bola?

    PESSOAS I Tudo se resume às pessoas. A laços e percalços. A começar nos pais, ancestrais, padrões e o que fazer com tudo isso, a herança, a genética, até chegar à superação e à transcendência, se for o caso, ou uma vida inteira redundar numa oportunidade (ou sucessão de oportunidades) perdida. A pessoa que melhor conheço sou eu. Daí que prefira a autobiografia. A vida que conheço melhor do que qualquer outra é a minha. Não que tudo o que se escreva seja a mais pura das verdades. A memória é falível e a expressão fluente não toca a todos. Mas que se diga e escreva tudo sem contemplações. Entre o que eu gostava que tivesse sido e o que foi há um fosso de crocodilos. Foi um crescimento disfuncional e graças a Deus e a mim, não descambei nas drogas, nem leves, nem duras, no alcoolismo ou qualquer coisa desviante como a política ou a polícia. Não escapei aos comprimidos e ao divã, e ao sexo promíscuo até concluir que tudo faz parte. É a plena consciência da nossa natureza múltipla e a integração da miríade de elementos de que somos compostos que nos faz completos, que nos faz humanos.

    A escrita foi desde cedo e é uma forma de achamento e redenção. As pessoas, incluindo eu, são estranhas e capazes do melhor e do pior. Até ver não houve homicídios na família. Pilhagens, ofensas, ódios, intrigas, invejas e desejos de ver um familiar na merda ou morto, isso há, como em muitas idóneas famílias. Também houve e há os parentes por afinidade que cospem fel depois de terem mamado à conta e partilhado a mesa da consoada. Como pode haver paz se o que mais há é Insensíveis?

    1991-2026 I Este ano passam 35 anos da publicação do meu primeiro artigo enquanto profissional de Imprensa. Um artigo sobre o grupo de Teatro do Hospital Júlio de Matos. Posso dizer com orgulho ter feito tudo o que mais quis. Reportagens, entrevistas, crónicas e artigos de toda a espécie e feitio, até sobre bricolage. Fiz o tirocínio com mestres como Eurico de Barros, Nuno Henrique Luz, Sofia Barrocas, Maria Augusta Silva ou António Moutinho Pereira, entre outros, como Vera Lagoa ou Miguel Sousa Tavares.

    Hoje, assino no PÁGINA UM, um projecto de Jornalismo com caixa alta. Mesmo nos anos de suspensão da carteira, mantive-me no activo a escrever crónicas. Passei por jornais, revistas, TV e rádio. Para assinalar esta data redonda vou fazer uma viagem. Foi graças ao Jornalismo que publiquei Viagens Sentimentais, A Casa do Mundo, As Rotas do Sonho, Endereço Desconhecido, Quo Vadis, Salazar?, Crónica da Selva e O Moturista Acidental. Desta viagem nascerá um livro e projecto digital. Em breve haverá divulgação mais específica. Os livros é só aviar. As crónicas Cá se Fazem estão disponíveis no PÁGINA UM.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • O regresso de Jedi Salazar

    O regresso de Jedi Salazar


    EM BUSCA DE UM MUNDO MELHOR I Todos somos energia. Positiva e negativa. A neutralidade é uma forma de acção. Na vida interessa-me o livre arbítrio e as escolhas, bem como as origens e raízes das coisas, incluindo da etimologia. Embora viver ultrapasse o entendimento e sejam mais as razões que a razão desconhece. A escolha do Amor, a título de exemplo, pode ditar muito do vindouro. Uma boa ou má união, para quem veja o casamento como uma empresa, dita bastante do percurso de cada um.

    Daí que proliferem as clínicas de tratamento de desaguizados. Há quem diga que escolhemos os pais e deles podemos extrair os maiores ensinamentos, mesmo os difíceis de gerir, como a rejeição, a negligência e o abandono quando somos dependentes, o que dura uns anos.

    O país onde se nasce também conta, e em virtude da sua melhor ou pior condição pode levar ao seu abandono, como se deixa tudo para trás quando não acrescenta. Quantos, válidos, ou mesmo geniais, não debandaram para fintar o atraso de vida? Que se aprende nas escolas e universidades que acrescente para tornar o mundo (o país) melhor? Escolhi História porque tudo são histórias, melhor ou pior contadas. Escolhi trabalhar factos sem descurar as razões que levam a executá-los. Entendo a guerra como forma de resposta ao mal maior como uma forma de retaliação contra o abuso, a humilhação, a submissão. Entendo perfeitamente que poucos falam ou escrevem no pleno gozo das suas faculdades.

    O mundo melhora quando há confiança no sistema. Quando se cura até onde seja possível e se faz das cicatrizes, das feridas, dos obstáculos, da dificuldade, uma forma de suportar e superar.

    AMIZADE I Há dias fui agraciado com um bilhete para ver o Benfica-Nápoles. De quem havia de vir a dádiva senão do ilustre Manel, uma das almas mais bonitas do mundo pardacento dos tuks. Enquanto uns dão navalhadas nos pneus, sabotam, fazem avanços a la Cosanostra, outros, como o Manel, dá-lhes para a generosidade.

    Foi o mesmo Manel que me ofereceu a camisola Stromp, ele o mais puro vermelho, benfiquista até à medula. Diz que até experimentou no vestiário não fosse o número não me servir. Ofereceu não só um bilhete mas três, aos seus amigos templários Tiago Silva Zumbi e Alex Ventura Máximo.

    Vi uns quantos jogos do Terceiro Anel no velho recinto onde brilharam o Eusébio, o Coluna, o Chalana e o Carlos Manuel ou o Néne e o João Vieira Pinto, entre outros. Já que a maioria do pessoal de Alvalade era do Benfica não tinha outro remédio a não ser juntar-me às papoilas. Neste recinto à inglesa .foi uma estreia.

    Digamos que vi um jogo limpinho e bem disposto e de uma perspectiva interessante para ver como se pode fazer passar energia para dentro do relvado. Mas o mais importante foi estar com amigos, amigos daqueles que se pode contar.

    QUEM ESTÁ MAL? I A seu tempo farei uma exposição sobre um assunto sério de trabalho em sede própria. Hoje, falo de algumas impressões sobre coisas vistas, ouvidas e sentidas, o mesmo será dizer testemunhadas e a ter em conta. Não há dia que passe (em Lisboa) sem me ocorrerem as notícias do Correio da Manhã.

    Falo de facadas, tiros, óbitos e façanhas cabotinas. Os chamados ajustes de contas. Já nem falo da indigência cultural, da selva e suas leis do mais astuto, manhoso e predador. Isto vai do espectro mais “elevado”, o Poder, as instituições, ao mais subterrâneo zé-ninguém que aspira ao mesmo domínio da exploração do filão. Por vezes nem o linguajar varia.

    Mas vamos ao que importa antes de ser eu próprio notícia. Avento que a razão de tanta ira, tanta cólera, tanto ódio, provenha da grande frustração e ignorância que anda em par com a ganância. Onde cheira a dinheiro, cheira a merda e a sangue pisado ou a borbulhar. Ainda a procissão vai no adro, ou seja, quando a fome estiver ao rubro, e nem um café pingue, um papo-seco encha a barriga, haja um telhado onde acoitar o esqueleto, aí sim, as notícias do CM jorrarão em barda.

    Quando a diferença entre o patrão e os assalariados for de tal monta que os empregados sejam sem-abrigo e durmam no alpendre da loja ou fábrica. Isto está bom para patrões, políticos, senhorios, agiotas, banqueiros, mafiosos e bandidos. O resto é um coro de sapos.

    Qual a piada disto, a não ser para a escrita de thrillers, de crónicas mordazes, de reportagens a partir a loiça?

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • Da morte (e da eternidade de Clara Pinto Correia)

    Da morte (e da eternidade de Clara Pinto Correia)


    DA MORTE I É (e não é) espantoso observar a natureza humana, sobretudo na hora da morte. A Clara, a mestra Clara, a Dra. Clara, cujo trabalho viverá nas bibliotecas e teses de doutoramento, no legado dos seus pupilos, de repente é amada por todos, todos a leram, todos a aclamaram, incluindo o Presidente farricoco Marcelo.

    O ardiloso Soares, ao menos, pagava a renda ao Luiz Pacheco. Mais triste é ver como por cá se tratam os génios. A opção estóica é uma coisa, a depauperação é outra. É como as tropas rasas do Ultramar e as pensões miseráveis.

    A Clara estava doente e decerto a irmandade sabia. Penso quem saberá se estou doente, se tenho o suficiente para o básico. O Estado está-se nas tintas, a não ser para arrebanhar o premiar os que dele se amamentam.

    A Clara foi Grande em todos os aspectos, do vigor da escrita e da oratória, do raciocínio ao sentimento. Amar demais o que se faz e mostrar Trabalho acarreta inimigos. A Clara escrevia no PÁGINA UM, imagino que pro bono (como eu), porque simpatizava com o projecto, dos poucos que não tem medo do Sistema. Não ter medo é coisa rara e não falo de fanfarronice de escrita, de mandar petardos na retaguarda. Falo de dizer tudo com todas as letras, incluindo chamar hipócritas aos bajuladores ou mandar para a gávea os invejosos e cínicos.

    A morte é a morte. O problema é o que se diz e faz na vida. A Clara disse e fez.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

  • Da amizade ao pacote

    Da amizade ao pacote


    PACOTE LABORAL I Desde 2005 libertei-me de entidades patronais. O meu último patrão foi o sr. Paulo Ferreira, mentor do universo Blue. Saí do remanso azul depois de um quiproquo com o sr. Tiago Silveira Machado, esse modelo de virtudes. Era ele ou eu. Depois de uns meses na prateleira acertámos a saída e ficou o leal director até este engenheiro da lisura sair airosamente para fazer o seu produto alternativo e a Blue dar o badagaio. A Blue foi um grande projecto até certo ponto. Devo a essa revista muitos meses na estrada, mundo e antecâmara de livros. E amizades. Depois passei a freelancer.

    Um bom patrão reparte e não parte. Não alinha por partidos a não ser a defesa dos seus empregados. Não toma os accionistas como os únicos merecedores de lucros.

    No mundo do trabalho o melhor patrão que tive foi um mestre da Cabala. É por ele que me sigo.

    A venda de rua é um trabalho, embora não pareça. Neste mundo há poucos amigos, e os que há não padecem de invejite aguda. Eles sabem quem são, e eu idem.

    Andam ao sol, ao frio, à chuva e respeitam a inclemente acção do tempo. Não têm salário, subsídios e os descontos são por sua conta. Tirando meia dúzia de empresas que se querem exemplares. As benesses são como as das empresas sediadas nos Países Baixos.

    Creio que no dia da greve geral furarão o protesto. Afinal, não é nada com eles.

    MANEL JOÃO I O jogral João faz falta. O problema é haver dois palhaços ricos na corrida a Belém. Quero ver o face a face Ventura Vieira. Num país de aflitos, o humor de salvação nacional é uma lufada de aerofagia, um hino ao peido. O MJ foi meu vizinho ou fui eu dele, no bairro de Campo de Ourique. É um blasée costurado, veste fatos por medida. Um actor, poeta fingidor, necessário para desconstruir a falsa seriedade do candidato bem intencionado cuja intenção é sacar umas viagens e uma avença vitalícia. O Vieira não quer nada disso, a começar porque não precisa. Tem dote. Costumava ir ao Maxim ver os Ena Pá. O alívio da tensão facial é imperativo. Se é para morrer, que se morra de riso. Se tudo isto já é uma desbunda triste, venha o tinto. Troco o Ferrari por um Aston.

    ADN I Estava aqui a falar com o meu botão esquerdo sobre genealogia. Saber de onde vimos, pode dar uma ajuda para onde vamos. Sei por onde não vou (emprenhar por ouvido, a título de exemplo). Talvez deva ao avô Garcia (jornalista, escritor) a mania de só falar e escrever a partir da escuta e observação, acompanhada da leitura. Levar a carta a Garcia é bonito. É como o belicismo justiceiro dos Gomes. O Salazar tem patine e ecoa dos bascos. E o Abel, claro. O Sousa rima com todos e vem de pai e mãe. Agora, vamos ao carácter do indivíduo entrelaçado com os povos, as origens. Um quinhão sefardita via Morão de Campos também cá mora e nutro curiosidade e simpatia por hebraicos (filósofos, artistas, humanistas, mestres de Krav Maga), como por Ibn-Arabi ou Ibn-Batuta. Adão Cadmon ou Jesus de Nazaré, serei parente ou basta a afinidade? Já chamei pai ao Miller e mãe à Clarice, num auto-baptismo literário. Ou à Cristina Carvalho que bate todas as mães. Lede a breve trecho o seu livro sobre a Yourcenar, essa rainha da lucidez retrospectiva que me deu ensejo para chamar Margarida à minha mais pequena. Tudo está ligado, até o pó de Cassiopeia.

    AMIGOS I A Amizade é do melhor que o mundo tem. Amistad, de amistoso, de aligeirar a carga, partilhar larachas, chorar ombro a ombro, rir até voltar a pingar a lágrima, emprestar algum sem receio de calote. É por aí, livre de ciúme, orgulho, inveja, leva e trás, chibaria. Coisa nobre de guardar segredos até à tumba. Saber que se pode contar. Discordo quando os pais dizem aos filhos “eu não sou teu amigo”. Os pais deveriam ser os primeiros e maiores amigos, para se estabelecer um lastro de confiança nesse traço de união. Os Estados (e os governos) deveriam ser os melhores amigos dos cidadãos e não os seus primeiros inimigos. Os amigos, os grandes, dão por dar, sem moeda de troca. Aturam-nos como nós a eles. Gosto de amigos que dizem o que pensam e sentem. Um amor sem amizade é coxo. Não é Amor.

    DA RELEVÂNCIA I Para um amblíope é relevante andar por passeios desimpedidos (incluindo de ciclistas e trotineiros nas suas montadas apressadas), além de ter um cão-guia com benefícios fiscais e outros que tais, pois a cegueira limita. Para quem tem fome ou quem vive para se enfartar a comida é relevante. É de igual maneira relevante dormir descansado e ter sonhos fúcsia, livre de ameaças de despejo, aumento de renda ou da taxa de juro do crédito, incluindo as desferidas na própria casa. A relevância abrange o livre acesso à informação dos direitos e deveres de um cidadão ou de quem o pretenda ser numa pátria adoptada. É de extrema relevância o domínio da língua bem como das emoções. Tal pode estender-se à compreensão de um texto. Comunicar, seja a quem for, oralmente ou por pomba-correio, o resultado de uma reflexão, sem preconceitos e hostilidade, munido apenas da razão e da ternura, é de relevância superlativa.

    Era aqui que queria chegar: comunicar com ternura, ainda que o assunto seja difícil. Na irrelevância de uns, pode estar a relevância de outros.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

  • O Capital (e o regresso à A Capital)

    O Capital (e o regresso à A Capital)


    PEDRADAS NO CHARCO I Há axiomas a levar em conta nisto de intervir. Por exemplo, o Jornalismo é o quarto poder, e o seu papel é noticiar com isenção, expôr com factos e enfrentar os poderes, ouvir todas as partes. A mercantilização da Imprensa tornou o negócio dos Media um pardieiro de favores, promíscuo e servil. Um matrimónio entre a publicidade e a manipulação. O espaço de opinião é onde se pode e deve fazer a exposição de tendências e idiossincrasias. Goste-se ou não. Se me der para lembrar numa crónica factos ocorridos em 1900 e carqueja, não vou tergiversar ou cometer delitos gratuitos de opinião, ataques velhacos ad hominem, mas tenho direito a tecer retratos parciais fruto da minha experiência com tratantes (ou elogiosos, se for o caso). Outra coisa: escrever para agradar a gregos e troianos é um mau princípio. A escrita criativa é por natureza uma actividade subversiva. Tal como a escrita de Imprensa (artigo, notícia, reportagem) um espaço de informação.

    A SALVAÇÃO I Talvez a paz de espírito permita deixar este mundo sem conflitos (internos e externos). Não faltam livros de ajuda, terapias, exemplos de gurus e influencers de serviço à grande causa da paz entre os homens. O humor (negro ou de outra tonalidade) é uma arma eficaz, mas os picaros sofrem de cinismo. Um cinismo de sobrevivência, idealista, mas cinismo na mesma. Os guerrilheiros idealistas querem limpar a face da terra da corja que explora o homem. A morte do inimigo é o seu credo. Há uma pestilência de competição encarniçada que vai das ruas ao parlamento, dos estádios aos templos. Nasce tudo de cabeças onde a cooperação é tomada apenas no sentido de acabar com o inimigo. Onde estás, amigo? Onde estás, amor? Há um refúgio secreto onde se ouvem os bateres do coração, o murmúrio de um cão fiel e leal, um caminhar de mãos dadas. Se o têm não o divulguem. Até isso é motivo de cobiça e inveja, o motor da frustração que leva à apologia da inimizade. Só é inimigo quem vos quer governar e pôr a pata na jugular.

    O CAPITAL I Quem precisa de bulir para sobreviver (e observa as notícias sérias e isentas) é natural que se indigne, insurja ou até parta para a angariação directa de fundos perante o regabofe com os dinheiros”públicos”. Se o fizer é uma justa causa. Por outro lado, ninguém deveria abrir o bico sem ter passado por duras realidades (ditaduras, estupros, violações, violência gratuita, bullying ou assim). Não falo de perder os pais segundo a ordem natural da vida. Falo de perder um filho, por exemplo, raptado, torturado, violado e depois atirado aos bichos ou de tiro na nuca ou alvo de tiro de um sniper como um pato. Vale para um ou outro lado da barricada de quem perpetra. Falo do patrão coçar a micose enquanto os assalariados se esfalfam (estudasses, não é? Ou não tivesses dignidade para não subir na horizontal). Falo de não ter pais ricos, heranças, e ser incorrupto e dar o litro a trabalhar por uma vida decente e nunca sair da cepa torta porque o sistema é o que é. Falo de haver fome quando há desperdícios. Falo de andar a roubar, espancar e assassinar pobres diabos só por serem doutro país (pobres diabos pois claro). Falo de usar a lei cabotina do mais forte para subjugar no lugar de carregar em ombros e alcandorar quem trabalha e enriquece os accionistas. Falo de usar o panegírico do socialismo, do comunismo e da social democracia e ser um déspota ou arrivista de trazer por casa. Falo de escrever sem lágrimas.

    EXERCÍCIO I Antes de qualquer actividade física é preciso aquecer, alongar, para prevenir o risco de lesão. Na escrita o princípio é idêntico. Alinhar o tico e o teco, dar a primeira demão, limpar a ganga (gordura), corrigir os excessos e só então publicar. O público leitor agradece. Até é capaz de reler ou guardar e partilhar como se guardam recortes de jornais e revistas. Por falar nisso é raro ver aqui textos fotografados com as respectivas caligrafias. A escrita manual diz muito da persona. É como uma voz silenciosa na forma de gatafunho ou um desenho letra a letra, símbolo a símbolo, frase a frase, ideia a ideia, irrepreensível.

    Hoje é dia de mudar o mundo, depois da tempestade varrer a madrugada.

    Começar o dia com um abraço e um beijo sem desejos.

    Agradecer a quem nos ensanduicha o papo seco, tira a bica sem um gesto maquinal. A quem nos conduz ao trabalho, o motorista, o carro bem oleado e de travões revistos, o político e seu partido que se batem por leis justas e guardam a língua no saco, os jogadores que deram o litro para vencer mesmo que tenham sido derrotados. Agradecer aos músicos, aos artistas, aos escrevinhadores de redes sociais ou aos jornalistas que se ocupam em escrever a verdade dos factos. A Divina só Deus sabe.

    BILHETE DE IDENTIDADE I Não tenho cadastro, mas não significa não ter aprontado. E não falo de meter chupa-chupas ou chocolates Regina ao bolso. Estou a falar de outras cenas, e não me arrependo. A acção directa é um instrumento de defesa pessoal. Quando nos atacam a defesa deve ser proporcional. Um insulto, toma lá outro. Um soco, esquiva, e pimba. Um tiro já é mais complicado. Se alguém tocar nos meus, a resposta é na mesma moeda, ou um pouco mais contundente. Estou a fazer uma simulação para o entendimento do estado do mundo. Evolução é ignorar, dar a outra face, recorrer ao coro dos tribunais ou ter a guarda alta? Posso beliscar ou mesmo ir à jugular num texto. Mas isso é coisa pouca se a maldade é refinada.

    Em puto sofri de bullying. Levei porrada da grossa, além das bofetadas correctivas. Ouvi barbaridades. Passei por humilhações. Emasculações disfarçadas de amor a cargo de vítimas piores do que carrascos
    Fui gamado pelo Estado e ciganos. Tenho uma catarata no olho esquerdo à conta de um ajuste de ciganos que trouxeram os primos por causa de uma luta que me correu bem. Fui gamado pelo Estado de tal ordem que quase sucumbi a uma depressão. Não há lutas leais. Talvez nos ringues e nem todas.

    Sou pouco crente na bondade generalizada. Há gente boa. Há gente do Amor e da Paz. São esses que quero comigo, ao meu lado, nem à frente nem atrás.

    A CAPITAL (O jornal defunto)

    Não esperei 28 anos para falar deste assunto na última crónica “A Glória Perdida”. O nome do chefe de redacção (que exerceu o seu contraditório) ocorreu-me somente num contexto de histórias lamentáveis ao serviço do Jornalismo. Podia escrever um ensaio sobre esses 30 anos e picos a dar a cara e o corpo ao manifesto, mas só digo que conheci diversos vespeiros e fiz um punhado de amigos. Também amigos, amigos, negócios à parte.

    Sobre a situação em concreto, tal como disse o chefe nasceu de um erro meu, fruto da ingenuidade. Bastaria ter confirmado se o nome e a patente correspondiam ao entrevistado. A impressão que guardei foi de nada do sucedido ter sido inocente.

    Sobre a intenção da peça, foi encomenda do editor Rodrigues, que me disse para me deslocar ao comando-geral da PSP no pressuposto de entrevistar o Comandante. Se fosse apenas para recolher um depoimento de um relações públicas tê-lo-ia feito por telefone. Fui tolo ao comprar lebre por gato.

    É facto que fui levado à sala da direcção para ser despedido e nunca mais me esqueci do vil cenário que presenciei. Se o chefe diz que me apoiou, fico satisfeito por saber, mas não foi essa a impressão que guardei, sobretudo pelo terror psicológico que vivi nos meses seguintes até sair do jornal por minha livre vontade.

    Quanto à directora Helena Sanches Osório (com quem mantive uma boa amizade até ao fim e depois do sucedido ainda me convidou para ver o filme do Taveira e umas belas jantaradas na sua casa do Estoril) limitou-se a mudar-me para a secção de Cultura. O chefe sabe o que estou a dizer porque estava lá. Se foi sugestão sua salvar-me, aqui fica um obrigado extemporâneo.

    De resto chegámos a ter uma conversa os dois, na mesma noite, no corredor à saída da redacção, sobre o que achava daquele incidente e da irrelevância de me chamar Salazar. O Gomes, homem de guerra, soa mais bonito.

    Também faltou dizer que toda a redacção sabia que eu ia ser pai (aos 25 anos) e caso tivesse sido despedido seria de uma tremenda crueldade.

    Nada de anormal neste mundo e não só nos pés de vento do Jornalismo.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)