Autor: Tiago Salazar

  • Vícios

    Vícios


    DESMAMES I Tenho uma teoria baseada num largo espectro de viagens e sociabilizações mais ou menos forçadas de que todos padecemos de alguma doença ou vício. Pode ser crónica ou passageira, aguda ou grave e levar ao túmulo. Quando escrevo no meu bloco de notas “dia 1 começo o desmame de (não digo o quê)”, estou a decretar os meus vícios. Sei que um par deles me podem arrumar ou até arruinar, acabando os meus dias arrumado e seco como uma uva passa.

    Um desmame confessável é a dependência de um dispositivo onde ir buscar entretenimento. Um telefone esperto, cheio de aplicações úteis e inúteis. O desejo de ser inútil é mais forte e não cedo à utilidade. Por exemplo, a inteligência artificial, esse logro dos ociosos. Quem diz que não estou a mentir e tudo isto que aqui vai escrito não foi parido por um cérebro virtual à boa maneira do escrivão Tiago Salazar? Quero desmamar como quem desabrocha tirando da boca um caule viçoso e usá-lo como deve ser, isto é, em sede própria que é amar sem orifícios. Não alcançaram este rasgo boca Giano mas eu explico. Quero largar o vício de me enamorar perdidamente e só me perder para me encontrar a seguir, onde haja mamas grandes e vistosas, preenchidas de chicha como um belo bife da vazia. Quero desmamar-me de tudo o que me é nocivo e nefasto, de prosas chochas a cagalhões com asas e quem exorta o osso da pila e seja falho de tomates.

    Nem se trata de um sonho a sair do sono para a vida real. É tão-somente o querer absurdo de viver num prado quente, amaciado pela lhaneza dos dias felizes. E que não me cobrem IMI. O IVA não há como escapar, pois é de valor acrescentado querer-me assim tão despojado no calor da Felicitas. Há ainda um outro querer, mais prosaico e digno de constar de um livro de auto-ajuda: quero que todos os que mal me querem se fodam. Irei cuspir-lhes nos túmulos se não os vir antes numa artéria qualquer, à esquina do labirinto e me sair uma gosma de Minotauro directa às suas fuças imundas, às comissuras dos seus lábios infectos. Sim, é um vício danado este de dar piparotes como o faz com cintilante talento do além de Vera Cruz o meu defunto colega de trabalho D. Brás. Mas que diabo, não faz parte da comédia humana ter um pequeno vicio como atirar aos patos?

    DESCULPAS I Se formos a ver há sempre uma (tentativa de) justificação para certas e determinadas condutas. Para tal se inventou a legislação da legítima defesa.

    Por exemplo, o famigerado Casanova antes de andar de leito em leito e telhado e telhado foi um corno sofrido, vítima de um desgosto. Após a rejeição e o abandono passou a usar e deitar fora. Nada de compromissos. Tivesse feito terapia e muitas vítimas teriam sido poupadas. Incluindo o próprio.

    Andar à cata de falhas, faltas e falhados também não há de ser coisa boa. Dá jeito aos humoristas mas pouco acrescenta.

    NATAL I Todos os dias há um natal para acontecer. Um nascimento ou renascimento, uma outra forma de ver. O verbo Ver enforma amplitude. A grande questão (humana) é o perdão e a paz que isso traz. Entre os bichos é outra coisa. Quando os homens não saem dos bichos o território é muito importante. A sobrevivência, o instinto, o medo. Não o medo consciente de morrer, mas o que vem da ameaça. Ninguém deveria viver sob ameaça, de não ter comida, abrigo e um certo lugar de confiança e conforto. Estar na natureza (como estou neste dia) e ver o firmamento de pés bem assentes na terra a rever o filme da minha vida, amplifica o sentimento de que o melhor está sempre para vir. Quanto ao fim, há sempre uma hora marcada para nós todos. O apito final. Enquanto isso folguem-se as costas e sobretudo aprenda-se o mais possível, de tudo um bocadinho, de como fazem os bichinhos até ao acto constante do Amor.

    19710 I Daqui a pouco serão estes os dias passados no planeta Terra. Que aprendi de novo, de significativo entre a infância e o dia de hoje? A medir e avaliar o bom uso das palavras. A ter em consideração que moro entre gente cujas vidas são, tal como a minha, um constante tirocínio. Ou seja, a não esperar nada de ninguém. Aprendi cedo o que é a rejeição, o abandono, a negligência, a pancada, o tabefe, o soco, o sarcasmo, a ofensa e o grito. A espaços, conheci laivos de ternura, doçura materna da mãe avó, a importância de fazer bem o trabalho seja ele qual for. A não dizer tangas nem armar-me aos cucos e a viver com o amealhado sem saquear. Aprendi que a maldade, a ingratidão, a infâmia, andam a par com a bondade e a compaixão. Aprendi a estar mais calado do que a reagir a cada bojarda, a cada atoarda e a ler e a escutar o dito entrelinhas. Talvez por isso, no lugar de percorrer ruas e avenidas de amargura me limite a criar enredos mormente a partir de factos, de acções e constatações de que o pior da Terra são os humanos. Aprendi que o Amor é uma rua sossegada onde se passa raramente.

    O MODELO RONALDO I O dom para a chincha do menino Cristiano fez-se notar cedo e ala para Alvalade como poderia ter ido parar a outro clube qualquer. Foi lá que comeu, bebeu, dormiu, treinou, aprendeu e teve palco para se mostrar e começar a encher o pote. Agarrou todas as oportunidades e transcendeu-se a jogar à bola. A determinação é o seu forte. Chamem-lhe ego, narcisismo ou ganância e ambição desmedida. Se o dom do puto fução fosse outro, a pintar (como o Jordão) ou escrever romances, não se teria feito multimilionário, recordista de tudo e um par de botas. O modelo Ronaldo é válido no escanteio. Perseverar, comer frango, peru e bróculos, não beber, não fumar, não beber nada a não ser água ionizada, e contratar os melhores, da confecção aos dribles aos fiscos ou a abafar historietas de agasalho e alguidar.

    O problema actual dos Ronaldos é acharem-se mais papistas que o Papa. E não se contentarem com os seus feitos. Quererem sempre mais e mais (ocultando as suas falhas). Não se trata de conformismo de fim de carreira, mas de saber sair de cena e reinventarem-se noutras cenas. Já nem se fala de como redistribui o amealhado, porque isso é lá com ele. Quanto a ser partenaire de regimes autocráticos que fuzilam jornalistas e achincalham mulheres, o que seria de esperar de um rapaz que só aprendeu a jogar à bola?

    PESSOAS I Tudo se resume às pessoas. A laços e percalços. A começar nos pais, ancestrais, padrões e o que fazer com tudo isso, a herança, a genética, até chegar à superação e à transcendência, se for o caso, ou uma vida inteira redundar numa oportunidade (ou sucessão de oportunidades) perdida. A pessoa que melhor conheço sou eu. Daí que prefira a autobiografia. A vida que conheço melhor do que qualquer outra é a minha. Não que tudo o que se escreva seja a mais pura das verdades. A memória é falível e a expressão fluente não toca a todos. Mas que se diga e escreva tudo sem contemplações. Entre o que eu gostava que tivesse sido e o que foi há um fosso de crocodilos. Foi um crescimento disfuncional e graças a Deus e a mim, não descambei nas drogas, nem leves, nem duras, no alcoolismo ou qualquer coisa desviante como a política ou a polícia. Não escapei aos comprimidos e ao divã, e ao sexo promíscuo até concluir que tudo faz parte. É a plena consciência da nossa natureza múltipla e a integração da miríade de elementos de que somos compostos que nos faz completos, que nos faz humanos.

    A escrita foi desde cedo e é uma forma de achamento e redenção. As pessoas, incluindo eu, são estranhas e capazes do melhor e do pior. Até ver não houve homicídios na família. Pilhagens, ofensas, ódios, intrigas, invejas e desejos de ver um familiar na merda ou morto, isso há, como em muitas idóneas famílias. Também houve e há os parentes por afinidade que cospem fel depois de terem mamado à conta e partilhado a mesa da consoada. Como pode haver paz se o que mais há é Insensíveis?

    1991-2026 I Este ano passam 35 anos da publicação do meu primeiro artigo enquanto profissional de Imprensa. Um artigo sobre o grupo de Teatro do Hospital Júlio de Matos. Posso dizer com orgulho ter feito tudo o que mais quis. Reportagens, entrevistas, crónicas e artigos de toda a espécie e feitio, até sobre bricolage. Fiz o tirocínio com mestres como Eurico de Barros, Nuno Henrique Luz, Sofia Barrocas, Maria Augusta Silva ou António Moutinho Pereira, entre outros, como Vera Lagoa ou Miguel Sousa Tavares.

    Hoje, assino no PÁGINA UM, um projecto de Jornalismo com caixa alta. Mesmo nos anos de suspensão da carteira, mantive-me no activo a escrever crónicas. Passei por jornais, revistas, TV e rádio. Para assinalar esta data redonda vou fazer uma viagem. Foi graças ao Jornalismo que publiquei Viagens Sentimentais, A Casa do Mundo, As Rotas do Sonho, Endereço Desconhecido, Quo Vadis, Salazar?, Crónica da Selva e O Moturista Acidental. Desta viagem nascerá um livro e projecto digital. Em breve haverá divulgação mais específica. Os livros é só aviar. As crónicas Cá se Fazem estão disponíveis no PÁGINA UM.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • O regresso de Jedi Salazar

    O regresso de Jedi Salazar


    EM BUSCA DE UM MUNDO MELHOR I Todos somos energia. Positiva e negativa. A neutralidade é uma forma de acção. Na vida interessa-me o livre arbítrio e as escolhas, bem como as origens e raízes das coisas, incluindo da etimologia. Embora viver ultrapasse o entendimento e sejam mais as razões que a razão desconhece. A escolha do Amor, a título de exemplo, pode ditar muito do vindouro. Uma boa ou má união, para quem veja o casamento como uma empresa, dita bastante do percurso de cada um.

    Daí que proliferem as clínicas de tratamento de desaguizados. Há quem diga que escolhemos os pais e deles podemos extrair os maiores ensinamentos, mesmo os difíceis de gerir, como a rejeição, a negligência e o abandono quando somos dependentes, o que dura uns anos.

    O país onde se nasce também conta, e em virtude da sua melhor ou pior condição pode levar ao seu abandono, como se deixa tudo para trás quando não acrescenta. Quantos, válidos, ou mesmo geniais, não debandaram para fintar o atraso de vida? Que se aprende nas escolas e universidades que acrescente para tornar o mundo (o país) melhor? Escolhi História porque tudo são histórias, melhor ou pior contadas. Escolhi trabalhar factos sem descurar as razões que levam a executá-los. Entendo a guerra como forma de resposta ao mal maior como uma forma de retaliação contra o abuso, a humilhação, a submissão. Entendo perfeitamente que poucos falam ou escrevem no pleno gozo das suas faculdades.

    O mundo melhora quando há confiança no sistema. Quando se cura até onde seja possível e se faz das cicatrizes, das feridas, dos obstáculos, da dificuldade, uma forma de suportar e superar.

    AMIZADE I Há dias fui agraciado com um bilhete para ver o Benfica-Nápoles. De quem havia de vir a dádiva senão do ilustre Manel, uma das almas mais bonitas do mundo pardacento dos tuks. Enquanto uns dão navalhadas nos pneus, sabotam, fazem avanços a la Cosanostra, outros, como o Manel, dá-lhes para a generosidade.

    Foi o mesmo Manel que me ofereceu a camisola Stromp, ele o mais puro vermelho, benfiquista até à medula. Diz que até experimentou no vestiário não fosse o número não me servir. Ofereceu não só um bilhete mas três, aos seus amigos templários Tiago Silva Zumbi e Alex Ventura Máximo.

    Vi uns quantos jogos do Terceiro Anel no velho recinto onde brilharam o Eusébio, o Coluna, o Chalana e o Carlos Manuel ou o Néne e o João Vieira Pinto, entre outros. Já que a maioria do pessoal de Alvalade era do Benfica não tinha outro remédio a não ser juntar-me às papoilas. Neste recinto à inglesa .foi uma estreia.

    Digamos que vi um jogo limpinho e bem disposto e de uma perspectiva interessante para ver como se pode fazer passar energia para dentro do relvado. Mas o mais importante foi estar com amigos, amigos daqueles que se pode contar.

    QUEM ESTÁ MAL? I A seu tempo farei uma exposição sobre um assunto sério de trabalho em sede própria. Hoje, falo de algumas impressões sobre coisas vistas, ouvidas e sentidas, o mesmo será dizer testemunhadas e a ter em conta. Não há dia que passe (em Lisboa) sem me ocorrerem as notícias do Correio da Manhã.

    Falo de facadas, tiros, óbitos e façanhas cabotinas. Os chamados ajustes de contas. Já nem falo da indigência cultural, da selva e suas leis do mais astuto, manhoso e predador. Isto vai do espectro mais “elevado”, o Poder, as instituições, ao mais subterrâneo zé-ninguém que aspira ao mesmo domínio da exploração do filão. Por vezes nem o linguajar varia.

    Mas vamos ao que importa antes de ser eu próprio notícia. Avento que a razão de tanta ira, tanta cólera, tanto ódio, provenha da grande frustração e ignorância que anda em par com a ganância. Onde cheira a dinheiro, cheira a merda e a sangue pisado ou a borbulhar. Ainda a procissão vai no adro, ou seja, quando a fome estiver ao rubro, e nem um café pingue, um papo-seco encha a barriga, haja um telhado onde acoitar o esqueleto, aí sim, as notícias do CM jorrarão em barda.

    Quando a diferença entre o patrão e os assalariados for de tal monta que os empregados sejam sem-abrigo e durmam no alpendre da loja ou fábrica. Isto está bom para patrões, políticos, senhorios, agiotas, banqueiros, mafiosos e bandidos. O resto é um coro de sapos.

    Qual a piada disto, a não ser para a escrita de thrillers, de crónicas mordazes, de reportagens a partir a loiça?

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • Da morte (e da eternidade de Clara Pinto Correia)

    Da morte (e da eternidade de Clara Pinto Correia)


    DA MORTE I É (e não é) espantoso observar a natureza humana, sobretudo na hora da morte. A Clara, a mestra Clara, a Dra. Clara, cujo trabalho viverá nas bibliotecas e teses de doutoramento, no legado dos seus pupilos, de repente é amada por todos, todos a leram, todos a aclamaram, incluindo o Presidente farricoco Marcelo.

    O ardiloso Soares, ao menos, pagava a renda ao Luiz Pacheco. Mais triste é ver como por cá se tratam os génios. A opção estóica é uma coisa, a depauperação é outra. É como as tropas rasas do Ultramar e as pensões miseráveis.

    A Clara estava doente e decerto a irmandade sabia. Penso quem saberá se estou doente, se tenho o suficiente para o básico. O Estado está-se nas tintas, a não ser para arrebanhar o premiar os que dele se amamentam.

    A Clara foi Grande em todos os aspectos, do vigor da escrita e da oratória, do raciocínio ao sentimento. Amar demais o que se faz e mostrar Trabalho acarreta inimigos. A Clara escrevia no PÁGINA UM, imagino que pro bono (como eu), porque simpatizava com o projecto, dos poucos que não tem medo do Sistema. Não ter medo é coisa rara e não falo de fanfarronice de escrita, de mandar petardos na retaguarda. Falo de dizer tudo com todas as letras, incluindo chamar hipócritas aos bajuladores ou mandar para a gávea os invejosos e cínicos.

    A morte é a morte. O problema é o que se diz e faz na vida. A Clara disse e fez.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

  • Da amizade ao pacote

    Da amizade ao pacote


    PACOTE LABORAL I Desde 2005 libertei-me de entidades patronais. O meu último patrão foi o sr. Paulo Ferreira, mentor do universo Blue. Saí do remanso azul depois de um quiproquo com o sr. Tiago Silveira Machado, esse modelo de virtudes. Era ele ou eu. Depois de uns meses na prateleira acertámos a saída e ficou o leal director até este engenheiro da lisura sair airosamente para fazer o seu produto alternativo e a Blue dar o badagaio. A Blue foi um grande projecto até certo ponto. Devo a essa revista muitos meses na estrada, mundo e antecâmara de livros. E amizades. Depois passei a freelancer.

    Um bom patrão reparte e não parte. Não alinha por partidos a não ser a defesa dos seus empregados. Não toma os accionistas como os únicos merecedores de lucros.

    No mundo do trabalho o melhor patrão que tive foi um mestre da Cabala. É por ele que me sigo.

    A venda de rua é um trabalho, embora não pareça. Neste mundo há poucos amigos, e os que há não padecem de invejite aguda. Eles sabem quem são, e eu idem.

    Andam ao sol, ao frio, à chuva e respeitam a inclemente acção do tempo. Não têm salário, subsídios e os descontos são por sua conta. Tirando meia dúzia de empresas que se querem exemplares. As benesses são como as das empresas sediadas nos Países Baixos.

    Creio que no dia da greve geral furarão o protesto. Afinal, não é nada com eles.

    MANEL JOÃO I O jogral João faz falta. O problema é haver dois palhaços ricos na corrida a Belém. Quero ver o face a face Ventura Vieira. Num país de aflitos, o humor de salvação nacional é uma lufada de aerofagia, um hino ao peido. O MJ foi meu vizinho ou fui eu dele, no bairro de Campo de Ourique. É um blasée costurado, veste fatos por medida. Um actor, poeta fingidor, necessário para desconstruir a falsa seriedade do candidato bem intencionado cuja intenção é sacar umas viagens e uma avença vitalícia. O Vieira não quer nada disso, a começar porque não precisa. Tem dote. Costumava ir ao Maxim ver os Ena Pá. O alívio da tensão facial é imperativo. Se é para morrer, que se morra de riso. Se tudo isto já é uma desbunda triste, venha o tinto. Troco o Ferrari por um Aston.

    ADN I Estava aqui a falar com o meu botão esquerdo sobre genealogia. Saber de onde vimos, pode dar uma ajuda para onde vamos. Sei por onde não vou (emprenhar por ouvido, a título de exemplo). Talvez deva ao avô Garcia (jornalista, escritor) a mania de só falar e escrever a partir da escuta e observação, acompanhada da leitura. Levar a carta a Garcia é bonito. É como o belicismo justiceiro dos Gomes. O Salazar tem patine e ecoa dos bascos. E o Abel, claro. O Sousa rima com todos e vem de pai e mãe. Agora, vamos ao carácter do indivíduo entrelaçado com os povos, as origens. Um quinhão sefardita via Morão de Campos também cá mora e nutro curiosidade e simpatia por hebraicos (filósofos, artistas, humanistas, mestres de Krav Maga), como por Ibn-Arabi ou Ibn-Batuta. Adão Cadmon ou Jesus de Nazaré, serei parente ou basta a afinidade? Já chamei pai ao Miller e mãe à Clarice, num auto-baptismo literário. Ou à Cristina Carvalho que bate todas as mães. Lede a breve trecho o seu livro sobre a Yourcenar, essa rainha da lucidez retrospectiva que me deu ensejo para chamar Margarida à minha mais pequena. Tudo está ligado, até o pó de Cassiopeia.

    AMIGOS I A Amizade é do melhor que o mundo tem. Amistad, de amistoso, de aligeirar a carga, partilhar larachas, chorar ombro a ombro, rir até voltar a pingar a lágrima, emprestar algum sem receio de calote. É por aí, livre de ciúme, orgulho, inveja, leva e trás, chibaria. Coisa nobre de guardar segredos até à tumba. Saber que se pode contar. Discordo quando os pais dizem aos filhos “eu não sou teu amigo”. Os pais deveriam ser os primeiros e maiores amigos, para se estabelecer um lastro de confiança nesse traço de união. Os Estados (e os governos) deveriam ser os melhores amigos dos cidadãos e não os seus primeiros inimigos. Os amigos, os grandes, dão por dar, sem moeda de troca. Aturam-nos como nós a eles. Gosto de amigos que dizem o que pensam e sentem. Um amor sem amizade é coxo. Não é Amor.

    DA RELEVÂNCIA I Para um amblíope é relevante andar por passeios desimpedidos (incluindo de ciclistas e trotineiros nas suas montadas apressadas), além de ter um cão-guia com benefícios fiscais e outros que tais, pois a cegueira limita. Para quem tem fome ou quem vive para se enfartar a comida é relevante. É de igual maneira relevante dormir descansado e ter sonhos fúcsia, livre de ameaças de despejo, aumento de renda ou da taxa de juro do crédito, incluindo as desferidas na própria casa. A relevância abrange o livre acesso à informação dos direitos e deveres de um cidadão ou de quem o pretenda ser numa pátria adoptada. É de extrema relevância o domínio da língua bem como das emoções. Tal pode estender-se à compreensão de um texto. Comunicar, seja a quem for, oralmente ou por pomba-correio, o resultado de uma reflexão, sem preconceitos e hostilidade, munido apenas da razão e da ternura, é de relevância superlativa.

    Era aqui que queria chegar: comunicar com ternura, ainda que o assunto seja difícil. Na irrelevância de uns, pode estar a relevância de outros.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

  • O Capital (e o regresso à A Capital)

    O Capital (e o regresso à A Capital)


    PEDRADAS NO CHARCO I Há axiomas a levar em conta nisto de intervir. Por exemplo, o Jornalismo é o quarto poder, e o seu papel é noticiar com isenção, expôr com factos e enfrentar os poderes, ouvir todas as partes. A mercantilização da Imprensa tornou o negócio dos Media um pardieiro de favores, promíscuo e servil. Um matrimónio entre a publicidade e a manipulação. O espaço de opinião é onde se pode e deve fazer a exposição de tendências e idiossincrasias. Goste-se ou não. Se me der para lembrar numa crónica factos ocorridos em 1900 e carqueja, não vou tergiversar ou cometer delitos gratuitos de opinião, ataques velhacos ad hominem, mas tenho direito a tecer retratos parciais fruto da minha experiência com tratantes (ou elogiosos, se for o caso). Outra coisa: escrever para agradar a gregos e troianos é um mau princípio. A escrita criativa é por natureza uma actividade subversiva. Tal como a escrita de Imprensa (artigo, notícia, reportagem) um espaço de informação.

    A SALVAÇÃO I Talvez a paz de espírito permita deixar este mundo sem conflitos (internos e externos). Não faltam livros de ajuda, terapias, exemplos de gurus e influencers de serviço à grande causa da paz entre os homens. O humor (negro ou de outra tonalidade) é uma arma eficaz, mas os picaros sofrem de cinismo. Um cinismo de sobrevivência, idealista, mas cinismo na mesma. Os guerrilheiros idealistas querem limpar a face da terra da corja que explora o homem. A morte do inimigo é o seu credo. Há uma pestilência de competição encarniçada que vai das ruas ao parlamento, dos estádios aos templos. Nasce tudo de cabeças onde a cooperação é tomada apenas no sentido de acabar com o inimigo. Onde estás, amigo? Onde estás, amor? Há um refúgio secreto onde se ouvem os bateres do coração, o murmúrio de um cão fiel e leal, um caminhar de mãos dadas. Se o têm não o divulguem. Até isso é motivo de cobiça e inveja, o motor da frustração que leva à apologia da inimizade. Só é inimigo quem vos quer governar e pôr a pata na jugular.

    O CAPITAL I Quem precisa de bulir para sobreviver (e observa as notícias sérias e isentas) é natural que se indigne, insurja ou até parta para a angariação directa de fundos perante o regabofe com os dinheiros”públicos”. Se o fizer é uma justa causa. Por outro lado, ninguém deveria abrir o bico sem ter passado por duras realidades (ditaduras, estupros, violações, violência gratuita, bullying ou assim). Não falo de perder os pais segundo a ordem natural da vida. Falo de perder um filho, por exemplo, raptado, torturado, violado e depois atirado aos bichos ou de tiro na nuca ou alvo de tiro de um sniper como um pato. Vale para um ou outro lado da barricada de quem perpetra. Falo do patrão coçar a micose enquanto os assalariados se esfalfam (estudasses, não é? Ou não tivesses dignidade para não subir na horizontal). Falo de não ter pais ricos, heranças, e ser incorrupto e dar o litro a trabalhar por uma vida decente e nunca sair da cepa torta porque o sistema é o que é. Falo de haver fome quando há desperdícios. Falo de andar a roubar, espancar e assassinar pobres diabos só por serem doutro país (pobres diabos pois claro). Falo de usar a lei cabotina do mais forte para subjugar no lugar de carregar em ombros e alcandorar quem trabalha e enriquece os accionistas. Falo de usar o panegírico do socialismo, do comunismo e da social democracia e ser um déspota ou arrivista de trazer por casa. Falo de escrever sem lágrimas.

    EXERCÍCIO I Antes de qualquer actividade física é preciso aquecer, alongar, para prevenir o risco de lesão. Na escrita o princípio é idêntico. Alinhar o tico e o teco, dar a primeira demão, limpar a ganga (gordura), corrigir os excessos e só então publicar. O público leitor agradece. Até é capaz de reler ou guardar e partilhar como se guardam recortes de jornais e revistas. Por falar nisso é raro ver aqui textos fotografados com as respectivas caligrafias. A escrita manual diz muito da persona. É como uma voz silenciosa na forma de gatafunho ou um desenho letra a letra, símbolo a símbolo, frase a frase, ideia a ideia, irrepreensível.

    Hoje é dia de mudar o mundo, depois da tempestade varrer a madrugada.

    Começar o dia com um abraço e um beijo sem desejos.

    Agradecer a quem nos ensanduicha o papo seco, tira a bica sem um gesto maquinal. A quem nos conduz ao trabalho, o motorista, o carro bem oleado e de travões revistos, o político e seu partido que se batem por leis justas e guardam a língua no saco, os jogadores que deram o litro para vencer mesmo que tenham sido derrotados. Agradecer aos músicos, aos artistas, aos escrevinhadores de redes sociais ou aos jornalistas que se ocupam em escrever a verdade dos factos. A Divina só Deus sabe.

    BILHETE DE IDENTIDADE I Não tenho cadastro, mas não significa não ter aprontado. E não falo de meter chupa-chupas ou chocolates Regina ao bolso. Estou a falar de outras cenas, e não me arrependo. A acção directa é um instrumento de defesa pessoal. Quando nos atacam a defesa deve ser proporcional. Um insulto, toma lá outro. Um soco, esquiva, e pimba. Um tiro já é mais complicado. Se alguém tocar nos meus, a resposta é na mesma moeda, ou um pouco mais contundente. Estou a fazer uma simulação para o entendimento do estado do mundo. Evolução é ignorar, dar a outra face, recorrer ao coro dos tribunais ou ter a guarda alta? Posso beliscar ou mesmo ir à jugular num texto. Mas isso é coisa pouca se a maldade é refinada.

    Em puto sofri de bullying. Levei porrada da grossa, além das bofetadas correctivas. Ouvi barbaridades. Passei por humilhações. Emasculações disfarçadas de amor a cargo de vítimas piores do que carrascos
    Fui gamado pelo Estado e ciganos. Tenho uma catarata no olho esquerdo à conta de um ajuste de ciganos que trouxeram os primos por causa de uma luta que me correu bem. Fui gamado pelo Estado de tal ordem que quase sucumbi a uma depressão. Não há lutas leais. Talvez nos ringues e nem todas.

    Sou pouco crente na bondade generalizada. Há gente boa. Há gente do Amor e da Paz. São esses que quero comigo, ao meu lado, nem à frente nem atrás.

    A CAPITAL (O jornal defunto)

    Não esperei 28 anos para falar deste assunto na última crónica “A Glória Perdida”. O nome do chefe de redacção (que exerceu o seu contraditório) ocorreu-me somente num contexto de histórias lamentáveis ao serviço do Jornalismo. Podia escrever um ensaio sobre esses 30 anos e picos a dar a cara e o corpo ao manifesto, mas só digo que conheci diversos vespeiros e fiz um punhado de amigos. Também amigos, amigos, negócios à parte.

    Sobre a situação em concreto, tal como disse o chefe nasceu de um erro meu, fruto da ingenuidade. Bastaria ter confirmado se o nome e a patente correspondiam ao entrevistado. A impressão que guardei foi de nada do sucedido ter sido inocente.

    Sobre a intenção da peça, foi encomenda do editor Rodrigues, que me disse para me deslocar ao comando-geral da PSP no pressuposto de entrevistar o Comandante. Se fosse apenas para recolher um depoimento de um relações públicas tê-lo-ia feito por telefone. Fui tolo ao comprar lebre por gato.

    É facto que fui levado à sala da direcção para ser despedido e nunca mais me esqueci do vil cenário que presenciei. Se o chefe diz que me apoiou, fico satisfeito por saber, mas não foi essa a impressão que guardei, sobretudo pelo terror psicológico que vivi nos meses seguintes até sair do jornal por minha livre vontade.

    Quanto à directora Helena Sanches Osório (com quem mantive uma boa amizade até ao fim e depois do sucedido ainda me convidou para ver o filme do Taveira e umas belas jantaradas na sua casa do Estoril) limitou-se a mudar-me para a secção de Cultura. O chefe sabe o que estou a dizer porque estava lá. Se foi sugestão sua salvar-me, aqui fica um obrigado extemporâneo.

    De resto chegámos a ter uma conversa os dois, na mesma noite, no corredor à saída da redacção, sobre o que achava daquele incidente e da irrelevância de me chamar Salazar. O Gomes, homem de guerra, soa mais bonito.

    Também faltou dizer que toda a redacção sabia que eu ia ser pai (aos 25 anos) e caso tivesse sido despedido seria de uma tremenda crueldade.

    Nada de anormal neste mundo e não só nos pés de vento do Jornalismo.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

  • A Glória perdida

    A Glória perdida


    É A ECONOMIA, ESTÚPIDO I A violência nasce da frustração. Pode ser apenas um grito de raiva ou uma acção colectiva. Por exemplo, sabemos (sabeis, certo? Talvez até tirais partido da propriedade) que arrendar uma casa não é para todos. Ide aos sites e vede quanto custam e o que é pedido. Os ordenados (quando os há) não batem certo com o valor da renda. O certo é uma renda representar um terço do salário e nunca acima das possibilidades. Isto, de cobrar os olhos da cara, não vai mudar. Quanto à aquisição e ao recurso ao crédito bancário são outros 500.

    Depois, há o acesso aos alimentos e bens essenciais, nas mãos de galifões de grandes superfícies que recrutam na base do salário mínimo africano. Já para não falar da qualidade dos alimentos. Viver custa e não é barato. Enquanto isso, peleja-se pelas quinas e símbolos da agremiação desportiva onde o dinheiro é de outra galáxia. Aspiram os putos a serem artistas da bola. Pudera. Ou então entrarem na vida política e juntarem-se aos coros de sapos. Exibirem o que se constrói num chatgpt ou fazerem de conta que são felizes. Isto não vai mudar. O dinheiro é quem mais ordena e nós (a maioria) somos as tetas para ordenhar e manter ordenadas. De ordenado mínimo, se possível. Se escrever aqui for a pagantes, haverá deserção em massa, como quando a necessidade pede acção. Acção directa.

    a glass jar filled with coins and a plant

    À MERCÊ DE MERCEEIROS E MERCENÁRIOS I O desastre do elevador da Glória levanta questões graves e sérias sobre a gestão e a política. Acidentes sucedem, mas podem ser evitados se houver o cuidado de não facilitar. Há uma manutenção imperativa a fazer e remunerada a condizer com a responsabilidade. Há a lotação para respeitar. Se for apurada a ausência de contrato de manutenção há pelo menos um mês (como se aventa) é um crime. Tal como muitos crimes e impunidades que se alastram onde cheira a dinheiro. Lisboa tresanda a esturro e avidez. Este acidente é muito mais do que um acidente. É um presságio.

    P.S. Ando a alertar para a falta de obrigação de inspecções obrigatórias aos veículos de animação turística, que mais cedo ou mais tarde redundará num acidente fatal, fora o imperativo não obrigatório de certificado profissional para o exercício da profissão, ou mesmo o cadastro limpo. Leram aqui.

    DESGRAÇAS I Se um tuk perder os travões numa rua íngreme e a descer pode dar-se o caso de morrerem 6 passageiros, mais o condutor e uns quantos transeuntes de passagem, vítimas do acaso. Não faço a mínima ideia de quantos tuks há a circular, ou quantos há no mercado (registados ou não, com matrículas falsas) mas serão mais de 500, todos os dias. Uma coisa é certa: não é obrigatório fazer inspeções aos veículos e duvido que os donos lhes dêem assistência regular. Ou seja, é mais um ramo de uma tragédia à espera de acontecer. Dou de barato que os governos se estejam nas tintas para a obrigatoriedade de certificação profissional, de cadastro limpo ou quem tem competências para este ofício.

    Porém, nesta matéria de segurança não facilito. Até sou capaz de arriscar que há tuks a circular sem todos os seguros obrigatórios ou registos de animação turística. Como é próprio das repúblicas das bananas. Conduzir sob o efeito de estupefacientes são outros 500. Haveria mais temas de peso para analisar mas deixemos o tema de lado e voltemos à segurança. Não sinto segurança de qualquer espécie a circular nas ruas de Lisboa, seja pela condução mentecapta, seja pela agressividade lactente no rol de doentes mentais que pululam. Dou por mim sempre em guarda e volta e meia lá tenho que me socorrer do directo à cana do nariz sem me pôr com solilóquios. Imagino-me a viver um drama com família ou amigos, de uma desgraça fruto de incúria. Estou preparado para a vinda do fascismo. Tal como não vejo nada de auspicioso num mundo onde nos querem matar. Falo dos sem fortuna, como eu, cuja maior fortuna é Ver. Ver como nos tratam. E nos atiram areia para os olhos.

    man driving yellow and black golf cart

    DA RESPONSABILIDADE I Tudo está ligado, a começar. Se vendo um “tour”, passeio, uma volta ao bilhar grande, um recojido, ballade ou giro, estou a vender uma experiência sensorial, cultural, histórica, política, social, antropológica, sociológica, filosófica que me exige rigores. Se for apeado, o dever implica certificar-me das informações prestadas além da voz colocada e da elegância. Da bastardia do mestre de Avis à zaragata de Luís Vaz, da passagem de Cagliostro por Lisboa e arredores à desbunda do Conde Duque de Olivares, da vida lisboeta de Cristóvão Colombo e seu irmão Bartolomeu, da graduação dos últimos vinte sete terramotos à negligência no Elevador (Ascensor) da Glória, da deambulação e flanneries de artistas à engenharia de Monsieur Ponsard, dos exilados brasileiros aos invasores franceses, dos sefarditas mais ou menos ilustres aos Califas e centuriões. É todo um trajecto de possibilidades infinitas. Convém ter bibliografia avisada e ler sem empinar. Os euros da viagem têm razões de ser. Tal como a condução segura, o brio e a seriedade intelectual. A negligência neste ramo só é ofensiva perante a concorrência desleal. Quando um patas de urso se achega a tentar o dumping o turista incauto só pensa na poupança. No poupar não está o ganho.

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    O QUE FAÇO EU ALI I De 1991 a até 2016 vivi materialmente do Jornalismo e, em parte, da venda de livros e cursos de Escrita de Viagens. Ou seja, paguei as minhas contas e outras contas que me foram imputadas pela ingenuidade de casar com comunhão de bens adquiridos. De confiar na idoneidade de quem entreguei o meu coração e tudo o que tinha. Cheguei ao mundo dos tuks por mero acaso. Para escrever ‘O Motorista Acidental’.

    Escrever é tudo para mim. Em dez anos de tuks publiquei vários livros, sempre na esperança de poder viver somente da escrita. Fui encarando esta actividade como um serviço de embaixada cultural, e como não sou hipócrita, para beneficiar do vazio legal como 100% dos ramificados. Seria o primeiro a ser ordeiro nessa matéria se fossem martelar um a um dos que ali andam.

    Pagaria outra vez o meu quinhão. O que mais me enoja é haver gajos que nunca na vida – a não ser como ladrões e vigaristas – teriam o soldo que têm e andam na rua a vender tours cujo passeio equivale ao embuste que são, a amedrontar os colegas, a picar, a espicaçar e a dropinar, cheios de papo com os seus euros amealhados sem vergonha do embuste que vendem. Gajos que não valem o chão que pisam, muitos deles iletrados e sujos da cabeça aos pés. Merda humana. Em todos os ofícios há disto. Pena que não morram nas tragédias da Glória. Oxalá a vida os foda bem fodidos. Eles sabem de quem falo.

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    FALAR DE COR E SALTEADO I O Jornalismo ensinou-me (entre outras coisas) a ouvir todas as partes visadas. É claro que onde há um sujeito há idiossincrasias, tendências, gostos, afinidades e recalcamentos e opiniões mais ou menos bem formadas. Quando o escritor Graham Greene escreveu “odeio mexicanos” pagou caro o preço da boutade. Ódios destes, generalizados, são comuns. Contra clubes rivais, religiões sectárias e ideologias políticas. Contra raças e cor de pele. A capacidade de aceitar a diferença é rara.

    O caso de Gaza é um paradigma do ódio mútuo. Da tentação do mal. Se pudessem, e quando podem, as vítimas tornam-se carrascos. Um dia entrevistei um Rinpoche violentamente torturado no Tibete de sorriso nos lábios e na face. Tinha as marcas da tortura no corpo e decerto na alma, mas falava dos carrascos com compaixão. Afinal só cumpriam ordens. É como culpar os pais e o país pela atitude ressabiada. Ainda o melhor é ir às origens da maldade e avaliar as possibilidades de restauro. No lugar de pegar em armas.

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    DA MALDADE I Quando descobri a maldade era criança como todos nós. Um tio cobarde batia-me só por sadismo. Dava-me carolos na cabeça e deixava-me a chorar agarrado aos galos. Porquê o fazia, não sei. Talvez por querer fazer o mesmo ao meu pai e não ter coragem. Na rua havia uma resma de velhacos, caceteiros, invejosos e ardilosos vigaristas.

    A minha estreia na maldade foi ir ao lote de papelão de um andrajoso e torná-lo a patacos. Tal como o fiz com os pinheiros dos ciganos da avenida da Igreja ou a aliviar as hóstias da sacristia para vender na padaria. Só parei a maldade do tio pulha no dia em que lhe dei com um cinzeiro nas fuças. No Jornalismo cruzei-me com vários tratantes, um deles o grande comunista Pedro Tadeu que me quis fazer a cama na Capital. Embirrava com o meu apelido e armou-me uma cilada como meu editor. Alterou o artigo (a patente do oficial da Polícia) e fez-me passar por um embaraço que quase me custava o emprego. Valeu-me a confiança da Helena Sanches Osório. Teria um rol simpático de histórias com patifes na minha vida profissional, como a equipa de produção e realização do Endereço Desconhecido, a começar e acabar no José Carlos Santos, esse biltre cocaínómano, psicopata e narcisista. No ramo dos tuks achei o pior da raça humana. Talvez por ser um trabalho de vendilhões de rua, cuja única lei é a do mais forte e astuto. É a condição humana animal fruto mormente da inveja do carisma.

    MacBook Pro, white ceramic mug,and black smartphone on table

    GUIAS I Se me fosse dado poder de veto, só uma elite ilustrada faria serviços de guia. Nem eu o faria sem antes me sentar nos bancos universitários e dali saísse ornado de diploma. Toda a choldra teria guia de marcha e estou certo de que em havendo fiscalizações 99,99% teriam contas a ajustar com o fisco, a IGT e a ASAE. Para os Moedas da vida é mais fácil atiçar os cães da EMEL e da PM, do que ir ao cerne da questão. Ou seja, ser guia é guiar e quem o faz precisa de competências além de um bigode com laca ou um decote pronunciado. De arranhar as línguas aprendidas enquanto emigrantes de vão de escada ou citar a Wikipédia quando o faz. Já nem vou falar da chusma de asiáticos que descobriu uma mina de ouro ao conduzir um riquexó que nas suas terras lhes serve de táxi. Um embuste generalizado é o que é. Óbvio que há guias diplomados como a Dona Lígia ou arquitectos frustrados e empresários ávidos de dinheiro sem espinhas.

    A Literatura levou-me ao ofício de guia. Primeiro em Istambul, depois em Praga e por fim, Lisboa, a minha menina rainha. Só preciso de um tuk para subir ribanceiras. De resto, posso sentar-me no British Bar, pedir um Jameson e brindar ao Zé Cardoso Pires, para nomear apenas um ilustre que decerto todos estes guias de ocasião devem achar ser um falecido jogador do Benfica.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

    Esta crónica teve um texto de direito de resposta, da autoria de Pedro Tadeu, que pode ser lido aqui.

  • A Arte de amar

    A Arte de amar


    MANIF DO AMOR I O meu Deus ex Machina é o Cupido de caracóis. O archeiro do Amor, de seta apontada a todos os pontos erógenos, que é como quem diz, ao coração de onde tudo pulsa. Nada como desferir um tiro de besta (um arco retesado) em cheio numa generosa reentrância ou ser engolido e mastigado com o vagar de quem sobe por um molusco aprazível, natureza viva e sã. Tudo consentido e sem ponta de abuso. Imaginemos, pois, um mundo de humanos e tudo o que mexe em cópulas doces ou mais intempestivas, em concílio e devoção de todos os envolvidos que serão todos até ao esgotamento das horas, coitos apenas interrompidos para comer maçãs bravo esmolfe e beber água de riachos e ribeiros onde não cai o mijo (vá, e dar um mergulho para remover os odores numa enseada amena). Todos de lombos nus derramados em solo fértil à luz do sol manso e tépido, ora derreados pela interminável dança dos ventres, ora rejuvenescidos por simbioses de riso e ocitoxinas. Alguém se lembraria de agarrar na G3 ou na ponta e mola, no canhão ou cerrar o punho da ideologia? Façamos uma ode aos gritos de prazer. Sem o empecilho da luxúria e do desempenho. Façai eco contra as desgraças. E se não puderes levantar o membro, ponde o dedo no cu.

    Nota: isto é para levar quase a sério. Ninguém é forçado a aderir e orgulhosamente sós também resulta.

    MEDICINA I Quando as crianças brincam aos índios e cóbois ou aos polícias e ladrões, melhor seria que os pais lhes dissessem para brincar aos médicos e enfermeiros. O mundo precisa é de curativos, de Avicenas e Gandhis, de paz e prosperidade e harmonia, de entendimento da diversidade, não de dicotomias e narrativas extremadas. És um ingénuo, um romântico, um idealista. Pois então que seja. Se brincar aos índios e cóbois faço de Touro Sentado ou de Gerónimo. Se for aos polícias e ladrões visto o fato de Pancho Villa. Ah, não. Esperem. Esse foi um guerreiro. Faço de Jesse James ou John Dillinger, ou de Robin dos Bosques. O Ernesto foi um assassino movido pelo ardor da paixão antimperialista, porém, fez o mesmo caminho de Aquiles. E o Nixon ou o bom Bush Jr, foram o quê, a não ser defensores do modelo de virtudes americano? Por essa ordem de ideias o Viriato, esse grande guerrilheiro que fez a vida negra aos justos romanos exterminadores de etnias e culturas, foi um terrorista inimigo da Pax Romana. Guerra e Paz, andamos nisto, dificilmente sairemos disto, enquanto houver quatro pés à face da terra e muita estupidez e ignorância. Basta uma acendalha, uma chispa, um insulto, para atear o fogo da emoção. Basta uma crítica depreciativa, um comentário atirado da tresloucada leitura apressada, para criar um novo inimigo. O bloqueio é o equivalente à declaração de guerra.

    Posto isto, não significa baixar os braços ou alinhar por um rebanho em fúria. Um partido, um clube ou uma seita.

    Se nos matarem ou violarem e torturarem um filho ou ente querido, o mais natural é respondermos na mesma moeda. É a condição humana.

    TRINCHEIRAS I Os animais fazem tocas para se esconderem dos predadores. Os animais humanos cavam trincheiras. Armam-se, ferram o dente, disparam, matam sem ser por meras contingências da alimentação. Há gente má como as cobras. Mas também há gente do Bem, digamos assim. Ou seja, seres humanos. Capazes de sair do seu ego e das suas palas até para escutar o suposto inimigo. Não se trata de ter pobrezinhos de estimação para ornar como aves de gaiola. Trata-se de ir à raiz ou raízes do mal que aflige. Há quem faça da escrita um laboratório para o Mal (a vingança), como outros escrevem alimentados pela esperança.

    P.S. um palavrão bem metido sabe bem, tal como há limites para a tolerância. Agora, não se alcança a paz a fomentar a guerra.

    MOBILIZAÇÃO I Gostava de ver o nobre povo e a nação valente mobilizado para questões que matam na sua própria terra. A morte em vida é terrível. As nações também morrem. A falta de instrução e de educação espiritual, por exemplo, mata que eu sei lá, só com um dedo. Os baixos salários. A exploração do patronato. A corrupção endémica. Todo o tipo de abuso e injustiça, como o benefício que leva à exclusão. A mentira política e a desonestidade intelectual. A xenofobia e a misoginia e o feminismo esdrúxulo. A falta de saúde, sobretudo mental e do aparelho digestivo. A construção de um raciocínio sistemático (antes de dar ao dedo ou ao gatilho) com princípios, meios e um fim capaz de unificar. É claro que haverá sempre obstáculos, a começar pelas capacidades de cada um. As crenças são terríveis. Informação não é sabedoria. A mim, irão ter-me sempre do lado dos inocentes e das minorias, dos Davids. Há vítimas em todos os cantos do mundo. Eu vi.

    Nota: Os bravos Templários, as Ordens Militares Religiosas, eram movidos por altos ideais mas havia um inimigo a abater. O bastardo de Avis matou pelo seu próprio punho. Admito admiração por William Wallace ou José Doroteo Arango Arámbula, todos os que estão do lado dos sem terras. Foram necessários combatentes para repor a justiça. Exércitos de Soldados da Paz, é o que faz falta.

    FORMAS I As formas de levar bolos ao forno têm formas variadas. A variedade é salutar. Imagine-se Lisboa plana e sem colinas, toda igual de habitação e salário, elevado já agora. Lá se ia pelo cano o negócio dos tuks e as sociedades de investimento. Os gostos discutem-se. Discutir não é berrar ou acabar tudo à porrada, de naifa entre as costelas ou tiro nos miolos.
    Vou dizer o seguinte à vossa sana consideração: posso gostar de escritores Israelenses como o falecido Meier Shalev ou um compositor judeu? Um Espinosa, uns Camondo, um Simão Sólis? Tal como apreciar um Ibn-Arabi, um Tagore, um Ali, um Gore Vidal, Norman Mailer, Truman Capote, Henry Miller, um zé não sei das quantas que dorme na Figueira porque veio aqui parar iludido com os euros europeus e precisa mas é de ajuda? O jornalismo ensinou-me a escutar ambas as partes e as terceiras. É tão radical quem está à esquerda ou à direita. A virtude do centro (não comercial) é a de quem calça os sapatos dos outros. Quando cito Emma Goldman ou Etienne de la Boétie, Montaigne ou Nestor Makhno, elejo quem considero virtuoso na defesa da individualidade, vulgo, Liberdade de pensar e agir. Alguns recorreram às armas para lutar pelo seu ideal. Se nos invadirem, atacarem, tentarem submeter, é justo. Ainda não descobri nenhum mais avisado do que o acrata teósofo Jiddu Krishnamurti.

    Lede esta frase.

    “A vida exige acção extraordinária, criadora, revolucionária. Só no despertar dessa inteligência criadora há possibilidade de se viver num mundo pacífico e feliz”.

    É o meu santo e senha de todos os dias, enquanto faço pela Vida.

    ESPERANÇA DE VIDA I Se tudo correr bem, daqui a 40 anos e picos ainda estaremos por cá a contar a História. Uns talvez partam em breve, ainda jovens ou já carcomidos. Quem sabe o dia do adeus, a não ser os suicidas? Os portugueses são peritos no suicídio. Unamuno dixit. Cada um de vós, tal como eu, tem uma ou duas estórias para contar, façanhuda ou cabotina, de maldade ou bondade. O somatório é a História da Humanidade. Há muito de desumano nessa História. É a selecção natural, dirão os cínicos e os clínicos. Se formos a ver bem, o que leva ao extermínio de uns e outros é a mania da superioridade. A reboque dessa mania vêm os deuses ou a fobia dos ateus profanos que odeiam os adoradores de templos. É como nos clubes de futebol ou hóquei. Também se mata por isso. Os tempos nunca foram pacíficos. Viver custa a todos, mais ou menos abonados pelas circunstâncias. O que fazer quando tudo arde?

    Em primeiro lugar ajudar e apoiar filhos e pais, além do amor conjugal se o houver. A família é muito importante. Seja lá onde for, abrir os braços ao estrangeiro e ao desconhecido que é o que somos todos em qualquer parte. Aprender línguas, ler os humanistas cujas obras e vidas se entrelaçaram. De todos os quadrantes e hemisférios para lograr a mundividência. Evitar a cegueira das paixões (políticas, religiosas e clubísticas), e também no domínio das relações conjugais. O ciúme e a inveja matam. Cooperar no lugar de competir. Aceitar a diferença e até os pólos opostos. Nem todos sabem o que fazem, ou mesmo o que fazer.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

  • A caminho de lado nenhum

    A caminho de lado nenhum


    LIS BOA I Parte dos meus dias são passados nas ruas de Lisboa. Nas ruas cheira a mijo e cáca. As fachadas, se lhes passar o dedo, trarão uns gramas valentes de bedum. Os donos (as sociedades de investidores) estão nas Maldivas, a chupar berbigões de putas finas. Nas condutas de ar do Metro os párias dormem ao relento, esquálidos, macerados, cagados e a feder. Os turistas detêm o olhar por instantes. Seguem viagem. Um ou outro agarrado já é nosso conhecido e pede uma moedinha para a buxa. Passam as velhas e os aleijadinhos romenos com as latas de badalo a dar e dar. Os carteiristas reconhecem-se à distância. Arrecadam, entram e saem do xilindró. Deito-me num banco da praça a observar os pássaros nas acácias. Caem moedas do céu. É o Carlos, o edil. Veio ver.

    EVOLUÇÃO I Todos os dias faço o balanço (das ancas). Enquanto dou ao cóccix é inevitável pensar, nem que seja na morte da bezerra, um excelente objectivo da meditação. Penso rápido ou mais devagar. Escrevo uma frase ou outra, uma vez por outra. Uma expressão recorrente entre seres sencientes é “anda meio mundo a enganar outro meio”. Este axioma leva a seguir a máxima de Santo Agostinho de confiar, desconfiando. Como viver relações limpas? Quem me quer bem, eu sei porque sinto. Sinto, logo existo. Gostava e vou continuar a gostar à brava do Luís Fernando Veríssimo ou do Cervantes, do Beco das Pichas Murchas ou da rua Triste-Feia, como tantas. Gosto de todos os partidários do riso justo. O resto, os calhordas, os do rei na barriga, os sôfregos de chegar a todo o lado e a lado nenhum, é lá com eles. A não ser que me queiram governar. Aí saco da BIC.

    TENDÊNCIAS I Quem vota no Chega acha estar ali a solução para os seus problemas. Sucede o mesmo em qualquer escolha, de qualquer partido, ideologia ou clubite. É o preço da Democracia apática. Enquanto os candidatos a donos disto tudo esfregam as mãos por serem empoderados, os votantes e simpatizantes delegam a sua responsabilidade com servidão voluntária. Acatam os ataques à sua liberdade e esperam que alguém resolva o que lhes cabe solucionar. O direito à igualdade. Neste momento quem é senhorio, proprietário ou societário está feliz e contente por haver turistas e emigrados que paguem o preço do livre mercado. Querem lá saber se os bairros estão imundos e descaracterizados. Se quem governa, governa em favor do seu umbigo. Desde que não lhes faltem os pagamentos, ou os acossem com taxas e taxinhas. Posso dizer o mesmo dos atentados à livre circulação de veículos motorizados para fins de animação turística. Só com imaginação e persistência se consegue mostrar uma cidade autêntica. Uma autêntica farsa, um embuste, se não se denunciar o que se faz por aqui. Contar as verdades da História com todos os seus podres e glórias, bem como levar os interessados a ver o que resta, para além do luzeiro dos miradouros. Falar de quem fez pouco e esbulhou, para além do Bonaparte e do Maneta. Exortar os artistas e os combatentes que muito fizeram para que nunca se tivesse chegado aqui, a esta lástima.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

    As ilustrações foram elaboradas com recurso a inteligência artificial.

  • Morte ao estranho

    Morte ao estranho


    PIRÓMANOS I Em todos nós jazem pensamentos. Alguns são incendiários: morte ao estrangeiro, ao estranho, ao emigrante. Morte ao preto, ao amarelo, ao cor de burro quando foge. Morte ao grande capital, morte ao lagarto, dragão ou lampião. Morte ao monhé, ao zuca, ao agiota, ao corrupto. Morte ao diferente. Todos diferentes, todos iguais é um slogan de humanistas. Onde andam eles? Este grito de guerra é o resultado da ameaça. É ancestral. O temor da perda dos direitos adquiridos, da territorialidade, da pátria. Em nome de Deus mata-se. Um crítico literário pode matar um autor apenas imbuído de maldade. Há a pequena velhacaria e o mal intrínseco. O que é o Mal? É uma tentação de aniquilar o que não nos agrada.

    UM LUGAR ao SOL I Até pode chover, caírem sapos da estratosfera, canivetes suíços e estrelas cadentes, bolas de fogo incandescentes. Onde estou os caminhos bifurcam-se como em todos os lugares. Tomo a estrada menos percorrida, a do meu encontro com o call of the wild. Perdi a conta aos kms e nem sei quanto dista uma milha. Andam por aí peregrinos de bordão e emigrantes a voltar à terra. Há montes e vales. Trilhos sinuosos, mais ainda se no bucho houver um vinho branco do meu homónimo Cabaço numa taberna a cheirar a alecrim. Estou no hemisfério Norte e ambos os parietais confluem numa realidade palpável. Estou longe de lugar algum empobrecido por falta de astro-rei. Na barriga tenho a cabeça cheia de sabores, odores e uma observação meticulosa do voo das aves, do baloiçar dos carvalhos e oliveiras. A embriaguez lúcida de que não é preciso um maná de mais do que um banho de Natureza.

    VEREDICTOS I Não é de agora o costume de fazer desenhos sobre fulano e beltrana. Desde a articulação de sons que os há, os bitates. Há até um ofício semiprofissional: calhandreira(o). Isto dito entre uma passa, um golo (de xerês) ou no decorrer da novela ou do noticiário. Que é bêbedo, que bate nas mulheres, que mija fora do penico, que mete a unha e a mão no pertence alheio, que pega de empurrão, que é um suíno ou bácoro, ou mesmo uma vaca e megera ou pêga de arribação, que se morder a língua lhe dá um treco, que só pensa nele ou nela, que vade retro. Pois bem, a violência não é só doméstica. E no domo, até chegar ao crime, há o castigo de levar com a sarna. No lugar de seguir o princípio de que se estão mal, mudem, as vítimas e carrascos atordoam-se até ao dobrar dos sinos pelo mais fraco. Agora tocou ao Sousa Tavares, o cronista ferino, ser alvo da situação que ficará entre a putativa calúnia, difamação e injúria, e um fundo de verdade fruto do mau feitio e da pena assanhada. Toca a todos. O veredicto do público armado em júri.

    CATATAUS I É positivo ter um espírito crítico construtivo. Antes, porém, contudo, todavia, é preciso começar pela conduta pessoal. Erros meus, má fortuna, amores ardentes. Deve haver um fundo camoniano e pessoano em cada um. E não há espiga se houver tentações. Cair nelas, é atiçar o fogo, como se atiçam os hímenes. Depois, é aguentar a bronca e lidar com ela(s) ou eles, se as labaredas desatarem no períneo. Fazer de conta que se é uma coisa e praticar outras é o paradoxo a evitar.

    DO NOJO I A banalização da escrita pública cria juízes de pacotilha como quem solta ares ao vento. Estou a falar de tudo um pouco (da facilidade de recorrer ao insulto e difamar, injuriar e caluniar). Mas vou escrever umas linhas sobre o nojo da Comunicação Social (alguma) e de quem vem agora cilindrar o Miguel Sousa Tavares enquanto homem e marido. Primeiro, se toda a gente falasse com verdade da sua vida íntima não sobraria uma alma imaculada. Depois, alguém que o responsabiliza pela morte da TC acareou o Miguel ou lhe abriu um processo sendo o que acusam um crime público? Vão dizer que não o fizeram por medo. Por ser o Miguel. Mas é mais grave do que isso. É porque a violência está em toda a parte. Recalcada, cabotina e escondida no esterco das redes sociais. E de alguma CS reles e ordinária.

    VIDAS I Tudo na Vida (mineral, vegetal, animal…) está ligado, nem que seja por fios invisíveis. Quando Lobo Antunes diz eu hei-de amar uma pedra atinge o auge da simbiose. Amar o que não se manifesta por actos e palavras, mas na perenidade, na imobilidade serena. Se tudo é impermanência – até na erosão de uma pedra – o Amor, esse grande vocábulo da esperança de unificação, permite viver apontado a um fim maior do que a própria satisfação. O Amor não divide para reinar. Quando o Amor é cego (e não só o amor conjugal) leva ao conflito. O conflito nasce da frustração. É a chama da raiva. Na Vida ganhamos e perdemos. Em última instância perdemos a vida. É uma perda de tempo lidar com calhaus ou deixarmos embrutecer a possibilidade de refinamento na tentativa de moldar o que não nos agrada. Há que polir o diamante que porventura estará oculto em todos nós. Tudo o que existe à face ou no miolo da terra. Até nos pântanos nascem flores. Ou mesmo no Universo sideral.

    ISRAEL I Fui a Israel duas vezes, em contextos distintos. A primeira visita fi-la sozinho em 2003. Fui revistado e interrogado mal passei o guichê dos passaportes. Tinha um passaporte novo, emitido por conta de carimbos de entrada na Síria e no Líbano. Levaram-me para uma sala e três marmanjos com cara de poucos amigos perguntaram-me o que fazia eu ali. Disse que vinha ver uma amiga. Que amiga? Uma amiga. Judia? Sim, judia (podia ser cristã ou muçulmana). Porque carga de água tinha a Estrela de David tatuada no pulso esquerdo? Não é a estrela de David mas o Selo de Salomão, retorqui. E porque levava livros sobre a Cabala? Porque a estudava e estudo, já agora, numa perspectiva de entendimento retrospectivo. Lá me deram guia de marcha, desconfiados da amiga ser a Dorit Rabinyan (nem mencionei que ia para casa do Meier Shalev). Nessa viagem ouvi de tudo um pouco, discursos acesos e sionistas e por defender a causa justa Palestiniana (sem o recurso ao terror) fui posto a andar do kibutz onde pernoitei no intuito de escrever com conhecimento de causa.
    Na segunda visita fui com a comitiva da Cristina e o tapete vermelho do fado. Já tinha A Escada de Istambul publicada em hebraico, mas nem assim pude reunir-me com o editor da Kinneret ou frequentar o mundo literário. Aguardo uma ida. Foi um ritual de passagem. Faço tours para judeus e israelitas cá no burgo e realço as injustiças do passado. Todas as injustiças me interessam. Matar à fome ou ajustar contas segundo a lei de Talião é uma delas. Repudio todos os massacres de inocentes, tal como um punhado de amigos israelitas que zarparam de Israel até ali haver uma Democracia.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

    As ilustrações foram elaboradas com recurso a inteligência artificial.

  • Em nome do amor

    Em nome do amor


    O QUE FAZER? I Cada um é como cada qual e age ou reage segundo as suas idiossincrasias. A raiz dos maiores problemas é a dicotomia. Se não estás comigo, estás contra mim. No caso político arrumam-se as gentes pela esquerda, centro, direita e os extremos. Todo aquele que vive na pólis é parte da política, ainda que se esteja nas tintas (os limites da liberdade individual estão na lei). Tal não implica o 8 (o fiel cumpridor) ou o 80 (o desalinhado). A virtude está no meio, mas não necessariamente num partido do centro. Sem entrar nas minhas escolhas (que alguns já conheceis), o que fazer é não acatar o injusto, o que leva à desigualdade tanto ou mais gravosa quando parte de um conjunto de fazedores de leis. Quem provoca o “mal” e os males-estares são humanos pensantes. Eles sabem o que fazem, como criar pandemias, massacrar inocentes ou ditar o preço das coisas. As modas. São cartéis iguais aos do narcotráfico mas operam do lado da lei. Todos correm atrás do lucro e da submissão. Tenho por princípio activo a contestação, mas à medida que o tempo passa sinto-me mais inclinado a averiguar da qualidade do Amor. A começar pelo meu. Quanto mais forte, verdadeiro e criativo for o Amor, mais paz haverá e melhor sairá a Comunicação. Se caírmos no fascismo, desse Amor brotará uma arma em louvor da Liberdade.

    VAMPIROS I Se formos a Ver (com olhos de Ver) há uma confluência de Mercado que conduz à estupidificação e à servidão voluntária. Todos somos potenciais compradores e vendedores de retalho. Este reduto (e o dispositivo androide onde escrevo) é um desses meios de forjar dependentes. Gritar Liberdade dá trabalho. Requer olho vivo para não ir em modas. É como votar – dar o voto implica estudar o programa e os fulanos agremiados para não nos sair o tiro pela culatra. Ainda o melhor é andar pelas margens, escrutinar as contra-indicações e se for preciso mandar os vendilhões para a gávea, que é como quem diz ide para o CRL.

    VIDAS I Tudo na Vida (mineral, vegetal, animal…) está ligado, nem que seja por fios invisíveis. Quando Lobo Antunes diz eu hei-de amar uma pedra atinge o auge da simbiose. Amar o que não se manifesta por actos e palavras, mas na perenidade, na imobilidade serena. Se tudo é impermanência – até na erosão de uma pedra – o Amor, esse grande vocábulo da esperança de unificação, permite viver apontado a um fim maior do que a própria satisfação. O Amor não divide para reinar. Quando o Amor é cego (e não só o amor conjugal) leva ao conflito. O conflito nasce da frustração. É a chama da raiva. Na Vida ganhamos e perdemos. Em última instância perdemos a vida. É uma perda de tempo lidar com calhaus ou deixarmos embrutecer a possibilidade de refinamento na tentativa de moldar o que não nos agrada. Há que polir o diamante que porventura estará oculto em todos nós. Tudo o que existe à face ou no miolo da terra. Até nos pântanos nascem flores. Ou mesmo no Universo sideral.

    ESPECTROS I À conversa com o Resende (guia ilustre) surgiu a questão. Quem foram (ou são) os nossos grandes estadistas? Para mim, Acrata, não ponho ninguém em pedestais. O Resende, homem ilustrado, falava do Sá Carneiro, o Kennedy português, do Marquês de Pombal, esse déspota esclarecido, ou mesmo do Botas enquanto ministro, até chegar ao bochechas, o pai da Democracia da era moderna (😀). Deixei-o encantar-se com as suas palavras. Falei apenas do Álvaro Cunhal, a quem faltou a oportunidade de governar em nome do povo e para o povo (o povo teme o papão comunista). O povo, Alto e para o baile, não é sagrado. Aliás, o povo somos todos e só é quem mais ordena se age pelo bem comum e não se deixa levar pelo triunfo dos porcos. Estadistas abnegados, cultos e agregadores de um país com classe e sem distinções de classe, rareiam. É como o Amor. É raro que seja mútuo e muito bom para ambas as partes envolvidas.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

    As ilustrações foram elaboradas com recurso a inteligência artificial.