Em conversa com o Pedro (Almeida Vieira), no fim de mais uma gravação do “Estrago da Nação“, ouvi-o dizer aquilo que, segundo ele, seria o erro crasso e repetido da Esquerda nos anos mais recentes: em vez de hostilizar o Ventura e tentar desmascarar o seu discurso, deveriam, isso sim, tentar perceber porque é que os eleitores votam nele.
Reconheço alguma racionalidade nesta abordagem. Convenhamos, já todos dedicamos semanas e semanas de debate a desconstruir as mentiras de André Ventura e todo o populismo que forma o programa do Chega. Se considerarmos que a agenda do ódio pode ser um programa, claro.

O que é que verdadeiramente a esquerda, e todo o campo democrático, ganharam com esse debate? Nada. Rigorosamente nada. Vivemos em Portugal o famoso “momento Trump na 5.ª Avenida”. Ventura pode dizer tudo e o seu contrário: mentir, inventar, perseguir minorias, criar narrativas, usar números falsos, ignorar factos e estatísticas. Tudo isto já aconteceu, repetidas vezes, e os eleitores não o abandonaram.
Já li e formulei teorias. No fundo, quem não vota no Chega terá a sua própria versão, mais ou menos redutora, do perfil de pessoa que escolhe votar no partido de um homem assente em mentiras sem fim. É um fenómeno, eu diria. E para quem leu o livro do Miguel Carvalho e percebe quem são, afinal, aquelas pessoas, o fenómeno assume formas de mistério.
Assim sobra-me a pergunta, honesta e interessada: “porque votas, então, tu no Chega?” Consegues explicar, de forma lógica, o que te leva a acreditar no André Ventura e votar em qualquer Rita Matias que te apareça pela frente?

Fui perguntar a amigos, conhecidos e familiares. Pessoas que trabalham na Função Pública, no sector privado e por conta própria. Adultos com formação universitária, ensino secundário ou educação básica. Entre os 30 e os 70 anos de idade. Não será uma amostra enorme, mas é, pelo menos, variada.
Um argumento comum era a “luta contra os ciganos” e os apoios que estes recebiam. Perguntei a todos se sabiam qual era o valor do RSI e qual era o seu peso nas prestações sociais. Ninguém sabia, mas não gostavam, propriamente, de ciganos.
“O único que tenta controlar a imigração de indianos” também foi um dos argumentos mais usados. Neste caso, o problema não era tanto os apoios, mas sim baixarem o valor dos salários. Perguntei se alguém teria interesse em entregar comida de bicicleta, conduzir táxis, apanhar fruta ou levantar paredes. Aparentemente, ninguém tinha grande vontade.

Tentei debater o facto de uma destas pessoas ser empresário e usar imigrantes com baixos salários, ao que ele respondeu que as margens eram pequenas e, portanto, ou trabalhavam os romenos ou nada feito. Mas, ainda assim, votava no Ventura.
Também ouvi que “só ele é que quer acabar com a mama dos políticos” e perguntei a cada uma destas pessoas se conheciam os salários e dívidas dos deputados do Chega antes de terem chegado às regalias parlamentares. Aparentemente, ninguém tinha lido o livro do Miguel Carvalho. Um disse-me que seguia um professor no YouTube que explicava tudo muito bem e era fácil de seguir. Referia-se ao João Tilly.
Um dos entrevistados queixava-se das reformas de miséria, embora, ao longo da sua vida contributiva, tenha fugido sempre que possível aos impostos. Outro disse-me que era insuportável ir a Lisboa e ver aqueles gajos todos nos tuk-tuks.

A dado ponto, perguntei, simplesmente, o que esperavam do Chega para melhorar as suas vidas. Reformas mais altas, mesmo para quem não descontou, e menos “monhés” nas ruas, eram os problemas que vinham, assim de repente, à cabeça.
Ninguém mostrou qualquer problema com os tiques autoritários ou os elogios a Trump. Não haveria, segundo alguns deles, a mínima hipótese de Ventura fazer em Portugal o que Trump está a fazer nos Estados Unidos. “E mesmo que fizesse, qual era o problema de mandar os drogados de volta para a terra deles?”, acrescentou um que via o noticiário todos os dias na CMTV.
Nenhuma destas pessoas lia jornais em papel ou artigos de opinião. No caso dos meus familiares, nunca tinham lido sequer qualquer texto meu sobre a extrema-direita. Recebem, todos, a maior parte da informação pelas redes sociais ou pelo jornal das 8 (CMTV, NOW, CNN, SIC e TVI).

No fim das conversas, quase todos se renderam à evidência de que votam no Ventura porque estão fartos dos outros. Não ficam com a certeza de que o seja melhor, não sabem se mente ou não porque não assistem a debates ou análises, mas concordam com muito do que ele vai afirmando. Acham que devem, pelo menos, dar-lhe a hipótese de fazer qualquer coisa diferente do que foi feito nos últimos 50 anos.
É uma lógica ligeiramente débil e até perigosa, na minha opinião, mas são opiniões reais e votos que entram na urna. Estarão sós? Serão bons perfis de eleitores do Chega para quem a verdade é um acessório? Esclarece-me. Porque votas tu no Chega?
Tiago Franco é engenheiro e CEO da techLisbon
























































