Autor: Pedro Almeida Vieira

  • O estranho inquérito que dava favoritismo a Ventura: ontem, 63%; hoje, 16%

    O estranho inquérito que dava favoritismo a Ventura: ontem, 63%; hoje, 16%


    No mínimo, caricato. Com todos os apoios políticos a concentrarem-se em António José Seguro e a classe jornalística e de opinadores a isolarem-no, André Ventura agarrou-se ontem a uma estranha “sondagem” que lhe atribuía uma vitória na segunda volta, com um score de 63,16% contra 36,84% do antigo secretário-geral do PS.

    E o líder do Chega não deixou escapar esse “resultado”: nesta segunda-feira, pelas 21h47, juntando uma imagem do suposto resultado, escreveu: “Parece que não vai ser tão fácil como eles estão à espera. Ainda bem: Portugal tem de avançar!!!”.

    André Ventura. Foto: D.R.

    O post de Ventura acumulou, entretanto, cerca de 290 mil visualizações, reforçando a percepção de um momento político aparentemente favorável ao candidato. Como era indicada a fonte do “inquérito online” — DIARIO.BIX.PT —, o PÁGINA UM foi observar como estavam os resultados: Seguro diminuíra ligeiramente a distância, contando então “2.622 votos” (37,32%), enquanto Ventura acumulava “4.479 votos” (62,68%).

    Nessa consulta, tornava-se desde logo evidente que não se tratava de qualquer “sondagem” com validade estatística, permitindo ainda acompanhar os resultados de forma dinâmica e com possibilidade de múltiplos “votos”. O mais estranho, porém, é que a origem desse inquérito é um suposto jornal intitulado Diário Bix, cuja natureza editorial, enquadramento jurídico e credibilidade jornalística são, no mínimo, mais do que duvidosos.

    Uma análise ao site revela uma sucessão de notícias de natureza aleatória, centradas sobretudo em mortes, acidentes, crimes violentos, efemérides fúnebres e acontecimentos dispersos, sem linha editorial clara, sem hierarquização noticiosa e sem qualquer contextualização jornalística consistente.

    No post colocado por André Ventura às 21h47 desta segunda-feira, a sua ‘vitória’ era esmagadora.

    Apesar disso, o site apresenta uma ficha técnica onde proclama princípios como o rigor, a credibilidade, a clareza e a independência editorial.

    Contudo, essa mesma ficha técnica não identifica qualquer director responsável, como impõe a lei portuguesa, nem inclui jornalistas com carteira profissional. Surge apenas um “editor principal” e um conjunto de nomes apresentados como redacção e colaboradores, sem vínculo profissional conhecido ao jornalismo.

    Acresce que, no Portal da Transparência dos Media, não surge qualquer periódico com esta denominação. O PÁGINA UM contactou a Entidade Reguladora para a Comunicação Social para saber se o Diário Bix podia funcionar como órgão de comunicação social em Portugal e se tinha registo para a elaboração de sondagens, mas não obteve resposta. Também foi tentada um contacto com o site, através do endereço de correio electrónico disponibilizado, mas não houve resposta.

    António José Seguro. Fonte: D.R.

    Em suma, a “sondagem” que motivou o post de André Ventura, com 290 mil visualizações, resulta, na realidade, de uma votação aberta online, lançada a 22 de Janeiro num artigo intitulado “Portugal vai ter segunda volta nas eleições presidenciais”, acompanhado de um convite explícito: “Vote na nossa sondagem”.

    Não existe ficha técnica, amostragem, controlo de votos, identificação do universo, margem de erro ou qualquer metodologia conhecida. Trata-se, pura e simplesmente, de um mecanismo interactivo susceptível de manipulação a qualquer momento.

    E foi precisamente isso que aconteceu. Se durante a manhã André Ventura ainda surgia como vencedor destacado, na noite desta terça-feira, pelas 20h36, menos de 24 horas depois da publicação celebratória do líder do Chega, os números mostravam uma inversão total: António José Seguro já liderava com 83,65% dos votos (23.462), enquanto André Ventura descia para 16,35% (4.585 votos).

    ‘Resultados’ do ‘inquérito’ do Diário Bix às 21h15 desta terça-feira.

    O episódio expõe, de forma quase cómica e até didáctica, o carácter ilusório da chamada “sondagem” e a facilidade com que uma votação sem qualquer valor estatístico pode ser instrumentalizada no espaço público.

    Aquilo que foi apresentado como um sinal inequívoco de força política revelou-se, em poucas horas, um exercício volátil, sem validade científica e dependente apenas da mobilização momentânea de apoiantes.

  • Jornalista da CNN Portugal aceita abrilhantar evento do Governo

    Jornalista da CNN Portugal aceita abrilhantar evento do Governo


    A jornalista da CNN Portugal, Ana Sofia Cardoso, que fez a cobertura da campanha eleitoral do PSD no ano passado, participou ontem, na qualidade de moderadora, na cerimónia de promoção governamental realizada no Palácio da Bolsa do Porto, no âmbito do lançamento da denominada Carteira Digital da Empresa, uma iniciativa do Governo enquadrada na sua agenda política de reforma administrativa e digitalização do Estado.

    Essa participação, num evento eminentemente político e da esfera governamental — e que contou com intervenções de três ministros e do próprio primeiro-ministro — configura uma violação clara e objectiva dos princípios deontológicos do jornalismo, ao confundir deliberadamente o papel de jornalista com o de agente de comunicação institucional do poder político.

    Ana Sofia Cardoso, do estúdio da CNN Portugal para palco de um evento governamental.

    De acordo com o Estatuto do Jornalista, é “considerada actividade publicitária incompatível com o exercício do jornalismo a participação em iniciativas que visem divulgar produtos, serviços ou entidades através da notoriedade pessoal ou institucional do jornalista, quando aquelas não sejam determinadas por critérios exclusivamente editoriais”.

    No evento, após os discursos dos ministros Gonçalo Saraiva Matias (Reforma do Estado), Rita Alarcão Júdice (Justiça) e Castro Almeida (Economia), o speaker chamou “a jornalista Ana Sofia Cardoso” [sic] para moderar um painel sobre digitalização e simplificação como acelerador da produtividade das empresas portuguesas, desempenhando um papel central na condução e enquadramento de um debate concebido como extensão discursiva da narrativa governamental.

    Não se tratou de cobertura jornalística, nem de um exercício crítico ou informativo, mas da participação activa num acto de promoção de políticas públicas, com presença destacada de membros do Governo e sem qualquer distância editorial visível.

    Governo teve uma jornalista a abrilhantar o evento político de lançamento da Carteira Digital da Empresa. Foto: D.R.

    Numa plateia de políticos, a pivot da CNN Portugal assumiu de imediato o papel de mestre-de-cerimónias, como se constata nas suas primeiras palavras: “Muito bom dia a todos, sejam bem-vindos. Um agradecimento especial aos líderes que aqui me acompanham nesta data importante sobretudo para os empresários. Sabemos que as empresas querem resultados, querem menos tempo perdido, menos burocracia, querem decisões mais rápidas”. Ou seja, encaixando-se na perfeição nos objectivos da iniciativa governamental.

    A participação activa desta jornalista — que também fez a cobertura de diversas acções de campanha de André Ventura na primeira volta das Presidenciais — antecedeu depois a apresentação da appGov por Manuel Dias, director de Sistemas e Tecnologias de Informação da Administração Pública, também conhecido como CTO (chief technology officer) do Estado. A sessão político-governamental terminou com um longo discurso de 25 minutos de Luís Montenegro.

    Na sessão governamental, que durou 97 minutos — e que teve Ana Sofia Cardoso a abrilhantar um “momento de debate” — os quatro governantes falaram cerca de 50 minutos. Se dúvidas houvesse sobre o carácter político do evento, esta simples estatística esclarece.

    Veja o momento da chamada às funções da “jornalista Ana Sofia Cardoso” num evento político-governamental.

    O PÁGINA UM enviou questões à jornalista da CNN Portugal para saber quem foi a entidade ou pessoa que lhe formalizou o convite, se essa participação foi remunerada e, se sim, qual a quantia. Por outro lado, procurou-se saber se considerava que a sua participação activa numa cerimónia de promoção governamental — onde, para além de governantes, estiveram presentes deputados e altos dirigentes da Função Pública — era compatível com os deveres de independência, isenção e separação de papéis consagrados no Estatuto do Jornalista e no Código Deontológico do Jornalista. Ana Sofia Cardoso ainda não respondeu.

    Certo é que a normalização deste tipo de envolvimento constitui mais um passo numa degradação preocupante das fronteiras entre jornalismo e propaganda institucional. Num momento em que os media reclamam credibilidade e autoridade moral para combater a desinformação, este tipo de prática constitui não apenas um erro de julgamento, mas uma falha ética grave.

  • Obrigações de 5.000 milhões: Banco Montepio e auditor independente ‘dormem na mesma cama’

    Obrigações de 5.000 milhões: Banco Montepio e auditor independente ‘dormem na mesma cama’


    A administradora do Banco Montepio, Florbela Lima, apesar de formalmente não deter funções executivas, é presidente da Comissão de Risco e vogal da Comissão de Auditoria. Conta com mais de 20 anos de experiência na consultora Ernst & Young (EY), sendo, aliás, casada com o presidente (‘country manager’) desta empresa em Portugal, Miguel Farinha. O caso não seria, em si mesmo, problemático, uma vez que as chamadas “portas giratórias” são habituais no mundo financeiro (e até político).

    O problema reside no facto de o Banco Montepio ter contratado a EY como ‘auditor independente’ (Cover Pool Monitor) da emissão de obrigações cobertas no valor de 5.000 milhões de euros, com a função de monitorizar os activos que compõem a garantia global dos títulos emitidos. O contrato foi inicialmente assinado em 2023 e prorrogado, com alterações, em Maio de 2025.

    turned-on MacBook Pro

    As obrigações cobertas, como as do Montepio, são títulos de dívida emitidos pelo banco e garantidos por um conjunto específico de activos de elevada qualidade — tipicamente créditos hipotecários ou créditos ao sector público — que ficam afectos exclusivamente ao pagamento dessas obrigações. Estes instrumentos oferecem uma dupla protecção ao investidor: por um lado, o compromisso directo do emitente [Banco Montepio]; por outro, a cobertura por activos segregados (o cover pool), que permanecem afectos aos obrigacionistas mesmo em caso de insolvência do banco.

    São geralmente considerados instrumentos de baixo risco relativo, acessíveis a investidores institucionais e particulares através do mercado financeiro, funcionando como uma forma estável de financiamento bancário e como uma opção conservadora de investimento. Contudo, para serem bem aceites pelo mercado, existe, por regra, a necessidade de um ‘fiscal independente’, que pode ser interno, embora as instituições optem frequentemente por consultoras externas, por razões de maior credibilidade e de melhor aceitação junto dos obrigacionistas.

    Ora, de acordo com o Regime Jurídico das Obrigações Cobertas, “considera-se independente” o auditor que não seja o revisor oficial de contas (ROC) da instituição de crédito emitente — neste caso, o Banco Montepio — nos dois anos anteriores ao momento da designação, e que com esta não esteja relacionado. Em particular, tal aplica-se a “qualquer pessoa singular em posição de influenciar o resultado da auditoria, por relações financeiras, pessoais, comerciais, de trabalho ou outras”.

    Florbela Lima (sentada, na segunda posição a contar da esquerda) é administradora não executiva mas com cargos na Comissão de Risco e na Comissão de Auditoria do Banco Montepio.

    Nestes casos, o auditor — leia-se, as pessoas que assumam responsabilidades de gestão relevantes — não pode estar “associado a qualquer grupo de interesses específicos na instituição de crédito emitente nem se encontrar em alguma circunstância susceptível de afectar a sua isenção de análise ou de decisão, nomeadamente em virtude de ser titular ou actuar em nome ou por conta de titulares de participação qualificada igual ou superior a 5% do capital social da instituição de crédito emitente”.

    Ou seja, perante uma instituição como o Banco Montepio, que tem Florbela Lima como administradora com dois cargos em comissões internas de particular relevo (Auditoria e Risco), a EY dificilmente pode ser considerada independente, uma vez que Miguel Farinha, country manager da EY e vogal da EY Audit & Associados mantém uma relação conjugal, em regime de comunhão de adquiridos, com aquela administradora.

    Para além da relação conjugal, Florbela Lima e Miguel Farinha desenvolvem também uma intensa actividade empresarial conjunta, com destaque para a empresa Relatório Urgente, criada no final de 2020, tendo como objecto social principal a prestação de serviços de consultoria para os negócios e gestão.

    Nesta sociedade, a administradora do Banco Montepio detém 70% do capital social e o country manager da EY os restantes 30%. Apesar de, em 2024, esta empresa ter registado uma facturação reduzida (apenas 23.759 euros) e um prejuízo de cerca de cinco mil euros, o que mais se destaca são os investimentos financeiros realizados em conjunto, no montante global superior a 337 mil euros, conforme o PÁGINA UM confirmou nas demonstrações financeiras.

    Para além desta sociedade, o casal detém participações conjuntas em mais três empresas com denominações sugestivas: Fatias Imaculadas, Fatias e Recados — ambas ligadas a serviços de restauração — e Vagas Errantes, criada em 2023 com um casal amigo, com o objectivo de aluguer de embarcações.

    Por outro lado, a EY já mantinha relações comerciais com o Montepio, tendo actuado como consultora na elaboração do Relatório de Sustentabilidade do banco, designadamente nos relativos aos exercícios de 2023 e 2024.

    Página do relatório de sustentabilidade de 2024 do Montepio, onde consta o nome de Florbela Lima nas diversas funções e a Ernst & Young (EY) como consultora.

    Acresce que em nenhum dos documentos do banco consultados pelo PÁGINA UM, relativos ao programa de obrigações cobertas, designadamente o “credit update” trimestral que o banco publica, consta qualquer declaração de interesses ou nota referente ao facto de o presidente do “auditor independente” ser casado com um membro do conselho de administração do Montepio. 

    Perante esta situação anómala, o PÁGINA UM contactou as duas entidades reguladoras do sistema bancário e do mercado obrigacionista — o Banco de Portugal e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) — questionando-as sobre a legalidade e a transparência destas relações conjugais e empresariais entre uma administradora do Banco Montepio e o líder da EY em Portugal. As respostas são, no mínimo, curiosas para entidades criadas precisamente para, através da regulação, conferir segurança aos investidores.

    O Banco de Portugal, liderado por Álvaro Santos Pereira, respondeu que “está sujeito ao dever de segredo de supervisão e, por isso, não se pronuncia sobre situações específicas”, salientando apenas que “os programas de obrigações cobertas estão sujeitos à supervisão directa da CMVM”.

    Na rede LinkedIn, Miguel Farinha, líder da EY, partilha actividades da sua mulher Florbela Lima como administradora do Banco Montepio, e vice-versa.

    Já esta entidade, presidida por Luís Laginha de Sousa, foi pelo mesmo diapasão, afirmando que “monitoriza de perto os acontecimentos de mercado que possam ser relevantes no exercício de funções de interesse público pelos auditores”, embora esteja “vinculada pelo dever de sigilo profissional e, por isso, não possa pronunciar-se sobre situações específicas relacionadas com entidades sob a sua competência para supervisionar a actividade de auditoria”.

    Em suma, as duas entidades que fiscalizam — e que fiscalizavam também, em sigilo, instituições como o Banco Espírito Santo, o BANIF e o BPN — garantem que fiscalizam o Banco Montepio, mas não apresentam qualquer evidência concreta dessa fiscalização.

    O PÁGINA UM contactou igualmente a administração do Banco Montepio, ainda presidida por Pedro Leitão — e que será, em brevem substituído por José Azevedo Pereira, antigo director-geral das Finanças e professor do ISEG —, questionando se a relação conjugal e empresarial entre Florbela Lima e Miguel Farinha tinha sido objecto de análise interna específica, se foram avaliados os impactos dessa relação no cumprimento dos requisitos de independência exigidos por lei, e se tal situação foi comunicada aos investidores obrigacionistas ou às autoridades de supervisão. A resposta foi totalmente evasiva, remetendo apenas para a existência de dois documentos internos: a Política de Gestão de Conflitos de Interesses e a Política de Transacções com Partes Relacionadas.

    Luís Laginha de Sousa, presidente da CMVM: garante que fiscaliza, mas não prova que fiscaliza, alegando “sigilo”. Foto: D.R.

    Contactados em conjunto, Miguel Farinha e Florbela Lima — tendo sido, neste caso, utilizado o endereço electrónico da empresa Relatório Urgente — responderam separadamente, apesar de serem casados em regime de comunhão de adquiridos.

    A administradora do Banco Montepio optou por uma resposta ainda mais evasiva: “No seguimento do seu contacto, cumpre-me esclarecer que, tendo em conta a natureza do tema para o qual solicita clarificação, constato que o mesmo nada tem a ver com a empresa referida, Relatório Urgente, mas sim com as empresas EY e Banco Montepio, pelo que quaisquer dúvidas devem ser reencaminhadas para os canais institucionais dessas duas entidades, que já responderam às suas questões, nada mais tendo eu a acrescentar.”

    Já Miguel Farinha respondeu inicialmente de forma indirecta, através da EY — que nem sequer fora contactada pelo PÁGINA UM —, garantindo “o completo cumprimento de todas as normas em vigor, quer das entidades, quer dos reguladores”, concluindo que estaria assim “dada resposta cabal às questões colocadas”.

    Miguel Farinha, country manager da EY em Portugal e ainda sócio e marido da administradora do Banco Montepio. Foto: D.R.

    Tendo o PÁGINA UM insistido que nada ficara esclarecido, e reforçando a questão da empresa Relatório Urgente — com baixa facturação mas investimentos financeiros de quase 340 mil euros — o líder da EY reagiu afirmando “já ter respondido às [questões] e esclarecido que não existe qualquer situação desconforme em termos legais, normativos, de transparência e de boa governação”.

    O PÁGINA UM reitera que nenhuma das quatro questões formuladas foi efectivamente respondida, como se comprova pela troca de correspondência.

  • Volksvargas: um euro bastou para facturar 93.500 euros nos dois anos finais do PS na autarquia de Lisboa

    Volksvargas: um euro bastou para facturar 93.500 euros nos dois anos finais do PS na autarquia de Lisboa


    Volksvargas, um pseudónimo, tornou-se subitamente o homem do momento depois de um simples post na rede X ter desencadeado um comunicado formal do Gabinete do Primeiro-Ministro, acusando-o de desinformação — a propósito de uma sátira, com quase 800 mil visualizações, envolvendo uma falsa carta de Luís Montenegro a Donald Trump — e anunciando a intenção de o processar. Pouco depois, ficava claro quem estava por detrás do pseudónimo: Luís Vargas, figura antiga nas redes sociais, particularmente activa no comentário político dirigido à direita portuguesa.

    Independentemente dos tiques autoritários revelados pelo líder do Governo perante uma evidência satírica, desde ontem tem vindo a público o percurso profissional e contratual de Luís Vargas, em especial a sua relação com a Câmara Municipal de Lisboa durante o último mandato do socialista Fernando Medina.

    Ilustrações de Luís Montenegro e Luís Vargas: mais do que avaliar os limites da sátira, este caso revela os subterrâneos das relações comerciais entre política e influencers.

    Em pleno início da pandemia, a autarquia alfacinha adjudicou a Vargas um contrato de 45 mil euros, mas há uma particularidade relevante: o influencer, que havia dissolvido uma empresa no ano anterior, criara a Luís Vargas Unipessoal, Lda. menos de dois meses antes da adjudicação. A empresa foi constituída a 29 de Março de 2020 e o contrato aprovado a 29 de Abril, sendo formalizado a 7 de Maio desse ano.

    O objecto social da empresa é vastíssimo, quase enciclopédico, abrangendo desde programação informática e desenvolvimento de software até comunicação institucional, design industrial, produção multimédia e análise de dados estatísticos. A amplitude das actividades, porém, foi inversamente proporcional ao investimento: Luís Vargas aplicou apenas um euro — repita-se, um euro — para constituir o capital social da sociedade.

    Apesar de se tratar de uma empresa recém-criada, sem historial conhecido de contratos públicos, a sociedade de Luís Vargas não teve dificuldades em assegurar um contrato de 45 mil euros com a Câmara de Lisboa, para aquisição de serviços de programação, desenvolvimento de microsites, webdesign e conteúdos audiovisuais para plataformas institucionais como o Lisboa.pt e a Extranet municipal. O contrato teve a duração de um ano e foi atribuído por consulta prévia, procedimento que dispensa concurso público, mas que pressupõe a consulta a várias entidades — as quais não são identificadas no Portal BASE.

    Post no X de Luís Vargas que espoletou a fúria de Montenegro.

    Em 2020, de acordo com as contas consultadas pelo PÁGINA UM, a empresa de Luís Vargas facturou exactamente 30 mil euros, valor compatível com a execução parcial do contrato, apresentou uma remuneração de gerente de 9.500 euros e registou um lucro líquido de 11.775 euros. No total, nesse primeiro ano, Luís Vargas auferiu cerca de 21 mil euros entre rendimentos do trabalho e resultados empresariais.

    O verdadeiro ano de ouro surge em 2021. Para além da continuação do primeiro contrato, a 31 de Maio é celebrado um segundo contrato, no valor de 30 mil euros, novamente com a Câmara de Lisboa, para serviços de consultoria informática e desenvolvimento da Extranet e do website institucional da autarquia então socialista. Nesse ano, a empresa factura 63.500 euros, sendo cerca de 45 mil euros provenientes directamente da autarquia lisboeta, terminando o exercício com lucros superiores a 34 mil euros e remunerações próximas dos 14 mil euros.

    A mudança política na Câmara de Lisboa, com a saída de Fernando Medina e a entrada de Carlos Moedas, tem efeitos imediatos — e negativos. Em 2022, sem renovação de contratos públicos com a entrada de Carlos Moedas, a facturação da Luís Vargas Unipessoal cai para 19.300 euros, com prejuízos na ordem dos 5.700 euros. Em 2023, a situação agrava-se: apenas 12.160 euros de facturação e prejuízos superiores a 14 mil euros, consumindo resultados transitados dos anos anteriores.

    Evolução das facturação e dos resultados líquidos da Luís Vargas Unipessoal, criada em Março de 2020. Fonte: IES.

    Em 2024, verifica-se uma recuperação parcial — 36.139 euros em prestações de serviços e um lucro de 8.919 euros —, sem que exista qualquer contrato público identificado no Portal BASE.

    Este percurso económico ganha relevo político quando enquadrado no histórico de intervenção pública de Luís Vargas. Desde pelo menos 2013, a sua presença nas redes sociais é marcada por ataques persistentes a políticos da direita.

    Em 2015, foi entrevistado pelo Diário de Notícias, assumindo então que sempre votara no PS e chegando a definir-se como “socrático”, distinguindo — nas suas palavras — a acção governativa das questões do foro pessoal. Nessa altura, mantinha uma parceria com Vasco Mendonça, conhecido pela conta satírica O Azar do Kralj, figura ligada à comunicação política socialista e que, como a Sábado recorda hoje, era contratado pela Câmara de Lisboa desde 2019 e esteve envolvido em campanhas do PS, incluindo a de António Costa.

    a white dice with a black x on it

    Nada disto prova, por si só, qualquer ilegalidade — e muito menos justifica a reacção do primeiro-ministro. Mas levanta, legitimamente, uma questão de interesse público: como é que uma empresa unipessoal, criada em plena pandemia, com capital social simbólico e sem experiência conhecida em contratação pública, vence duas consultas prévias consecutivas numa grande autarquia e perde essas mesmas fontes de receita assim que muda o poder político?

    Esta é uma pergunta que não se resolve com comunicados intimidatórios nem com vitimizações. Resolve-se com transparência — e, sobretudo, com a clarificação das intenções de um Governo que decidiu fazer uma tempestade num copo de água por causa de um simples post satírico.

  • Promiscuidade no Público: até o ‘polícia dos jornalistas’ já se queixa ao regulador dos media

    Promiscuidade no Público: até o ‘polícia dos jornalistas’ já se queixa ao regulador dos media


    O desconforto acumulado em torno das parcerias comerciais no jornalismo português e da crescente permissividade das direcções editoriais no uso de jornalistas para fins promocionais atingiu um limite raramente assumido de forma tão explícita. Pela primeira vez em muitos anos, foi a própria Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ) – o organismo de disciplina dos jornalistas – a apresentar uma queixa formal à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), questionando práticas editoriais de um jornal de referência nacional: o Público.

    A queixa incidiu sobre a revista Solo, uma publicação regular que começou a ser publicada em 2021, integrada no diário do Grupo Sonae, liderado por David Pontes, cuja existência depende de uma parceria com a Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal. Esse apoio, cujo montante nunca foi revelado, não é acessório: condiciona o âmbito territorial, a escolha dos temas, os protagonistas e a lógica editorial de uma edição quase integralmente dedicada à promoção enológica, gastronómica e turística da região.

    Revista começou a ser publicada em 2021 e teve a última edição conhecida em 2024.

    Na participação apresentada à ERC, a CCPJ solicitou que fosse apurado “se o conteúdo nela difundido é exclusivamente noticioso ou assume uma natureza que atribua à referida secção um carácter predominantemente promocional”. Aquilo que estava em causa, desde o início, não aparenta ser um detalhe formal, mas a própria fronteira entre jornalismo e publicidade.

    Na queixa, que analisou apenas a revista de Novembro de 2024, a CCPJ destacou a linguagem apelativa dos textos, a enumeração sistemática de preços, contactos e horários, a ausência de contraditório e, sobretudo, o facto de muitos desses conteúdos serem assinados por jornalistas com carteira profissional, apesar de resultarem de uma relação contratual com uma entidade externa interessada na promoção dos produtos e agentes destacados.

    Na sua deliberação, tomada no passado dia 7, mas revelada esta semana, a ERC analisou cinco peças publicadas online e a totalidade da edição impressa de Novembro de 2024, expondo uma sucessão de casos concretos. Num roteiro gastronómico sobre Almada, por exemplo, foram apresentados estabelecimentos com descrição elogiosa, fotografias, moradas, contactos e preços médios, sem qualquer nota de enquadramento comercial.

    Noutro texto, dedicado a um pudim conventual que, segundo o jornalista João Mestre (C 6382), “vale uma viagem até Coina”, surge a identificação completa da confeitaria, o telefone e até as redes sociais. Em reportagens e provas de vinhos, são listados produtores, referências, valores de mercado e locais de compra, numa lógica indistinguível da promoção comercial.

    Mais grave ainda, a ERC regista que o próprio Público admitiu, em sede de resposta ao regulador, que “poderão ter havido locais (restaurantes, por exemplo) que ofereceram o almoço à equipa de reportagem — uma prática que a redacção da ‘Solo’ não rejeita”. Porém, a direcção do Público terá dito ser ponto assente que, “caso a experiência não esteja à altura do patamar de qualidade”, o jornalista tem então “autonomia para excluir o local em causa da reportagem (e, se necessário, pagar a refeição, para encerrar o assunto de forma a não beliscar a reputação de honestidade da ‘Solo’, do Público e da própria profissão)”. Ou seja, o jornal do Grupo Sonae admite que os seus jornalistas snifam, mas não engolem… se não gostarem.

    Essa admissão contrasta com a ausência total de qualquer referência a essas ofertas nos textos publicados. Nesse aspecto, a ERC assume que sempre que existam refeições, provas, viagens ou outras benesses no âmbito da realização de um trabalho jornalístico, essa informação deve ser “clara e evidente para os públicos”, sob pena de violação das suas próprias directivas e dos princípios da transparência editorial.

    Publico aceitou dinheiro da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal para fazer uma revista usando jornalistas.

    O regulador desmonta ainda a tese central apresentada pelo jornal, segundo a qual a Solo seria uma “publicação puramente editorial, concebida e editada pela redacção com total independência”. Para a ERC, essa afirmação é inconciliável com a existência de uma parceria com uma entidade externa.

    “Não é atendível o argumento de que a produção e publicação destes conteúdos dependem de uma avaliação em que, simultaneamente, coincidem as iniciativas promovidas por terceiros, o interesse jornalístico e o interesse dos leitores”, destaca a deliberação, acrescentando que “na realidade, não é aceitável a instrumentalização do critério noticioso, no sentido de nele residir o fundamento e justificação para essa alegada virtuosa coincidência.”

    No final, reconhecendo que os conteúdos podem ter interesse público, o regulador dos media conclui que a parceria “não se contém em critérios puramente editoriais” e recomenda ao Público que identifique de forma transparente quaisquer ofertas associadas aos trabalhos jornalísticos e respeite escrupulosamente a separação entre jornalismo e publicidade.

    David Pontes, director do Público. Foto: D.R.

    Contudo, o dado politicamente mais relevante permanece, contudo, a origem do processo. Quando é a própria Comissão da Carteira Profissional de Jornalista a pedir a intervenção do regulador do media, o problema deixa de ser um suplemento ou uma região: passa a ser o perímetro da profissão.

    A queixa não resulta de um leitor indignado nem de um concorrente incomodado, mas já de um órgão interno do sistema jornalístico que sinaliza um esgotamento ético. Ou seja, este caso expõe não um almoço, um copo de vinho ou uma prova bem regada, mas sim  a normalização de um modelo em que jornalistas são usados, com a chancela das direcções editoriais, para fretes comerciais disfarçados de reportagem.

  • Pedro Sales Dias, não invoques a desinformação em vão

    Pedro Sales Dias, não invoques a desinformação em vão


    A fronteira entre combater uma ideia política e deslegitimar democraticamente quem a professa tem vindo a esbater-se de forma perigosa no espaço mediático português. É nesse ponto exacto — e não por qualquer complacência com as teses de André Ventura, que rejeito de forma clara, consistente e reiterada — que reside a minha inquietação crescente.

    Votei em António José Seguro. Não por convicção profunda, mas por exclusão. E conto repetir esse voto na segunda volta. Faço-o com lucidez, sem entusiasmo e sem qualquer ilusão redentora. Mas uma coisa é escolher, com maior ou menor convicção pessoal e colectiva; outra, bem diferente, é aceitar que se normalize, no discurso jornalístico e mediático, a ideia de que certas posições são “antidemocráticas” apenas por não se alinharem com uma solução partidária específica, ou que determinados votos carecem de legitimação moral para serem considerados aceitáveis.

    man sitting on chair holding newspaper on fire

    Quando leio ou oiço que só um determinado voto é “legítimo e democrático”, não vejo ali uma defesa da democracia. Vejo o seu empobrecimento conceptual.

    A democracia não é um sacramento administrado por redacções nem um selo de qualidade atribuído por colunistas. É um método imperfeito, rude e muitas vezes desconfortável de convivência política entre cidadãos livres. Todos os votos legalmente expressos são democráticos, mesmo quando nos repugnam, mesmo quando nos assustam, mesmo quando anunciam perigos reais. A tentativa de hierarquizar votos em função da sua utilidade moral é um vício antigo, recorrente e historicamente perigoso.

    Por isso, a leitura de certos textos recentes não me causam apenas discordância política – causa-me alarme. E isto porque constato a facilidade com que parte da opinião pública jornalística passou a considerar aceitável defender posições iliberais em nome de um suposto bem maior: “limpar” o espaço público de vozes consideradas perigosas. Para justificar esse impulso, tornou-se prática corrente colar Ventura a António de Oliveira Salazar, como se a analogia histórica bastasse para suspender princípios elementares do pluralismo democrático.

    a blue typewriter sitting on top of a desk next to a tv

    Esse expediente não é apenas intelectualmente preguiçoso – é politicamente irresponsável, sobretudo se executado por jornalistas, porque acabam por legitimar exactamente as acusações que dizem combater: a de que existe um perigo de, assumindo o Chega ou André Ventura o poder, se criar um ambiente de estigmatização, de ostracismo, de perseguição e de silenciamento de vozes dissonantes.

    Essa deriva torna-se ainda mais inquietante quando parte de quem ocupa posições de autoridade simbólica no próprio ecossistema da verificação dos factos. O trecho que aqui motiva esta reflexão não foi escrito por um comentador marginal nem por um militante exaltado nas redes sociais. Foi escrito por Pedro Sales Dias, jornalista do Público e responsável por uma secção que se apresenta como instrumento de combate à desinformação — a Prova dos Factos.

    Aquilo que ali se lê no seu artigo de opinião, onde expõe depois os trabalhos de identificação de erros e desinformações, é o seguinte, sem paráfrases, sem caricaturas e sem edições convenientes:

    Defender, como Paulo Núncio (CDS), que ‘o único voto legítimo e democrático’ não é apenas no ‘candidato apoiado pelo PS’ é indigno de um deputado de um partido que também foi fundamental na construção da democracia portuguesa. E novamente permite a desinformação de eleitores, o risco de muitos ponderarem votar no candidato radical imaginando-lhe alguma bondade política.

    Este parágrafo, escrito por quem dirige uma secção dedicada ao alegado combate à desinformação, concentra todos os vícios que deveriam ser combatidos por essa mesma função. Desde logo, aceita implicitamente que existem votos mais democráticos do que outros, abrindo a porta a uma hierarquização moral do acto eleitoral. Em segundo lugar, estabelece — sem prova, sem dados, sem demonstração empírica —, num só salto, um nexo causal entre uma declaração política (legítima mesmo se criticável no plano do debate político) e a alegada “desinformação” de eleitores que poderiam, por reacção, votar num “candidato radical” imaginando-lhe “bondade política”.

    Isto não é verificação factual —é um perigoso juízo político conjectural, apresentado com a autoridade retórica de quem ocupa uma tribuna que se arroga o estatuto de árbitro da verdade. E é precisamente isso que torna o episódio alarmante.

    Quando o responsável por uma secção intitulada Prova dos Factos escreve desta forma, a palavra “desinformação” deixa de funcionar como conceito analítico e passa a funcionar como instrumento de intimidação moral. Não se demonstra, invoca-se. Não se prova, sugere-se. Não se explica, adverte-se. O leitor não é esclarecido — é apenas tutelado.

    A palavra desinformação tem vindo a tornar-se o grande passe-partout do nosso tempo: invoca-se para tudo. contra qualquer um, sem rigor, sem parcimónia, sem critério. Talvez por isso devesse ser tratada como um mandamento mosaico: não invocarás a desinformação em vão, pois por cada uso abusivo, se empobrece o conceito e o aproxima perigosamente da censura bem-intencionada.

    A História oferece-nos exemplos abundantes desse caminho. A Inquisição é o caso mais óbvio, mas está longe de ser único. Houve tribunais revolucionários que guilhotinaram em nome da virtude. Houve comités de salvação pública que eliminaram em nome do povo. Houve regimes que começaram por “combater a mentira” e acabaram a proibir perguntas. Em todos esses casos, a convicção era a mesma: mostrava-se ‘fundamental’ calar para salvar.

    O jornalismo não existe para salvar a democracia por decreto — existe para a testar todos os dias, com incómodo, com fricção e com pluralismo real. Quando abdica disso, quando aceita hierarquizar votos, purificar opiniões e santificar candidatos, diabolizando outros, deixa de ser contrapoder para se tornar parte do problema que diz denunciar.

    person standing near table

    Combater André Ventura exige mais democracia, não menos. Exige mais exigência argumentativa, não excomunhões morais. Necessita mais inteligência crítica, não catecismos. Tudo o resto pode aliviar consciências nas redacções, mas empurra eleitores para o ressentimento — e o ressentimento, esse sim, é terreno fértil para os piores radicalismos.

    Enfim, lamento ter de dizer o óbvio: a democracia não se defende amputando-a — defende-se resistindo à tentação de a tornar confortável apenas para quem escreve ou está no poder.

  • A inteligência de Montenegro é insuficiente para entender sátira ou estamos num teste de autoritarismo?

    A inteligência de Montenegro é insuficiente para entender sátira ou estamos num teste de autoritarismo?


    A reacção institucional de Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, à circulação de uma peça satírica nas redes sociais – em que se simula uma apócrifa mensagem do primeiro-ministro português, em inglês, supostamente revelada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – deveria dar vontade para rir, pelo ridículo, mas mostra-se muito grave pela imaturidade política, com claros tiques autoritários, incompatível com um sistema democrático saudável.

    O texto em causa, divulgado por volksvargas – um utilizador anónimo que faz textos satíricos geralmente contra políticos de direita –, não exige descodificação sofisticada nem leitura contextual profunda: denuncia-se a si próprio, desde a primeira linha, pela linguagem que adopta, pelo exagero deliberado e pelo uso consciente de fórmulas que pertencem, sem margem para dúvida razoável, ao campo da sátira política.

    Vejamos o texto que Montenegro considera “desinformação” grave susceptível de ser crime. Logo na abertura, o texto atribuído a Luís Montenegro dirige-se ao presidente norte-americano como “Your excellency, supreme leader and great architect of our modern times” (“Vossa Excelência, líder supremo e grande arquitecto dos nossos tempos”).

    Luís Montenegro a jogar com a democracia.

    Esta expressão não é um deslize estilístico nem um excesso ocasional: “supreme leader” (“líder supremo”) pertence ao léxico da paródia autoritária, associado a cultos de personalidade e regimes totalitários. Alguém com o mínimo de inteligência compreende que o seu uso num contexto supostamente diplomático é intencionalmente grotesco. A sátira não está escondida; está exposta.

    A hipérbole prossegue quando o narrador afirma escrever “still energized by the sheer magnitude of your recent achievements” (“ainda energizado pela pura magnitude dos vossos recentes feitos”). A expressão “sheer magnitude” (“pura magnitude”) não acrescenta informação; acrescenta caricatura. Trata-se de uma inflação retórica deliberada, típica da bajulação vazia, que imita e distorce um certo estilo político reconhecível. A sátira opera aqui por excesso semântico.

    Mais adiante, o texto introduz um deslocamento conceptual que elimina qualquer leitura literal possível: as tarifas norte-americanas – usadas agora por Trump como “mísseis” políticos – são descritas como “a demand for excellence and loyalty” (“uma exigência de excelência e lealdade”). A transformação de políticas comerciais em testes de lealdade pessoal é absurda por definição. Não se trata de um erro factual; trata-se de ironia. A sátira denuncia, por exagero, a personalização extrema do poder e a confusão entre Estado, líder e ego.

    Publicação satírica considerada desinformação por Luís Montenegro e susceptível de apresentação de “queixa nas instâncias adequadas”.

    O ponto de ruptura definitivo surge quando o texto afirma: “we are willing to discuss a vision that would secure American sovereign access to our Azores islands” (“estamos dispostos a discutir uma visão que assegure acesso soberano americano às nossas ilhas dos Açores”). Aqui, a sátira assenta na impossibilidade constitucional absoluta. Não é uma proposta implausível — é uma proposta impossível. A violação explícita da soberania territorial funciona como mecanismo clássico de caricatura: levar uma lógica até ao seu extremo inaceitável para expor o seu absurdo.

    O encerramento — “let Portugal be the exception” (“que Portugal seja a excepção”) — cristaliza o gesto satírico: a fantasia da submissão voluntária apresentada como virtude estratégica. É uma ironia directa sobre a tentação de alinhamento servil, não uma mensagem política disfarçada.

    Perante este quadro linguístico, vermos Luís Montenegro classificar o texto como “desinformação” não é um equívoco inocente – é uma distorção conceptual. A desinformação visa enganar, induzir erro, produzir efeitos reais a partir de falsidades apresentadas como verdade. A sátira visa expor, ridicularizar e criticar através do exagero manifesto. Confundir ambas não protege o espaço público; empobrece-o. E empobrece o conceito que se tem sobre a inteligência de Luís Montenegro. E mais: envergonha pensar que o primeiro-ministro nos acha capazes de pensar que este texto satírico pretendia fazer passar-se por uma carta verdadeira.

    Comunicado do Gabinete do Primeiro-Ministro.

    E é neste ponto que a reacção de Luís Montenegro se torna politicamente reveladora. Um riso ou, vá lá, um desmentido claro e seco teria sido suficiente. Ora, mas não foi isso que sucedeu. A opção por um comunicado solene e pela possível apresentação de uma queixa-crime introduz um elemento novo e inquietante: a judicialização do humor político sob o rótulo elástico da desinformação.

    Mesmo que a queixa não tenha seguimento judicial, o efeito simbólico está produzido. A mensagem implícita é simples: a sátira dirigida ao poder pode ter custos. Trata-se de um efeito de intimidação difusa, agravado pela assimetria de poder entre um cidadão — ou utilizador anónimo — e o aparelho do Estado. Não é necessário condenar para condicionar; basta sinalizar.

    Mais grave ainda é o precedente que Luís Montenegro ensaia – e ensina. Hoje é uma paródia óbvia, fácil de defender. Amanhã poderá ser uma investigação incómoda, uma leitura crítica ou uma ironia menos explícita, igualmente rotulada como “desinformação” por contrariar a narrativa oficial. O mecanismo é o mesmo; apenas muda o grau de desconforto que provoca ao poder.

    Two happy men in a loving, joyful moment, sharing laughter on a sunny day.

    Existe, em todo o caso, uma ironia política incontornável. Um poder confiante distingue caricatura de mentira e segue em frente. Um poder inseguro amplifica o ridículo, legitima-o e transforma uma anedota digital num caso institucional. Ao reagir como reagiu, o primeiro-ministro não protegeu a sua autoridade; expôs a sua fragilidade.

    Combater a desinformação é uma necessidade real numa democracia saturada de ruído e manipulação – mas esse combate exige critério, proporcionalidade e inteligência política. Quando o Estado começa a reagir a expressões como “supreme leader” como se fossem informação factual, o problema já não está na sátira. Está na incapacidade do poder para lidar com o humor e a sátira sem recorrer ao excesso. Ou à normalidade usada geralmente por ditaduras com poderes totalitários. Será esse passo que Montenegro quer tomar?

  • ContraProva ou o rigor como contrapoder

    ContraProva ou o rigor como contrapoder


    ContraProva nasce hoje por uma razão simples e, ao mesmo tempo, exigente: o jornalismo que observa o quotidiano tem obrigação de analisar criticamente os media sem posições corporativistas, assumindo um espaço próprio, autónmo, rigoroso e sistemático.

    Por isso, o ContraProva não é um apêndice, não é um suplemento ocasional, mas um projecto editorial com método, critérios públicos e responsabilidade assumida. O ContraProva foi concebido como um jornal que analisa a imprensa – e não a espuma das redes sociais –, que verifica antes de comentar e que desmonta narrativas quando estas se afastam dos factos, dos números ou da honestidade intelectual. O ContraProva assume que a (re)credibilização do jornalismo como coluna fundamental das democracias passa por exigir mais do jornalismo.

    Vivemos num ecossistema mediático saturado de opinião instantânea, leituras apressadas e consensos fabricados – e também em encontrar nas ‘desvairadas’ redes sociais e na desinformação todos os males do mundo, talvez esquecendo que são externalidades das democracias, e que a simples ‘solução’ de aplicar censura nos aproxima mais das ditaduras do que de democracias maduras. As opiniões ‘desvairadas’ das redes sociais e a desinformação medram porque a imprensa tem falhado em muitas perspectivas.

    Assim, o ContraProva surge precisamente para introduzir fricção onde ela faz falta: na forma como a informação é construída, apresentada e consumida. Aqui não se avaliam intenções nem se disputam alinhamentos ideológicos; analisam-se práticas jornalísticas concretas, escolhas editoriais objectivas e o impacto que estas têm na percepção pública da realidade. O ContraProva não disputa audiências, disputa rigor.

    O funcionamento do ContraProva assentará, nesta fase, numa arquitectura editorial clara, organizada em secções com identidade própria e critérios públicos. O Crivo da Verdade constitui o núcleo central do projecto, dedicado à verificação rigorosa de notícias, dados e afirmações mediáticas, com base em grelhas objectivas e metodologia explícita. O Microscópio analisa linguagem, enquadramentos, títulos, escolhas visuais e subtis mecanismos de condicionamento da percepção do leitor.

    Apanhado na Rede observa as abordagens no espaço mediático. A Acta Diurna regista factos relevantes do dia mediático, criando memória e contexto. O Arquivo Vivo preserva e relaciona episódios passados, revelando padrões, reincidências e contradições ao longo do tempo.

    Aliança das Carteiras escrutina relações económicas, interesses financeiros e dependências estruturais no ecossistema dos media. As Alterações Mediáticas acompanham mudanças editoriais, estratégicas ou societárias no sector. Os Economistas do Diabo dissecam os erros persistentes do jornalismo sempre que se trata de conceitos e dados económicos e financeiros.

    Por fim, o Laus Proba distingue trabalhos que demonstram rigor informativo, clareza factual e honestidade intelectual, sem implicar adesão editorial às conclusões apresentadas. Todas as secções partilham um princípio comum: método explícito, critérios públicos e responsabilidade perante o leitor.

    Uma nota relevante: o ContraProva é um projecto jornalístico irmão do PÁGINA UM – não há forma, nem se quer esconder. Mas não é mais um PÁGINA UM – não será jamais o Página Dois. São projectos jornalísticos complementares e deliberadamente distintos. O PÁGINA UM continuará a ser um jornal de investigação, sustentado exclusivamente pelo apoio individual dos seus leitores — e mais frágil por isso —, focado na produção de informação original com documentos e dados próprios.

    ContraProva actuará num plano diferente: observa, analisa e escrutina o ecossistema mediático. Também por isso, tanto o PÁGINA UM como o ContraProva, possuem uma estrutura societária distinta, embora por mim controlados, adequada à sua função específica. A base empresarial dos dois projectos visa não a distribuição de lucos, mas a transparência de procedimentos legais, designadamente a divulgação de contas e cumprimentos de outras regras.

    A direcção editorial do ContraProva será assegurada por Frederico Duarte Carvalho, jornalista com mais de 30 anos de experiência, percurso sólido e independência reconhecida. Compete-lhe garantir coerência editorial, rigor metodológico e distância crítica. A minha função será sobretudo a de publisher: supervisão estratégica, garantia dos princípios fundadores e salvaguarda da independência editorial.

    Só depois de definidos estes princípios importa esclarecer o modelo de financiamento — não por ser central ao projecto, mas precisamente para que não paire qualquer ambiguidade. Desde a origem, o ContraProva foi pensado com uma separação clara entre financiamento, direcção editorial e método jornalístico. O apoio concedido por Miguel Milhão, a título estritamente individual, é integralmente público, transparente nos montantes, garantindo um pequeno orçamento mensal durante 24 meses.

    Tudo foi formalizado num acordo parassocial disponibilizado de forma voluntária em nome da transparência — e isso é único no espaço mediático nacional —, que consagra de forma explícita a blindagem editorial do ContraProva. Não há participações cruzadas, não há interferência na linha editorial, não há temas proibidos nem conclusões pré-determinadas. O financiamento é declarado; a independência, contratual e editorialmente, está assegurada.

    Este modelo é também, deliberadamente, um modelo de cidadania. Num tempo de radicalização do discurso público e de trincheiras ideológicas, a existência de uma ‘ponte cívica’ entre pessoas com posições diferentes — por vezes profundamente opostas — não deve ser vista como suspeita, mas como um sinal de maturidade democrática.

    A cooperação entre Miguel Milhão e eu demonstra ser possível comungar objectivos — uma melhoria na imprensa — sem exigir alinhamentos e sem diluir divergências, desde que seja para salvaguardar princípios fundamentais como a liberdade de expressão, o primado dos factos e a honestidade intelectual. Num espaço público cada vez mais fragmentado, este projecto afirma assim algo muito simples: o diálogo é possível quando existem regras claras e limites bem definidos.

    ContraProva nasce, portanto, com uma convicção clara: o jornalismo não se defende com slogans nem com fidelidades automáticasDefende-se com método, transparência e responsabilidade. E só fará sentido enquanto cumprir esse desígnio.

    Pedro Almeida Vieira

  • O revisionismo no jornalismo lusitano: o caso da Visão, ou como o Estado agradecerá os donativos

    O revisionismo no jornalismo lusitano: o caso da Visão, ou como o Estado agradecerá os donativos


    No jornalismo não basta invocar palavras nobres — “independência”, “qualidade”, “liberdade” — para que estas recuperem automaticamente o sentido que perderam. Há marcas que se gastam. Há títulos que se tornam resíduos simbólicos. E há redacções que, por acção ou por omissão, atravessam processos históricos decisivos sem jamais prestarem contas do papel que desempenharam. A revista Visão é hoje um desses casos.

    A campanha de angariação de fundos lançada por um grupo de jornalistas da Visão, apresentada como um gesto de resistência cívica e defesa do jornalismo independente, assenta numa premissa falsa e num exercício de amnésia selectiva: a ideia de que a Visão é, ou foi recentemente, um bastião de jornalismo livre, crítico do poder e imune a agendas. Não foi. E não é.

    Na verdade, aquilo que está em curso não é apenas uma recolha de fundos para adquirir um título em leilão da massa insolvente da Trust in News: é um processo de reescrita da história recente. Pretende-se separar artificialmente a marca Visão do jornalismo que efectivamente produziu nos últimos anos, como se a responsabilidade editorial pudesse ser depositada num vácuo metafísico chamado “gestão” ou “contexto”. Não pode.

    A Visão foi o epicentro de uma operação financeira em 2018, nunca devidamente explicada, de alienação do portefólio de revistas da Impresa — que implicou a assumpção de perdas por imparidade de 23,2 milhões de euros por parte do grupo da família Balsemão — para uma empresa com 10 mil euros de capital social, dirigida por Luís Delgado.

    A venda foi anunciada por 10,2 milhões de euros, mas nunca foi cumprido qualquer plano de pagamentos. Tudo evidencia que se tratou de um negócio de fachada para transferir um ‘buraco financeiro’ da Impresa e lesar, mais tarde ou mais cedo, os contribuintes. Só num país de compadrio e sem regulação séria se pode admitir uma transacção desta natureza, ainda mais envolvendo tantos periódicos.

    Visão: um jornalismo que viveu ladeado pelo poder e que agora quer sobreviver através de um revisionismo. Foto: DR.

    Desde cedo, a Trust in News, com a Visão à cabeça, acumulou incumprimentos fiscais e contributivos, opacidade contabilística e um passivo crescente. Um passivo que hoje recai, sobretudo, sobre o Estado — Segurança Social e Autoridade Tributária —, o principal credor da Trust in News, com estatuto prioritário. Tudo isto enquanto a Visão via as vendas descambarem: no terceiro trimestre de 2017 ainda estava acima dos 60 mil exemplares por edição; no final de 2023, último ano com dados auditados, não chegava aos 24 mil. Nos últimos tempos, consta que vende menos de 10 mil.

    É aqui que o discurso moral da campanha dos “12 resistentes” jornalistas da Visão, agregados num grupo auto-denominado “Movimento Imprensa Livre” (MIL), colapsa por completo. O dinheiro que está a ser angariado junto dos leitores para “salvar a Visão” não servirá, na prática, para fazer jornalismo. Servirá, isso sim, para compensar muito parcialmente o Estado pelo buraco deixado por Luís Delgado. E, ainda assim, será uma gota de água num passivo milionário (mais de 30 milhões de euros), é certo, mas suficiente para permitir que a marca continue a circular como se nada tivesse acontecido.

    Portanto, a angariação de fundos que já mobilizou quase cinco mil doadores não visa qualquer investimento editorial; trata-se de uma operação de saneamento simbólico de uma insolvência privada à custa da boa-fé dos leitores. Basicamente, o Estado agradece esse “donativo”.

    Mais: se os jornalistas promotores desta campanha quisessem, de facto, usar os mais de 200 mil euros já angariados para fazer jornalismo “limpo”, independente e sem heranças tóxicas, não precisariam de tentar comprar uma marca já registada e penhorada. Bastava-lhes registar uma nova marca no INPI — um procedimento que custa cerca de 160 euros —, criar uma nova newsmagazine e investir os mais de 200 mil euros de dinheiro já angariado nas primeiras fases da estrutura da redacção.

    Aliás, nomes disponíveis de jornais mortos ao longo de décadas e décadas não faltam. O próprio PÁGINA UM (re)nasceu assim em 2021, registando-se uma marca que já fora utilizada pelo menos duas vezes: primeiro como programa da Rádio Renascença (que chegou a ser suspenso em 1972 pelo Estado Novo) e depois como jornal de extrema-esquerda, criado em 1976 por Carlos Antunes e Isabel do Carmo. Usar um título “penhorado” com o dinheiro de donativos seria, para mim, uma insanidade. Ainda mais se tivesse de pagar 200 mil euros, que representam o orçamento dos primeiros três anos do PÁGINA UM.

    Os jornalistas “resistentes da Visão”, através do MIL, optam assim por tentar gastar 200 mil euros numa marca — Visão —, através de uma operação que nem sequer tem garantias de ser bem-sucedida, por estar em causa um leilão. Preferem comprar uma marca, entregando dinheiro que vai para o Estado, a começar um projecto renovado.

    Luís Delgado e Francisco Pedro Balsemão, presidente-executivo da Impresa, na assinatura do acordo de venda do portefolio tóxico de publicações da Impresa Publishing, que foi celebrado em Janeiro de 2018, aliviando a crise financeira em que se encontrava o grupo dono do Expresso e da SIC. O Novo Banco financiou a operação e também comprou no mesmo ano o edifício-sede à Impresa. / Foto: D.R.

    E é aqui que entro em conflito, porque mais grave do que a degradação financeira da Trust in News foi a degradação editorial da Visão. Aparentemente, os jornalistas do MIL insistem em colocar a Visão como o último dos moicanos do jornalismo pátrio — e isto é já profundamente ofensivo. Durante anos, esta revista tornou-se um exemplo acabado de jornalismo situacionista, particularmente durante o Governo socialista e a pandemia, adoptando uma postura de alinhamento quase militante com o poder político, com as autoridades sanitárias e com a narrativa oficial dominante. Quem questionava, quem investigava, quem pedia documentos, quem exigia contraditório verdadeiro, era tratado como herege, conspiracionista ou irresponsável.

    Sob a direcção de Mafalda Anjos, a Visão não apenas falhou no escrutínio do poder: perseguiu activamente quem ousou fazê-lo fora da cartilha autorizada. E esta jornalista, que saiu do barco quando este estava a naufragar — e tinha especiais responsabilidades porque, como publisher das revistas e directora da Visão durante anos, tinha o direito e a obrigação de conhecer as contas —, chegou mesmo a reputar como “fantasiosas” as investigações do PÁGINA UM que revelaram, em Julho de 2023, o descalabro financeiro da Trust in News. Desqualificou jornalismo sério, enquanto protegia uma estrutura empresarial insustentável, beneficiária de complacência institucional, silêncio regulatório e indulgência política.

    E afinal, os jornalistas da Visão, incluindo muitos do MIL, nem sequer se aperceberam que a marca já estava penhorada pelo Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social desde o ano 2020. Convenhamos que jornalistas que nem sequer sabem bem o que se passa na sua loja não podem dar uma boa visão do que se passa na sua rua quanto mais no mundo.

    Foto: PÁGINA UM

    É esta mesma Visão que agora se apresenta como símbolo de “jornalismo independente”? É esta marca que se quer salvar, como se fosse um património moral da democracia portuguesa?

    Não. Aquilo que está em causa não é salvar jornalismo. É salvar uma marca tóxica, profundamente associada a um período de mau jornalismo, de promiscuidade com o poder, de falência ética e de colapso financeiro que já custou mais de 15 milhões de euros aos contribuintes portugueses. E fazê-lo sem uma única palavra de mea culpa, sem um único balanço crítico, sem uma linha de autocrítica.

    Os jornalistas que hoje angariam mais de 200 mil euros — com uma eficácia notável, diga-se, por via da solidariedade mediática da imprensa tradicional, que de forma corporativista não parou de lançar loas ao MIL — até demonstram que existe capital humano, capacidade de mobilização e apoio público. O PÁGINA UM, de uma forma mais modesta, tem mostrado essa evidência: é um jornal em acesso livre, sem publicidade nem parcerias comerciais, mas que consegue sobreviver e crescer apenas com donativos dos leitores.

    Rui Tavares Guedes, director da Visão, em campanha de angariação de fundos do MIL. O jornalista foi director adjunto da Visão entre Janeiro de 2007 e Setembro de 2016, depois director executivo entre Outubro de 2016 e Dezembro de 2023, e director desde Janeiro de 2024. Atravessou todo o período de descalabro financeiro da Visão, desde os tempos da Impresa, e sobretudo na gerência da Trust in News, sem ver nada,,, talvez porque fechou os olhos.

    Mas é precisamente por isso que a opção tomada pelo MIL é ainda mais grave. Com esse apoio, com essa legitimidade, poderiam criar de raiz uma nova newsmagazine, liberta do peso simbólico da Visão, sem heranças tóxicas, sem pactos implícitos, sem necessidade de limpar o passado.

    Não o fizeram. Preferem gastar dinheiro de donativos (mais de 200 mil euros) e comprar a marca. Apropriar-se da memória selectiva. Fingir que a história começa agora, aproveitando, em todo o caso, um valor de marca. Nesse aspecto, demonstram sobretudo preguiça e falta de coragem.

    Em suma, este editorial não questiona o direito de nenhum jornalista a lutar pelo seu trabalho. Questiona, isso sim, a honestidade intelectual de um discurso que pretende fazer crer que a Visão “não existe sem os seus jornalistas”, quando foram precisamente decisões editoriais tomadas por jornalistas — não por administradores invisíveis — que contribuíram para a perda de credibilidade do título.

    A bustling urban street filled with people walking in the sunlight.

    Acredito que há marcas que não merecem ser salvas. Há nomes que precisam de morrer para que algo melhor possa nascer. Enterrar a Visão enquanto marca seria um acto de higiene democrática, não um atentado ao jornalismo. O jornalismo não vive de títulos históricos nem de nostalgia de bancas. O jornalismo não é fetichismo de logótipos nem nostalgia de bancas — é feito de prática, de ética, de método, de coragem e de ruptura.

    Por isso, se surgisse um mecenas que, em leilão, batesse a proposta do MIL e adquirisse a marca Visão apenas para impedir o seu uso futuro, estaria a prestar um serviço à higiene do espaço mediático português. Talvez então os jornalistas do MIL ganhassem, finalmente, visão. E talvez o dinheiro agora angariado pudesse ser usado para aquilo que realmente importa: em vez de entregar dinheiro ao Estado para tapar um ‘buraco privado’, criar uma newsmagazine nova, exigente, sem culpas herdadas, sem revisionismos, sem necessidade de fingir que nada aconteceu.

  • 8 Unidades de Conta: Os casos (também) julgam os tribunais

    8 Unidades de Conta: Os casos (também) julgam os tribunais


    Disse-me um antigo juiz desembargador, não há muito tempo, uma frase que ficou a ecoar: um tribunal julga um caso, mas um caso também julga um tribunal. Não a disse com cinismo, mas com a gravidade de quem sabe que a Justiça, além de decidir, se expõe; além de aplicar a lei, se dá a ver; além de condenar ou absolver, se revela.

    Essa frase aplica-se, inteiramente, ao julgamento que decorre no Tribunal da Comarca do Porto (também conhecido por Tribunal do Bolhão), onde estou a ser julgado por 31 crimes de difamação – ou seja, por alegado abuso da liberdade de expressão num país democrático (não numa ditadura) – contra Gustavo Carona, um médico que, durante a pandemia, encontrou nos media uma ribalta permanente, sustentada na retórica do medo e da urgência, no alarme contínuo que dividiu cidadãos entre bons e maus, entre responsáveis e irresponsáveis.

    ‘Banco dos réus’ onde me tenho sentado no julgamento no Tribunal do Bolhão.

    Entre as imputações que me são feitas contam-se algumas que dispensariam comentário ou então comentários jocosos – não fosse o facto de serem hoje objecto de acusação criminal: no contexto da pandemia da covid-19, eu critiquei-lhe um mau poema; recorri a alcunhas — Full HD e Braveheart de Leixões — ambas por antonomásia irónica, no registo satírico que a liberdade de expressão protege há séculos; afirmei que o visado não possuía especialidade de Medicina Intensiva —algo que, a 5 de Dezembro de 2025, se mantinha factual, tanto assim que o próprio bastonário o confirmou por oficio — e, por fim, apontei-lhe contradições, omissões e mentiras reiteradas ao longo da pandemia, no exercício de cidadania crítica (de que uso desde os anos 1990) e que, mais tarde, mostrou a genética do PÁGINA UM.

    No início, confesso, surpreendeu-me sobretudo que em 2025 o Ministério Público português ainda subscrevesse uma acusação desta natureza, mais típica de sistemas anti-democráticos do que de uma democracia plena — sobretudo quando o arguido é um jornalista e os factos imputados se inserem no debate público, na crítica e na sátira.

    Hoje, porém, aquilo que mais me surpreende não é já a acusação em si, mas a condução das audiências e, sobretudo, a leitura que delas fez o Tribunal da Relação do Porto, quando, após uma sessão atribulada onde pareceu que valeu tudo para me ser feita um ‘julgamento de carácter’ — e não sobre a matéria factual — me decidi a apresentar um incidente de recusa da juíza deste processo para o Tribunal da Relação do Porto. O acórdão sai ontem, indeferindo o pedido e aplicando-me custas de oito Unidades de Conta (UC), que representarão uma penalidade de 816 euros (102 euros por cada UC).

    Um dos 31 crimes, subscritos pelo Ministério Público, é este: gozar com um mau poema de Gustavo Carona que voluntariamente publicou nas redes sociais.

    Não podendo por lei divulgar ainda esse acórdão por estar apenso ao julgamento em curso — mas será um dia, daí que o título deste editorial —, pode-se dizer, segundo a minha interpretação como jornalista (em causa própria, é certo), que os desembargadores passaram ao lado do essencial, refugiando em fórmulas e desvalorizando aquilo que, felizmente, ficou integralmente gravado e que um dia será conhecido para lá da retórica habitual. Sim, porque uma das grandes vantagens dos julgamentos é a sua gravação para memória futura.

    De facto, quando um tribunal superior considera normal que se peça, antes mesmo de ser iniciada qualquer audiência, uma avaliação prévia das condições de vida de um arguido de ‘folha limpa’— questionando se eu, como jornalista, até se tenho água corrente em casa, como passo os meus tempos livres ou se tenho conflitos com vizinhos —, querendo ignorar que tal diligência apenas está prevista quando há indícios de condenação; quando sanciona com oito UC o simples acto de me insurgir contra desvios processuais; quando normaliza uma condução de audiência que, a meu ver, revela uma quebra grave da aparência de imparcialidade (e quando se puderem revelar as gravações ouvir-se-á isso mesmo); então já não estamos apenas a julgar um caso. Estamos a observar um tribunal a julgar-se a si próprio.

    Depois deste acórdão do Tribunal da Relação do Porto, que em nada se debruça sobre matérias de facto (a questão a dirimir era apenas a imparcialidade da juíza), não escondo já que a minha expectativa quanto a uma absolvição em Portugal é hoje limitada. O episódio do incidente de recusa, que no nosso país é quase sempre indeferido pela Relação (temerosos de se abrirem caixas de Pandora), serviu também como ‘statement’. Digo-o sem dramatismo, mas também sem fingimento. Não se trata de antecipar sentenças nem de clamar perseguições; trata-se somente de reconhecer padrões, atitudes e leituras que, acumuladas, não permitem grande optimismo.

    Gustavo Carona

    Apesar disso, e apesar de ainda restarem audiências nas quais apresentarei testemunhas de defesa, não alimento ilusões convenientes. Poderia optar pela água morna, repetir os lugares-comuns sobre a confiança abstracta na Justiça, vestir a prudência retórica que tantos aconselham. Nunca o farei. Mantenho tudo o que disse sobre Gustavo Carona como verídico e como enquadrado na liberdade de expressão. E continuarei a dizer. E não o faço por bravata, mas por lucidez.

    Os últimos quatro anos — marcados pelo confronto do PÁGINA UM com alguns poderes instituídos e instalados, incluindo até o Conselho Superior da Magistratura (onde se consegui obrigar o seu presidente, simultaneamente presidente do Supremo Tribunal de Justiça, a dar acesso a documentos sob pena de multa — condicionam inevitavelmente a forma como encaro este julgamento.

    A minha esperança — e essa sim muito realista — desloca-se para os recursos a este julgamento no Tribunal do Bolhão e, sobretudo, para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Não por fetichismo internacionalista, mas por experiência empírica: Portugal tem sido, de forma reiterada, condenado e envergonhado pela sua postura relativamente à liberdade de expressão e à liberdade dos jornalistas.

    Um dos casos recentes, envolvendo o antigo embaixador Seixas da Costa, foi curiosamente como epicentro inicial o mesmo Tribunal do Bolhão. Mas só no ano passado, salvo erro, houve quatro ‘reversões’ de sentenças envolvendo liberdade de expressão. Olhar para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos como o sítio mais relevante não se trata de hostilizar a Justiça portuguesa: trata-se apenas de reconhecer que há sistemas que, por hábito, por medo do precedente ou por fechamento corporativo, esvaziam conceitos que deveriam ser estruturantes, como o da liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e a aparência de imparcialidade.

    Este editorial não é, por isso, um apelo à impunidade, nem um ajuste de contas pessoal — é um registo para memória futura. Um lembrete de que a Justiça não se esgota na sentença, nem se protege com multas pedagógicas. Protege-se com transparência, com coragem institucional e com respeito efectivo pelos direitos fundamentais — mesmo quando o arguido incomoda, mesmo quando escreve com ironia, mesmo quando satiriza. Porque é precisamente nesses casos que a democracia se mede.

    Este caso julgará um tribunal. E é o tempo que ditará o veredicto.