
Paulo Vero é homem dos sete ofícios.
©Direitos reservados

Que manhã a de hoje. Ainda mal começou esta radiosa alvorada e já sinto a camisa colar-se ao meu corpo, húmida deste calor que me faz lembrar a minha senhora. Aquela que montou a sua tenda, feita dos melhores retalhos das desordens, no meu peito.
O cheiro das gardénias, orquídeas e magnólias sobe-me pelas narinas e estende-se dentro de mim. Abre-me na cara um sorriso com tal extensão, que quase esqueço que não tenho tabaco e não aperto o corpo dela há vastos meses. Quase esqueço todos os ressentimentos e remorsos.
Memórias que se esforçam por toldar esta alegria furiosa que estilhaça qualquer árido casulo que a descomunalidade do vivido haja tecido.
Não me interessam mais lições, nem nada pretendo extrair dos
pensamentos que insistem em espremer açúcar de canas inquinadas pelo esbanjamento de amplitudes. Basta.
Os meus companheiros ainda dormitam, tirando o vigia de serviço.
Aproveito e subo à árvore mais alta do nosso acampamento para me abandonar na vista da serra mais densa desta minha querida terra. Daqui, avisto incontáveis quilómetros de cordilheiras e colinas, e entrevejo ainda todo o meu passado, repleto da amargura de glórias várias em que, como agora, oleava as armas que levam a pureza ao mundo. Observo todo o rasto imundo de traições e desilusões — não consegue ofuscar a beleza da
errância forjada na contínua guerrilha.
Um dia, descerei esta serra, derrubarei o jugo do regime e será
implantada a ditadura da festa permanente, e eu bailarei com a minha senhorita até o trompete se finar na rouquidão das estrelas.
Nesta noite que agora se abate, estou longe de saber que também eu serei malquerido pela gente da minha pátria. Não mais beberei e rirei com o comandante. Terei as mãos sujas de sangue. O sangue da minha inocência.
Paulo Vero é homem dos sete ofícios.
©Direitos reservados


Paulo Vero é homem dos sete ofícios
Todos os direitos reservados, tanto do texto como da imagem.


***
Paulo Vero é homem dos sete ofícios
Todos os direitos reservados, tanto do texto como da imagem.




Paulo Vero é homem dos sete ofícios
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.