Autor: Frederico Duarte Carvalho

  • Marques Mendes não desiste. Nem Cotrim. Nem Seguro. Desisto eu!

    Marques Mendes não desiste. Nem Cotrim. Nem Seguro. Desisto eu!


    Esta crónica é sobre uma desistência: a do cronista. Desisto de tentar adivinhar quem vai ganhar estas eleições. Se tivesse de ser coerente, diria que o candidato que tem mais hipóteses é António José Seguro, pois foi o único que, até ao momento, esteve numa reunião do Grupo Bilderberg.

    (Sim, foi em 2013, em Inglaterra, quando Seguro era líder do PS e participou no encontro anual, na altura em que os convites ainda eram feitos por Francisco Pinto Balsemão, antes de Durão Barroso ter assumido o cargo no comité director do grupo dos chamados “Donos do Mundo”. O outro convidado português nesse ano calhou ser Paulo Portas, então ministro dos Negócios Estrangeiros do governo liderado por Pedro Passos Coelho).

    António José Seguro. / Foto: D.R.

    Acontece que António Filipe, candidato indicado pelo PCP, também deve saber que Seguro só é de esquerda porque não diz que é de direita e, por isso, garante ao Povo comunista que não vai desistir a favor do candidato apoiado pelo PS. Ele não é como Ângelo Veloso, em 1986, nem Seguro é um Salgado Zenha ou merece que se feche os olhos no momento de colocar a cruz no voto. António Filipe faz isso mesmo com o risco de dormir mal no próximo Domingo, enquanto Seguro também não iria dormir bem se desistisse a favor do candidato do PCP e depois visse que ele não conseguiria ir à segunda volta.

    (Como os candidatos que desistem têm de entregar no Tribunal Constitucional a declaração, reconhecida no notário, até 72 horas antes das eleições – são três dias –, temos de esperar até ao fim de quinta-feira, dia 15, para a oficialização das não-desistências).

    Jorge Pinto, o candidato Livre, bem que avisou no debate da RTP que “no que de mim depender, não será por mim que António José Seguro não será Presidente de Portugal”, sugerindo um acordo à esquerda com PCP, BE e Livre.

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    Catarina Martins, a eurodeputada do BE (e ex-líder), riu-se e disse que Jorge Pinto poderia ter feito um telefonema para si antes de trazer o assunto a público na televisão pública (e Catarina, já agora, é o número que termina em 276 ou 351? Nenhum dos dois? Depois diz qual é, sff).

    Se ninguém à esquerda vai desistir, se Manuel João Vieira só desiste se for eleito, que mais possibilidades temos então no resto da lista? André Pestana e Humberto Correia, por exemplo, poderão desistir? Se sim, então a favor de quem? O primeiro não pode desistir por mais ninguém, pois é contra tudo e todos. O segundo, é por D. Afonso Henriques.

    Seguem-se André Ventura e Henrique Gouveia e Melo. Ora, o líder do Chega não desiste porque assim não poderia depois votar em si. Quanto a Gouveia e Melo, esse não saberia muito bem por quem desistir, pois a sua candidatura é o albergue espanhol, onde há lugar para tudo e todos. Aliás, é a candidatura de quem ainda não desistiu porque não sabe que D. Sebastião já morreu – mesmo que tivesse sobrevivido a Alcácer-Quibir, eu sei.

    André Ventura. / Foto: D.R.

    Sobram dois nomes de ilustres candidatos: Marques Mendes e Cotrim Figueiredo. Os candidatos do PSD e IL. Esses sim, seriam os únicos capazes de desistir um a favor do outro e causar algum impacto na votação de Domingo.

    Marques Mendes, que não parece conseguir separar-se dos anticorpos adquiridos pelos anos em que esteve ao serviço nos negócios da Abreu Advogados – que anuncia lucros como se fosse uma multinacional com negócios de Lisboa a Caracas, Luanda e Washington –, poderia perfeitamente desistir a favor de Cotrim Figueiredo. E, acredito, Cotrim iria à segunda volta e chegaria mesmo a Presidente da República.

    Se fosse ao contrário, e Cotrim desistisse a favor de Marques Mendes, esse acto de sacrifício histórico da direita (onde, até hoje, nas várias eleições presidenciais sempre tivemos desistências à esquerda e nunca à direita), levaria Mendes a ser o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa. Afinal, PSD e IL estão juntos em algumas autarquias. Se foi é, por exemplo, em Lisboa e Porto, porque não em Belém?

    Luís Marques Mendes. / Foto: D.R.

    Só que nenhum deles parece disposto a desistir a favor do outro. E, com isto, desisto eu. Vou votar nulo, pois há ainda três candidatos cujos nomes aparecem no boletim e que são oficialmente nulos, enquanto os outros 11 nomes são todos opções igualmente nulas, embora não reconhecidas oficialmente.

    Aliás, vendo bem, como até sou monárquico, nem sei porque ainda me preocupo pessoalmente com isto de eleições presidenciais. É só mesmo para que a noite do Domingo de eleições tenha alguma emoção na hora de ver o resultado prático desta República, já que nem o Boavista joga e a malta precisa de se divertir com algo para as conversas de café. Ou nas redes sociais. E em crónicas.  

  • O Acordo da Carlota

    O Acordo da Carlota


    Este texto é uma crónica, que é um estilo jornalístico onde o autor é livre de exprimir os seus pensamentos em vez de se limitar a apresentar informação pura ou simplesmente factual. Na crónica pode construir as suas interpretações pessoais, opinar, sugerir uma posição social e até política, pois isso está bem visível perante o leitor.

    Por uma questão de honestidade pessoal, apesar de ser uma crónica, ainda assim o jornalista não deve deturpar factos para apresentar uma ideia que lhe seja conveniente. Na realidade – e aqui falo por mim – as minhas crónicas baseiam-se em perguntas que não consigo encontrar durante o normal trabalho jornalístico de recolha de informação e, perante essa impossibilidade, acabo por partilhar as dúvidas com o leitor anónimo da mesma forma que o faria com um amigo próximo. Pois, nunca se sabe quem está desse lado e poderá até, após ler este texto, acabar por me ajudar a fazer o trabalho jornalístico.

    Henrique Gouveia e Melo, candidato à Presidência da República. / Foto: D.R.

    Uma das minhas mais recentes dúvidas jornalísticas é o Acordo da Carlota. Mas o que é isso do Acordo da Carlota que poucos terão ouvido falar? Na realidade, foi um nome que dei ao episódio público, e devidamente analisado, sobre o almoço que dois candidatos a Presidente da República, Henrique Gouveia e Melo e André Ventura, tiveram em Agosto do ano passado. O local foi a Quinta da Carlota, um complexo turístico de luxo, localizado em Torres Vedras e que é propriedade de Mário Ferreira, o empresário natural de Matosinhos que, entre outros negócios turísticos, é ainda accionista maioritário da TVI/CNN Portugal e financiador da campanha eleitoral de Gouveia e Melo.

    Que dois candidatos à presidência da República se encontrem num almoço privado, organizado por um empresário da Comunicação Social que apoia financeiramente um deles, enfim, o que podemos dizer? Não é proibido. Se o quiserem fazer em privado, longe do olhar dos jornalistas, claro que o podem fazer. Não há lei que os impeça. Que não se saiba publicamente o que foi discutido entre ambos, se acaso chegaram a um entendimento político pessoal, ou descobriram que não precisam de combinar nada e está tudo bem em relação ao papel de cada um na sociedade portuguesa, isso é, com certeza, algo que só eles saberão entre si. Que cada um deseje depois manter privado o teor de certos detalhes da conversa, é perfeitamente normal.

    Notícia publicada na edição de 12 de Setembro de 2025 do jornal Público sobre o almoço entre Gouveia e Melo e André Ventura, líder do Chega e actual candidato à Presidência da República. / Foto: D.R.

    Os jornalistas, perante estes casos, nunca conseguirão ir mais além do que os participantes decidirem divulgar. Aliás, o facto de se ter sabido publicamente que houve esse almoço – que nenhum dos implicados negou –, já é, por si só, uma grande novidade jornalística. E, em abono da verdade, o seu a seu dono, devemos dar o crédito da informação à jornalista Ana Sá Lopes, que a publicou em primeira mão na edição do diário Público de 12 de Setembro passado, cerca de um mês após o encontro. Para além de responder aos requisitos básicos de uma notícia, com a resposta às perguntas básicas de Quem? (Mário Ferreira, Gouveia e Melo e André Ventura); O quê? (almoçaram juntos); Onde? (na Quinta da Carlota); Como? (em privado); Quando? (Agosto, embora sem indicação do dia exacto) e Porquê? (para se conhecerem melhor), o único dado extra foi o facto do nome Carlota ser em honra a uma das filhas de Mário Ferreira –algo que ignorava e, sem ironias, muito me enriqueceu pessoalmente sabê-lo através da leitura do artigo.   

    Se era para ter sido um almoço secreto ou não, não se sabe, mas nestas coisas, por vezes, é sempre difícil manter o segredo. Por exemplo, o autor desta crónica foi o jornalista que, na noite de 19 de Novembro de 2024, recebeu a informação de que o mesmo Henrique Gouveia e Melo, quando ainda era Almirante em funções de chefe Estado-Maior da Armada, iria ter um encontro com o ministro da Defesa, Nuno Melo, num bar em Arroios, e acabou mesmo por os fotografar à entrada, onde mantiveram depois uma conversa que só a ambos disse respeito.

    Foto: PÁGINA UM

    A bem da verdade, há apenas duas maneiras do jornalista poder ter acesso ao conteúdo de conversas deste género sem ser através dos próprios que, entre si, podem muito bem combinar a versão mais conveniente para o público: através de um empregado que tenha ouvido partes da conversa e a relate ao jornalista debaixo da protecção do anonimato, ou uma gravação captada por algum microfone indiscreto, que até poderia ser de um dos convidados.

    Quando questionados pelos jornalistas sobre o teor da conversa, ambos desvalorizaram o encontro e declaram, de uma forma geral, que foi para se conhecerem melhor. E que nada terá sido combinado entre eles. Ora, como jornalista, registo os factos públicos: houve mesmo um almoço, em Agosto, no local em causa, organizado por quem se disse que o fez, onde ambos os convidados negaram depois que qualquer acordo político em relação à corrida presidencial tenha sido estabelecido e, após o encontro, Ventura oficializou a sua candidatura a presidente da República, tornando-se adversário de Gouveia e Melo. Coisa que ainda não era quando foi almoçar.

    No entanto, para efeitos de crónica, digo que tenho a convicção pessoal de que houve mesmo um Acordo da Carlota entre Gouveia e Melo e André Ventura. e justifico com outros factos. Repare-se que, antes daquele almoço, Ventura, como líder do Chega, poderia ter apoiado Henrique Gouveia e Melo e não precisava de ser ele o candidato do seu partido a Presidente da República, podendo dedicar-se ao seu trabalho partidário no Parlamento. Mas, depois do almoço, Ventura decidiu que não iria apoiar o outro comensal. Imagine-se a desilusão de Gouveia e Melo que, assim, perdeu o apoio do líder do segundo maior partido de Portugal.

    André Ventura, candidato à Presidência da República e líder do partido Chega!. / Foto: D.R.

    Se o almoço era para garantir o apoio de Ventura, então aquilo correu mal para o candidato e para o empresário que pagou a conta do almoço – não creio que Mário Ferreira, Gouveia e Melo e Ventura tenham feitos as contas da refeição à moda do Porto para dividirem entre os três.

    Só que, caros leitores, acredito que o Acordo da Carlota foi precisamente esse: não haver um apoio de Ventura a Gouveia e Melo, sendo precisamente esse o único e verdadeiro apoio que Ventura poderia dar. Como assim? Ora – e aqui reside a ironia da coisa –, foi o próprio Ventura que acabou por revelar essa estratégia e que legitima todo o meu pensamento.

    Durante o debate presidencial, na RTP, perante Gouveia e Melo, André Ventura, ao analisar as sondagens que o davam com o vencedor da primeira volta, foi mais longe e acrescentou o que ele achava que iria acontecer depois: “(…) admito, numa segunda volta, possa acontecer o contrário. Entendo que uma maioria se junta à volta de Gouveia e Melo, Marques Mendes, de António José Seguro. (…) Na segunda volta, quem for o adversário, também vai ser curioso ver o que é que alguns partidos vão fazer. Porque, se for Gouveia e Melo, o PSD vai apoiar Gouveia e Melo? Se for Marques Mendes, o Partido Socialista vai apoiar Luís Marques Mendes?”

    Foto: D.R.

    Realmente, imaginemos que, em Agosto, André Ventura oferecia o seu apoio directo a Gouveia e Melo. O que teria acontecido a seguir? Isso faria do militar o candidato da Direita Radical, perdendo os apoios na direita conservadora e até nos socialistas menos inclinados à esquerda. Assim, sem o apoio directo de Ventura, Gouveia e Melo pode continuar a dizer que é o candidato independente e moderado. Não será ele o perigoso extremista, contra o sistema, que iria perder numa segunda volta contra um candidato moderado do PSD ou do PS.

    Agora, meus senhores, digam-me lá se, perante estes factos óbvios e claros do ponto de vista analítico político nacional, estarei errado em pensar que isto não foi discutido de forma natural e óbvia por Ventura e Gouveia e Melo à frente de Mário Ferreira? Posso permitir-me a imaginar que o almoço na Carlota foi precisamente para fazer um acordo em que André Ventura avançaria então como uma “lebre” à extrema da Direita, que ganharia na primeira volta, mas perderia na segunda. Assim, Gouveia e Melo precisa agora de passar à segunda volta, a 18 deste mês, vencendo Marques Mendes e Seguro, para ser depois o Presidente da República, eleito na segunda volta, a 8 de Fevereiro, contra Ventura. E tomará posse a 9 de Março. Algo já combinado desde Agosto passado.

    Esse é, para mim, o Acordo da Carlota. Mas isto é apenas uma crónica, não uma notícia. 

  • Presidenciais: André Ventura e Manuel João Vieira são os ‘vencedores’ nas assinaturas digitais

    Presidenciais: André Ventura e Manuel João Vieira são os ‘vencedores’ nas assinaturas digitais


    Esta foi a primeira vez que, para a angariação das 7.500 assinaturas de proposição para a candidatura a Presidente da República, foi permitido o apoio através do Portal da Candidatura, utilizando a chave móvel. O Página Um perguntou ao Tribunal Constitucional (TC) quantas assinaturas digitais e quantas assinaturas em papel foram entregues por cada um dos 14 candidatos que apresentaram o seu processo. E os números revelam resultados muito interessantes.

    O líder do Chega, André Ventura, foi o candidato que teve o maior número de proposituras digitais. Aliás, Ventura nem sequer precisou de andar literalmente aos papéis, pois só apresentou assinaturas digitais. E foram 14.278, mais 6.778 do que o número mínimo necessário.

    Manuel João Vieira, líder dos Ena Pá 2000, conseguiu pela primeira vez cumprir os requisitos para as Presidenciais graças ás assinaturas digitais.

    Em segundo lugar, e também apenas com recurso ao digital, sem qualquer entrega em papel, ficou o cantor Manuel João Vieira, que, depois de ter tentado ser candidato em eleições anteriores sem nunca ter conseguido o número suficiente de assinaturas em papel, beneficiou agora do processo via chave móvel, obtendo assim um mui honroso segundo lugar nesta “primeira volta virtual”, ao somar 12.521 proposituras — mais 5.021 do que o número mínimo necessário.

    Assim, num cenário em que a certificação digital fosse o filtro principal, Ventura e Vieira seriam aqueles que passariam a uma segunda volta das presidenciais. De um lado, estaria um candidato polémico, líder de um partido político que é o segundo com maior representatividade na Assembleia da República, da direita radical, enquanto do outro teríamos um candidato assumidamente irreverente, alheio ao circuito partidário e frequentemente tratado como figura marginal do sistema.

    Aquilo que ambos têm em comum é o facto de terem sido capazes de criar uma maior mobilização digital, que deixou para trás os candidatos apoiados por partidos ditos “tradicionais”.

    André Ventura, Manuel João Vieira e Cotrim de Figueiredo só recolheram assinaturas digitais.

    Repare-se que, neste campeonato das assinaturas do Portal da Candidatura, o nome que ficou em terceiro lugar foi o de João Cotrim Figueiredo, com 8.916 assinaturas digitais, mais 1.416 do que as necessárias. Mas, recorde-se, o eurodeputado e ex-líder da IL esteve menos tempo com a sua página do Portal da Candidatura activa, já que foi o primeiro a encerrar o processo, ao entregar as assinaturas no TC a 3 de Novembro, bem antes da data limite de 18 de Dezembro.

    Em quarto lugar segue-se o candidato apoiado pelo Livre, Jorge Pinto, com 7.463 assinaturas digitais, tendo o resto sido entregue em papel, praticamente sem invalidações — só foram rejeitadas cinco assinaturas — já que, conforme nos informou o TC, a verificação foi interrompida após atingir o mínimo legal exigido, tendo sido validadas, no total, 7.737 assinaturas.

    Só então, depois destes nomes, surgem os candidatos apoiados pelos partidos com mais experiência nestas lides. Em quinto lugar no digital está o antigo líder do PSD e ex-consultor da sociedade Abreu Advogados, Luís Marques Mendes, que apresentou 4.432 assinaturas digitais, às quais teve de somar 4.917 em papel, perfazendo um total de 9.349 assinaturas. Mas, como 511 foram consideradas inválidas, o número válido baixou para 8.838 proposituras, ainda assim mais 1.338 do que o necessário.

    Cotrim Figueiredo foi o primeiro candidato a fechar o processo de candidatura, recorrendo apenas às assinaturas digitais, que garantia a impossibilidade de serem invalidadas na análise pelo Tribunal Constitucional.

    Em sexto lugar temos a actriz, ex-líder do BE e actual eurodeputada Catarina Martins, que obteve 4.287 assinaturas digitais e 5.149 em papel, num total de 9.436, sendo que só 100 foram consideradas inválidas, o que fez com que tivesse 9.336 assinaturas válidas, mais 1.836 do que precisava.

    O candidato que se diz ser o único candidato de todo o PS, o ex-líder socialista António José Seguro, ficou em sétimo lugar no digital, pois teve 2.954 assinaturas via Portal da Candidatura, apresentando 6.763 em papel, o que fez um total de 9.717 entregues no TC. Mas, note-se, a candidatura socialista foi aquela que teve o maior número de invalidações: foram rejeitadas 893 assinaturas, pelo que o valor final válido foi de 8.824, um excesso de 1.324 em relação às 7.500 necessárias, o que o coloca dentro da mesma fasquia das candidaturas de Catarina Martins e Marques Mendes.

    O outro candidato que diz ter também o apoio do PS e que teve um almoço com o líder do Chega antes deste decidir ser candidato contra ele, o ex-almirante Henrique Gouveia e Melo, apesar de toda a notoriedade pública alcançada na altura em que liderou o processo de vacinação durante a pandemia, recolheu apenas 867 assinaturas digitais, ficando em oitavo lugar neste grupo do digital. Mas, como apresentou 9.599 assinaturas em papel, das quais só 230 foram consideradas inválidas, teve um excesso de 2.703.

    Apesar de ter apresentado 9.717 assinaturas, António José Seguro teve o maior número de ‘apoios’ invalidados (893) pelo Tribunal Constitucional.

    O candidato apoiado pelo PCP, António Filipe, apresentou apenas 642 assinaturas digitais. Os camaradas podem não ser muito versados no digital, mas foram eles que apresentaram o maior número de assinaturas em papel, ao entregarem no TC 12.202, das quais só foram invalidadas 133, fazendo com que, num total final de 12.711 válidas, tenham tido um excesso de 5.211.

    Nos lugares mais baixos da tabela surgem candidatos cuja presença digital é residual ou até inexistente. André Pestana, o professor sindicalista, apresentou 191 assinaturas digitais, às quais juntou 7.740 em papel, com 249 consideradas inválidas, o que fez com que tivesse apenas 183 assinaturas a mais do que o mínimo exigido.

    E, por fim, entre os 11 candidatos considerados válidos pelo TC, está o pintor de Olhão, Humberto Correia, que não apresentou qualquer assinatura digital — esteve, inclusive, ausente do Portal da Candidatura — ao entregar 9.666 assinaturas em papel, das quais 111 foram consideradas inválidas, marcando um excesso de 2.055.

    Humberto Correia, ‘candidato-surpresa’, foi o único que usou apenas assinaturas em papel, prescindindo do Portal da Candidatura.

    Entre os candidatos que vão figurar no boletim de voto, mas que não foram aceites pelo crivo do TC, temos José Cardoso, que recolheu 271 assinaturas digitais e 7.220 em papel, com 226 invalidações, ficando a 235 assinaturas das necessárias. Luís Ricardo Sousa apresentou apenas 156 assinaturas digitais, mais 4.197 em papel, das quais 592 foram inválidas, ficando-lhe a faltar 3.739 assinaturas.

    Por fim, a psicóloga Joana Amaral Dias teve apenas 1.352 assinaturas digitais contabilizadas, tendo o TC esclarecido ao PÁGINA UM que “atento o facto de se ter constatado que apenas algumas declarações se encontravam assinadas, contabilizaram-se apenas as que estavam válidas”.

  • Como Soares e os militares escolheram Ramalho Eanes

    Como Soares e os militares escolheram Ramalho Eanes


    As primeiras eleições Presidenciais em democracia irão cumprir 50 anos em Junho do próximo ano, tendo resultado na eleição do general Ramalho Eanes como o primeiro Presidente da República após o 25 de Abril de 1974. Agora que estamos na iminência de voltar a ter um militar em Belém, convém lembrar como se deu a escolha de Eanes pelos militares e políticos de então.

    Para tal, servimo-nos de fontes públicas relacionadas com alguns dos principais protagonistas. Comecemos com o líder do PS, Mário Soares, que nas entrevistas a Maria João Avillez contou como tratou o assunto durante um almoço com Melo Antunes, Vítor Alves e Vasco Lourenço, no Hotel Rex, – que ainda hoje existe na Rua Castilho. É uma informação que podemos encontrar página 24 do livro “Democracia”, edição Círculo de Leitores, 1996.

    António Ramalho Eanes. / Foto: Presidência da República

    Os convivas do almoço falaram sobre a questão presidencial e, apesar do nome de Soares até ser uma opção, ainda assim o então líder socialista achava que “o País ainda não estava pacificado; as instituições eram débeis; o Partido Comunista – e os seus aliados, civis e militares – detinham ainda um poder forte”.

    Para Soares, não havia dúvidas: o Presidente da República tinha de ser um militar. Quem? Sobre isso, Soares não quis indicar um candidato específico, mas permitiu-se a mencionar aos militares os nomes que o PS estaria disposto a aceitar como os “possíveis”: Costa Brás, Firmino Miguel, Pires Veloso e Ramalho Eanes.

    Soares não diz – nem a jornalista perguntou (ou se perguntou, depois não o escreveu na entrevista) – em que dia terá sido esse encontro. Mas podemos sempre inferir que foi após as primeiras eleições gerais, a 25 de Abril de 1976, aquelas que o PS venceu, embora sem maioria absoluta. E o que nos permite pensar nisso? Por causa daquilo que Soares afirmou a Maria João Avillez quando justificou o primeiro nome, Costa Brás, que era então ministro da Administração Interna e “responsável pelo êxito logístico da realização das primeiras eleições livres”. Portanto, o nome de Costa Brás estava em alta na “bolsa” política após essas eleições.

    Soares disse sobre Firmino Miguel, ministro da Defesa no II Governo Constitucional, que era um militar “com o qual o PS se entendera sempre bem” e, quanto a Pires Veloso, Comandante da Região Militar do Norte, apoiava-o por ser “o nosso principal aliado no Norte, nas lutas contra a ameaça comunista”. Finalmente, Eanes, porque alcançara o seu estatuto público como o militar do 25 de Novembro de 1975 e era então Chefe de Estado-Maior do Exército.

    O que se seguiu após deste almoço pode ser depreendido ao lermos o livro-entrevista de Vasco Lourenço a Maria Manuela Cruzeiro – “Do Interior da Revolução”, Âncora Editora, 2009. Contou o actual presidente da Associação 25 de Abril, na página 483, que não tinha uma opinião positiva em relação a Pires Veloso: “Depois do 25 de Novembro, em que ele se inseriu perfeitamente no Grupo dos Nove, considero que se ligou a forças pouco democráticas, por mais que apregoassem o contrário, enveredando por procedimentos, no Norte do País, francamente reaccionários e anti-25 de Abril”, afirmou.

    É então, na sequência desta crítica a Pires Veloso, que, sem que Maria Manuela Cruzeiro tivesse necessidade de mencionar a entrevista de Maria João Avillez a Soares, Vasco Lourenço contou um “episódio interessante” sobre Pires Veloso. E que episódio era esse? Precisamente como se escolheu o militar que deveria ser candidato a Presidente da República em 1976.

    Conta Vasco Lourenço que, em data não mencionada, teve um encontro, no Forte de S. Julião da Barra, com mais oito membros do Conselho da Revolução, militares do Exército, mandatados para encontrar um candidato a Presidente da República, já que o então Presidente, Costa Gomes, não desejava continuar no cargo que lhe tinha sido entregue após a demissão de Spínola, no 28 de Setembro de 1974 – uma data quase esquecida, essa, a da “Maioria Silenciosa”.

    Relata Vasco Lourenço que, “após alguma discussão, onde não se vislumbrava uma solução”, Pires Veloso deu “um passo em frente” e disponibilizou-se para “se sacrificar”. Vasco Lourenço, que achava Pires Veloso “um homem de mão” do líder do então PPD, Sá Carneiro, sorriu e disse que não era necessário esse “sacrifício”. Votaram então, de braço no ar, em duas hipóteses: Costa Brás ou Ramalho Eanes. Este último, igualmente presente nesse encontro, foi escolhido com sete votos a favor e dois contra. Os votos contra tinham sido de Vasco Lourenço, que queria manter Eanes à frente do Exército, e o outro fora do próprio Eanes.

    Mas Pires Veloso tem uma outra memória de como decorreu a discussão que levou àquela votação. Contou ele na sua autobiografia “Vice-Rei do Norte – Memórias e Revelações”, Âncora, 2008, (pág. 431), que o seu nome na lista de preferência de Mário Soares até era o segundo, atrás de Firmino Miguel e antes de Costa Brás. Eanes era o último da lista. Recorda o Vice-Rei do Norte que foi chamado, com um dia de antecedência, para uma reunião em São Julião da Barra, só com conselheiros do Exército.

    “Quanto perguntei o motivo dessa reunião, foi-me dito que ia ser escolhido quem devia ser o próximo Presidente da República das Forças Armadas, tendo eu exclamado: ‘Que democracia é esta?’ Ninguém me informou de que esta reunião havia sido convocada para dar resposta à proposta do Partido Socialista”, escreveu na sua autobiografia.

    O então Presidente da República e a família no Jardim da Cascata, no Palácio de Belém (c. 1978). / Foto: Presidência da República

    De acordo ainda com as palavras de Pires Veloso, a reunião teve início “com o Melo Antunes a dizer que se tornava necessário escolher o Presidente da República e que, no seu entender, devia usar óculos escuros, ser magro, ter patilhas compridas, ser sério, gostar muito do camuflado”.

    O Vice-Rei do Norte não estava para meias palavras, interrompeu o conselheiro e atirou: “Ó Melo Antunes, diga que o Presidente da República tem de ser o Eanes!” Mas essa tirada não impediu Melo Antunes de prosseguir como se nada tivesse passado, “a bater sempre na mesma tecla, com ares de dominador”, descreveu na sua obra.

    Por volta do meio-dia, Pires Veloso disse que tinha de sair e a reunião foi interrompida. Conta que, à saída, Eanes o abordou dizendo que estavam todos “na mesma barca” e que “um de nós tem de se lixar”, ao que o conselheiro respondeu: “Lixe-se o senhor!”, e foi à sua vida, pois tinha de estar em Cascais às 13h00. A reunião retomou da parte da tarde, com Pires Veloso a recordar o momento como “uma farsa, onde o Melo Antunes ia ditar a sua sentença, não lhe prestei grande atenção, nem me preocupei minimamente com o resultado da votação”.

    Ernesto Melo Antunes, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, fotografado num evento oficial em 1975. Ramalho Eanes afirmou que o ideólogo do Movimento das Forças Armadas de 1974 é “pai da democracia”. / Foto: D.R. 

    Em jeito de conclusão sobre este momento decisivo na escolha do futuro chefe de Estado de Portugal, Pires Veloso ainda acrescentou na autobiografia que “eu também devo ter votado no Eanes, mas nessa altura ainda acreditava nele”, tendo ficado guardado na memória a capacidade de Melo Antunes em “dominar as pessoas, nas reuniões e assembleias”.

    Mas a história não acabou aqui. O que se seguiu é ainda mais revelador dos bastidores políticos na escolha do primeiro candidato vencedor à Presidência da República. Apesar de Vasco Lourenço não mencionar a data da reunião em S. Julião da Barra, o mais certo é esta ter acontecido na noite de terça-feira, 27 de Abril de 1976, pois o que se seguiu está publicado nos jornais da época, embora sem os detalhes que saíram das entrevistas separadas no tempo a Mário Soares e Vasco Lourenço.

    Ainda na voz de Vasco Lourenço, e segundo a sua versão depois da reunião em S. Julião da Barra, Pires Veloso “foi para Cascais, para uma estalagem de um familiar do Tomás Rosa onde estavam reunidos alguns dos militares da Força Aérea. Chegou e informou do que se passara. De imediato telefonaram a alguém do PPD, penso que ao Marcelo Rebelo de Sousa – linda peça! – que contactou o Sá Carneiro”. Pires Veloso, por sua vez, na autobiografia, nunca deu qualquer explicação do que fez nessa noite após a reunião.

    O major-general António Pires Veloso foi uma figura central no 25 de Novembro de 1975.
    / Foto: Arquivos RTP

    Explicou ainda Vasco Lourenço que o líder do PPD foi a correr, de manhã cedo, para a frente das instalações do Estado-Maior do Exército, a Santa Apolónia, onde abordou Eanes à entrada, dizendo-lhe que era o preferido do partido e queria fazer o convite oficial para ser o candidato do PPD a Belém. Assim, o líder do PPD ultrapassou o adversário político socialista, Mário Soares, colocando-se na liderança para a escolha do futuro Chefe de Estado.

    A Imprensa foi também avisada dessa decisão, sendo esta uma jogada política de antecipação que permitia a Sá Carneiro, que ficara em segundo lugar nas eleições realizadas dois dias antes, associar o seu nome, e do partido, ao candidato a Presidente da República que tinha mais hipóteses de ser o vencedor, já que contava com o apoio de uma parte importante dos militares do Conselho da Revolução e do PS.

    “Está mesmo a ver a minha cara, quando cerca das onze horas telefono ao Mário Soares a dar-lhe conhecimento da nossa decisão e ele, pouco satisfeito, me informa que a rádio já anunciara o convite do PPD ao Eanes!”, comentou Vasco Lourenço na entrevista a Maria Manuela Cruzeiro.

    Vasco Lourenço, Capitão de Abril e um dos rostos do Conselho da Revolução. / Foto: Arquivos RTP

    Voltemos a Mário Soares e à entrevista a Maria João Avillez: “Quando os militares me informaram que a preferência entre os quatro militares propostos recaíra no nome de Eanes, reunimos a direcção do PS, na Rua da Emenda, onde se combinou que Salgado Zenha e eu próprio nos encarregaríamos de fazer o convite formal do PS a Eanes, para que se candidatasse às eleições presidenciais”. Soares seria surpreendido com a notícia do apoio de Sá Carneiro, que surgiu “horas depois”, segundo se recordava. Para Soares, a fuga da informação teria ocorrido ainda nessa noite, via Jaime Gama, que teria encontrado “ocasionalmente” Ângelo Correia, a quem disse que Eanes foi o nome escolhido pelo PS.

    A jornalista Maria João Avillez, na entrevista a Soares, chamou a atenção para o facto de que a sua própria versão “não é essa”. Soares adiantou então que “noutra versão, que não posso afirmar como segura, terá sido Rui Vilar que deu a notícia a Marcelo Rebelo de Sousa”, sendo que Soares soube depois do apoio do PPD “pela imprensa da manhã”.

    Há um nome comum que se destaca nestas duas versões, baralhadas nas brumas da memória pelos avós da democracia Soares e Vasco Lourenço e que é Marcelo Rebelo de Sousa, o actual ocupante da cadeira de Belém.

    Marcelo Rebelo de Sousa aos 26 anos, deputado à Assembleia Constituinte. 1975 / Foto: Arquivo Fotográfico da Assembleia da República

    E onde estava Marcelo quando tudo isto aconteceu? Naquela altura não havia telemóveis para mandar mensagem SMS, não havia aplicações como WhatsApp ou Telegram para trocar mensagens privadas a altas horas da noite. Se alguém telefonou para Marcelo desde a taberna de Cascais, será que ligou para sua casa? Ou para a sede do PPD? Para um restaurante? Ou para o Expresso, a sede informal do PPD?

    Uma consulta on-line aos arquivos do jornal Diário de Lisboa permite verificar duas coisas que confirmam factos cruzados nesta história de bastidores: numa pequena informação na primeira página da edição de quarta-feira, 28 de Abril (a publicação era vespertina, saliente-se, ou seja, um jornal colocado à venda depois do meio-dia, com as notícias frescas dessa manhã), podemos ler, debaixo do título “A candidatura de Ramalho Eanes”, que “o apoio do PPD foi confirmado esta manhã ao ‘DL’ depois de anunciado, na madrugada de hoje pela agência ANOP”.

    Manchete do Diário de Lisboa de 28 de Abril de 1976. / Foto: D.R.

    No interior da mesma edição do dia 28 de Abril, na página 5, temos a notícia, de que, “ontem à noite”, na SEDES – Sociedade de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social –, fundada em 1970 por Rui Vilar, tivera lugar um debate para análise dos resultados eleitorais “que contou com a participação de Marcelo Rebelo de Sousa (PPD) e Medeiros Ferreira (PS)”.

    Notícia no Diário de Lisboa de 28 de Abril de 1976. / Foto: D.R.

    E se mais dúvidas houvesse, eis que Marcelo Rebelo de Sousa, em entrevista a Vítor Matos para a biografia de Novembro de 2012, na Esfera dos Livros (pág. 314), confirmou que, depois da sessão na SEDES, perto da sede do Expresso, na Duque de Palmela, cruzou-se com Rui Vilar que lhe contou do fumo branco decisão em S. Julião da Barra. Marcelo ainda pensou ir comer uma sanduíche no restaurante Pabe antes de seguir para a reunião que estava a decorrer na sede do PPD, não longe dali, no cimo da Duque de Loulé. Mas, com ele, estava António Patrício Gouveia que insistiu para que fossem imediatamente informar Sá Carneiro.

    Na Duque de Loulé ainda se discutiam os nomes de outros possíveis candidatos a apoiar, com Pires Veloso e o primeiro-ministro, almirante Pinheiro de Azevedo, como hipóteses. Assim que Sá Carneiro percebe o valor da informação, rapidamente confirma com Pires Veloso através de um telefonema e informa o partido da decisão. Helena Roseta, qual pitonisa, avisa que “ainda se vão arrepender”. E assim aconteceu, o que levou depois Sá Caneiro a ter de apoiar Soares Carneiro em 1980.      

    Portanto, cruzando as memórias de Mário Soares com as de Vasco Lourenço e juntando ainda os factos jornalísticos públicos relativos a Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Vilar – este tinha sido eleito deputado do PS dias antes –, vemos que a história de bastidores mais aproximada da verdade dos factos coloca Mário Soares no almoço, no Hotel Rex, presumivelmente após as eleições de domingo, 25 de Abril de 1976, seguindo-se a reunião dos militares em S. Julião da Barra, na noite de terça-feira, 27, com a informação, ainda nessa noite, a resultar na conversa entre Rui Vilar e Marcelo Rebelo de Sousa e, daí, com Marcelo a ir até à sede do PPD, então na Duque de Loulé, onde estava Sá Carneiro numa reunião pós-eleitoral e, após ser informado, decidiu comunicar aos seus militantes – alguns chorosos – que o candidato do PPD já não seria Pires Veloso, mas tinha de anunciar o apoio do partido a Eanes, com a notícia a ser enviada para a ANOP, nessa mesma noite, a tempo de sair na rádio e nos jornais vespertinos de quarta-feira, 28, levando Soares a ser ultrapassado pelo timing político de Sá Carneiro.

    Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    Quem se mostrou bastante crítico desta manobra tácita de Sá Carneiro e achava que o apoio do PPD a Eanes era um “beijo de morte” ao candidato foi a embaixada dos EUA em Lisboa, onde estava Frank Carlucci, futuro director-adjunto da CIA. Num telegrama diplomático norte-americano, datado de 29 de Abril, podemos ler que a embaixada em Lisboa era da opinião de que “o apoio do PPD a Eanes vai prejudicar mais do que ajudar. Uma vez mais, o PPD reagiu de forma apressada e agressiva face a uma situação que percebeu ser ameaçadora”.

    Excerto de um telegrama diplomático norte-americano de 29 de Abril de 1976.

    E a embaixada liderada por Carlucci sabia bem do que falava, pois o anúncio de Sá Carneiro adiou a decisão do PS que, finalmente, acabaria por dar o seu apoio público a Eanes apenas a 10 de Maio, quatro dias antes do general ter feito o anúncio público a sua candidatura à Presidência da República.

    E, como no final dos filmes, aqui fica um resumo do que aconteceu aos principais protagonistas nos anos seguintes:

    Eanes foi eleito, a 27 de Junho de 1976, como o primeiro Presidente da República após o 25 de Abril, com o apoio do PS, PPD e CDS. Seria reeleito a 7 de Dezembro de 1980, mas sem o apoio do então líder do PPD/PSD e primeiro-ministro, Sá Carneiro, morto em Camarate três dias antes.

    O então Presidente da República, António Ramalho Eanes, dando posse ao VI Governo Constitucional, liderado por Francisco Sá Carneiro; a assinar, o ministro das Finanças, Aníbal Cavaco Silva, que viria a ser eleito Presidente da República em 2006. (3 de Janeiro de 1980) / Foto: D.R. / Presidência da República

    Mário Soares foi o primeiro Presidente da República civil após o 25 de Abril após ter vencido as eleições de 1986 contra o ex-líder do CDS, Freitas do Amaral, sendo reeleito em 1991. Perdeu uma terceira eleição em 2006 contra o ex-primeiro-ministro do PSD, e ex-ministro das Finanças do governo de Sá Carneiro, Cavaco Silva, que assim sucedeu ao ex-líder do PS, Jorge Sampaio, e foi reeleito em 2011.

    Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente da República em 2016 e reeleito em 2021.

    No início de 2026, 50 anos depois da eleição de Ramalho Eanes, Portugal está na iminência eleger um segundo militar como Presidente da República após o 25 de Novembro, caso não encontre soluções nas hipóteses civis.        

  • Como falar de Camarate à mesa de Natal

    Como falar de Camarate à mesa de Natal


    Já se passaram 45 anos e continua-se a discutir se Camarate foi atentado ou acidente. O assunto pode vir à tona durante o Natal em família, tanto mais que vamos ter eleições presidenciais, algo que também estava no plano político de 1980. Por isso, aqui ficam algumas dicas sobre como pode ser abordado o assunto de Camarate de modo a evitar estragar a harmonia sempre tão necessária nesta festa da família.

    Placa em memória das vítimas do atentado que tirou a vida ao então primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, instalada junto ao local onde se deu a tragédia, em Camarate. / Foto: D.R.

    1 – Diga que foi acidente

    Ainda há dias, numa entrevista na rádio da rua João Saraiva, o candidato a candidato à Presidência da República, — o “não sou maçon” — Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo, disse de forma muito enfática e sem espaço para dúvidas que Camarate foi “acidente”. Como não creio que o ex-militar tenha sido testemunha ocular do acidente, deduzo que estivesse apenas a produzir uma opinião pessoal.

    É bem mais seguro dizer que Camarate foi acidente do que atentado. O acidente encerra logo ali o assunto, pelo que podemos seguir em frente na vida, sem mais questões. Esta opinião é até aquela que mais agrada a jornalistas, pois não têm depois de fazer perguntas que podem ser incómodas. Agrada igualmente a juízes, investigadores judiciais e a outros ligados à área, que assim podem dar o assunto por encerrado e não se fala mais nisso. E agrada ainda a certos meios políticos, já que não abre caminhos para se ir mexer em assuntos delicados e que não interessam nada aos seus interesses.

    O recém-falecido ex-primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão, por exemplo, era adepto do acidente e, no caso dele, sabemos bem que também não podia ter sido testemunha ocular, pois há testemunhas de que estava no Porto, no aeroporto de Pedras Rubras, à espera da chegada de Francisco Sá Carneiro para o comício extra que iria ter lugar no Coliseu da Rua Passos Manuel.

    Foto: D.R.

    Por isso, se não quiser arranjar problemas na conversa da família, diga que Camarate foi um infeliz acidente, que o avião estava podre, os pilotos andavam cansados e, sobretudo, não havia maneira de saber se Sá Carneiro iria estar ou não naquele avião, mas que, à última da hora, Sá Carneiro mudou para o aparelho podre. Ah! E ainda havia o avião da TAP, para onde ele tinha reservas.

    Por isso, acidente. Sem sombra de dúvidas. É bem mais seguro e evita chatices.

    2 – Diga que ainda não está bem esclarecido

    Se é daqueles que, por uma questão intelectual, não pode ficar calado e não consegue dizer que foi acidente, pois parece que é uma posição simples e de alguém que está mal informado, é então obrigado a dizer que foi atentado. Sabe que o acidente nunca foi verdadeiramente explicado e, um avião, mesmo podre, não cai assim. Que a falha de um motor até pode ser compensada pelos pilotos — por muito cansados que estivessem.

    E como seguiu a polémica, leu os livros do Cid, sabe ainda que havia um segundo avião, aquele que Balsemão pediu ao dono da RAR, o empresário João Macedo e Silva, e em melhores condições. Também esteve atento às inúmeras comissões de inquérito, pelo que pode sempre dizer mal do exagerado número de comissões — foram 10, mas metade delas foram a continuação da outra, após terem sido interrompidas pelo fim das legislaturas até serem retomadas na seguinte. Esta é também uma maneira segura de mostrar que até se interessou pelo assunto e procurou informar-se melhor sobre o caso. Que não tem uma opinião ligeira.

    Foto: D.R.

    Pode sempre demostrar alguma superioridade perante aqueles que dizem ter sido acidente, dando a entender que até sabe mais sobre o assunto.  Mas, como não quer ser visto muito deslocado do resto da família e convém não ser desagradável em relação aos que estão sentados na confortável ideia do acidente, o melhor a fazer é dizer que, mesmo sendo atentado, ainda existe muita confusão. Embora pense que o atentado é algo plausível, ainda assim não sabe explicar muito bem como foi e, por isso, seria melhor haver mais uma comissão, mas o problema dessa confusão toda é precisamente por ter havido já muitas comissões, pelo que não faz sentido haver mais outra, mas lá que seria necessário, lá isso seria.

    Uma posição informada, segura e que não ofende ou coloca em perigo a convicção daqueles que vivem tranquilamente na segurança do acidente. 

    3 – Diga que foi atentado, mas o alvo era o Adelino

    Este já está um nível mais acima, mas ainda assim dentro daquele conforto que também não cria perigos e não provoca choques sociais. Está apenas ao alcance de um grupo de pessoas muito específicas. Ainda há dias ouvi, por exemplo, o antigo grão-mestre da maçonaria regular, José Manuel Anes, a justificar as acusações da sua filha nas redes sociais — onde ele era acusado de ter feito a bomba de Camarate —, a dizer que as palavras da filha não faziam qualquer sentido, pois ele investigou o caso e concluiu que houve uma bomba. E que até foi ameaçado de vida — por quem? Não disse.

    Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    Manuel Anes, que na altura dos factos era funcionário do laboratório científico da PJ desde 1978, é uma daquelas pessoas, que ao contrário do Henrique Melo, não pode dizer que foi acidente. Mas como também não pode parecer ter dúvidas quanto a ter sido um atentado, acrescentou à jornalista Tânia que o atentado foi contra Adelino Amaro da Costa e não contra Francisco Sá Carneiro. E a jornalista nem tugiu nem mugiu.

    Esta opinião foi aquela que Conceição Monteiro, a secretária de Sá Carneiro e principal testemunha do que se passou durante aquele dia, começou a propalar quando se viu perante as evidências de um atentado, confirmado depois por Manuel Anes. Disse a senhora que, como não havia tempo para preparar um atentado contra Sá Carneiro, o alvo seria o ministro da Defesa, Amaro da Costa.

    Como se a morte de um ministro fosse algo que se pudesse varrer depois para baixo do tapete e não merecesse uma investigação cabal. Mas, como o mais importante é retirar o nome de Sá Carneiro desta equação, para evitar uma investigação mais aprofundada, esta posição é aquela que deve ser usada por aqueles que não têm mesmo hipóteses de negar o atentado e que, tal como Anes, não podem discutir as conclusões oficiais das últimas comissões de inquérito e não podem parecer ter dúvidas.

    Adelino Amaro da Costa na tomada de posse como ministro da Defesa do Executivo liderado por Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    Dizer que foi para o Adelino é uma boa maneira de dizer que foi atentado, mas depois arrumar o assunto sem ter de dar muitas mais explicações.

    4 – Sobretudo, nunca diga estes factos:

    Sá Carneiro estava no avião que caiu em Camarate porque era o único táxi-aéreo disponível no País depois de, uma semana antes, a 26 de Novembro, os aviões da campanha presidencial de Soares Carneiro terem sido apreendidos pela Guarda Fiscal no aeródromo de Tires. Essa apreensão, levada a cabo por uma autoridade que dependia do ministro das Finanças, Cavaco Silva, tem de ser considerada como parte do plano e demonstra que, ao contrário do que dizia Conceição Monteiro, houve mesmo tempo para preparar um atentado contra o primeiro-ministro Sá Carneiro.

    Sá Carneiro nunca teria tido necessidade de ir ao Porto de avião se não lhe tivessem marcado um comício extra no Coliseu do Porto, facto de que foi informado a 1 de Dezembro, quando estava em Évora. De acordo com a agenda há muito feita, o comício onde ele deveria ter ido era o de Setúbal e não no Porto. O comício do Porto fora no dia anterior.

    Foto: D.R.

    Havia um segundo avião privado, mas Sá Carneiro nunca foi informado da existência desse aparelho. Esse era o avião privado da RAR que Balsemão garantiu que iria haver e que, depois, a sua prima, a secretária Conceição Monteiro, desmarcou após o encontro de Sá Carneiro e Amaro da Costa à hora do almoço.

    Sim, havia reservas no voo comercial da TAP, mas isso era apenas uma medida de último recurso caso o avião privado não fosse autorizado a descolar devido ao mau tempo. Também havia, dentro da mesma linha de pensamento, reservas para o comboio. Aliás, o avião privado foi solicitado para levar Sá Carneiro de volta para Lisboa após o comício e permitir cumprir a agenda de primeiro-ministro na manhã do dia seguinte. E não havia avião da TAP para fazer esse regresso após o comício.

    Quem insistiu na ideia do avião da TAP como uma mudança de última hora, ampliando as dúvidas em relação a um acidente e não a um atentado, foi o então director-interino do semanário Expresso, Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República.      

    Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    A morte ocorreu numa altura em que Sá Carneiro andava a ameaçar fazer um ajuste de contas com os traidores no seu partido, andava a extremar a luta presidencial contra o general Ramalho Eanes e colocava em perigo a estabilidade democrática de Portugal, recusando um futuro bloco central com o PS de Mário Soares.

    No campo internacional também coincidiu com o negócio de tráfico de armas para o Irão e que levara à derrota, um mês antes, do presidente norte-americano, Jimmy Carter, perante Ronald Reagan e George Bush. As ligações à CIA ainda estão por esclarecer, mas estão lá, pois Bush tinha sido chefe da CIA e o chefe da sua campanha presidencial, e principal mentor do negócio de tráfico de armas ilegal para o Irão no sentido de atrasar a libertação dos reféns norte-americanos em Teerão, William Casey, foi depois nomeado chefe da CIA. Na altura da morte de Sá Carneiro, o número dois da CIA era o ex-embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Frank Carlucci, uma pessoa que não tivera boas relações pessoais com o primeiro-ministro durante a sua permanência no nosso País.

    De resto, bom jantar em família!

  • 25 de Novembro: E que tal uma nova Revolução?

    25 de Novembro: E que tal uma nova Revolução?


    Os nossos vizinhos espanhóis evocaram há dias os 50 anos do 20-N, que lhes corresponde ao dia 20 de Novembro, data da morte do ditador Francisco Franco. Esta forma abreviada, ao colocaram o número do dia seguido pela primeira letra do mês, é uma maneira assaz interessante que os habitantes do outro lado da fronteira desta nossa Península Ibérica têm para evocar os seus acontecimentos históricos recentes. Por cá, não é comum escrever 28-M, 25-A, 28-S, 11-M, 25-N, ou 4-D.

    Costuma-se dizer que Portugal e Espanha são dois países separados pela mesma História. E a expressão nunca esteve tão perto da verdade. Reconhecemos que temos um certo desconhecimento da História de cada um, muitas vezes partilhada em factos paralelos, mas frequentemente ignorada nas suas leituras comuns.

    Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República, e José Pedro Aguiar-Branco, presidente da Assembleia da República, na Sessão Solene Evocativa dos 50 anos do 25 de novembro de 1975 que decorreu hoje. /Foto: D.R.

    De vez em quando, procuro colmatar esse desconhecimento e, há dias, acabei de ler uma banda desenhada vinda de Espanha, “La Caja de Pandora”, de Angel de la Calle. É um romance gráfico, que recomendo a quem aprecia o género (e sugiro, a quem consegue ler em espanhol, como um bom exemplo para quem ainda não descobriu a força impactante desta forma de arte literária e gráfica). O autor faz um passeio introspectivo e semi-biográfico pelos anos da transição espanhola da ditadura para a democracia (1975-1978). Um período semelhante aos nossos primeiros anos pós 25-A.

    Em mensagem pessoal que enviei para Angel de la Calle, a agradecer a oportunidade, qualidade e importância da produção desta obra, mencionei uma frase que cito de memória, onde o próprio rei Juan Carlos terá dito ao seu amigo do Estoril, o nosso recém-falecido ex-primeiro-ministro, Pinto Balsemão: “Em Portugal, houve uma Revolução. Em Espanha, morreu um homem”. Se o rei nunca disse esta frase, não é essa a questão, pois digo-a eu na mesma por a achar verdadeira. Nela, resume-se uma diferença, mas não esconde o que se seguiu depois nos dois países até, pelo menos, 1985, ano em que Portugal e Espanha assinaram, no mesmo dia, a entrada na CEE. Portugal, de manhã. Espanha, depois do almoço.

    O Angel, na resposta à minha mensagem, disse-me que, em Portugal, tivemos mais sorte, pois a nossa revolução foi pacífica. E numa entrevista que deu a um canal de televisão espanhol, relatou que, em Portugal, no 25-A, só morreu uma pessoa e foi porque seria atropelada por um camião militar numa manobra de marcha-atrás. Quero acreditar que essa afirmação era uma alegoria, pois temos de incluir as vítimas dos tiros da PIDE e contar ainda com os anos bombistas que se seguiram e a Guerra Civil nos territórios ultramarinos portugueses que tiveram de ficar independentes.

    Sessão Solene Evocativa dos 50 anos do 25 de novembro de 1975. / Foto: D.R.

    A Espanha não fez uma descolonização em apenas um ano após o dia em que o carro militar fez marcha-atrás. Nem teve de integrar, em dias, meio milhão de retornados. Tivemos um PREC, que acabou no 25-N e, dez anos depois, lá entramos, Portugal e Espanha, na CEE. Após os sacrifícios que fizemos a nível económico, ao dar um sinal de unidade europeia, sem ditaduras, com a “Democracia”, foi dado um sinal a Moscovo que a Alemanha tinha de ser unida. E isso aconteceu quatro anos depois, em 1989, ao cair o muro. A própria URSS caiu em 1991 e foi criado o Euro, onde os países da Península Ibérica, apesar de não termos um sistema económico forte, ainda assim tivemos de entrar para dar mais um sinal de unidade europeia.

    Até que, juntamente com outros países do sul da Europa que ajudaram ao fortalecimento do centro da Europa – Irlanda, Itália e Grécia –, puseram-nos no clube dos PIIGS. Os porcos da Europa. Obrigadinho, Europa comunitária e solidária. De nada. Afinal, para quê queixar-nos se até temos uma representação do PCP no antigo Hotel Vitória – imóvel de interesse público, arquitectura de 1934, de Cassiano Branco –, situado na luxuosa Avenida da Liberdade, ao lado de lojas de luxo? Podemos sempre ir exorcizar os nossos sentimentos de Liberdade com desfiles de 25-A nessa avenida da alegada liberdade e depois ir fazer compras – os que podem, claro – nas lojas bem recheadas de produtos que a liberdade do mercado e das condições laborais permite existirem. 

    Agora que estamos a evocar os 50 anos do 25-N, aquela madrugada que muitos esperavam, o tal dia inicial, inteiro e limpo de 1975 (E então? Acaso, não são assim todos os dias para aqueles que gostam de os viver sem se cansar?), convém lembrar que nenhuma comemoração estaria completa sem a menção de dois nomes que muito contribuíram para o sucesso da estabilização da Democracia em Portugal: Frank Carlucci e Henry Kissinger.

    Frank Carlucci, na altura embaixador dos Estados Unidos em Portugal, na sua chegada ao aeroporto de Lisboa em meados de Janeiro de 1975.  A sua primeira conferência de imprensa foi em português, algo inédito para um diplomata norte-americano. / Foto: Embaixada dos Estados Unidos

    O primeiro até tem um azulejo com o seu nome – diz “Casa Carlucci” – na fachada da residência do embaixador dos Estados Unidos na Rua do Sacramento à Lapa. Era aí que costumava reunir-se com o líder do PS, Mário Soares, a conspirarem, na lavandaria do palacete – era onde havia menos hipóteses de serem escutados. Os serviços de Carlucci em prol da Democracia do 25-N foram depois recompensados com um emprego em Langley, nos Estados Unidos, como director-adjunto da CIA. A mesma CIA à qual ele sempre negou pertencer enquanto esteve em Lisboa – e é verdade que não perten…cia, mas depois de ter adquirido experiência no terreno, passou a pertencer.

    Quanto a Henry Kissinger, por sua vez, teve o mérito de confiar no julgamento de Carlucci, adiando a ideia de que Portugal estava perdido para uma Democracia previsível e obediente ao interesse norte-americano, e que até poderia funcionar como “vacina” ao ser a Cuba da Europa.

    Bem revelador da importância de Kissinger para o 25-N e o sistema de partidos que temos hoje em vigor, é a declaração de Melo Antunes, então ministro dos Negócios Estrangeiros, que num encontro com Frank Carlucci, duas semanas após o 25-N, quando o embaixador lhe perguntou o que teria acontecido se os comunistas tivessem vindo para a rua, Melo Antunes disse que havia uma coisa na sua mente: “A oferta da ajuda de Kissinger”. Isto data de 5 de Dezembro de 1975 e, para que não haja dúvidas, está aqui uma cópia certificada. Se não está ainda numa exposição sobre esta data, aqui fica a referência da mesma para que sejam incluídas nas comemorações oficiais: https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1969-76ve15p2/d169

    Henry Kissinger (ao centro), em Paris, em 28 de Setembro de 1970. / Foto: D.R.

    Daqui a dias teremos ainda os 45 anos do 4 de Dezembro, a data do assassinato de Sá Carneiro – sim, porque já se concluiu na Assembleia da República que a explicação mais lógica para a queda do avião teria sido devido à deflagração de um engenho explosivo a bordo. Mas, nestes 45 anos, iremos continuar a ouvir que foi acidente, pois isso é mais tranquilizador para as mentes que não querem investigar o móbil do atentado. Talvez daqui a cinco anos se saiba mais.

    E, finalmente, daqui a seis meses, vamos celebrar os 100 anos do 28 de Maio, outro momento em que os militares agiram com a intenção de salvar o país do caos e da ruína. Teremos, portanto, com a força da democracia, encarar uma data em que o chefe dos militares portugueses de há 100 anos, Gomes da Costa, dizia aos jornalistas de há 100 anos coisas como estas (Entrevista a Gomes da Costa, Diário de Lisboa, 3 de junho de 1926):

    “Fazer uma revolução nacional desta força e significação para nos instalarmos no Terreiro do Paço a fumar charutos tranquilamente também não pode ser”.

    Edição do Diário de Lisboa, 3 de junho de 1926.

    “A imprensa é útil, é uma força nacional. Tem liberdade para dizer o que pensa. Não abafaremos o pensamento de ninguém. Também acreditamos que ninguém desvirtuará as nossas intenções. Sou militar. Falo a linguagem da verdade. O país estava cansado dos políticos que nos arrastaram para a miséria que aí estava”.

    “Se é ditadura meter o país nos eixos, sim, ditadores somos. Mas nunca uma ditadura no conceito antigo, suprimindo liberdades, perseguindo e vexando. De porcarias estávamos nós fartos. Liberdade bem distribuída, justiça para todos, saneamento das finanças e dos serviços públicos – eis a nossa ditadura”.

    O general Gomes da Costa. / Foto: D.R.

    No livro de Angel de la Calle, numa conversa em Cuba, uma amiga sua pergunta-lhe: “Em Espanha, têm Rei?” Sim, há rei, responde o autor. “E Guardia Civil?” Sim, há Guardia Civil. E concluiu a amiga: “Então de que transição estás a falar”? Poderíamos fazer o mesmo exercício sobre Portugal: Em Portugal, existe um Presidente da República e um primeiro-ministro? Sim. E GNR? Sim. Então de que revolução estamos a falar?

    Os democratas de hoje, em Portugal e Espanha, sabem que, no tempo das ditaduras de Salazar e Franco, os Estados Unidos e União Europeia não tinham tanto poder sobre as decisões internas da “democracia orgânica” de cada nação ibérica. Se houve depois uma transição em ambos países, essa foi para entregar o poder de Lisboa e Madrid aos bons servos dos poderes de Washington e Bruxelas.

    Feliz dia!

  • Eu e Balsemão em cinco momentos

    Eu e Balsemão em cinco momentos


    Agora que já tudo foi dito e redito sobre a vida de Francisco Pinto Balsemão, o jornalista Frederico Duarte Carvalho deixa aqui o testemunho de cinco momentos-chave da sua vida profissional em que se cruzaram directa e indirectamente e que acabam por constituir um retrato de um País.   

    Momento nº 1

    Dia 6 de Outubro de 1992. Estava de passagem em Lisboa, vindo do Algarve, onde tinha ido assistir ao concerto da Samantha Fox na discoteca Kiss, como jornalista estagiário de “O Primeiro de Janeiro” – ao mesmo tempo que frequentava a Escola Superior de Jornalismo do Porto – e resolvi ir com o Rui Arala Chaves fazer a reportagem sobre o primeiro dia da SIC. Vi Balsemão pela primeira vez, mas não falei com ele. Testemunhei o início histórico do primeiro dia da televisão privada em Portugal e escrevi depois um texto para “O Primeiro de Janeiro”.

    Momento nº 2

    Pouco tempo depois do lançamento da SIC – não consigo precisar quando, Balsemão foi ao Porto fazer uma apresentação sobre o Expresso e fui ao hotel onde decorria a sessão. Tinha na minha mente duas perguntas para lhe fazer: “Pode um jornalista ser candidato a Presidente da República” e a outra era saber onde iria ser a delegação da SIC no Porto.

    Balsemão sorriu com a pergunta sobre o Presidente da República, pois considerou que era a pensar na hipótese de ser ele próprio o candidato, quando, na realidade, era eu a pensar na sempre eterna questão da isenção dos jornalistas. Quanto à localização da delegação, fiquei a saber que era no Edifício Capitólio, na Avenida da França, e que até nem era longe de minha casa. Mais tarde, fui perguntar ao delegado da SIC, José Manuel Lemos, se podia fazer um estágio.

    Fiquei um mês até que me mandaram embora. Foi o suficiente para aprender como funciona o jornalismo televisivo e ficar amigo do Mário Augusto e do Alberto Serra.

    Captura a partir de vídeo da SIC

    Momento nº 3

    Junho de 2010. Estou em Sitges, nos arredores de Barcelona, para assistir à reunião de Bilderberg. Pelo menos, até onde os jornalistas são autorizados a ir, fora do hotel e para lá do cordão policial. Balsemão convidou Paulo Rangel, então eurodeputado do PSD e o ministro das Finanças do governo socialista de José Sócrates, Fernando Teixeira do Santos. Será este último que, meses depois, em Abril de 2011, manda chamar a “Troika” à revelia do primeiro-ministro que, por sua vez, também fora um convidado de Balsemão para uma reunião de Bilderberg, em 2004, meses antes da sua ascensão ao cargo em S. Bento. 

    Momento nº 4

    Março de 2011. Vou entrevistar Francisco Pinto Balsemão no seu palacete na Lapa, na Rua Ribeiro Sanches, para o meu livro sobre Camarate. Recebe-me com simpatia e temos uma conversa agradável, apesar da delicadeza do tema. Confirma-me aquilo que já era conhecido: estava no Porto desde quarta-feira, dia 3 de Dezembro de 1980, véspera da tragédia.

    Coordenou com a direcção de campanha para que o empresário da RAR, João Macedo e Silva, emprestasse o avião Cessna da empresa e, no dia seguinte, levassem o primeiro-ministro Sá Carneiro de Lisboa ao Porto e, depois do comício extra no Coliseu, garantisse o regresso a Lisboa, de modo que o primeiro-ministro cumprisse a sua agenda oficial na sexta-feira. Estava no aeroporto à espera da chegada de Sá Carneiro quando soube da notícia da tragédia e arranjou um avião privado que o levou imediatamente para Lisboa. Sorriu quando disse que processou Augusto Cid pelas insinuações de que estava dentro de um plano para matar Sá Carneiro, nomeadamente quando o colaborador de “O Diabo” e autor de vários livros sobre Camarate contou que a sua mulher, Mercedes, teria desabafado num cabeleireiro que recebera um aviso do marido para não viajar com Sá Carneiro. “Fui até aos tarecos”, afirmou.

    No fim do encontro, aproveitei para lhe fazer uma pergunta sobre a sua participação nas reuniões do Grupo Bilderberg. Disse-lhe que já ganhara várias apostas sobre quem seria primeiro-ministro em Portugal, bastando-me olhar para a lista das pessoas que ele convidava anualmente. E acrescentei que até tinha estado em Sitges. Ele perguntou como é que as pessoas que iam assistir de fora aos encontros “tinham dinheiro para estarem ali”.

    Disse-lhe que, no meu caso, foi pago pelo meu próprio bolso. Lancei a provocação: “Se as reuniões não são assim nada de especial, então que tal levar-me a uma um dia para confirmar?”. Ele disse-me, com um sorriso de charme, que o meu estatuto profissional não o permitia. Três meses depois, para o encontro anual que decorreu na Suiça, Balsemão convidou António Nogueira Leite e… Clara Ferreira Alves, a ex-jornalista do Expresso e regular comentadora da SIC. Confesso que sorri e não levei a mal: confirmei que quem faz os estatutos não são as pessoas, mas sim o que Balsemão decidia sobre o que são os estatutos.

    Momento nº 5

    Noite de 22 de Outubro de 2025. Estou na fila para o velório de Balsemão. Atrás de mim está João Soares, que acabou de dar uma entrevista a José Manuel Mestre. Abordo o filho de Mário Soares e pergunto se se lembra da vez em que, antes das eleições europeias de 2004, fui a casa dele, junto ao Príncipe Real, para o entrevistar sobre uma possível candidatura à liderança do PS. E disse-lhe então, mal cheguei: “Então, o José Sócrates é que vai ser o próximo líder do PS!”.

    Perante o espanto de João Soares, expliquei que acabara de ler que Balsemão convidara Santana Lopes e José Sócrates para o encontro de Bilderberg, que iria ter lugar em Junho, em Itália. Mencionei ainda ao filho do antigo Presidente da República que acabara de publicar um livro, em Novembro de 2003 – “Eu Sei Que Você Sabe” –, onde explicava como é que as reuniões do Grupo Bilderberg eram bons indicadores para futuras escolhas políticas. “Isso é que ainda vamos ver!”, respondeu-me João Soares, cheio de confiança.

    Em Setembro, quando Sócrates venceu a corrida para a liderança do PS, telefonei ao João Soares para ouvir a sua opinião: “Frederico, acabei de sair da SIC onde encontrei Balsemão. Ele veio cumprimentar-me e dizer que tinha apreciado a forma como eu me tinha batido nas eleições. E eu, enquanto olhava para ele, só pensava: tenho de ler o livro do Frederico”. Lembrei isto ao antigo candidato e ele desabafou: “Já nem me lembrava”. A irmã, Isabel, não sei se ouviu toda a nossa conversa mas ouviu o meu desabafo: “O que Portugal não teria vivido se não tivesse sido o apoio de Balsemão a Sócrates”.

    Conclusão: Agradeço a Balsemão a sua vida e o esforço que fez em deixar o mundo melhor da forma que ele acreditava como deveria ser o mundo. Foi ao fazer exactamente o contrário daquilo que os seus seguidores sempre acharam que eu deveria fazer, pude conquistar um dos mais preciosos bens que podemos ter na Terra enquanto cá estamos: liberdade de pensamento. E isso, felizmente, ao contrário de alguns que conheço, Balsemão nunca me conseguiu tirar. Antes pelo contrário, pois se não tivesse sido ele, nunca teria tido motivos para lutar pela Liberdade. Por isso, só lhe posso dizer: Obrigado por me ter dado a conhecer o que é ser-se livre de verdade!        

  • Astérix já é um dos nossos

    Astérix já é um dos nossos


    Foi preciso esperar 66 anos desde a criação de Astérix e Obélix até que, finalmente, a dupla gaulesa apanhasse o barco do mercador fenício, no norte da Gália e, em vez de rumarem até ao Mediterrâneo, parassem numa cidade do Atlântico e que é ainda mais antiga do que Roma: Olissipo. 

    A aventura “Astérix na Lusitânia”, sabemos bem, não é a mesma que resultaria caso tivesse sido feita pelos criadores originais, Uderzo e Goscinny, mas podemos afirmar que a nova equipa, o argumentista Fabcaro e o desenhador Didier Conrad, fizeram um trabalho competente e que não envergonha o original. Reconheça-se ainda que não têm um trabalho fácil, pois, como explica Conrad: “Se tirarmos a opinião do editor, dos herdeiros, as expectativas dos leitores e as exigências do formato e da impressão, temos toda a liberdade de criar o que queremos”.

    Fabcaro (Fabrice Caro ) e Didier Conrad, autores de “Astérix na Lusitânia”. / Foto: D.R.

    O certo é que também não é preciso ser um génio da edição de livros para saber que um novo álbum de Astérix será sempre um sucesso de vendas. Pois, mais não seja, os leitores das aventuras originais irão sempre querer ter o último álbum na estante para não ficarem com a sensação de uma colecção incompleta. Enquanto isso acontecer um pouco por todo o mundo – são cerca de 5 milhões de exemplares no total, em cerca de 19 países –, então cada álbum será sempre um êxito garantido, independentemente da qualidade e das expectativas do mesmo.

    Este é o 41º álbum da coleção, mas apenas o sétimo feito a partir de 2013, altura em que Uderzo passou a responsabilidade do desenho para Didier Conrad. Os textos – que até 1977 eram de Goscinny – tiveram a assinatura de Jean-Yves Ferri nos cinco primeiros álbuns, mas, desde 2023, é Fabcaro quem os idealiza. E, depois de ter criado o álbum anterior a este, “O Lírio Branco”, podemos dizer que a aventura na Lusitânia é capaz de estar no topo das preferências desta nova fase, tanto mais não seja pelo facto de Portugal estar na moda.

    Os estereótipos estão lá todos, para o bem ou para o mal. Temos a referência a Amália, que até escolheu um dos fados “mais alegres” para dar as boas-vindas aos gauleses. Existe uma personagem que o editor quis que se chamasse “Saudade”, em vez do “Oxalá” do original francês. Há ainda paisagens, como as Azenhas do Mar. Falta, contudo, o trânsito em Olissipo – que já naquela altura seria tão movimentado quanto o da Lutécia. Depois, temos bacalhau, pastéis de nata, azulejos, galo de Barcelos, eléctrico XXVIII e ainda Ronaldo, que até aparece em dose dupla.

    Apresentação do livro “Astérix na Lusitânia”. Foto: D.R.

    “Desenhei uma criança que joga à bola com o número VII na camisa, mas o editor queixou-se que estava muito pequena e mal se via. Então desenhei-o, de forma mais visível, noutra situação”, explicou Didier Conrad ao Página Um. E quando perguntámos aos novos autores por que não recriaram um jogo de futebol onde Ronaldo, o primeiro futebolista multimilionário da história do desporto, pudesse ter mais destaque, um pouco à semelhança do jogo de rugby que Goscinny e Uderzo fizeram na aventura entre os Bretões, os autores explicaram que, no caso da viagem à Inglaterra, o rugby era um desporto mais típico dessas paragens, “enquanto a paixão do futebol é transversal a vários países e não apenas a Portugal”.

    Quanto à história em si, sabemos que Astérix só precisa de um pequeno pretexto para sair da aldeia – existe uma tradição em que as aventuras de Astérix alternam entre uma história dentro da aldeia e outra que é o chamado álbum de “viagem”, como é neste caso. Na realidade, uma aventura de Astérix na Lusitânia era algo que poderíamos esperar desde, pelo menos 1967, altura em que Goscinny fez, em “Astérix, Legionário”, uma menção à canção francesa dos anos 50, “As Lavadeiras de Portugal” (que chama “As Lavadeiras da Lusitânia”). Depois, em 1969, a dupla criativa original fez a aventura na Hispânia, criando, três anos mais tarde, um personagem lusitano na história “O Domínio dos Deuses”. O próprio Uderzo, que visitou Portugal em 1991, e falou nessa altura da possibilidade de haver uma aventura na Lusitânia, ainda criou mais um personagem lusitano no álbum “O Pesadelo de Obélix”, editado em 1996.  

    Fabcaro explicou como se lembrou do lusitano de “O Domínio dos Deuses” para dar início à aventura, onde ele chega à aldeia a pedir ajuda para libertar um amigo, produtor português do garum – o molho de peixe fermentado e que a Lusitânia era fornecedora para o Império Romano. E há um detalhe que, até ao momento, poucos terão ainda dado por ele: o rival desse português é um napolitano, Crésus Lupus (Burlus Lupus na versão portuguesa), que Conrad desenhou numa óbvia caricatura de Sílvio Berlusconi – o magnata da Imprensa e ex-primeiro-ministro de Itália.

    Foto: D.R.

    Fizemos notar ao argumentista a coincidência dessa personagem surgir neste álbum num momento em que o filho de Berlusconi, Pier Silvio Berlusconi, está interessado na compra do grupo Impresa, nas mãos da família Balsemão. Fabcaro garante que não foi de propósito, pois trata-se de um personagem que já surgira na aventura de 2017, “Astérix e a Transitálica”, precisamente como um rico produtor de garum. E, agora, fez todo o sentido trazê-lo para a aventura na Lusitânia.

    A propósito de outras caricaturas que surgem na aventura portuguesa, há uma que não tem qualquer relação com o País, mas que se trata de um centurião romano que caricatura o cómico inglês Ricky Gervais. Conrad confirmou ao Página Um ser um pedido especial do editor francês “que é um grande fá do comediante inglês”, acrescentando que, por outro lado, o governador romano na Lusitânia, Pluvalus (Interesseirus em português), não corresponde à caricatura de ninguém em real. Fabcaro sorri, pois na sua descrição estava uma pessoa semelhante a… Donald Trump. Acontece que Didier Conrad vive nos EUA, no Texas, é decidiu que não seria boa ideia. Esse tipo de censura é algo que também transparece na fala do pirata africano que, de repente, já diz os “r”.    

    Outra questão que levantou alguma estranheza entre os leitores portugueses é facto de os personagens portugueses estarem sempre a dizer “ó pá”. Isso surge de forma que, podemos mesmo considerar, ser exagerada. Não era preciso usar isso sempre em todas as falas dos lusitanos. Menos seria mais. Aliás, o editor português da ASA, Vítor Silva Mota, sentiu mesmo a necessidade de explicar essa opção perante a plateia que encheu uma das salas de cinema do UCI no El Corte Inglés onde decorreu uma apresentação pública. Disse ele que foi uma opção para brincar com o original onde os personagens lusitanos trocam a terminação francesa de palavras terminadas em “ion” por “ção”. Fabcaro disse mesmo ao Página Um que recebeu mensagens de amigos franceses com “félicitação” em vez de “félicitation”.

    Outro dos desafios da tradução tem a ver com uma referência ao nosso 25 de Abril. Na versão francesa, os autores colocam um prisioneiro a gritar “oyez, oyez”, como “ouçam, ouçam”. Um outro prisioneiro diz que se trata “de mais um jovem idealista que julga que se pode fazer a revolução com oyez”, sendo que esta última palavra soa a cravos em francês, os “oillets”. Na versão portuguesa o prisioneiro diz que “o povo jamais será vencido” e o companheiro explica que ele é o prisioneiro número MCMLXXIV (1974), e pede para que não lhe liguem, pois tem a cabeça cheia de ideias revolucionárias.

    Astérix e Obélix, num momento raro, mas não inédito, disfarçam-se de locais, pintando o cabelo de escuro, o que dá um efeito cómico também único a esta aventura, e ainda participam numa cimeira internacional a bordo da galera “Davos”, que Fabcaro explicou fazer sentido decorrer em Lisboa, pois é uma cidade que deu início à globalização. E essa é ainda uma referência que surge com uma personagem feminina lusitana chamada Gama, que tem um tasco chamado Vasco – que em francês é o Le Vase Clos –, onde há sempre belas descobertas.

    Outras descobertas deste álbum é a citação do poema de Voltaire sobre o terramoto de Lisboa, que surge a explicar a nostalgia portuguesa, com a tradução de Vasco Graça Moura: “Bem será tudo um dia, é essa a nossa esp’rança; Hoje tudo está bem, é essa a ilusão”. Também Fernando Pessoa é lembrado, embora apenas na versão portuguesa, quando um soldado romano diz que não é nada, mas tem em si todos os sonhos do mundo.

    Cada leitor teria feito uma aventura diferente, mas esta é a que agora temos. E, fatalmente como destino, vamos ter de gostar dela como está e para sempre.

    Frederico Duarte Carvalho, jornalista e escritor, colaborador regular do Página Um, assina este texto porque também é um especialista em banda desenhada tendo, inclusive, editado recentemente, nas edições Polvo, o livro “As Aventuras de Goscinny e Uderzo entre os Lusitanos”, onde explica a evolução das aventuras da dupla gaulesa até chegar à história na Lusitânia. Uma obra que conta com documentos inéditos do Institut René Goscinny, cedidos especialmente para esse trabalho.

  • Bilderberg discutiu despovoamento e migração

    Bilderberg discutiu despovoamento e migração

    Depois dos encontros peninsulares de Lisboa (2023) e Madrid (2024), o Grupo Bilderberg escolheu o norte da Europa para a reunião de 2025, tendo rumado até Estocolmo, capital do mais recente país da NATO – a Suécia tornou-se no 32º membro da Aliança Atlântica a 7 de Março de 2024. Os participantes estiveram reunidos entre os dias 12 e 15, no Grand Hotel, propriedade do banqueiro Marcus Wallenberg, representante sueco no Comité Director, para aquele que foi o 71ª encontro deste grupo internacional, criado em 1954, e que toma o nome do primeiro hotel, na Holanda, onde decorreu a cimeira inaugural.

    Os tópicos da agenda deste ano foram “Relações Transatlânticas”; “Ucrânia”; “Economia dos Estados Unidos”; “Europa”; “Médio Oriente”; “Eixo Autoritário”; “Inovação e Resiliência na Defesa”; “Inteligência Artificial”; “Dissuasão e Segurança Nacional”; “Proliferação”; “Geopolítica da Energia e dos Minerais Críticos” e, finalmente, “Despovoamento e Migração”.

    Leonor Beleza, presidente da Fundação Champalimaud, à porta do Grand Hotel, em Estocolmo, na manhã de 15 de Junho. / Foto Frederico Duarte Carvalho

    Este último item da lista, “despovoamento e migração”, é uma novidade em relação a agendas anteriores, sendo que o tópico do despovoamento e migração tem sido um tema de discussões políticas em vários países pelos partidos de extrema-direita para recolha de proveitos eleitorais. Questionado à saída do encontro sobre a discussão deste assunto em particular, o jornalista do Financial Times e participante habitual dos encontros do Grupo Bilderberg, o britânico Gideon Rachman, explicou aos jornalistas presentes à frente do Grand Hotel que os convidados se limitaram “a ver quais são os países que têm mais nascimentos e os que têm menos”.

    O jornalista britânico do Finantial Times, Gideon Rachman, falou com os jornalistas à porta do hotel.
    / Fotos: Frederico Duarte Carvalho

    Entre os participantes do 71º encontro do Grupo Bilderberg estavam dois portugueses, convidados pelo representante de Portugal na direção da organização, Durão Barroso, ex-primeiro-ministro de Portugal e ex-presidente da Comissão Europeia, actualmente dirigente da Goldman Sachs Internacional e ainda presidente da Gavi, a aliança mundial para as vacinas. Uma das convidadas de Barroso foi a vice-presidente do PSD e presidente da Fundação Champalimaud, Leonor Beleza, que assim marcou a sua segunda presença nestes encontros. A primeira vez de Leonor – que também é a presidente da comissão de honra da candidatura de Luís Marques Mendes à presidência da República – foi na Turquia, em 2007, então a convite de Francisco Pinto Balsemão, militante número 1 do PSD, ex-primeiro-ministro e dono da SIC e Expresso. Balsemão cedeu a Barroso o seu lugar na direcção de Bilderberg, que ocupava desde o início dos anos 80, em 2015, após o encontro que teve lugar na Áustria.

    Albert Bourla, presidente-executivo da farmacêutica Pfizer (primeiro à esquerda), ao lado de José Manuel Durão Barroso, presidente da Gavi, Aliança Global das Vacinas e presidente da Goldman Sachs International LLC. / Foto Frederico Duarte Carvalho

    O outro convidado português de Barroso para o encontro de Estocolmo foi Diogo Salvi, dono da empresa de tecnologia de telecomunicação, TIMWE. Um rosto pouco conhecido em Portugal, mas dono daquela que é tida como uma das empresas portuguesas com maior representação internacional, e que permite ao empresário, por exemplo, poder pagar do seu próprio bolso para competir no Rali de Portugal. Salvi é igualmente um repetente nestes encontros, tendo estado presente, pela primeira vez, na reunião de 2022, em Washington, também a convite de Durão Barroso.

    Michael O’Leary, dono da Ryanair em conversa animada com o convidado português, Diogo Salvi, fundador e presidente-executivo da TIMWE. /Foto: Frederico Duarte Carvalho

    Tido pelos amigos como um indivíduo “jovial”, isso confirmou-se quando, na noite de sábado, 14, no passeio de barco a caminho do jantar na residência privada da família Wallenberg, o português conversava animadamente com o irlandês Michael O’Leary, dono da Ryanair e membro permanente da organização, que se ria com as palavras do português. Do que falavam exactamente? Só eles saberão. Por perto, estavam Wes Streeting, secretário de Estado da Saúde do Reino Unido e Gabriel Attal, ex-primeiro-ministro da França.

    Fareed Zakaria, jornalista da CNN (ao centro), na companhia do presidente do World Economic Forum (WEF), Borge Brende (primeiro a contar da direita). / Foto: Frederico Duarte Carvalho

    Uma terceira convidada portuguesa presente em Estocolmo, mas a convite da organização devido ao cargo público que ocupa, foi Maria Luís Albuquerque, antiga ministra das Finanças de Portugal e actual Comissária Europeia dos Serviços Financeiros e União da Poupança e dos Investimentos. Esta foi a segunda vez que a portuguesa participou nestes encontros, tendo a sua estreia sido em 2016, na Alemanha, então a convite pessoal de Durão Barroso. De Bruxelas, veio também Sophie Wilmés, ex-primeira-ministra da Bélgica e actual vice-presidente do Parlamento Europeu.

    Este fórum internacional, de debate à porta fechada, com políticos, jornalistas e empresários de países membros da NATO, rege-se pelas regras de Chatham House, onde os participantes são livres, posteriormente, de prestarem as declarações que quiserem, mas não devem identificar os autores de ideias ou citações, permitindo assim manter um ambiente descontraído que promova uma maior e franca troca de ideias entre todos participantes onde, parte deles são pessoas com cargos públicos – e eleitos segundo regras ditas democráticas nos seus países de origem do espaço NATO –, enquanto outros são os principais donos de empresas privadas, que movimentam milhões de euros e dólares e que provocam impacto directo na vida dos cidadãos que não estão presentes nestes encontros. 

    Maria Luís Albuquerque, comissária europeia com a pasta de Serviços Financeiros e União da Poupança e dos Investimentos, a caminho do jantar privado organizado pelo banqueiro sueco, Marcus Wallenberg. / Foto: Frederico Duarte Carvalho

    Durante os três dias da conferência, os participantes assistem a palestras e sentam-se por ordem alfabética, como se fosse um banco da escola. Isso proporciona combinações interessantes onde, este ano, por exemplo, ao olhar para a lista dos convidados divulgada pela organização no início dos trabalhos, vemos que Leonor Beleza, sentou-se entre a francesa Valérie Baudson, CEO da empresa de gestão de activos, Amundi, e, do outro lado, Fatih Birol, directora executiva da International Energy Agency. Uma outra combinação de mais três nomes permitiu colocar Albert Bourla, CEO da farmacêutica Pfizer – uma pessoa que, recorde-se, está envolvido num processo judicial sobre as mensagens privadas que trocou com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen – fica sentado entre a dona do Banco Santander, a espanhola Ana Botín, e o norueguês Brende Borge, actual presidente do World Economic Forum – organizador da Conferência de Davos – que substituiu Klaus Schwab.

    Entre os jornalistas presentes no encontro, confirmou-se a presença do membro da direção do Grupo Bilderberg e colaborador regular da CNN norte-americana, o jornalista indiano, residente nos EUA, Fareed Zakaria, que chegou ao hotel de Estocolmo no mesmo momento em que Alex Karp e Peter Thiel – responsáveis da empresa de tecnologia e Inteligência Artificial Palantir, que tem, entre outros, a CIA e os ministérios da Defesa de Israel e Ucrânia entre os seus clientes – saíam para destino desconhecido. Alex Karp não seria mais visto ao longo da reunião, mas Peter Thiel manteve-se em Estocolmo até ao último dia, altura em que o Irão e Israel estavam envolvidos em ataques e contra-ataques de mísseis.

    Alex Karp e Peter Thiel, da Palantir Technologies, empresa de software fundada com financiamento da CIA. / Foto: Frederico Duarte Carvalho

    Igualmente presente, e vista a caminhar fora do hotel, longe das medidas de segurança, foi a jornalista norte-americana, Anne Applebaum, acompanhado pelo marido, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, Radoslaw Sikorski que, tal como a mulher, é já um participante habitual nestes encontros. Na lista dos membros permanentes da direção do grupo constam ainda o nome da jornalista britânica Zanny Minton Beddoes, editora-chefe da revista The Economist e do norte-americano John Micklethwait, editor-chefe da Bloomberg. O editor-chefe do jornal belga De Standaard, Karel Verhoeven, e o jornalista italiano Stefano Feltri também estavam entre os convidados.

    Radoslaw Sikorski, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, na companhia da sua mulher, a jornalista norte-americana, Anne Applebaum, da revista The Atlantic. / Foto: Frederico Duarte Carvalho

    O secretário-geral da NATO e ex-primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte, compareceu novamente nesta cimeira transatlântica, assim como seu antecessor, o dinamarquês Jens Stoltenberg, agora ministro da Finanças do seu país.

    O secretário-geral da NATO, Mark Rutte (ao centro), marcou presença. / Foto: Frederico Duarte Carvalho

    O encontro de 2026, segundo os normais e conhecidos procedimentos logísticas da organização, está já escolhido, mas ainda não foi tornado público, impedindo assim que os jornalistas possam planear, com tempo, a próxima cobertura. Sem o devido registo jornalístico, é como se nada tivesse acontecido em Estocolmo, entre os dias 12 e 15 de Junho de 2025. Mas, estivemos lá e vimos que aconteceu mesmo.    

  • Vaticano: o intrigante 13 e as profecias de São Malaquias

    Vaticano: o intrigante 13 e as profecias de São Malaquias


    Foi em Novembro de 2013 que a editora Planeta lançou o meu livro “O Terceiro Bispo”, a primeira obra de ficção, a nível mundial, onde se mencionava a figura do Papa Francisco. Este livro começou a ser planeado em Fevereiro de 2013, quando o Papa Bento XVI anunciou a sua demissão. A eleição do Papa Francisco, a 13 de Março de 2013, com ele a declarar que viera do “fim do mundo”, veio depois confirmar a decisão e a necessidade de levar avante a missão de publicar a obra. Devo a Juan Mera e à Ana Maria Pereirinha a confiança depositada na altura.

    A trama de “O Terceiro Bispo”, em cuja capa temos uma foto escuro do perfil do Papa Francisco, com a imagem de Nossa Senhora de Fátima e a Basília de S. Pedro, é sobre um atentado contra o Papa para “cumprir o Terceiro Segredo de Fátima”. A razão era simples: o Papa João Paulo II não morrera no atentado de 13 de Maio de 1981, pelo que o terceiro segredo, aquele que menciona a morte do Bispo Branco, ainda estava por cumprir.

    person wearing white cap looking down under cloudy sky during daytime

    Muito da obra andava à volta do número 13, data das aparições de Fátima, em 1917, que ocorrerem entre 13 de Maio e 13 de Outubro. Uma das minhas fontes de consulta para aquela obra de ficção fora o livro “A Última Vidente de Fátima”, publicado em 2007 pelo cardeal Tarcisio Bertone, o secretário de Estado do Vaticano e pessoa que, em Abril de 2000, teve um encontro com a Irmã Lúcia para preparar vinda de João Paulo II a Fátima, altura em que foi revelado o Terceiro Segredo de Fátima.

    Bertone registou no seu livro as coincidências à volta do número 13, referindo-se ao facto de que o Papa João Paulo II, aquele que mais vezes visitara Fátima (1982, 1991 e 2000), falecera a 2 de Abril de 2005, uma data cuja soma individual dos seus algarismos, 2+4+2+5, dava um total de 13. Depois, Bertone também fez a mesma associação em relação à vidente de Fátima, a irmã Lúcia, falecida dois meses antes, a 13 de Fevereiro de 2005. E isso também deu o mesmo resultado: 1+3+2+2+5 é igual a 13.

    O livro de Tarcisio Bertone foi publicado quando o Papa era Bento XVI, pelo que, na altura, não se conhecia a data da morte do sucessor de João Paulo II. Sabe-se agora que Bento XVI faleceu a 31 de Dezembro de 2022 e, utilizando o método de contagem do cardeal Bertone, somando 3+1+1+2+2+2+2, temos novamente, como resultado total, o número 13.

    Então, e o Papa Francisco, qual era a sua relação com o número 13? Bem, essa tornara-se bem óbvia no dia sua eleição, pois o 13 de Março de 2013, para além de ter duas vezes o número 13, era também uma data onde a soma dos algarismos 1+3+3+2+1+3 alcançava um total de 13.

    Agora que sabemos a data da morte do Papa Francisco, será que podemos continuar a falar na coincidência do número 13? A soma dos algarismos do dia 21 de Abril de 2025 não nos dá esse valor. O resultado total de 2+1+4+2+2+5 é o número 16. Nem tirando ou acrescentando um algarismo iríamos obter 13.

    Será isso então suficiente para podemos concluir que o Papa Francisco não é um Papa que esteja debaixo da alçada do número 13? Poderíamos facilmente descartar as coincidências anteriores e continuar com a nossa vida sem muitas preocupações com o misticismo “made in Vaticano”. E os espíritos mais lógicos seguiriam mais descansados.

    Só que – e nem se trata de forçar conclusões – podemos usar o método de Tarcisio Bertone para olhar com detalhe os algarismos que surgem relacionados com a data da morte da morte do Papa Francisco. Através do recurso à contagem do tempo, via o site timeanddate.com, chegamos a números que nos podem fazer pensar de forma diferente.

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    Assim, se formos ver os anos e dias do Papa Francisco à frente dos destinos do Vaticano, reparamos que, entre 13 de Março de 2013 e 21 de Abril de 2025, decorreram 12 anos, 1 mês e 9 dias. A soma de 1+2+1+9 dá 13. Ao converter esse espaço temporal apenas em dias, isso atinge o número 4.423, sendo que a soma dos algarismos, 4+4+2+3, atinge, novamente, o 13.

    Um outro tema que o livro “O Terceiro Bispo” abordou em 2013 foram as profecias de São Malaquias, alegadamente escritas em 1140 e divulgadas publicamente em 1595. Dizem esses escritos que a destruição da Igreja irá acontecer quando chegar o Papa número 266.

    A eleição de Francisco, a 13 de Março de 2013, representou a eleição do Papa número 266 e, desde esse dia e até à sua morte, apesar de existir uma crise de Fé, o Vaticano não acabou. A Igreja Católica ainda vai mantendo a sua influência no mundo e, em breve, um novo conclave irá eleger o Papa número 267, superando assim os números previstos nas profecias do santo irlandês.

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    Só que quando o Papa Francisco foi eleito, o Papa Bento XVI ainda estava vivo. Uma situação pouco comum no Vaticano. Por isso, durante o pontificado do Papa Francisco, poderíamos considerar que este era, na realidade, a continuação do Papa 265, não sendo o 266 em todo a sua plenitude. Era, se quisermos assim ver, o Papa número 265-B.

    E, entre a morte do Papa Bento XVI, a 31 de Dezembro de 2022, e a morte de Francisco, no dia 21 de Abril de 2025, o sucessor de Bento manteve-se à frente do Vaticano durante 27 meses e 22 dias. O que, somados os algarismos 2+7+2+2, permite que se obtenha, de novo, o número 13.

    Podemos assim dizer, de forma inequívoca, que à semelhança de João Paulo II e Bento XVI, também Francisco viveu e morreu debaixo do número 13. E, ao ser o terceiro bispo de Roma a morrer debaixo do signo 13, foi assim a continuação dinástica do Papa 264, João Paulo II, mas ocupando o número 265-B. O Papa Francisco morreu com 88 anos, tendo isso acontecido 20 anos e 20 dias exactos após a morte de João Paulo II, o dito “Papa de Fátima”, que tinha 84 anos, menos 4 que Francisco.

    a statue of a man holding a cross in front of a church

    O próximo conclave irá agora ter de eleger um novo Papa. Um Papa que poderá não estar ligado ao número 13, mas que seria o 266º. De acordo com a profecias de São Malaquias, existe um nome para o novo Bispo de Roma: Petrus Romanus. Seria o Papa Pedro II, romano de origem. Para que tal aconteça, basta que o próximo chefe da Igreja seja de origem italiana, o que não acontece desde que o polaco João Paulo II foi eleito em 1978, sendo seguido por um alemão e um argentino.

    Na lista de 22 prováveis Papas – os Papabili – constam cinco nomes de candidatos oriundos de Itália. O primeiro, Angelo Bagnasco, de 82 anos de idade, é o Arcebispo Emérito de Génova. Depois, com 79 anos, está Fernando Filoni, Grão-Mestre da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém. Segue-se o nome do secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, de 70 anos, que sucedeu a Tarcisio Bertone em 2013. O quarto candidato vindo de Itália tem 80 anos e chama-se Mauro Piacenza, sendo o actual Penitenciário-Mor Emérito do Supremo Tribunal da Penitenciária Apostólica. O quinto nome é o do Arcebispo de Bolonha, Matteo Zuppi, que tem 69 anos.

    Na lista não consta como sendo oriundo de Itália o nome de um outro candidato que, por acaso, nasceu em Itália. Trata-se do Patriarca Latino de Jerusalém, Pierbattista Pizzaballa, que nasceu em Cologno al Serio, na zona da Lombardia, e professou os seus votos solenes na Igreja de Santo António, em Bolonha, no ano de 1989. Chegou a Jerusalém a 7 de Outubro de 1990 – sim, a mesma data do ataque de 2023 pelo Hamas. Em 2014, ajudou a organizar o encontro no Vaticano entre o Papa Francisco, o presidente israelita Shimon Peres, o líder palestiniano Mahmoud Abbas e o Patriarca de Constantinopla. Nascido em 1965, cumpriu 60 anos a 21 de Abril, o mesmo dia do falecimento do Papa Francisco.

    Pierbattista Pizzaballa

    Se um destes italianos for eleito Papa e assumir o nome de Pedro II, então podemos começar a falar mais a sério sobre as profecias de São Malaquias. Por outro lado, pode ser que o mundo venha a ser surpreendido com a escolha de um Papa de origem portuguesa, vindo da terra de Fátima. José Tolentino de Mendonça, de 59 anos, é um dos nomes nos Papabili e, aí sim, quem sabe o Vaticano e a Fé Católica não viria a ter um outro destino.

    Fiquemos atentos, portanto, ao resultado do próximo conclave.


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.