Aforisma de Jesse James antes do seu último assalto ao comboio
1879
Hoje vou prestar uma homenagem contente aos leitores despertos que conseguem ler as minhas notas de rodapé até ao fim[1]. E, de caminho, espero estar também a prestar algum serviço público, revelando sinais de vida aos que ainda são vítimas da tirania das palavras. Vamos lá ver, Pussy Riot[2]? Mas o que é que me deu, certo – Pussy Riot? Nem o tradutor do Office se atreve a oferecer uma proposta estúpida que seja[3]. Como aconteceu em tantas outras obras que produzem desde 2011 na sua impenitente luta artística contra Putin, estas feministas russas tiveram quem inventasse com elas o nome da banda, e têm sempre quem lhes traduza para inglês os títulos das canções que postam no YouTube, tais como PUTIN WILL TEACH YOU HOW TO LOVE. Às vezes, como acontece em POLICE STATE, conseguem cantar uma tradução do refrão – um polícia de choque começa por bater nas meninas da banda e depois bate-lhes no ursinho de peluche porque ainda não está satisfeito, acendem-se imensos vídeos e finalmente o zoom mostra Trump a apertar a mão a Putin, e entretanto elas cantam, num coro infantil perverso, “everybody’s happy, makes me happy”. Podem variar entre dez e vinte membros, e convidam todas as performers de protesto russas a entrar no barco. Conseguem nunca desistir, escapar, escorregar, entrar e sair da prisão sem desanimar, mudar de pele, reaparecer, sobreviver. Têm muitíssimo para nos dizer. Mas não conseguem falar connosco, porque nunca conseguiram aprender inglês.
Quem não gostar de termos de usar o inglês, enquanto veículo de comunicação universal, que não goste[4], mas a realidade é o que é. Plenamente conscientes dessa mesma realidade, todos os ditadores que vieram à superfície para lá da Cortina de Ferro fizeram toda a gente que escravizaram viver meio século sem nunca aprender inglês. E bastou as pessoas desconhecerem as palavras do Oeste para todas as coisas que floresciam para lá do Muro ficarem profundamente enevoadas. Agora que a União Soviética já não existe, no seu lugar existe a Grande Mãe Rússia, e no papel de Estaline está instalado o impensável ditador Vladimir Putin. Putin é uma daquelas pessoas que nos foram enviadas pelo Demónio para não podermos acreditar na bondade humana[5], e nesse sentido pérfido é obviamente muito sério no que toca a assegurar-se de que ninguém na sua terra fala inglês – o mesmo inglês que ele próprio, ostensivamente, não fala. O inglês, que o mundo inteiro fala mas por acaso também não se fala na China nem na Coreia do Norte, embora se fale fluentemente na Coreia do Sul, é uma arma de acesso à cultura que todos os maiores ditadores mantêm sabiamente afastada dos seus povos.
Eu estava a trabalhar na UMass of Amherst em 2014, quando quatro das Pussy Riot conseguiram escapulir-se de Moscovo para uma série de gigs em salas de espectáculos americanas, acompanhadas pela sua Grande Mestra de tradução simultânea. Era uma miúda de Nova York ainda mais novinha do que as cantoras, ela própria de origem russa e apaixonada pela sua missão. A banda, notava-se logo, absorvera com avidez toda a grande qualidade que se aprende nas academias russas quando se tem uma autêntica veia artística. A sua presença em palco revelava uma imaginação cheia de arrojo e bom-gosto, com grandes jogos de cores, um sentido plástico magnífico e uma óptima música servida por grandes vozes bem trabalhadas, com arranjos que podem não ser os mais criativos mas não cometem nenhum erro[6]. Sozinhas à nossa frente, com a adolescente nova-iorquina aos pulos num canto agarrada ao microfone, as cinco felizes da vida e boas em tudo, transmitiam uma segurança que transbordava para a plateia e punha toda a gente ao rubro[7].
No dia seguinte, no entanto, deram uma entrevista em directo na NPR[8] e aquela segurança contagiosa desapareceu, porque a adolescente entusiástica que as traduzia no gig também tinha desaparecido. Só estava em estúdio um funcionário público[9] que por junto arranhava umas coisas de russo. Elas conseguem cantar o refrão ou outro em inglês, mas isso não quer dizer que falem inglês. Não falam mesmo. Tentar entrevistá-las nestas condições precárias é apenas um jogo de enervar toda a gente e aquilo foi para lá de penoso. Repetiram várias vezes que não tinham medo. Eram quatro crianças assustadas. E a apresentadora, toda completamente cosmopolita de cima da sua uma longa carreira laureada, era uma burguesa paternalista e ignorante que não fora capaz de contratar a outra menina que falava russo para dar voz a quatro grandes artistas que têm imensa coragem e rios de talento mas só sabem ler e escrever em cirílico. Não percebes que estás perante todo o power de um outro alfabeto, you bitch?
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
[1] Hey, “poucos serão os eleitos”, certo? Não fui eu que disse isto.
[2] Termo cuidadosamente enterrado dentro de uma notinha de rodapé na crónica sobre a boçalidade de Putin e a visita do nosso PR à Ucrânia, anunciada para este ano.
[3] Pois, temos pena. Neste caso específico, nem eu vou traduzir. As jovens performers russas não podiam ter irritado mais o regime policial do seu país ao evocar em inglês uma grande revolta de partes privadas femininas, mas em 2011 eram mesmo jovens, não pretendiam ser mais que hard punk de protesto, e quanto mais cru fosse o nome da banda melhor. Entretanto o seu som sofisticou-se, os seus vídeos também, e até a sua linguagem se tornou muito mais metafórica. E, aliás, eu já nem sequer tinha idade para traduzir directamente o nome da banda na altura em que ela apareceu.
[4] Dantes usava-se o latim para estes mesmíssimos efeitos, e o inglês tem a grande vantagem de ser muito mais simples. Foi exactamente esta simplicidade, e não a extensão do seu Império, que o levou a ganhar a taça da Comunicação Universal ao Francês e ao Alemão durante as batalhas coloniais e românticas do século XIX. E pronto. Já passaram dois séculos, e o esperanto foi um falhanço crasso. Querem espadeirar contra os moinhos? Eu tenho mais que fazer.
[5] O último post das Pussy Riot no YOUTUBE chama-se PUTIN’S ASHES, e é um tributo ao povo da Ucrânia. O arranque, extremamente conseguido tanto do ponto de vista plástico como do ponto de vista musical, mostra-nos só um sudário com um botão vermelho onde poderemos neutralizar Putin se lá conseguirmos carregar. Está cortado a seguir, mas promete-se a versão integral para Janeiro. Estamos em Janeiro. Estas coisas metem nervos, a sério que metem.
[6] Veja-se no YOUTUBE a canção PLASTIC, com um vídeo todo elaborado em torno do tema do conceito da boneca Barbie e plasticamente soberbo.
[7] E há que ver: as audiências americanas são extremamente segregadas, e não é nada fácil pôr os brancos “ao rubro”: tendem a ficar sentados e sem movimentos nem ruídos, as faces imóveis, apenas uns gestos de dedos, uns sussurros para o lado, ou umas batidas de pés para mostrarem a sua alegria. Conseguem ser a companhia mais deprimente deste mundo. Naquela noite, no entanto, passaram-se todos dos carretos. Bom, OK, nem todos. Mas bastantes. Suficientes. Houve ali um calorzinho. É raro a pessoa sentir calorzinho no meio dos americanos brancos. Estou a falar a sério, e de experiência própria. Vivi com brancos, e vivi com pretos, porque na América sirvo para ambas as categorias, sobretudo quando acabo de chegar da praia e desde que comecei a cantar no coro de Gospel da Igreja Africana. Estou em condições de jurar que os dois grupos não se misturam, e que a vida de uns não tem nada a ver com a vida de outros. Os pretos são sempre mais solidários, têm sempre menos dinheiro, vivem sempre em bairros mais pobres, acolhem sempre muito mais pessoas em cada uma das suas casas, recebem salários inferiores para trabalhos idênticos exercidos com as mesmas qualificações, e sim, claro – é muito mais divertido ir aos concertos com eles.
[8] Sigla da National Public Radio, de longe a melhor, mais intelectual, e mais ambiciosa de todas as rádios americanas.
[9] Sem ofensa para os nossos funcionários públicos, nomeadamente médicos, professores, e bombeiros. A palavra esconde uma atitude assaz insultuosa por parte da maioria dos americanos.
A vida tem uma forma bizarra de brincar com as nossas emoções mais profundas, que se torna perdidamente comovente se aceitarmos que vão forças maiores do que a nossa nos comandos, e que a gente nunca as vê até esbarrar acidentalmente com as suas consequências. Por exemplo, algures durante os nossos vinte anos houve uma companhia fundamental que uma noite, subitamente, driblou os melhores e mais desesperados de todos os nossos esforços humanos, e desapareceu numa transparência incompreensível, deixando atrás de si um vazio tão penoso que, de início, nos paralisa. Mas agora, quase quarenta anos mais tarde, a partir do momento em que voltamos a evocá-la com saudade e doçura, essa figurinha delicada começa outra vez a ganhar formas. E, se calhar, vai dar-se o milagre: vai mesmo regressar às três dimensões da nossa vida e iluminá-la por dentro num sopro suave. Quando o Bruno apareceu à minha porta aí pelas sete da tarde, fazia frio, tinha começado outra vez a chover, já estava escuro, e ia ser Noite de Natal. Vinha trazer a minha prenda com o sorriso que só os verdadeiros amigos sabem fazer. Depois de eu lhe ter dito tantas vezes que queria, especificamente, uma cadela, teria alguma razão para desconfiar daquela Maria Alice acabada de chegar, enroscadinha a dormir dentro de uma caixa de sapatos?
Como os cães vivem muito menos do que nós, entram e saem das nossas vidas em ciclos relativamente previsíveis de uns dez anos de camaradagem perfeita, e depois deixam-nos desfeitos quando partem. É frequente jurarmos que não voltaremos a ter outro cão, para evitarmos voltar a sofrer tanto. Mas, ao mesmo tempo, o sonho de entrar outro cão na nossa vida torna-se irresistível. Passam uns anos, voltam-se a criar-se as condições, e começamos a sonhar com outra grande aventura.
Os nossos cães, sistematicamente, são presenças oníricas que vão entrando e saindo, numa lógica que é só deles e nunca nossa, do curso das nossas vidas.
Agora, os melhores dos nossos cães podem é entrar-nos e sair-nos da vida numa sequência de reencarnações desconcertantes que são eles que inventam. E nós próprios, inadvertidamente, somos parte integrante dessa invenção.
Por exemplo, eu não faço ideia de qual foi o quadrante do Universo que plantou em mim esta semente, nem como, nem quando. Mas eu sabia, e o Bruno também, que a sua terna e minúscula prenda de Natal tinha necessariamente que ser uma rafeira alentejana chamada Maria Alice.
Como é evidente, nunca soube de onde vêm as minhas ideias, nem porquê. Mas sei que esta ideia, em particular, me despontou na cabeça assim já toda completa e retocada em 2011. Foi quando me sentei, por fim, a escrever em oito meses seguidos de imensa paixão o romance que vinha a gatafunhar em apontamentos desde há muito. Todo ele assentava na descrição precisa, e quase insuportável, da vida dos chefes de GEs[1] durante os dois últimos anos da Guerra Colonial moçambicana. Chamava-se esse romance, no seu todo, NÃO PODEMOS VER O VENTO. Este título formou-se porque os Portugueses nunca viram nada, parte porque as operações militares envolvidas eram top secret e parte porque nenhum Português quer admitir que viu outros Portugueses a cometer crimes de guerra da mais inaceitável barbaridade. E tornou-se NÃO PODEMOS VER O VENTO, também, porque o suposto herói da história, que em 1962 liderou operações destas e agora, proprietário de um Turismo de Habitação em Trás-os-Montes, no Solar brasonado da sua família, recomposto e calmo ao contrário de muitos outros ex-camaradas alcoólicos, cocainómanos, anti-sociais, ou de outra forma marcados para toda a vida pelo Stress Pós Traumático[2], parece de início ser suficientemente forte para falar dessas loucuras de juventude e de muitas outras, mas na realidade não – é um acabado mitómano, que atribui a si próprio um sem-fim de situações que foram vividas por outros homens. Explorando com tanta paixão a vida deste aristocrata com passado de assassino, que acaba rapidamente na cama com ele, aparece então, no papel principal feminino, uma psicóloga da actualidade toda despachada, que vive de mãe solteira com as suas duas gémeas iguaizinhas num duplex do Bairro Alto com as janelas voltadas para imagens lindas de colinas cobertas de casarios. Com as três mulheres, no mesmo duplex, vive, ainda, uma quarta mulher. É uma rafeira alentejana chamada Alice, que na minha cabeça se chama sempre Maria Alice em benefício da beleza das frases.
Era certamente pelo insólito. Quem é que lembraria de inventar um cão daqueles, assim tão enorme, que no entanto se enquadra harmoniosamente num duplex da Lisboa antiga, na companhia de mais três ciclos hormonais femininos? Só eu, mesmo – e, nestas pequenas coisas, gosto mesmo de mim. O conceito da Maria Alice tornou-se-me tão grato que o incluí logo no meu romance seguinte, TODOS OS CAMINHOS. Nessa altura, a Alice vive com a mulher num palacete minúsculo em Alfama agraciado por um jardim com um limoeiro e uma nespereira. Nos dois romances que escrevi a seguir, e decorrem um imediatamente a seguir ao outro, ambos ainda à espera de verem a luz do dia, a mulher que vestiu a pele da personagem principal foi refugiar-se com a Alice numa casinha antiga do Penedo onde a vista desce a serra inteira para mergulhar vertiginosamente no mar.
Desde que regressei do meu último período de docência e investigação nos Estados Unidos, em 2018, que respondo a toda a gente que não sinto qualquer falta de namorados, nem de companhias de pessoas. Preciso é de ter um cão.
Agora o Bruno veio cá dar-me uma prenda de Natal incrível, constante da minha ficção antes de constar da minha vida, que tinha dois meses e era a Maria Alice. Uma rafeira alentejana de pêlo escuro e remates brancos nas patas, na cauda, no peito, e no focinho, absolutamente perfeitinha, que um dia há de vir a ser enorme mas por enquanto só tem dois meses, ainda só conhecia o leitinho da mãe, e portanto é uma bolinha de pêlo hilariante, toda independente, absolutamente adorável, e sempre muito Dona Disto Tudo. Aliás, começou logo a rastejar lentamente pela sombra sem me fazer qualquer pergunta, a tentar roubar-me todas as roupas que eu tivesse acabado de vestir para poder andar a arrastá-las pela casa com um ar sonsinho, e finalmente aninhar-se em cima delas, toda feliz da vida com o cheiro da Mãe. Eu tinha acabado de chegar do hospital e não tinha a menor energia para sair à rua e apanhar chuva e frio, de maneira que passámos os primeiros quatro dias na cama a brincar uma com a outra a coisas giras de miúdas, incluindo descobrir bebés no espelho, alimentar vaidades, e aprender a caminhar com elegância. Só mesmo na manhã do quinto dia, quando a levei ao Veterinário, no debute social em que as meninas de boas famílias vão ser desparasitadas e levar a primeira volta das vacinas, é que descobrimos, com grande surpresa, que afinal o meu bebé não se chama Maria Alice.
E foi assim que passou logo ali a chamar-se Sebastião.
É normal, porque já era noite, o monte tinha pouca luz, e os cachorrinhos de dois meses ainda são muito pouco diferenciados.
O que é maravilhoso é estudar a maneira como o Sebastião, que inicialmente era um cãozinho de olhos quase fechados, que o Germano Almeida me trouxe do Porto em 1984, dentro de um cabaz de galináceos daqueles feitos com vime duro e colorido, voltou tranquilamente a entrar-me na vida como um raio de luz perfeito. Foi só eu quebrar um silêncio de décadas e voltar a falar dele quando recordei o meu casamento com o Meguinha na última semana.
Esse Sebastião partiu em 1985. Era um jovem boxer malhado muito bonito, com uma grande devoção tanto por mim como pelo Meguinha. Dormia aos pés da nossa cama e passava a noite a rastejar sem ruído pela colcha acima, sempre apostado na proeza de se deitar entre nós de costas sobre o lençol, com a cabeça nas almofadas e as patas da frente para trás, tal e qual como nos via aos dois a dormir. Quando conseguia instalar-se nesta posição difícil própria das pessoas sem ter sido sequer interceptado a meio e recambiado em pleno voo para a posição de origem, ficava cheio de orgulho em si próprio e não se tirava dali antes de nós o vermos, radioso – e não conseguirmos impedir-nos de nos partirmos a rir.
Houve então um dia em que o cãozinho foi comigo ao ensaio do meu grupo de teatro para crianças, numa sociedade recreativa que tinha por sede, sala de reuniões, e pavilhão de espectáculos, uma vivenda antiga em Marvila, grande e decrépita, que já devia ter sido bonita mas já mal se notava. Na sua ingenuidade de cachorro feliz que ainda não suspeita da maldade que pode estar encoberta à superfície do mundo, lambeu veneno de ratos, e morreu nessa mesma noite. Tinha acabado de entrar o mês de Maio. E, de repente, os dias tinham-se posto de novo extremamente frios e chuvosos.
Em Julho, tão recompostos quanto possível da perda do nosso cachorro, fomos os dois passar quinze dias de férias ao Porto Santo. Enquanto lá estávamos, numa pensão no alto da colina toda virada para o mar, ganhei depressa o hábito de agarrar na máquina de escrever e vir sentar-me todas as tardes, sempre à mesma hora, na luz quente e azul do terraço. Foi assim, perdidamente feliz, a retocar em coros cada vez mais polifónicos sons e sílabas e ideias com uma segurança crescente e voraz, que compus o meu primeiro romance, o AGRIÃO! Que veio a ser publicado pela Relógio d’Água no Outono.
O Agrião era o cão da matriarca de uma família inteira com três gerações de subúrbios muito feios atolados em bairros camarários onde se realojavam nos anos 60 as pessoas das barracas destruídas para construir o pilar da ponte[3]. Uma noite, subitamente, dormiam eles todos para ali ao molho numa grande paz à excepção dos que se recobriam da sombra dos cantos para poderem pinar em pé[4], esse cão acordava-os a ganir e a uivar numa aflição horrível, rebolava-se pela casa toda no que só podia ser uma dor intolerável, e morria ao fim de meia hora de enorme e insuportável pandemónio.
Capas do AGRIÃO! (1984) e do PONTO PÉ DE FLOR (1991) Duas homenagens sentidas ao Sebastiãozinho que o Germano Silva me trouxe do Porto, no comboio lento que era o único que existia antes de existir o luxo asiático do Alfa, dentro de um cabaz de vime duro cor de laranja e roxo, tapado por duas abas, daqueles onde as pessoas costumam levar e trazer os galináceos para o mercado.
Poucos dias depois, a matriarca arranjava maneira de fazer uma fractura exposta do colo do fémur, e, em consequência, morria no hospital. Tinha mais de noventa anos, e é muito raro um velhinho conseguir reendireitar-se duma violência destas. O médico que mais tarde vinha fazer a ronda e a encontrava morta dizia para o assistente que de certeza que aquela digna e veneranda idosa tinha, por fim, encontrado o pretexto para morrer que já andava a procurar antes do acidente ortopédico propriamente dito. Porquê, e era esta a última frase do meu primeiro romance, claro que ele, médico, não saberia dizer. Mas sim, a senhora ficara, ultimamente, sem qualquer razão para continuar a viver.
Morreu-lhe subitamente o cão, que era o último elo de uma cadeia cada vez mais ténue, onde já não entrava uma única pessoa, que ainda a prendia ao seu mundo rural, o único que, para ela, fazia sentido – mas que perdera de vez há menos de um ano. E, aqui chegados, os leitores saberiam de tudo isto, mas o médico não.
Aquele médico, que vinha concluir o romance a título da grande homenagem que eu queria prestar à sabedoria incrível do meu Pai, só percebia logo era que aquela idosa precisava de um pretexto para morrer. Estes instintos suicidas silenciosos são extraordinariamente delicados, e portanto ninguém fala deles. No entanto, são pequenos detalhes que os médicos com muita experiência de pessoas, e com muito carinho por elas, sabem logo à partida que pode acontecer aos seus pacientes se porventura eles vierem a perder, de todo, a vontade de estarem vivos.
O AGRIÃO! foi a minha primeira obra de ficção, mas a história da morte do meu Sebastião a meio da noite tal como descrita no livro em grande detalhe, saída de memórias ainda extremamente frescas, a ganir de dores horríveis às mãos de um veneno cujo efeito ninguém conseguiu evitar, foi uma história verdadeira. Não me tirou a vontade de continuar a viver. Mas, em grande medida, tirou-me logo ali a vontade de, só com 25 anos, continuar a ser a cabra daquela Clara Pinto Correia, com tudo o que as pessoas achavam que já sabiam a respeito da dita gaja.
A Clara Pinto Correia é um personagem de banda desenhada pelo qual eu nutro ainda hoje uma embirração profunda, e já a nutria naquela altura. Assim que pude, deixei Lisboa para trás e fui dedicar-me à Ciência completamente escondida pelas neves pesadas de Buffalo. Ao menos na América ninguém me conhecia. E, ali, as pessoas só me haviam de apreciar se eu fosse excelente a executar o meu trabalho de descoberta e dedução.
De maneira que, ainda por cima impelida pela excitação de estar mesmo a ver coisas que ainda mais ninguém tinha visto antes, me matei para ali a trabalhar. Em ano e meio publiquei dois papers em Journals com referee. E, entretanto, preparei na íntegra, em silêncio, pela noite dentro, a soma completa de uma outra escrita – aquela que, toda burilada em Português, viria a dar origem ao romance de louvor à promiscuidade em que as mulheres se entregam às grandes amizades umas com as outras, o PONTO PÉ DE FLOR.
O PONTO PÉ DE FLOR também tem um cachorrinho.
Capas do NÃO PODEMOS VER O VENTO (2012) e do TODOS OS CAMINHOS (2018) Por estas páginas andava já a infiltrar-se a presença pronta a tornar-se real de uma rafeira alentejana toda sofisticada chamada Alice, o que, na minha cabeça, se dizia Maria Alice para que o som das frases ficasse mais bonito. Ora acontece que este ano, na véspera de Natal, quando o meu grande amigo Bruno daqui de Estremoz (nem mais nem menos, pessoal, trata-se exactamente do Bruno do Zé Russo, que tanto quanto eu sei é um homem maravilhoso, e não tenho medo de ninguém) foi ao monte do amigo dele, ao pé do Vimieiro, trazer-me essa mesma cachorrinha que ainda estava com o resto da ninhada a mamar na mãe – enfim, já era noite, eles aos dois meses mal se distinguem, e foi assim que veio antes de lá um cachorrinho. E que, em consequência, voltei a andar por aí feliz da vida, de Sebastiãozinho ao colo como aos 24 anos. É de uma grande sobranceria completamente estúpida e extremamente perigosa, esta ideia de que podemos, nós próprios que não somos nada nem somos ninguém, modificar à nossa vontade o nosso próprio destino. O nosso próprio destino engole-se, não se modifica. No meu caso, por exemplo, está na cara que o meu destino se chama Sebastião. Não se chama cá nenhuma modernice tipo Maria Alice.
E esse cachorrinho, completamente criado à imagem e semelhança do meu Sebastião e trazido do Porto para Lisboa dentro de um cabaz de galináceos por um amigo protector da mulher que por um breve momento perdeu o Norte, vai ser o único companheiro que essa alma inquieta traz consigo, ao colo, a dormir, muito calminho porque ainda é muito pequenino, durante os seus quatro dias de peregrinação entre as trevas quando está a procurar o caminho para a luz e inicialmente nem sequer consegue ver onde é que essa luz se encontra. Na sua tranquilidade profunda e inocente de pequeno pássaro que dorme numa ilha deserta, tal e qual como acontecia com o Sebastião se por acaso me fosse dado ficar sozinha com ele, o cãozinho confortava e fortificava a mulher durante toda a corrida daquela imensa montanha russa.
Para disfarçar, baptizei esse cachorrinho adormecido de José de Oliveira Cosme. Era um dos senhores de OS PARODIANTES DE LISBOA, que tinha uma rubrica pessoal chamada A VIDA É ASSIM. Alguns leitores ainda se lembravam, outros não. Mas todos os leitores acharam o nome tripartido do cachorrinho minúsculo absolutamente hilariante.
Este romance foi publicado em 1991, ainda voltou a ser falado de novo quando ganhou um grande prémio literário que já não existe, foi vendido para outros países, ainda tive que ajudar alguns tradutores completamente perdidos na poeira daquele calão feminino cerrado – e depois foi flutuando para longe, e levou com ele a memória do boxer que chegou à minha vida adormecido dentro do tal cabaz que o Germano me trouxe do Porto.
Toda a gente sabe dos poderes misteriosos da nossa memória.
Foi só eu chegar ao conto de fadas da semana passada e revelar como foi que o Sebastiãozinho passou pelas nossas vidas. As memórias luminosas dele voltaram logo todas para o meu lobo frontal num tropel tão grande, e tão poderoso, que bastou a menina aqui do veterinário de Estremoz me dizer que afinal a rafeira alentejana chamada Maria Alice tinha que mudar de nome porque era um rapaz. Eu respondi imediatamente, antes de pensar, sem questionar de todo a origem das minhas palavras,
“OK, tudo bem, então ponha antes Sebastião na ficha.”
Bem vindo, Sebastiãozinho. Vais ver, a vida é mesmo tão emocionante como te tem parecido que é nestas primeiras semanas que passaste comigo. Embora darmos juntos um grande passeio por dentro dela, para tu começares a descobri-la? Só nós os dois? O que é que achas?
Vamos?
Enquanto fores um bebé, eu protejo-te. Aos seis meses já hás de ser um cão enorme que foi criado especificamente para as funções de guarda ao dono, portanto nunca me perguntas nada, nunca me exiges explicações – proteges-me tu, sem mais conversa, como só os cães sabem fazer.
Isto vai ser bué bom.
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
NOTA SOBRE O TÍTULO: Fui verificar, e conferi sem esforço algum que podia dedicar-me à minha vontade às Urgências Pulseira Laranja onde se carregam as baterias dos leitores. Há vários colegas meus do PÁGINA UM que estão a prestar um óptimo serviço à causa no que toca a zurzir na miserável classe política que nos saiu na sorte. E nesta sorte cabem os políticos venais da maioria absoluta governativa, e os políticos piores que medíocres da sua oposição. Alguém que fique tão desesperado como eu só de pensar no chorrilho de platitudes que ainda vamos ter que ouvir do Luís Montenegro até ele ficar sem voz, por favor levante a mão. É só para eu me sentir assim como que um bocadinho menos sozinha.
[1] Grupos Especiais. Por regra, constavam de um chefe branco, que treinava e liderava vinte comandos pretos. Foram as mais cruéis de todas as Forças de Comando no final da Guerra, responsáveis, por exemplo, pelos tenebrosos massacres de Wiriyamu. A seguir ainda apareceram os GEPs (Grupos Especiais Pára-Quedistas), mas não foram propriamente ainda mais úteis que os GEs. Foram, melhor que ninguém, certamente, ainda mais um passo em frente na escalada de loucura total que estas duas últimas organizações representaram. A Guerra já estava perdida, e Kaulza de Arriaga sabia isso.
[2] Eu sei que estes padrões existem apenas porque convivi com vários homens destes, e estive presente em dois dos seus encontros de confraternização em Fátima. Tirando isso, é impossível sabermos números ou padrões. O próprio Afonso de Albuquerque, que depois da Guerra foi O ÚNICO psiquiatra a acompanhar os soldados que voltaram para Portugal com stress pós-traumática, me disse quando eu escrevi o romance que o Regime tinha interditado todo e qualquer estudo relativo à existência de soldados portugueses com traumas. Um soldado português é sempre um moço valente.
[3] Esses bairros camarários eram meios que eu conhecia muito bem. Tomei como modelo o Lote 1, ao pé da minha casa, onde passava o tempo a organizar para os miúdos os ATLs dos dias de escola e as colónias de férias de Julho. As mães deles eram várias vezes as minhas senhoras da alfabetização. Os pais, era raro vê-los. Iam meter-se compulsivamente nos copos quando voltavam de todas aquelas fábricas ali à volta.
[4] Detalhes destes não constam só do pano de fundo do FEIOS, PORCOS, E MAUS. Naquela altura, naqueles bairros, aquelas mesmas pessoas que se tornaram famosas por plantarem couves nas banheiras como faz o clã desta ficção viviam mesmo assim.
“Os seus olhos, que tiveram já muitas visões, viram
quase tudo o que há para ver neste mundo e no outro.”
João Paulo Borges Coelho
As duas sombras do rio
Em 1982 as redacções dos jornais eram sítios aguerridos, barulhentos, de secretárias e máquinas de escrever muito velhas encavalitadas onde quer que houvesse espaço, pilhas de papel normativo a que toda a gente chamava com todas as letras linguados e nunca laudas, telefones fixos atirados para cima de qualquer espaço livre, e neste cenário estava sempre alguém aos berros, e a toda a volta estava toda a gente a fumar, toda a gente a engatar, e sobretudo toda a gente a mandar vir, a mandar vir, a mandar vir perdidamente num grande festival de liberdade. No nosso caso, levantávamos ainda mais a voz quando saíamos a terreiro em defesa do que queríamos escrever a seguir, durante as nossas longas reuniões de redacção de sexta feira, depois de já termos apanhado os comboios e posto o semanário O JORNAL[1] à venda em todas as bancas portuguesas. Eu era uma miúda que ainda estava a estudar Biologia e ainda nem sequer fumava nem bebia copos, mas defendia as minhas convicções com tanta energia como qualquer outro daqueles colegas que eu aliás considerava autênticos fósseis vivos[2]; e nesse tempo podia ter opiniões tanto ou melhor do que qualquer outra pessoa, desde que o meu trabalho fosse bom. Nunca disse isto a ninguém porque estava demasiado ocupada a defender-me ao palavrão de todos aqueles engatatões de terceira[3], mas tinha orgulho em nós. Éramos uma grande equipa. O António Mega Ferreira veio jogar connosco nessa altura, numa posição algo confusa mas que se subentendia visar com avidez o avançado-centro. Como era nosso costume, descartámos o António e começámos logo a tratá-lo por Mega Ferreira. Isto simplificou-se rapidamente para Mega. Foi assim que o tratei durante o nosso primeiro ano e meio de convívio digamos que laboral, cada vez mais divertido, e rapidamente carregado de insinuações cada vez menos veladas.
A questão dos nomes que nos habituamos a chamar àqueles que nos são mais queridos é para ser levada muito a sério, porque é aí que instalamos, quase sem darmos por isso, as nossas mais profundas e mais seguras zonas de conforto. De maneira que, quando começámos a namorar, pareceu-me perfeitamente pífio, e subsequentemente por demais desconfortável, trocar-lhe o nome de Mega para António, como seria de esperar se isto fosse uma história normal. Muito pelo contrário, o que realmente se passou comigo, logo a seguir à enorme ventosa escaldante do nosso primeiro beijo[4], foi um desenvolvimento lógico que me aconteceu a quente, de uma forma nunca antes minimamente premeditada, mas que nessa altura acabou por fazer História.
Em menos de uma semana de amor, os meus melhores instintos já lhe tinham atenuado o Mega de carácter laboral para o Meguinha de carácter afectivo. Até a minha sogra delirou com este desenvolvimento, e então o nome dele ficou Meguinha de vez, e era Meguinha em tudo, mesmo nas nossas piores discussões[5]. As pessoas que nos rodeavam apropriaram-se num instante desse Meguinha, de tal forma que a minha família nem chegou a conhecer-lhe outro nome: a única diferença, para os meus pais, para as minhas irmãs, e para os meus sobrinhos, foi sempre entre Meguinha ou Tio Meguinha. E toda a gente se riu muito quando eu, outra vez de instinto, comecei a abreviar este Meguinha para Guinha, às vezes até mesmo para Gui. Ele gostava de me tratar por Pretinha, um dos meus mais antigos e mais queridinhos nomezinhos de infância. Isto fez com que as pessoas nos chamassem Pretinha e Guinha. As nossas variações desse tempo foram um fantástico mundo de aventuras.
Finalmente, depois de um ano maravilhoso de vida em absoluto e perdido estado de pecado na porta giratória da Rua de São Mamede[6], só nós os dois e o Zé Matos e o meu boxer Sebastião aos pés da nossa cama, e as noites dos jardins de Lisboa onde íamos passear com ele, apanhámos toda a gente de surpresa com o cheque-mate mais colorido deste mundo. Sem dizer nada a ninguém, voltei a vestir, com muito orgulho e algumas lágrimas, o vestido cor de pérola da minha Mãe, da minha tia, e da minha irmã mais velha antes de mim; e foi assim que fomos casar-nos à igrejinha tranquila da aldeia dos meus avós. Foi tudo escolhido em cumprimento de uma promessa muito séria que eu fizera vários anos antes aos caseiros do meu avô, durante as vindimas, no intervalo do almoço de um dia quente e abafado de fins de Setembro.
O Senhor Zé Serrão estava para ali a praguejar que trabalhar com eles nos campos aos quinze anos era uma coisa[7], mas que mais tarde eu havia de ser uma grande doutora muito rica, havia de casar-me com algum outro doutor da mesma laia, e nunca mais iria querer saber daqueles dois pobres velhos para ali votados ao esquecimento sem fim.
E então eu jurei, perante todas as testemunhas do nosso rancho, que, quando chegasse a hora, ele e a Senhora Amélia seriam os meus padrinhos, fosse onde fosse que entretanto eu tivesse ido parar, na arbitrariedade total dos acasos deste mundo.
Mantivémos o evento limitado às dimensões da casa do Avô Jacob e da Avó Pinta, só mesmo com as famílias imediatas e os amigos mais próximos. O nosso casamento pertencia ao foro da alma. Penetra não entra.
Isto, para mim, era uma questão de honra, e com igual intensidade uma profunda questão de fé. Pelo seu lado, o Meguinha, que nem sequer era católico, adorou aquela linda canção de embalar com a promessa feita pela doutorinha às pessoas do povo durante as vindimas, apropriou-se logo dela, retocou-a e puxou-lhe o lustro, repetiu-a à sua Mãe e aos seus amigos que sabiam do grande segredo[8], e viajou lá dentro enquanto autêntico passageiro feliz, de medidas cumuladas por tanto pitoresco.
Nas três semanas de preparação para o domingo do enlace ele andou ocupadíssimo a esmiuçar as inúmeras impossibilidades do catolicismo com os padres inteligentes que se divertiram à grande com a tarefa insana de irem lá a casa para debaterem e rirem com gosto enquanto se sentavam connosco à mesa que eu punha com todos os cuidados[9], bebiam ali uns bons copos de um Vinho Verde soberbo e petiscavam uns belos de uns petisquinhos que eu lhes trazia da cozinha como quem não quer a coisa, e de caminho nos ajudavam a tornar toda aquela anarquia viável[10]. Por isso eu tive que tratar das alianças sozinha[11]. A minha dizia CLARA, como seria de esperar. E a dele dizia mesmo, assumidamente, MEGUINHA. Entre nós, já ninguém se lembrava de que ele antes tivera outras vidas, onde porventura fora outra pessoa e recebera outros cognomes.
Cinco anos depois, o nosso telefone tocou no escuro, pouco passava das seis da manhã e sabe-se logo que um som destes não é um bom sinal. Fui atender assustadíssima, mas o meu cunhado recusou-se a falar comigo. Quando finalmente o Meguinha lhe atendeu, ainda tonto de sono e a protestar que eu era louca, cheguei a ouvir a voz do outro lado da linha a dizer “o nosso sogro está muito doente”. A seguir sentei-me na cama num silêncio de absoluta consternação. Murmurei, apenas, “pronto, acabou.”
A velocidade destas coisas é cruel ao ponto de nos deixar mudos.
Pouco depois estava o meu Pai a morrer de cancro aos 56 anos, quando acabava de revolucionar completamente a sua vida e se tinha, por fim, transformado num homem tão feliz que nos emocionava e contagiava a todos na inspiração única da sua figura carismática que agora era maior do que a vida.
Só foi feliz durante um ano, e o cancro reclamou-o em sete meses.
Logo a seguir ao funeral, finalmente desfeita que ficou com ele a historinha exemplar Pretinha e Guinha, parti eu também para as neves eternas de Buffalo. Foi a minha vez de revolucionar de alto a baixo o meu pequeno mundo na grande gesta de concluir o doutoramento. Foi ali que vivi, por fim, a emoção de arrancar histórias ainda completamente desconhecidas ao grande silêncio das bancadas dos laboratórios, sempre em imenso esforço, e sempre, sempre debaixo de tanto gelo e tanto frio que nunca consegui olhar para trás. Durante muitos anos, nunca mais voltei a ver a Rua de São Mamede. Aliás, nunca mais soube da data precisa da floração simultânea dos jacarandás em todas as ruas que vão lá ter, a grande explosão psicadélica do mais vibrante púrpura que marca infalivelmente o início de cada Verão[12]. Quando, por fim, defendi as minhas provas no Instituto Abel Salazar, já o primeiro ministro era o Cavaco Silva, que já nos tinha ordenado, numa sobranceria que a gente dantes não usava, “deixem-nos trabalhar”. Havia boçalidade. Notava-se por todo o lado a presença indecorosa de um dinheiro que no entanto ninguém tinha,só me falavam de arrancar oliveiras e de destruir barquinhos da frota de pesca artesanal, aquilo não pressagiava nada de bom e o meu País, crivado de IPs e de portagens, estava por demais irreconhecível.
O conto de fadas, no entanto, nunca deixou de existir, tal como ficou gravado para sempre, com toda a nitidez, nos anais da memória afectiva de São Mamede.
É que, sabem, contei-vos esta história toda pelo que vale enquanto documento. Tenho presente, sem qualquer margem para dúvidas, que os anos de São Mamede, quando o Meguinha era o Padrinho e eu era a Mãe e absolutamente tudo era possível, não se limitam ao conto de fadas.
Na realidade, são o testemunho bem sucedido de uma época dourada em que ainda não existia a Europa, e nós ainda estávamos a testar a nossa liberdade[13]. Nos anos de São Mamede tinha eu começado a publicar os meus primeiros romances sob a vigilância atenta e delirante do Meguinha, existiam ainda verdadeiros críticos literários que defendiam as suas opiniões com verdadeiro brilhantismo, e Portugal era orgulhosamente o País que muito bem quisesse ser. Sabíamos que podíamos fazer tudo, desde que déssemos mesmo o litro e oferecêssemos mesmo o nosso melhor aos outros. E então a embalagem do nosso delírio criativo fazia nascer em São Mamede, de volta dos meus jantares lendários e sob a égide regalada do Meguinha, livros, ilustrações, fotografias a preto e branco pintadas por cima a cores, canções, espectáculos inteiros testados e rodados em palco para grande exuberância das audiências e felicidade sumamente grata do Meguinha[14], quadros a óleo, aguarelas, programas de rádio, tudo feito de raíz e tudo experimentado pela primeira vez. Perante os nossos resultados finais vi por vezes o Meguinha chorar de alegria[15] em público e sem reservas, num pranto de comoção assumida e puramente estética. Na altura era o melhor dos seus agradecimentos, e tudo fazia perfeito sentido. Íamos para a sala beber digestivos e fumar charros, a deixar correr a noite numa grande alvorada de ideias. Era um País ainda sem autoestradas que era muito bonito e estava feito mesmo à nossa medida, um País feliz e independente, cheio de leveza e de possibilidades.
Vive sempre em nós, no entanto, a imagem grata do Meguinha a pôr as cuecas na cabeça em sinal de protesto[17].
Na contracapa da colectânea A MÚSICA DAS ESFERAS, já muitos anos passados sobre a ocorrência, volta a aparecer esta jovem Pretinha numa foto paternal do Guinha. Foi primeiro tirada por mero acidente aos pés do Corcovado durante uma viagem festiva ao Rio e a Minas Gerais, quando fomos os padrinhos de casamento da Ana, que ainda hoje é a minha melhor amiga. Substancialmente mais tarde, veio a estrear, de forma discreta, na contracapa do romance ADEUS, PRINCESA. A seguir foi circulando de contracapa em contracapa como se o tempo não passasse, sobre uma vida real feita de enlaces e desenlaces, partidas e cegadas, casamentos e divórcios. E fez todo este percurso sem nunca incomodar ninguém, porque observou sempre um total anonimato em relação ao seu autor. E, sobretudo, porque era uma foto que oferecia total confiança, em toda e qualquer data, para toda e qualquer contracapa. Tinha o Selo de Garantia da Marca Meguinha. O Meguinha foi a primeira pessoa a ver-me começar a escrever um romance que parecia literalmente vindo do nada, e o primeiro a entusiasmar-se perdidamente, sem qualquer disfarce, com o que considerou desde o primeiro dia a grande qualidade da minha escrita. Depois leu algumas das melhores passagens do AGRIÃO! aos amigos reunidos em São Mamede numa das nossas jantaradas homéricas, onde tanto estavam os jovens prodígios musicais da minha banda como estavam o António Alçada e o Hermínio Monteiro. Nessa altura maravilhosa não houve nada que não nos fosse possível, porque vivíamos num País de grande felicidade e independência do qual já não restam hoje os menores vestígios.
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
[1] Mais tarde, O JORNAL daria origem à presente assépsia da VISÃO, mas são obras representativas de galáxias completamente diferentes, cada vez mais distantes na expansão imparável do nosso Universo.
[2] Pouquíssimos anos antes, no final do liceu e ainda em pleno PREC, fui uma militante toda vivaça das temíveis BEFS. As Brigadas de Extermínio aos Fósseis especializavam-se em telefonar para casa dos fascistas, aterrorizando as mães deles com contundentes “Brigadas de Extermínio aos Fósseis! O seu filho que não saia de casa hoje! Não voltamos a avisar!”, e outros avisos assim. Muito fascista chumbou por faltas devido à nossa obra.
[3] Numa noite de fecho, completamente grosso, o Joaquim Lobo chegou a saltar para cima da minha secretária – e depois ficou lá perdido, em pé, desamparado e infeliz, sem enxergar sequer uma sequência lógica para a parvoíve inútil daquele gesto ébrio. Eu nem disse nada, e limitei-me a ir continuar a trabalhar para outra secretária. Aquilo era bom. Éramos verdadeiramente um filme.
[5] Tínhamos os dois imensas convicções, e para benefício do seu próprio personagem o Meguinha imaginava a meu respeito cenários insultuosos que me enchiam de revolta. Portanto discutíamos imenso, e sempre com imensa paixão. Eram fogos-fátuos, no entanto. Eu fartava-me depressa, calava-me – e depois ficava ali de espectadora, assaz fascinada, a espiar minuciosamente todos os incríveis teatros do Meguinha. Irresistível, louquíssimo, deveras arrebatador. Estava ali, decerto, um homem capaz de dar com o Maquiavel em doido. Não há assim para aí muita gente que possa gabar-se de possuir os mesmos dons.
[6] Entrava e saía muita gente à procura de abrigo, e, sobretudo, de carinho e de calor. Uma das melhores especialidades da casa, que ainda tinha aposentos de criada e para onde eu ainda tinha contratado uma daquelas mulheres-a-dias mesmo de todos os dias que nós tínhamos na altura, foi a de albergar amigos em estado de terrível crise. Entravam perdidamente desfeitos, descansavam, começavam a rir connosco, vinham à praia na minha carrinha 4L novinha em folha, de caminho apreciavam devidamente o teatro bestial em que o Meguinha, sempre sentado no lugar do morto com o Sebastião ao colo porque não sabia guiar, via o cartaz enorme a dizer “SEIXAL SAÚDA-O” e bradava em tom perfeito de oratória parlamentar “Mas eu não quero ser saudado pelo Seixal!”, atordoavam-se com as nossas colecções discográficas que não eram iguais às de mais ninguém, nem queriam acreditar nas pessoas que apareciam por ali à hora de jantar todas como quem não quer a coisa, e acabavam por sair absolutamente refeitos, gratos para sempre.
[7] O Senhor Zé Serrão estava sempre a praguejar. Nem sabia falar de outra maneira. Só não praguejava com a Senhora Amélia, que ainda era linda e ele ainda amava com todo o coração. E também nunca praguejava com a mula, que vivia em casa com eles e entendia tudo o que o dono lhe dizia.
[8] Depois de já estarmos casados repetiu-a com gosto a toda a gente educada e culta que o quis ouvir. Era uma história cada vez mais bonita e acrescida do poder metafórico de verdadeiros jogos luminotécnicos como os que são usados nas óperas, porque o Meguinha sempre se preocupou cuidadamente com a construção e colocação em perspectiva de todos os seus cenários.
[9] Toda a gente se lambia com os meus peixinhos da horta de alho francês mornos e crocantes, que eram, em segredo, mais uma variação sobre a tempura do que um sinal de respeito por qualquer tradição portuguesa. E claro, bastava engrossar a massa e picar bem o alho para oferecer também aos convivas umas verdadeiras pataniscas de luxo. Eu chamava-lhes mesmo assim, para proteger o seu segredo: “experimentem as minhas pataniscas de luxo”. É um legume integrante das bancadas de alquimia, o misterioso alho francês. Cura gripes, restaura forças, e assume sabores inesperados conforme as ligações que se lhe oferecem. Trata-se bem, e com devida paciência. Não há cá segredos descobertos de um dia para o outro, e aliás as minhas primeiras experiências saldaram-se em desastres de monta.
[10] Inicialmente, o Meguinha parecia nem sequer ter certificado de baptismo, de tão anticlerical que fora a sua família. Isto obviamente inviabilizaria qualquer casamento católico, pelo que ainda chegámos a considerar a hipótese hilariante de o baptizarmos antes de o casarmos. Finalmente, com a ajuda da minha sogra, lá consegui descobrir o documento numa junta de freguesia perdida pelas ruas paralelas da Baixa, e acabou-se logo ali a galderice.
[11] Também as paguei sozinha. Nem pensei no caso, porque estas situações eram a regra daquela altura. O Meguinha dedicava-se voluptuosamente a projectos fascinantes que lhe apareciam pela frente com grande frequência como cantos de sereia, entregava-se-lhes de corpo e alma, sonhava acordado, subia todos os degraus até aos píncaros, e depois não era pago. Na revolta justiceira desencadeada por estes desfechos de mau gosto, verificava num olhar automático se eu estava bem vestida e bem penteada, agarrava-me pelo braço, e arrastava-me para jantar na esplanada amena de um dos restaurantes mais caros das redondezas. Pedia entradas e sobremesas, no fim bebia ritualmente mais do que um balão do seu tradicional Cutty Sark com duas pedras de gelo, e o vinho era sempre muito bom e muito caro. Este período de anarquia esconde a primeira e única vez em que eu fui ter com o meu Pai ao consultório, morta de vergonha, para lhe pedir dinheiro emprestado porque nos últimos dias já tinha esgotado de vez as várias potencialidades secretas da minha lata de Atum Tenório, não me restava absolutamente mais nada lá em casa, e se o Meguinha soubesse disto íamos logo outra vez para um restaurante de luxo esbanjar com grandes faustos imenso dinheiro que não tínhamos. Pedi uma daquelas pequeninas notinhas de vinte escudos, nunca mais me esqueço. O Pai ficou tão aflito que insistiu em dar-me antes vinte contos. Depois ofereceu-se para falar ele com o Meguinha. Foi assim que a estabilidade começou por fim a penetrar nas nossas vidas, e também isto pertence aos toques colaterais mais comoventes da história.
[12] Por acaso, a floração dos jacarandás é um bom exemplo de pequena história científica que, desde que muito bem contada, fazia o Meguinha lacrimejar de alegria.
[13] Por exemplo, aos 25 anos conquistei à custa de muito berro e muito insulto o direito a celebrar o Dia Mundial da Mulher com uma grande reportagem sobre a vida das lésbicas. Já estávamos a quase nove anos do 25 de Abril, mas a homosexualidade ainda era um segredo, e ainda nenhum jornalista lhe tinha oferecido nenhuma reportagem. E muito menos às mulheres. Na altura, ainda valiam muitíssimo menos que os homens. Estávamos longe de já termos conquistado tudo. Ilustrativamente, o Meguinha, quando soube desta reportagem, ficou furioso porque estava atento a tudo. Detestava aqueles meus “comportamentos marginais”, porque a minha imagem de “miúda malcriada” se reflectia negativamente nele.
[14] Este era um cenário bizarro e raríssimo, cheio de sabores e texturas experimentais, delicados e inebriantes, daqueles que acompanhavam maravilhosamente o seu percurso.
[16] Nesse País perdido o Meguinha era o nosso único Cappo, e só ele é que podia ditar regras. Podia repreender-nos à vontade quando nos considerava imaturos, ou descontrolados – ou, muito pior do que todas as outras falsas partidas deste mundo, medíocres mesmo. Quer isto dizer que, ao serviço da arbitragem cultural, nos punha os pés à parede com grande frequência. Depois enfatizava esses gestos com um olhar indignado da mais pura revista à portuguesa no seu melhor, que lhes dava um toquezinho Beatriz Costa e os rematava na perfeição. Aquilo, connosco a ver, era do melhor que havia. Dava-nos logo vontade de fazer melhor.
Ah sim, pois foi. Pois foi. Criou algumas assinaturas únicas, o Meguinha.
[17] Eram mesmo cuecas, porque na altura ainda nem sequer existiam os boxers. E todas as cuecas eram brancas, como mandavam as leis do mais elementar decoro no trajar da roupa interior. Pessoal, vamos lá a atinar, quando nós nos casámos ainda nem sequer existiam as lojas dos chineses, então – e, no princípio deste conto de fadas, ainda nem sequer existia a Feira de Carcavelos! Onde é que vocês queriam que eu lhe comprasse cuecas coloridas?
Aliás, e que comprasse. O Meguinha nunca as usaria. Não as consideraria de bom-tom.
“Devemos trabalhar com o que é nosso porque só as coisas da
nossa terra é que estão dentro da nossa compreensão.”
João Paulo Borges Coelho
As duas sombras do rio
Que lindo. E que bom. Que sensação tão agradável, esta, de termos orgulho nos nossos dirigentes. Acabámos de saber que o Presidente da República vai visitar a Ucrânia em 2023[1]. Enfim, claro, eu sei. Eu sei que este é um daqueles gestos relativamente fáceis de executar, e muito provavelmente também fáceis de programar para serem vistosos[2]. Mas que se lixe. A malta precisa. Pão e circo. A crise vai dura. Para todos os efeitos, estes gestos são tão bonitos, e vamos lá, por muito que possam ser demagógicos,[3] na verdade, na verdade temos de admitir que são também, antes de tudo o mais, tão indiscutivelmente corajosos que não é qualquer um que tem envergadura para eles[4]. É perante gestos destes que esperamos um eclipse momentâneo diante da vitória da Argentina no Campeonato do Mundo[5], e até um novo pico para a moral do esfalfadérrimo dirigente das Nações Unidas[6]. Mas, se o nosso PR quer visitar a médio prazo resistentes e heróis – não vai visitar já as nossas Urgências Hospitalares porquê? Eu sei que já falei nisso antes, mas entretanto o pesadelo não desapareceu. E há hospitais que nem Urgências têm. Sempre gostava de saber para onde é que os Bombeiros da região levam aquelas macas que estão sempre, sempre, sempre, sempre a chegar[7]. Enquanto houver Bombeiros, não é[8]? Senhor Presidente?…
… Falei-vos de formas de acudir aos pacientes que não foram, como é evidente, nem da escolha nem da responsabilidade do pessoal hospitalar que as executa. Percebia-se muito bem pelo tom das dezenas de mensagens e perguntas que os leitores me mandaram que quase ninguém acreditou em mim. Ou estava a gozar, ou estava a inventar, ou pronto, para efeitos de encorajar à leitura estava a recorrer indecentemente a tudo quanto era figura de estilo excessiva. E claro, estava a falar de mim. Aquilo foi um fait-divers. Não aconteceu a mais ninguém.
Mas sabem uma coisa?, a minha vida é minha e eu não sinto nenhuma espécie de interesse em andar para aqui a partilhá-la com centenas de pessoas que não conheço. E, se não gosto de falar da minha vida, ainda gosto menos de falar das minhas doenças. Só me faltava agora começar a despedir-me de toda a gente com o fatídico “então boas melhoras”. Não, eu só falo destas experiências quando percebo que elas estão a estender-se aos portugueses em geral. E ali, nas Urgências de Évora, onde ficávamos semanas a fio nas nossas macas à falta de camas nas enfermarias, os portugueses não eram só os que estavam doentes, como nós. Eram também os nossos cuidadores.
Os médicos, enfermeiros e auxiliares faziam o seu trabalho com muito carinho. Mas debatiam-se com uma tal falta de meios, aquilo ali era tudo tão extremo, que todos os dias tinham de recorrer a uma corda feita de lençóis cortados em tiras para amarrar as mãos de uma senhora à maca. Era para a protegerem de si própria. Senão, ela arrancava a algália, tirava a fralda, coçava-se até fazer sangue, desaparecia – e não podia estar sempre alguém ali ao seu lado.
Portanto, eles mantinham a máquina a funcionar com o que tinham à mão e sabiam usar.
Pelo menos com uma senhora.
Chegava a ser com duas ou três.
No fim disto tudo, os turnos eram muito lentos. E ficavam muitas pessoas a dormir em hotéis. Quando se passam dez dias numa Urgência, ouvir os telefonemas dos outros transforma-se muito depressa numa rotina. E admirar a sua dedicação também. Desculpem, mas eu vim de lá a admirá-los, mesmo.
E a considerar que mereciam ser condecorados pelo PR, seriamente.
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
[1] Reparem que eu escrevi “vai visitar”, e nunca na vida “tenciona visitar”. Já ninguém duvida da seriedade do PR quando ele nos transmite as suas intenções.
[2] Reparem que, mesmo assim, nunca escrevi “demagógicos”. É evidente que o nosso PR já há muito que conquistou o nosso respeito.
[3] Pronto, lá saiu o palavrão. Para esta frase fazer sentido, tinha mesmo que sair.
[5] Vamos lá ver, eu gosto imenso de bola, e o Campeonato do Mundo é pura adrenalina. Mas sobrelotar as notícias com a vitória da Argentina – porquê? Temos alguma ligação especial com a Argentina que eu não esteja a ver, na minha imensa ignorância? Esta vitória é bastante mais simpática do que a alternativa de ter ganho a França, mas, insista-se: a Argentina é um país com o qual não temos nenhuma relação de proximidade que justifique tanta berraria portuguesa. E está bem que todos os directores de informação têm necessidade de encher os chouriços dos seus canais, mas neste momento o Mundo está cheio de notícias grosseiras que se vêem muito bem, e reparem que ainda nem o Eduardo Cabrita nem a mãe da pequena Jessica, dependendo do gosto de quem está a ler-me, começaram sequer a ser adequadamente fustigados na praça pública.
[6] António, vá lá. Então? É preciso repetir-lhe que não está sozinho? Não está, mesmo. Nenhum de nós gosta do Putin. É uma praga do Egipto ainda pior do que o Trump, nenhum deles há de ir embora tão cedo, e na realidade ninguém sabe o que é que aconteceu às Pussy Riot. Vamos lá, homem. Lidere-nos. Peitaça para fora.
[7] Estão mesmo. É um sufoco. Vamos concentrar-nos em resolver este dilema, ou quê? Somos ou não somos uma Nação?
[8] Foram os Bombeiros que arrombaram a minha porta e me levaram já inconsciente para o Hospital de Évora. Se o Governo, na sua total frieza de maioria absoluta, escolher mesmo começar a deixar de financiá-los, quem é que vai acudir às pessoas como eu?
“Jesus Maria Corcovan era uma vereda que ia dar ao humanitarismo. Tentava aliviar o sofrimento, procurava mitigar a dor, compartilhava a felicidade. Não existia nenhum Jesus Maria endurecido, ou com pensamentos negros. O seu coração estava sempre disponível para quem dele quisesse fazer uso. A sua energia e o seu engenho estavam abertos a todos os que, nestes dons, fossem menos ricos do que ele.”
John Steinbeck
Tortilla Flat
Pois então, ora muito bem.
Sendo a realidade aquele monstro incontornável que mais cedo ou mais tarde nos apanha a todos nas curvas, também eu acabo de passar pela experiência sui generis de já estar extremamente doente em casa, acabar por ser socorrida pelos bombeiros, e depois ficar a receber o tratamento para a minha colite em cima de uma maca, nas Urgências de um grande hospital, durante os oito dias consecutivos que contribuiram para instalar a minha pneumonia. E atenção, nem imaginam a quantidade de velhinhas como eu que para ali estavam. Exactamente como eu, reitere-se: de batinha aberta atrás e cabelo empastado, de fraldinha e algália, algumas de nós em prantos e outras de nós em brados, todas nós com a nossa dignidade a esquivar-se para cada vez mais longe.
Agora, eu sei que esta descrição confere com todos os horrores que nos contam a propósito do Sistema Nacional de Saúde, mas mete-se-me pelos olhos dentro que seria criminoso deixar a descrição ficar por aqui depois de ter sido pessoalmente chamada a fazer parte integrante de um pesadelo desta envergadura.
Acontece que todas as ladainhas das desgraças da Saúde, tantas vezes recitadas aos ouvidos cansados dos Portugueses, têm um outro lado da moeda, e é absolutamente inacreditável que ainda ninguém tenha dito uma palavra a seu respeito. Porque, desse lado da moeda, de noite e de dia, estão a compaixão, o carinho, a paciência, de todo aquele pessoal encarregue de zelar por nós: auxiliares, enfermeiros, medicozinhos fresquinhos acabadinhos de sair do curso, e ainda maqueiros, bombeiros, meninos sangradeiros – toda aquela gente nos tratava como Jesus tratou os pobres, os pescadores, e as prostitutas. Toda aquela gente levava muito a sério o seu Juramento Hipocrático. Toda aquela gente, por muito que se estafasse, estava impecavelmente organizada para nos acudir. E, depois de percebermos isso, já podíamos respirar fundo e entregar-nos nas suas mãos. Com um alívio imenso, pelo menos do tamanho das nossas dores e maleitas…
… Não estou a brincar, nem a inventar, nem a exagerar. Fiz mesmo o número das velhinhas, 100% by the book: passei tanto tempo naquela minha maca que deu para perceber que as histórias das outras senhoras mal se distinguiam da minha.
E então a narrativa é mais ou menos assim, no que diz respeito às partes que eu recordo[1]:
Comecei por ficar fechada em casa porque seria de loucos ir às Urgências por causa de uma mera intoxicação alimentar. Depois comecei a deixar cair tudo das mãos, e a espalhar cacos por todos os meus cantos. Depois comecei a tropeçar, e depois comecei mesmo a cair. Depois comecei a ter períodos de inconsciência, ao que consta cada vez mais prolongados.
E depois, por fim, um dos meus melhores amigos, a quem eu nunca mais atendia o telefone, assustou-se. Não esteve para mais meias medidas, e chamou logo os bombeiros. Os bombeiros, profissionais de salvar velhinhas, arrombaram-me logo a porta e vieram em meu socorro.
Ainda me lembro de estar a vê-los subir a escada.
E, depois disto, não me lembro de mais coisíssima nenhuma.
Entrei inconsciente no Hospital de Évora, recuperei os sentidos já em cima da tal maca, demorei um bocado a perceber onde estava e a lembrar-me do nome da cidade onde vivo, ainda meti água da primeira vez que me perguntaram a idade[2], e a seguir começaram a passar dias e dias e dias, todos iguais e todos perfeitamente amparados pela tenacidade e pela dedicação das equipas que se iam sucedendo à cabeça do serviço.
Ouvimos dizer que este era o Corpo de Cristo. CPC esteve infiltrada e investigou.
Todos os dias vinha sempre uma dupla de uma auxiliar com uma enfermeira, de peso e altura muito bem calibrados, para evitar desequilíbrios, fazer-nos os chamados posicionamentos. Ou seja, nós torcemo-nos todas a tentar dormir, e a dupla repõe-nos direitinhas dentro dos confins complicados da nossa maca, para evitar mais dores musculares. E vêm ter connosco sempre de cara alegre, embora muitas vezes o nosso peso bruto as obrigue a verdadeiros trabalhos forçados. Mais: vêm sempre a tratar-nos por querida, vizinha, meu amor, princesa, e outra coisas assim. Coisas mesmo boas de ouvir no caos aparente de uma Urgência.
Todos os dias vinha sempre um médico muito querido fazer-nos o update da nossa situação clínica com voz de veludo, e explicar-nos, uma vez mais, que só estávamos ainda ali nas Urgências porque não existia, mesmo, qualquer espécie de vaga na Medicina Interna. Isto está assim em todos os hospitais. Não há mais espaço, e não há mais pessoas. Mas os portugueses, abalados pela crise da COVID, e logo a seguir pela crise da Guerra da Ucrânia, andam cada vez mais deprimidos. O que quer dizer que ficam cada vez mais doentes. Mas agora não se preocupe, e tente mesmo descansar.
Todos os dias íamos fazer um ou outro exame, e depois o especialista punha-nos a mão no braço com muito cuidado, e dizia, com toda a sinceridade, então as suas melhoras.
Todos os dias alguém nos levava até à casa de banho, a empurrar a maca com imenso jeitinho. E, depois de lá estarmos dentro, a pessoa lavava-nos e dava-nos um banho. Tal e qual como a Madre Teresa quando lavava as chagas dos párias de Mumbay. Este é o corpo de Cristo.
Todos os dias aparecia por lá o maqueiro Ricardo, que nos brindava com piadas eruditas, tipo, confie em mim que eu sempre fui um homem muito à frente e até tirei logo a carta de condução em 1652 que era para ficar despachado.
O que a Comunicação Social nos diz é uma tanga descarada ao pior estilo tuga da esperteza saloia.
É muito fácil apupar, denegrir, e deitar abaixo tudo o que ainda estiver em pé. Entretanto, em absoluto anonimato e subjugado por faltas de condições orçamentais que o ultrapassam, o Serviço Nacional de Saúde continua a funcionar com a maior abnegação deste mundo. Num País nada espartano e muito pouco dado a heróis, estas pessoas que acumulam horas, e dormem em hotéis para conseguirem acudir-nos a todos por igual, são a verdadeira definição de tudo quanto é estóico e de tudo quanto é heróico.
Então e o nosso Presidente, que gosta tanto de condecorar os seus súbditos? Nem sequer lhes dá uma medalha?
Isto é tudo uma vergonha, uma vergonha, uma verdadeira vergonha![3]
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
[1] Disseram-me que houve várias outras, mas a questão parece-me despicienda. Foram todas partes gagas de velhinha.
[2] De certeza que foi por causa do romance que acabei agora mesmo de escrever. A principal protagonista tem 53 anos. Foi isso mesmo que eu comecei por dizer ao medicozinho Emanuel Noivo, quando, na realidade, estou quase a fazer 63. Em troca da gaffe, ele mediu-me a tensão e a temperatura. Sem comentários. Não se pergunta a idade às senhoras.
[3] Estava sempre a repetir a Dona Isilda, que passou cinco dias na maca ao lado da minha.
Nota: O título da crónica “Este é o corpo de Cristo” remete para a máxima que os frades e freiras da Ordem dos Missionários da Caridade (criada por Madre Teresa de Calcutá, em 1950) repetem uns para os outros e para si próprios enquanto lavam os corpos esqueléticos, imundos, e lacerados dos Intocáveis.
“As hienas não merecem respeito algum e falam inglês com sotaques
que soam vagamente a nativos do Médio Oriente.”
Binyavanga Wainaina
Conselhos ao Jovem Escritor Africano
Não deixa de ser intrigante, isto das mentiras de uns longevos dirigentes socialistas um tanto ou quanto metidos a hienas. Com todo o devido respeito, note-se. Mas quer dizer, pois se formam grandes bandos, se organizam as suas manobras a coberto do escuro[1], se a gente as ouve rir sem conseguir vê-las, se se alimentam do trabalho que os outros fizeram[2], se nos enganam tão bem que nem sequer conseguimos distinguir os machos das fêmeas[3]…
…isto é assim: o que parece uma hiena costuma ser uma hiena.
Mas até as hienas assumem logo ali que metem nojo e passam à frente[4]: só mentem na imitação de escroto que caracteriza estas fêmeas e mais nenhumas, que é para deixarem bem claro que naqueles bandos são elas quem manda[5], e mais: são sempre elas as últimas a rir[6]...
… É verdade que, na nossa cultura, começámos por memorizar imensos preceitos, mínimos e sensatos, que nos permitissem conviver sem nos comermos vivos logo todos uns aos outros. É por isso que decorámos na escola[7] regras básicas tais como não matarás, ou não cobiçarás a mulher do próximo [8], e tal. Mas por favor, reparem neste detalhe: é certamente um bocado assustador não constar,nem ao menosnos Dez Mandamentos, nada que nos diga, com toda a clareza, não mentirás[9].
Eu, pelo menos, acho mesmo que é um bocado assustador.
Ou então podemos considerar que existiam nesse tempo certas atenuantes.
Se calhar, como na altura em que Moisés viu a sarça ardente existiam muito menos pessoas, com muitíssimo mais espaço para se manterem afastadas umas das outras, mentir não estava sequer na ordem do dia. Aliás, bem vistas as coisas, de que é que serve mentir, quando os herdeiros das supramencionadas regras básicas de convívio ameno passam quarenta anos às voltas no deserto,[10] e entretanto Deus os conforta com imensos milagres[11]?
Ou então, também pode ser que as pessoas ainda nem sequer estivessem conscientes das potencialidades aliciantes deste privilégio humano, certamente engendrado pelo fruto da Árvore da Sabedoria, uma vez que mais nenhum outro animal sabe mentir.
Enfim.
Aceitemos que ninguém sabe como foi que isto aconteceu – mas a verdade é que isto aconteceu mesmo. E, onde ainda em pleno século XX tínhamos excepções horrorosas de quem era fácil não gostar, como por exempplo o Estaline ou o Pol Pot, agora a excepção passou a ser a regra, e sabe esconder-se muito melhor.
A meio do século passado, o grande Churchil bem pode ter dito que a democracia é o pior sistema político que existe, à excepção de todos os outros. Este aforisma genial ainda nem fez cem anos, e já ninguém se lembra dele. Com a passagem dos milénios, uma classe profissional inteira especializou-se magistralmente na perfeição de mentir sem qualquer sinal visível de vergonha, e conseguiu chegar ao ponto de ganhar todas as eleições democráticas do mundo.
E aqui está o resultado que ninguém viu chegar a tempo de lhe pôr os travões a fundo.
Entramos no século XXI e já ninguém sabe quem era esse gajo, esse Churchill: em vez dele, temos antes o Trump, o Putin, o Kim Jong-un, o Xi Jinping, a COVID-19 a tornar tudo ainda mais suspeito – para não falar de uma data de sobas africanos tão ricos que até dói, ou de um enxame de chefes tribais do Médio Oriente de cujas mãos escorre o petróleo que move o mundo. E mais todo o ruído de fundo que nos rosna às canelas de dentro da grande destilaria de veneno vinda da internet. Todos eles nos mentem. A gente ouve-os, e sabe que eles estão a mentir. Mas em 2022 a verdade é esta, e é horrível: agora, já não podemos fazer nada.
Aqui podemos ver a Prof.ª Doutora Clara Pinto Correia considerando cada vez mais seriamente a sua nova carreira política. Como também podemos ver, a Prof.ª tem vindo a fazer progressos. Progressos pequenos, sem dúvida, mas significativos, nevertheless. Primeiramente, já aprendeu a parecer uma senhora que frequenta assiduamente os croquettes do Ministério da Cultura. E seguidamente, mais importante que tudo, até já consegue sorrir de forma perfeitamente credível. No entanto, o que realmente ainda não conseguiu decidir foi que bancada é que vai escolher para continuar a citar o Jorge Palma: o seu coach impede-a de chegar a essa fase, porque continua a considerá-la uma das piores mentirosas que alguma vez lhe passaram pelas mãos. “E ó Professora, a senhora por favor enxergue-se enquanto ainda vai a tempo. Ou acha mesmo que sobrevive no shark-tank se vai aparecer assimnasfestas do seu partido?” – “Aaaah… assim como, mister?” – “Ó senhora, pela sua rica saúde… assim sempre sem sutiã, com a gaita! Ou o que é que acha? Acha mesmo que alguém se vai dar sequer ao trabalho de ouvir as intervenções de uma gaja de 62 anos que nunca usa sutiã?” – “Mas, mister…” – “Mas my ass! Não lhe bastou aquilo do orgasmo?”
O que nos traz de volta ao Primeiro Ministro a falar ao País pela televisão, sorrindo, fitando de frente a câmara, e garantindo a todos nós que em Outubro 99% dos reformados ia receber mais 50% da sua pensão.
Ficámos na parte em que eu, espertíssima, vi logo que o grande ilusionista estava outra vez a mentir: se já não eram todos os reformados mas apenas 99% , então de certeza que entretanto iam fazer-se para ali uns truques e os laissés pour compte[12] acabavam aí nos 50 ou 60%.
O que vale é que, de facto, já quase ninguém acredita nos políticos. Pelo menos, nenhuma pessoa com quem eu tenha falado aqui em Estremoz, e toda a gente com quem estive ao telefone para todos os quadrantes do País. Isto é horrível em si mesmo, mas é o que tem que ser: a única arma de defesa que ainda resta e é de graça: a gente não quer voltar a aleijar-se, e portanto a gente nem os ouve. Esqueçam os vossos mitos urbanos: os alentejanos são super-rápidos e ultra-espertos. Ó Clarinha, e logo a Clarinha que é tão inteligente. Então está-me a dizer a mim que ele disse isso? Pois com certeza, quando é só para dizer eles dizem todos muita coisa.
E depois eles ficam-se a rir, porque eles são como as hienas.
Não há nada que o povo de Estremoz não saiba há já muitos séculos[13].
Daí a quinze dias, misteriosamente, metade das pessoas que percebem profissionalmente de dinheiro, como por exemplo os contabilistas, ainda repetiam 50%. Mas, entretanto, já corria outro rumor, vindo sabe-se lá de onde, segundo o qual todos nós, fosse qual fosse a nossa pensão, íamos receber por igual 125 euros. Já ninguém percebia, mesmo, onde estava a verdade. E, sobretudo, nenhum de nós conseguia descobrir quando é que essa verdade entraria nas nossas contas.
E assim se passou todo o mês de Outubro, sem que nunca, mesmo nunca, a contar até dia 31, tivesse entrado fosse que ajuda do governo fosse nas finanças magras dos habitantes daqui do fundo da vaza[14].
E a parte mais espantosa? Pelo menos para mim, que ainda gostava de saber o que é que hei de fazer pela Lua[15]? É que as nossas hienas nem se deram ao trabalho de fazer para ali uns malabarismos que justificassem o incumprimento da promessa. Nada, não disseram nada. Limitaram-se a deixar chegar o dia 1 de Novembro. E pronto. Daqui a mais dois ou três dias já é Natal.
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
[1] Palavra que consabidamente pode ter um número impressionante de segundas intenções – e nunca são boas.
[2] Mas vocês julgam o quê, que caçar herbíboros é um hobby? Perguntem ao chita, aquele felino lindíssimo que é o animal mais rápido do mundo, capaz de atingir 114 km/h no sprint final atrás da gazela. Assim que a apanha, a primeira coisa que faz é fugir com a presa nos dentes para um lugar seguro. Sabe perfeitamente que, se ficar ali uns minutinhos a mais que seja, vem logo de lá um bando enorme de hienas ridibundas, que…
[3] Força de expressão. Qualquer biólogo os distingue. O macho, coitadinho, é mais raro, é mais pequeno, tem o pêlo mais ralo, e o seu escroto é menos visível. O escroto das fêmeas é só um disfarce, mas vê-se muito bem.
[4] Claro, chatas e barulhentas, todas a falarem inglês com os seus sotaques do Médio Oriente como se quisessem obrigar-nos a ver a Al-Jazheera o dia inteiro, mas pronto: o que interessa é que não escondem que são hienas.
[5] Eu sei, dá uma péssima imagem do meu próprio género. Mas isto é biologia, não é política.
[6] Por acaso também há aquela canção do Jorge Palma que… ná, esqueçam. Coitado do Jorge. Cantava aquilo como se estivesse realmente apaixonado pelo seu tal de Anjo Mau.
[7] Eu estava num colégio de freiras, mas isto era assim em toda a Metrópole e em todas as Colónias: os Dez Mandamentos decoravam-se nas aulas de Moral e Religião Católica da primeira classe. E, nesse tempo, não havia cá modernices tipo cadeiras opcionais. QUANTAS VEZES É QUE EU TENHO QUE REPETIR QUE ISTO É UMA DITADURA EM GUERRA CONTRA OS COMUNISTAS DAS COLÓNIAS, SEUS PALERMAS?
[8] OK, OK, OK, eu também adoro citações por extenso, sei perfeitamente que, da mesma forma, não podemos cobiçar-lhe nem a casa, nem os servos, nem, sobretudo, e claro que esta é a minha preferida, nem o seu boi ou o seu jumento. O que, quando se é uma menina malcriada, dá logo vontade de perguntar às freiras se ao menos a gente pode cobiçar-lhe o cavalo. Depois entra-se na adolescência e perde-se a graça. Só nos ocorre aquele previsível “ó Irmã, mas então eu posso cobiçar os maridos das minhas próximas, certo?”
[9] Peço desculpa, mas Não prestarás falso testemunho contra o teu próximo é uma referência à mentira extremamente restritiva.
[10] Isto, ao menos, percebe-se logo que foi por culpa do Moisés. Está certo que falava com Deus, mas que diabo, era um gajo. Enquanto tal, de certeza que se recusou a perguntar o caminho fosse a quem fosse, porque é issoque todos os gajos fazem. E NINGUÉM que seja guiado por Deus demora quarenta anos para atravessar aquela faixazinha dispicienda de deserto que vai do Egipto à Palestina. Tenham dó.
[11] Estão a ver aqueles filmes todos de seu nome A BÍBLIA, antigos e modernos, cheios dos efeitos que cada época permite? O Mar Vermelho a abrir-se para o Povo Eleito e a fechar-se sobre as poderosas quadrigas dos Egípcios? O direito diário àquele famoso maná que vem do Céu e alimenta o corpo e a alma? Ora bolas, assim também eu.
[12] O País continua assim, e eu, da próxima vez, escrevo mesmo os damnés de la Terre. Ah! Adoro exibir alarvemente toda a minha inesgotável erudição.
[13] Incluindo que Olivença é nossa. Oiçam falar os amantes de arquivos que estudaram o apoio da cidade às tropas liberais: de repente, faz tudo sentido.
[14] Mais outra expressão de biólogo: aplica-se às tainhas, por exemplo. que se alimentam da porcaria toda que se junta no fundo das águas salobras. Mas depois são muito boas quando as fritam em vinagre, acreditem.
[15] “A gente já não sabe o que há de fazer pela Lua” é uma das minhas citações repentistas do Jorge Palma, utilizada, ali, mesmo a matar, na crónica anterior.
“O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente,
pelo que os grandes homens são quase sempre homens maus.”
Lord Dalberg-Acton
in THE RAMBLER, 1859
Ó Mãe, mas tu vais ficar zangada… Ó Mãe, mas não foi de propósito… Ó Mãe, mas eu gosto muito de ti… E, se eu os deixasse, os meus filhos continuariam nestes preliminares durante uns bons vinte minutos[1] antes de me confessarem a última grandessíssima porcaria que tinham cometido no caminho mínimo da escola para casa.[2] De maneira que eu cortava imediatamente a choraminguice com o meu já bem conhecido e deveras sonoro: Ó FILHOS! A ÚNICA COISA QUE A MÃE NÃO ACEITA QUE VOCÊS FAÇAM É MENTIR, PORQUE MENTIR É QUE METE MESMO NOJO! OK? E não os endoutrinei assim só por total falta de paciência para preliminares[3]. Foi mesmo porque há que horrorizar as criancinhas com o asco de mentir tão cedo quanto possível. Senão, elas vão mesmo mentir o mais que puderem, porque toda a gente que vêem na televisão ou está a mentir ou imita muito bem, o que é particularmente chato a partir do momento em que as pessoas inventam a democracia. Porque depois descobre-se, com grande horror, que não há ninguém neste mundo que minta mais do que os políticos. Sobretudo quando se apanham de posse do poder absoluto. E então… A gente já nem sabe o que há de fazer pela Lua[4]!…
… Este é um exemplo dessas mentiras que fez muita gente passar mal durante o mês de Outubro, portanto tenho a certeza de que não há pensionista que não se identifique. Pelo menos aqui em Estremoz, onde me fartei de fazer sondagens sobre o assunto a toda a gente com idades iguais ou superiores à minha. Uma vez mais, a história começa com António Costa a fazer o seu sorriso de proprietário da maioria absoluta. A gente percebe logo que vem lá bazuca.
Desta vez, o Primeiro-Ministro veio explicar à Nação, em directo e ao vivo no noticiário das 20, que sente no próprio peito a aflição que o povo português está a sentir por causa da perda do poder de compra resultante da guerra na Ucrânia. E que, tendo em conta essa aflição que não pára de crescer, como o seu governo bem gostaria, mas, na realidade, não consegue mesmo ajudar toda a gente[5], decidiu pelo menos ajudar os reformados. E portanto, já em Outubro, cada reformado vai receber mais 50% da sua pensão.
Eles são mesmo bons nisto. Conseguem fazer as pessoas deixar de pensar. As declarações de António Costa foram tão ambíguas que muitos reformados quase que dançaram em pontas, imaginando que iam viver substancialmente melhor daí a quinze dias[6]. Devemos ter sido tantos que o chefe dos necrófagos voltou ao noticiário logo no dia seguinte, compelido a explicar a todos estes analfabetos funcionais, a estes reformados como nós, que a sua generosidade, nunca vista, se aplicava exclusivamente ao mês de Outubro. Mas fiquem descansados, ó pobres mexilhões[7]: posso garantir-vos que pelo menos 99% dos reformados vai mesmo receber em Outubro os seus 50% adicionais.
Olhem. Eu, pelo menos, recomecei a pensar logo ali no acto.
“Olha que pena. Afinal o senhor até já está a preparar o caminho para uma justificaçãozinha burocrática da treta que vai transformar esses 1% aí nuns bons 50%. É mais forte do que eles, só pode ser: este político, tão experimentado e tão hábil, já está outra vez a mentir. Que tristeza. Vou mas é ignorar as notícias, mudar completamente de canal e de agulha, e ver ou um bom bocado de FAMILY GUY ou um bocado de THE BIG BANG THEORY ainda maior, que isto não é propriamente a melhor fase do campeonato para nos darmos ao luxo de ficar clinicamente deprimidos.”
Raios me partam, que sou mesmo ingénua.
Ali a imaginar que já tinha topado o golpe quando ainda nenhum de nós sabia nem da missa a metade.
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
Profª. Doutora Clara Pinto-Correia considerando a sua nova carreira na política. Por enquanto ainda não tomou decisões sobre a bancada a seleccionar para poder ao menos espadeirar citações do Jorge Palma em tudo iguais ao original, excepto na honestidade: ainda não vale a pena gastar neurónios nessa selecção, porque o seu coach de bem mentir continua a recusar-se a conceder-lhe o devido e indispensável diploma. A Professora ainda nunca conseguiu mentir sem abrir logo ali o jogo mostrando-se visivelmente desconfortável. Ó Professora, sabe porque é que precisa de esforçar-se mais do que os outros? É simples. Foi doutorar-se para a América em vez de ir fazer o tirocínio das Jotas. Sua tontinha. Vamos lá tentar outra vez: “adoro ter que partilhar casas com completos desconhecidos que, tal como eu, sozinhos nunca conseguiriam pagar uma renda de Lisboa”. E mostre um bocado mais de entusiasmo, se faz favor. Ou acha que é pedir muito?
[1] No mínimo. Quando jogávamos aos preliminares durante as viagens de carro eles chegavam a estar uma hora inteira nisto sem nunca se repetirem.
[2] O que não impede que tivessem cometido outra cinco minutos antes.
[3] Quer dizer, preliminares de filhos que estão com medo do castigo da Mãe, entenda-se.
[4] Citação do Jorge Palma, uma vez mais feita de cor. Ha!
[5] Porquê, mas porquê, mas porquê? É que ELES, esta parte, nunca explicam.
[6] Eu, por exemplo. A minha reforma nem chega a atingir o salário mínimo.
[7] Para quem já não conheça os provérbios portugueses: “Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão.”
“Torna-se cansativo deixar de poder acreditar na espontaneidade.”
António Cabrita
O mundo não tem pressa
Solo de saxofone.
Voz:
Jonas está agarrado ao seu saxofone/ A namorada deu-lhe com os pés pelo telefone/ E ele encontrou inspiração numa notícia de jornal/ Acerca de uma mulher que foi chamada a tribunal/ Por ter assassinado uma criança recém-nascida/ E o juiz era um homem que prezava muito a vida/ E a pena foi agravada por tudo se ter passado…
Três acordes de piano.
Voz:
DO LADO ERRADO DA NOITE...
… O que é que eu estou para aqui a fazer?
Pensei que fosse evidente. Estava a citar o Jorge Palma, não era? E estava a fazer a citação completamente de cor e salteado, porque foi isso mesmo que os outros senhores fizeram, e se eles podem eu também posso, porque também sou filha de Deus. Se a demagogia dos políticos já chegou ao ponto de andarem ao soco em público usando uns contra os outros as palavras de um homem que fugiu a salto para França no trilho por onde se escapava às garras do Antigo Regime, e que depois sobreviveu longos anos a cantar no metro, e que depois voltou a casa na euforia da Revolução mas ainda se passaram no mínimo três décadas até que as pessoas deixassem de considerá-lo um completo marginal…
… bem, deixem-me respirar, coitado do Jorge, que pouca vergonha…
… porque vocês viram, não viram? Ou fui só eu que vi? Aquela sessão inacreditavelmente penosa do Parlamento, em que tanto o nosso Primeiro como as bancadas da Oposição se desdobravam em mortais empranchados e flic-flacs à rectaguarda para começarem cada um dos seus discursos ocos com uma boa citação do Jorge Palma? Que horror. Era o António Costa, com aquele seu ar de pasha repimpado, todo confortável em cima da sua maioria absoluta que tem vindo a tornar-se cada vez mais desconfortável, a fechar qualquer coisa que não queria dizer nada com um sorridente…
“… e, citando o Jorge Palma, Enquanto houver ventos e mar/ A gente vai continuar…”
Para ser atacado pela bancada do PSD com um retumbante…
“… Ó Senhor Primeiro Ministro, se é para citar o Jorge Palma o senhor está éFrágil, está tão Frágil que já nem consegue ser ágil…[1]”
… seguido de qualquer outra coisa que também não queria dizer nada; para logo a seguir ser agredido por um deputado da direita que se apressou a bradar, sem sequer acrescentar a seguir mais qualquer coisa que não quisesse dizer nada…
“… e o Senhor Deputado escusa de fazer de conta que repudia as políticas do governo, porque, para citar o Jorge Palma, anda há imenso tempo a implorar-lhe Encosta-te a mim…”
… o que foi um desfecho verdadeiramente horrível, porque, de todas as grandes canções do Jorge Palma, este lean on me[2] em português é a única que pode considerar-se verdadeiramente foleira[3].
E é pena os Senhores Deputados irem todos para casa cedo, senão ainda poderíamos ter assistido a um encerramento operático, em que toda a gente, nas bancadas e na assistência, cantava em coro polifónico uma das verdadeiras grandes canções de Jorge Palma…
“… São sete da tarde e tá-se tudo a passar/ Uns andam em frente e outros querem virar…”
Uma vez mais, citado de cor.
Não se metam comigo no que toca a citar o Jorge Palma. Ao menos isso.
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
[1] Citação, ainda por cima, neste caso feita de forma incorrecta para servir os propósitos dos oradores.
[2] Em português, “lean on me” traduz-se, literalmente, por “Encosta-te a mim”.
[3] Opinião que talvez seja só minha, mas esta crónica também é.
Agora já estou a receber pedidos de tudo quanto é desconhecido para explicar melhor porque é que é tão difícil ressuscitar um cérebro – ou, ao menos, por que é que um cérebro é um órgão de tal forma complicado que, depois de morto, já não voltamos a conseguir acordá-lo.
Há que ver que eu fiz o doutoramento em fertilização no mamífero, fiz o pós-doutoramento em clonagem no mamífero, e daí parti para Harvard para estudar História da Biologia sob a supervisão do genial Stephen Jay Gould. Até hoje, é sobretudo em História da Biologia, estreitamente associada à História das Ideias, que continuo a trabalhar. No que diz respeito ao cérebro, sei apenas todas as banalidades que todos os Profs que trabalham em Medicina, Biologia, Veterinária, ou assim, têm mesmo que saber para conseguirem dar aulas dignas desse nome e mais ainda – aulas animadas e interessantes. Portanto, explicar coisas destas às pessoas é para mim uma grande responsabilidade. Mas, pelo menos, tem desde já o mérito de confirmar a minha suspeita de sempre: as pessoas GOSTAM de saber as coisas, GOSTAM de entender o que está realmente em causa – desde que a gente faça o esforço de lhes falar numa linguagem que elas entendam…
… Bom. Antes de mais nada, e ao contrário da esmagadora maioria dos componentes do nosso organismo, já vamos ver que o cérebro é um órgão extremamente social. E isto acontece porque é feito de diferentes peças de um puzzle tramado. Enquanto os outros órgãos, incluindo o já tão falado coração, são constituídos por células mais ou menos banais, o cérebro é antes constituído por neurónios[2], todos eles com os seus axónios e as suas dendrites. Gostaram?[3] Vistos ao microscópio estes conjuntos parecem arvorezinhas, mais ou menos folhosas, com raízes mais ou menos pequenas e mais ou menos ramificadas. Da disposição correcta desta vegetação depende a passagem correcta dos impulsos eléctricos que transportam a informação de um lado para o outro, e, finalmente, a transmitem ao Sistema Nervoso Central.
E então vamos à parte social.
É ela que permite que tudo isto corra bem.
Clarinha em péssimo estado. Em relação a esta foto, devo dizer que as pessoas nunca perceberam mesmo nada. Fazia parte de uma qualquer campanha, das muitas que houve na altura, sobre a cultura portuguesa imediatamente antes de nos juntarmos à União Europeia. Eu nesse dia estava doente, mas mesmo, mesmo doente – com 39 graus de febre, dores no corpo todo, hemorragias, suores frios que me molhavam a roupa toda, o cardápio inteiro do que devia ser um desses acessos de paludismo que eu tenho de vez em quando e no dia seguinte já passaram. Mas não quis deixar ficar mal os escritores do meu País e fui à mesma – porque o corpo podia estar numa miséria, mas o cérebro continuava a funcionar perfeitamente. E, desde que o seu cérebro trabalhe, qualquer pessoa doente pode ir dar entrevistas à confiança. Mas não estava de todo à espera de um dos resultados dessa entrevista feita exclusivamente de cérebro. A conversa e as fotos acabaram por ser publicadas nem sei onde, e ouvir os comentários subsequentes das pessoas é que foi estranho, mas a sério, foi mesmo estranho – e, ainda por cima, durou várias dias. Era tudo, sempre, mais ou menos assim, Fosse gajo ou fosse gaja, E isto porque o Rainbow ainda não existia à altura: Naquela foto fantástica, eu estava tão misteriosa… tão sensual… tão impossível de não olhar… tão incomparável… via-se logo, tão inteligente e ao mesmo tempo tão vulcânica… tão impossivelmenteinteressante… tão diferente dos outros… nada a fazer, reconhecia-se logo ali que eu era, mesmo, a Princesa de Portugal[4]… … Não, oiça, é um mal-entendido, eu estava era cheia de febre… … Ah, por favor, não desrespeite o dom que lhe foi atribuído por Deus… está-lhe no sangue, não brinque com isto. E nada a fazer, eu apenas tentava acabar delicadamente a conversa o mais depressa possível.
É durante a gravidez que o cérebro em formação vai pondo o seu puzzle na única ordem correcta possível, mas não pode fazer isto sozinho: organiza-se sempre em estreita ligação com as informações que vai recebendo do útero materno, e das informações que ele próprio faz sair para a barriga da mãe, que podem alterar em seu proveito as condições da gravidez.
E, para o cérebro, a gravidez engloba tudo o que o rodeia: vai de tudo o que acontece para mais tarde regular a duração dos ciclos hormonais até ao funcionamento cuidadosamente funcional do cordão umbilical. O que nós somos ao nascer é 50% genes do feto e 50% útero da mãe[5].
E não é tudo.
Para estar completamente pronto e activo, ao ponto de nos permitir executarmos funções que consideramos tão básicas como aprender a ler e escrever, ou mesmo contar, o nosso cérebro ainda precisa de todos os estímulos externos, de todos os pensamentos, de todos os sonhos, e de todas as tristezas e alegrias, que tivermos armazenado em memórias nos nossos primeiros quatro anos de vida. Ou seja, o cérebro só está pronto na altura em que começamos a lembrar-nos de nós próprios.
Pois é, pessoal.
Não há coincidências.
Nas Ciências Vivas não há, de certeza.
Agora continuam a achar que uma maquinaria destas se reanima, mesmo depois de já estar morta? Fixe. Como diria o saudoso Dirty Harry, Go ahead and make my day. É que, se alguém conseguisse, ia direitinho da publicação para o Nobel.
E, muito provavelmente, por trás desse Nobel existiria uma placa giratória que o projectaria para altos lugares – porque aquela pessoa é que sim – aquela pessoa, de um país que ninguém dá nada por ele, aquela pessoa é que compreende com toda a limpeza os mistérios incompreensíveis da actuação do cérebro.
E o resto da Academia arrancava em coro, por trás do orador, com a sua homenagem a Portugal muito bem estudada: Vou falar-vos dum curioso personagem: Jeremias, o fora-da-lei…
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
[1] De vez em quando ponho estes comentariozinhos em francês, apenas para dar a mim própria, e certamente às minhas crónicas, um certo je ne sais quoi mais erudito. E ando a ler umas coisinhas em alemão para, mais tarde, alargar o ramalhete com passagens do Dr. Fausto. Boa?
[2] Descoberto por Ramon y Cajal quando trabalhava em Lisboa com Egas Moniz, no Instituto Rocha Cabral, mesmo em frente à Capela do Rato. Já alguém vos tinha contado isto? É do mais irritante que há, não é? Fazemos de propósito para que não se saiba nada dos nossos grandes feitos. Desculpem, mas citar as Descobertas não vale: foram o empreendimento mais anárquico de todos os tempos, que, em consequência, “deixou o país de tanga” (qual deles é que disse isto?), conquistado facilmente pelos espanhóis.
[3] Peço desculpa, mas isto é uma crónica, não é uma sebenta de Histologia e Embriologia no Segundo Ano de Medicina. Quem quiser informar-se melhor, tem isto tudo muito bem explicadinho no Google.
[4] “Princesa de Portugal” era uma das frases amorosas com que os meus filhos me recebiam assim que eu entrava em casa, pelo meio de muitos beijos nas mãos – “Mãe, és bela como a Princesa de Portugal!” – durante os quatro meses assaz penosos do seu período edipiano. E o Dick, em vez de me ajudar a tirar-me os melgas de cima, ficava cheio de ciúmes e saía logo da sala…
[5]Paciência, pais. Quando o embrião começa a formar-se, assim que o ovo se divide em duas células, vocês apenas contribuíram com uma célula minúscula… que entra para dentro da maior de todas as células! Não trouxeram quase nada, à excepção do vosso ADN, o mais compactado que imaginar se possa, para conseguir nadar mais depressa pela canal vaginal acima. Mas vá. Vão poder transmitir imensas doenças (AQUI É PARA METER UM EMOJI QUE DEIXE BEM CLARO QUE ISTO ERA UMA GRACINHA __ EMBORA SEJA ABSOLUTAMENTE VERDADEIRA!). E vão ser muitíssimo importantes dos quatro anos em diante. Até lá, também, quem é que alguma vez poderá cobrar-vos por não sentirem grande interesse por aquele tubo digestivo que não está ali a fazer grande coisa que não seja acordar-vos de noite a berrar? Paciência, pais. Deitem isto tudo para trás das costas, e esperem por melhores dias.
O que é bom na nossa absoluta ignorância do Além é que nada nos impede de acreditarmos que, durante esta última semana, num lugar que nenhum de nós pode sequer imaginar, aquela senhora de 93 anos, que morreu aqui em Estremoz, e o homem que vinha de muito longe, ao encontro dela, conseguiram, por fim, encontrar-se. E agora, para serem felizes, têm toda a eternidade pela frente. Passamos a vida a fazer dela um bicho de sete cabeças, mas, honestamente, a eternidade não tem nada de especial. Tem apenas a paz luminosa de nunca precisarmos de estar com pressa…
Agora, uma coisa é respeitarmos a nossa ignorância do Outro Mundo, e outra, muito diferente, é sermos mantidos deliberadamente na ignorância Deste Mundo. Essa é uma ignorância que toda a gente sabe que se mantém de geração em geração perpetrada pela mão criminosa do mesmo velho bando de hienas que se autoperpetua à custa de milhões de carcaças, porque é a incapacidade de pensar das enormes maiorias que sustenta no poder as minúsculas minorias.
E, para um bom exemplo de como a Comunicação Social nos vende com grande afinco tudo o que seja jogo sujo de Não Pensar, vamos lá respirar fundo e voltar à morte do pequeno Archie.
Ora então – coitado do puto, que não há nada de mau de que não tenha sido exemplo – a título de segunda descasca…
… Ora então muito bem.
Concluída que está a primeira série de impropérios relativa ao desperdício de informação servido aos portugueses numa bandeja aquando da morte do pequeno Archie, permitido que vos foi respirar fundo e fazer rir os outros com o urso polar de patas para o ar do Mário Castrim, recordemos que a minha primeira descasca teve a ver com a total ausência de debate sobre permitir ou não que existam redes assassinas como o TikTok – e que os pais achem normal deixarem os filhos sozinhos em casa com acesso total àquela arma mortífera.
Falta passarmos à segunda descasca, tão ou mais grave ainda do que a primeira: ninguém, em canal nenhum, a hora nenhuma, se deu ao trabalho de convidar um bom neurologista, ou qualquer outro bom especialista do cérebro – temos vários, todos muitíssimo bons, e todos de linguagem muito clara quando estão a falar para audiências desprevenidas – que esclarecesse as hostes perplexas sobre se quem tem o coração a bater, mas tem o cérebro morto, está morto ou não está morto.
Se ao menos toda a gente tivesse ficado esclarecida a este respeito, graças ao jovem Archie evitavam-se, a partir deste Verão, imensas angústias sobre desligar ou não “a máquina”.
Em poucas palavras, é possível voltar a fazer funcionar um coração morto. Mesmo assim, para que ele continue a funcionar “sozinho”, assim que recomeçar a bater há que ligá-lo à tal “máquina”.
Mas um cérebro morto, em contrapartida, a partir do momento em que morre, está irremediavelmente morto – e, como é óbvio, o seu portador morre com ele.
Não era importante ter explicado isto aos portugueses?
Grandessíssimos cães da pradaria, que deviam estar todos de férias[1].
Pelo meio de toda a saga melosa do jovem Archie, com os pais sempre a implorarem que não lhe desligassem a máquina porque o seu coraçãozinho continuava a bater, a nossa Comunicação Social ainda teve a baixa moral de fazer aos portugueses mais um desfavor vergonhoso: a lata de equiparar um coração que bate a uma pessoa que está viva. O que não podia ser um erro mais grosseiro[2]. Palavra de honra, é que conversas destas… eu sei que não são…, mas é que PARECEM mesmo, mesmo, e mesmo-mesmo, compostas de propósito para estupidificar ainda mais os espectadores incautos. Que, obviamente, são quase todos. E, à mulher de César, não lhe basta ser honesta.
É verdade que o coração humano – um dos primeiros órgãos que se formam no embrião, e que, a partir daí, asseguram a possibilidade do seu restante desenvolvimento – nos alimenta, nos oxigena, e nos limpa. Mas o seu mecanismo de funcionamento, que começou muito cedo, estendeu a sua teia de capilares através de todo o embrião muito antes da formação da vasta maioria dos outros órgãos, já está todo formado à nascença, e tem um mecanismo básico de razoável simplicidade – a mesma simplicidade que lhe permitiu manter vivo o embrião, e depois o feto, desde a mais tenra idade do desenvolvimento. É por isso que as manobras de reanimação de um coração que parou de bater são tão simples. É por isso que foi possível oferecer ao nosso grande herói Salvador[3] um transplante de coração, assim como é possível fazer operações de bypass, ou instalar pacemakers; ou, como no caso do Archie, ligar o coração a uma máquina, com a certeza absoluta que essa máquina asseguraria a continuação do seu batimento pelos séculos dos séculos, se fosse caso disso.
…Pois dar de beber à dor é o melhor… Com a maior das modéstias, Clarinha subscreve Amália e a Mariquinhas. Note-se que traja, para este momento especial do seu arquetípico “e não tenho medo de ninguém” o magnífico casaco até aos pés de vison branco, comprado com o dinheiro ganho a escrever quatro versões diferentes do guião de um filme, e magicamente desaparecido aquando de todo o caos que presidiu à sua mudança do Penedo para Xabregas. Ninguém, mesmo aqueles de entre vós que possuam um cérebro extremamente criativo, poderá alguma vez imaginar a quantidade de coisas preciosas que desapareceram da minha vida para todo o sempre quando os meus amigos[4] vieram ajudar-me a pôr cremes, bolsas, jóias, calçado, e roupa, dentro dos caixotes mais elegantes e em melhor estado, trazidos diretamente de um gabinete da tropa por um amigo que tinha um irmão militar. O contentor onde estavam todas as botas, por exemplo, marchou logo. Os casacos compridos e os blusões de camurça tão macia que parecia um pecado, todos eles pendurados dentro de plásticos no armário do meu quarto que era o único que eu trancava… estranho, estranho, é o poder do pecado capital da gula. Desde que dissessem Ralf Lauren, Yves Saint Lauren, Calvin Klein, Versace, Karl Lagerfeld, Donna Karan New York, e até um blazerzinho que eu adorava e dizia Chanel – ainda não era meio-dia e a porta do armário já estava escancarada. Lá dentro, só restavam algumas descobertas felizes das feiras da região. Estas pilhagens em massa são organizadas pelo nosso cérebro. Não é propriamente o córtex reptiliano que entende o interesse de um objecto com uma etiqueta a dizer Karl Lagerfeld. Se o córtex reptiliano soubesse ler, claro…
… … …
Esta mudança, o meu verdadeiro padrão da pobreza, foi desencadeada pela insolvência, logo seguida, ao fim de trinta anos de paz e amenidade, pela súbita ordem de despejo que a D. Laura decidiu fazer-me chegar por uma advogada “porque ela quer ver se pode subir a renda para o dobro e ganhar muito dinheiro com a casa, compreende, porque, de repente, a vida se tornou muito difícil para todos nós”… e, para completar o quadro, pela expulsão dos meus filhotes da América[5], o que fez de mim, por muitos e bons anos, e literalmente, A MÃE DOS BANDIDOS[6].
Apesar de todos os esforços e boas intenções do Dick, é evidente que, a bem dizer, curtiram os dois ferozmente a bandidagem lá do sítio, fizeram todos os piores amigos que dois adolescentes estrangeiros conseguem fazer em menos de um mês, engataram miúda atrás de miúda, e chegaram (bem, foi só o Ricky, a quem nós chamávamos desde pequenino, porque estava mesmo na cara, o TRICKY RICKY), a dar-se ao desplante de ir mandar quecas para a cama do Pai, enquanto três “amigos pretos[7]” ficavam a controlar entradas e saídas, enquanto batiam “nuns tambores[8]” a acompanhar “um daqueles raps do Eminem a dizer aquelas porcarias todas sobre a mãe[9]”.
“Passei-me,” continuava ele no Skype, embora já me tivesse contado aquela história várias vezes. “Passei-me. Subi os degraus a correr, entrei no quarto, vi o Ricky com a miúda na minha cama[10], gritei “RICKY!!! WHAT THE FUCK DO YOU THINK YOU’RE DOING?????”, Clarinha, ouve, eu disse mesmo WHAT THE FUCK! E atirei um para cada lado e chamei a polícia. E foram todos presos por B&E, e eu fui com eles para apresentar a minha queixa. E nisto perdi UM DIA INTEIRO. É horrível. Tenho visto muito bem o que é que acontece aos Pais de Filhos Criminosos que são apanhados nesta teia de aranha de Polícia, Prisão, Psicólogo, Papeladas, reuniões de Pais Anónimos…”
Era o maior terror do Dick, ainda eu vivia no Penedo, ainda os nossos filhos estavam de novo na Prisão de Menores, cada vez mais ricos de vender toda a coca limpíssima, que por vezes alguns visitantes insuspeitos lhes passavam nas visitas, aos guardas que depois a vendiam aos presos, e às vezes até ao enfermeiro de serviço, um rapaz sólido como um rochedo mas sempre cansado, porque fazia turnos consecutivos de 18 horas para conseguir amealhar o suficiente para assegurar à noiva o casamento de conto de fadas que ou era mesmo de conto de fadas ou não havia casamento, a certa altura constou que até a namorada se tinha metido no consumo, porque fazia directa atrás de directa para ultimar absolutamente tudo no enxoval perfeito do casal perfeito que eles tinham absolutamente que ser:
“Clarinha, please, tu estás bem a ver a gravidade disto? PEOPLE LOSE THEIR JOBS!!! As pessoas têm que ir a tantas reuniões, a tantas prisões, a tantas identificações, a tentar explicar tantas más intenções, que acabam por ser chamadas à chefia e postas na rua. Entendes? Já vi Pais de Bandidos, como eu, perder os empregos por terem que andar o tempo todo atrás dos filhos!”
Ter que ouvir aquilo era extremamente ofensivo para mim, abandonada à triste vida de Mãe Solteira desde o 11 de Setembro.
Claro que o Dick nunca perdeu o emprego, pelo amor de Deus. Tinha tenure no Amherst College, um pilar chiquérrimo do ensino superior, onde, entre outras Grandes Figuras, estudou o Príncipe Carlos do Mónaco, visitado pelas duas irmãs na festa que assinala o final de cada ano lectivo, para grande felicidade de todos os rapazes e todos os velhotes presentes. O que a questão do tenure queria dizer era que tinha um contrato para a vida até à idade da reforma, numa posição semelhante à de um catedrático em Portugal. Numa instituição tão perfeitamente Ivy League como o College, tinha de certeza um óptimo ordenado e imensos benefícios colaterais. Francamente. Vir-me chorar no meu ombro que “people lose their Jobs”…
Há que ter um cérebro absolutamente vivo, e muito bem musculado, para lidar com tudo isto.
Há que manter o sentido de humor mas ser firme.
E, antes mesmo de os principezinhos endiabrados desembarcarem em Lisboa, havia que comprar tudo o que eu conseguisse comprar em segunda mão, e arranjar um transporte à altura das minhas posses que a bem dizer não existiam, para pôr a casa de Xabregas toda bonita e nos habituarmos a sermos felizes lá dentro.
É para momentos destes que precisamos de um cérebro sempre atento, e não propriamente de um coração. Ao coração só se pede que bata. Ao cérebro pede-se que urda estratégias para acolher dois jovens bandidos em casa, e que se vá acertando o rumo dessas estratégias para que tudo acabe por correr em paz, sossego, e muito riso
É por isto mesmo que o cérebro, ao contrário do coração, tem uma formação e um funcionamento que são tudo menos simples. Muito pelo contrário, são complicadíssimos. E controlam tudo. A porção do cérebro encaixada dentro da nossa caixa craniana rodeia, no chamado lobo frontal que só existe nos humanos[11], a sede da nossa inteligência. O restante conteúdo da caixa craniana prolonga-se por dentro das vértebras, do pescoço ao cóccix, chama-se sistema nervoso central, e assegura o processamento inteligente de todas as informações que recebemos, para que possamos responder-lhes da forma mais correcta possível.
A partir do momento em que morre toda esta estrutura finíssima, e dificílima de montar (basta pensar na sua subsequente associação a todos os nossos nervos), acabou-se. ACABOU-SE, GAITA. Estamos mortos, mesmo. Um cérebro morto já não volta a acordar, seja por que artes mágicas de que máquina inexistente for. E, quanto mais passarem os dias depois da morte, como no caso de Archie, mais o cérebro degenera.
Agora.
É impressão minha, ou teria sido extremamente importante explicar isto a toda a gente, na sequência daquela morte absurda e perante a nossa condenação a vermos a mãe do menino em lágrimas de meia em meia hora? E não era boa ideia, como eu comecei por dizer, que essas explicações fossem prestadas por óptimos especialistas que são também óptimos comunicadores, com muito mais conhecimento de causa na matéria do que eu? E se neste preciso momento caísse um raio em cima da cabeça de todos os directores de informação portugueses?
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
[1] Recorde-se, uma vez mais, que era Agosto. A Comunicação Social costuma entrar em parafuso em Agosto, porque é um mês em que nunca se passa nada. Em Agosto, nunca caem DC9s das Turk Ava Yollari. Em Agosto, ninguém tenta disparar contra o Papa. Então e esta história, com tantos ângulos para estudar – não teria sido um enorme bónus para compensar o restante famoso vazio do mês de Agosto? A sério. Eu pasmo.
[2] Estas pessoas são consensualmente denominadas como “vegetais”, e o termo é duro, mas está perfeitamente correcto. Um vegetal não é um animal. Um vegetal nunca mais fará tudo o que nós fazemos, todos os dias. Se há pessoas que às vezes, miraculosamente, acordam depois de vegetarem depois de dezenas de anos? Há, sim. Mas são milagres. Como tal, são extremamente raros. Significativamente, não chegam a ter expressão.
[3] O excelente músico e cantor Salvador Sobral não tem culpa nenhuma: era o que as revistas e jornais de baixo nível lhe chamavam nesse Verão.
[5] Apesar de todos os esforços do Dick, a verdade é que naqueles dois anos passaram mais tempo enfiados em casas de miúdas que viviam nos projects a fumar muitos charros e a ouvir muito rap e claro que não só; ou então estavam nas esquinas a distribuir E pelos clientes habituais e a ganhar pipas de massa porque à época o ecstasy ainda era uma invenção recente e até as avozinhas a cair da tripeça, que só se lembravam de violência doméstica, de gajos completamente bêbados ou completamente mocados que as fodiam em pé contra a parede a chamar-lhes todos os palavrões deste mundo, e quando chegavam à parte em que elas eram umas gandas putas que ofereciam aquela cona suja a toda a gente, vinham-se logo e toda a cena nem chegava a durar cinco minutos mas doía muito – alguém se surpreendeu quando, depois de uns belíssimos jogos de sedução do meu mais velho que se sentava todo bonito ao lado delas, a cheirar bem, e lhes falava das coisas boas que a vida tem sempre para nos oferecer, se quisermos procurar e arriscar, subitamente quiseram todas ser felizes e desataram todas a consumir com gosto, por vezes em festas só delas, em casa de uma ou de outra, com bolinhos e licores, e tudo? Claro que não. Às vezes convidavam o meu Mike para tirar a T-shirt (ainda não tinha a tal tatuagem, mas tinha uma musculação perfeita), e dançar para elas. O meu filho delirava com tanta atenção. E pronto, no resto do tempo, estavam na prisão de menores, onde se musculavam até não conseguirem encostar os braços ao corpo, e onde às tantas, o Ricky descobriu a Bíblia e ficou fascinado – fascinado com tanta crueldade, tanta violência, tantas guerras, tanta gente a matar tanta gente de formas tão horrorosas. Até metia medo. O seu figurino perfeito. Começou a falar com o padre da cadeia, que era um evangélico qualquer que tratou de aterrorizá-lo ainda mais. Quando chegou a Lisboa, o Ricky ainda vinha com a Bíblia da prisa. Impressionadíssimo. Passou os nossos últimos anos em família a fazer-me perguntas tremendas. Fiz questão de responder sempre em grande detalhe a todas.
[6] Todos os que acompanharam a verdadeira loucura da minha vida com os meus queridos leõezinhos que eu adoro, que se foram tornando cada vez mais eficientes na arte de me roubarem tudo o que me restava depois de eu já estar falida e desempregada, quase me imploravam que escrevesse um livro com este título onde descrevesse a minha experiência incrível de viver com dois gangsters do gang da Boavista, considerado (dizem-me os putos com muito orgulho) o mais perigoso de Lisboa. Talvez mais tarde escreva. Mas só se for em colaboração com eles e com o Pai. Na realidade, houve ali umas fases em que se esteve mesmo bué bem. A maternidade foi a experiência mais rica e mais avassaladora da minha vida.
[7] Não é meu: é o Dick que fala assim. Deveras. Mesmo sendo o americano mais porreiro que eu alguma vez conheci em vinte anos de quotidiano em terra alheia.
[9] À época estes raps do Eminem eram tão conspícuos, e, francamente, tão bem construídos, que ATÉ O DICK sabia que o puto gostava de rap a dizer mal da mãe.
[10] Grande cabrão. Até senti um nó na garganta. Era a NOSSA cama e era EU que a tinha comprado num mercado de antiguidades mesmo no meio da floresta. Também era EU quem a tinha montado, com a ajuda de um Prof do meu Departamento que adorava bricolage. E MAIS: era EU, sim o MEU dinheiro, que tinha comprado todos aqueles lençóis, edredons, almofadas, colchas, mantinhas, tudo do bom e do melhor, tudo do mais bonito que existisse onde quer que fosse, para dar bons sonhos ao Rei Leão. Agora “A MINHA CAMA”. Filho da puta. Grandessíssimo filho da puta…
[11] E que foi descoberto por Egas Moniz no início do século XX, embora eu dê explicações e nunca tenha ouvido esta memória da boca de qualquer aluno, nem visto qualquer referência ao nosso Prémio Nobel nos estranhos “Livros de Texto” que agora os obrigam a usar, que eles não conseguem perceber, e que muito provavelmente eu também não conseguiria, se fosse da idade deles.