Autor: Clara Pinto Correia

  • Maria Alice nem quer acreditar: Estremoz deita mais achas para a fogueira

    Maria Alice nem quer acreditar: Estremoz deita mais achas para a fogueira

    CARTAS DE AMOR

    Agora em Setembro de 2023

    Com uma caloraça que ninguém entende

    Todas as uvas já vindimadas

    As azeitonas maduras nos ramos

    E seja o que Deus quiser,

    Especialmente do PÁGINA UM para a SILLY SEASON dos seus leitores

    CLARA PINTO CORREIA continua a trazer-nos, em directo de ESTREMOZ

    UM FOLHETIM TÃO ESCALDANTE COMO O VERÃO NAS PROFUNDEZAS DO ALENTEJO

    Baseado, uma vez mais, numa história absolutamente verdadeira


    O cágado não sobe sozinho nas árvores, alguém o colocou lá.” Provérbio angolano

    Traduzido do umbundo Mbeu okulonda ko cisingi, omanu vakapako por José Eduardo Agualusa,

    in A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS PÁSSAROS (2011)


    “Ao menos diz-me,” pede-lhe ela procurando manter a calma, no silêncio de cortar à faca que reina subitamente dentro do carro. “Agradeço-te as correcções… o TOUTS que passou a TOUS… os Citroens DS que eram todos de quatro lugares… Mas, afinal, como foi? Gostaste do conto? Ou não?”

    O seu grande amante que nunca o será deita-lhe um olhar de morrer de tristeza.

    “Bloody Mary,” diz ele, “eu não leio. Não tenho tempo para conseguir ler.”

    Então este homem tinha mesmo um Cyrano de Bergerac que escrevia por ele.

    Meu Deus. Quantos mais defeitos ocultos terá?


    Quando Alexandre Noronha despeja Maria Alice à porta da sua casa, Josefa vem a correr toda cúmplice e sorridente, abrir-lhe os braços para a apertar contra si com toda a força.

    Mas, para seu grande espanto, a velha e dedicada serviçal vê o BM prateado arrancar com os pneus a chiarem, estonteantes. Sábia e – por vezes – minimal, abraça a sua menina, acaricia-lhe o cabelo, sussurra aos seus ouvidos palavras de conforto, e vai tentar murmurar qualquer coisa doce quando Maria Alice, de nervos em franja, lhe pede que pare com isso e que vá mas é buscar-lhe um café muito grande à cozinha. Depois, procurando libertar-se dos vestígios de Alexandre Noronha, passa tudo a pente fino e descobre o nécessaire dele esquecido na casa de banho. Logo a seguir, incrédula, vê que ele deixou por baixo da cama uma mala grande  e dura, de rodinhas, ainda por trancar. Ao puxá-la para fora e abri-la, espalham-se por todo o chão do quarto centenas de cartazes do CHEGA.

    Bem, pensa ela, desfazendo-se em suores frios, mas há que aceitar que ser do CHEGA não é nenhum pecado.

    Então e o Ruizinho da Farmácia, tão simpático, com um pernão tão gostoso?

    Então e o rapaz do café da esquina, que está sempre a tratar-me por prima com um grande sorriso?

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    Então e o Bruno, o meu querido Bruno, aquele amigo do António José que o assistia nas pegas de cernelha? Um rapaz tão lindo, de olhos tão verdes, que, quando éramos jovenzinhos e ambos competíamos nas provas de salto, ainda fez amor comigo tão apaixonamente num daqueles quartos do antigo HOTEL ALENTEJANO que nem sequer tinham casa de banho… ah, Bruno.

    Bruno, Bruno, eu sei que te lembras de tudo. O que nós suámos, e o que nós nos beijámos, e o que nós gememos e, quando tu me fazias vir e eu me torcia toda, toda molhada, toda suada…

    É do CHEGA, o Bruno, lá isso é. Eu sei, porque agora, sempre que posso, passo as noites de festa a dançar com ele sob o olhar atento da mulher e das filhas, e o Bruno aperta-me toda contra si e não pára de dizer-me ao ouvido,

    “Eu sou militante do CHEGA, ouviste, ó pintassilga, eu não gosto dos ciganos, tu estiveste foi muito tempo no Canadá, queres que eu te arraste para o primeiro quarto do ALENTEJANO que estiver livre e volte a fazer de ti uma mulher inteligente, queres, queres, queres que eu te faça tudo o que te fazia dantes, florzinha, a ver se ganhas juízo?”

    E, nestas alturas, eu rio, rio, rio.

    E tenho mais imensos amigos aqui em Estremoz que são do CHEGA por causa da abundância profusa[1] dos ciganos. Eu chamo palhaço ao André Ventura, chamo-lhe até bobo da corte, mas a verdade é que sou mesmo amiga de muita gente da CHEGA, portanto deixa para lá que isso não conta. Vou mas é ao Facebook do Alexandre, onde nunca fui porque entre nós nunca se trocaram imagens, e deixo-lhe lá uma mensagem, bem legível e melhor ilustrada, com aquelas fotos de nós dois que a Josefa tirou cá em casa, a dizer,

    ALEX MEU QUERIDO O TEU NÉCESSAIRE FICOU CÁ EM CASA, QUERES QUE O GUARDE PARA  A  TUA PRÓXIMA VISITA? Ou que to envie para onde, pois que nem sequer sei onde vives desde que te divorciaste da Gi?

    Ora, ele está divorciado, não faz mal, pois não? É só uma brincadeira de quem tem bom perder.

    a couple of street lamps sitting next to each other

    Maria Alice demora algum tempo a encontrar o Face de Alexandre, uma vez que não sabe todos os seus nomes. Por vezes apetece-lhe desistir, mas a raiva dá-lhe asas. Mas, quando finalmente o encontra…

    … com imagens em tempo real, aparentemente filmadas pela tal filha menina-mulher que vai fazendo um relato em voz alta de tudo o que se passa…

    Santo Deus.

    Aí está porque é que teve que sair da praia a correr.

    Alexandre Noronha está neste preciso momento a falar num comício do CHEGA em Beja[2], abraçado a Gi Medeiros, a sua linda mulher muito loira, que, vista nas imagens, parece uma modelo. E, uma vez mais, está a defender que as mulheres que fizeram abortos devem ser obrigadas a tirar os ovários.

    Do lado de fora da porta, Josefa bate insistentemente. Maria Alice ainda hesita, mas depois resolve oferecer-lhe o nécessaire para ela oferecer a algum gajo no Natal e abre assim mesmo – despenteada, de olhos vermelhos e com olheiras profundas, só de shorts e T-shirt, a própria imagem da despodência[3].

    Está alguém por trás da Josefa.

    Quando, finalmente, a porta é empurrada para o lado com toda a delicadeza, verifica-se tratar-se do próprio Bruno, o feliz proprietário da CASA DAS  BIFANAS DE ESTREMOZ, com quem Maria Alice fez tantas maldades aos vinte anos. Maria Alice nunca mais o viu a não ser nas noites em que dançaram nas festas locais. Agora, na luz do dia ainda intensa, faz mesmo vibrar o coração desabrigado da pobre esposa do amigo António José. É ele, mais maduro. É mesmo ele, como aos vinte anos mas de olhos ainda mais verdes, ainda com mais sardas, ainda mais destacadas contra a pele ainda mais morena. Assim que aperta Maria Alice contra o coração, Josefa desata num dos seus falajares.

    “Ai, menina. O menino seu marido voltou um mês mais cedo de fazer de tradução simultânea em Bruxelas. Meteu licença sem vencimento, sabe o que isso é? Eu também não sabia, mas ele contou-me tudo, é assim uma coisa como o que dá nos pobrezinhos, e nos doentinhos, e depois nós temos de ajudá-los. E eu estava maravilhada, porque ele só dizia coisas lindas. Diz que tem saudades da sua linda terra, diz que tem saudades da sua  linda casa, diz que tem saudades de viver na cidade mais luminosa do mundo… e, sobretudo, diz que tem saudades da sua linda mulher de olhos cor de mel. Diz que foi o Canadá que lhe estragou o amor pela menina que saltava melhor de que todos os homens de Estremoz…”

    “Ahahah!”, interrompe Bruno, e Maria Alice quase desfalece ao escutar de novo, sem ser ao ouvido, aquela voz que a deixava sempre sem fôlego. “Francamente, ó Josefa. Diz lá se, nos concursos, eu também não parecia um milagre a voar pelas nuvens, e a encher o lago depois dos três obstáculos de repuxos contra o sol já a descer, todo vermelho.”

    “Pois sim,” responde-lhe Maria Alice, que só de ver o Bruno recuperou o orgulho e se encheu de brios. “Tu bem podias saltar para te admirarem, mas era só assim, mesmo, com o sol a pôr-se, de maneira a ninguém ver bem os teus saltos. E depois todas as mulheres gritavam – OLÉ! – e tu ficavas tão orgulhoso, mas tão orgulhoso…”

    E continua, desta vez para a empregada:

    “E tu pára-me já com isso, ó Josefa Eufémia, que eu não quero lembrar-me nem mais de uma vez dos pobrezinhos sempre com o nariz a pingar que vinham cá a casa, todos esfarrapados, com as vozes muito roucas, a pedir ajuda ao gordo com que eu me casei. Bruno, queres vir comigo ver a sala de redacção da PANGEIA?”
    O convite faz com que se desloquem os dois para a ala da casa pejada de máquinas, telexes, televisões nas notícias internacionais cada uma ligada a seu canal com impressoras, e, no canto mais longínquo, resmas de papel, cartuchos, secretárias, estantes, e prateleiras. Mas se julgavam que podiam estar sozinhos bem podem é mas é[4] tirar daí o sentido, porque Josefa continua a bradar à porta.

    “Bem, e, dito isto, nós-as-mulheres-do-povo nunca o achámos assim tão gordo como isso. Era gorducho, talvez, e com umas entradas mas muito pequenas, para homem talvez usasse perfume a mais, mas é porventura[5] de uma grande elegância, com piada, diga-se já, aquelas piadas como a que sempre foi um homem tão à frente que comprou o carro da AUTOPERNAS[6] logo em 1658 porque mesmo naquela altura era evidente que, mais cedo ou mais tarde, ia ser preciso tirar a carta, e as do século XVII eram mais baratas, já se sabe[7]. Olhe, minha menina, o seu gorducho não era parvo, ai isso antes pelo contrário, era charmoso e divertido, e tinha aquelas maneiras bonitas de quem não descura enquanto não beijar a moça mais bonita do baile.”

    E é distraindo ambos com estas conversas que Josefa consegue insinuar-se[8] dentro do escritório.

    Vendo-a entrar, compreendendo que nunca na vida terá privacidade, Maria Alice começa a deslizar, estonteada, pela espreguiçadeira de lona riscada de azul com uma inscrição oval que diz por trás WONDERWOMAN. Josefa, que conhece bem os efeitos devastadores da sua hipoglicémia, põe-lhe logo à frente uma caixa de chocolates. Depois regressa, sozinha, para os lados da cozinha. E é aqui que, subitamente, os ouve gritar lá de dentro,

    “Vai-te embora procalhão![9]

    “Ai! Ai eu agora tenho é que me ir embora?”

    “E cala-te, que só a tua própria voz me faz mal[10]! Queres que eu te atire com um agrafador  à cabeça?”

    “Ai eu agora tenho é que apanhar com um agrafador na cabeça? E desde quando é que isso passou a ser um agrafador, já agora, ó pintassilga?”

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    Maria Alice passou vinte anos sem ver Alexandre, passou vinte anos sem ver Bruno, sente-se condenada a continuar a ver António José, e sente-se muito mal. Fecha-se no escritório, Fecha as portadas. Não sabemos se, durante todo o dia seguinte, esta mulher se manteve consciente ou – nem ela seria capaz de o dizer. Quase não tem voz. Sente frio. Tem horror ao frio. Um verdadeiro horror cego. Em pequenina, por causa de tratamentos bárbaros da pele, feitos com azoto líquido, tremeu e  tremeu horas a fio, até que a tiraram de lá de dentro com a face e das orelhas e os dentes todos a baterem. Depois a vida espetou com ela no Canadá.

    Já chega, pensa Maria Alice, e é só o que pensa. Já chega.

    Mas claro, custa-lhe muito pensar “CHEGA”. E, por isso, começa a sentir-se cada vez pior.

    Finalmente, agora que já não se ouve nada, Bruno encosta um olho ao buraco negro da fechadura. Maria Alice está viva, acordada, e, a avaliar por todos os seus sinais de choro silencioso, está até mais do que consciente.

    Josefa vem trazer-lhe um grande copo de água com algum açúcar e pingos de limão. Depois, enquanto a segura e segura o copo, vai falando com calma à sua doentinha, ao mesmo tempo que Bruno, sentado do outro lado da cama, lhe acaricia a mão com gentileza.

    “Agora a menina só tem é que tratar bem o seu maridinho querido,” diz-lhe Josefa, enquanto Bruno lhe pisca o olho cheio de malandrice. “Eu chamo já as outras mulheres e limpamos-lhe todas a casa num instante. Ele está mesmo aí a chegar, e já me disse que vai convidar o Bruno, para depois irem os três para a… para a naite, pois, já se sabe. E então ele deixou-me um recado expressamente a pedir que a menina lhe faça aquele seu guizadinho de javali de que eles os dois gostam tanto, e pediu-me a mim que lhe faça aquelas lamparinas com rodelas de violetas e de cravinas vermelhas escuras, pode ser menina? Eu também posso fazer-vos a salada de beldroegas, com cebola e salsa picadinhas, e dou um dos ossos maiores do Valali ao Júnior para que ele não se sinta excluído.”

    Bruno interrompe-a com uma gargalhada sadia. 

    “Para que o cão não se sinta excluído, Josefa? É aqui a minha pintassilga que anda a ensinar-te essas palavras finas?”

    “Ora adeus vais-te-me embora[11], moinante,” rosna-lhe Josefa com todos os seus pudores linguísticos ofendidos. “Ou julgas que eu não sei o que é que tu e a chinesa da loja, enfim, cala-te boca? Ande, menina, anime-se. Vamos para o jardim lá de trás com os candeeiros amarelos nas hastes do laranjal, pomos a loiça do cavalinho, e olhe, pergunte ao Bruno o que é que ele acha, a menina vista aquele vestido azul-celeste todo flutuante e já sabe como é, este aqui também andou apaixonado por si desde novo e nunca se esqueceu do seu perfume e olhe que…”

    Bruno interrompe-a outra vez, com mais uma gargalhada sadia. 

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    “Então o que é isso, Josefa, agora vais divulgar todos os segredos de Estremoz? Vê lá se também contas à Alicinha de quem é que o António José é mesmo filho, anda lá!”

    “Pois muito bem, menina Mariazinha, então fique sabendo que o menino António José é meu filho!”, responde-lhe Josefa de queixo erguido. “O bebé da Senhora nasceu morto, e então eu, que também tive o meu nessa mesma altura, dei-lho. Foi por amor, para ele poder viver melhor, compreende, menina Mariazinha? Nós éramos muito pobres e eu nem nunca fui casada.”  

    “Claro,” sussurra o Bruno para a Maria Alice.  “E enfim, deste-lhes o puto é como quem diz. Aqueles dez mil euros que eles tiveram de pagar pela criança pobrezinha ainda ajudaram mais a Josefa a não ser pobre. Devias ter pedido vinte mil, ó Josefa.”

    “Sim, ó menina,” concorda Josefa. “Passe-me aí vinte mil mocas para as mãos e eu não mostro a ninguém as suas fotos com o olho azul de Lisboa, nem o filme de vocês a dançarem, nem as cartas de amor que a menina deitou no lixo sem sequer rasgar, nem falo de nada, e depois somos todos felizes.”

    Maria Alice está agora quase a desmaiar de vertigens. 

    Nessa altura ouve-se, vinda do portão, o tom inequívoco da voz festiva de António José. Incapaz de aguentar mais tanto stress, Maria Alice desmaia nos braços de Bruno.     


    Leia também o Episódio 1, o Episódio 2, o Episódio 3, o Episódio 4, o Episódio 5, o Episódio 6, o Episódio 7 e o Episódio 8 do folhetim de Verão do PÁGINA UM da autoria de Clara Pinto Correia.


    [1]Abundância profusa”, Maria Alice? Ora, deixem lá as redundâncias da miúda em paz, seus voyeurs. Não é a melhor altura para exigências estilísticas.

    [2] Consta que em Beja ainda há mais ciganos do que em Estremoz. Mas será possível?

    [3] Bravo, Maria Alice. Despodência. É assim mesmo.

    [4] “Bem podem é mas é.” Isto sim, é carinho pelo português.

    [5] Pronto, pronto, pronto, hey, a malta rende-se, este “porventura” saiu mal à pobre Josefa. Mas qualquer pessoa precisa de começar por qualquer lado.

    [6] Do Lino Pernas. Foi recentemente trespassada, mas ainda não se percebeu a quem.

    [7] Piada genuinamnente alentejana, aprendida em Novembro último com um dos maqueiros das urgências do Hospital de Évora.

    [8] Insinuar-se. Hm? Hm?

    [9] “Procalhão”, foi mesmo o que ela disse. Memórias das brincadeiras de antanho, quando a ambos puxava muito o pé para a chinela naquelas alturas.

    [10] Também brincadeira de outros tempos. Inspirada na inesquecível canção MULHER FATAL, de Toy, em que a rima do refrão declara que “só o teu próprio olhar me faz mal”.

    [11] De todas as expressões locais, este “Ora adeus vais-te-me embora” está quase no cimo do TOP 10. Expressão local vencedora no último episódio.

  • O marido

    O marido

    Demonic males: uma longa série sobre o masculino, com torrentes de detalhes, exactamente como as pessoas daqui fazem quando lhes perguntamos onde ficam os correios – Episódio 4


    Inicialmente, poucos biólogos levavam a sério a ideia da violência inter-específica. Existia tão pouca evidência de animais a matarem outros do seu mesmo grupo que se presumia que assassínios destes só ocorriam quando qualquer coisa corria mal – os jardins zoológicos estavam sobrelotados ou mal equipados, ou havia um acidente resultante de erros humanos. A ideia combinava-se perfeitamente com a visão da ordem natural das coisas dominante à época, segundo a qual o comportamento animal era concebido para o bem de todos. A selecção natural darwinista funcionava como um filtro desenhado com o propósito de eliminar a violência assassina. O assassínio, por suposto inexistente no restante mundo vivo, era um produto evidente das guerras humanas, pelo que havia que aceitar que, num dado momento da sua ascensão ao poder, o Homo violara as regras da Natureza ao tornar-se sapiens[1]. Aos olhos dos cientistas, os primatas assassinos, tal como os assassinos em qualquer outro grupo animal[2], não passavam de uma fantasia dos romancistas até à década de 70.

    Richard Wrangham e Dale Peterson

    DEMONIC MALES: APES AND THE ORIGINS OF HUMAN VIOLENCE (1996)


    Já ficámos a saber que a violência doméstica entre os chimpanzés é de tal ordem que muitas das fêmeas agredidas chegam a morrer em consequência. Resta acrescentar que o chimpanzé também não se ensaia nada de formar um grupo de comandos que caminha pela savana vários dias até chegar à família mais próxima, a cercar discretamente, esperar pela primeira vítima desprevenida, atacar em massa com grande estridência, gerar o caos e o pânico, matar tantos machos quantos possível e violar todas as fêmeas capturáveis, que depois são arrastadas de volta ao grupo guerreiro e entregues para o resto da vida ao marido que eles lhe escolhem.

    É um cenário bastante familiar, ou não é?

    Os primeiros confrontos entre as primeiras tribos humanas não hão de ter sido muito diferentes disto, incluindo a boçalidade com que cada vencedor trata a fêmea a quem conseguir deitar as unhas.

    Há muito quem argumente que nós não somos mais do que um outro grande primata. E, assim sendo, é evidente que vale mesmo a pena continuar a usar a vida nesta cidadezinha em termos de microcosmos demonstrativo de como o demónio se aloja profundamente dentro da essência masculina.


    Devo dizer que, entre os 16 e os 19 anos, enquanto ainda não tinha idade e depois ainda não tinha dinheiro[3], andei muito à boleia pelo País inteiro. Tudo o que era homem sozinho[4], fosse qual fosse o seu veículo, ao fim de um bocado tentava a sua sorte. Eu dizia “NÃO!”, o homem em causa respondia “Está bem, está bem… mas tens que ver, se eu não tentasse era parvo, não achas?”, e a viagem seguia amena, sem mais sobressaltos.

    Até que cheguei ao Alentejo.

    Nos seis meses da minha primeira experiência corria o ano da glória de 1978, e estávamos todos em pleno PREC – o que quer dizer que, para aquelas bandas, estavam todos em plena Reforma Agrária. Num cenário destes, o que é que espera uma revolucionariazinha de dezoito anos? Oh, aquele seria sem dúvida um povo equalitário e solidário, educado e estudado, enfim: não era certamente dos camionistas daquelas estradas que eu esperava ouvir dizer “a gente damos boleia mas nã damos de graça, óvistes?”, ou “isto pra nós tudo o que tá à beira da estrada é gado”, e outros insultos abertamente insultuosos, e visivelmente perigosos. Não era no Alentejo que eu alguma vez imaginaria que ia acabar ao murro com um motociclista de FAMEL e penico que ficou a bradar impropérios do pior com uma roda torta no caminho de terra por onde tinha tentado desviar-se comigo.

    Mas enfim, tinham passado quarenta anos. Estou no Alto Alentejo, e não no Baixo Alentejo[5], como antes. De certeza que as coisas, agora, já não são assim.

    Família de chimpanzés depois de uma caçada, apanhada a empanturrar-se de carne de gazela.
    É verdade que nós, os Pan troglodytes, temos por hábito ser herbívoros. Mas isso não implica que sejamos necessariamente estúpidos. Sempre que matar não seja dispendioso em termos de energia, e não implique correr grandes riscos pessoais, a caça é uma forma perfeita de garantir quantidades substanciais de comida de alto valor proteico e de grande especial riqueza calórica. Nada que aliás vocês não saibam, ó seus humanos voyeurs que andam sempre a espiar-nos.

    Bastava-me esquecer o motociclista da FAMEL e da luta ao murro. Esse piolhoso era de Estremoz, onde eu estava a pedir boleia para Portalegre.

    O primeiro sinal que, mesmo no Alto Alentejo, tudo continuava a ser assim, veio do gajo do mercado. Eu nunca o tinha visto mais gordo, e vi-o tão pouco que se me cruzasse agora com ele na rua nem o reconheceria. Tinha finalmente conseguido transportar uma boa quantidade dos meus livros cá para casa, e andava obcecada com a questão das estantes. Naquele dia procurava uma estante especial, forte que chegasse para suportar os meus grandes álbuns de História da Biologia, e suficientemente bonita para ficar mesmo ao cimo da escada.

    E não é que encontrei isso mesmo? Era uma estante linda, que parecia um coreto todo feito em ferro forjado. Como acontece com frequência no mercado, comprei-a por tuta-e-meia, feliz da vida.

    O pior foi começar a carregá-la dali para casa num dia de calor vingativo. Eu não transportava outros pesos, mas tinha que parar o tempo todo para limpar o suor dos olhos. Ora, vendo-me fazer todo aquele esforço, um senhor simpático que estava ali à conversa com outros senhores veio oferecer-se para carregar a estante por mim.

    Eu fico-lhe muito agradecida, mas a minha casa ainda é ali no Anónimo[6]. Eu posso é segurar à frente se o senhor segurar atrás, já ajuda muito” – “Ora, menina, eu sei muito bem onde fica a sua casa, ponho-lhe lá a estante num instantinho” – “Mas com este calor...”

    O senhor sorriu, pôs a estante de ferro em cima do ombro, e começou a andar rumo à minha casa. À época ainda me enervava um bocado toda a gente saber onde era a minha casa, mas enfim. Também não deve ser todos os dias que uma menina vem viver para o centro histórico de Estremoz. E, de facto, ainda nem eu tinha acabado de pensar tudo isto e já estávamos à porta de casa.

    Pronto, deixe aqui em baixo que isto ainda são dois andares sem elevador, logo à noite, pela fresquinha, eu peço ajuda às minhas amigas e levamos a estante para cima” – “Ah, não, por favor, eu sei que a menina mora no segundo andar, ponho-lhe já lá a estante e pronto.”

    Bem… se por “e pronto” se entender “e assim que a pousar eu estendo os braços e apalpo-a toda, em todos os sítios onde conseguir apalpá-la”, foi de facto isso mesmo que o senhor simpático tentou fazer. O que quer dizer que, acto contínuo, lhe espetei com um bruto pontapé naquele sítio que faz doer muito aos senhores, ao mesmo tempo que proferia, de forma tranquila mas autoritária, “saia já daqui seu[7]”, enfatizado por um empurrão nos olhos[8], o que acto contínuo fez o senhor simpático cair de costas pela escada abaixo.

    Tinhoso.

    As minhas amigas dizem que estas coisas me acontecem, mesmo com uma idade tão adiantada, porque uma pessoa como eu devia ter um marido, e a ausência dessa entidade representativa do poder na vida em sociedade é tão grave que perturba até os homens mais lutadores.

    Ou seja, e como escreveu o grande Mao Zedong, “O poder cresce sempre no cano de uma arma[9].

    (continua)

    Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora


    [1] Veja-se a história da serpente, de Eva, da maçã, de Adão, da fúria de Deus, da expulsão do Homo sapiens do Jardim do Paraíso, onde o arcanjo Uriel ficou à porta com uma espada flamejante para que nenhum ser humano pudesse alguma vez voltar a entrar. Não é ciência, como toda a gente sabe. Mas há que admitir que é um pressentimento fantástico.

    [2] Bom… e tal como as plantas carnívoras, ou tal como muitos peixes, incluindo as orcas e os tubarões. Para não falar da raivosa e inolvidável Moby Dick, mas lá está – fantasia de romancista.

    [3] Primeiro para tirar a carta (diga-se em abono do meu estoicismo que passei neste exame uma hora depois de ter passado no exame de Cálculo 2, sem dúvida a mais traumatizante de todas as disciplinas do meu curso, e mesmo no fim do Primeiro Ano, quando a pessoa já se arrastava de cansaço e ainda nem tivera direito de pôr um pé na praia); e depois para comprar o Carocha quatro anos mais velho que eu, onde o nosso colega João Rabaça pintou um noitibó na porta do meu lado, e que, além de fazer toda a Lisboa-Vilar de Mouros com seis pessoas lá dentro à data do primeiro festival, também aguentou dois anos de saídas de campo pelo meio de sapais, e carreiros de terra rumo a praias desconhecidas, até ser trocado por outro ligeiramente mais jovem, exactamente da minha idade e igualmente dado a viajar sem fim. As letras da matrícula eram HB, pelo que o baptizámos com o nome controverso de Herri Batasuna.

    [4] A menos que fosse um gajo porreiro, já com um emprego fixo destinado a ajudar a família e pouco mais velho do que eu. Isso era diferente. Conversávamos imenso, falávamos do que é que gostaríamos de fazer quando pudéssemos, ouvíamos cassettes e era costume gostarmos das mesmas músicas, e nenhum de nós acreditava no casamento porque é o género de vida que mata o amor. Fomos uma geração bestial, na qual ainda hoje tenho muito orgulho.

    [5] Em 1978, eu estava a aproveitar o segundo semestre daquela interessante experiência que antecedeu o 12º ano e se chamou “ano propedêutico” para ganhar umas massinhas a trabalhar em Aljustrel com os miúdos da telescola. Até esses miúdos tinham aquele olhar alentejano que varre as mulheres de alto a baixo. Foi nessa altura, a ouvir confidência atrás de confidência das raparigas da minha idade que não tinham ninguém com quem falar, que comecei a ter umas ideias, ainda vagas, sobre um romance policial que veio a chamar-se ADEUS, PRINCESA.

    [6] AHAHAH. Não, não sou minimamente dada a distracções. Nunca direi onde fica a minha casa.

    [7] Parece-me inútil inserir a longa sequência da frase. As escadas são altas, pelo que qualquer vira-lata ainda demora o seu tempo a cair delas abaixo. E eu não me calei enquanto ele não embateu na porta e deu de frosques.

    [8] Isto tem a virtude  de perturbar a visão, fazer chorar, e em consequência assustar imenso os senhores. Quanto mais os anos passam mais nós vamos aprendendo, não é.

    [9] Não, não é nenhuma metáfora de gosto duvidoso. É uma verdadeira ideia de como viver correctamente dentro da colmeia. Resta-nos esperar que o tempo se despache a transformá-la num arquetípico tigre de papel.

  • Os assassinos

    Os assassinos

    Demonic males: uma longa série sobre o masculino, com torrentes de detalhes, exactamente como as pessoas daqui fazem quando lhes perguntamos onde ficam os correios – Episódio 3


    O que poderá dizer, nos nossos dias, quem continuar a não gostar da ideia de que os humanos estão mais próximos dos chimpanzés do que os próprios gorilas? Até ao fim do século XIX, a resposta céptica mais ferrenha à descoberta de fósseis era que Deus os pusera nas rochas como uma experiência estética, ou filosófica, para fazer de conta de que a Terra tinha uma História – exactamente como dera um umbigo a Adão para fingir que ele tinha nascido de uma mulher. Para os cépticos criacionistas do fim do século XX, a explicação era mais que um qualquer artifício demoníaco organizara todos aqueles fósseis em série para que caíssemos na tentação evolucionista. Ou seja, as marcas moleculares claríssimas de relação estreita entre grandes primatas seriam um plano ou divino ou diabólico. Para quase toda a gente, no entanto, a ideia de um poder enganoso a funcionar a este nível exige demasiado da nossa imaginação. O Criador pode ser Omnipotente, mas é pouco provável que seja Maluco.”

    Richard Wrangham e Dale Peterson

    DEMONIC MALES: APES AND THE ORIGINS OF HUMAN VIOLENCE (1996)


    As minhas citações do DEMONIC MALES estão a ficar cada vez maiores, mas a culpa não é minha, e nem sequer é do livro de onde eu as tiro: a culpa é dos leitores, que todas as semanas me dão os parabéns pela escolha, me revelam que tudo isto lhes pareceu tão interessante que foram ler o trabalho inteiro, e, de vez em quando, me contam que gostaram tanto que até já encomendaram a obra seguinte dos mesmos autores. E claro, são estes pequenos momentos que nos fazem felizes no meio do caos mais ou menos disfarçado da nossa vida quotidiana: se as nossas histórias, e as nossas citações, levaram outras pessoas como nós[1] a ler um bom livro e a querer ler ainda mais – então, e penso que todos os meus colegas sentem o mesmo, já ganhámos o dia e há poucas emoções melhores.


    Antes de passar adiante, vamos já deixar claro o que se pressupõe óbvio mas nunca se sabe: evidentemente, a maldade não é uma característica exclusiva do masculino[2]. E, se afectar o género oposto, não se fica minimamente por aquelas megeras más e vingativas do século XIX, que infestavam os romances do Charles Dickens ou das irmãs Bronte. Podia estar aqui o que ainda nos resta desta estranha e inconstante Primavera a deliciar-vos com casos horrorosos de crueldade feminina, como a das lontras marinhas, ou a das hienas, ou a das leoas quando caçam em bando. Ao contrário do que ainda me diziam quando eu andava na escola[3], o Homo sapiens está longe de ser o único animal que aprecia fazer mal aos outros, incluindo aos da sua própria espécie[4]. Talvez seja o único animal capaz de distinguir a água benta da água normal[5], mas não é, de maneira nenhuma, o único animal que, quando pode, maltrata os outros a título absolutamente desnecessário, assim mesmo, só para se divertir.

    Costumávamos considerar que a crueldade humana, particularmente manifesta nas guerras que os seres humanos travaram entre si desde que temos registo das suas actividades, era de tal forma sofisticada que requeria uma explicação especial. Talvez essa explicação fosse científica, talvez fosse bíblica – ou até talvez fosse, de facto, completamente inacessível à inteligência humana, pois que nos fora trazida por extra-terrestres, tal como Arthur C. Clarke e Stanley Kubrick imaginaram em 1968, por escrito e em filme, em 2001: ODISSEIA NO ESPAÇO[6].

    Pois, mas se a contarmos só até aqui esta história está coxa e é tudo menos bípede.

    Um dos primeiros Homo sapiens verdadeiramente territoriais prepara a lança para dar guerra à família Neanderthal que vive na gruta que fica do outro lado da montanha, onde, neste preciso momento, sem suspeitar de nada, enche as paredes de pinturas cada vez mais bonitas de bisontes com cada vez mais cores resistentes ao tempo.
    Depois vieram o arco e a flecha, depois os códigos de gritos de batalha, depois as tácticas de cerco, depois…
    … a verdade é que os Neanderthais não estavam a fazer mal a ninguém, até podiam andar por ali em maior número do que os Homos, mas olhem. Eram uns indivíduos suficientemente pacíficos para não só co-existirem connosco como até partilharem connosco alguns dos seus genes,[A] mas nós éramos uns esganados, sempre a precisar de mais território[B]. Fizemos-lhes tantas e tão poucas que eles acabaram por extinguir-se para todo o sempre.

    Falta acrescentar que, há cerca de cinco milhões de anos, houve um grupo inteiro de primatas ainda indiferenciados que desenvolveu alguns comportamentos muito, mas mesmo muito raros. Há pouquíssimos animais que vivam em comunidades patriarcais onde os machos se unem e as fêmeas se esgueiram de um grupo para o outro no sentido de evitarem a consanguinidade. Os tais primatas vieram de um grupo detentor dessa raridade, e também se caracterizavam por manterem uma defesa territorial masculina extremamente agressiva, incluindo ataques letais a comunidades próximas, à procura de inimigos vulneráveis para atacar e matar. Hoje em dia, em quatro mil mamíferos e mais de dez milhões de outras espécies animais, este conjunto de comportamentos é único e específico das duas únicas espécies que derivaram daquela espécie ainda incaracterística que existiu há cinco milhões de anos: os homens… e os chimpanzés.

    E, nestes dois casos, o instinto da violência vem, indiscutivelmente, dos machos.

    Tal como entre os humanos a violência doméstica está geralmente ligada ao homem, que bate na mulher, e pode de igual forma bater nos filhos[7], também entre os chimpanzés são os machos quem parece considerar tudo e mais alguma coisa como um bom pretexto para dar tareias do outro mundo nas suas companheiras. Agora que podemos filmá-las no seu habitat natural com as nossas microcâmaras digitais minúsculas que não levantam suspeitas nem causam inibições, temos que aceitar o chimpanzé tal como ele é: são tareias tamanhas que as fêmeas chegam a morrer em consequência. E, tanto numa espécie como noutra, a comunidade circundante observa… e mesmo que filme, mesmo que relate na rádio, mesmo que faça manchetes de jornais[8], a verdade é que, em termos práticos, reage com tal indiferença que raios nos partam se não for causada por cinco milhões de anos de evolução que continuam a dizer-nos que aquilo é normal e até nos faz bem.

    Com tudo isto em mente, eu estava à espera de quê quando, aos 61 anos, vim viver sozinha para uma cidade pequena no interior profundo, cheia de cafés, que estão cheios de esplanadas, que estão cheias de homens, que estão todo o santo dia a beber ou cervejas ou bagaços ou assim parece? Ai a menina chegou aí e achou que tanto assédio era um bocado estranho? Mas achou mesmo? Então e porquê? Por um lado, não é bióloga? E, por outro lado – nunca ouviu dizer que a ocasião faz o ladrão e depois quem anda à chuva molha-se?

    Ora então.

    Beba mas é mais uma bjeca, senhora, que a malta oferece. E conte lá mais umas historinhas cheias de homens maus.

    (continua)

    Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora


    [1] Eu, por exemplo: não sou antropóloga, nem paleontóloga, nem propriamente evolucionista: estudei um bocadinho de tudo isto durante os cinco anos do meu Curso de Biologia no antigo Colégio dos Nobres, mas logo a seguir especializei-me na fertilização do mamífero, depois da História da Biologia, e pronto – estas escolhas não se compadecem com andarmos para aí a aprender tudo o que está nas margens dos nossos interesses. Mas deem-nos um bom livro e contem-nos uma boa história, devidamente documentada e seriamente revista pelos pares: é claro que a gente gosta de aprender!

    [2] Na Natureza, linhas divisórias assim tão taxativas são sempre meritórias de muito pouca confiança. O único diferencial que existe mesmo, no caso da crueldade, encontra-se apenas a nível estatístico, só que é um apenas cheio de penas. Os machos tendem a ser maiores, mais fortes, mais vistosos, e mais dominantes. Um veado maduro enorme, cheio de armações, que esteja na brama, ouve-se e vê-se a quilómetros de distância. As vinte e sete fêmeas pequeninas e sem armações que constituem o seu harém… pois, é mais que se confundem com a folhagem.

    [3] Na realidade, quando agora penso nisso em retrospectiva, contaram-me imensas tretas quando eu andava na escola, e não foi só em Ciências Naturais. Também não há de ter sido tudo deliberado. Agora, sempre que dou aulas, ou explicações, interrogo-me com frequência sobre qual será a grande treta que andamos a ensinar aos nossos alunos. E então desde que comecei a ouvir dizer que se calhar não foi nada um asteroide o que causou a Extinção em Massa dos Dinossauros…

    [4]Só o homem é que tortura, etc.” Ai é? Aguentem firme que eu depois hei de falar-vos de uns quantos orangotangos e gorilas, só para mencionar familiares próximos.

    [5] Remeto-me à minha modéstia. Capaz de distinguir a água benta da água normal? Ná. É evidente que eu, sozinha, nunca conseguiria inventar pérolas de cultura assim tão brilhantes. A frase original é do escritor britânico T. H. White (Mumbay, 1906-1964) e foi gravada na memória de muitos portugueses da minha geração pelas crónicas semanais que grande Augusto Abelaira publicou semanalmente no defunto O JORNAL, O ÚNICO ANIMAL QUE, protagonizadas por duas fêmeas de chimpanzé tornadas famosas à época pelos investigadores de primatologia. O quase esquecido Terence Hanbury White, entretanto, tornou-se particularmente notado em vida pela sua série de romances sobre o Rei Artur, coligidos num único volume, THE ONCE AND FUTURE KING, em 1958. Destes, foi especialmente aplaudido o primeiro da série, THE SWORD AND THE STONE, publicado separadamente em 1938.

    [6] Tanto Clarke como Kubrick tinham personalidades digamos que fortes e difíceis, o que levou à separação pelo meio do seu projecto original de trabalho em conjunto num livro e num filme que haveriam de cair-nos em cima exactamente ao mesmo tempo. Da forma como as coisas correram, o filme, atribuído só a Kubrick, acabou por estrear antes do lançamento do romance, assinado só por Clarke. Mas enfim, sempre aconteceu tudo em 1968. E sem escandaleiras na praça pública, consideradas à época de gosto duvidoso..

    [7]Éramos nove, dormíamos todos em duas camas, e sempre que ele vinha bêbedo acordávamos à noite já com o cinto em cima”: durante todos os anos da minha adolescência em que andei nas vindimas, ouvi variações sobre esta história vezes e vezes sem conta. O resto do pessoal desatava a rir, celebrando o ridículo do homem completamente enfrascado. Ninguém parecia achar nada daquilo estranho, e eu já sabia ficar tão calada como a coruja. Em casa diziam que eu era “uma sonsinha”. Não era nada. Possuía apenas uma deformação profissional que pareceria quiçá aberrante naquela idade.

    [8] E mais sabe-se lá o quê que os chimpanzés fazem para contarem as suas histórias uns aos outros, porque lá porque nós não os percebemos não está necessariamente implícito que eles não se percebam. Estamos a falar de animais capazes de aprender, entender, e utilizar a linguagem dos surdos-mudos. E até de conversar no DOS com os computadores, por muito que possam fazer-lhes pedidos que nós, na nossa eterna sobranceria, consideramos palermas, como por exemplo “vá lá, computador, faz umas festinhas à Kathy!” Animais que atravessam a ponte até este nível mais formas terão de se parecerem connosco – ou sou eu que estou a raciocinar fora do baralho? Eu e todos os primatologistas normais deste ano da graça de 2023?

    [A] E, tanto quanto a gente sabe, entre todos os mamíferos só se trocam genes de uma única maneira.  Por muito que as duas espécies que fazem o amor possam preferir diferentes posições, mudar de posição não é inventar nada nem partilhar nada.
    [B] Porque nós éramos liderados por machos, e os machos que assumiam a liderança eram sempre os mais aguerridos. Em termos de emoções, foram os pioneiros dos gangs dos nossos dias. Não era que precisassem da guerra: era mais que estavam completamente viciados naquela chuva de adrenalina de seguir o chefe, cerrar fileiras, desatar a berrar, e matar o inimigo.

  • Maria Alice não sabe o que pensar: Estremoz recebe-a em casa de braços abertos

    Maria Alice não sabe o que pensar: Estremoz recebe-a em casa de braços abertos

    CARTAS DE AMOR

    Em Julho e Agosto de 2023

    Com 40 graus à sombra e luz de dia até às 22 horas

    Especialmente do PÁGINA UM para a SILLY SEASON dos seus leitores

    CLARA PINTO CORREIA traz-nos, em directo de ESTREMOZ

    UM FOLHETIM TÃO ESCALDANTE COMO O VERÃO NAS PROFUNDEZAS DO ALENTEJO

    Baseado, uma vez mais, numa história absolutamente verdadeira


    O cágado não sobe sozinho nas árvores, alguém o colocou lá.” Provérbio angolano

    Traduzido do umbundo Mbeu okulonda ko cisingi, omanu vakapako por José Eduardo Agualusa,

    in A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS PÁSSAROS (2011)


    Já na praia, depois de muitos mojitos, depois de muitos mergulhos na água fria, depois de muitos cigarros que Maria Alice partilha com ele, Alexandre não faz nenhum dos números físicos risqués dentro de água, ou na areia molhada, que descreveu por carta a Maria Alice com tão bela eloquência[1], em resposta à forma subtil como ela previamente o avisara, também numa das suas cartas, de que tem por hábito fazer topless na praia – assim como tem por hábito não usar sutiã – e não se sabe de onde veio este travessão. Mas enfim, pelo menos Alexandre começou a ter uma conversa mais pessoal. A tónica em que ainda não parou de bater mais vezes, no entanto, não foi a do seu divórcio recente da Gi Medeiros[2], nem a da sua relação agora mais complicada com a Margarida, a linda filha adolescente de ambos, já toda tão menina-mulher.[3] Claro que, levando todo este sofrimento silencioso em linha de conta[4], talvez fizesse sentido não esperar que Alexandre Noronha lhe falasse já dos sonhos que ambos tiveram vinte anos antes. O problema é a única coisa que ele lhe diz, uma vez e mais outra e mais outra, é que na realidade anda sempre stressado porque na sua empresa trabalham 1200 pessoas. “E isto quer dizer que há 1200 pessoas que dependem de mim, e eu penso nisso todos os dias.”


    Para não dizer “vai ao psiquiatra tratar da tua ansiedade” porque sabe que os homens não toleram ouvir “psiquiatra”, Maria Alice, toda esplendorosa no seu novo topless (comprado de propósito para o glamour do momento), diz antes “então aproveita agora, que estás aqui comigo para namorar, não é para trabalhar, e ambos fizémos o pacto de mantermos os nossos telemóveis desligados.”

    Palavras não são ditas, e o telemóvel de Alexandre desata a tocar – aos berros.

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    Ele olha para a chamada, fica vagamente pálido, vagamente trémulo, diz “epá desculpa, mas esta eu tenho mesmo que atender,” levanta-se num pulo e vai atender para longe. A chamada é tão longa que Maria Alice tem tempo de ir tomar banho. Quando regressa, Alexandre está a enfiar a sua tralha toda para dentro do seu saco de praia, e a murmurar, numa aflição, “tenho que ir já para Lisboa… tenho que ir já para Lisboa… 1200 pessoas que dependem de mim, tenho que ir já para Lisboa…

    Tudo bem, mas… vais a Lisboa e voltas, é isso?”

    Alexandre nem responde.


    Leia também o Episódio 1, o Episódio 2, o Episódio 3, o Episódio 4, o Episódio 5, o Episódio 6 e o Episódio 7 do folhetim de Verão do PÁGINA UM da autoria de Clara Pinto Correia.


    [1] É verdade que foi ela quem deu o mote. Mas ele agarrou-o logo no ar, e nas suas cartas seguintes deu-lhe logo umas voltas de tal forma brilhantes, que Maria Alice, sendo culta e tendo sido obrigada a estudar francês durante vinte anos, neste momento já começa a pensar o seguinte: “Isto parece a história do Cyrano de Bergerac… o gajo escrevia tão bem… e vinha desconfiado de que alguém escrevia por mim… ai que horror… será que era outra pessoa quem escrevia por ele?

    [2]Ah – mas eu agora – agora, Bloody Mary, eu não – eu não consigo – eu não consigo nem falar-te – da Gi – foi tudo tão duro – e – e – e – e tão – sabes – tão recente,” repete ele, enquanto ela tenta perceber se o seu amante que ainda não o foi – e agora parece ensaiar-se já para nem o ser – mas eu por enquanto não quero pensar nisto –  enfim, pronto, eu por mim só gostava de saber se ele está a gaguejar ou a usar travessões.

    [3] Menina-mulher é deveras piroso, mas neste ponto vamos todos continuar a disfarçar para quê? Já todos percebemos que Alexandre Noronha, a quem é atribuída estúltima expressão, possui um discurso que resvala facilmente para o piroso. Note-se que deveras também não é flor que se cheire, e que do recurso a estúltima quanto menos se falar melhor, e no entanto ambos os termos existem na língua portuguesa. Enfim, pertencendo a frase em causa ao discurso indirecto, façam como eu e culpem o narrador. Ou é um autor ladino do século XIX determinado a não se deixar apagar pela História, ou é uma Autora dos nossos dias de tal forma ressabiada que deixa minas e armadilhas de estilo duvidoso em toda e qualquer passagem potencialmente conotável com o masculino (e concedam, já agora, que este “potencialmente conotável com o masculino” não saiu nada mal à criatura que hoje vos escreve daqui desta secretária suja e desengonçada, cheia de trabalho e morta de calor, hm?).

    [4] Silencioso homenageia agora o masculino, sem nós por enquanto sabermos se é para melhor ou para pior. Só sabemos é que se uma mulher travasse por carta a correspondência ardente das semanas anteriores, e depois aparecesse ali a falar de trabalho, já tinha levado um par de estalos. Das amigas (“o masculino” local nunca saberia de nada), dos leitores, e de quem quer fosse que a seguir ainda que tivesse o mau gosto de vir para aqui contar a sua história.

  • Maria Alice leva o seu grande amor à praia: Estremoz padece de stress

    Maria Alice leva o seu grande amor à praia: Estremoz padece de stress

    CARTAS DE AMOR

    Em Julho e Agosto de 2023

    Com 40 graus à sombra e luz de dia até às 22 horas

    Especialmente do PÁGINA UM para a SILLY SEASON dos seus leitores

    CLARA PINTO CORREIA traz-nos, em directo de ESTREMOZ

    UM FOLHETIM TÃO ESCALDANTE COMO O VERÃO NAS PROFUNDEZAS DO ALENTEJO

    Baseado, uma vez mais, numa história absolutamente verdadeira


    O cágado não sobe sozinho nas árvores, alguém o colocou lá.” Provérbio angolano

    Traduzido do umbundo Mbeu okulonda ko cisingi, omanu vakapako por José Eduardo Agualusa,

    in A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS PÁSSAROS (2011)


    “Sabes, Alexandre,” escreveu Maria Alice, absolutamente a propósito, “nunca gostei de usar sutiã, e ainda hoje evito o mais que posso entregar-me a usos foleiros e primitivos desse teor[1]. Aliás, tive sorte: são, de facto, usos de que, se não quiser, não preciso[2]. Por isso mesmo, na praia, também só não faço topless se não puder. E então imagino que, quando chegarmos lá, ali naquele banco de areia macia, ainda antes de se ficar fora de pé mas já longe que chegue da margem muito embora raramente lá esteja alguém aos dias de semana, sinto as tuas mãos nas minhas maminhas e me sinto tão feliz que só pode ser pecado.” Ao que ele respondeu, muito breve mas com toda a evidência sonhador, “Ah – mulher endiabrada.”

    Os olhos cor de mel de Maria Alice cintilam de sonho, de antecipação, e, ocultamente, também de orgulho[3].


    A praia a que se referiu naquela carta a esposa de António José é uma espécie de pequeno paraíso, entre os muitos que abençoam as cercanias de Estremoz. Chama-se Praia dos Montejuntos[4]. Não se indica aqui o itinerário uma vez que grande parte da graça deste oásis fluvial é o seu carácter quase secreto, mas sempre podemos ir adiantando que, para quem vem da cidade luminosa, levam-se cerca de quarenta minutos por estradinhas estreitas, quietas, quase desertas e muito belas. Este timing vale, sobretudo, para quem quiser ir saboreando bem o percurso, e – porque não – conforme comentaria Alexandre Noronha – parando – talvez – numa das aldeias mais promissoras que apareçam – nos acasos do caminho – a respeito da cerveja gelada, ou – quiçá – perante a loja encantada de artesanato – da qual – uma vez mais – se omite o nome – mas aqui antes por esquecimento do que por opção[5]. São estas paragens imprevistas, e toda esta lentidão, dentro de todo este silêncio, que vão tirando de cima dos mais derreados de todos os ombros os blocos mais duros e violentos do stress lisboeta.

    Depois, de repente, a estrada começa a descer. Dois anos depois da sua estreia, ainda está mesmo a cheirar a novo, tão bem alcatroada que apetece dizer antes alcatifada. E é durante essa descida, pelo meio da sombra, que aparece de súbito a grande oval de água cristalina, de um azul que fora de pé quase atinge a beleza do verde tropical e transparente, com toldos de palha, quase todos desertos. Para lá do estacionamento grande e simples levanta-se uma varanda de madeira imponente sobre a lagoa, parte envidraçada e parte a céu aberto: é o café-bar de óptimo gosto que Maria Alice também já descreveu ao seu grande amor, onde se servem óptimos pratos e petiscos de peixe e crustáceo de rio, e se congeminam misturas alcoólicas e sumarentas perfeitas, nomeadamente os mojitos que ela adora, com as limas arrancadas das árvores vizinhas e a hortelã criada ali mesmo.

    red and green all you need is love and mojitos neon sign

    Nunca mandou nenhuma foto deste esplêndido destino a Alexandre porque respeita o código não estipulado mas perfeitamente entendido de ambos: nada de imagens. Nestes dias loucos onde toda a gente filma tudo e manda para os antípodas à velocidade da luz, aqueles dois amantes que ainda não o foram enlaçam-se apenas por carta. Longas e bonitas cartas, como as de antigamente. Com suficiente conteúdo explícito para a chama arder toda a noite. Como por exemplo, durante os últimos dias, os detalhes que vão e vêm sobre tudo o que poderão, por fim, fazer debaixo de água.

    Maria Alice espera o seu amor para cumprir todas as promessas que já lhe fez para o primeiro dia na praia, mas entretanto arranjou coragem para lhe mandar o seu primeiro pequeno conto quase erótico, com a desculpa de estar a pedir um parecer masculino ao homem em quem mais confia neste mundo. A PANGEIA vai começar uma revistinha semanal com opinião, cultura, notícias, internacional, tudo englobando o mundo inteiro[6], mas tudo escrito por alguém de Estremoz. Os contos de Maria Alice entrarão na CULTURA, evidentemente. Alguém de Estremoz que se doutorou no Canadá e sabe escrever ficção. É bué fish, como ela gosta de dizer. O primeiro esforço é de três parágrafos, respeitando os dois mil caracteres com espaços decididos na reunião de redacção. Logo no primeiro parágrafo, um casal que, por razões ainda não explicadas, subitamente já não pode mais, encosta o carro numa berma à sombra e atira-se a um longo beijo vertiginoso até ser interrompido pela BT. Esse carro é um clássico estupendo, um Citroen DS verde-garrafa descapotável sem banco de trás, todo brilhante ao sol dourado do fim da tarde no Alentejo. E o casal, que é já de uma idade considerável, ia a ouvir o TOUTS[7] LES GARÇONS ET LES FILLES DE MON ÂGE em romagem de saudade.

    Maria Alice é capaz de jurar que ia apenas escrever no gmail  “Querido Alexandre, segue em anexo o tal conto que eu te pedi que comentasses.” Mas, ao reler o que fez, verifica – travessão – não sem alguma surpresa – que escreveu antes,

    Muito obrigada pela tua companhia das últimas semanas, Meu Querido Alexandre. Estou a agradecer-te muito a sério. A ternura das tuas mensagens aguentou-me viva quando vivia com fome e adormecia com sede, e deixou que entretanto todo este conto, que, agora sim, me faz feliz por ter conseguido escrevê-lo, se fosse montando frase a frase dentro de mim enquanto eu bulia inutilmente para satisfazer interesses que não são genuinamente meus.  E estou em crer que proezas destas só nascem mesmo de relações muito especiais: ainda nem te vi, e já permitiste um pequeno milagre dentro de mim, mesmo a meio de uma das piores travessias do deserto dos meus últimos tempos. Por favor, não deixes de surtir estes pequenos actos secretos de glória depois de eu te ver. Prometes[8]?

    Macbook Pro

    Mesmo do fundo do meu coração endiabrado

    Bloody Mary”

    Enfim, a notinha não está especialmente mal escrita. Se tiver erros de composição, pois bem: isso atestará que a escreveu de jacto e não a releu, pelo que sim, é verdade[9], levou o envio dos três parágrafos profanos a sério, numa de transa profissional.

    Alexandre também responde muito profissionalmente, logo a abrir com uma frase de vários travessões a indicar que o debate sobre a parte profana será melhor travado quando estiverem calmamente sentados no bar do tal paraíso fluvial que ela lhe descreveu tão bem, através de tão belas pinceladas impressionistas às quais só faltava – mesmo – o aroma. E, logo a seguir – “Oh! – Minha Querida Bloody Mary – Viveste tu no Québèc durante vinte anos!” – adverte-a de que TOUS (“de – TOUS LES GARÇONS etc. – romagem de saudade para mim – também!”) não se escreve com aquele segundo T que ela usou. No que ela concorda logo, só prova que nem reviu o texto, tanta pressa que tinha de pô-lo à prova perante os olhos dele[10]!

    O pior é que Alexandre também lhe faz ver, com aquele género de segurança que é muito característica dos homens quando abandonam a seca dos outros temas e se põem, finalmente, a falar de carros[11] – oh! Céus! –

    Alexandre Noronha, neste ponto, trava mesmo às quatro rodas: nunca – mas nunca – na vida – existiu um Citroen DS sem banco de trás. Todos eles tiveram – sempre – e ainda têm – um banco de trás.

    E aqui, incapaz de se remeter ao mero agradecimento da preciosa correcção, Maria Alice dá luta, sublinhando que aquele DS específico pode ter sido trabalhado na oficina do fabricante de belos clássicos para ficar sem banco de trás. É-lhe necessário este detalhe para o resto da história fazer sentido, a partir do momento em que aparece a BT. Suponhamos que o carro é da mulher, que aliás era quem ia a conduzir antes de mergulhar naquele beijo-ventosa que baralhou as suas pernas com as pernas do homem, e a fez tirar as mãos do volante para as conduzir num sufoco até outros lugares, muito mais quentes, já palpitantes: uma mulher seria capaz de pensar no detalhe de criar espaço para as compras do supermercado, o que a levaria a pedir ao tal fabricante de belos brinquedos que tirasse dali o banco de trás.

    Red and Black Car Die-cast Model on Ground

    Ah!”, rosna Alexandre Noronha de volta, na margem do sarcástico, agora quase ofendido. “Então tu prepara-te – Bloody Mary! Ao supermercado – com esse carro? Vão rir – de ti!

    E ela responde logo, com um sorriso fogoso,

    Meu Querido Alexandre, tu queres que eu me prepare? Mas eu já estou absolutamente preparada!

    Aqui deixemo-nos de brincadeiras e questionemos esta estranha diferença de curso nos últimos acontecimentos.

    A que será que vêm, de repente, todos estes inesperados pontos de exclamação? Inicialmente ainda seriam perdoáveis porque foram utilizados por Alexandre, grande e confesso admirador de Cesário Verde que não tem medo de ninguém. Quando se estende a Maria Alice, que nesses arroubos de entusiasmo é muito mais comedida, ainda podem justificar-se no âmbito da sua espécie ambivalente de discurso directo. Mas como é que é possível que cheguem, finalmente, a infectar até o discurso indirecto, ameaçando-o a qualquer momento, o grande tombo no mais puro dos ridículos?

    Por que é que havia de ser?

    Ah pois é.

    Pois é.

    É que já não falta nem uma semana para chegar o primeiro dos cinco dias em que combinaram que Alexandre Noronha viria a Estremoz visitar a sua Bloody Mary, e a sua Bloody Mary já tratou de todos os detalhes de que podia tratar com antecedência, além de que já pensou em todos os outros. De manhã cedo, sentada à mesa da cozinha a tomar o seu primeiro café enquanto volta a debater com a leal Josefa a questão do que servir ao pequeno-almoço, Maria Alice só tem vontade é de recomeçar a roer as unhas.

    Como dantes.

    “A menina não brinque com o fogo e não esteja sempre a dar essas dentadinhas nos dedos,” sorri-lhe a Josefa, atenta e compreensiva. “Olhe que eu ainda me lembro de si com dezoito aninhos, quando apareceu aí toda fresquinha e morenaça, feita namorada daquele Figurão da Orada, lembra-se?, e era quando levava a égua dele aos concursos de salto, e ganhava aquilo mesmo nas barbas dos homens, ena pá, a gente, nós-as-mulheres, a gente quase que chorávamos! Olhe que eu lembro-me muito bem. De vez em quando ainda tiro as suas taças todas daquele baú lá de baixo, para as arear como deve de ser. Até devíamos pô-las num sítio qualquer onde este seu doutor dos olhos azuis as visse, assim como quem não quer a coisa, sei lá, púnhamos no seu escritório, mas isso a menina é que sabe, agora escute. Eu lembro-me do menino António José sempre por aí a farejar mal a menina aparecia, sempre a dizer ‘acredita em mim, Josefa, vais ver que eu roubo a miúda ao Conde, olha que vais ver que eu lha roubo mesmo, olha que temos muito cavalo em comum e ela rói muito as unhas, deve precisar de um homem que a sirva melhor do que aquele atrasado mental que engoliu o garfo e diz que comprou o título mas foi, ainda por cima este ano os toiros dele são bravos demais e o Conde anda com umas trombas que ninguém chega perto, a miúda precisa é de quem lhe cante ao ouvido e a leve a umas boas festas de gente rija, aquelas africanas foram todas feitas para rir e gozar bem a vida, eu é que sei dar-lhe o que ela quer, eu é que tenho o que ela precisa de ter,” e eu “ai o menino deixe-se de loucuras, não vá cruzar-se no caminho do Senhor Conde e partir de desgosto e de vergonha o coração da sua Mãe,” e ele sempre a rondar, sempre a dizer ‘tu vais ver, Josefa, tu vais ver’, e vai daí, qual não é o meu espanto quando naquela manhã a menina me entra quase nua pela cozinha adentro, perdeu-se no corredor à procura do duche que na altura só havia cá um, ainda se lembra? Claro que lembra! Pois se ainda hoje a menina anda pela casa quase nua! E a Mãezinha do menino, que já tinha falecido nesse dia, que pena! Para acabar tudo em casamento pronto, com o casamento ela ficava feliz, não casou ela mas casou o filho por ela e fez-se justiça![12] Pois é verdade que a menina, nessa altura, até mesmo no dia do casamento em que foi toda de branco com aquela cauda de vinte metros de bilros mas com essas suas lindas pernas que mais todas de fora não podiam estar, pois era, e mais aquele decote que as gordas até deram gritinhos, vieram as Lelas cá para fora fumar e tudo, então mas então, tu queres ver que a moça vai mesmo casar sem sutiã, e o que eu ia dizer era que com aquela caloraça a menina ia toda descascada mas ia de luvas, e só tirou as luvas quando foi para ele lhe meter a aliança, e nessa altura já tinham cantado os dois um para o outro, lembra-se?, e já toda a gente chorava e portanto ninguém via, mas eu vi. É que a menina sempre teve uns dedos lindos, mas trazia sempre as unhas todas roidinhas até ao sabugo, era mesmo uma pena. E vai daí eu não sei o que é que fez no Canadá para voltar de lá com elas tão lindas…

    Então, ó Josefa! Isto são unhas de gel, não se vê logo?

    Pois muito bem, e então agora a menina vai pôr-se para aí a roer umas unhas de gel, por algum caso[13]? Por isso tire mas é os dedos da boca que ainda fica mas é sem eles. Ai! Credo! Mas que tonta![14]

    Person Wearing Gold Ring and Blue Manicure

    Maria Alice afunda-se em trabalho para não permitir ao tempo que passe devagar. Trata seriamente da horta para ter a certeza que não deixará os seus braços desenvolverem um mínimo indesejado de flacidez. Bronzeia-se pouco porque já está muito bronzeada e, sobretudo, porque de momento não tem qualquer paciência para ser observada seminua por qualquer conterrâneo. E, no entretanto, deixa todas as peças de roupa que utiliza, com os seus diferentes perfumes, ficarem por cima das cadeiras, da cama, e mesmo do chão, em total desalinho. A atitude subjacente carece de qualquer explicação para quem conheça um mínimo de psique masculina.

    Quando Alexandre, finalmente, lhe bate à porta, com um ramo de flores fantástico em cada mão, o PC ao ombro, e a mala para cinco dias a assomar de dentro da caixa do espectacular BM cinzento estacionado junto ao portão, Maria Alice, a estoirar de romantismo, puxa-o para dentro, fecha logo a porta, encosta-o à parede, nem o deixa falar, e espeta-lhe com um linguado monumental[15].

    Alexandre retribui, mas é evidente – mesmo para a mulher apaixonada – que não estava à espera daquilo. Ah, pois, pensa ela em pleno beijo, sem deixar de saborear a presa. Os homens, coitados. Sentem-se logo postos em  causa se não forem eles quem dá o primeiro passo.

    E portanto, muito caritativamente, deixa-se ela própria deslizar para a parede fronteira à dele, e dali faz o seu primeiro e autêntico sorriso, rasgado e doméstico, ao seu grande amor. E sussurra-lhe, apenas,

    Bem-vindo ao lugar mais tranquilo do mundo…

    faz sabiamente uma pausa para respirar fundo, e acrescenta, apenas,

    “… querido parceiro das mornas.

    A situação lá se recompõe com esta referência ao passado, permitindo a Alexandre, por seu turno, sorrir-lhe, passar-lhe a mão pelo ombro, e murmurar, quase assombrado,

    Bloody Mary – como os anos te trataram bem…

    Alexandre está demasiado crispado para conseguir continuar logo, mas os gestos destinados a ir buscar a mala dos cinco dias compram-lhe o tempo de que precisa para ainda acrescentar, pousando a mala no chão, agora do lado de dentro da porta, que volta a fechar-se, desta vez impelida pela sua própria mão,

    “… querida parceira das noites na praia.”

    a person holding a baby

    Maria Alice, a extuar de energia[16], agarra-lhe na mala dos cinco dias como se ela não tivesse peso e leva-a ligeira pelas escadas acima, até à porta do quarto. Ele segue-a com alguma hesitação, talvez ofuscado pela luz da rua ao entrar na penumbra do corredor. Ela agora dá-lhe só a mão, com muita gentileza para não voltar a espantar a caça, mas com a preocupação de garantir que ele não esbarra em nada pelo caminho. E é assim, com um murmúrio sobre a tal bica muito curta que jurou oferecer-lhe logo à chegada, que o conduz até à cozinha, sempre a divisão mais fresca da casa.

    Josefa,” diz Maria Alice, sem esconder minimamente a sua felicidade, “antes de mais nada, queria apresentar-te o nosso hóspede dos próximos dias, este meu querido Alexandre de quem te falei tanto.

    Ai que o Senhor Doutor veio mesmo visitá-la!”, exclama a velhota, também ela com um sorriso feliz – e, acto contínuo, avança para o visitante e dá-lhe dois beijinhos, que ele retribui com alguma atrapalhação. “Ah,” continua a fiel empregada, “o Doutor não sei, porque nunca o vi antes, mas a menina, olhe, a menina eu digo-lhe já, de repente ficou dez anos mais nova. Valha-nos Deus, que fazem mesmo um lindo casalinho. Deixam-me tirar-vos uma foto, destas do telemóvel?”

    Desde que não ponhas no teu Instagram…

    “Ai menina, não brinque comigo, eu sei lá mexer naquelas porcarias que a menina aqui meteu!”

    E assim, enquanto abafam risos, fazem os dois algumas poses amorosas para o telefone da Josefa, que depois desaparece a cantarolar o FADO ERRADO pelo corredor fora[17]. Apesar da frescura da cozinha, Alexandre tem a testa suada, mesmo depois de, a convite de Maria Alice, se sentar e apreciar a tal bela bica muito curta, acompanhada por um copo alto com água muito fresca, e por um prato do Zé Carlos Rodrigues, onde um pavão sóbrio acabou de abrir o caleidoscópio da cauda,[18] com três queijadas de requeijão fresquíssimas, chegadas há meia hora da FOLIA AIROSA[19].

    Se calhar,” diz a antiga menina das noites na praia, “devia pedir-te desculpa pelos excessos da Josefa. Ela bem se calava, mas tinha estampado na cara que não via a hora de tu apareceres cá em casa. Eu aprendi contigo que nunca é tarde para se ter um futuro feliz[20]. E depois ela aprendeu isso mesmo comigo. E sabes, para uma mulher esta é uma aprendizagem tão grande, tão importante, e sobretudo tão boa, mas tão boa, a sério, tão boa e tão boa, que vira facilmente os mais simples do avesso. Escusas de perguntar se EU, que não sou tão simples como a Josefa, fiquei indiferente. Sabes muito bem que não fiquei. És a única pessoa no mundo que conhece o meu coração. E ainda me custa acreditar que vieste mesmo ter comigo.”  

    red ceramic bowl on gray spoon

    Alexandre Noronha agarra finalmente numa das queijadas de requeijão. Dá-lhe uma dentada, sorri, e acena aprovadoramente.

    Então eras mesmo tu,” comenta em voz baixa, como quem partilha um segredo.

    Era mesmo eu?”

    Por favor, não fiques zangada comigo. Mas cresceste tanto, nestes vinte anos de ausência… A tua maturidade, a tua segurança, a tua disponibilidade emocional… a qualidade da tua escrita… cheguei a temer que fosse outra pessoa quem escrevia por ti, e aqui em casa estivesse outra vez a miúda que falava comigo na praia, à noite, em Santiago. Por favor, não fiques zangada. Mas é que não escrevias como a miúda de que eu me lembrava.”

    Foi com essa miúda que tu vieste ter hoje?

    Alexandre acabou a primeira queijada, e ataca imediatamente a segunda, sem disfarçar a sua gula. No piloto automático, Maria Alice tira-lhe mais um café curto e faz cair mais cubos de gelo directamente da porta do frigorífico para dentro do jarro da água.

    Não,” responde-lhe Alexandre, muito sério. “Vim ter contigo sem saber quem és.

    Então é bom e eu fico muito feliz,” sorri ela. “Porque eu também não sei quem és.

    Senta-se à frente dele ainda dentro daquele sorriso, e ainda acrescenta,

    “… mas és um gajo que ainda vai devorar a terceira queijada de requeijão que a Josefa foi buscar ao Pelourinho de propósito para ti, ou não és? Adoro pessoas com verdadeiro apetite. E isto de não nos conhecermos parece saído direitinho das fantasias eróticas daquela senhora da tua idade que ia no DS verde-garrafa. Além disso…” – pousa, pela primeira vez, a sua mão delicada, de dedos compridos e unhas discretas, em cima do punho cerrado dele – “… agora temos imenso tempo para voltarmos a conhecer-nos. Começar de novo é sempre um bom princípio. Não é?”

    Claro que é.

    Alexandre deixou ficar a mão delicada de Maria Alice em cima do seu punho cerrado, cheio de veias salientes, que agora se vão distendendo muito devagar.

     Mas continua com um vago tique nervoso nos cantos da boca.

    E, pronto. Já mudou de posição, e já tirou a mão.

    Tudo bem, na realidade foi ele quem saiu da sua zona de conforto e se meteu à aventura pelas autoestradas, da porta do seu escritório futurista em Lisboa até à porta de uma vaga memória de juventude que foi parar a uma cidadezinha desconhecida agarrada a um castelo.

    Ou até talvez esteja tenso por motivos ainda mais simples do que aquele.

    Talvez tenha medo de cães.

    Sobretudo de cães grandes.

    Há que ver que o Júnior não pára de inspeccioná-lo desde que ele se sentou na cozinha, e os Leões da Rodésia são sempre cães impressionantes para quem está sob a sua observação pela primeira vez. O Júnior não é minimamente agressivo, mas também não mostra qualquer alegria.

    Por decisão imediata e unilateral de Maria Alice, o cão fica em casa.

    Alexandre entra com a mala na suite de pé direito altíssimo e tectos decorados a gesso, com os seus grandes janelões virados para a horta, diz “tens razão, isto é lindo”, leva os calções e o nécéssaire para a casa de banho, acrescenta “é mesmo como dizias, a pessoa aqui pode esquecer-se de tudo, até do seu próprio stress,” depois do que fecha a porta atrás de si e trata de encher os minutos seguintes com alguns ruídos próprios de estar ali dentro um homem. Por fim, quando sai, lá faz o favor de comentar, observando o desalinho em que Maria Alice foi deixando toda a sua intimidade perfumada nos últimos dias, “adoro este teu caos, Bloody Mary.

    Grayscale Animal Nose

    Ela sorri, atreve-se a piscar-lhe o olho, tem a impressão de que ele não gostou daquelas frivolidades, é como tudo o que acontece, pensa ela, não deixa de ser estranho, já que, trocadas tantas cartas, tudo o que acontece parece estar sempre a acontecer cedo demais. Mas bem, deixa cair. São os homens, não é?

    Deve ser.

    Os homens precisam sempre de mais tempo. Os homens precisam sempre de mais espaço.

    Ó criatura, relaxa. Eu dou-te todo o tempo e todo o espaço que tu quiseres.

    Já na praia, bebem por fim os tais mojitos deliciosos de tanta frescura, e petiscam tirinhas fritas de peixe do rio, que mais frescas também nunca poderiam ser. Estão instalados principescamente[21]  no tal restaurante de madeira que forma uma varanda por cima do mar e continua tão lindo e tão calmo como sempre. Alexandre, finalmente, fala muito. Depois de falar muito do seu stress, recomeça a falar muito de trabalho. Como que acordado de um sonho, faz-lhe também a ela muitas perguntas de trabalho, um pouco como já vinha fazendo no carro. Como montar um belo estaminé de software alternativo, promoção da cultura, e apoio ao domicílio, mesmo no meio de parte nenhuma e por enquanto sem patrocinadores, isso sim, a coragem e a genica – e a estaleca[22] – da sua Bloody Mary para se sair tão bem de uma aventura dessas parece-lhe fantástica, e talvez possa ajudá-la nos labirintos do mecenato, que remédio tem ele senão conhecê-los muito bem e muito por dentro, oh, o stress que é sempre, todos os dias, essa questão da publicidade.

    E este teu estaminé, sabes, este bar, este peixe, estas bebidas, esta praia, isto é fantástico[23]. A pessoa passa aqui dois ou três dias e até se esquece de que o stress existe.

    Sempre que diz isto, como quem compõe cuidadosamente um poema, Alexandre Noronha rememora, logo a seguir, o tempo em que os dois se conheceram em Cabo Verde.

    Também não existe stress em Cabo Verde, menina.

    De cada vez que ela lhe agarra na mão por cima da mesa ele repete o número da cozinha. Não protesta, mas não demora nada a inventar um pretexto para mudar de posição. “Isto passa,” pensa ela. “É tudo do stress.”


    Leia também o Episódio 1, o Episódio 2, o Episódio 3, o Episódio 4, o Episódio 5 e o Episódio 6 do folhetim de Verão do PÁGINA UM da autoria de Clara Pinto Correia.


    [1]Teor.” Não é para qualquer um. Esta questão nem se discute: a esposa de António José sabe escrever muito bem.

    [2] Claro que é absolutamente discutível se seria mesmo necessário inserir aqui uma frase de teor assim tão explícito, mas enfim, dê-se-lhe o devido desconto. Esta mulher está agora perdidamente apaixonada, e escreve para um amante epistolar que ainda não o foi de corpo inteiro. E esta sim, esta é que é mesmo uma linda elipse, “ainda não o foi de corpo inteiro.” Ena pá.

    [3] O adjectivo “endiabrada” (ou “endiabrado”, como por exemplo na frase de há três dias antes “o meu coração está endiabrado no segredo do meu peito”) é uma pérola de cultura sua, que o seu correspondente já começou a entalar de empréstimo entre travessões. Haverá, porventura, melhor prova inconsciente de amor e respeito?

    [4] Também conhecida pelo nome mais finaço de Praia Fluvial de Azenhas d’El-Rei, ou pelo nome mais preciso de Praia Fluvial do Alandroal.

    [5] Talvez. Lá mais para o fim da frase, se tenha instaurado algum baralhanço entre os travessões. Mas tais fragilidades são inevitáveis no discurso indirecto. Como já sabemos, os travessões são o ponto de honra epistolar de Alexandre Noronha, e de mais ninguém.

    [6] A Pangeia que existiu antes de se separarem os continentes, lá está.

    [7] Escrito assim mesmo, em galharda competição contra o corrector ortográfico.

    [8] Maria Alice não é parva, e trata rapidamente de assinalar que este ”Prometes?” é absolutamente retórico utilizando um emoji adequado ao efeito. Escolhe uma carinha desconfiada, a meditar de mão no queixo e sobrolho franzido. Sobrolho.

    [9] Mentira! Claro que é mentira! Claro que a leu e releu vezes e vezes sem conta, e que a retalhou, a modificou, a encurtou, até a notinha não poder ficar melhor sem parecer suspeita para notinha. Mas, francamente – qual é? Há azar? Não mentimos todos, homens e mulheres minimamente educados, no que toca a rever cuidadosamente o que escrevemos, antes de expormos as nossas grandes habilidades estilísticas ao escrutínio seja de quem for? Não é verdade que vai sempre existir um escrutínio, nem que mais não seja porque deixou de existir privacidade? Então vá, saiam de cima. Esta mentira nem sequer é assunto.

    [10] Aaaaah, gaita! Desde os vinte anos que meto água nesta porcaria de tous ter ou não um segundo t. Para que é que me armei em boa? Ia a correr salvar o meu pai da forca, por algum caso? Era só passar ali com o corrector ortográfico francês. Ah! Raios me partam! Raios me partam! Isto nunca mais pode voltar a acontecer!

    [11] Carros é diferente. Não é futebol. Futebol tem treinadores, tem prima-donas, tem penalties, agora ainda por cima tem o VAR, enfim, tem um sem-fim de potenciais discordâncias subjectivas que podem sempre, a qualquer momento, armadilhar as opiniões de um gajo. Carros não. São valores seguros. Só há estas marcas. Só há estes motores. Só há estes anos. E toda a gente sabe em que é que o diesel difere da gasolina. Um gajo que perceba de carros pode falar à vontade, e até pode fumar uma cigarrilha ao mesmo tempo, porque nunca é apanhado em falso.

    [12] Referência óbvia a outro folhetim que não este, passado noutros tempos, em que a Mãezinha do Menino António José deve ter vivido uma paixão ardente com o Pai deste infame Conde da Orada que cria toiros demasiado bravos, ficou porventura desonrada quando se deixou levar atrás de promessas vãs, pois claro que o Pai deste Figurão roeu a corda para se casar antes com uma espanhola muito rica e a única coisa que salvou a pobre senhora foi a dedicação que lhe tinha o pequeno contabilista das alfaias agrícolas e terras de cultivo. Ora, na geração seguinte, roubando a namorada ao filho da puta que é filho do outro filho da puta, faz-se uma magnífica justiça poética, e a história é mais ou menos esta. Toda a gente em Estremoz a conhece.

    [13]Por algum caso” é uma forma local de enfatizar perguntas absolutamente genial. Para usar com a merecida frequência.

    [14] Ao usar – também ela – não apenas um, mas mesmo uma boa dezena de pontos de exclamação de seguida, a velha Josefa permite-nos compreender que – também ela – pode muito bem ficar calada, mas a verdade é que já está que não pode nem ver a hora em que o grande amor da sua Maria Alice vai finalmente entrar ali por aquela porta.

    [15] Em grande medida, está a reproduzir o comportamento observado, no tal primeiro parágrafo do tal conto profano destinado à tal revista semanal digital da PANGEIA, pela tal mulher que vai a guiar o tal DS descapotável verde-garrafa, sem o tal banco de trás para poder transportar as compras do supermercado.

    [16] Extuar. Quanto à energia, escusado seria dizê-lo mas enfim, é aquela forma especial de energia que nós só podemos ir buscar ao amor.

    [17] Mais especicicamente, Josefa volta a demonstrar que a sabe toda, escolhendo, como quem não quer a coisa, a passagem “… quem me dera/ ter outra vez desenganos/ ter outra vez vinte anos/ para te amar outra vez…

    [18] Um dos melhores e mais sofisticados artistas locais. A sua loja e galeria, BONECOS DE ESTREMOZ, situa-se mesmo no centro da cidade, na Rua 5 de Outubro.

    [19] Recorde-se, que não se perde nada: não há um único tasco velho em Estremoz onde as queijadas de requeijão não sejam deliciosas. As do novíssimo espaço FOLIA AIROSA, numa das esquinas do Largo do Pelourinho, levam um toquezinho de limão e constituem uma inovação inesquecível. Inovação inesquecível. Bravo.

    [20] Trocadilho brilhante, improvisado mesmo ali na hora, sobre o velho lugar-comum “nunca é tarde para se ter uma infância feliz”. Se Alexandre Noronha conseguiu divorciar-se “mas ainda não consigo falar-te disso, temo que toda a perversidade do mundo me engula se mencionar sequer o nome dela”, ela também o conseguirá, certamente. No futuro. Na hora de ser feliz, para que a Josefa também o seja.

    [21] Foi ele que disse, simpático: “principescamente”. Mas podia estar só a sublinhar serem os únicos frequentadores do tal “espaço”. Se foi isso, felizmente, Maria Alice não fez conta.

    [22] Ok, mesmo omitindo coragem, admitamos que a redundância de genica e estaleca vem do amor ao ênfase que se obtém por escrito com travessões e que, oralmente, há que procurar de outra forma. Ou que não existe redundância no uso consecutivo dos qualitativos genica e estaleca, ou que, pelo menos, não existe quando a pessoa repetiu muitas vezes a mesma ideia. Ou que nada disto conta quando a pessoa está apaixonada!, meus senhores!, já que deve ser esse o caso, e Maria Alice encontrou satisfações perfeitamente legítimas para todos os outros.

    [23] É verdade, trata-se do segundo “estaminé” de Alexandre. Mas tudo o que segue será também uma repetição, e – por agora – ele já não tem muito tempo.

  • Maria Alice mente: Estremoz pede-lhe mais

    Maria Alice mente: Estremoz pede-lhe mais

    CARTAS DE AMOR

    Em Julho e Agosto de 2023

    Com 40 graus à sombra e luz de dia até às 22 horas

    Especialmente do PÁGINA UM para a SILLY SEASON dos seus leitores

    CLARA PINTO CORREIA traz-nos, em directo de ESTREMOZ

    UM FOLHETIM TÃO ESCALDANTE COMO O VERÃO NAS PROFUNDEZAS DO ALENTEJO

    Baseado, uma vez mais, numa história absolutamente verdadeira


    O cágado não sobe sozinho nas árvores, alguém o colocou lá.” Provérbio angolano

    Traduzido do umbundo Mbeu okulonda ko cisingi, omanu vakapako por José Eduardo Agualusa,

    in A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS PÁSSAROS (2011)


    Maria Alice mentiu a toda a gente ao descrever Alexandre Noronha enquanto antigo namorado da adolescência, mas isto é mesmo assim, meus amigos,

    toda a gente mente[1],

    e,

    se vamos mentir,

    que seja por uma causa gloriosa,

    como por exemplo a causa de um grande amor que tivemos em meninas e depois nos escorreu entre os dedos como a água do mar[2].

    É assim mesmo que Maria Alice descreve a sua mentira inocente na carta que escreve nessa noite ao seu Alexandre, que responde logo, naquele seu estilo – conceda-se – elegante e – sempre – sem esforço, implorando – de joelho no chão, querida Bloody Mary – que, já que – nos seus sonhos – foram os dois, em dias mais simples – e de maior leveza – miúda gira – dois namoradinhos destinados a amarem-se para sempre – então agora deveriam – mesmo – deixar-se de – chamemos-lhes assim – cortesias[3] – e retomar o seu antigo – e despreocupado – tratamento por tu.

    Maria Alice responde logo, a mordiscar os lábios cheios e brilhantes,  com uma chama a cintilar dentro dos seus olhos cor de mel,

    Olha que, realmente, a escrevermos um ao outro desta maneira, até parecemos mesmo dois namorados do tempo em que nem sequer havia internet, e as pessoas escreviam umas às outras verdadeiras cartas de amor.

    Ao que ele responde logo de seguida:

    Eu ficaria tão feliz…

    E, na manhã seguinte, Maria Alice repara que por baixo – Alexandre Noronha – num tumulto – provavelmente como ela – ainda acrescentou,

    Agora que nada me prende – e que tudo posso…


    Claro que a história do namoradinho que antecedeu a António José – e se António José roubou aquela mulher linda ao Conde da Orada, então é porque o namoradinho também antecedeu o Conde da Orada – [4]não ficou – nem um só dia – limitada ao pequeno círculo dos foliões que foram à noite praticar skinny dipping nas lagoas da pedreira. À hora do almoço do dia seguinte estava demasiado calor para alguma coisa se mexer, incluindo a alma da mais santa pessoa de Estremoz. De maneira que todas as amigas de Maria Alice, e imensas amigas dessas amigas, deram um grande prazer à Josefa, que tinha tirado do forno nessa madrugada um bolo de noz delicioso[5], e ao Júnior, que adorava ajuntamentos de mulheres porque, ao contrário dos homens, todas o consideravam adorável e lhe passavam empadas inteiras por baixo da toalha enquanto a dona fazia vista grossa. O atelier da PANGEIA era grande, confortável, com uma vista muito agradável para o jardim ao fundo da qual se via o chuveiro da horta, várias cadeiras reclináveis com mesinha de dobrar incorporável… e, benção sublime entre todas, um óptimo ar condicionado.

    walnut, nuts, chocolate

    Conta lá, Mariazinha, conta lá. Também era alentejano, esse mocinho?

    Eu já disse que, a partir de agora, quem quiser saber da minha vida pessoal que me trate por Bloody Mary.  E ele não era nenhum mocinho, porque é uns bons quinze anos mais velho do que eu. Eu é que era uma mocinha, porque só tinha dezasseis anos.”

    Ai coisa! E então pinaste com ele aos dezasseis anos?”

    Podes crer. Dentro do Castelo de Vila da Feira.

    Ai Deus! Mas como?

    Então, ele tinha uma chave para ir dar ao gabinete numa das torres onde fazia não sei que estudos, falou-me disso, pareceu-me um bom plano, e fomos lá.”

    Ai esta louca… mas então, e tu eras virgem e tudo, e vocês foram e fizeram o servicinho adonde, se foi dentro desse gabinete?”

    Ó desgraçada, isso pergunta-se? Pois está na cara que foi logo ali no chão, evidentemente. Onde é que querias que fosse?

    Ai valha-nos Deus. Coitadinha.”

    Mas coitadinha porquê? Olha que eu não achei nada. Uma coisa tão boa. E tão excitante, naquele chão todo de pedra. E ele com muito cuidadinho, muito mimo, muita conversa bonita… até que eu já estava de cabeça perdida, e então parecia um demónio. Vêem como eu ainda me lembro de tudo? Devia ter ido com ele para Oxford e ficado com ele para sempre. E a propósito, vocês desculpem este esclarecimento, mas é que o meu grande amor não foi nenhum alentejano. Era um historiador da Universidade do Porto lindo, lindo, lindo, de olhos azuis e cabelos loiros, muito inteligente, e sobretudo muito divertido. Estão a ver o meu Conde dos Toiros Bravos, o da Orada? Alguma de vocês lhe chamaria inteligente e divertido? Está bem, a pessoa é novinha, está sozinha, é tolinha, e acabou-se a conversa. E agora o vosso cabo dos forcados? Era divertido e inteligente, ou não era? Não fui ter com o meu amor porque acreditei que ia amar esta criatura para sempre. Infelizmente, com o António José, foi só ele apanhar-se casado comigo e escondido dos vossos olhares em Montréal… parece que ficou estúpido… e sem graça nenhuma… E o Alexandre… que ainda deve estar vivo...”

    Ó menina!”, interrompe-a a Josefa, pousando o seu bolo de noz em sinal de protesto.

    Todas as mulheres se viram para a Josefa.

    A Josefa vira-se para a Maria Alice, meio comovida meio indignada.

    Olhe que a menina ou cresce depressa ou ainda se aleija a sério, ouviu? E depois…

    Bate com força no ombro esquerdo.

    “… e depois, quando precisar de um ombro, acredite que tem aqui o meu, para chorar tudo o que quiser.”

    Há uma vozearia feminina que varre a sala inteira, onde mal se ouve a voz assustada de Maria Alice, que, no entanto, pergunta o mesmo do que todas as outras.

    Mas em que é que a gente não cresceu depressa, ó Josefa?

    Ai então, mas então as meninas não sabem?[6]

    Faz-se silêncio na sala, enquanto todos os olhares se cravam na Josefa.

    E a Josefa, subitamente em grande pose, canta com uma voz magnífica, de timbre perfeito,

    Quem disser que se pode amar alguém

    Durante a vida inteira, é porque mente!

    Depois volta a agarrar nos restos do bolo, diz,

    anda, Júnior,”

    e desaparece rumo à cozinha, de onde ao fim de dois minutos chega um grito a perguntar quem quer café.

    As mulheres, momentaneamente petrificadas, recomeçam a movimentar-se.

    Aquilo era o da Florbela Espanca?”

    Era. Mas não sabia que a Josefa cantava tão bem o fado.”

    Ó filha. Nem eu sabia, e já estou sozinha cá em casa com ela há umas boas semanas.

    Podias pensar em usá-la para os teus eventos.”

    Agora nem me apetece pensar nisso. Vamos desligar, vá. Isto podia ter sido tudo uma bela história de amor que eu inventei agora mesmo.”

    “Pois podia.”

    “Eh pá. Ninguém poderia dizer que esta mulher não tinha uma grande imaginação

    Nessa noite, Maria Alice conta a Alexandre toda a história daquele grande amor da sua vida, iniciado aos dezasseis anos no chão do Castelo de Vila da Feira. Ele responde que ela já não terá quarenta anos, mas que – se quiser – ainda tem tempo.

    E, neste ir e vir de cartas cada vez mais calorosas, Maria Alice vai ficando cada vez mais apaixonada por um homem de olhos azuis, por quem só tem as memórias que anda a inventar agora. O homem deve sentir o mesmo, porque às tantas começa – subtilmente – a tratá-la por “meu amor”. E ela retribui. A mulher de António José começa imediatamente a fazer dieta[7]. Até vai fazer madeixas novas no cabelo e pedir um corte “mais endiabrado”, que a faça parecer ”mais malandra e mais gira”. Até faz a depilação na esteticista, embora costume fazê-la sempre em casa. Põe um novo piercing dentro da orelha. Até fala da verdade sobre esta paixão à Josefa, que acha que tudo aquilo é muito melhor assim, já que, se o tal grande amor do Castelo de Vila da Feira tivesse mesmo existido, a menina que não cresceu que chegue ainda se arriscava em dar com ele a tocar-lhe à porta por causa destas facilidades todas dos Facebooks.

    the shadow of a window on a concrete floor

    Depois de falar com a Josefa, Maria Alice sente-se suficientemente confiante para pedir sigilo e contar tudo sobre as mensagens que anda a trocar com o seu grande amor secreto às duas melhores amigas que entretanto fez em Estremoz. Ficam logo as duas doidas para conhecerem pessoalmente o famoso designer de ilustração digital em medicina Alexandre Noronha.

    Pois foi.

    Por causa dos sonhos de Maria Alice sobre a semana em que ele viria visitá-la a Estremoz durante uma semana no mês de Setembro, acabaram os dois por combinar mesmo que ele virá mesmo visitá-la a Estremoz durante uma semana no mês de Setembro.

    De dentro da cozinha, com as notas todas perfeitamente no sítio, ainda ecoa o contralto da Josefa,

    E se um dia hei de ser pó, cinza, e nada

    Que seja a minha noite uma alvorada

    Que eu me saiba perder para me encontrar!


    Leia também o Episódio 1, o Episódio 2, o Episódio 3, o Episódio 4 e o Episódio 5 do folhetim de Verão do PÁGINA UM da autoria de Clara Pinto Correia.


    [1] Frase que tem a vantagem de parecer um provérbio tradicional português, embora seja apenas uma gracinha simbolista de CPC – que – como toda a gente sabe – tem a mania de que é boa..

    [2] Estão a ver? Estão a ver? “Escorre entre os dedos como a água do mar”? Eles ficaram que nunca conseguiam largar-se quando se conheceram em Cabo Verde, onde todas as noites iam secretamente para a praia. Para a praia, certo? Mas tudo lhes escorreu entre os dedos como a água do mar. Bem esgalhado, malta. Admitam. Um ponto para mim!

    [3] No sentido de encurtar um pouco as sempre longas frases de Alexandre Noronha, cortámos aqui a passagem “… – porque as cortesias são para os cavalos – …”)

    [4] Nota-se que o criador está a ser infectado pela sua criatura. CPC é absolutamente adversa ao uso de travessões. Levou uma grande rabecada de Assis Pacheco aos 25 anos quando lhe pediu que revisse e comentasse uma pequena novela intitulada UM ESQUEMA, e nunca mais precisou de ouvir mais nada. E vamos mas é tomar já nota deste “nunca mais precisou de ouvir mais nada”. Ainda há de ser útil. Tipo, para a letra de um fado. Ou isso.

    [5] É verdade que esta Josefa tanto pode ser Júlio Dinis como Camilo Castelo Branco, mas não se distraiam. Um dia destes ainda pode aparecer aí feita Primo Basílio e depois sempre queremos ver quem é que lhe faz frente. Mas vão treinando. Sabem dizer-nos, porventura, o que significa a palavra PIORRINHA? Ah pois é.

    [6] “Então, mas então” é uma expressão enfática local muito do meu agrado.

    [7] Reflexo condicionado nas mulheres quando se apaixonam. Bom – ou quando ficam gordas, evidentemente. E lá deixou a gaja passar mais um travessão.

  • Maria Alice confessa rezar para cair um dos aviões de António José e que fique todo esmigalhado: Estremoz pasma

    Maria Alice confessa rezar para cair um dos aviões de António José e que fique todo esmigalhado: Estremoz pasma

    A

    CARTAS DE AMOR

    Em Julho e Agosto de 2023

    Com 40 graus à sombra e luz de dia até às 22 horas

    Especialmente do PÁGINA UM para a SILLY SEASON dos seus leitores

    CLARA PINTO CORREIA traz-nos, em directo de ESTREMOZ

    UM FOLHETIM TÃO ESCALDANTE COMO O VERÃO NAS PROFUNDEZAS DO ALENTEJO

    Baseado, uma vez mais, numa história absolutamente verdadeira


    O cágado não sobe sozinho nas árvores, alguém o colocou lá.” Provérbio angolano

    Traduzido do umbundo Mbeu okulonda ko cisingi, omanu vakapako por José Eduardo Agualusa,

    in A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS PÁSSAROS (2011)


    Em Estremoz há centenas de variações sobre o tema,

    Pelo que vão todos para a esplanada da Casa das Bifanas à hora mais quente do dia,

    Comparar fantasias em altos berros,

    E rir tanto, tanto, tanto, que o Júnior acaba por sair dali a correr para ir chamar os bombeiros,

    Enquanto o pessoal se enfrasca ininterruptamente num Dilúvio enorme e gelado de imperiais, tulipas, canecas,  umas pretas, outras brancas, e algumas até de garrafa média e mini adversa ao uso do copo,

    Sendo que, além das bifanas, toda a gente deita abaixo queijos, azeitonas, tremoços, fatias grossas de pão caseiro com manteiga, falando e rindo cada vez mais alto,

    E ficando, inevitavelmente, cada vez mais suado.


    “Com que então daí a um mês ias casar-te com o nosso cabo dos forcados, e no entretanto passaste uma semana inteira a dançar coladeras com os cabo-verdeanos, hm, Maria Alice? Deixe estar que a menina é fresca. Eheheh, ó minha rica filha. Quem não te conheça que te compre.”

    “Com esta mulher é que nunca haverá dúvida de que ela se casou mesmo por amor, então, ó Carrapato. Por interesse podes crer que não foi de certeza. É que interesse… Deus me livre, meus amigos… interesse é que o Tozé do Estevinha[1] não tem nenhum!”

    “Eh, pessoal! Embora atirar a mulher do gordo sem interesse nenhum para dentro daquele lago da pedreira?”

    Maria Alice, novamente com os cabelos ondulados soltos ao longo das costas, presos atrás das orelhas com travessas de madrepérola para se verem bem os piercings arrojados que foi fazer na antevéspera ao artista local, que não lhe levou nada em troca de ela lhe prometer passar a ser o seu modelo, está com o ar saudável das pessoas bronzeadas pelos ares do campo. Tem os olhos brilhantes como dois duplicados perfeitos daquele sol escaldante do meio-dia. Veste um topzinho mínimo de licra, a combinar com uns shortinhos de ganga vermelha apertados sobre as ancas, deixando ver bem a tatuagem do umbigo, onde o Pégaso voa cada vez mais alto no céu e Pheidippides vem a correr no caminho para Atenas, onde anunciará aos gregos a sua grande vitória sobre os persas na batalha acabada de travar na praia de Maratona.

    E não morrerá, mas a invenção dos mitos não vem agora ao caso.

    Black and white closeup part of face of anonymous dreamy enigmatic female with brown eyes and long eyelashes looking away thoughtfully

    O que vem ao caso é notar que, em apenas um mês, Maria Alice e o seu Júnior já ganharam um tal ascendente sobre as pessoas de Estremoz que basta ela sorrir, endireitar-se na cadeira, acender um cigarro e chegar-se para a frente. Calam-se logo todos. A Mulher-Maravilha vai falar.

    “Vocês só podem estar a gozar comigo, certo?” interpela-os ela com a tal pose majestática que fez o Alexandre Aristocrata chamar-lhe Bloody Mary, já lá vão mais de vinte anos. “Que eu me lembre, foi só eu falar do sonho que tive esta noite, em que o avião onde ia o meu gajo se descontrolava e depois explodia sem deixar sobreviventes quando estava a tentar aterrar na Polónia. Oh. Vocês desculpem, mas falar-vos deste meu sonho foi um autêntico tiro no porta-aviões. Começou logo toda a gente a falar dos seus sonhos em que ninguém tem a culpa de nada mas a verdade é que o companheiro morre num desastre, e é a coisa mais linda que há, liberdade, ah, liberdade! E agora atiram-me só a mim ao lago da pedreira? Peço muita desculpa, mas se o castigo pelos nossos sonhos com este género de acidentes é o lago da pedreira, então toda a gente tira a roupinha, toda a gente bebe uns copos, toda a gente fuma umas ganzas, e toda a gente, mas é que mesmo toda a gente que aqui está, salta para dentro do lago da pedreira!”

    Esta proposta de programa levanta uma ovação trepidante de gritos, risos, e aplausos, ao mesmo tempo que toda a gente desata a pedir mojitos, caipirinhas, vodkas com campari[2], campari com sumo de laranja natural[3], margaritas, e muitos pratinhos de camarão cozido para acompanhar. Armou-se ali uma tal festa que nem os bombeiros que o cão foi buscar têm pressa de voltar à base, nem os automobilistas que passam resistem a buzinar com todo o ardor. Júnior esqueceu momentâneamente a sua dignidade de Leão de Rodésia e anda de mesa em mesa a sentar-se, a dar a pata, e fazer uns chorinhos amorosos, para ver se, em troca, ganha pelo menos uma cabeça de camarão. E ganha várias.

    Entretanto, Maria Alice pediu a um dos meninos bonitos que se afadigam entre a massa festiva, sempre de camisa branca impecável e de costas muito direitas, um copo de Loios branco gelado. Em sinal da sua deferência, o propietário veio trazer-lhe uma meia garrafa que só abre mesmo à sua frente, rodeia com um guardanapo branco, e serve em gestos requintados para encher metade do copo elegante que trouxe para a mesa. É esguio, de pé alto, com o vidro animado por algumas bolhas irregulares, colorido em tons de azul debotado e rosa velho. Depois coloca a garrafa dentro de um balde transbordante de gelo e feito de um vidro veneziano exactamente igual ao copo nas cores e na textura. Classe.

    Logo ao primeiro golo, Maria Alice dá-se conta de que o dono da Casa das Bifanas não lhe trouxe o Loios que ela pediu. Trouxe-lhe antes o seu grande favorito entre todos os grandes vinhos de Estremoz, uma preciosidade dificílima de encontrar e obviamente muito mais cara que o Loios, chamada Amnésia. Um daqueles prodígios de hidromel que nos fazem acreditar imediatamente que é óbvio que Deus existe, mesmo que anteriormente tivéssemos por algum caso[4] chegado ao ponto de perder a fé.

    “Ó Princesa, mas para tomar banho na pedreira temos mesmo que estar nuas? Com estes gajos todos a ver?”

    “Sim! Toda a gente nua! Queremos ver tudo aquilo a que temos direito!”

    “Ó Mariazinha, mas eu já tive três filhos, e ainda por cima um foi de cesariana que deixa uma cicatriz enorme, e pior ainda, amamentei-os eu a todos até já não ter leite. Não tenho propriamente assim um corpo…”

    “Tens! Queremos ver o teu corpo! Queremos ver a realidade! A pedreira não é nenhuma passagem de modelos! Ou toda a gente se despe ou não vamos!”

    “Ai eu cá não sei se vou.”

    “Então não vai ninguém!”

    “E quem é que leva o vinho?”

    “Toda a gente! E umas fatias de pata-negra! E uns figos! E umas nozes! Não interessa! É o que houver, mais muito vinho!”

    “Então e os charros?”

    “Da ganza trato eu,” diz Maria Alice calmamente, na sua voz bem timbrada, capaz de se fazer ouvir acima de todas as outras sem qualquer esforço.

    Faz-se logo um grande silêncio.

    A maioria dos foliões esteve até àquele momento convencida de que os charros não passavam de uma figura de estilo. Em Estremoz, as grandes bebedeiras são absolutamente normais. Já as grandes mocas…

    A mulher de António José tira uma caixinha de metal antigo de dentro do saco[5]. Abre a caixinha, e tira um charro lá de dentro. Faz estalar o cinzeiro, acende-o, dá-lhe uma passa, e entrega-o à amiga sentada do seu lado esquerdo. Sempre sem dizer nada, tira outro charro da caixinha, acende-o com outro estalo do isqueiro[6], e passa-o ao homenzarrão sentado do seu lado direito. Finalmente, com um último estalo do cinzeiro, acende um charro para si, e todo o material de fabrico desaparece de novo dentro do saco.

    “Escusam de perguntar,” diz-lhes ela docemente. “Eu nunca direi uma palavra a este respeito. Tenho que proteger a minha fonte.”

    Das mesas à sua volta começam a soltar-se gargalhadinhas cúmplices, e de repente está toda a gente a pedir aos meninos bonitos que lhes tragam o menú, porque, embora já sejam quatro da tarde, de repente estão a morrer de fome e querem almoçar ali assim mesmo de garfo e faca – umas boas plumas de porco preto com migas de alho, um bom Tiago Cabaço Tinto, um bom pudim de ovos, vários cafés com um copo de Aguardente Velha ao lado.

    Depois hão de fazer uma boa sesta.

    Depois, por fim, há de cair a noite.

    Quando o sino da torre da Igreja da São Francisco, que se ouve em quase toda a cidade, anunciar a meia-noite, vão meter-se nos carros, dar boleia uns aos outros, e rumar ao caminho de terra quase invisível, quase secreto, que serpenteia entre pastagens e blocos gigantescos de mármore, até chegar ao cercado que tem três sobreiros muito antigos junto ao portão. Esse portão força-se facilmente, assim como o terreno, onde já nem sequer há caminho, também se percorre facilmente. Ao fim de dez minutos aparecem os afloramentos enormes de granito de uma exploração que ficou a meio. Inverno após Inverno, acumulou-se tanta água na bacia central que se formou ali uma verdadeira piscina. Já quase não há Lua. O céu cintila a toda a volta de estrelas enormes e mapas de poeira cósmica.

    “No Canadá e nos Estados Unidos chama-se a isto skinny dipping,” diz Maria Alice enquanto vai passando à volta mais uns quantos charros. “No Verão, eu, e duas amigas, e um técnico do meu departamento muito porreirinho, íamos para uma cascata na encosta da montanha por trás das nossas casas… aquele calor todo, nem uma aragem… e depois aquela água gelada, mesmo contra a nossa pele… não houve assim muitas coisas boas na minha vida no Québèc, mas esses banhos de noite, na cascata, todos nus, pedrados, sem pressa…”

    Alguém a interrompe, já de copo de vinho na mão.

    “Então mas ias pôr-te nua à frente de outro gajo… e deixavas o teu marido em casa?”

    Maria Alice nem responde. Num ímpeto de raiva, despe a túnica, liberta-se dos calções, e mergulha de cabeça para dentro do lago da pedreira. Fecha os olhos, deixa-se flutuar, e começa logo a sentir-se melhor.

    Inspirados pelo seu exemplo, os outros também estão agora a tirar a roupa e a saltar para dentro do lago, a gargalhar, a sorrir, a trocar beijos imprevistos, a explorar a pele uns dos outros, a experimentar a felicidade.

    Maria Alice mal dá por eles. Tudo nela partiu para muito longe. Está a antever a semana do fim de Setembro em que Alexandre virá visitá-la, e em que ela, sem deixar escapar qualquer aviso, há de trazer algum pata-negra, uma boa garrafa de Amnésia tinto, uns quantos charros prontos a acender com o zippo que já mais ninguém tem, mostrar-lhe a piscina da pedreira durante a noite, despir a roupa toda sem dizer nada, mergulhar em grande estilo, e esperar por ele dentro de água, com um sorriso matreiro e convidativo.

    Imagina tudo o que poderão fazer juntos quando, por fim, ele se encher de brios e vier ter com ela àquelas águas doces e tépidas, cheias de Cálcio e outros minerais revigorantes. E como o tempo deixará de passar para que possam os dois fruir de prazeres sem fim enquanto o Júnior dorme sobre as rochas, plácido, satisfeito, ele próprio entregue a sonhos felizes porque nunca antes tinha visto a sua dona tão feliz.

    E será assim até cantarem os galos.

    Daí a uma hora, tomado o duche, saboreado o pequeno-almoço, gozada a luz cambiante do nascer do dia e sentido de novo aquele encanto especial de testemunhar o primeiro voo das andorinhas, adormecerão muito abraçados debaixo do conforto do lençol e da mantinha, até que a Josefa entreabra a porta do quarto, toda sorridente, para lhe perguntar o que vai ser para o almoço.

    “Sobraram algumas daquelas gambas fritas que tu fizeste ontem?”, sussurra Alexandre do fundo do sono.

    Não pode ser.

    Que conversa é esta da visita dele durante uma semana no fim de Setembro?

    Que estupidez, nenhum deles falou ao outro de nenhuma visita.

    Ai, foda-se.

    “Pessoal, vocês desculpem mas eu ainda tenho que trabalhar esta noite. Eu e o Júnior vamos andando, OK? Vocês esperem que cantem os galos. E façam-me o favor de serem muito felizes.”

    “Tu também, Princesa.”

    Maria Alice já tinha trepado de laje em laje até ao cimo da piscina. De repente parou, virou-se de novo para os foliões, olhou-os a todos com demora, e sentou-se na pedra.

    “Queridos Amigos, eu posso pedir-vos um favor? Um verdadeiro favor, que para mim é extremamente importante?”

    “Sim!”, gritou, lá de baixo, o coro dos foliões.

    “Então, por favor, não me tratem por Mariazinha, nem por Alicinha. Isso podia ser qualquer pessoa. E também não me tratem por Princesa, porque isso é mesmo foleiro. Faz-me lembrar o ADEUS, PRINCESA, aquele romance de não sei quem que saiu quando eu era miúda, e era sobre os dramas das miúdas da minha idade aqui no Alentejo, e aquilo era horrível, e a miúda que era a princesa desse romance era uma autêntica desgraçada. Posso ser uma rainha, em vez de ser uma Princesa?”

    “Podes!”, gritou o coro numa grande animação.

    “Então chamem-me Bloody Mary. Era a alcunha da Maria Tudor de Inglaterra, porque ela mandou matar centenas de milhar de pessoas inocentes do seu país apenas porque elas não queriam converter-se ao catolicismo. Mas sabem, isto é muito importante: esta mulher, com mais ou menos defeitos, foi a primeira rainha de Inglaterra!”

    “Olha as coisas que tu sabes,” comentou uma voz avinhada.

    “Foi um namorado que eu tive antes do António José que me contou isto tudo. Era historiador. E sabem, ele foi, verdadeiramente, o grande amor da minha vida. Destacaram-no para Timor, e então tornou-se tudo impossível. Nunca mais o vi. Mas tenho saudades dele todos os dias.”


    Leia também o Episódio 1, o Episódio 2, o Episódio 3 e o Episódio 4 do folhetim de Verão do PÁGINA UM da autoria de Clara Pinto Correia


    [1] Indica que Tozé (note-se que só os homens ousam contrair assim o seu majestático “António José”) é filho de um senhor que tinha por apelido, ou mais provavelmente por alcunha, “O Estevinha”. É uma forma discreta de os seus antigos colegas de escola se distanciarem dele, porque se estivessem todos completamente à vontade guiariam antes o indicativo parental pelo nome da mãe, como por exemplo, “o Tozé da dos barros

    [2] Cocktail introduzido em Estremoz pelos hábitos canadianos de Maria Alice.

    [3] Idem. Sublinhe-se que, nesta variação, o sumo de laranja tem mesmo que ser natural. Quem detesta bebidas doces com toda a sua alma pode sempre usar antes sumo de toranja. E, em ambos os casos, muito gelo.

    [4]Por algum caso” é outra expressão local, especialmente saborosa quando usada em situações de discórdia. “Mas tu julgas que eu sou tua criada, por algum caso?”. Funciona mesmo bem.

    [5] A tampa tem uma gravura em alto-relevo da deusa Diana perseguindo um veado, e a cruzar um dos cantos está inscrita uma marca de rapé. Seria impossível guardar ali cigarros. Classe.

    [6] Repara-se agora que este isqueiro é um autêntico zippo vintage, muito lustroso e perfeitamente funcional. Classe.

  • Maria Alice e o amor que nasce: Estremoz nem sabe

    Maria Alice e o amor que nasce: Estremoz nem sabe

    A

    CARTAS DE AMOR

    Em Julho e Agosto de 2023

    Com 40 graus à sombra e luz de dia até às 22 horas

    Especialmente do PÁGINA UM para a SILLY SEASON dos seus leitores

    CLARA PINTO CORREIA traz-nos, em directo de ESTREMOZ

    UM FOLHETIM TÃO ESCALDANTE COMO O VERÃO NAS PROFUNDEZAS DO ALENTEJO

    Baseado, uma vez mais, numa história absolutamente verdadeira


    O cágado não sobe sozinho nas árvores, alguém o colocou lá.” Provérbio angolano

    Traduzido do umbundo Mbeu okulonda ko cisingi, omanu vakapako por José Eduardo Agualusa,

    in A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS PÁSSAROS (2011)


    Uma vez mais, como rapidamente se tornou hábito, a noite vai alta e Júnior dorme a sono solto. Maria Alice limitou-se a lavar a cara, massajá-la com um sérum resplandecente, e cobri-la de um creme de noite que devolve à pele o éclat natural dos vinte anos. Em vez do babydoll, enverga agora um pijaminha de cetim riscado azul e branco, com o fio de ouro herdado da avó a cintilar-lhe ao pescoço, em pendant com as argolas pequenas e grossas que aparecem e desaparecem entre as ondas dos seus longos cabelos castanhos. Quase escondidos por baixo da franja, emoldurados pelas pestanas escuras e curvas, os seus olhos cor de mel parecem dardos.

    Alexandre de Noronha voltou a escrever-lhe.

    “Querida Bloody Mary:

    “(não sei se ainda se lembra desta nossa alcunha – mas eu nunca consegui esquecê-la – nem quis – e que outro homem português quereria?):

    “Querida Bloody Mary – por favor – não se lembre só de Cabo Verde – meu Deus – recebi a sua mensagem.

    “Talvez eu já não seja crente – mas recuperei – de súbito – toda a vontade de acreditar daqueles meus dezoito anos passados ainda nas lutas redentoras da JUC[1].

    A Close-Up Shot of a Bloody Mary

    “(de súbito acreditei – até – que a beleza do grande brilho alaranjado do pequeno quarto minguante[2] diante da minha janela era – deveras – um sinal para mim)

    “E a mulher que dançava coladeras toda a noite – onde estará agora – a ver esta mesma lua – ou será que já cá não está – ou que deixou de olhar para o céu?”

    Esta é a segunda mensagem que parece uma carta do tal gajo que se lhe vai tornando cada vez menos desconhecido.

    Está tudo a acontecer muito depressa.

    Só de ler a primeira mensagem deste mesmo gajo, Maria Alice abraça o Júnior com toda a força, ruboriza-se com o vulcão interior das jovens virgens, dá um longo golo no seu vodka russo de mirtilos quase esquecido sobre a bancada, depois enche-o de gelo, agita-o, e dá-lhe outro golo – e, finalmente, dado o calor sugestivo da noite e a evidência imperativa de que entretanto fumou mesmo um charro, decide nem se despir e tomar um duche frio na casa de banho, longe dos olhares de todos os espreita-muros que a procuram ver no chuveiro. Depois serve-se abundantemente de chá e torradas no sossego da cozinha, bebe quase um litro de água fresca, sente tonturas, entrega-se por momentos à frescura do lençol, e só volta a acordar pelas cinco e meia da manhã, com a chilreada das andorinhas na sua janela e o primeiro aroma a café que lhe indica que Josefa já está acordada.

    Veste os shorts sem bainha e a T-shirt decotada da PANGEIA, vai tirar o seu primeiro expresso ainda descalça que é como gosta de andar em casa[3], troca meia dúzia de piadas maliciosas com a velha empregada que traz pão quente e morangos da rua, leva uma taça deles e outra garrafa de água para o escritório, e volta a olhar para as mensagens do Facebook.

    A mensagem daquele gajo ainda lá está.

    Tal e qual como ela se lembrava, o gajo escreve muito bem, e nunca usa abreviaturas. É verdade. A mensagem parece mais uma carta, agora que já ninguém escreve cartas. Mais ainda – agora que já ninguém ama – aquela carta parece mesmo uma carta de amor.

    O primeiro instinto da esposa de António José é mudar radicalmente a sua apresentação do Facebook, que na realidade foi o que ali a levou, e de caminho fez com que descobrisse aquele homem de quem só consegue lembrar-se muito vagamente, como quem se lembra de uma outra vida, uma vida que já teve mas que já deixou de ter. Apaga o seu perfil excessivamente profissional, remetendo a parte do que sabe fazer na internet, e em que tipo de programações, para a área dos grafismos. Começa todos os capítulos com diferentes fotos da PANGEIA onde o seu rosto, o seu corpo, as suas mãos, o seu cão – alguma coisa que lhe diga respeito esteja devidamente favorizada. Por baixo das diferentes entradas sobre serviços da loja, que dá por si a escrever a cem à hora com uma graça e um constante tom de teaser que pensava já ter perdido, insere mapas de Estremoz com as ruas que vão lá ter sabiamente destacadas. Sim, malta, sorri ela para consigo. Acreditem que não sou só muito boa – sou, também, muito boa nisto.

    Obrigado pela inspiração, Alexandre[4] que ainda só existes no nevoeiro.

    white paper on brown wooden heart shape board

    Agora trata-se de escolher a foto com que – doravante – se apresentará ao público.

    É interessante como o seu pensamento está a começar a encher-se de travessões. Ah, pois – é o gajo que os usa. E o gajo menciona coladeras em Cabo-Verde. Deve ter sido há eternidades, mas ela regressou lá muitas vezes. Tem um contrato de formação electrónica com o Governo da Praia, e prefere ir sozinha para se gozar bem da simpatia dos formandos, da doçura das praias, da consistência das lagostas, das horas perdidas das noites de dança, e sendo assim, porque não…

    A sua apresentação passou agora a ser uma foto recente e altamente galante de si própria, tirada em grande plano, nas areias do Tarrafal, em maillot verde-água de sereia, escuríssima, sozinha, com o Júnior sentado ao seu lado e a água ainda a escorrer-lhe na pele.

    Depois respondeu ao gajo.

    O gajo respondeu logo.

    Foi essa carta que a deixou tão alvoroçada na noite anterior.

    Com essa carta, com aquela alcunha dos seus últimos tempos de solteira, veio-lhe a recordação visual inesperada, a romper as brumas da memória num imenso sobressalto, dos olhos azuis do jovem historiador que estava a retraçar vestígios da pirataria holandesa em Cabo Verde quando ela lá foi fazer o seu primeiro levantamento das necessidades informáticas locais com uma ONG de peritos canadianos que em breve a arrastariam consigo para o Québèc já casada com o António José. É verdade, ele chamou-lhe Bloody Mary por causa do seu porte altivo.

    “Porque sabes, miúda – as pessoas têm uma péssima opinião da Maria Tudor – só sabem dizer que ela matou centenas de milhar de ingleses nos seus delírios religiosos – mas estão sempre a esquecer o fundamental – essa mulher foi – para todos os efeitos – a Primeira Rainha de Inglaterra.”

    “Então sabes explicar toda a sua loucura?”

    “Ela nunca conseguir ter filhos.”

    “Eu também nunca vou conseguir. Tenho uma doença. Mas não vou mandar matar milhares de pessoas por causa disso.”

    “Está bem – mas ouve – ela era Rainha e tinha que deixar Herdeiros – é diferente.”

    “Não explica nada.”

    “Pois não – mas sabes – o seu verdadeiro drama – é que ela foi – mesmo – mas é que mesmo – muitíssimo mal amada.”

    “É isso que me desejas?”

    “Claro que não – miúda – pudesse eu amar-te – verias.”

    “Isso é muito fácil de dizer, sabendo tu que vou casar-me para o mês que vem.”

    E depois desatavam os dois a rir. Muito baixinho, para não chamar a atenção de ninguém.

    De súbito – ao ler a alcunha de Bloody Mary que mais ninguém conheceu – Maria Alice recorda-se – também ela – da JUC e das suas lutas redentoras – tal como o Alexandre lhas contara –  noite dentro – e ela só não se lembrava era do Noronha[5], de resto agora está a reviver tudo. Lembra-se de quando dançava – com outros – mas só para ele. E – sobretudo – de quando saíam todos da sopa de lagosta – mas – ninguém notava – os canadianos não são assim muito espertos – eles os dois não iam dormir. Iam antes para qualquer rochedo – conversar de grandes sonhos para futuros que talvez ainda estivessem em aberto – entre risos brandos e partilhas crescentes de pontas de cigarro que brilhavam no escuro a espaços.

    E chega de travessões, please.

    Quem adorava escrever com travessões era o Alexandre, não era eu.

    Eu até lhe perguntei se ele era mesmo historiador, ou se a sua verdadeira vocação era ser escritor.

    Ele disse que eu era fresca, agarrou-me em peso, e atirou-me ao mar.

    Ah pois foi, não custou nada, o nosso rochedo, nessa noite, era mesmo à beira do mar.

    E eu preguei-lhe um grande susto porque fui a nadar por baixo de água até ao hotel.

    O que nós nos ríamos.

    poppy, baby's breath, flowers

    Falavam durante essas noites quentes numa fluência doce, pontuada por toques de mãos suaves e frescos, encostos da cabeça de um no ombro do outro, e beijos cada vez mais intencionais à despedida, sabendo que essa despedida não implicava necessariamente que iam dormir. Iam antes ouvir cantar os galos, recolher aos respectivos quartos, tomar um grande duche, apreciar bem o primeiro de imensos cafés, mudar de roupa, descer à sala, e saborear as delícias do pequeno-almoço quando trancavam os olhares no primeiro sorriso com o primeiro aceno do dia, porque logo a seguir iam trabalhar. Maria Alice recorda-se agora, com maravilhosa clareza, de que nenhum deles se sentiu cansado durante toda a semana. Porque – enfim, conceda-se – quem é que vai experimentar cansaço durante uma semana inteira do que só pode ser – deveras – o mais delicioso cortejamento que há?

    A esposa de Manuel José, que estará ausente durante todo o Verão, respira fundo outra vez.

    Está a respirar fundo cada vez mais vezes.

    Relê esta segunda mensagem de contido alvoroço depois de ter escrito ao gajo uma nota breve, ainda muito calma mas já irresistivelmente cheia de esperança, a devolver a primeira mensagem dele. Aquela tal mensagem em que Alexandre de Noronha vinha obviamente sondar as águas, mas que já era em si mesma tão bonita, tão longa, tão bem escrita – malditos travessões – tão caída em desuso – enfim – e talvez isto explique o trompe l’oeil de parecer apaixonada – mas é verdade, é uma carta tão digamos que enfática que – bom, que – que parece mesmo uma carta de amor.

    Nessa primeira e rutilante[6] carta[7], o gajo diz que a conheceu há uns bons vinte anos na Cidade da Praia, que fez tudo para conseguir sentar-se ao lado dela ao jantar e acabou a subornar o Secretário de Estado do Livro e das Bibliotecas de Cabo-Verde que sacudiu a cabeça com um sorriso matreiro e sussurrou, brandamente,

    Nha crecheu…”

    Logo no primeiro trocar de palavras, e a propósito dos piratas, e do Francis Drake, e de outras histórias de reis e de rainhas, gabou-lhe o porte majestoso, piscou-lhe o olho e chamou-lhe Bloody Mary. Perante a sua surpresa, prometeu-lhe que explicava depois. A coisa estremeceu quando ela lhe pediu um cigarro, porque ele estava exactamente nessa altura a deixar de fumar. Levantou-se para ir comprar cigarros dentro do restaurante, a compra foi demorada como tudo era então demorado em Cabo Verde, e quando voltou já todos os conferencistas tinham partido para a discoteca ao ar livre onde nessa noite tocavam OS TUBARÕES. À primeira coladera, quando ele ia tentar a sua sorte, veio de lá um crioulo de olhos verdes, todo matulão e bem-parecido, que a arrebatou consigo e pareceu não querer mais largá-la – mas ele começou a perceber, pelos olhares penetrantes que ela lhe ia lançando, que a sua Bloody Mary dançava só para si.

    E que bem que dançava, Santo Deus.

    Todos a queriam por par, mas era só para Alexandre que ela sorria.

    Até que, para total assombro dos canadianos, chegou a Cesária Évora – enorme, descalça, de cerveja na mão, sem precisar de microfone. E, logo à primeira morna, foi a sua Bloody Mary quem veio buscá-lo e o arrastou para dentro do terreiro.

    Eu sei que passou imenso tempo, remata Alexandre de Noronha na sua primeira mensagem.

    Talvez ela tenha esquecido tudo – mas ele nunca esqueceu nada.

    E acrescenta, como que com pudor, que está a escrever-lhe porque, talvez, agora que se divorciou…

    … bem, é evidente que ela não vai nem ler – quanto mais responder; mas foi bem escrever-lhe, e lembrar-se[8], adeus.


    Leia também o Episódio 1, o Episódio 2 e o Episódio 3 do folhetim de Verão do PÁGINA UM da autoria de Clara Pinto Correia


    [1] A JUC era a Juventude Universitária Católica, onde se percebe que este gajo pontificou em tempos idos. E as suas “lutas” eram então “redentoras” porque, sendo anteriores ao 25 de Abril, propunham um modelo de sociedade pacífica e equalitária não totalmente grata ao Regime. Ah, sim – Maria Alice, que entretanto esqueceu tudo, agora lembra-se como se fosse ontem.

    [2] Este gajo compõe um estilo. Ninguém o obriga a ter – também – um bom gosto à prova de tudo que possa fazer dele – deveras – um grande escritor.

    [3] Já percebeu que andar descalça estimula quem a rodeia. Além disso, os seus pés merecem muito descanso, dado que andam sempre na rua em saltos altos.

    [4] “de Noronha”? Credo, deve ter anel de brazão e tudo, para isso já me bastou o outro, o Conde.

    [5] “Noronha, era? Bem, naquela altura ainda ninguém em Portugal tinha apelido, e os canadianos muito menos.”

    [6] Determinante adequava-se melhor ao sentido, mas rutilante adequa-se muito melhor ao momento; aliás ao mútuo momento, uma vez que Maria Alice responde, mas quem começou foi o gajo.

    [7] Ficou estabelecido, por muito que ainda não mutuamente mencionado: não era uma mensagem, era uma carta.

    [8] Subtraímos os travessões, mas nota-se que o gajo ainda precisa de marcar os seus lugares para conseguir expressar-se.

  • Maria Alice descobre uma carta em babydoll: Estremoz nem sonha

    Maria Alice descobre uma carta em babydoll: Estremoz nem sonha

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    CARTAS DE AMOR

    Em Julho e Agosto de 2023

    Com 40 graus à sombra e luz de dia até às 22 horas

    Especialmente do PÁGINA UM para a SILLY SEASON dos seus leitores

    CLARA PINTO CORREIA traz-nos, em directo de ESTREMOZ

    UM FOLHETIM TÃO ESCALDANTE COMO O VERÃO NAS PROFUNDEZAS DO ALENTEJO

    Baseado, uma vez mais, numa história absolutamente verdadeira


    O cágado não sobe sozinho nas árvores, alguém o colocou lá.” Provérbio angolano

    Traduzido do umbundo Mbeu okulonda ko cisingi, omanu vakapako por José Eduardo Agualusa,

    in A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS PÁSSAROS (2011)


    Levanta o queixo, Maria Alice.

    A ideia dos miúdos foi porreira, e a verdade é que já estás a receber mironadas muito mais pessoais e curiosas quando te passeias pelas ruas com o Júnior, ou quando distribuis panfletos da PANGEIA[1] nas esplanadas do Rossio. O teu ar profissional é um dos teus melhores atributos[2]. Agora arrimas-lhe por cima com verdadeiros sapatinhos de trabalho de meio-salto[3], enfrentas os quarenta graus à sombra desta terra como se nada fosse, tiras todo o cabelo da cara num rabo-de-cavalo bem estudado que não deixa cair-te nos olhos nem dois dedos de franja nem uma gotinha de suor, espetas-lhes com um sorriso rasgado que desta vez encadernaste a bâton escarlate, e já está[4]. E quem é que se lembrou de mais esta de vestires uma t-shirt com o decote cortado até ao fundo do colo, com o logotipo da firma, onde todas as setas apontam para o único continente da origem, bem destacado sobre o peito esquerdo, enquanto o teu Júnior se apresenta ao público com o mesmo logo na coleira e na trela? Ah, essa é outra grande ideia dos putos. Um modelito daquelas duas miúdas de Badajoz amigas do priminho que de net não pescam nada mas são muito boas em estilo e corte, o que nos interessa aos serviços.

    Estão a ver? Já está a interessar.

    É um modelito que derrete logo o gelo.

    Se é que alguma vez existiu algum gelo para derreter aqui em Estremoz.

    Woman with Face Make-up Holding Flowers

    Gelo, assim mesmo gelo, isso realmente é mais uma característica da América do Norte.

    — Ó Senhora. Eu posso fazer festas no seu canito?

    — Claro que podes, amorosa. Como é que te chamas?

    — Bia.

    — Oi Bia, ele é o Júnior.

    — E isso que ele tem nos costados, é quê?

    — Na terra dele chamavam-lhe o Ridgeback. É uma espécie de uma crista que todos os cães desta raça têm. Foram criados pelos Boers para caçarem leões na antiga Rodésia, por isso chamam-lhes os Leões da Rodésia. São muito calminhos, muito amiguinhos, muito bonitos, mas na caça ao leão levantam aqui o ridgeback e então valha-nos Deus. Andas à escola[5], Bia?

    — Mais ou menos.

    — Então leva um panfleto da nossa nova loja bué fish, que é a PANGEIA e abre para a semana. Ajudamos toda a gente, imprimimos em papel e em tecido, e até para eventos ou para festas de anos, ajudamos a criar logotipos, prestamos serviços de internet ao domicílio, fazemos descontos especiais para actividades de ONGs e autarquias; e, caso seja preciso, até damos explicações a custo zero. Ah, e claro, tirámos a licença, portanto podemos fazer baby-sitting e deixamos fumar e entrar cães[6].

    Maria Alice não é parva. Sabe perfeitamente que toda esta informação está a ser desperdiçada na menina do grande convívio dos ciganos, ali mesmo na esplanada da FORMOSA, que acaba de dizer-lhe que só vai à escola mais ou menos[7]. Mas a questão é que falou suficientemente alto para toda a gente que foi refugiar-se naquela sombra poder ouvi-la. É sexta-feira, são dez e meia da manhã, e até o vereador da cultura e dos eventos está ali mesmo a dois passos. Entrega-lhe um panfleto, faz-lhe um dos seus sorrisos rasgados, repete o gesto por todas as mesas, combina logo ali umas explicações de geologia para um adolescente do décimo primeiro ano que anda às voltas com a deriva dos continentes sem conseguir desatar bem o embrulho[8], deixa uma pilha no balcão, soma e segue. Atrás dela, no seu rasto sabiamente perfumado a ANGEL[9], ouve-se ainda o eco,

    — … Júnior…

    — … ela sabe, ela sabe…

    — … a mulher do António José…

    — .. Leão da Rodésia..

    — … Estremoz só tem a ganhar…

    — … enfim, Pangeia, está muito bem visto…

    — … O Moisés que se cuide… [10]

    rhodesian ridgeback, running dog, flying dog

    Maria Alice acaricia o cão atrás das orelhas enquanto respira fundo. Decidiu que, a seguir, vai sentar-se ali n’ O ALENTEJANO, mostrar bem tanto as pernas como o Júnior, e meter conversa com os velhotes sobre os serviços ao domicílio da PANGEIA.

    Foi uma grande semana de trabalho, esta que fecha hoje.

    Como o tempo voa, amigos.

    Esta é a semana em que Maria Alice e o primo mais novo de António José concluem finalmente o registo da sua sociedade, recebem o financiamento que pediram para poderem avançar com as suas ideias, ficam endividados até à raiz dos cabelos mas não têm medo de nada, decidem que em breve poderão abrir portas, escolhem para aquela grande aventura o nome de PANGEIA porque é isso mesmo que a internet faz, chamam todos os amigos hackers do priminho para acertarem quem é que faz o quê, também comparecem duas miúdas de Badajoz que tratarão dos modelitos, ela vem como dantes, só de jeans e T-shirt e cara lavada, todos a tratam carinhosamente por kota[11], e corre tudo tão bem que acabam a fumar charros, a fazer brindes, e a rir às gargalhadas.

    Mas agora é preciso vender bem o produto antes de ele estrear.

    Nem que mais não seja, porque ninguém pode ver a PANGEIA vazia.

    E é isto mesmo que implica toda aquela publicidade.

    Ela nunca iria tão longe de sua própria iniciativa.

    As ideias daquela espécie de cartoon ao vivo são ideias dos putos.

    E é que são todas boas ideias.

    Orgulho, Maria Alice, muito orgulho. Está na cara que eles vêem em ti uma grande Libertadora do Carisma Feminino. Género, a Catwoman do Batman. É bom, não é?

    Maria Alice, sempre muito elegante nas suas toilettes de roupa justinha e com Júnior à trela, usa-se a si própria para efeitos publicitários, fria e deliberadamente. A partir de agora, é também para fins publicitários, sem nunca despir as T-shirts com o logotipo, que usa durante as horas de maior canícula o seu chuveiro na horta. À noite, pelo contrário, veste o babydoll, agarra nos cigarros que parecem ganzas, põe os óculos de leitura com a correntezinha dourada, prepara uma bebida, deixa a garrafa do vodka[12] e a taça do gelo em cima da bancada, e vai trabalhar até tarde nos escritórios da loja que abrirá em  breve. Sabe muito bem que, em todos estes cenários, há sempre alguém a ver. Basta o Júnior rosnar, que ela não esconde o seu sorriso. Mais um ponto para a PANGEIA. Na manhã seguinte, enquanto toma os seus primeiros cafés na cozinha, ouve a velha Josefa, cada vez mais fiel devota desta impressionante Grande Libertadora dos Modos de Nós-Mulheres, contar-lhe todos os mexericos da véspera até ao mais ínfimo pormenor.

    Até já mete uma parte em que as miúdas começam a ir à loja de roupa de cama, ali à esquina da que vem do gás à do passeio do Rossio que vai para o Arco da Nossa Senhora[13], exigindo babydolls assim e assado. Ai por cima também traz, assim, um mini-robe transparente? Ai Deus, mas então encomende também o robe, senhora.  Em quais cores é que tem, além do Turquesa? E com mais renda, não tem?

    Glasses with Vodka and Bowl of Olives

    Na realidade, Maria Alice tem andado com o ego imensamente gratificado. Não confessaria a ninguém que não fosse a Josefa, mas as suas relações com o marido há muito tempo que se tornaram frias e materialistas. Quantas vezes é que ele já voltou das suas longas viagens de vender o Bill Gates por todo o Québèc para largar as duas Louis Vuittons cheias de roupa suja dentro da porta, passar meia hora no duche, passar outra meia hora a abonecar-se todo ao espelho, montar-se a correr na scooter brilhante para ir ter com os amigos ao clube de golfe e tell all de roda de uns bons drinks e umas boas risadas, ir com eles às Buffalo Wings da bomba da Mobil do outro lado da cidade, e depois, à noite, gritar,

    — Ó, caralho, Maria, eu não posso estar práqui a foder com um cadáver!

    Oh, aquela mulher reluzente já nem sabe quantas vezes acordou das suas lindas réveries dos vinte anos para dar por si empandeirada para os subúrbios do Québèc, casada com um alentejano básico que não sentiu nunca qualquer atracção pela ideia do Linux, e muito menos quis saber de toda a diferença proposta pelo Steve Jobbs. Quando o conheceu ele era cabo dos forcados dali de Estremoz, gostava de copos e de sarilhos, botava o baixo nos corais, desbastava os poldros vindos das campinas que chegavam aos dois anos sem nunca terem mordido um freio, partia os ossos e sorria, e tratava todas as mulheres por minha querida. E ela, nascida e criada em Moçambique, com a vida de estudante passada em Lisboa, divertia-se à grande e apaixonou-se mesmo.

    Foi só apanhar-se casado e emigrado, que aquela graça especial passou-lhe logo toda a correr.

    Faz bem, então não faz.

    Cartoon ou filme, Catwoman ou Wonderwoman não interessa: é mesmo doce, aquilo de voltar a ser quem foi.

    Nessa noite, a Bela Adormecida decidiu que até faz uma directa se for caso disso. O vodka de mirtilos pousado na bancada veio directamente da Rússia[14]. O babydoll todo rendilhado que vai estrear tem a cor exacta dos frutinhos vermelhos do fundo da garrafa. Como o priminho lhe disse que use também as redes sociais para efeitos publicitários, Maria Alice, que para ser franca odeia esse mundo, lá abre o seu Facebook e o seu Instagram, disposta a remodelá-los de alto a baixo.

    A primeira coisa que faz é apagar todas as mensagens antigas, que, na sua esmagadora maioria, nunca leu.

    Mas o que é isto, quem é este Alexandre de Noronha que passava as noites a ver-me dançar coladeras em Cabo-Verde? E que escreve tão bem, numa mensagem tão longa e tão bonita que parece mesmo uma carta, daquelas que já ninguém escreve?

    Ah pois é.

    Pois é.

    Maria Alice está pronta como um figo maduro.

    E, no meio de toda a quinquilharia, acaba de esbarrar na mensagem de um gajo qualquer que não conhece.

    Acontece que fica logo com vontade de conhecê-lo.

    Será que há mesmo horas de sorte?

    Será que estou tão mocada que perdi o critério?

    Anda cá, Júnior.

    Alexandre de Noronha?


    Leia também o Episódio 1, o Episódio 2 e o Episódio 4 do folhetim de Verão do PÁGINA UM da autoria de Clara Pinto Correia


    [1] Tudo bem, o conceito hoje em dia pode ser polémico, mas também, lá por isso, hoje em dia tudo é polémico, e todos os continentes estarem unidos num só é exactamente o que faz a internet. É ou não é? PANGEIA: no início, todos os continentes estavam unidos num só. É ou não é o que faz a internet? Unir todos os continentes num só. Ah pois é. Pois é.

    [2] A ideia de chamar PANGEIA à loja foi da Maria Alice, evidentemente. Depois ainda passou uma boa meia hora a explicar aos putos o que era a Pangeia e o que foi que lhe aconteceu. Fartaram-se de rir, mas isso foi mais porque quando inventaram o nome já estavam todos mocados.

    [3] Arrimar por cima: expressão alentejana colorida e vivaça que dispensa explicações.

    [4] Mas vocês, realmente – vocês acham que no Verão aquilo era como, enquanto eu vivia no Québèc? A gente sufocava e vinha cinza dos fogos florestais por todos os lados. O que nos valia eram os chuveiros na hortas.

    [5] Maria Alice aprendeu com o linguajar do marido este truque de aproximação regional: aqui em Estremoz não se diz ir à escola, diz-se andar à escola. Por exemplo: António José vai à Farmácia, e cumprimenta a Tita com dois beijinhos. E depois diz-lhe, com um ar dolente e saudoso, Aaah, Maria, sabes. A Tita andou comigo à escola.

    [6] Só mesmo uma pessoa com mais de uma década de América do Norte em cima é que chegava a Estremoz e se lembrava desta do baby-sitting, mas pronto. Vamos ver se pega.

    [7] NOTA BENE: convém não esquecer esta referência à grande população cigana de Estremoz, que virá em breve a ter algum peso no rumo dos eventos. O resultado directo do seu peso populacional invulgar é que, quando vamos a ver, parece-nos mesmo que metade dos homens de Estremoz são do CHEGA!

    [8] Desatar o embrulho: outra expressão colorida e auto-explicativa, que já se usou mais no Português Provinciano e ainda subsiste, orgulhosamente, aqui no coração do Alentejo.

    [9] Thierry Mugler. Escolhido de propósito para esta vistosa mise-en-scène. Deixa atrás de si um rasto delicioso e inconfundível.

    [10] Referência a Moisés Alcaria, legítimo proprietário da net-shop local em que se fundamentou a PANGEIA.

    [11] TODOS não, senão vejamos: estando presentes duas miúdas espanholas, o mais expectável é que tratem Maria Alice por tia.

    [12] É muito raro aquele vodka ser mesmo vodka. Para nunca perder o fio à meada, Maria Alice tem mais por hábito passar a noite a beber água. Mas parece vodka. E fica igualmente bom com água tónica.

    [13] Difícil de dividir em orações. Mas genuíno.

    [14] OK, e desta vez é mesmo vodka. E, se calhar, os cigarros que parecem charros são mesmo charros. Conforme veremos, neste caso a questão é que ninguém aguenta estar completamente sóbrio enquanto remodela de alto a baixo o seu próprio Facebook.

  • Maria Alice agarra na enxada seminua: Estremoz sustém a respiração

    Maria Alice agarra na enxada seminua: Estremoz sustém a respiração

    A

    CARTAS DE AMOR

    Em Julho e Agosto de 2023

    Com 40 graus à sombra e luz de dia até às 22 horas

    Especialmente do PÁGINA UM para a SILLY SEASON dos seus leitores

    CLARA PINTO CORREIA traz-nos, em directo de ESTREMOZ

    UM FOLHETIM TÃO ESCALDANTE COMO O VERÃO NAS PROFUNDEZAS DO ALENTEJO

    Baseado, uma vez mais, numa história absolutamente verdadeira


    O cágado não sobe sozinho nas árvores, alguém o colocou lá.” Provérbio angolano

    Traduzido do umbundo Mbeu okulonda ko cisingi, omanu vakapako por José Eduardo Agualusa,

    in A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS PÁSSAROS (2011)


    Calminha, que eu já sei que sou bonita há muitos anos[1].

    Quando vou à cidade, sei que me ponho sexy com aquele ar de quem ficou assim por acaso, e que o faço de propósito para impressionar toda a gente[2]. E, além disso, sei que estou toda bronzeadona – primeiro porque sou morena, segundo porque adoro estrear anualmente o que se arranjar de melhor no departamento dos biquinis brasileiros, e terceiro porque gosto de apreciar o que o Verão tem de melhor, o que para mim inclui guiar sem qualquer pressa por paisagens alentejanas cruzadas por estradinhas desertas, e por fim, passadas duas horas desta espécie de trip de ácido, juntar-me às minhas amigas na curtição voraz das festas da Comporta. Às vezes também vou lá só para respirar fundo, nadar para longe, e dormir ao sol. Se esta gente daqui não faz praia, e portanto não fica com este meu halo dourado tão especial, tomem e embrulhem que a culpa não é minha de certeza[3]. E agora, engulam lá os vossos preconceitos todos de uma vez, porque nada disto quer dizer que eu seja uma mulher minimamente dada ao tédio.

    Aliás, a minha tatuagem enorme no tornozelo esquerdo, com o Pégaso a levantar voo sobre o campo de batalha onde um punhado de Atenienses acaba de triunfar contra a colossal armada Persa[4] que tencionava invadir a Grécia desembarcando na praia de Maratona[5], é uma boa prova disso. Está lá para disfarçar os ferros todos da prótese.

    E, se precisei de uma prótese no tornozelo, foi porque sou uma mulher de acção.

    young woman, hotel, burlesque

    Tinha então dezassete anos. Ninguém entendia como, mas só eu é que conseguia fazer a égua do meu primeiro namorado aqui do sítio, o tal brazonado da Orada que iniciou a sequência de coincidências que me trouxe até ao casarão onde estou agora[6], saltar tão alto, tão largo, e com tanta elegância. Ainda hoje suspeito que o gajo apareceu de repente a derrapar e a buzinar daquela forma estúpida, estávamos nós as duas já a levantar voo por cima do obstáculo, porque tinha inveja do meu deslumbrante potencial equestre, e da forma como toda a população masculina se deslumbrava a contemplá-lo. A Guapa assustou-se, borregou, fez-me cair para o outro lado, e depois caiu ela desamparada para cima de mim, com a pata direita a acertar-me mesmo em cima do tornozelo esquerdo. O que é que eu posso dizer? Claro que o gesso não é a melhor forma de passar o Verão, mas ao menos é uma grande forma de meter conversa. E foi um Verão cheio de autógrafos. O senhor da Orada que se roesse todo de ciumeira alentejana. Bem vistas as coisas, a culpa era dele.

    Agora já não tenho dezassete anos há muito tempo.

    Ah, mas não há como o tempo para requintar os nossos contornos.

    Hoje, quase à beira dos quarenta, sinto-me linda, livre, e feliz da vida, porque o meu segundo marido foi enriquecer-nos para Bruxelas, e eu estou a fazer renascer das cinzas o antigo casarão da família, uma verdadeira mansão que é também um deleite arquitectónico de art déco, que foi desnecessariamente maltratado pelo abandono a partir do dia em que as irmãs mais velhas do António José, aproveitando-se da nossa longa estadia no Québèc, empandeiraram a mãe para um lar e puseram um cadeado grossíssimo no portão.

    Quando cá cheguei, já trazia na pasta um ano inteiro de telemeetings e bastante investigação na área para podermos – eu e um dos primos mais novos do António José – formarmos uma SARL, aproveitarmos a proximidade da Ala Leste da casa em relação às escolas e Centros de Saúde, e abrirmos juntos aquilo a que o povo chama, para encurtar razões, uma “loja de computadores”. Só que a nossa loja teria também um cafezinho muito simpático com umas queijadinhas óptimas e umas empadinhas ainda melhores[7], teria assistência pessoal sempre que solicitada e disponível para resolução de problemas no domicílio, e até teria explicações, se alguém precisasse delas. O meu marido havia de ver. Quando cá chegasse na sua primeira visita, também eu e o seu priminho teríamos ganho juntos uma pequena fortuna.

    Acontece, no entanto, que mesmo para mulheres como Maria Alice existem sempre imprevistos.

    Também, olha que treta. Se nunca me aparecessem uns bons imprevistos pela frente, então eu estaria mumificada – como um faraó do Vale dos Reis, no fundo quase inacessível de uma cripta cheia de jóias[8].

    photo of optical disc drive

    No caso vertente, o imprevisto que leva a esposa de António José a adiar o projecto da “loja de computadores” toda prafrentex é precisar primeiro de reconstruir o casarão, meio arruinado por uma década inteira de abandono. Sem nunca se atrapalhar, a supermulher que faz tudo sozinha vai falar com a Josefa, que conhece desde que conheceu o marido porque é a sempre fiel e muito sábia empregada da família. Numa primeira reunião de estratégia, pede-lhe que junte um grupo de trolhas para um lado, e um grupo de mulheraças para o outro. As missões destes dois grupos, que deitam logo mãos à obra lado a lado com a patroa e com a empregada da família, é reavivarem não só as paredes internas, os vidros, os espelhos, as portas, e os circuitos eléctricos[9], mas também as paredes externas, os canteiros do jardim, o pequeno laranjal que nunca mais foi podado, e todos os sectores cuidadosamente delimitados da horta.

    No meio desta horta, com uma longa linha de alfazemas que crescem até à altura do muro que dá para a rua, há um chuveiro alto, de onde jorra em abundância a água fresquíssima do poço adjacente. Este chuveiro foi aqui instalado, mesmo no meio da plantação de melancias, pelo pai de António José, para que a pessoa possa largar a enxada e refrescar-se sempre que quiser em dias de calor imenso, como os deste Verão que assinala a instalação de Maria Alice em Estremoz.

    É isso mesmo que Maria Alice começa rapidamente a ter por hábito fazer, apenas em topless e sem tirar as botas de borracha. Inicialmente estes banhos de deusa guerreira têm lugar sobretudo ao fim do dia, quando o restauro já avançou mais alguns passos e até já há flores que começam a despontar aqui e além[10]. No entanto, à medida que as obras avançam, a confiança se estreita, o calor aperta, e tudo convida a mais uns minutos de prazer, o topless com botas de borracha começa a repetir-se a diferentes horas da tarde.

    Quando as melancias já estão a ficar maduras e deliciosas, Maria Alice aproveita estas pausas para arrancar mais uma da terra, lavar bem a sua casca na água do chuveiro, cortar umas grandes talhadas com a ponta e mola que trouxe do Mercado e agora anda sempre consigo metida na presilha dos calções, distribuir aquela delícia pelo pessoal que ande ali a trabalhar nesse dia, e ir ela própria comer a sua parte com a água fria a escorrer-lhe em cima.

    O muro que separa a horta do passeio da rua não é assim tão alto como isso, e as alfazemas que o acompanham por dentro foram podadas por forma a acompanhar os seus recortes em círculo.

    A notícia só podia correr depressa.

    Estremoz em peso é sacudido por um frisson como nunca houve outro antes.

    O Júnior já nunca sai de junto da dona. Sempre foi um animal calmo, simpático, e silencioso, como é característico dos Leões da Rodésia[11]. Mas agora alguma coisa mudou de figura. O cão começou a mostrar os dentes.


    Leia também o Episódio 1 do folhetim de Verão do PÁGINA UM da autoria de Clara Pinto Correia


    [1] Não é vaidade. É honestidade. Maria Alice ouve piropos desde os catorze anos, querem que pense o quê de si própria?

    [2] Incluindo, até, as miúdas que vêm a sair da escola. É verdade, aos oito anos já estão a pensar “quando for grande quero ser como aquela gaja,” o que, evidentemente, só lhes faz bem.

    [3] Maria Alice não é uma mulher presunçosa. É, apenas, uma mulher realista. Mesmo trancada dentro de si própria, consegue perfeitamente ver-se de fora. E ninguém pode acusá-la de ver claramente o efeito que exerce sobre os outros, sobretudo enquanto o marido está longe.

    [4] É nestas pequenas referências que se repara que Maria Alice é uma mulher culta. Até conhece o conceito platónico de eternidade, em que o Pégaso, com as suas enormes asas brancas, puxa para cima das nuvens, até à vizinhança do Olimpo, um carro dourado com os heróis caídos em batalha.

    [5] Até aqui é tudo verdade. Só a parte do soldado que correu os 42 quilómetros que separam Maratona de Atenas para anunciar a boa nova, gritou vitória bem alto na praça central, e depois morreu, tal como contada por Plutarco no século III é que é um mito. Pensando bem: alguém morre só de correr 42 quilómetros?

    [6] Ver Primeiro Episódio de CARTAS DE AMOR, “ESTREMOZ SUSPIRA”. Houve, de facto, uma longa cadeia de coincidências que trouxe Maria Alice repetidamente de volta a Estremoz a partir da adolescência. E, como toda a gente sabe, não há coincidências. Esta mulher bonita anda a ser sistematicamente trazida até Estremoz por uma qualquer razão que ainda nos escapa.

    [7] Há duas delícias gastronómicas em Estremoz que são sempre melhores do que em qualquer outro ponto do País: as queijadas de requeijão e as empadas de frango.

    [8] Uma vez mais, Maria Alice deixa entrever a sua cultura. Ou talvez não. No caso vertente, talvez esteja só a dizer-nos que viu todos os filmes da série INDIANA JONES.

    [9] Competências dos trolhas, claro – e não é que Maria Alice não pudesse dirigi-los, mas como adora actividades de outdoors e o priminho do marido adora tudo o que seja esburacar paredes e fazer passar fios de um lado para o outro, ela escolhe supervisionar o jardim e a horta, que são a competência óbvia das mulheres.

    [10] Ela não é propriamente exibicionista; apenas criou certos hábitos no Québèq e gosta deles.

    [11] Quando não estão a caçar leões, evidentemente. O que agora, alias, já nunca acontece. Antes de mais nada, deixou de haver Rodésia. E, sobretudo, é estritamente proibido caçar leões.