Crónica de um benfiquista que foi a Alvalade para dar azar…

No jornalismo independente, sobretudo quando se dirige um projecto como o PÁGINA UM, a liberdade editorial convive com uma tirania menos romântica: a dos recursos escassos. Não existe uma redacção numerosa onde se distribuem missões com abundância logística. Existe, isso sim, a necessidade permanente de escolher, optimizar e, por vezes, improvisar.

Mas essa limitação traz também uma vantagem curiosa: uma certa elasticidade de decisão, a possibilidade de alterar planos quase à última hora em função da actualidade, da conveniência ou até de um capricho emocional mal disfarçado de racionalidade.

Foi esse o dilema deste sábado futebolístico. A escolha parecia simples, pelo menos à partida, para a derradeira jornada de um campeonato que, para um benfiquista minimamente realista, ficou comprometido logo demasiado cedo: seguir até ao Estoril, para acompanhar o Benfica e observar o ambiente de um jogo potencialmente decisivo; ou preferir Alvalade, logisticamente mais próximo, para assistir ao Sporting, alimentando a secreta esperança de que o Gil Vicente — por alguma fidelidade tardia ao espírito satírico do dramaturgo que lhe empresta o nome — resolvesse montar ali uma comédia de enganos com final feliz para as cores certas.

A hesitação prolongou-se como se estivesse a decidir uma cobertura de guerra e não uma deslocação futebolística.

A hipótese de Alvalade tinha ainda um elemento supersticioso, que nunca deve ser subestimado nestas matérias em que a racionalidade se retira para fumar um cigarro. Durante alguns anos, dei ao Sporting uma inexplicável sorte presencial; mas, da última vez, na companhia do sportinguista convicto Carlos Enes — homem de fervor verde e fé quase litúrgica no sofrimento leonino —, o feitiço parecera quebrar-se com aquela vitória do Benfica arrancada nos descontos, episódio que quase exigiu acompanhamento pastoral ao meu companheiro de bancada.

A meio da tarde, porém, com textos ainda por fechar e a disciplina horária a revelar-se, como tantas vezes, uma virtude alheia, o Estoril tornou-se uma ambição logisticamente impraticável. Restava Alvalade. Carlos Enes, num acto de moleza que a História julgará com severidade, decidiu permanecer no conforto doméstico, mesmo depois de eu lhe explicar, com o rigor supersticioso que a ocasião exigia, que a minha entrada solitária na chamada Varanda do Varandas poderia desencadear forças imprevisíveis sobre o destino leonino.

Dito e feito. Cheguei a horas — proeza que, confesso, me acontece com frequência superior à registada nas minhas deslocações à Luz — e decidi escrever esta crónica à moda antiga, em directo, entre o ruído da bancada, o murmúrio nervoso das conversas e a constante consulta às incidências do outro jogo.

E cá estou: dois olhos no relvado, meio cérebro na internet e a alma dividida entre a observação antropológica e a fé encarnada.

(E goloooooooo! Benfica no Estoril! Richard Ríos abre o marcador. Logo aos sete minutos. Tu queres lá ver…)

Neste exacto instante, sinto algo subtil mas mensurável no ambiente de Alvalade: não falo ainda de pânico — será cedo e excessivo —, mas parece haver uma ligeira contracção colectiva que percorre este estádio. O adepto sportinguista, mesmo com tantos anos de míngua nas últimas décadas – com um intervalo nos anos recentes – está habituado ao catastrofismo.

Infelizmente, encontro-me na bancada de imprensa, o que impõe alguma compostura institucional e limita a observação directa, com a serenidade simultaneamente clínica e cínica que a ocasião mereceria, das aflições leoninas nas bancadas populares. Ainda assim, a imaginação — e alguns sinais periféricos — ajudam a reconstruir o quadro.

Algures duas filas abaixo, imagino um senhor a interromper a mastigação. Mais adiante, um adepto mais jovem consulta o telemóvel com a intensidade de quem aguarda resultados de uma biopsia vinda da clínica do Estoril. E não me espantaria que alguma criança, num louvável esforço de iniciação ao sofrimento futebolístico, perguntasse ao pai se “o Benfica estar a ganhar é mau”, recebendo em troca aquele silêncio pedagógico que os adultos reservam para os temas difíceis.

Naturalmente, como benfiquista educado durante décadas na severa pedagogia da esperança frustrada, resisti à tentação de qualquer entusiasmo prematuro. O Benfica ensinou-me, com método e persistência, que celebrar antes do tempo é uma actividade recreativa reservada aos ingénuos, aos comentadores televisivos e a certas almas que ainda acreditam que o futebol respeita princípios mínimos de justiça narrativa.

(… e pronto, marca aqui em Alvalade o Sporting, num cabeceamento do Eduardo Quaresma que parecia inofensivo… e lá se vai a esperança)

Depois disto, ainda bem que não cantei demasiado de galo – ou de águia. Tudo muda com isto, mesmo se… ena, ena, quanta fome!… o Benfica marca no Estoril mais dois golos de rajada, um de Bah e outro de Rafa…

E agora instala-se aquele estado psicológico muito particular que qualquer benfiquista com diversas cicatrizes emocionais reconhecerá sem dificuldade: a incapacidade de desistir completamente, combinada com a absoluta impossibilidade de acreditar com serenidade.

Por aqui, em Alvalade, com o Sporting a marcar num lance que, segundos antes, parecia tão ameaçador quanto uma reunião de condomínio, os adeptos recompuseram-se com a rapidez de quem recupera de um susto cardíaco afinal benigno. Já se canta, já se reerguem cachecóis, já regressou aquela confiança instantânea que o futebol distribui com a irresponsabilidade de um banqueiro em tempos de crédito fácil.

O Gil Vicente, até agora, não aparenta ter grande estofo para alterar o enredo. Mas o futebol, essa arte refinada de desmentir evidências com requintes de crueldade, recordou-nos há escassos dias — com o Tondela como improvável catequista — que até dois golos nos descontos podem ressuscitar cadáveres competitivos.

(… ora bolas. O que surgiu foi o 2-0, por Luis Suárez. E nem sequer vi bem a bola a entrar.)

E pronto. Isto, convenhamos, não está nada propício; em rigor, não me surpreende. Este campeonato foi, para um benfiquista, uma experiência de frustração prolongada, desta vez com um requinte suplementar de sadismo estatístico. Porque perder campeonatos acontece; perdê-los desta maneira exige uma criatividade especial.

Onze empates. Zero derrotas. E um terceiro lugar consumado. Creio que esta é a suprema ironia futebolística: a inutilidade da invencibilidade.

Segundo julgo — e as estatísticas, que nesta matéria são mais fiáveis do que a memória ferida —, esta será apenas a terceira vez que o Benfica termina um campeonato sem derrotas. A primeira foi em 1972/1973, esse tempo mitológico em que Eusébio ainda distribuía golos com a naturalidade de quem cumpre obrigações domésticas: tricampeonato, apenas dois empates, quarenta golos do Rei.

A segunda ficou-me gravada não por memória directa, mas pela educação sentimental de infância, feita de relatos quase homéricos sobre Bento, Pietra, Humberto Coelho, Eurico, os irmãos Bastos Lopes, Toni, Chalana, Shéu, Nené, e até o genial e imprevisível Vítor Baptista. Foi em 1977/1978, campeonato infamemente perdido para o Porto em igualdade pontual, numa dessas lições precoces sobre a crueldade das classificações.

E eis-nos agora perante a terceira versão desta raridade estatística, talvez a mais grotesca de todas: uma equipa que não perde um único jogo e termina em terceiro lugar. Se isto não é uma alegoria sobre a decadência contemporânea, não sei o que será.

Confesso, aliás, que começo a temer a invencibilidade. Se o Benfica continuar nesta pedagogia inovadora, qualquer dia consegue fazer uma época inteira sem derrotas e terminar em quarto, celebrando a consistência moral enquanto disputa uma pré-eliminatória europeia com uma equipa eslovena cujo nome parece extraído de um laxante.

Posto isto, inclino-me a arrumar esta crónica. Não por falta de fé — o benfiquista nunca perde totalmente essa patologia —, mas porque o intervalo aproxima-se e descobri que o Sporting, num gesto de hospitalidade institucional que quase me comove, me disponibilizou farnel. Convém não desprezar os pequenos consolos materiais quando os espirituais escasseiam.

Até ao próximo ano, portanto, na Varanda da Luz.

Vai ser desta.

Naturalmente.

(e o Sporting ainda espetou o terceiro golo nos descontos da segunda parte; por ironia, o Benfica ainda permitiu ao Estoril reduzir nos descontos finais para 3-1)