Carne vermelha: na ‘grelha’ científica do Público, quem discorda vai ao espeto

Two steaks on a plate with parsley

A proliferação de secções jornalísticas dedicadas ao combate à desinformação científica – que nada mais é do que a militarização do conceito de mera informação científica – constitui, em princípio, um desenvolvimento saudável no espaço mediático, mas tem os seus perigos.

Num ambiente mediático saturado de influenciadores de bem-estar, evangelistas alimentares, vendedores de suplementos e figuras digitais que confundem convicção com evidência, aceito bem que o jornalismo faça um esforço sério para devolver rigor ao debate público. Mas esse crédito inicial não pode equivaler a imunidade crítica, levando a que a imprensa desloque a sua função epistemológica – informar, esclarecer, contextualizar e verificar – para uma função quase militante.

Two steaks on a plate with parsley
Foto: David Foodphototasty

Por isso, numa iniciativa jornalística em que se invoca a Ciência como fundamento de autoridade, maior deve ser a exigência sobre os seus próprios métodos, linguagem e rigor conceptual. Neste aspecto, convém ler um texto do epidemiologista John Ioannidis sobre o qual escrevi recentemente.

Neste contexto, o Factness – secção do Público apresentada como um projecto de investigação jornalística baseado na ciência, desenvolvido em parceria com a NOVA Medical School e financiado por uma bolsa da Journalism Science Alliance – representa tudo aquilo que não deve ser feito. A ambição declarada parece irrepreensível: escrutinar a indústria dos suplementos e combater a desinformação sobre saúde, nutrição e exercício físico disseminada por influenciadores ligados ao fitness, ao bem-estar e aos estilos de vida saudáveis. Nada contra; pelo contrário.

Porém, mostra-se inaceitável que uma secção criada para esclarecer o público adopte mecanismos retóricos da simplificação, obscurecendo mesmo o debate científico e cometendo os mesmos erros de enviesamento que diz ‘combater’.

Os textos publicados esta semana sobre carne vermelha constituem um caso revelador. Um deles surge com o título “Carne vermelha: a história de um estudo escolhido a dedo como arma de desinformação”. Outro insiste na mesma matriz narrativa: “Desinformação simula debate científico para negar o risco de cancro da carne vermelha”.

grilled meat on black charcoal grill
Foto: Hitesh Dewasi.

Ainda há ainda um vídeo do jornalista João Pinhal, ainda estagiário (que até elogiei recentemente no ContraProva por um excelente trabalho de investigação), que, nestes trabalhos, dá um completo tiro nos pés, talvez pela deficiente orientação. Receio que ninguém lhe tenha dito no Público que jornalismo é diferente de militância, sobretudo porque em Ciência militância transforma-se, com facilidade, em dogmatismo.

Mas analisemos estes artigos sobre a carne vermelha. A leitura permite perceber, de forma imediata, a arquitectura argumentativa: existe uma verdade consolidada, surgem agentes de desinformação que a tentam minar, e qualquer estudo que introduza outras análises e controvérsia deve ser tratado como instrumento dessa sabotagem.

Vejamos: estudos científicos devem ser alvo de análise e de crítica. Isso faz parte do debate académico normal. O problema nestes artigos do Factness está na forma como essa crítica é construída, com uma linguagem mais próxima da militância pedagógica do que do jornalismo científico. Aqui, expressões como “disseminadores de desinformação”, “falsos especialistas”, “negacionistas” ou “pseudociência” são mobilizadas com demasiada facilidade retórica, como se a mera contestação de determinadas interpretações epidemiológicas bastasse para colocar alguém no banco dos réus intelectuais. Isso viu-se na pandemia, com péssimos resultados.

Passagem de um dos artigos do Factness: o uso do termo “negacionistas” para enquadrar debate metodológico sobre estudos nutricionais revela uma preocupante deriva moralizante do jornalismo científico, onde a divergência deixa de ser discutida e passa a ser estigmatizada.

Mas há um detalhe ainda mais revelador — e editorialmente grave — na forma como o Público trata o caso: constrói toda a narrativa contra um estudo específico, publicado em 2019, mas nem sequer oferece ao leitor uma referência concreta, nem explica onde foi publicado, em que contexto científico surgiu ou qual o seu peso académico. O leitor é convidado a rejeitar o objecto antes de o conhecer, até porque lhe são oferecidas ligações para críticas e uma referência sobre uma lacuna na identificação de um conflito de interesses de um dos 19 autores.

Ora, acredito que os leitores do Público ficariam mais bem servidos – embora, porventura, fragilizasse o ‘objectivo’ deste trabalho do Factness – se soubessem que o estudo em causa, de 2019, não apareceu num blogue alternativo, num repositório obscuro ou numa publicação periférica sem escrutínio académico.

Trata-se, sim, de um trabalho do consórcio NutriRECS, publicado na Annals of Internal Medicine, uma das revistas médicas mais reputadas do mundo, editada pelo American College of Physicians. Estamos a falar de uma publicação com prestígio consolidado na medicina clínica internacional, indexação robusta, forte impacto científico e centenas de citações académicas.

Primeira página do artigo científico que o Pública ‘destroça’ sem sequer se dar ao trabalho de mostrar aos seus leitores.

O estudo gerou enorme controvérsia precisamente porque surgiu num palco científico de topo, num consórcio de investigadores de topo (dos 19 autores, 12 tinham doutoramentos, dos quais quatro eram simultaneamente médicos), envolvendo 10 países (Estados Unidos, Canadá, Coreia do Sul, Holanda, Espanha, Brasil, Nova Zelândia, Reino Unido, Polónia e Alemanha). Ou seja, a controvérsia científica não nasceu à margem do sistema académico.

Isto significa que esse polémico estudo está certo? Evidentemente que não. Uma publicação prestigiada não equivale a infalibilidade. A literatura científica está, e ainda bem, cheia de debates, revisões, correcções e artigos posteriormente contestados. Mas um jornal sério – e ainda mais em artigos escritos por um jornalista licenciado em Comunicação Social em fase de estágio profissional – não poderia jamais apresentar este artigo, que nem mostra aos seus leitores (e era tão fácil), como simples “arma de desinformação”. Aquilo que o Público fez é intelectualmente pobre e editorialmente enviesado.

Mais ainda: o próprio conteúdo do artigo científico é caricaturado, o que me fez logo lembrar John Ioannidis. O NutriRECS, convém ler o artigo, não publicou um manifesto carnívoro, nem decretou que a carne vermelha é inofensiva, nem recomendou festins proteicos sem limites.

O debate científico existe, porque o estudo de 2019 foi publicado numa revista científica de topo e não foi retractado. O facto de poder existir enviesamentos no uso desse estudo não concede direito a um jornalista de apelidar de branqueamento do risco de cancro associado ao consumo de carne vermelha. Até porque associação não é, de imediato, uma causalidade.

Aquilo que o grupo de de 19 investigadores fez foi algo muito mais técnico e menos excitante para narrativas moralizantes: avaliou a qualidade da evidência disponível (noutros estudos) e concluiu que a certeza dessa evidência, para sustentar recomendações fortes de redução do consumo, era baixa ou muito baixa. Com base nisso, sugeriu que adultos poderiam manter os seus padrões actuais de consumo, reconhecendo, em simultâneo, as limitações da evidência.

Pode discordar-se desta conclusão? Claro que sim. E muitos investigadores discordaram. Houve críticas metodológicas sérias, debate intenso e questionamento sobre conflitos de interesse. Tudo isso faz parte da vida científica normal. Aquilo que não faz parte da boa prática jornalística é omitir esse enquadramento e reduzir a questão a uma luta entre ciência e charlatanismo.

O ponto central, aliás, é metodológico e vai muito além da carne vermelha. Grande parte da evidência usada para associar consumo de carne vermelha a certos cancros ou outras doenças provém de estudos observacionais. Isto significa que se observam populações, identificam-se padrões de comportamento alimentar e procuram-se associações estatísticas com determinados desfechos clínicos. Mas uma associação estatística não prova causalidade.

cooked dish on gray bowl
A esmagadora maioria dos estudos observacionais na área da nutrição são baseados em questionários alimentares auto-reportados, dependentes da memória, da percepção individual e da honestidade dos participantes, o que introduz inevitáveis margens de erro, enviesamentos comportamentais e imprecisões que limitam a robustez das inferências causais. Foto: Lily Banse.

Esta distinção, absolutamente essencial, desaparece com frequência da comunicação mediática. Se um grupo de pessoas que consome mais carne vermelha apresenta maior incidência de determinada doença, isso pode reflectir uma relação causal. Mas também pode reflectir factores de confundimento. E aqui convém explicar do que se fala.

Um factor de confundimento é uma variável associada simultaneamente ao comportamento estudado e ao desfecho observado, podendo distorcer a interpretação causal. Quem consome mais carne vermelha pode, em média, fumar mais, beber mais álcool, praticar menos exercício físico, consumir menos frutas e vegetais, ter padrões alimentares globais menos equilibrados ou perfis socioeconómicos específicos. Os modelos estatísticos tentam ajustar estas variáveis, mas nunca eliminam por completo o risco de confundimento residual.

Este problema mostra-se bastante sensível na epidemiologia nutricional, onde os dados dependem, quase sempre, de questionários alimentares auto-reportados, sujeitos a erro de memória, enviesamento comportamental e imprecisão crónica. Acresce que muitos dos riscos relativos encontrados nestes estudos são modestos. E quando os sinais estatísticos são pequenos, a margem para distorção metodológica aumenta muito.

a couple of steaks sitting on top of a table
Foto: Sergey Kotenev.

Um exemplo claro encontra-se num dos artigos citados por João Pinhal. Publicado no Lancet Diabetes & Endocrinology em 2024, trata-se de uma meta-análise federada que agregou 31 coortes de 20 países, envolvendo cerca de 1,97 milhões de adultos e mais de 100 mil casos incidentes de diabetes. Estamos perante uma impressionante dimensão da amostra, mas os resultados exigem prudência interpretativa quando se faz uma análise científica séria.

O estudo apresenta hazard ratios — uma medida estatística usada em estudos longitudinais para comparar o risco relativo de um determinado evento ocorrer ao longo do tempo entre grupos com diferentes exposições. Em termos simples, um hazard ratio de 1 significa ausência de diferença de risco; acima de 1 indica risco acrescido; abaixo de 1 sugere risco inferior.

No caso concreto, os autores encontraram um hazard ratio de 1,10 para carne vermelha não processada por cada 100 gramas diárias adicionais consumidas, 1,15 para carne processada por cada 50 gramas diárias, e 1,08 para aves por cada 100 gramas. Isto corresponde, grosso modo, a aumentos relativos de risco de 10%, 15% e 8%, respectivamente.

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Foto: Jeswin Thomas.

À primeira vista, estes números podem parecer expressivos, mas no contexto da epidemiologia observacional nutricional são considerados efeitos modestos, não elevados. Efeitos desta magnitude estão particularmente expostos à influência de confundimentos residuais, enviesamentos de medição e imperfeições metodológicas.

Acresce que o próprio estudo publicado na The Lancet Diabetes and Endocrinology reporta valores de I² entre 59% e 68%, um indicador estatístico usado em meta-análises para medir o grau de heterogeneidade entre os estudos incluídos, ou seja, até que ponto os resultados são consistentes entre diferentes populações e contextos. Ora, valores desta ordem traduzem heterogeneidade substancial, significando que os estudos não contam exactamente a mesma história e que os resultados variam de forma relevante entre coortes. Em suma: trata-se de associações estatísticas que merecem atenção, mas estão longe de constituir prova cabal de causalidade.

Neste terreno de incerteza metodológica, o debate científico torna-se legítimo. Não porque “qualquer opinião vale”, mas porque a robustez inferencial tem limites reconhecidos. Transformar essa discussão num combate entre esclarecidos e hereges não educa o leitor – apenas procura uma doutrinação.

a man holding his stomach with his hands
Foto: D.R.

O mais curioso é que o próprio Público, ao atacar o NutriRECS, adopta um duplo critério editorial. Os estudos alinhados com a narrativa dominante são apresentados com referências específicas, enquadramento científico e autoridade institucional. O estudo contestado, que constitui o alvo principal da crítica, surge despido desse enquadramento básico. Não se facilita ao leitor o acesso directo ao paper, nem se explica a sua natureza, nem se contextualiza a publicação. Em vez disso, oferece-se um retrato intencionalmente filtrado.

Outro aspecto preocupante do Factness do Público é a confusão entre consenso científico e verdade científica. O consenso pode ser um indicador útil, sobretudo para orientação prudencial em saúde pública. Mas não é argumento absoluto. A ciência não funciona por aclamação, mas por teste, revisão, replicação, crítica e, muitas vezes, reformulação de consensos anteriores.

Quando um jornalista (que se quer) de Ciência adopta a óptica de que contestar uma leitura dominante equivale automaticamente a “simular debate científico”, entra num terreno dogmático. Uma coisa é desmontar fraudes, pseudociência ou manipulação deliberada. Outra, muito diferente, é tratar controvérsia metodológica legítima como se fosse sabotagem intelectual.

grilled barbecues on black and gray grill
Foto: Evan Wise.

O problema de fundo não é, assim, a existência de jornalistas jovens no jornalismo científico. Todos começaram por algum lado, e talento, rigor e capacidade analítica não se medem pela antiguidade da carteira profissional. O ponto é outro, e bastante mais relevante: quando um projecto jornalístico se apresenta, de forma intencional – porque o Factness do Público apenas existe por causa do financiamento externo – como instrumento de verificação científica, com parceria universitária e missão declarada de combate à desinformação, a exigência de supervisão editorial e científica tem de ser proporcional ao peso dessa ambição.

Com este trabalho confirma-se que o jornalismo científico atravessa hoje um risco crescente: está a deixar de funcionar como mediação crítica entre a Ciência e o público para assumir uma postura de advocacia epistemológica, em que determinadas interpretações passam a ser tratadas como ortodoxia indiscutível e qualquer contestação metodológica como manifestação de negacionismo, charlatanismo ou desinformação.

Esse desvio é ainda mais perigoso em áreas como a nutrição, onde a evidência observacional se apresenta complexa, imperfeita e sujeita a interpretações divergentes. E sim, é verdade que existem influenciadores que recorrem ao cherry picking, seleccionando estudos convenientes para sustentar teses pré-definidas, e pior ainda treslendo conclusões e omitindo as limitações referenciadas. Isso existe e merece escrutínio.

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Foto: Dan Gold.

Mas a existência desse fenómeno não autoriza a operação inversa: tratar toda a controvérsia científica como fraude argumentativa, atacando o mensageiro original apenas porque terceiros instrumentalizam ou deturpam o seu trabalho. Se A disser 1 e B, invocando A, afirmar que ele disse 1+2, o que importa criticar é B pelo acréscimo abusivo ou pelo enviesamento interpretativo — não responsabilizar A por algo que nunca afirmou. Confundir a manipulação posterior de um estudo com a invalidade intrínseca do seu conteúdo é um erro lógico elementar.

Em conclusão, a ciência progride através do confronto entre hipóteses, da crítica metodológica, da revisão de pressupostos e da permanente reavaliação da robustez da evidência. O jornalismo científico não deve converter-se num braço disciplinador dessa discussão, distribuindo certificados de legitimidade intelectual a uns e rótulos de desinformação a outros. A ciência precisa de intérpretes exigentes. Não de procuradores ideológicos.