A pandemia da covid-19 deixou uma herança paradoxal. Por um lado, expôs fragilidades graves na comunicação científica, no escrutínio mediático e até na transparência institucional em torno de decisões sanitárias de enorme impacto. Por outro, abriu espaço a um ruído tão intenso de especulação, simplificações grosseiras e teorias conspirativas que, por lamentável ironia, acabou por contaminar também críticas legítimas e perguntas sérias. O resultado tem sido um debate intoxicado, onde a exigência de rigor convive com absurdos que apenas servem para descredibilizar qualquer questionamento ponderado.
O episódio recente em torno do hantavírus é um excelente mas grave exemplo dessa degradação do debate público. A partir da alegada presença da expressão “hantavirus” em documentação associada à farmacovigilância das vacinas contra a covid-19, rapidamente surgem insinuações de que uma vacina poderia “provocar hantavírus” ou “causar infecção por hantavírus”, como se estivéssemos perante uma espécie de geração espontânea virológica.

Para um crítico da narrativa mediática e da gestão política da pandemia – como sou – torna-se difícil não olhar para certos argumentos sem perplexidade. Uma reacção adversa a um medicamento ou a uma vacina não consiste na criação ex nihilo (a partir do nada) de um agente infeccioso inexistente no organismo. Uma vacina contra o SARS-CoV-2 não contém hantavírus, não transporta hantavírus, não produz hantavírus e não transforma biologicamente alguém num reservatório infeccioso de um vírus completamente distinto. Dito de forma simples: uma vacina pode, em tese, associar-se a determinados eventos biológicos, ms não cria um vírus onde ele não existe.
Mesmo assim a crítica ao absurdo não dispensa rigor conceptual, porque há perguntas mais sofisticadas e cientificamente admissíveis. A primeira seria a hipótese de reactivação viral. Sabe-se que alguns vírus, como os herpesvírus, permanecem em latência no organismo e podem reemergir quando ocorrem alterações imunológicas relevantes. Por exemplo, o vírus varicela-zoster pode permanecer silencioso durante décadas e reaparecer sob a forma de zona; o Epstein-Barr e o citomegalovírus também têm mecanismos de persistência e eventual reactivação, sobretudo em contextos de imunossupressão ou perturbação imunitária. Nesses casos, discutir se uma infecção, uma doença, um tratamento ou mesmo uma resposta imunitária intensa pode alterar esse equilíbrio não é absolutamente nada irracional.
Contudo, sucede que o hantavírus não se enquadra nesse modelo clássico. Trata-se de um vírus RNA zoonótico, transmitido sobretudo por contacto com excreções de roedores infectados. O modelo epidemiológico habitual é simples: exposição, incubação, infecção aguda, resolução ou, nos casos graves, evolução clínica severa. Não existe evidência robusta de que o hantavírus permaneça dormente no organismo humano à maneira dos herpesvírus, aguardando um momento oportuno para ressurgir. Falar de “reactivação de hantavírus” como hipótese geral revela, no mínimo, desconhecimento da biologia básica do agente infeccioso.

A segunda hipótese, mais séria, é outra: uma alteração imunológica transitória que aumentasse susceptibilidade a determinada infecção. Aqui já entramos num terreno conceptualmente admissível, ainda que longe de conclusões apressadas. Qualquer estímulo imunológico intenso provoca reorganizações temporárias no sistema imunitário — redistribuição de linfócitos, alterações em perfis de citocinas, activação de respostas celulares, etc. Isso faz parte da fisiologia da imunidade. Mas daí a concluir que uma vacina cria vulnerabilidade clínica relevante a infecções oportunistas vai uma distância considerável. Em alguns contextos foram discutidos episódios de reactivação de vírus latentes, como herpes-zoster, mas extrapolar daí para uma vulnerabilidade generalizada ou para associações arbitrárias com agentes infecciosos raros é bastante imprudente.
No caso específico dos hantavírus, a literatura mostra, aliás, algo importante: a exposição prévia não é irrelevante. Uma meta-análise recente estimou a seroprevalência global de anticorpos contra hantavírus em cerca de 2,9%, com variações geográficas — aproximadamente 2,4% nas Américas, 3% na Europa e valores mais elevados em certas regiões asiáticas. Isto significa que uma fracção não negligenciável da população mundial (cerca de 238 milhões de pessoas) já teve contacto prévio com estes vírus, muitas vezes de forma assintomática ou subclínica. Mas mesmo esse dado deve ser interpretado com prudência. Seropositividade não significa doença activa, nem muito menos que qualquer alteração imunológica passageira explique surtos específicos.
Aliás, mesmo admitindo por hipótese académica que alguma alteração transitória da resposta imunitária pudesse aumentar susceptibilidade individual à manifestação clínica após exposição recente, isso continuaria muito longe de explicar surtos epidemiológicos ou de sustentar relações causais com campanhas vacinais. Para isso seriam necessários dados sólidos: séries clínicas consistentes, análises comparativas entre vacinados e não vacinados, plausibilidade temporal robusta, mecanismos imunológicos confirmáveis e exclusão de factores de confusão evidentes. Sem isso, estamos no domínio da especulação.

Aqui reside, portanto, um drama contemporâneo no debate científico e mediático. Nos últimos anos, quem levantava dúvidas legítimas sobre transparência regulatória, qualidade da evidência ou proporcionalidade de certas medidas sanitárias era frequentemente arrumado na prateleira do negacionismo pelos zelotas pandémicios – uma boa síntese feita por John Ioannidis para classificar quem, com preguiça intelectual, recusam o confronto científico. Porém, na verdade, proliferaram e continuam a proliferar teorias obtusas e interpretações pseudo-críticas que confundem farmacovigilância com causalidade provada, listagens técnicas com efeitos confirmados e hipóteses abstractas com factos demonstrados. Ambos os extremos empobrecem o debate.
A ciência não precisa de fé nem de paranoia, mas sim de método, contexto e humildade epistemológica. Confundir crítica rigorosa com teorias conspirativas é mau. Mas deixar que teorias ou hipóteses absurdas contaminem críticas sérias talvez seja ainda pior, porque destrói o espaço onde a investigação racional deveria prosperar. Por isso, quando metem, no mesmo ‘bar’, hantavírus e vacinas covid, o cocktail que dali sai jamais será vantajoso para o apuramento da verdade.