O último contabilista da Trust in News, dona da revista Visão, decidiu manter nas contas da empresa relativas ao exercício de 2024 uma verba de cerca de 15 milhões de euros atribuída a receitas futuras, apesar de ter admitido em tribunal desconhecer a origem daqueles alegados proveitos, que tudo indica serem fictícios, apurou o PÁGINA UM.
Aquelas supostas receitas, que foram contabilizadas nas contas da TIN ao longo de vários anos por ordem verbal da gerência, não têm qualquer base documental e permitiram esconder prejuízos da ordem dos milhões de euros, tanto dos trabalhadores, como dos credores, designadamente o Estado, e do regulador dos media, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).

Foi graças a essas “receitas futuras” fictícias que a TIN — uma empresa unipessoal do comentador Luís Delgado com um capital de apenas 10 mil euros, como o do PÁGINA UM — conseguiu apresentar resultados líquidos positivos em 2021 e 2022.
Mesmo em 2023, quando a empresa apresentou um prejuízo, o resultado líquido da TIN até nem foi tão elevado quanto o de outros grupos, já que a sociedade fechou aquele ano com um resultado líquido negativo de 116 mil euros. Isto apesar de ter um passivo de mais de 30 milhões de euros, incluindo uma dívida ao Fisco e à Segurança Social superior a 15 milhões de euros. Caso a TIN não tivesse registado “outras contas a receber” de cerca de 15 milhões de euros em 2023, o prejuízo da empresa teria sido astronómico.
Paulo Neves, contabilista externo da TIN, em representação da empresa que fundou, a Best Value-Gestão e Contabilidade, testemunhou em tribunal, no passado dia 30 de Abril, que não conseguiu apurar a origem do montante de cerca de 15 milhões de euros contabilizado nas contas da TIN de 2023 como proveitos a receber no futuro.

Apesar disso, segundo apurou o PÁGINA UM, ao invés de registar aquela verba como imparidade no exercício de 2024, o contabilista decidiu manter o montante na rubrica valores a receber. Isto apesar de ter assumido que ninguém na TIN lhe soube explicar a origem daquele registo.
O contabilista fundamentou a sua decisão no facto de não ter obtido “esclarecimentos” sobre a origem daquela verba por parte da gerência da empresa. Assim, optou por “manter os valores inalterados” face ao exercício de 2023. Ora, esta decisão causa estranheza, por não existirem documentos que fundamentem a existência real daqueles valores. Por outro lado, o contabilista podia, perante a situação, ter pedido escusa e não ter fechado as contas da TIN por ter dúvidas sustentadas quanto a diferentes rubricas.
Paulo Neves, que exerceu funções como contabilista externo da TIN entre Outubro/Novembro de 2024 e Outubro de 2025, foi a última testemunha a prestar depoimento no julgamento que decorre no Tribunal Judicial da Comarca de Sintra para decidir se a gerência da TIN teve responsabilidades na insolvência da empresa.

O contabilista disse em tribunal que só fechou as contas da dona da Visão em Fevereiro deste ano — muito depois do prazo-limite que seria Julho de 2025 —, argumentando dificuldade no acesso a informação. Mas as contas não chegaram a ser depositadas — e não são ainda públicas, desconhecendo-se os seus detalhes — porque nenhum gerente quis assinar a declaração de responsabilidade da gerência, necessária para o fecho das contas.
Neste julgamento — que tem sido boicotado pela generalidade da imprensa, por motivos desconhecidos — a procuradora do Ministério Público pediu a condenação dos gerentes e a atribuição da qualificação de insolvência culposa, como o PÁGINA UM noticiou.
Paulo Neves disse em tribunal que questionou a TIN acerca daqueles valores, da ordem dos milhões de euros, mas apenas foram dadas indicações “genéricas” sobre tratar-se de receitas futuras. “Foram acréscimos [aos proveitos] que foram feitos com base estimativas”, afirmou.

Quando o contabilista procurou saber a origem específica daqueles valores, indicaram-lhe que “tinham os mapas todos nos servidores e estavam lá os detalhes”. Mas nunca ninguém na TIN lhe forneceu esses “mapas” e nunca soube a origem daqueles valores. “Nunca vi esses ficheiros e não tive acesso aos servidores da TIN”, disse. “Não obtive respostas”. indicou que precisava dessa informação para saber “se era para ser dado algum tratamento (contabilístico) a esses valores que “eram relevantes”.
Recorde-se que a certificação legal das contas da TIN de 2021 foi feita “com ênfases”, nomeadamente devido à existência de uma rubrica de 3,3 milhões de euros a título de “valores a receber”, sendo que o auditor não encontrou provas que a fundamentassem. Segundo a gerência, aquela verba corresponderia a uma alegada venda, a curto prazo, a uma entidade relacionada, dos títulos Exame, Visão Saúde, Visão Biografia e Prima. Contudo, não existia sequer a identificação do potencial comprador nem qualquer documento que comprovasse a realização desse negócio.
Por esse motivo, na certificação legal das contas de 2022, o auditor absteve-se de emitir opinião, uma vez que nem o departamento financeiro da TIN nem a gerência apresentaram documentação que sustentasse estes e outros registos contabilísticos. E o montante em causa não era despiciendo: 10,26 milhões de euros figuravam na rubrica “contas a receber”, sem justificação plausível. A confirmar-se que esses valores nunca dariam origem a entradas de caixa — como se suspeita —, a empresa teria de anular esses rendimentos na demonstração de resultados. Em consequência, teria de assumir que estaria com prejuízos muito elevados, na ordem dos milhões, o que teria antecipado de forma significativa os sinais de degradação financeira.

Recorde-se que o PÁGINA UM foi o primeiro e único órgão de comunicação social a alertar, em meados de 2023, para a existência de uma dívida gigantesca da TIN ao Estado, a qual estava a ser escondida da ERC e dos trabalhadores. O PÁGINA UM também alertou para a existência de uma rubrica duvidosa, relativa a supostas receitas futuras, que se provou agora não ter qualquer suporte documental.
Segundo várias testemunhas que depuseram em tribunal sobre o tema, o registo destas supostas receitas futuras nas contas da TIN foi feito por mera indicação verbal da gerência e terá servido para mascarar os avultados prejuízos da empresa. A TIN acabou por ser declarada insolvente a 4 de Dezembro de 2024.
Apesar de tudo, Luís Delgado ainda avalia a implementação eventual do seu plano de insolvência, que foi aprovado pelo Supremo Tribunal de Justiça, como noticiou o PÁGINA UM em primeira mão. Mas o grupo de jornalistas que tem mantido a revista Visão nas bancas não vê com bons olhos o regresso de Delgado ao comando do grupo que fundou e, aparentemente, ajudou a afundar.

/ Foto: D.R.
De resto, aguarda-se pela decisão da juíza no julgamento para a qualificação da insolvência. Caso acompanhe o pedido do Ministério Público e condene os gerentes da TIN, Delgado não poderá ficar no leme da empresa, se decidir implementar o plano de insolvência.
Além disso, enfrenta outros processos por dívidas avultadas por saldar, designadamente junto da Autoridade Tributária e da Segurança Social. E arrisca vir a enfrentar acções judiciais relativas aos valores aparentemente fictícios registados nas contas por ordem verbal da gerência da TIN e que terão servido para encobrir a real situação financeira da empresa ao longo dos últimos anos.