O discurso da directora-geral da Saúde numa cerimónia, na passada terça-feira na Fundação Champallimaud, dedicada ao Dia Mundial da Saúde, em que afirmou que “a desinformação circula mais rápido do que a evidência” e que nunca foi “tão visível a fragilidade na confiança na Saúde”, deveria ter sido uma análise introspectiva – mas não: Rita Sá Machado estava a acusar outros, o que transforma tudo numa hipocrisia absoluta.
A desinformação não nasce do vazio. Nasce sobretudo da ausência de informação por parte do Estado; da manipulação de informação por parte do Estado; da adulteração de informação por parte do Estado; da sonegação de informação por parte do Estado. Tudo isso são as sementes — e o adubo — para que cresçam dúvidas e se perca a confiança pública.

Não é, por isso, uma patologia espontânea da sociedade, como se os cidadãos, de repente, tivessem decidido desconfiar por capricho. A desconfiança também se constrói — e constrói-se, sobretudo, a partir de cima. A partir de instituições que, em momentos críticos, optam por ocultar, omitir, manipular ou simplesmente não explicar.
Foi aqui que o discurso de Rita Sá Machado se tornou não apenas frágil, mas profundamente hipócrita. Falar de desinformação como o “grande problema” num sistema que, durante a pandemia, tomou decisões estruturais sem transparência plena é um exercício de inversão da realidade.
A Direcção-Geral da Saúde tomou medidas sem base científica. Basta, com olhos decentes, recordar alguns absurdos das restrições. Desligaram-se os sistemas de ar condicionado em lares de idosos e muitos morreram de golpes de calor ou desidratados. Chegou-se a multar pessoas porque estavam sozinhas a apanhar sol numa praia ou a comer sandes dentro de um carro. Colocaram-se ‘hélices’ nas cabeças de crianças em infantários para as treinar a não se aproximarem dos amiguinhos. Isto foi Ciência?
Suspenderam-se diagnósticos, consultas e exames a idosos e doentes, que contribuíram para o morticínio de Janeiro de 2021. Isto foi Ciência?

Atribuiu-se como óbitos por covid-19, as mortes de queimados em terceiro grau, de doentes que caíram da cama e partiram o pescoço, de doentes terminais de SIDA e cancro, até de uma pessoa que se suicidou atirando-se da janela do Hospital de Gaia. E isto porque tinham um teste positivo. Isto foi Ciência?
Vedou-se o acesso a restaurantes a pessoas sem vacina, mesmo se tivessem imunidade adquirida por doença prévia. Isto foi Ciência? Criticar isto é fazer desinformação, ou apenas dizer que o rei vai nu… e que ainda por cima é hipócrita?
A hipocrisia torna-se evidente quando se confronta este discurso de Rita Sá Machado com a prática reiterada da própria DGS. Longe de combater a desinformação, recordo-me bem de episódio, no início de 2022, da remoção de relatórios de uma task force de Ciências Comportamentais criada pela DGS para esconder que se defendia o uso deliberado do medo como instrumento de gestão pública da pandemia. Foi o PÁGINA UM que denunciou esta manipulação e o sucessivo apagamento dos relatórios, embora os tenhamos recuperado e publicado.

A DGS participou também, de forma activa, num processo de vacinação em massa que incluiu jovens saudáveis de baixo risco, num contexto em que não eram conhecidos — e continuam a não ser conhecidos — os efeitos adversos. Em vez da prudência perante a incerteza dos risco e o baixíssimo perigo da doença para jovens saudáveis, a DGS preferiu o negócio das farmacêuticas. E tornar os jovens autênticas cobaias sem qualquer necessidade.
A DGS assinou, escondendo-os depois, os contratos com as farmacêuticas em que se assumia desconhecer os efeitos adversos, e andou a instigar a vacinação como um acto cívico, enganando pais e mães. Isto foi Ciência?
A luta da DGS para impedir o acesso a documentos, comunicações, anexos e condições negociais é homérica. Arrasta-se há três anos — e com a própria DGS a tentar que o Tribunal Administrativo de Lisboa se considerasse incompetente para decidir. O intuito tem sido um só: esconder. Ponto final. E é preciso uma desfaçatez rara para, depois disto, a directora-geral da Saúde vir falar de desinformação e de Ciência.

Mais: este é o mesmo sistema de Saúde — que agora se lamenta da desinformação e da desconfiança — que mantém opaco o portal de notificação de efeitos adversos de fármacos, mesmo após decisões judiciais que o Infarmed, através do seu ‘eterno’ presidente Rui Santos Ivo, recusa cumprir. Quando a informação é filtrada, atrasada ou inacessível, o espaço da dúvida não é ocupado pela evidência — é ocupado pela suspeita.
E depois há o silêncio. O silêncio selectivo. O silêncio conveniente. Rita Sá Machado, em pose angelical, fala da malvada desinformação, mas a DGS sempre ignorou disponibilizar informação incómoda. Ainda ontem o Ministério da Saúde não comentou nem esclareceu as 2.850 mortes associadas a condições básicas de saúde pública, como a qualidade da água e o saneamento, em apenas seis anos. Não se conhecem estudos epidemiológicos robustos sobre incidência, não há debate público estruturado, não há campanhas de sensibilização equivalentes às que se mobilizaram para outras prioridades. Isto não é desinformação — é omissão deliberada de informação relevante.
Rita Sá Machado invoca a confiança e a Ciência, mas esquece o comportamento institucional que as mina.
Durante três anos, dados fundamentais sobre internamentos hospitalares foram retidos pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). Não por razões técnicas, mas por resistência administrativa. Foram necessárias decisões judiciais sucessivas — e a ameaça de multas pessoais a dirigentes — para que informação essencial fosse finalmente disponibilizada. Essa informação, que existe há décadas, nunca foi tratada pelos Governos nem disponibilizada aos investigadores. Não se quis fazer Ciência nem política de saúde pública por medo. Isto não é um detalhe burocrático: é um padrão de actuação e de resistência à transparência.

E, no entanto, a narrativa oficial insiste: o problema é a desinformação.
Não. O problema é outro: termos um Estado — e burocratas como Rita Sá Machado — que exigem confiança, mas recusam prestar contas. Uma autoridade de saúde que invoca a Ciência como escudo retórico, mas bloqueia o escrutínio que a própria Ciência exige. Uma cultura institucional que confunde autoridade com infalibilidade e transparência com risco político.
Quando Rita Sá Machado fala em reconstruir a confiança, omite o essencial: a confiança não se decreta — constrói-se. Com transparência, com acesso à informação, com reconhecimento de incertezas e com prestação de contas.
Aquilo que ela mostrou, e tem mostrado, é o oposto, ‘honrando’ as atitudes sua antecessora e dos sucessivos ministros. Tem-se assistido à desqualificação sistemática de críticas como “desinformação”, à redução do debate a uma dicotomia simplista entre Ciência e ignorância, como se questionar fosse, por definição, ilegítimo. Mas a Ciência — e a política de Saúde — vive do escrutínio, da dúvida e da revisão. Não da imposição.
Ao apontar o dedo à desinformação sem reconhecer os seus próprios défices de transparência, a directora-geral da Saúde não combate o problema da confiança — alimenta-o.

E é aqui que tudo deveria se clarificar. Em Portugal, não estamos perante um problema de desinformação na sociedade. Estamos perante um problema de informação no Estado. E quando quem tem o dever de informar escolhe ocultar, atrasar ou filtrar, já não pode apresentar-se como vítima da desinformação. Passa a ser o seu principal agente.
E é por isso que este discurso de Rita Sá Machado não é apenas errado. No sentido mais rigoroso da palavra, é um exercício de hipocrisia. É como um verdugo a queixar-se do peso do machado.