E eu voltei-me para todas as obras que minhas mãos fizeram e o trabalho duro que isso me custou. Pois bem, tudo isso é vaidade e perseguir vento; e não há proveito algum sob o sol.
Eclesiastes 2, 11
***
Caótico é uma boa palavra para descrever o meu ateliê. Nas paredes laterais e do fundo, estantes atulhadas de bonecos. Estou no centro da peça, imóvel, de pé junto à cabeceira da mesa. Diante de mim, estão alinhados os bonecos que construí nos últimos meses.
Apenas uma lâmpada, colocada exatamente por cima da minha cabeça, está acesa. Começo a montar o cenário. O velho abajur avariado será o poste de luz. O grande cinzeiro redondo será o chafariz. Coloco lado a lado três caixas de sapato: serão os bancos nos quais acomodarei, de frente para o público, as personagens.
A mesa quadrada é o palco.
Um minuto de silêncio e imobilidade basta para que eu me concentre. Abro os olhos e estendo o braço para o maior dos bonecos. O Artesão é um homem grisalho que veste um macacão de brim azul. Levo-o à boca da cena para que cumprimente o público. Quando os aplausos cessam, com o polegar levantado, ele aponta para trás (o fundo do palco, onde estão os bonecos) e fala.
– Em silêncio, de boca travada, eu os construí da matéria mais indigna: a carne.
Pego então a boneca franzina que parece ter menos de quinze anos e que veste uma saia muito curta. É a Prostituta. Sento-a no banco da esquerda e dali, em voz alta, esganiçada, ela interroga o Artesão.

– Encontras prazer no teu trabalho, monótona repetição de máquina?
– Meus movimentos são sempre iguais. Para juntar ou separar.
Pego o Marinheiro e faço com que caminhe, gingando, para o banco da direita.
Lá, antes de sentar-se, apontando para o Artesão, o Marinheiro interroga os espectadores.
– Digam-me: não tem esse homem a deselegância do albatroz quando aterrissa numa praia fustigada por ventos cruéis?
De pé, à beira do palco, onde se manterá quase o tempo todo, o Artesão fala ao público.
– Procuro o horror que se esconde em todos. Nos mortos e nos vivos.
Mal eu o coloco em pé, o Pivete, oito anos, maltrapilho, aproxima-se do Artesão e, com sua voz flauteada, o interroga.
– O senhor Artesão não se cansa, nunca?
– Só o passar dos anos poderá vencer o rancor das minhas ferramentas.
Depois de colocar o Pivete no banco do centro, recuo o braço e agarro a Mendiga, suja e feia, que levo até o Artesão. A Mendiga agarra o braço do Artesão e o interroga.
– Por que criaste tanta gente, ainda que de engonço?
– Não controlo minhas mãos. São tenazes.
A Mendiga exalta-se.
– Quem achas que és? Como ousas avançar noite cega adentro?
O Marinheiro se levanta bruscamente e, mais uma vez indicando o Artesão, se pronuncia.
– Busca rumo no intrincado da vida, mas o certo é que seu barco só poderá conduzi-lo às funduras abissais!

A Mendiga, voltada para a plateia, torna a falar.
– Este pobre homem traz o estupor de quem ceifou na seara da morte. Noctâmbulo como a lua, ele certamente se orienta pelas poças de água das chuvas adormecidas.
O Marinheiro deixa o palco. A Mendiga senta-se no banco do meio, ao lado do Pivete.
***
Feita essa breve introdução, trato de finalizar o cenário.
Espalho os meus lápis de cor, que serão as flores do jardim. Meu isqueiro será uma árvore raquítica. Uma caixa de papelão para seis garrafas de vinho, deitada de lado, representará um conjunto de casebres arruinados. A caixinha de música será o parque de diversões.
Recita o Artesão.
– No úmido cimento das calçadas, ficará meu legado. Agora será de vocês a foto do estudante ao lado de um globo terrestre. No jardim, entre as hortênsias, depositarei a hóstia, áspera e seca, que no céu de minha boca se aferrou para sempre. Deixarei ainda uma janela que se abrirá para os vermelhos verões de antigamente: bolinhas de gude, pandorgas, estilingues, morros, córregos, eucaliptos, pardais e ovelhas. Só não entregarei a vocês a dama-da-noite, porque preciso que ela continue a me ninar, perfumosa, todas as madrugadas.
***
Coloco em cena a Cigana, ao lado do Artesão.
Voltados para o público, travarão um diálogo.
Começa ela.
– O rumoroso passado ou o silente futuro? Qual deles te atormenta mais?
– A eterna obrigação de criar espantalhos.
– Mas por que os fabricas se tua criação está condenada a vagar seminua e descalça?

– Nada mais sei fazer.
– Soturno e mísero, cumprirás a rota das latas de lixo. Sombras terás por parceiras. Na noite interminável são as mais fiéis companheiras.
A Cigana deixa o palco.
***
Coloco em cena o Louco, maltrapilho, encurvado, barba branca. De pé na beira do palco, com sua voz de baixo profundo, travará um diálogo com o Artesão.
Começa o Louco.
– Esta praça vai morrer. É o que anuncia o brilho dessas pedras polidas por tantos passos perdidos.
– Eram incontáveis os aromas do turbado agosto: bergamoteiras, pessegueiros e laranjeiras.
– Esta praça vai morrer de madrugada, justo quando o primeiro trabalhador cruzar pelo último bêbado.
– A carroça do leiteiro foi a orquestra da minha infância. As ferraduras soavam como atabaques na garoa e havia também a lira das garrafas vazias.
– Esta praça vai morrer quando o sol, exausto, se aninhar no roxo canteiro das hortênsias!
– Houve uma manhã que fez de mim um menino triste. Foi no tempo em que o vento gris da primavera me embalava na gangorra dos domingos imóveis. Não posso viver sem relembranças.
Saindo cena, o Louco deixa atrás de si uma última frase.
– Homens inquietos só servem para recortar silhuetas na neblina das praças.
***
Acendo a lanterna e dirijo o facho para o banco do centro, onde a Mendiga, amamentando o Pivete, cantarola.
Mama para esquecer a fome
Que do alto do telhado
Te observa o lobisomem
Bebe enquanto a criatura
Sonha com o teu sangue
E da garganta a quentura

A Mendiga se cala por um minuto, depois levanta o rosto e se dirige ao público.
– Ainda bem que meu último anjinho se finou mal me saiu do bucho. Por isso, troco meu leite pelas moedas deste moleque.
O Pivete dá-lhe uma cotovelada.
– Canta, feia bruxa má!
A Mendiga engrola uma outra cantilena.
Saiba senhor menininho
Que a mula sem cabeça
Virá por este caminho.
De novo voltada para a plateia, a Mendiga fala pausadamente.
– Gerei muitos bacorinhos, mas a todos vendi numa terra onde criança vale prata. Para mim, mesmo os que nascem mortos são negócio: alugo as tetas, a melhor das mutretas.
Com um movimento do queixo, a Mendiga aponta o Pivete.
– Este aqui matou a mãe no parto. É ruim, uma fera, nefasto. Fede mais do que um rato, mas paga bem, cumpre o contrato.
***
O foco da lanterna volta-se para a beira do chafariz, ou seja, para a lateral do cinzeiro. Ali sento o Drogado.
É jovem, magro e pálido. Traz na mão direita uma seringa, que, com um gesto brusco, crava no braço esquerdo. Depois fala em voz alta, quase gritando.
– A morte viaja na bandeira dos piratas! A morte é preta como a roupa do Cavaleiro Negro. Rasguei a morte como se ela fosse a máscara do Batman, uma camiseta de goleiro ou qualquer outra coisa escura.
O Artesão senta-se ao lado do Drogado, que se deita na mureta do chafariz e, em seguida, acomoda a cabeça no colo do Artesão.

Afagando os cabelos do Drogado, falará o Artesão.
– Minha carícia é um parco remanso no teu mar revolto. Meu carinho é pouco para o teu corpo roto.
***
A Mendiga deixa o palco.
O Pivete, de canivete na mão, se aproxima do Artesão e do Drogado.
– Cuido carro, busco maconha ou cigarro. Arranjo mesa em bar, macho ou mulher para te amar.
O Artesão o interroga.
– Onde brincaste tua infância, se drenaram o rio, aplainaram os morros e cimentaram a praça?
– Deram-me estrelas para pastorear. No estéril sereno eu sei semear.
– Que fruta colhes com o fio do teu canivete?
– A cidade me dá bêbados e putas. São eles o meu maná.
Num gesto muito rápido, o Pivete rouba a carteira do bolso da calça do Drogado e, correndo, sai de cena.
***
O Drogado senta-se na mureta do chafariz e se dirige ao Artesão.
– Quem és?
– Sou cacimba, falha na rocha, perdida entre a folharada. Perene, límpida, sou a mãe do arroio que rola sobre seixos redondos enquanto os meninos, sob o sol, estilhaçam o cristal das suas risadas. Sou olho de água na pedra perdendo crianças para a estrada. Sou muita coisa amalgamada.
– Que fazes?
– Da seca madeira, uso as achas. Da bruta rocha, arranco as lascas. Do duro ferro, produzo faíscas. Fabrico viventes.
– Boa coisa não deves ser, se, como eu, nas profundas da noite fazes questão de viver.
***
Coloco em cena o Pregador, homenzinho mirrado, espremido em terno preto, cabelo enlameado em brilhantina e Bíblia na mão.

Levo-o até onde estão sentados o Artesão e o Drogado.
O Pregador discursa.
– No princípio era o silêncio e o espírito de Deus movia-se sobre o silêncio. E, vendo que o silêncio era bom, Deus disse: unam-se os silêncios num só lugar e apareça a solidão. E disse depois: Que a solidão dê sementes assim como as árvores dão frutos!
O Pregador se cala e observa o Artesão e o Drogado. Como eles nada dizem, reata sua fala.
– Em nome de Jesus, tudo tem um preço nesta terra de trevas e luz. Eu vos peço um óbolo para financiar uma cruz.
***
A Prostituta deixa o banco, aproxima-se dos três homens e anuncia seus serviços.
– Nos ocos dos becos, dou prazer aos coitados. Nos breus, satisfaço os tarados. Na escuridão, eu topo tudo: meus vícios e os seus.
O Drogado e o Pregador retiram-se de cena.
O Artesão se levanta, volta ao seu lugar e, de lá, dirige-se ao público.
– Em madrugadas exaustivas eu os fabriquei, mas restaram inconclusos. Não passam de esboços, destroços.
***
O Pivete aproxima-se da Prostituta e entrega a ela a carteira que roubou do Drogado.
A Prostituta senta-se no chão. O Pivete deita-se, em posição fetal, ao lado dela.
Acariciando a cabeça do Pivete, a Prostituta cantarola.
O canto do primeiro galo
Era só o que te ninava
O orvalho na relva insone
Era o leite que tu sugavas
A tocaia dos salteadores
Com facas prenhas de lua
Era o medo que te afligia
Nas longas vigílias tuas

***
Fala o Artesão.
– Nenhuma cidade é minha cidade. Com água e vento moldo incertas figuras. Fabrico minhas sombras numa oficina sem luz. Construí o silêncio para que a voz não me traia. Nenhuma cidade é minha cidade.
***
Cambaleante, reaparece o Marinheiro.
Aproxima-se da Prostituta e dá um violento pontapé no Pivete, que sai correndo de cena.
A Prostituta suspende o vestido e abre as pernas.
Deitando-se sobre ela, falará o marinheiro.
– No calor de nossos corpos suados deveria vicejar uma flor. Na rede por nossos corpos trançada deveria repousar o amor. Mas contento-me em semear nos teus falsos suspiros o meu inteiro rancor.
O Marinheiro e a Prostituta adormecem abraçados.
O Pivete volta ao palco, aproxima-se do Marinheiro, rouba-lhe a carteira e sai por onde entrou.
***
A Prostituta levanta-se, caminha até o Artesão.
– Toda noite eu os acolho. Deito limpa na calçada, caio suja na sarjeta. Sejam velhos ou jovens, eu sempre os amanso. Sou feito cata-vento, nunca me canso. Com mentirosos miados de gata no cio, eu os arrasto com a força de um rio que varre tudo, até ficar só o restolho.
Voltando-se para o público, fala o Artesão.
– Quando os vejo assim, tristes, penso em dar-lhes um livro. Não um livro que fale daquilo que os aflige. Não! Um livro que narre tantos prodígios que o fardo, depois, lhes parecerá quase suportável. Um livro de divertidos poemas para se ler quando mais nada pode ser dito ou escutado.

A Prostituta agarra a mão do Artesão e, sorrindo ironicamente, fala.
– Tu, que tens a boca cheia de belas palavras e o corpo livre das tentações, poderias contar para mim uma história de amor!
O Artesão recita.
– Sou ruidoso arroio raso que corre entre pedras, encoberto pelas árvores, sou um mero riacho umbroso. Sou fio de água que corre entre morros, azul, sinuoso, vacilante, dissipado, inexato e manhoso. Sou relógio que nunca se cansa, sou espelho que nunca embaça.
A Prostituta chora.
O Marinheiro se levanta e sai pelo fundo do palco.
***
Girando o cassetete, vindo do fundo do palco, surge o Policial, que recita com sua voz rouca que mais parece um rosnado.
– Circulando! O medo é uma pilhéria, um impropério, uma miséria. Circulando! O medo é um grito que se doma, que se sufoca, que se dana. Circulando! Pouco ou pleno, o medo é tudo: máscara e manto, lume e acalanto.
A Mendiga volta ao palco. De mãos entrelaçadas, como se rezasse, ajoelha-se diante do Artesão.
– Negras contas do rosário, dedos finos, magra mão! Doze quedas no calvário para nossa salvação!
O Artesão dá à Mendiga uma moeda e a interroga.
– Será o frio teu amigo, pois vejo que dele construíste um abrigo? E do vento, o que fabricas? Luvas, vestidos, túnicas?
– Sou íntima da fome. Tão íntima que a trato só pelo primeiro nome. Vivemos em harmonia. Se o medo é uma nota, o horror é a sinfonia. Minha vida é um sino tocando em lenta agonia.
***
O Policial se dirige ao Artesão.

– Nada dê a ela! Compaixão é seu alimento, piedade é sua eira. Sempre colhe de mão cheia. A miséria é uma chaga, um veneno, uma praga.
O Artesão fala à plateia.
– O mundo é só um vasto subterrâneo vazio. Estranha indústria é a poesia que nele fez sua moradia.
***
A Cigana volta ao palco.
A Prostituta vai até ela e indaga.
– Será de terra dura minha rasa sepultura?
Responde a Cigana.
– Aberta no lodo será, com lama será coberta.
– E este meu corpo magro, terá descanso?
– O barro é sempre um bom leito.
– Que será de minha alma?
– Essas coisas todas tuas, lama, alma e sepultura, são apenas palavras nuas.
***
Ressurge, irado, o Marinheiro.
A Prostituta caminha na direção dele.
– Atocaiada no sereno, eu, danada mulher, mais uma vez te ofereço um corpo.
Com um gesto brusco, o Marinheiro a empurra.
– Não procuro teu prazer fingido! Recuso teu amor isento de afagos!
– Vem, marujo, aqui me tens determinada a dar-te consolo, delírio e talvez um fugaz beijo tolo.
– Por que me roubaste, mulher, enquanto burlávamos a paixão com nossos corpos incendiados?
– Não entendo o que dizes, extraviado! Por que me recusas se sou o que mais procuram tuas vísceras?
O Marinheiro ergue o braço.

– Não turvemos o silêncio com nossas palavras malsãs.
O Marinheiro crava um punhal no peito da Prostituta e corre para o fundo do palco. O Policial o segue.
***
O Artesão segura a cambaleante Prostituta.
Logo eles são cercados pelos demais personagens.
Chorando, fala o Artesão à Prostituta.
– Jamais te neguei o vermelho da minha caridade. Para ti, sempre tive as mãos abertas como flores. Para ti, sempre tive os braços abertos em cruz.
***
Som de altercação.
O Policial vem do fundo palco arrastando o Marinheiro, que tem as mãos algemadas às costas.
Os dois param junto à aglomeração e ali travarão um diálogo.
Começa o Policial.
– Em terra, maldito, era certo que matarias. Se fosses tecelão, só mortalhas tecerias.
– O fio da honesta faca entrou no peito e, ligeiro, cortou pelo meio o pecado, no lugar justo, certeiro.
– Como era o fio da tua adaga, Marinheiro? Era fino e furioso ou era do talho que alarga, que tudo arrebenta, cioso?
– Era um fio delicado. Não do que costura, do que une e conserta, mas do que desata, que a tudo desbarata.
– Era, Marinheiro, daquele fio que traz um nefasto sinal, fio que não liga nem ata, fio final?
– Se linha fosse, seria da que só embaraça, sem ver religião ou raça.
– Orgulhoso Marinheiro, que vives no mais fundo dos infernos, no rubro que mais queima. Orgulhoso Marinheiro, que tens por pai o ódio e por mãe a crueldade. Orgulhoso Marinheiro, aviso-te que o xadrez das grades de ferro, brilhante nas noites de tormenta, acabará com tua soberba.

O Policial arrasta o Marinheiro em direção ao fundo do palco.
***
A Mendiga estende o braço e acaricia o rosto da Prostituta.
– Um corpo dissoluto no negrume era todo o seu patrimônio. Devasso no amor que não se consumou, obsceno na paixão que lhe foi negada.
Exaltado, reage o Pregador.
– Buscou no vinho santo só a perdição!
Volta a falar a Mendiga.
– Era apenas uma carne esfomeada de amor, de carinho sedenta. Só queria o bem mais raro, aquele que não se compra nem se inventa.
***
O Artesão toma a Prostituta, já morta, nos braços e encaminha-se para o fundo do palco, seguido por todos os personagens, com exceção da Mendiga, que, ajoelhada, volta-se para o público, aponta os que estão deixando o cenário e fala.
– Devagar, aí vai o tardo caminhante levando a filha morta. Nada o deterá, pois é andarilho das perdidas veredas, onde só há vertigem e vácuo. Leva morta a filha que moldou com suas próprias mãos. Não, ele não tem culpa. Também a ele tudo foi negado. Deram-lhe tão somente barro, tristeza e dor para fabricar suas criaturas. Por isso viaja só, como todos nós. Mas o mais terrível é que ele me lembra Deus Pai carregando seu filho, Jesus, morto.
Lourenço Cazarré é escritor
Este conto foi originalmente publicado no livro A arte excêntrica dos goleiros.