EMER 2030: presidente que nomeou enfermeiro ‘esconde’ as suas empresas de energias renováveis


O presidente da EMER 2030, Manuel Nina, que esteve no centro da polémica nomeação de um enfermeiro para um cargo de coordenação desta estrutura de missão (task force)do licenciamento de projectos de energias renováveis — decisão que acabou revertida após intervenção da ministra do Ambiente —, tem vindo a omitir, nos seus currículos oficiais e nos despachos de nomeação, as suas ligações e interesses societários no sector da energia.

Em comissão de serviço, proveniente da Secretaria de Estado da Energia, tutelada por Jean Barroca, para onde foi contratado em Agosto do ano passado, Manuel Nina transitou para a presidência da EMER no mês de Janeiro. Contudo, tanto aí como no despacho do mês passado, em que a ministra Maria da Graça Carvalho o nomeou para a estrutura de missão, não consta qualquer referência à sua participação de 25% na empresa Unleash, cujo objecto social inclui explicitamente a “produção, distribuição e comercialização de energia verde”. A sua quota é, actualmente, de 25%.

Manuel Nina. Foto: D.R.

Criada em 2014, então sob a denominação de Lalala, esta sociedade começou por ter um objecto social alargado e desligado do sector energético. Manuel Nina apenas entrou como sócio mais tarde, momento em que a empresa mudou a denominação para Unleash, ficando ele com uma participação de 34%. Após diversas alterações do capital social e a entrada de novos sócios, em Setembro de 2020 ocorreu uma nova alteração estatutária relevante, passando a incluir, entre as suas actividades, a produção, distribuição e comercialização de energia, a par de serviços de consultoria, gestão, apoio à inovação, organização de eventos, exploração de espaços comerciais e desenho e comercialização de produtos.

Confrontado inicialmente pelo PÁGINA UM sobre os seus interesses empresariais, Manuel Nina confirmou apenas a sua participação na Power Parity, empresa associada à plataforma de crowdfunding GoParity, afirmando que deter outras participações, que não nomeou, mas que eram “completamente compatíveis com as […] funções [na EMER 2030], nomeadamente por não exercer[em] qualquer actividade relacionada com a área da energia e ambiente”.

No entanto, tal não é verdade, a atender aos registos comerciais. Confrontado novamente pelo PÁGINA UM sobre o facto de a Unleash incluir “energia verde” no seu objecto social, Manuel Nina insiste que “não desenvolve quaisquer actividades no âmbito da energia e ambiente, sendo que, tanto quanto tenho conhecimento, não existem conflitos de interesse”.

Maria da Graça Carvalho: ministra do Ambiente nomeou para a presidência da EMER 2030 um assessor do seu secretário de Estado da Energia com ligações (escondidas) ao sector energético.

Certo é que alguns dos seus sócios na Unleash estão intimamente ligados ao sector da energia, como é o caso patente de Nuno Brito Jorge, que detém 25% desta sociedade. Na verdade, ambos têm tido um percurso profissional estreitamente ligado às energias renováveis. Nuno Brito Jorge foi fundador da Coopérnico, uma cooperativa de energias renováveis, tendo ocupado a presidência até 2023, com Manuel Nina a ocupar igualmente cargos em órgãos sociais. Os dois fundaram também a Power Parity, empresa que gere a GoParity, plataforma de crowdfunding para investimentos em projectos sustentáveis, uma parte significativa dos quais no sector das energias renováveis.

Em todo o caso, a participação societária de ambos na Power Parity é distinta: Manuel Nina detém agora apenas 3,3% do capital social, enquanto Brito Jorge tem 47,2%, sendo o principal accionista. Note-se que, recentemente, esta empresa, considerada uma start-up, passou a ter participações de fundos de investimento, entre os quais a Mustard Seed Maze, que tem igualmente interesses no sector energético.

Apesar de ser formalmente descrita como uma plataforma de crowdfunding, a marca GoParity, associada à Power Parity, afirma que a sua equipa é composta por “peritos em energias renováveis, tecnologia, finanças e marketing”. Manuel Nina continua a surgir publicamente associado a esta estrutura como co-fundador e “director of grants”, apesar de ter afirmado ao PÁGINA UM que a sua colaboração é actualmente residual e limitada ao acompanhamento financeiro de projectos europeus, funções que, segundo refere, terão sido progressivamente assumidas por outros recursos da empresa.

No despacho de nomeação como técnico especialista em 2025 da Secretaria de Estado da Energia, Manuel Nina foi autorizado a exercer actividade na GoParity, mas ficando “impedido de nessa actividade actuar na área do ambiente e energia”. Ignora-se como o Ministério do Ambiente seria capaz de exercer esse controlo.

A parceria empresarial entre Manuel Nina e Nuno Brito Jorge estende-se ainda à Snap! Solutions, criada em 2017 para intervir como consultora “nas áreas de gestão, inovação, científicas e de comunicação”. Actualmente, esta empresa conta com um terceiro sócio, Luís Ferreira Couto, detendo cada um 33,3% das quotas. Embora a Snap! Solutions não actue directamente no sector da energia, detém, contudo, uma participação recente numa outra sociedade com interesses em áreas que agora se encontram sob a esfera de actuação de Manuel Nina enquanto presidente da EMER.

Com efeito, no passado dia 16 de Janeiro — três dias antes da ministra ter nomeado Manuel Nina para presidente da EMER 2030 —, a Snap! Solutions entrou no capital da Amplicercanias, passando a deter 50% do capital social.

blue solar panel

Esta empresa fora criada em 2018 por uma sociedade unipessoal com sede na Zona Franca da Madeira, tendo como objecto social, que se manteve, a “produção, distribuição e comercialização de energia eléctrica, comercialização e aluguer de equipamentos e painéis fotovoltaicos, prestação de serviços de consultoria a entidades privadas e públicas, através de estudos de eficiência e racionalização energética, estudos de optimização de contratos de fornecimento de energia eléctrica, estudos de correcção do factor de potência, estudos de viabilidade técnico-económica, coordenação e gestão de projectos de instalações solares térmicas, fotovoltaicas, microgeração, biomassa, aproveitamento hidroeléctrico e outras fontes de energia renovável”. A empresa passou agora para as mãos de Manuel Nina e dos seus sócios — e amigos — de longa data no sector das energias renováveis.

De acordo com a consulta do PÁGINA UM aos dados contabilísticos mais recentes disponíveis, a Unleash registou, em 2024, um volume de negócios de 420.474 euros, um resultado líquido positivo de cerca de 21.500 euros, fornecimentos e serviços externos próximos dos 350 mil euros e capitais próprios positivos na ordem dos 138 mil euros. As contas de 2025 ainda não se encontram publicadas.

Manuel Nina em entrevista ao Jornal Económico há quatro anos na Web Summit a falar sobre energias renováveis. Foto: D.R.

No caso da Power Parity, as vendas em 2024 atingiram cerca de 776 mil euros, a que acresceram subsídios à exploração próximos dos 259 mil euros. Contudo, devido a elevados custos com pessoal e fornecimentos externos, a empresa terminou o exercício com um prejuízo próximo de 526 mil euros. Emprega cerca de 25 trabalhadores e conta já com a entrada de fundos financeiros no seu capital, alguns com interesses directos no sector eléctrico.

A EMER 2030, enquanto estrutura de missão com atribuições directas no domínio da energia, actua num sector particularmente sensível a conflitos de interesses, reais ou potenciais. A omissão sistemática, nos currículos e despachos oficiais, de participações societárias em empresas cujo objecto social inclui actividades energéticas levanta questões de transparência que permanecem sem esclarecimento público por parte da tutela.