O ministro da Educação pode dormir descansado. Fernando Alexandre mudou-se há cerca de um mês do prédio onde vivia, situado no lado esquerdo de quem sobe a Rua Damasceno Monteiro, junto à Graça, em Lisboa. Se ainda lá vivesse hoje, possivelmente teria um sono mais sobressaltado. É o que está a suceder com os seus antigos vizinhos, que vivem nos prédios cujas traseiras dão para uma íngreme colina que acompanha toda a rua e que registou na última semana deslizamento de terras.
O prédio onde o ministro residia tem, desde o passado dia 10, por precaução, o acesso vedado à zona dos logradouros, nas traseiras que se situam no fundo da colina da Senhora da Monte. Mas, na mesma rua, terra e lama invadiram mesmo as traseiras de um outro prédio e levaram à evacuação de famílias que residiam em casas situadas no topo da colina.

Ao que o PÁGINA UM apurou, os motivos para a mudança de residência do ministro da Educação não estão relacionados com a situação de instabilidade de terras na colina adjacente ao prédio onde residia.
No edital que a Unidade de Coordenação Territorial da Câmara Municipal de Lisboa afixou no edifício para alertar os moradores do prédio, pode ler-se no título: “Inexistência de condições de segurança nos logradouros”.
No aviso, é explicado que “na sequência do alteamento do muro que divide as propriedades do prédio sito na Travessa das Terras do Monte n.ºs 1/3 e Escadinhas Damasceno Monteiro n.ºs 1/3, foi verificado que o terreno a tardoz deste último, com entrada pelo Largo do Monte n.º 3, possui igualmente um assentamento de terras, desconhecendo-se se o mesmo resulta de um deslocamento do muro de contenção que, supostamente, lhe está adjacente”.
O edital conclui que “até à verificação e análise da estabilidade do referido muro, não se verificam condições de segurança para a permanência de pessoas nos logradouros do prédio”.

Os serviços de protecção civil municipais têm-se deslocado à zona para monitorizar a situação dos deslizamentos de terra. Os moradores queixam-se de inacção das autoridades e temem novas derrocadas.
Na passada sexta-feira, foi lançada a petição “Parar as derrocadas na Graça e proteger vidas humanas. É preciso agir!“. A iniciativa, que conta já com mais de duas centenas de assinaturas, pede à Câmara Municipal de Lisboa que informe os moradores sobre os “riscos iminentes” de deslizamento de terras existentes na zona e apela à adopção de soluções urgentes.
João Graça, autor da petição e morador na zona, disse ao PÁGINA UM que um dos “objectivos é que o tema das derrocadas na Graça seja discutido em sede da Assembleia Municipal. Os deputados municipais têm de discutir este assunto e reunir com os peticionários” . “Queremos chamar a atenção de que é preciso agir, não se poder esperar que aconteça uma tragédia”, afirmou.

Os moradores também apelam a que seja criado e implementado “um plano de acção”, para impedir novas derrocadas. “Nós, moradores e demais cidadãos, acompanhamos com preocupação os desenvolvimentos na vizinha Rua Damasceno Monteiro”, lê-se no texto da petição. “Sete famílias foram diretamente afetadas, mas o medo e a incerteza estendem-se a todo o bairro”.
Na petição, os moradores da zona salientam que “a recente tragédia que abala o país — e que também se faz sentir em Lisboa — vem, mais uma vez, expor as fragilidades estruturais da nossa cidade face a fenómenos climáticos extremos”.
Destacam que “os bairros históricos e populares, como a Graça, com edificações antigas e topografia acidentada, são particularmente vulneráveis” e apontam que “a situação na Rua Damasceno Monteiro, onde três edifícios no topo da colina foram evacuados devido a deslizamentos de terras, é a prova viva dessa vulnerabilidade”.

/ Foto: PÁGINA UM
Recorde-se que, em 2017, o colapso de uma zona da colina, a meio da rua Damasceno Monteiro, afectou cinco prédios e deixou cerca de 80 pessoas temporariamente desalojadas. O trânsito na rua esteve cortado durante largos meses para se conseguir instalar um muro de contenção e reparar as casas afectadas.
Antes, em 2010, um outro deslizamento de terras arrastou casas colina abaixo e deixou famílias desalojadas.
“Penso que o problema é metade culpa do estado do tempo e a outra metade das construções e escoamento de águas que foram desviadas para a colina”, apontou Manuel, um morador que reside e trabalha na zona há 51 anos. Mecânico de profissão, a casa que possui ali na rua — na qual já não reside — foi invadida por lamas e terras nas traseiras e a sua oficina de reparação automóvel está vedada e sem electricidade. As obras que efectuou para subir em altura os muros de contenção que existem nas traseiras não foram suficientes para travar a derrocada recente. Mas Manuel acredita que evitaram o pior.

Aos deslizamentos de terras na colina juntou-se, nos últimos dias um outro incidente: o rebentamento de uma conduta de água da EPAL libertou uma cascata nas Escadinhas do Monte, no topo da Rua Damasceno Monteiro. Há três dias que decorrem os trabalhos de reparação da conduta, com cortes ao abastecimento de água na zona.
Moradores ouvidos pelo PÁGINA UM, queixam-se de inacção por parte das autoridades e sentem-se impotentes. Ana Amorim, que vive com a colina a ameaçar o prédio onde reside da Rua Damasceno Monteiro, relatou como, em 2021, um incêndio na vegetação alta que ocupa a colina assustou os residentes, que se sentem abandonados. “O melhor cartão de visita de Lisboa são os moradores, mas se forem embora, Lisboa vai ficar com quem?”.

Agora, Ana Amorim e outros moradores decidiram inscrever-se para participarem na reunião pública que está agendada no município. Mas não afastam voltar a avançar para os tribunais para tentarem obter ajuda da Câmara Municipal de Lisboa a por um fim aos riscos de derrocadas e incêndios no talude.
Quem não terá de participar na reunião é o ministro da Educação, que saiu a tempo da zona e não terá de se preocupar com os problemas da rua que deixou há cerca de um mês.
N.D.: A jornalista reside na zona mas sem qualquer relação com a área afectada pela colina e os deslizamentos de terras.
