Venda de crucifixos benzidos com o Jornal de Notícias causa incómodo nos meios católicos


A Conferência Episcopal Portuguesa não apreciou que a Irmandade dos Clérigos estivesse a prometer a bênção de crucifixos a serem vendidos a partir do próximo domingo numa colecção a ser distribuída pelo Jornal de Notícias.

No site do jornal, até ontem, estava anunciado que a colecção — ao preço total de quase 80 euros (9,99 euros por unidade) — seria composta por oito crucifixos: um do século XVIII, um do século XIX, um com raios de luz, um em bronze, um de altar russo do século XVIII, um antigo congolês, um do início do século XX e um de relevo moderno. As réplicas com dimensão de 12×18 centímetros, apresentadas como peças de inspiração histórica e artística, estarão assim integradas numa estratégia comercial clássica da imprensa: vender fé com papel.

Manuel Fernando, o padre que preside à Irmandade dos Clérigos, no Porto. Foto: D.R.

A promoção referia explicitamente que a colecção “será benzida pelo Padre Manuel Fernando, presidente da Irmandade dos Clérigos”. A associação entre bênção como acto religioso — gratuito por natureza — e uma campanha comercial paga não passou despercebida. Embora a venda de objectos como crucifixos não seja, per se, problemática, o facto de estes serem previamente benzidos não consubstancia uma simonia — uma vez que não são objectos consagrados —, mas torna a situação delicada.

Aliás, ontem, contactada pelo PÁGINA UM, a Conferência Episcopal Portuguesa, presidida pelo bispo José Ornelas Carvalho, respondeu formalmente, dizendo que, apesar de não pretender fazer “apreciações sobre situações concretas”, vincou que “a bênção de um objecto religioso é um gesto da Igreja Católica que acompanha a vivência da fé dos fiéis” e que os objectos com funcionalidade espiritual “devem ser tratados com reverência, preservando a dignidade do que é sagrado”. A resposta é diplomática, mas suficientemente clara: a bênção não é um selo promocional.

Entretanto, após o contacto com a Conferência Episcopal, a Irmandade dos Clérigos respondeu esta tarde ao PÁGINA UM — numa comunicação não assinada, ainda que as questões tenham sido dirigidas ao padre Manuel Fernando — que a bênção conjunta já não vai acontecer. Ou seja, os crucifixos não serão benzidos no âmbito da campanha do Jornal de Notícias. A indicação de que os crucifixos seriam benzidos já foi retirada da página de promoção do diário detido pela empresa Notícias Ilimitadas.

José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima e persidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

A Irmandade responsável pela gestão da Torre dos Clérigos, no Porto, esclarece ainda que agora quem desejar a bênção deverá dirigir-se à sua paróquia, igreja ou a um sacerdote, para que o acto religioso decorra no seu contexto próprio. Questionada sobre se a bênção inicialmente prevista seria colectiva, se haveria limitação de quantidade e se seria utilizada água benta, a resposta foi que, por norma, a bênção não obriga ao uso de água benta nem ao toque dos objectos.

Perguntada directamente se a associação explícita de uma bênção religiosa identificada numa campanha comercial paga era pastoralmente adequada, a Irmandade admite agora que “possa suscitar alguma ambiguidade, a qual não é nossa intenção”.

Sublinha também que a bênção é um acto religioso gratuito e acrescenta que esta associação com o Jornal de Notícias, sem contrapartidas financeiras, decorre de o Jornal de Notícias ter tido “um espaço dedicado à religião, muito apreciado pelos seus leitores”. A actual direcção, diz a Irmandade, pretende reconquistar essa proximidade aos temas religiosos, o que enquadra a disponibilidade inicial para se associar à iniciativa.

Ainda assim, para “garantir total adequação pastoral e evitar qualquer percepção errada”, a Irmandade presidida pelo padre Manuel Fernando solicitou ao jornal que seja sublinhado que a eventual bênção deverá ocorrer nas paróquias. A agremiação religiosa também garante que não receberá qualquer verba de cada crucifixo vendido ao preço de 9,99 euros – curiosamente, os algarismos invertidos do ‘número do diabo’ (666).

Este recuo levanta, porém, uma questão incómoda: esta não é a primeira vez que se estabeleceu uma parceria entre o Jornal de Notícias e a Irmandade dos Clérigos envolvendo crucifixos benzidos. No ano passado, entre 2 de Fevereiro e 20 de Abril, decorreu uma campanha semelhante, com um conjunto de 12 crucifixos artísticos. A informação ainda disponível indica que esses crucifixos foram efectivamente benzidos pelo padre Manuel Fernando. Mas esses já levaram sumiço.