Universidade Nova de Lisboa: denominação das faculdades faz estalar guerra entre partidários de ‘Camões’ e de ‘Shakespeare’


A decisão do reitor da Universidade Nova de Lisboa, Paulo Pereira, de pôr termo ao uso exclusivo de denominações em língua inglesa nas faculdades e institutos desta instituição de ensino superior pública está a provocar uma crescente contestação interna, com particular intensidade na Faculdade de Economia, que adopta a denominação de Nova School of Business and Economics (Nova SBE), uma das unidades mais internacionalizadas da instituição.

O despacho, assinado no final do penúltimo dia do mês de Janeiro, determinou que as designações oficiais passem a incluir a versão em português, admitindo o inglês apenas em contextos de comunicação dirigidos a audiências “exclusivamente internacionais”. A controvérsia ganhou dimensão pública esta terça-feira na sequência de uma mensagem publicada na rede social LinkedIn por Pedro Santa Clara, economista e professor da Nova SBE, que liderou a construção do campus de Carcavelos.

Na vaga de reacções, umas de desaprovação da decisão reitoral e outras de apoio à defesa da língua portuguesa, um dos comentários que mais sobressaiu foi o de intervenção de José Ferreira Machado, um catedrático de Economia que foi vice-reitor da UNL até 2024 e liderou a própria Nova SBE entre 2005 e 2015. Classificando o despacho como um “retrocesso de 20 anos”, Ferreira Machado defendeu abertamente a “desobediência civil” como resposta imediata ao despacho do novo reitor.

Na sua tomada de posição, o catedrático, que foi consultor durante 23 anos no Banco de Portugal, afirma estar convicto de que a situação desembocará num “braço-de-ferro entre a reitoria e a Nova SBE”, admitindo que, com o tempo, possam ser equacionadas “soluções mais definitivas”. Esta alusão faz renascer uma ‘velha pretensão’ desta pública Faculdade de Economia de se separar da Universidade Nova de Lisboa, podendo eventualmente existir mesmo uma privatização total ou parcial.

Ferreira Machado recorda igualmente uma polémica que viveu enquanto director da escola, entre 2005 e 2010, com o constitucionalista Jorge Miranda, a propósito da condução, em inglês, de reuniões do Conselho Científico. “Julgava que tínhamos evoluído. Afinal, não”, escreve, considerando “gritantemente paroquial” a formulação do despacho do reitor Paulo Pereira ao admitir o inglês apenas para audiências supostamente internacionais. Num mundo “interligado instantaneamente”, sustenta para defender que “o inglês é hoje a língua franca”.

Pedro Santa Clara ‘lançou’ as hostilidades publicamente denotando que a decisão do reitor Paulo Pereira apanhou as faculdades de surpresa.

Na troca de argumentos entre prós e contras da denominação exclusiva em inglês – que, saliente-se, não é reconhecida pela Direcção-Geral do Ensino Superior, Pedro Santa Clara chega a sublinhar que a Nova SBE terá feito mais pela projecção da língua e da cultura portuguesas ao atrair milhares de estudantes estrangeiros para estudar em Portugal do que, ironiza, “a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa”. Uma afirmação que acrescentou combustível a uma discussão já marcada por divisões profundas dentro da universidade.

A polémica não é, de resto, um fenómeno exclusivamente português. A nível internacional, a questão da denominação institucional acompanha há décadas os processos de internacionalização do ensino superior, num contexto em que o inglês se consolidou como língua franca da ciência, da economia e da mobilidade académica. Ainda assim, a prática internacional revela soluções muito distintas e longe de um modelo único.

Algumas instituições optam por preservar a denominação original, acrescentando-lhe apenas uma designação funcional em inglês. É o caso do INSEAD — acrónimo de Institut Européen d’Administration des Affaires — uma das mais prestigiadas escolas de gestão da Europa, que utiliza frequentemente a designação INSEAD Business School em contextos internacionais, mantendo porém o acrónimo histórico como marca central, inclusive no logótipo.

José Ferreira Machado, antigo director da Nova SBE e ex-reitor ds Universidade Nova de Lisboa apela à desobediência civil.

Outras universidades dispensam por completo a tradução ou adaptação linguística, apostando na força autónoma do nome. A Università Bocconi, em Milão, é hoje conhecida internacionalmente apenas como Bocconi, prescindindo mesmo do termo “universidade”, num exemplo de marca académica plenamente consolidada.

Há também instituições que mantêm integralmente a designação na língua de origem, mesmo em ambientes altamente internacionalizados. A HEC Paris — École des Hautes Études Commerciales — continua a apresentar-se oficialmente em francês, recorrendo ao acrónimo sem tradução para inglês, inclusive nos seus canais institucionais.

Em sentido inverso, algumas universidades adoptaram claramente uma denominação em inglês como estratégia de projecção global. A Copenhagen Business School é hoje conhecida quase exclusivamente pela sigla CBS, tendo relegado para segundo plano a designação em dinamarquês.

Paulo Pereira, reitor da Universidade Nova de Lisboa.

Já em Espanha, exemplos como a Universitat Ramon Llull mantêm a denominação na língua original, mesmo quando as faculdades da área económica e de gestão operam num mercado académico fortemente internacionalizado.

Este mosaico de soluções evidencia que a escolha entre internacionalizar o nome, preservar a designação original ou adoptar um modelo híbrido não é meramente técnica, mas estratégica, identitária e cultural. É precisamente nesse ponto que se situa o conflito agora instalado na Universidade Nova de Lisboa: saber se a internacionalização se faz pela língua, pela marca ou pela prática académica, e quem deve decidir esse equilíbrio.