CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS
(não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)
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Permitam-me, donzelas serenas e imponentes cavalheiros — vós que habitais desde as várzeas mansas onde a água se demora em reflexos de salgueiro até aos planaltos austeros onde o granito sustém, com dignidade mineral, o peso do céu —, que eu, Brás Cubas, defunto-autor por ofício e por inclinação, comece pelo fim, tal como fiz nas minhas Memórias, onde tive a delicadeza de morrer antes de vos mostrar que vivi. Começar pelo fim é uma forma superior de honestidade: poupa ilusões e reduz páginas, duas economias que a literatura deve à fatigada Humanidade.
Desta sorte, anuncio desde já a minha conclusão, para que ninguém a espere como quem aguarda uma absolvição tardia: o ridículo dura mais do que a culpa. As culpas prescrevem nos códigos, dissolvem-se nos corações e são arquivadas nos noticiários; o ridículo, porém, não conhece indultos — tem direitos de autor perpétuos e edição crítica garantida na memória dos vivos.

Feito este prólogo fúnebre, posso agora descer, ou subir, com a elegância que me é própria, à pequena comédia dos vivos — que é sempre mais grotesca do que a tragédia dos defuntos. E entre essas comédias modernas, nenhuma me diverte tanto como a dos comentadores televisivos, esses novos oráculos de Delfos que, em vez de trípodes e vapores sagrados, dispõem de powerpoints e maquilhagem HD.
Há um destes hermeneutas da tudologia em particular, de nome Filipe Santos Costa, que me diverte e exaspera em doses quase iguais. Esta criatura — outrora tão suave nos dias em que exerceu o ofício de mordomo serviçal em podcast do Partido Socialista, oferecendo chá de camomila a ministros e louvaminhas a secretários de Estado como quem distribui biscoitos num salão bem frequentado — descobriu, na CNN Portugal, a voluptuosidade tardia da severidade moral.
Transmutou-se. O criado afável deu lugar a uma Brites de Almeida do comentário político, agora a sovar furiosamente o Partido Chega como quem esmaga crâneos de castelhanos com a pá do forno e o rolo da massa, antes de os lançar às chamas purificadoras da ortodoxia. Já não há festa nem festança, romaria nem feira, em que Filipe Santos Costa não arremesse epítetos, anátemas e excomunhões verbais a Ventura e aos seus catecúmenos, como quem enfarinha hereges para melhor os empurrar para a fornalha.

E quando brande adjectivos como alfaias e indignações como archotes, o Exegeta da Trivialidade — antigo sacristão do poder agora travestido de justiceiro de estúdio —, pontificando do seu púlpito de plasma com a solenidade de um inquisidor da Sé de Évora, ufana-se em mostrar que cada sentença sua é um acto de higiene moral no grande forno do prime-time. Tudo lhe é claro, tudo lhe é óbvio, tudo lhe é condenável — desde que não seja aquilo que, ainda há pouco, ele próprio servia com açúcar e colherinha.
E foi então que, num recente sermão de estúdio, quis dizer que certo fundador do Chega — ironicamente anatemizado pela igreja que fundara — seria um ultramontano, isto é, herdeiro das correntes conservadoras e reaccionárias do século XIX, inimigo da modernidade, paladino da infalibilidade do Sumo Pontífice e filho tardio do Syllabus errorum de Pio IX.
Mas ai da língua quando se aventura pela filosofia. Em vez disso, saiu-lhe transmontano — e, nesse átimo fonético, o obscurantismo metamorfoseou-se em paisagem, e a teologia degenerou em geografia. Onde deveria estar Roma, apareceu Miranda do Douro; onde se pretendia uma encíclica, surgiu uma alheira.
Para agravar o pecado, acrescentou-lhe o epíteto de trauliteiro, palavra respeitável, mas que designa um brigão, um sujeito de punho rápido e argumento lento. Ora, sendo Miranda a terra dos pauliteiros, esses dançarinos rituais que batem paus com a graça coreografada da tradição, do lapso do ultramontano produziu-se uma imagem de rara poesia grotesca: os pauliteiros transmutados em trauliteiros, o folclore convertido em milícia, a dança em porrada. Não foi uma metáfora; foi uma confissão.

E aqui, laboriosas leiteiras e abnegados leiteiros, entra a ciência delicada da paronomásia, que é o nome elegante para os tropeções da língua. Quem não domina as palavras, troca-as.
Assim se pode confundir teologia com tecnologia, como se o divino tivesse sido substituído por servidores; sociologia com zoologia, reduzindo a sociedade a um curral; ontologia com oftalmologia, como se o problema do ser fosse um defeito de visão; teocrata com tecnocrata, mudando Deus por uma folha de cálculo; liberalismo por libertinismo, fazendo da liberdade uma orgia; nacionalismo por naturalismo, trocando a pátria pela botânica.
E, no domínio sacrossanto — que não se deve confundir com osso sacro —, o canónico pode virar canino, o secular tornar-se ocular, o clerical resvalar para cervical — e eis o clero reduzido a uma dor no pescoço. Na Economia, talvez o capitalismo se transmute em capilarismo, e a fiscalidade degradar-se em fecalidade, passando os impostos a tresandar ao que sempre cheiraram, mas agora com aprovação tributária.
Portanto, em abono da verdade, Filipe Santos Costa não errou: revelou-se — ou resvalou-se. Ao dizer transmontano quando queria dizer ultramontano, confessou que, no seu mapa mental, uma postura ideológica e uma província remota são vizinhas de porta. E ao chamar trauliteiro talvez o associasse a pauliteiro, mostrando essa velha tentação lisboeta de confundir tradição com brutalidade. A televisão fez apenas o resto: amplificou o eco.

Assim, se lerdes o seu discurso com as palavras que ele julgava usar, vereis um moralista moderno a combater obscurantismos, nacionalismos e libertinismos alheios. Se o lerdes com as palavras que efectivamente proferiu, vereis um etnógrafo distraído a falar de transmontanos, trauliteiros e naturalismos, como se estivesse a descrever uma feira de gado e não uma ideologia.
Eis, pois, o meu veredicto final: não houve um deslize de língua, foi um acto falhado da alma. Porque homens como Filipe Santos Costa podem mentir com as ideias, mas tropeçam sempre nas palavras — e quando um comentador troca a História por geografia, a doutrina por folclore e dogma por enchidos, não erra apenas; denuncia-se. O ridículo, repito — ou sentencio —, é a forma mais implacável de verdade.
Adeus, e um piparote.
Brás Cubas
