Há mundos que me tocam e que me fazem habitar galáxias distintas. Por exemplo, o da Literatura, que conheço bem, é habitado por seres que passam meses — quando não anos — a depurar um livro, para depois o ver vender por aí e recolher uns magros 10%, enquanto lhes pedem, com entusiasmada leveza, que se desloquem gratuitamente a feiras, festivais, clubes de leitura e demais rituais do sector. Aí, as editoras estão sempre ansiosas por uma crítica literária, ‘namorando’ os críticos, embora cada vez existam menos jornais que mantenham a secção cultural viva e com leitores.
Depois há o jornalismo, esse terreno onde eu julgava já ter testado todos os labirintos e emboscadas possíveis. O PÁGINA UM foi-me habituando à adversidade e aos obstáculos: pedidos recusados, silêncios administrativos, hostilidades várias.

Daí que, ironia suprema, quando decidi criar no jornal uma secção de crítica musical — um pequeno oásis para me oxigenar das lides mais agrestes da investigação — pensei que seria mais reconfortante e aprazível do que a Literatura e muito mais calmo do que o meu jornalismo ‘tradicional’. Enganei-me: nunca imaginei que encontraria aqui as maiores e mais absurdas resistências.
Desde Março, salvo erro, passei por Dardust, Aurora, Imagine Dragons, Nos Alive (onde falei sobretudo dos Muse), Shawn Mendes, Tamino, Taxi… Com maior ou menor desconfiança dos promotores, a coisa fez-se e fez-se bem. Mas, pelo meio, tive dois episódios tão caricatos quanto épicos, ambos a render deliberações da ERC — um que ainda assim permitiu o acesso (Iron Maiden) e outro (Leprous) que terminou em recusa acompanhada de um crime de desobediência qualificada por parte do promotor. E houve agora um terceiro episódio, mas esse fica para outros carnavais.
Chegado ao concerto de Noiserv, esta epopeia entre mares revoltosos e ventos procelosos repetiu-se. Agência pouco interessada, promotor reticente, Centro Cultural de Belém (CCB) como co-organizador e intermediário de boa vontade, mas igualmente apanhado no novelo da ignorância sobre as acreditações ao abrigo do Estatuto do Jornalista.

Parecia que eu pedia a última pepita de uma mina algures na cordilheira dos Andes. Depois de muita diplomacia, a acreditação lá surgiu — in extremis — permitindo-me chegar ao CCB com a agilidade possível para recuperar minutos perdidos entre conversas, portas fechadas e depois reabertas e bilheteiras.
Entrei já na segunda ou terceira música. O Grande Auditório, repleto a uns saudáveis 90%, era a melhor demonstração de que a relutância na acreditação era mero capricho ou, perdoem-me a franqueza, uma estupidez absoluta. Porque Noiserv é, de facto, uma pepita — mas não dessas que se regateiam. É a pepita de uma mina única, incrivelmente polida desde há vinte anos por um músico que Portugal ainda não percebeu que tem na mão. Um diamante discreto, mas cintilante.
Confesso: foi a primeira vez que vi Noiserv ao vivo. Comecei a ouvi-lo em 2015, por força do Spotify, no rescaldo de Everything Should Be Perfect If No One’s There. Andei meses, por vezes em ‘loop’, a ouvir ‘Bullets on Parade’, ‘Don’t Say Hi If You Don’t Have Time for a Nice Goodbye’ e ‘Mr. Carousel’. E confesso outra coisa — e que Noiserv me perdoe: só tarde percebi que era português. Quase toda a discografia que então conhecia era em inglês, e eu, distraído, associei-lhe uma geografia longínqua, algures entre a Islândia e a Dinamarca. Mea culpa. A ignorância, ao menos, só a mim envergonha.

Vê-lo ao vivo, porém, é outra experiência: a construção paciente das canções, camada sobre camada, num artesanato sonoro que se faz de loops sucessivos, mãos que saltam de teclados para guitarras, de pedais para a percussão e para pequenos instrumentos quase escondidos.
Em Noiserv há uma espécie de delicadeza obstinada, um perfeccionismo matemático que não pesa — ele faz, desfaz, repete três acordes iniciais quantas vezes forem necessárias para a peça assentar exactamente no lugar certo. E fá-lo com serenidade, sem o drama dos génios atormentados.
A voz — importa dizê-lo — é singular: um timbre suave, quase diáfano, mas com aquela textura aparentemente frágil que parece nascer entre o peito e a garganta, como se cada palavra fosse mais respirada do que pronunciada. É uma voz que não quer dominar a canção; quer habitar dentro dela.

E depois há as peças que dispensariam voz — verdadeiras paisagens cinematográficas, onde a melodia sugere viagens, memórias, silêncios, nevoeiros, a infância a voltar por instantes. Se Noiserv tivesse duas versões de si próprio — uma vocal, outra puramente instrumental — ambas fariam sentido. São universos complementares.
A empatia com o público fez o resto. Histórias pequenas, contadas como quem está numa roda de amigos: a dos pés que, em criança, cresceram mais depressa do que o corpo (e que lhe frustraram a ambição de ser basquetebolista); ou a facilidade desarmante com que brincou com a própria música, com os improvisos, com os acasos. Quem vai a um espectáculo de Noiserv não vê um músico: vê uma alma.
E a noite teria sido perfeita — não fosse o público. No final, depois de uma despedida emocionada, Noiserv deixou uma versão absolutamente imaculada de One Hundred Is Much More Than Ten Times Ten, do seu mais recente álbum, 7305, que conta com a participação de outros músicos e cantores, entre os quais Suma, que ali fizera um dueto em A Fearless Part Between a Kid and His Own Thoughts. Melhor do que no disco, mais intensa, mais pura. Uma obra-prima em qualquer latitude.

E, no entanto, no fim, algo falhou. Não sei — e nem quero saber — se havia indicação prévia para não haver encore. Mas a verdade é que, depois daquela pérola final, instalou-se no auditório um embaraço difícil de descrever: grande parte do público não saía… mas também não aplaudia com força suficiente para provocar um regresso ao palco. Eu próprio, confesso (quarta confissão da noite), tentei ajudar os mais entusiastas. Um jornalista não deve influenciar plateias, mas estas coisas acontecem.
Nada resultou. Faltou entusiasmo, sobraram palmas tímidas. Uma cena quase pateta, indigna do que tínhamos acabado de ouvir. Se por acaso Noiserv vier a ler estas linhas, aqui deixo o que talvez o público não soube dizer: por mim, faria dez encores. E teria sido pouco.
Nota final: 5 em 5
